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Ford v Ferrari – Ford vs Ferrari

Um filme emocionante, com algumas imagens incríveis, com uma direção impecável e um bom trabalho de atores. Apesar disso, Ford v Ferrari incomoda um pouco por sua versão dos fatos que trabalha apenas o lado americano da história. Para quem gosta de Fórmula 1 e de outras competições de alta velocidade, certamente este filme será um deleite. Para os demais, Ford v Ferrari é um filme interessante sobre fatos históricos curiosos e sobre uma história de amizade que marcou as corridas de carro. Curioso, mas não é um dos melhores do ano.

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Vice

Alguém que chega à Vice-Presidência de um país tem que ter influência e uma trajetória cheia de aliados. Mas algumas vezes alguns vice-presidentes parecem ter saído quase do anonimato. Esses, muitas vezes, são os mais perigosos. Vice nos conta a história de uma figura importante dos Estados Unidos que fez um bom estrago enquanto esteve no poder. Raposa antiga do sistema, ele soube inclusive moldar o próprio cargo, dando para o vice mais poder do que os Estados Unidos estão acostumados. Um filme interessante, muito bem construído e contundente na sua crítica. Uma das boas pedidas desta temporada do Oscar.

A HISTÓRIA: Começa dizendo que a história a seguir é real. Ou tanto quanto possível, levando em conta que Dick Cheney é considerado um dos líderes mais reservados da história. Mas eles comentam que fizeram o melhor. Em uma noite de jogos e bebidas, alguém urra alto. Na cidade de Casper, Wyoming, em 1963, um motorista dirige de forma arriscada. Dentro do carro, o jovem Dick Cheney (Christian Bale), que é abordado por um policial, que lhe manda sair do veículo. Ele está caindo de bêbado. Corta. Em 2011, esse mesmo Dick Cheney é levado para uma sala de segurança após os ataques do 11 de setembro de 2011 começarem. Ali ele começa a mudar a história dos EUA.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Vice): Quem diria que o grande vilão da administração George W. Bush (interpretado por Sam Rockwell) não foi o próprio Bush, e sim o seu vice-presidente Dick Cheney. Morando no Brasil, e não nos Estados Unidos, nós acompanhamos os bastidores políticos dos Estados Unidos totalmente em segundo plano. Quem mora por lá deve ter outra visão sobre Cheney e Bush.

Adoro filmes que tratam sobre os bastidores da política e sobre figuras que foram determinantes para a vida de um país – ou tiveram efeito maior do que as suas fronteiras, influenciando inclusive as relações internacionais. Volta e meia Hollywood nos apresenta um filme que vai além na análise política e econômica e que nos mostra as “engrenagens do poder”. Gosto de produções do gênero.

A última nesse estilo que concorreu ao Oscar de Melhor Filme foi, olhem a coincidência, uma produção também estrelada por Christian Bale – e que tinha Steve Carell no elenco. Falo de The Big Short (comentado por aqui), que tratava sobre o colapso gerado nos Estados Unidos, no setor imobiliário e que chegou ao setor financeiro, e que desencadeou a crise financeira global de 2008.

Entre os filmes que eu assisti esse ano, e que concorrem ao Oscar de Melhor Filme, Vice foi o que me pareceu mais ousado na sua proposta. O filme é crítico e tem um roteiro um bocado ácido e criativo acima da média. Mérito do roteirista e diretor Adam McKay. Sem dúvida alguma ele é o grande responsável pela proposta desta produção.

Mergulhamos na figura de Dick Cheney, um sujeito que foi preso duas vezes por fazer estripulias regadas a bebedeira quando jovem e que teria tudo para ser um americano comum e relativamente “fracassado” se não fosse a pressão e cobrança da esposa Lynne Cheney (Amy Adams), que exigiu que o marido tomasse outro rumo e recuperasse a compostura em 1963 – após a segunda prisão, desta vez por dirigir bêbado.

Na verdade, e isso é muito interessante, Cheney acaba sendo vice-presidente dos Estados Unidos na capa de George W. Bush, um outro sujeito que também teve vários problemas quando jovem e que poderia ter sido um “loser”. Ambos, contudo, seguindo caminhos diferentes e motivados por razões distintas, acabaram se tornando presidente e vice-presidente dos Estados Unidos, um dos países mais poderosos do mundo.

Adam McKay acerta na mosca na sua narrativa mostrando as sutilezas da história, como algumas decisões, em determinados momentos das vidas dos personagens retratados, foram decisivas para o rumo da história. Quando jovem, Cheney poderia ter seguido um caminho que o levaria a ter sempre empregos de segunda e se separar de Lynne. Mas, ao ser pressionado, ele resolve fazer algo diferente, e é assim que ele se torna assessor de outra figura muito conhecida na política dos Estados Unidos, Donald Rumsfeld (Steve Carell).

Para mim, o grande interesse de Vice é justamente nos apresentar um retrato muito próximo – e sem filtros – destas figuras famosas da política americana, especialmente Cheney, Rumsfeld e Bush. Com destaque para os dois primeiros nessa história – até porque ambos tiveram uma trajetória anterior à de Bush. O tom do filme, crítico, cínico e mordaz, destaca ele em relação à maioria dos filmes que concorrem ao Oscar nesse ano. Gostei disso. O roteiro de Vice, assim como a direção e a edição do filme, são as suas principais qualidades.

Gostei da “brincadeira” que McKay faz com os espectadores quando o filme não tinha chegado ainda à metade. Ele mostra um “final feliz” que teria sido possível, com Cheney deixando a política e trabalhando para o setor privado. Mas não é isso que acontece. Cheney, que, certa vez, pergunta para Rumsfeld no que eles, republicanos, acreditam – o que despertou gargalhadas do “mestre” Rumsfeld -, vislumbra que pode ser o vice-presidente mais importante da história dos Estados Unidos.

Para isso, ele consulta especialistas na Constituição americana e consegue colocar condições para Bush para que ele seja o vice-presidente. Cheney convence Bush a “dividir” mas o poder com ele, para que ele não seja apenas uma figura sem importância, e Bush aceita a proposta. Quando acontecem os ataques terroristas do dia 11 de setembro de 2001, Cheney coloca outra das suas ideias em cena: a teoria do Executivo Unitário, ou seja, que o poder executivo dos Estados Unidos pode ser considerado supremo, tomar decisões que não precisam respeitar convenções internacionais ou outros acordos e legislações. Ou seja, um poder “democrático” com requintes de poder ditatorial.

Foi essa teoria que fez com que a “guerra ao terror” fosse possível. A partir daí, criou-se Guantánamo e diversas outras estratégias e práticas que incluíram torturas de suspeitos e espionagem de todo e qualquer cidadão. Tudo isso, quem diria, não saiu da cabeça “alucinada” de George W. Bush, mas da teoria há muito tempo estudada por Cheney. A narrativa sobre a sua trajetória e sobre aqueles anos loucos da administração Bush são o principal atrativo e diferencial de Vice.

Além das qualidades já comentadas, gostei muito do trabalho dos atores que fazem parte desta produção, com destaque para Christian Bale, que encarnou muito bem Cheney, e de Amy Adams como a sua esposa. (SPOILER – não leia se você não assistiu a Vice). Um filme competente e muito bem acabado, mas que acaba “forçando” um pouco a barra com o narrador da história. Achei um tanto “viagem” demais de McKay colocar como narrador Kurt (Jesse Plemons), um sujeito que serviu o Exército dos Estados Unidos e que tem como “ligação” com o protagonista o fato de ter doado para ele, após ter tido morte cerebral após ser atropelado, o seu coração.

Até acho interessante a figura de um narrador para esta produção, mas a figura escolhida para isso, achei um tanto forçada. Vice também nos deixa um gostinho de “quero mais”, de sabermos sobre outras figuras poderosas que circundaram Bush e sobre o que aconteceu com Cheney depois que a história termina.

Ainda assim, o filme tem muito mais qualidades que defeitos, o que faz dele uma das produções mais interessantes do ano. Vale ser vista e pensarmos sobre ela. Afinal, mas do que nunca, deveríamos pensar sobre a trajetória e a história dos nossos governantes, estudando as suas origens, ligações e o que eles pensam. Do contrário, nossos países e o mundo podem seguir caminhos perigosos. Ou seja, Vice é um filme mais que atual. Ele é necessário.

NOTA: 9,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Estou atrasada com a publicação de críticas aqui no blog, devo dizer. Assisti à Vice há mais de uma semana. Em seguida, assisti ao último filme que faltava da lista de concorrentes a Melhor Filme no Oscar 2019 – ou seja, finalmente assisti a Bohemian Rhapsody. O que eu posso dizer sobre o que eu assisti? Que estamos em um dos anos mais fracos em relação aos concorrentes do Oscar do qual eu tenho lembrança. Na verdade, pouco a pouco, tenho visto os indicados ao Oscar nos convencerem menos do que gostaríamos. Sim, temos a ótimos filmes na disputa. Mas temos filmes inesquecíveis? Temos na lista produções que nos impactaram e que nos fazem torcer por elas? Para o meu gosto, não.

De todos os concorrentes deste ano, acho que Bohemian Rhapsody é o filme mais completo e “empolgante”. Ou seja, não será uma surpresa se ele ganhar como Melhor Filme. Além dele, eu gosto muito de Vice. Não acho que o filme tenha chances de ganhar na categoria principal hoje à noite, mas acho que ele é um dos dois melhores filmes do ano. Além de Bohemian Rhapsody, que me parece ser o favorito da noite, acho que Green Book tem alguma chance de se dar bem na categoria Melhor Filme. Logo mais veremos.

