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Vice

Alguém que chega à Vice-Presidência de um país tem que ter influência e uma trajetória cheia de aliados. Mas algumas vezes alguns vice-presidentes parecem ter saído quase do anonimato. Esses, muitas vezes, são os mais perigosos. Vice nos conta a história de uma figura importante dos Estados Unidos que fez um bom estrago enquanto esteve no poder. Raposa antiga do sistema, ele soube inclusive moldar o próprio cargo, dando para o vice mais poder do que os Estados Unidos estão acostumados. Um filme interessante, muito bem construído e contundente na sua crítica. Uma das boas pedidas desta temporada do Oscar.

A HISTÓRIA: Começa dizendo que a história a seguir é real. Ou tanto quanto possível, levando em conta que Dick Cheney é considerado um dos líderes mais reservados da história. Mas eles comentam que fizeram o melhor. Em uma noite de jogos e bebidas, alguém urra alto. Na cidade de Casper, Wyoming, em 1963, um motorista dirige de forma arriscada. Dentro do carro, o jovem Dick Cheney (Christian Bale), que é abordado por um policial, que lhe manda sair do veículo. Ele está caindo de bêbado. Corta. Em 2011, esse mesmo Dick Cheney é levado para uma sala de segurança após os ataques do 11 de setembro de 2011 começarem. Ali ele começa a mudar a história dos EUA.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Vice): Quem diria que o grande vilão da administração George W. Bush (interpretado por Sam Rockwell) não foi o próprio Bush, e sim o seu vice-presidente Dick Cheney. Morando no Brasil, e não nos Estados Unidos, nós acompanhamos os bastidores políticos dos Estados Unidos totalmente em segundo plano. Quem mora por lá deve ter outra visão sobre Cheney e Bush.

Adoro filmes que tratam sobre os bastidores da política e sobre figuras que foram determinantes para a vida de um país – ou tiveram efeito maior do que as suas fronteiras, influenciando inclusive as relações internacionais. Volta e meia Hollywood nos apresenta um filme que vai além na análise política e econômica e que nos mostra as “engrenagens do poder”. Gosto de produções do gênero.

A última nesse estilo que concorreu ao Oscar de Melhor Filme foi, olhem a coincidência, uma produção também estrelada por Christian Bale – e que tinha Steve Carell no elenco. Falo de The Big Short (comentado por aqui), que tratava sobre o colapso gerado nos Estados Unidos, no setor imobiliário e que chegou ao setor financeiro, e que desencadeou a crise financeira global de 2008.

Entre os filmes que eu assisti esse ano, e que concorrem ao Oscar de Melhor Filme, Vice foi o que me pareceu mais ousado na sua proposta. O filme é crítico e tem um roteiro um bocado ácido e criativo acima da média. Mérito do roteirista e diretor Adam McKay. Sem dúvida alguma ele é o grande responsável pela proposta desta produção.

Mergulhamos na figura de Dick Cheney, um sujeito que foi preso duas vezes por fazer estripulias regadas a bebedeira quando jovem e que teria tudo para ser um americano comum e relativamente “fracassado” se não fosse a pressão e cobrança da esposa Lynne Cheney (Amy Adams), que exigiu que o marido tomasse outro rumo e recuperasse a compostura em 1963 – após a segunda prisão, desta vez por dirigir bêbado.

Na verdade, e isso é muito interessante, Cheney acaba sendo vice-presidente dos Estados Unidos na capa de George W. Bush, um outro sujeito que também teve vários problemas quando jovem e que poderia ter sido um “loser”. Ambos, contudo, seguindo caminhos diferentes e motivados por razões distintas, acabaram se tornando presidente e vice-presidente dos Estados Unidos, um dos países mais poderosos do mundo.

Adam McKay acerta na mosca na sua narrativa mostrando as sutilezas da história, como algumas decisões, em determinados momentos das vidas dos personagens retratados, foram decisivas para o rumo da história. Quando jovem, Cheney poderia ter seguido um caminho que o levaria a ter sempre empregos de segunda e se separar de Lynne. Mas, ao ser pressionado, ele resolve fazer algo diferente, e é assim que ele se torna assessor de outra figura muito conhecida na política dos Estados Unidos, Donald Rumsfeld (Steve Carell).