Como comentei acima, as maiores qualidades de Vice são o roteiro e a direção de Adam McKay. O diretor e roteirista dá o tom diferenciado desta produção, nos apresentando uma história bem focada em um personagem e nas pessoas que orbitaram ao redor dele, aprofundando-se o máximo possível no protagonista e nos apresentando com talento não apenas os bastidores da sua vida mas também o que as suas ações significaram para o mundo. Roteiro realmente brilhante, juntamente com a construção em imagens de sua narrativa.

Por isso, além da direção e do roteiro de McKay, destaco a excelente edição de Hank Corwin e a direção de fotografia de Greig Fraser. Vale comentar, ainda, a trilha sonora de Nicholas Britell; o design de produção de Patrice Vermette; a direção de arte de David Meyer, Brad Ricker e Dean Wolcott; a decoração de set de Jan Pascale e David Smith; os figurinos de Susan Matheson; e o excelente trabalho dos 23 profissionais envolvidos com o trabalho no Departamento de Maquiagem.

Do elenco, sem dúvida alguma o grande destaque é Christian Bale. Ele conseguiu emular Dick Cheney com perfeição – seu jeito de olhar, de andar e, principalmente, de falar. Impressionante o trabalho do ator. Conseguimos esquecer, muitas vezes, que é Bale quem está em cena – e pensamos em Cheney. Excelente trabalho e que poderá levar o ator a ganhar mais um Oscar – o grande nome que ele precisa “vencer” no Oscar hoje será Rami Malek, que também está ótimo como Freddie Mercury em Bohemian Rhapsody. Será uma disputa das boas.

Além de Bale, vale comentar o ótimo trabalho de Amy Adams como Lynne Cheney e de Steve Carell como Donald Rumsfeld – acho, inclusive, que Carell merecia mais uma indicação ao Oscar como coadjuvante do que Sam Rockwell como George W. Bush. Ainda que, claro, Rockwell esteja bem. Além deles, vale citar o bom trabalho de Alison Pill como a filha homossexual de Cheney, Mary; Eddie Marsan como Paul Wolfowitz, aliado de Cheney; Justin Kirk como Scooter Libby; LisaGay Hamilton em uma ponta como Condoleezza Rice; Jesse Plemons como Kurt, narrador da história; Bill Camp como Gerald Ford; Don McManus como David Addington; Lily Rabe como Liz Cheney, que segue os passos do pai; e Tyler Perry em uma ponta como Colin Powell.

Vice estreou nos Estados Unidos no dia 12 de dezembro de 2018. A produção participou de apenas dois festivais, desde então, o PAC Festival e o Festival Internacional de Cinema de Berlin. Em sua trajetória até o momento, Vice ganhou 28 prêmios e foi indicado a outros 115 – incluindo oito indicações ao Oscar 2019. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o de Melhor Ator – Musical ou Comédia para Christian Bale no Globo de Ouro 2019; o de Melhor Edição no BAFTA; e para outros 8 prêmios de Melhor Ator para Christian Bale.

Agora, vale citar algumas curiosidades sobre esta produção. O ator Christian Bale disse que, devido ao estilo de direção voltada para a improvisação de Adam McKay, ele teve que fazer mais pesquisas sobre o seu personagem para este filme do que qualquer outro papel que ele já tivesse desempenhado. Para improvisar dentro de seu personagem, Bale não precisava apenas “absorver” os maneirismos e o vernáculo de Dick Cheney como precisava, também, saber quais políticas, suas instâncias e abreviações o vice-presidente dominaria em qualquer momento da produção levando em conta a sua trajetória. Um trabalho realmente aprofundado e que convence.

Christian Bale engordou 45 quilos, raspou a cabeça, clareou as sobrancelhas e se esforçou para engrossar o pescoço para assumir a figura de Cheney. O ator disse que conseguiu engordar para o filme comendo muitas tortas. Realmente o trabalho dele é impressionante. Não sei se bato mais palmas para Bale ou para Malek, mas ambos estão fantásticos em seus respectivos papéis.

Como Cheney teve problemas cardíacos bem documentados durante a maior parte da sua vida adulta, Bale teve de estudar a prevenção de ataques cardíacos como parte de seu método de mergulho no personagem. O que ele aprendeu ajudou a salvar a vida do diretor Adam McKay, que teve um ataque cardíaco durante a pós-produção.

A atriz Amy Adams permaneceu com o seu personagem durante todo o tempo das filmagens, especialmente mantendo a voz diferenciada da sua personagem. Ela chegou a debater política com o diretor McKay com a voz de sua personagem. A atriz disse que essa foi a primeira vez que ela ficou imersa no personagem durante toda a filmagem.

Bale disse que essa foi a primeira vez que ele contou com um nutricionista para ajudá-lo a ganhar peso. Isso porque, desta vez, ele estava mais preocupado em manter a saúde do que quando era mais jovem.

Christian Bale e Dick Cheney fazem aniversário no mesmo dia, 30 de janeiro.

Esse é o primeiro filme de Hollywood que foca na vida real de um vice-presidente do país – normalmente o que vemos são filmes sobre homens que chegaram à Presidência.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme ainda). A sequência em que Bale “quebra a quarta parede”, ou seja, em que faz o seu personagem falar com os espectadores, foi sugerida pelo ator. Inicialmente McKay não tinha pensado naquela cena e estava um pouco resistente a incluí-la, mas ao ver o desempenho de Bale, ele resolveu utilizá-la. De fato, naquele momento, Bale dá um show de interpretação e demonstra como ele realmente mergulhou no personagem.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,2 para Vice, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 207 críticas positivas e 107 negativas para a produção – o que lhe garante uma aprovação de 66% e uma nota média de 6,7. O site Metacritic apresenta um “metascore” de 61 para Vice, fruto de 29 críticas positivas, 14 medianas e 11 negativas. Sem dúvida alguma é o filme com menor aprovação dos críticos entre aqueles que concorrem a Melhor Filme no Oscar 2019.

De acordo com o site Box Office Mojo, Vice teria arrecadado US$ 47,2 milhões nas bilheterias dos Estados Unidos e outros US$ 16,5 milhões nas bilheterias dos outros países em que o filme estreou. Ou seja, no total, o filme fez pouco mais de US$ 63,7 milhões, um bom resultado para um filme com uma carga tão fortemente política – o que, convenhamos, não é o perfil favorito da maioria do público.

Vice é uma produção 100% dos Estados Unidos, por isso esse filme passa a figurar na lista de produções que atendem à uma votação feita há algum tempo aqui no blog e que pedia por filmes made in USA.

CONCLUSÃO: Um filme que mergulha muito bem na história de um vice-presidente dos Estados Unidos que teve mais poder que o próprio líder do país. Bem narrado, com um roteiro ácido, crítico e que apresenta alguma inovação não apenas na narrativa, mas também na forma de apresentar essa história, Vice é um dos melhores filme do ano e desta temporada do Oscar. Entre os concorrentes deste ano, este é um dos melhores, especialmente por inovar na narrativa. Gostei muito da direção e do roteiro, e os atores estão muito bem. Mereceu as indicações recebidas, mas deve levar poucos prêmios para casa. Espero que mais filmes assim surjam. Filme político, crítico e necessário.

PALPITES PARA O OSCAR 2019: Vice concorre a oito prêmios na premiação da Academia de Arte e Ciência Cinematográfica de Hollywood. O filme teve muitos méritos para chegar a essas indicações. A produção concorre como Melhor Ator Coadjuvante para Sam Rockwell; Melhor Atriz Coadjuvante para Amy Adams; Melhor Edição; Melhor Ator para Christian Bale; Melhor Diretor para Adam McKay; Melhor Maquiagem e Cabelo; Melhor Filme; e Melhor Roteiro Original.

Vamos começar com as chances de Sam Rockwell. O ator está bem como George W. Bush, mas ele aparece relativamente pouco no filme e não me pareceu que faz aquela graaaaande interpretação. Faz um bom trabalho, mas não realmente marcante. Entre ele e Mahershala Ali, sem dúvida Ali tem o favoritismo e deve receber o Oscar.

Amy Adams tem uma importância maior em Vice e está muito bem, mas tanto Emma Stone quanto Rachel Weisz em The Favourite (comentado aqui) apresentam trabalhos mais marcantes. Além delas terem chances maiores que Adams, tudo indica que a favorita do ano é Regina King por If Beale Street Could Talk. A confirmar esse favoritismo.

Em Melhor Edição, o filme tem grandes concorrentes pela frente. Mas o trabalho de Hank Corwin é realmente muito bom e interessante. Gosto muito também do trabalho de edição de BlacKkKlansman (com crítica neste link), mas considero que The Favourite também tem boas chances. Difícil apostar nessa categoria, mas Vice até poderia levar a estatueta em edição.

Depois, temos a categoria de Melhor Ator e a indicação para Christian Bale. Ele realmente tem boas chances de levar ao prêmio mas, para isso, terá que vencer a queda de braços com Rami Malek, de Bohemian Rhapsody. Viggo Mortensen faz um grande trabalho em Green Book (com crítica neste link), mas parece que ele corre por fora nesse ano. O favorito, me parece, é realmente Christian Bale. Se ganhar, não será injusto – ainda que eu tenha uma certa quedinha pelo ator Rami Malek e acho que ele merecia ser reconhecido.

Temos ainda Adam McKay concorrendo como Melhor Diretor, em um ano em que dificilmente tirarão o prêmio de Alfonso Cuarón, por Roma (comentado aqui). Vice tem grandes chances de ganhar na categoria Melhor Maquiagem e Cabelo. Em Melhor Filme, apesar de merecer, dificilmente Vice terá chances reais de levar. Os favoritos deste ano, me parecem, são os filmes Bohemian Rhapsody – o próximo na minha lista -, Green Book ou The Favourite. Para o meu gosto, por ordem de preferência, os favoritos seriam Vice, The Favourite e Green Book.

Finalmente, Vice concorre em Melhor Roteiro Original. Categoria com grandes títulos na disputa nesse ano. Roma e Green Book parecem levar vantagem nesta disputa, mas estão no páreo, ainda, The Favourite e Vice. Assim, no cômputo geral, Vice tem chances reais de levar estatuetas em três categorias: Melhor Ator para Christian Bale, Melhor Maquiagem e Cabelo e Melhor Edição. Pode surpreender ainda em alguma outra categoria, mas acho difícil. E pode, eventualmente, levar apenas em Melhor Maquiagem e Cabelo.

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The Big Short – A Grande Aposta

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Existe uma regra quase infalível no mercado: sempre que alguém perde, há outro alguém que ganha. The Big Short conta a história de homens que lucraram, e muito, com a quebradeira causada por bancos mal-intencionados e agências de risco comprometidas em 2008. Mas mais que contar a história deles, este filme reflete sobre a ignorância forçada em que boa parte da sociedade vive. Como é citado no filme, a verdade é como a poesia, e poucas pessoas gostam de poesia. Equilibrando comédia com drama, este filme é uma crítica ácida para o que há de pior no capitalismo.

A HISTÓRIA: Começa nos dizendo que o filme é baseado em fatos reais. Em seguida, surge uma citação de Mark Twain que diz que não é o que sabemos agora que nos coloca em apuros, mas sim aquilo que nós achamos que temos certeza. De fundo, a imagem de uma criança brincando com o seu pai. Corta. A história começa no final dos anos 1970, com o narrador nos dizendo que naquela época ninguém procurava um banco para ganhar dinheiro. Os bancos, ele conta, eram cheios de perdedores, vendedores de seguro ou contadores.

Naquele cenário, a venda de títulos não interessava para ninguém. Uma regra do mercado até então que foi alterada por Lewis Renieri (Rudy Eisenzopf), o homem que criou os títulos garantidos em hipotecas. Esses recursos mudariam os Estados Unidos, até que eles deixassem de ser tão seguros. Esta história é sobre como a crise de 2008 aconteceu e sobre as pessoas que viram o problema se formar e apostaram contra ele a tempo de ganhar dinheiro com isso.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Big Short): A primeira impressão errada sobre este filme é a de que ele seria uma comédia. Impressão essa dada pela indicação de The Big Short ao Globo de Ouro 2016 nesta categoria. Claro que esta produção tem humor, mas não é aquele clássico, engraçado. É um humor ácido, crítico, irônico, quase azedo pelo tema que o filme trata.

A segunda impressão errada sobre este filme pode ser dada pelo cartaz dele, com algumas das estrelas que fazem parte do elenco. The Big Short é muito mais complexo do que o cartaz poderia dar a entender. O roteiro vai fundo nos bastidores que levaram à quebradeira dos bancos em 2008 e que, por consequência, criou uma crise financeira global. Muitos dos conceitos tratados na produção são complexos para qualquer mortal que não seja economista ou que não esteja mergulhado no sistema bancário ou na bolsa de valores.

Então esqueça que este filme é fácil. Não é. Em todos os sentidos. O diretor Adam McKay utiliza diversas estratégias para contar essa história. Da introdução em uma época, para apresentar uma ideia, passando depois mais de 20 anos no tempo para nos contar como aquele embrião criado por Lewis Ranieri cresceu e virou um monstro, até a mescla de narrativa do “tempo presente” com a inserção de fotos, notícias e videoclipes para contar a passagem do tempo e os elementos culturais que fizeram parte da sociedade retratada no período. Além disso, há aquele velho recurso de alguns atores falando diretamente para a câmera (ou seja, com o espectador).

No meio de tudo isso, algumas vezes quase esquecemos que este filme tem um narrador: Jared Vennett (Ryan Gosling), bancário do Deutsche Bank. Esse esquecimento é explicável porque a produção é rápida no ritmo e na mudança do estilo de narração. Uma das maiores qualidades do filme, além da direção rápida e criativa de McKay é, sem dúvida, o roteiro complexo e cheio de tempero que McKay escreveu junto com Charles Randolph e que é inspirado no livro The Big Short (que recebeu o título de A Jogada do Século no Brasil) de Michael Lewis.

The Big Short pega o assunto complexo do colapso econômico de 2008 e nos mostra como chegamos ali. O bacana é que depois que Jared Vennett explica a realidade sobre o mercado imobiliário dos Estados Unidos, com toda a corrupção e ganância dos bancos contaminando também as agências de risco, ou seja, todo o sistema, para o investidor Mark Baum (Steve Carrell) e equipe, nos colocamos exatamente no lugar daquele grupo.

Ficamos surpresos com o que Vennett explica. É difícil de acreditar que os bancos e as agências de risco chegaram naquele ponto de descontrole. E qual é o passo seguinte de Baum e seu grupo? Eles resolvem verificar in loco o que está acontecendo. Eles saem para investigar a denúncia de Vennett. Enquanto isso, há outras duas linhas narrativas complementares se desenrolando. A origem de todo esse grupo que acabou investindo contra o mercado imobiliário e ganhando muito dinheiro com isso teve a ver com o trabalho de Michael Burry (Christian Bale).

Aliás, não comentei antes, mas após aquela introdução sobre a origem dos títulos imobiliários nos anos 1970, o primeiro personagem contemporâneo e que descobriu que o mercado iria colapsar foi Michael Burry. Ele era o gestor de um fundo de investimento e analisando milhares de números e dados do mercado imobiliário, foi o primeiro a perceber que era uma questão de tempo para a bomba estourar. Por sua conta e risco Burry foi aos bancos e criou o swap de incumprimento de títulos hipotecários – ou seja, ele criou um produto que era, na essência, uma aposta de que o mercado imobiliário iria colapsar.

Como era um produto novo e ele queria ter certeza que iria receber o dinheiro quando o que ele estava prevendo acontecesse, os bancos exigiram que ele pagasse os juros sobre o capital investido mensalmente. Caso os títulos hipotecários colapsassem, ele teria garantia de receber o correspondente ao que ele tinha “apostado” (feito “short” contra o mercado). Mas se os títulos hipotecários subissem, ele teria que pagar por isso.

No início, todos acharam ele louco. Os investidores do fundo que ele administrava quiseram tirar o dinheiro, mas ele percebeu que existia uma fraude no mercado e bloqueou as retiradas. Aliás, este é um dos pontos mais interessantes de The Big Short. Mostrar como os bancos e as agências de risco fraudaram o sistema e chegaram a fazer os títulos hipotecários podres serem valorizados antes que a verdade começasse a aparecer.

Com a sua teoria Burry procurou diversos bancos, começando pelo Goldman Sachs, seguindo para o Deutsche Bank e o Bank of America para criar o “short” contra os títulos hipotecários. Todos aceitaram a sua proposta porque, como fica claro em cada lugar que ele procura, os banqueiros acharam que estavam ganhando um dinheiro fácil. No total, ele investiu US$ 1,3 bilhão em swaps de incumprimento de hipotecas.

O problema para Burry é que a previsão que ele tinha feito para o colapso do sistema não levou em conta que bancos e agências de risco estavam comprometidos até o pescoço e que, além de tudo, eles iriam mentir, fraudar e adiar a crise um pouco mais de tempo. O fundo de Burry acabou perdendo dinheiro neste período e Bale nos faz acreditar em sua angústia com aquele cenário.

Enquanto isso, o investidor Mark Baum vai verificar diretamente no mercado imobiliário como os negócios são feitos. Ele fala com corretores e com pessoas de bancos e descobre que ninguém parece saber fazer contas. Ou estão tão preocupados com os seus ganhos que não percebem que não há como aquele sistema de enganação se manter por muito tempo. Carell está ótimo com as suas expressões e caretas. Afinal, ele nos representa. Baum ficou sabendo da teoria de Burry através de Jared Vennett que, por sua vez, soube da criação das swaps de incumprimento de hipotecas conversando com colegas dos bancos em um bar.

Outra fonte de informações nesta narrativa é puxada pela dupla Charlie Geller (John Magaro) e Jamie Shipley (Finn Wittrock). Eles são investidores de pequeno porte que conseguiram fazer o patrimônio multiplicar em pouco tempo investindo em títulos baratos. Depois de conseguir multiplicar o dinheiro inicial, eles querem jogar como adultos e procuram um banco para isso. Eles nem são considerados para entrar no grupo dos grandes, porque não tem dinheiro para isso, mas no lobby do banco eles descobrem um documento que propõe swaps de incumprimento de hipotecas.

Intrigados com aquele documento, eles também resolvem investigar o mercado imobiliário. Rápidos no gatilho, mas sem capital para entrar com as swaps, eles recorrem a um grande investidor que saiu do mercado, Ben Rickert (Brad Pitt). Ex-vizinho de Shipley, ele resolve ajudar os dois jovens porque, afinal, ele pode fazer isso. No fundo, todos acreditam que o sistema está falido e querem demonstrar isso – ganhando muito dinheiro com isso, se possível.

Um dos aspectos mais interessantes do filme, para mim, não foi apenas contar como tudo nos levou para aquela crise do mercado imobiliário e financeiro dos Estados Unidos e que depois contaminaria o mundo, mas especialmente a reflexão do roteiro sobre a ignorância da coletividade. Geniais as imagens que mostram os fatos que aconteceram de importante e de desimportante – como clipes musicais, artistas em alta e em baixa e tantas cenas de pessoas comuns dos Estados Unidos – enquanto aquele grupo de pessoas enxergava o caos que estava para vir.

É a velha história de que a ignorância é uma benção. Não, não é. Mas infelizmente, e isso está comprovado, a maioria das pessoas vive na ignorância. Consome notícias esparsas e não consegue entender a fundo nada de importante que está ocorrendo à sua volta, seja na sua comunidade, país ou no mundo. Todos estão preocupados demais com as suas pequenas misérias ou momentos breves de felicidade e ninguém (ou quase ninguém) consegue ver o quadro inteiro.

The Big Short é fascinante por isso. Pela reflexão que ele faz sobre a sociedade dos anos que antecederam 2008 e que continua sendo válida até agora. Quanto tempo as pessoas que você conhece perdem com futilidades, consumindo informações sem importância sobre a vida pessoal dos artistas, por exemplo? Quantas entendem as razões da atual crise no Brasil ou em outras partes do mundo? Enfim, The Big Short é um bom soco no estômago da sociedade atual.

Por esta questão, é um filme que merece a nota abaixo. Também é preciso aplaudir a narrativa de McKay. Por outro lado, acho que esta produção poderia ter simplificado um pouco a história e não ter forçado a barra, até aonde eu vejo, tentando mostrar os personagens principais como “heróis”. No final das contas eles foram apenas pessoas que quiseram ganhar dinheiro com o colapso de um mercado.

Claro, eles também queriam provar uma teoria, demonstrar que o sistema estava corrompido mas, acima de tudo, eles queriam ganhar dinheiro. No fim, eles são tão diferentes assim das pessoas que, sedentas por dinheiro, fizeram o sistema chegar naquele ponto? O filme falha um pouco ao torná-los quase heróis da história. Não os vejo assim.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Citei apenas parte do elenco de The Big Short. Christian Bale, Ryan Gosling, Brad Pitt, Steve Carell, John Magaro e Finn Wittrock lideram o elenco com os personagens centrais da trama. Mas completam o elenco estelar, ainda, os competentes Marisa Tomei (como a esposa de Mark Baum), Hamish Linklater (como Porter Collins), Jeremy Strong (como Vinnie Daniel) e Rafe Spall (como Danny Moses), esses três últimos a equipe de Mark Baum e que o acompanha quase todo o tempo na investigação sobre o mercado imobiliário e financeiro.

Há um recurso no roteiro que eu não comentei antes e que achei muito interessante como forma de reforçar a proposta dos roteiristas de que a nossa sociedade capitalista vive de aparências – ao ponto de acreditar em celebridades mais do que na própria análise, muitas vezes. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Diversos conceitos complicados do filme são explicados com pausas para que algumas celebridades discorram sobre o assunto. A técnica começa com a atriz Margot Robbie, que fez cenas provocantes em The Wolf of Wall Street – por isso a alusão à banheira nesta produção; prossegue com o chef Anthony Bourdain e termina com o economista Richard Thaler e a cantora Selena Gomez. Uma das boas sacadas do filme.

Cada um dos atores principais deste filme é motivado por uma questão diferente. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Michael Burry quer, essencialmente, comprovar uma teoria. Quer comprovar como ele viu que tudo estava desmoronando enquanto mais ninguém via isso. Mark Baum, descrente do sistema, queria comprovar que os sistemas político e financeiro estavam corrompidos e que iriam sucumbir. Era um destes sujeitos de “teoria da conspiração” que acaba acertando no alvo com a ajuda de terceiros. E a dupla Charlie Geller e Jamie Shipley queria multiplicar a pequena fortuna que eles tinham feito até então. Mas independente da motivação de cada um, todos queriam ganhar dinheiro com a crise que eles perceberam sozinhos.

Falando em ganhar dinheiro, as tais swaps criadas por Burry podiam dar retornos de 20:1, ou seja, para cada US$ 1 investido, retorno de US$ 20. Geller e Shipley procuraram investir em swaps contra títulos classificados como AAA, ou seja, os que deveriam ser os mais seguros do mercado. Neste caso, eles poderiam ganhar até 200:1.

Da parte técnica do filme vale destacar, em primeiro lugar, a excelente direção de Adam McKay. Ele consegue não apenas dar ritmo para a história, mas também valorizar os diversos elementos importantes em cena. Algumas vezes ele destaca o trabalho dos atores. Em outros momentos, valoriza as cidades e o comportamento das pessoas, assim como a dinâmica de valores e as notícias que estiveram em evidência naquele período. Sem dúvida, um grande trabalho. O roteiro também merece aplausos, assim como a edição excepcional de Hank Corwin.

Como eu gosto de rock, devo dizer que adorei o estilo musical do personagem de Michael Burry. Através dele, temos uma boa parte da trilha sonora de Nicholas Britell focada em um rock vigoroso. Bacana. A trilha sonora dele não se resume a esse estilo, claro. Britell faz uma trilha bem ponderada e atenta para cada momento da produção. Um belo trabalho.

O roteiro de McKay de de Charles Randolph é um dos principais trunfos da produção. E também um de seus principais problemas em um ou dois momentos. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Ele acerta nos diferentes elementos narrativos que agrega na produção, assim como no tom crítico, irônico e ácido com que analisa a sociedade e o contexto da crise. Mas, francamente, achei forçadas algumas cenas de “consciência” dos personagens.

Por exemplo, coube a Brad Pitt dar um “esporro” em Geller e Shipley quando eles estavam comemorando o investimento que tinham feito. Ah, convenhamos, o personagem de Pitt havia ganho muito dinheiro com aquele mercado e agora ajudava os dois amigos a fazer o mesmo. Sério que nunca antes ele tinha pensado o quanto especuladores e pessoas que jogam com o dinheiro fazem mal para a sociedade?

O mesmo podemos falar sobre algumas das cenas com Mark Baum. Ele parece não se conformar com o desenrolar dos fatos após a quebradeira dos primeiros bancos, mas também não foge da raia em tirar lucro da situação. Se eles tivessem outra motivação que não a de encher os bolsos, porque eles não avisaram mais pessoas do que estava prestes a acontecer? As “crises” de consciência que aparecem no filme tem um propósito claro de fazer o espectador pensar, mas não me convenceram. De qualquer forma, bem perto do final, Baum estava certo ao comentar que, no fim das contas, os pobres e imigrantes iriam ser apontados como os culpados de tudo. Isso de fato aconteceu e, parece, sempre vai se repetir. Infelizmente.

The Big Short estreou no Festival da AFI em novembro de 2015. No mês seguinte o filme participou do Festival Internacional de Cinema de Dubai. Até o momento a produção acumula 13 prêmios e foi indicada a outros 73. Entre os que recebeu, destaque para seis prêmios dados por círculos de críticos de cinema como Melhor Roteiro Adaptado.

Apesar de ter um elenco estrelado, esta produção custou relativamente pouco: US$ 28 milhões. Apenas nos cinemas dos Estados Unidos a produção fez pouco mais de US$ 44,6 milhões até ontem, dia 13 de janeiro. Nos outros países em que o filme já estreou ele fez outros US$ 10 milhões. Provavelmente ele vai conseguir se pagar.

The Big Short foi rodado, essencialmente, nos Estados Unidos, em cidades como New Orleans, Las Vegas e Malibu. Mas as cenas externas do pub inglês que aparece no filme foram rodadas no The Black Horse, pub tradicional da cidade inglesa de Fulmer.

Agora, algumas curiosidades sobre esta produção. Os personagens do filme são baseados em pessoas reais. Por exemplo: Mark Baum é inspirado no gerente de investimentos Steve Eisman; Jared Vennett é inspirado no negociador Greg Lippmann; Ben Rickert é baseado em Ben Hockett; e Charlie Geller e Jamie Shipley são baseados em Charlie Ledley e Jamie Mai.

Este é o primeiro filme em que Ryan Gosling aparece desde que ele decidiu dar uma “pausa” na carreira em 2013.

The Big Short é o segundo filme baseado em um livro de Michael Lewis em que Brad Pitt investe como produtor e no qual ele também atua. O filme anterior foi Moneyball (comentado aqui).

Não sei vocês, mas para mim foi impossível assistir a The Big Short e não lembrar de The Woll of Wall Street. Além dos dois filmes tratarem das loucuras do mercado financeiro e de seus especuladores, ambos tem em comum um tom crítico, ácido e um roteiro cheio de palavrões. Ainda que, evidentemente, The Wolf of Wall Street (comentado aqui) ganhe na loucura e na interpretação de catarse e digna de aplausos de Leonardo DiCaprio.

Agora, uma pequena curiosidade sobre a participação especial de algumas celebridades nesta produção. Inicialmente, no lugar de Margot Robbie, estava planejada a participação de Scarlett Johansson; e no lugar de Selena Gomez estava prevista Beyonce e Jay Z – inclusive com ele tirando sarro da questão da aposta, item de uma de suas canções de sucesso.

Entre os atores, vejo que todos se saíram bem. Mas lideram como destaques Christian Bale, Ryan Gosling e Steve Carell. Para mim, nesta ordem.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8 para esta produção. Uma avaliação muito boa levando em conta o padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 170 críticas positivas e 24 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 88% e uma nota média de 7,9. Sem dúvida alguma um desempenho abaixo de diversos outros concorrentes desta produção no Oscar.

CONCLUSÃO: Um filme complexo em um certo nível mas simples de entender em outro. A complexidade está em absorver conceitos complicados como subprime, swap e CDO (obrigações de dívida colateralizada). Nestes momentos o filme entra em exemplos cômicos para “mastigar” os temas complexos. Por outro lado, The Big Short vai direto na veia e não tem papas na língua para chamar de fraude e de especulação todo o movimento que nos levou à quebradeira de 2008.

Com um roteiro bem construído, especialmente ao resumir parte da ganância das sociedades “desenvolvidas” como a dos Estados Unidos, este filme conta também com um elenco de estrelas. Sarcástico na medida certa, ele também faz pensar. Funciona, ainda que tenha algumas pequenas ressalvas no caminho.

PALPITES PARA O OSCAR 2016: Hoje saiu a lista dos indicados ao prêmio máximo da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. The Big Short está concorrendo em cinco categorias: Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator Coadjuvante, Melhor Edição e Melhor Roteiro Adaptado.

Foram justas todas as indicações, sem dúvida. Mas não vejo o filme tendo muitas chances na maioria destas categorias. Talvez ele possa concorrer com maior vigor em Melhor Ator Coadjuvante. Ainda assim, ele teria que ganhar do mais novo-velho queridinho dos críticos, Sylvester Stallone em Creed. Claro que eu sempre vou achar Christian Bale mais ator que Stallone – estou falando aqui de interpretação, não de ícone do cinema de ação -, mas é fato que temos um grande “risco” da Academia querer dar uma estatueta para Stallone enquanto há tempo.

A edição deste filme é fantástica, mas ele tem, pela frente, Mad Max: Fury Road e The Revenant para vencer. Parada dura. Mas The Big Short tem alguma chance aqui. Honestamente, se eu pudesse, votaria por ele. Não vejo o mesmo em Melhor Diretor (o favoritismo é de Iñarritu, seguido de George Miller e Tom McCarthy) ou Melhor Filme (claramente tendo The Revenant e Spotlight correndo na frente).

Finalmente, em Melhor Roteiro Adaptado, acho que The Big Short tem alguma chance, ainda que me parece levar uma certa vantagem nesta categoria os roteiros de Room e Carol. Para resumir, não seria uma total zebra The Big Short sair de mãos abanando do Oscar. Se isso não acontecer, ele poderá levar uma ou duas estatuetas para casa, apenas.

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Out of the Furnace – Tudo por Justiça

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Filmes sobre odisseias de vingança pululam no cinema mundial. Especialmente Hollywood tem vários exemplares do gênero. Para quem já assistiu a uma boa parte destes filmes, Out of the Furnace parece apenas mais do mesmo. Uma pena, porque o filme começa bem, com estilo e foco bem definido. O elenco também é promissor. Pena que o roteiro não mostra força do meio para o final.

A HISTÓRIA: Vários carros parados em frente a um telão. De dentro de um deles, um homem se inclina para vomitar. Ele é Harlan DeGroat (Woody Harrelson), um sujeito violento que fica irritado com a mulher com quem está saindo (Dendrie Taylor) porque ela fica preocupada com a volta para casa e ri depois que ele fala que o carro se dirige sozinho. Depois de agredir a mulher, DeGroat espanca um homem (Carl Ciarfalio) que saiu de outro carro porque ficou incomodado com a situação. E foge dali.

Cenas de uma cidade industrial. É ali que trabalha duro, em uma siderúrgica, Russell Baze (Christian Bale). Tudo está sob controle na vida dele, que tem Lena Taylor (Zoe Saldana) como namorada e vive entre os cuidados com o pai doente (Bingo O’Malley) e o irmão caçula, militar, que gosta de jogar e tem algumas dívidas, Rodney Baze Jr. (Casey Affleck). Tudo parece em ordem, até que um acidente começa a mudar a vida da família Baze.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Out of the Furnace): Belo cartão-de-visitas o diretor Scott Cooper nos apresenta na sequência inicial desta produção. Pena que aquela sacada não se repita em mais momento algum da produção.

As imagens rodadas no drive-in são perfeitas porque jogam com duas perspectivas de planos e sequências de câmera. A primeira está sendo exibida no telão, e a segunda, é a própria dinâmica da câmera que roda Out of the Furnace. Este jogo cria uma perspectiva interessante, a ponto das cenas do telão darem a impressão de “crescerem” conforme a câmera comandada por Cooper ia descendo de um plano superior para o que se aproxima dos carros. Grande sacada!

Em seguida, o filme segue bem ao explorar a característica da cidade industrial onde boa parte do roteiro de Brad Ingelsby e Scott Cooper se desenvolve. Aquele contexto ajuda a explicar a falta de perspectivas de alguns personagens e também o jeito “grosseiro” que eles tem de resolver muitos de seus problemas. Como acontece em tantas cidades dos Estados Unidos e de outros países bem industrializados, há muitas cidades que tem a economia e, consequentemente, o modo de vida de seus cidadãos moldados por determinadas indústrias.

No caso de Out of the Furnace, a siderúrgica em que Russell Baze trabalha tem esta função. A única perspectiva para muitos homens pagarem as suas contas e terem uma vida decente é trabalhar naquela empresa. Que exige sacrifícios, como bem exemplifica o doente patriarca da família. É neste ambiente em que encontramos uma irmandade clássica em filmes em que haverá encrenca: o irmão mais novo de Russell quer escapar desta vida difícil e, para isso, procura a saída em caminhos bem mais fáceis como o mundo das apostas.

Como reza a história clássica dos jogadores no cinema, Rodney só se dá mal e começa a acumular dívidas. A sorte inicial dele é que estas dívidas são contraída com o vilão “bonzinho” John Petty (Willem Dafoe). O proprietário de um bar está acostumado a emprestar dinheiro e também a dever grana. Adepto das lutas ilegais, ele introduz Rodney neste cenário e, mesmo relutante, leva o irmão mais novo de Russell a entrar no mercado barra pesada de disputas que podem levar até a morte.

É neste último cenário em que entra em cena novamente o vilão da história, o violento Harlan DeGroat. Era evidente que, mais cedo ou mais tarde, os lados opostos de Russell e Harlan iriam se chocar. E não apenas esta previsibilidade ajuda a tornar o filme fraco, mas como a escolha sobre a forma do encontro torna esta produção uma obra requentada.

(SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Existem muitas histórias no cinema de irmãos mais novos que colocam os mais velhos e protetores em encrenca. Depois, é clássica a ideia de que o “bom-menino-vítima-do-vilão-desalmado” tinha topado entrar em uma última missão (seja ela um assalto à mão armada, um assassinato ou, no caso deste filme, uma luta no melhor estilo Fight Club) e se deu mal por ter encarado esta tarefa. E daí alguém da família da vítima resolve se vingar e assume as armas.

Ou seja: vários lugares-comum explorados por outras produções são agrupados em Out of the Furnace para envolver o público. Não há surpresas ou inovação neste filme. Exceto por aquela sequência bem filmada, inicial, já comentada anteriormente, e pelo trecho da história “fora da curva” que é aquele em que Russell se acidente e provoca pelo menso uma morte – o filme não deixa claro se mais de uma pessoa morreu naquela batida. Também ficamos sem saber quanto tempo Russell ficou preso – um dado que seria interessante já que, ao sair da prisão, ele nos apresenta uma cidade um pouco mais decadente.

Se o roteiro do diretor Cooper e de Ingelsby é o calcanhar de Aquiles deste filme, a fortaleza da produção é o trabalho dos atores. Aliás, que grande elenco foi escalado para esta produção! Além dos já citados Woody Harrelson, Christian Bale, Casey Affleck, Willem Dafoe e Zoe Saldana, estão em cena também Sam Shepard e Forest Whitaker. Tudo bem que nem todos os personagens destes atores são bem desenvolvidos, mas isso faz parte de um roteiro fraco.

De qualquer forma, Christian Bale e Woody Harrelson estão ótimos. Os papéis deles são os melhores trabalhados – ainda que, no fim das contas, Harrelson se resuma a um vilão cruel e nada mais que isso, já que não sabemos nada sobre a vida pregressa ou mesmo o entorno que o cerca no presente. Mas foi bom ver Harrelson em um papel deste naipe após tanto tempo – impossível não lembrar do ator em Natural Born Killers. Gostei também do trabalho de Casey Affleck. Os demais atores tem que tentar emocionar com poucos argumentos, especialmente Dafoe e Saldana – sem contar Shepard e Whitaker que tem, cada um, praticamente pontas neste filme.

Um outro recurso que Out of the Furnace utiliza e que outras produção já utilizaram é o de mostrar um personagem que não consegue superar as cicatrizes criadas por ter servido à pátria-amada, os Estados Unidos. Desta vez esta figura é encarnada por Affleck. E a verdade é que, ao pensar em Out of the Furnace em perspectiva, o único detalhe que destoa um pouco da história clássica de vingança é este do ex-militar que não tem nada a perder porque não consegue se recuperar do que viu enquanto servia ao Exército no Iraque – por quatro vezes, importante dizer.

Só acho que o personagem de Affleck poderia ter estas cicatrizes melhor exploradas. Afinal, ele parece mais perdido do que traumatizado no filme. Perdido por perdido, há muita gente por aí que não sabe o que quer fazer da vida. Mas ter traumas profundos e achar que não tem nada a perder porque a morte, talvez, seria uma boa solução para esquecer os próprios fantasmas é algo bem diferente. E, pelo visto, o personagem deveria seguir mais a segunda linha. De qualquer forma, mais uma vejo que o problema está mais no roteiro do que no trabalho do ator.

NOTA: 7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Bem planejadas e executas as sequências de pancadaria no melhor estilo Fight Club. O único problema daquelas sequências é que elas lembra demais o filme de David Fincher de 1999 – e que, este sim, merece ser visto e revisto.

Da parte técnica do filme, vale citar a boa direção de Scott Cooper – ele manja mais deste ofício do que tem talento como roteirista, aparentemente – e o bom trabalho do diretor de fotografia Masanobu Takayanagi. Além deles, vale citar o competente editor David Rosenbloom. E isso é tudo.

Há tempos eu estava curiosa sobre este filme. Não apenas por causa de Christian Bale, de quem gosto, mas porque o cartaz me remetia aos bons filmes policiais. Também porque esta produção chegou a ser cotada na temporada pré-Oscar para aparecer em algumas categorias da premiação. Mas que nada. Out of the Furnace ficou totalmente de fora do prêmio da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. E cá entre nós, a ausência não foi injusta.

Out of the Furnace estreou em novembro de 2013 no AFI Fest. Depois, o filme participaria de outros três festivais. Nesta trajetória, recebeu um prêmio e foi indicado a outros cinco. O único que levou para casa foi o prêmio de “melhor estreia e segundo filme” (título estranho, não) para Scott Cooper no Festival de Cinema de Roma.

Por falar no diretor, este é apenas o segundo filme dirigido por Cooper. Antes de Out of the Furnace, ele dirigiu a Crazy Heart (comentado aqui no blog). Para o meu gosto, o filme anterior de Cooper é melhor. Agora, o tira-teima vai ficar com Black Mass, filme estrelado por Johnny Depp, Guy Pearce Benedict Cumberbatch e Joel Edgerton e que está previsto para estrear no próximo ano.

Uma das qualidades de Out of the Furnace, além do bom trabalho dos atores, é a ótima escolha da música Release para dar o tom do começo e do fim da produção. Esta é apenas mais uma das grandes canções da banda Pearl Jam.

Agora, algumas curiosidades sobre esta produção. Como é de seu feitio, Christian Bale realmente aprendeu a operar um forno siderúrgico para este filme – evitando, assim, o uso de dublês. Algo que o ator costuma fazer nas produções em que decide mergulhar.

Cooper prometeu para Bale que não faria Out of the Furnace sem ele. Essa promessa foi feita em 2011. O diretor teve que esperar até o ano seguinte para que Bale conseguisse um espaço na agenda e para que eles conseguissem concretizar o projeto.

O filme que aparece nas cenas iniciais da produção sendo projetado no drive-in é The Midnight Meat Train, de 2008, dirigido por Ryûhei Kitamura.

Os atores Billy Bob Thorton e Viggo Mortensen chegaram a ser cogitados para o papel de Harlan DeGroat mas, no final, o personagem ficou com Woody Harrelson.

Out of the Furnace foi totalmente rodado nos Estados Unidos, com cenas externas e em estúdios feitas em Moundsville (West Virginia), Burgettstown, Beaver Falls e Braddock (Pensilvânia).

Esta produção teria custado cerca de US$ 22 milhões e faturado, apenas nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 11,4 milhões. Ou seja, falta um bom caminho ainda para o filme começar a dar lucro.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,9 para este filme. Uma boa avaliação, levando em conta o padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 89 críticas positivas e 81 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 52% – e uma nota média de 5,9.

CONCLUSÃO: Contar uma história de vingança, nos dias atuais, precisa de um pouco de ousadia. E este é um elemento que não faz parte de Out of the Furnace. Então ou este é o primeiro filme do gênero que você assiste, ou ficará inevitável o gosto de comida requentada na sua boca. Não há frescor neste filme, apenas ideias requentadas. Uma pena. Mas se a história deixa a desejar, o elenco está bem escalado e faz um bom trabalho. Há tempos Woody Harrelson nos devia um vilão cruel como o que encontramos neste filme. Fora o bom trabalho dos atores, sobra pouco de interessante neste filme. Assista apenas se já tiver visto todas as opções melhores do cinema antes.

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American Hustle – Trapaça

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Hollywood gosta de um certo tipo de filme. Aquele que retoma as músicas, as roupas e todo o estilo marcante dos anos 1970 e início dos anos 1980. Várias produções recentes focam naquele período, e American Hustle aparece para aumentar esta lista. Quando encarei esta produção, tinha visto como críticos e público dos Estados Unidos tinham se animado com o filme. Também não consegui ignorar as indicações de American Hustle para o Golden Globes e a presença do filme em várias bolsas de aposta para o Oscar. E daí que após assisti-lo, posso dizer: é bom, mas parece muito com tudo que eu já vi antes.

A HISTÓRIA: Uma mensagem avisa que parte do que veremos, de fato, aconteceu. No dia 28 de abril de 1978, no Hotel Plaza, em Nova York, um sujeito com uma boa barriga saliente veste uma camisa, gasta bastante tempo arrumando o cabelo – não é fácil transformar uma careca em cabeleira -, coloca o óculos escuro e se prepara para o que virá em seguida. Na sequência, ele entra em um quarto em que homens monitoram câmeras e gravações que estão registrando tudo o que acontece na suíte próxima.

Quando se vira, este homem, Irving Rosenfeld (Christian Bale) vê a parceira, Sydney Prosser (Amy Adams) entrar no local em um belo vestido. Eles se olham, mas não falam nada. Em seguida, entra no local Richie DiMaso (Bradley Cooper), que confronta Irving. Richie quer saber porque ele anda falando dele “pelas costas”, afirmando que Richie está ameaçando a operação. Irving reclama de como tudo está caminhando. Em seguida, eles se encontram com o prefeito Carmine Polito (Jeremy Renner), que não gosta nada quando Richie lhe repassa uma maleta. Irving acaba tendo que correr atrás de Carmine e tenta, mais uma vez, fazer de tudo para sobreviver.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a American Hustle): Esta é uma destas produções que se revela rapidamente. Não há dúvidas sobre os elementos que vão interessar até o final da história. A caracterização dos personagens, incluindo um figurino de tirar o chapéu (desculpem o trocadilho), e o envolvimento dos atores com a história são artigos preciosos e valorizados desde o primeiro minuto. Em seguida, surge a trilha sonora, que vai revelar-se o ponto mais forte de American Hustle.

Desta vez, vou direto ao ponto nesta crítica: American Hustle começa muito bem. Tem ritmo, tem o encantamento de uma produção feita com esmero e preocupação nos detalhes. Sem contar que interessa pelo grande elenco. Mas depois de 30 minutos de filme, a impressão que eu tive – e que perdurou até o final – foi: “acho que já vi esta história antes”. Não igualzinha, evidentemente. Sempre há novos elementos em roteiros inéditos. Mas a essência da história já era conhecida. E nada pior, em uma “corrida” de expectativas pelo Oscar, do que ver a um filme quase “requentado”.

Por um lado, American Hustle lembra a várias produções recentes que recuperam o visual e a “alma” dos anos 1970/1980. Para ficar apenas em alguns exemplos, Boogie Nights, Lovelace, Almost Famous e Jobs. Depois, que já virou um clássico os filmes sobre golpistas que, nesta produção, ganha um novo “atrativo” com o acréscimo de outro lugar-comum: o último “golpe” que vira uma exigência antes da tão almejada liberdade. Ou, em outras palavras, a pressão para que os criminosos pratiquem um último crime para retomar a vida e não serem condenados e/ou mortos.

No fim das contas, esta é a história de American Hustle. Uma duplas de golpistas – ou de “trapaceiros”, com o título no mercado brasileiro sugere – deve ajudar um agente do FBI para que eles sigam em liberdade. Quem já assistiu a alguns filmes do gênero pode presumir onde isso vai parar, correto? (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Normalmente, com este cenário posto, só resta duas alternativas: ou a dupla de bandidos se dá mal e morre (o que é difícil de acontecer aqui porque eles são apenas golpistas e não estão habituados a “matar ou morrer”), ou eles dão a “reviravolta” no golpe. Por saber disso, não foi nada surpreendente o final.

Para quem gosta de filmes sobre golpes, há produções relativamente recentes comentadas aqui no blog e que podem interessar, como Flawless e The Prestige. Mas voltemos a American Hustle. Para mim, o filme teve um grande interesse até o momento em que Richie DiMaso entrega o cheque de US$ 5 mil, a comissão dos golpistas, para Edith Greensley (identidade falsa que Sydney assume ao fazer parceria com Irving). A partir dali, ele só foi perdendo a graça.

Quer dizer, impossível American Hustle perder totalmente a graça com aquele desfile de figurinos maravilhosos e com aquele trilha sonora digna de compra em uma loja virtual. Sem dúvida alguma estes são os pontos fortes do filme que, junto com a atuação do elenco estelar, ajudam a fazer a gente engolir a história, um bocado previsível e que fica arrastada do meio para o final. Porque sem dúvida o roteiro de Eric Singer e do diretor David O. Russell não é o que alimentará os pensamentos do espectador depois que o filme terminar.

American Hustle é destas produções que vai agradar pela roupagem, pelo visual. O estilo do filme, incluída aí a direção competente e firme de Russell, fazem a diferença. E os atores também mostram porque estão entre os mais badalados e interessantes da atualidade. Todos estão muito bem. Christian Bale convence no papel do patético, mas inteligente e confiante Irving; Bradley Cooper transpira autoconfiança e uma certa arrogância como o policial pronto para fazer as prisões de sua carreira; Amy Adams está sensual e frágil na medida certa como a mulher com “pés no chão” que sabe seduzir para sobreviver; e Jennifer Lawrence… ah, Jennifer Lawrence!

Parece incrível dizer isso, tendo os outros três astros em cena, mas sempre que Jennifer Lawrence aparece em American Hustle ela rouba toda e qualquer atenção. Dá um show. Mesmo com Amy Adams sendo competente, não há espaço para lembrarmos dela quando Jennifer Lawrence aparece. E nem me refiro à beleza. Falo de talento mesmo. Fiquei impressionada logo nos primeiros minutos da atriz em cena pela forma com que ela assumiu o personagem da mulher que sabe impor a própria vontade sobre tudo e todos. Ponto forte do filme entre as atuações.

Além do elenco principal, American Hustle se dá ao luxo de ter nomes fortes em papéis “menores”. Para começar, Jeremy Renner em um papel diferente do que estamos habituados em vê-lo. Depois, temos Louis C.K. como Stoddard Thorsen, o chefe imediato de Richie; Michael Peña em quase uma ponta como o agente Paco Hernández/Sheik Abdullah; Alessandro Nivola como o superior de Stoddard, Anthony Amado; e Elisabeth Röhm como Dolly Polito, mulher do prefeito enredado na cilada dos protagonistas. Isso apenas para citar os nomes mais conhecidos.

Mas há espaço para a defesa do filme. Alguém pode dizer que ele se revela interessante porque toca na fragilidade de algumas investigações do FBI e da ânsia de alguns de seus agentes para pegar poderosos – cometendo deslizes éticos no caminho. Há também quem possa ver na história uma interessante narrativa sobre a corrupção que parece assolar todas as esferas públicas de governo. Mas a verdade é que eu não vi grande novidade por estes lados também.

Afinal, em termos de denúncia de corrupções e afins, The Departed e Public Enemies, por exemplo, me parecem ser mais enfáticos e criativos que American Hustle. Ainda que eu ache que o grande objetivo não era nem esse. Me parece que joga um papel mais importante na história os diversos interesses que podem dividir um homem – no caso, o protagonista Irving Rosenfeld. Tudo gira ao redor dele. Há o núcleo da família de Irving, com a genial mulher dele, Rosalyn, e o filho Danny (interpretado pelos gêmeos Danny e Sonny Corbo), representando a típica classe média da época; há a sagaz e sensual Sydney/Edith, uma sobrevivente que se identifica com o jogo de cintura do protagonista e se envolve verdadeiramente com ele; e há todo o restante dos personagens secundários que giram em torno deles – como políticos, empresários e a equipe do FBI.

Irving está dividido entre a forte ligação e o modelo familiar que ele desenvolveu com Rosalyn e a exigência cada vez maior de comprometimento de sua “alma gêmea” Sydney. Tudo vai bem até que os golpistas são pressionados pelo investigador Richie. A partir daí, tanto a vida profissional quanto a particular de Irving são afetadas e ele deve assumir uma posição.

Esta história particular acaba tendo um protagonismo muito maior do que todo o enredo sobre o envolvimento da máfia dos cassinos (e das drogas, jogos e etc) com políticos, a entrada de fortunas nos EUA com a chegada de estrangeiros atrás de favores para facilitar o acesso a um dos países mais prósperos do mundo, ou mesmo a preocupação de algumas figuras do FBI em conseguir uma operação que possa lhes dar fama e espaço nos holofotes. Tudo isso acaba sendo quase secundário frente ao triângulo amoroso de Irving, Rosalyn e Sydney – que ganha um elemento de “competição” (bem entre aspas) com a entrada de Richie na história.

Agora, acho importante comentar sobre alguns pontos que podem parecer confusos. Digo isso porque, para mim, ao menos, eles quase foram motivo de confusão. Afinal, qual era a “trapaça” dos protagonistas? Irving tinha uma rede de lavanderias, mas a principal fonte de recursos dele era a venda de obras de arte roubados ou falsificadas e, principalmente, o golpe com empréstimos falsos.

Ele garantia ter ótimo contatos e que poderia conseguir empréstimos para pessoas que tinham o crédito recusado nos bancos mas, no fim das contas, ele não tinha contato algum e nem conseguia os prometidos empréstimos. Independente de conseguir ou não quantias como US$ 30 mil ou US$ 50 mil para pessoas desesperadas, ele sempre cobrava a “taxa de administração” de US$ 5 mil – recurso não reembolsável, independente do resultado da “intermediação” dele. Na prática, como Sydney vai entender rapidamente, ele nem ao menos tentava ajudar aquelas pessoas – apenas tirava o dinheiro delas.

Richie vê a oportunidade de usar Irving e Edith/Sydney quando percebe que eles são golpistas. Em troca de deixá-los em liberdade, ele pede que eles utilizem a rede de contatos que tem para que ele, através do FBI, possa combater o “crime do colarinho branco”. Em outras palavras, chegar a gente poderosa e desmantelar a lógica do suborno. O prefeito Carmine, que é o típico político cheio de boas intenções e que abre mão de agir dentro da lei para conseguir o que considera bom para a cidade, entra no conto falso de que há um Sheik árabe com muito dinheiro querendo investir pesado na cidade.

Intermediando alguns contatos, que vão desde a máfia até congressistas e um senador, Carmine pensar estar garantindo um investimento que irá reformar Atlantic City. Ele não ganha dinheiro em momento algum. Inclusive fica ofendido quando lhe sugerem o recebimento de uma pasta suspeita. Há muitos políticos como ele, que acreditam que os “fins justificam os meios”. No Brasil mesmo… temos muitos. Vide o Mensalão. Mas no fim das contas, não importa quais são os fins se você se sujar inteiro para conseguir, passando por cima de leis e ajudando pessoas sem escrúpulos no caminho, não é mesmo? Irving tem um olhar de compreensão para Carmine mas, ainda assim, ele segue com os planos.

Essa ideia de trapaça ou golpe pode ser entendida também para a ação do FBI. Afinal, eles engendram todo um esquema mentiroso para pegar os políticos corruptos e desmascarar parte do problema. Mas como Irving mesmo diz, em certo momento, questionando Richie, afinal de contas que “peixe grande” ele pegou neste processo? Muitas vezes são pegos os corruptos, mas o que é feito com os corruptores? Na maioria das vezes – ou sempre -, nada. E isso acontece aqui, porque a história toda era falsa.

E daí que, no fim das contas, você fica fascinado com a trilha sonora, com os figurinos e com os atores, mas não dá grande importância para a história. Para mim, que acho o roteiro um elemento fundamental para um filme ser excelente ou não, ficou faltando qualidade no texto. Isso até não incomodaria tanto se não estivéssemos falando de um dos grandes concorrentes ao Oscar, em uma disputa para escolher o melhor filme lançado nos EUA em 2013. Francamente, comparado a outras produções desta safra e à expectativa que eu tinha com o burburinho a seu respeito, American Hustle deixou a desejar.

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Fiquei curiosa para saber um pouco mais sobre “a história por trás desta história”. Já que no início do filme ficou sugerido que American Hustle tinha um quê de realidade… E daí que achei este texto elucidativo do The Washington Post. De acordo com o jornalista Richard Leiby, a produção dirigida por David O. Russell é inspirada na megaoperação anticorrupção do FBI chamada Abscam. Ela veio à tona em 1980 e envolvia, de fato, “sheiks árabes falsos, mafiosos reais, políticos locais corruptos, congressistas dos EUA”. E com um detalhe: tudo filmado.

Ainda conforme o texto do The Washington Post, o ex-supervisor do FBI John Boa foi quem supervisionou Abscam entre 1978 e 1980, tempo de duração da operação que terminou com a prisão de seis congressistas e um senador por suborno e conspiração. Na época em que as prisões aconteceram e o caso veio à público, Abscam foi considerado “o maior escândalo de corrupção política na história do FBI”. Isso porque o trabalho teria envolvido mais de 100 agentes.

Além destes agentes do FBI, a operação teria contado com a participação fundamental do vigarista Melvin Weinberg, informante dos agentes federais que recebia US$ 3 mil por mês, além de bônus, para ajudar em Abscam. Achei engraçada a declaração que o verdadeiro Irving Rosenfeld (na realidade, Melvin Weinberg) deu para o escritor Robert W. Greene: “Eu sou um trapaceiro. Há apenas uma diferença entre mim e os congressistas que conheci em Abscam. O povo lhes paga um salário para roubar”. E não é isso o que todos nós fazemos com tantos políticos? 🙂

Achei interessante que além de resgatar informações históricas sobre Abscam, o texto do The Washington Post comenta sobre o quanto de American Hustle se parece com a história real. De acordo com Leiby, “os momentos em American Hustle que possuem maior verossimilhança são aquelas recriações de vídeos de baixa resolução em preto e branco obtidos com câmeras escondidas”. Ou seja, quase nada do filme é fiel com Abscam.

Há vários elementos técnicos que funcionam bem nesta produção – como pede um grande projeto de Hollywood. Ainda que o figuro seja digno de muitos elogios e deslumbre a qualquer espectador, não tenho dúvidas que a trilha sonora é o que mais me marcou. Achei impecável, uma das melhores que eu ouvi em filme nos últimos tempos. Daí que fiquei pensando que ela deveria ser indicada ao Oscar. Mas não.

Vale lembrar que apenas trilhas sonoras originais concorrem a uma estatueta da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Em original eles querem dizer produzida exclusivamente e especificamente para um filme. E como American Hustle tem uma seleção impecável de músicas mas, ainda assim, apenas uma seleção e não uma composição específica, o filme não vai ser indicado nesta categoria para o Oscar. Mas garanto para vocês que a trilha merece ser procurada.

Falando nos figurinos do filme, achei este texto interessante do New York Post que fala, especificamente, sobre a dificuldade de trabalhar com o vestuário dos anos 1970 em produções que retratam esta época. Gostei do material de Faran Krentcil especialmente porque ali encontramos um apanhado geral de outras produções que buscaram estas referências. Vale a leitura.

Da parte técnica do filme, destaco, além da trilha sonora de Danny Elfman e do figurino de Michael Wilkinson, o bom trabalho do diretor David O. Russell. Ele é um sujeito que sabe dar estilo e dinâmica para os seus filmes, com algumas sequências arrebatadoras – aquela em que Rosalyn detona o marido para o filho é a melhor da produção para mim – em American Hustle. Muitas vezes, Russell deixa a trilha sonora tomar conta da produção, valorizando os astros que tem em suas mãos, assim como o restante do trabalho da equipe técnica. Decisões inteligentes. Ainda assim, do meio para o final, o filme perde em ritmo e fica um pouco cansativo. Mas esses são problemas do roteiro que, algumas vezes, pela verborragia, lembra o estilo Tarantino – mas sem a qualidade dele.

Outros elementos que valem ser mencionados: a direção de fotografia de Linus Sandgren; a edição do trio Alan Baumgarten, Jay Cassidy e Crispin Struthers; e principalmente o design de produção de Judy Becker; a direção de arte de Jesse Rosenthal e a decoração de set de Heather Loeffler – estes últimos três ajudam a nos ambientar no tempo da história com a mesma eficácia que o figurino e a trilha sonora.

American Hustle teria custado aproximadamente US$ 40 milhões. Uma pequena fortuna, e suficiente para fazer oito Dallas Buyers Club (filme comentado aqui no blog), por exemplo. Segundo o site Box Office Mojo, até hoje, dia 12 de janeiro, American Hustle teria conseguido quase US$ 101,6 milhões nas bilheterias dos Estados Unidos e mais US$ 17 milhões nos outros mercados em que já estreou. Ou seja: vai conseguir se pagar e obter algum lucro.

Esta produção estreou no dia 12 de dezembro na Austrália e, no dia seguinte, de forma limitada, nos Estados Unidos, onde estrou para valer uma semana depois. No dia 14 de dezembro American Hustle participou do único festival no qual marcou presença até agora, o Festival Internacional de Cinema de Dubai.

Até o momento American Hustle ganhou 32 prêmios e foi indicado a outros 76. Entre as indicações, estão sete no Golden Globes. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o AFI Awards como Filme do Ano; para seis prêmios de Melhor Atriz Coadjuvante para Jennifer Lawrence, assim como cinco para o grupo de atores como Melhor Elenco. Além de ser indicado a sete Golden Globes, American Hustle foi indicado a nove prêmios BAFTA. ATUALIZAÇÃO (13/01/2013): O Golden Globes acaba de ser entregue. American Hustle ganhou como o Melhor Filme – Comédia ou Musical, além dos prêmios de Melhor Atriz para Amy Adams e Melhor Atriz Coadjuvante para Jennifer Lawrence. A primeira, para mim, foi surpreendente. Lawrence sim, mereceu! Ela arrasa toda vez que aparece. Adams está em mais um bom trabalho, mas nada que saia da curva esperada. Foi muito bem no prêmio.

Agora, uma curiosidade sobre este filme: a cena da briga entre Christian Bale e Jennifer Lawrence no quarto foi improvisada. Ela não estava prevista no roteiro, mas como os atores estavam com um pouco de dificuldade de se conectarem com aquelas falas, o diretor resolveu deixar eles fazerem “do seu jeito”.

E eu ia quase terminando este post sem comentar a ponta mais luxuosa da produção: Robert De Niro faz um mafioso (claro!) chamado Victor Tellegio, que sempre está preocupado em uma rota de fuga e que gosta de parecer um “fantasma”, destes que ninguém vê.

Voltando para as curiosidades sobre a produção… Inicialmente a produção teria o título de American Bullshit. Ela figurava em oitavo lugar na Black List de Hollywood em 2010. Essa lista traz os títulos de roteiros que não conseguem ser produzidos.

Os personagens de Christian Bale, Bradley Cooper, Amy Adams, Jeremy Renner, Jennifer Lawrence, Louis C.K. e Robert De Niro foram escritos por David O. Russell pensando especificamente em cada um destes atores.

No início dos anos 1980 o diretor Louis Malle adaptou a história de Abscam em um roteiro, prevendo ter Dan Aykroyd e John Belushi como um agente do FBI e um vigarista, respectivamente. Mas a morte de Belushi em 1982 fez com que o projeto fosse abandonado.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Teria sido ideia de Amy Adams que Jennifer Lawrence lhe tascasse um beijo no banheiro.

A seleção musical é impressionante. Entre outras, canções de Duke Ellington (especialmente “homenageado” pelo filme), Jack Jones, Frank Sinatra (que tinha que fazer parte de uma produção sobre mafiosos), Ella Fitzgerald, Donna Summer, Tom Jones, Elton John, The Temptations, Santana, The Bee Gees e David Bowie. E para embalar a melhor sequência do filme, Live and Let Die, escrita por Paul McCartney e Linda McCartney e interpreta pelos Wings.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,9 para American Hustle. Achei ela bastante justa. Eu também pensei em dar um 7,8, por aí, mas pelo conjunto da obra deste filme decidi ser um pouco “generosa”. Apesar do roteiro fraquinho. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 215 textos positivos e apenas 17 negativos para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 93% e uma nota média de 8,2.

American Hustle é uma produção 100% dos EUA – o que engrossa a lista de filmes comentados por aqui e que satisfaz a uma votação feita no blog.

CONCLUSÃO: Gosto muito de ver a grandes atores em cena. E este filme… bem, uma das principais qualidades de American Hustle é o elenco estelar escalado para a produção. Mas o problema do filme é que ele surge em uma história recente de filmes feitos em Hollywood que resgatam a “alma” das décadas de 1970/80. Isso não seria um problema se a história fosse surpreendente. Mas nem o roteiro, que começa tão bem, consegue segurar o interesse até o final.

E daí que elementos como o elenco, a trilha sonora e o figurino acabam se destacando ainda mais – já que a história, por si só, não se revela tão instigante assim. American Hustle é destes filmes bem produzidos e que sempre será destacado nas premiações, mas que no final das contas não traz nenhuma grande história ou mesmo surpreende o espectador. Pelo contrário. Passatempo interessante, especialmente pela trilha sonora. E só.

PALPITES PARA O OSCAR 2014: Dentro de poucos dias vamos saber com quantas indicações American Hustle vai chegar no Oscar. No dia 16 sai a lista dos filmes com chances de ganhar estatuetas. Acompanhando as bolsas de apostas e os comentários dos especialistas dos Estados Unidos, percebi pouco a pouco como esta produção foi crescendo. Ela pode – e deve – ser indicada em várias categorias. Mas duvido muito que ganhe a maioria delas.

Na aposta dos críticos, o filme pode ter entre 10 e 12 indicações ao Oscar. Incluindo as categorias principais e as de caráter mais técnico. Francamente, acho mesmo que ele pode chegar a esse número – sendo otimista e também um pouco realista, já que a produção tem crescido nos últimos tempos.

Não será difícil para American Hustle ser indicado como Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator Coadjuvante, Melhor Atriz Coadjuvante, Melhor Design de Produção, Melhor Figurino, Melhor Maquiagem e Cabelo. Mas nestas categorias e nas demais em que pode chegar, o filme terá que disputar a quarta ou quinta vaga com outras produções em pé de igualdade – com exceção de Melhor Filme, onde podem ser indicados até 10 títulos.

Em outras categorias, como Melhor Ator e Melhor Atriz, o caminho de American Hustle é mais difícil… mas tudo vai depender do lobby e da força que o filme conquistou nos últimos tempos para colocá-lo em lugares que não eram tão previstos assim. Mas acho que seria uma grande surpresa se o filme conseguisse várias estatuetas. Meu palpite é que ele tem reais chances em Melhor Atriz Coadjuvante, para Jennifer Lawrence, e Melhor Figurino.

Talvez ele possa surpreender em Melhor Ator Coadjuvante, para Bradley Cooper, mas acho complicado – porque ele terá pela frente Michael Fassbender (12 Years a Slave, comentado aqui no blog) e Jared Leto (Dallas Buyers Club), que estão melhores em seus papéis, entre outros concorrentes. E até mesmo Jennifer Lawrence tem uma tarefa inglória, porque ela compete com Lupita Nyong’o (fantástica em 12 Years a Slave) e outros nomes fortes de filmes que eu ainda não assisti. Tarefa complicada para American Hustle ganhar alguma estatueta este ano! Logo veremos…