Para mim, o grande interesse de Vice é justamente nos apresentar um retrato muito próximo – e sem filtros – destas figuras famosas da política americana, especialmente Cheney, Rumsfeld e Bush. Com destaque para os dois primeiros nessa história – até porque ambos tiveram uma trajetória anterior à de Bush. O tom do filme, crítico, cínico e mordaz, destaca ele em relação à maioria dos filmes que concorrem ao Oscar nesse ano. Gostei disso. O roteiro de Vice, assim como a direção e a edição do filme, são as suas principais qualidades.

Gostei da “brincadeira” que McKay faz com os espectadores quando o filme não tinha chegado ainda à metade. Ele mostra um “final feliz” que teria sido possível, com Cheney deixando a política e trabalhando para o setor privado. Mas não é isso que acontece. Cheney, que, certa vez, pergunta para Rumsfeld no que eles, republicanos, acreditam – o que despertou gargalhadas do “mestre” Rumsfeld -, vislumbra que pode ser o vice-presidente mais importante da história dos Estados Unidos.

Para isso, ele consulta especialistas na Constituição americana e consegue colocar condições para Bush para que ele seja o vice-presidente. Cheney convence Bush a “dividir” mas o poder com ele, para que ele não seja apenas uma figura sem importância, e Bush aceita a proposta. Quando acontecem os ataques terroristas do dia 11 de setembro de 2001, Cheney coloca outra das suas ideias em cena: a teoria do Executivo Unitário, ou seja, que o poder executivo dos Estados Unidos pode ser considerado supremo, tomar decisões que não precisam respeitar convenções internacionais ou outros acordos e legislações. Ou seja, um poder “democrático” com requintes de poder ditatorial.

Foi essa teoria que fez com que a “guerra ao terror” fosse possível. A partir daí, criou-se Guantánamo e diversas outras estratégias e práticas que incluíram torturas de suspeitos e espionagem de todo e qualquer cidadão. Tudo isso, quem diria, não saiu da cabeça “alucinada” de George W. Bush, mas da teoria há muito tempo estudada por Cheney. A narrativa sobre a sua trajetória e sobre aqueles anos loucos da administração Bush são o principal atrativo e diferencial de Vice.

Além das qualidades já comentadas, gostei muito do trabalho dos atores que fazem parte desta produção, com destaque para Christian Bale, que encarnou muito bem Cheney, e de Amy Adams como a sua esposa. (SPOILER – não leia se você não assistiu a Vice). Um filme competente e muito bem acabado, mas que acaba “forçando” um pouco a barra com o narrador da história. Achei um tanto “viagem” demais de McKay colocar como narrador Kurt (Jesse Plemons), um sujeito que serviu o Exército dos Estados Unidos e que tem como “ligação” com o protagonista o fato de ter doado para ele, após ter tido morte cerebral após ser atropelado, o seu coração.

Até acho interessante a figura de um narrador para esta produção, mas a figura escolhida para isso, achei um tanto forçada. Vice também nos deixa um gostinho de “quero mais”, de sabermos sobre outras figuras poderosas que circundaram Bush e sobre o que aconteceu com Cheney depois que a história termina.

Ainda assim, o filme tem muito mais qualidades que defeitos, o que faz dele uma das produções mais interessantes do ano. Vale ser vista e pensarmos sobre ela. Afinal, mas do que nunca, deveríamos pensar sobre a trajetória e a história dos nossos governantes, estudando as suas origens, ligações e o que eles pensam. Do contrário, nossos países e o mundo podem seguir caminhos perigosos. Ou seja, Vice é um filme mais que atual. Ele é necessário.

NOTA: 9,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Estou atrasada com a publicação de críticas aqui no blog, devo dizer. Assisti à Vice há mais de uma semana. Em seguida, assisti ao último filme que faltava da lista de concorrentes a Melhor Filme no Oscar 2019 – ou seja, finalmente assisti a Bohemian Rhapsody. O que eu posso dizer sobre o que eu assisti? Que estamos em um dos anos mais fracos em relação aos concorrentes do Oscar do qual eu tenho lembrança. Na verdade, pouco a pouco, tenho visto os indicados ao Oscar nos convencerem menos do que gostaríamos. Sim, temos a ótimos filmes na disputa. Mas temos filmes inesquecíveis? Temos na lista produções que nos impactaram e que nos fazem torcer por elas? Para o meu gosto, não.

De todos os concorrentes deste ano, acho que Bohemian Rhapsody é o filme mais completo e “empolgante”. Ou seja, não será uma surpresa se ele ganhar como Melhor Filme. Além dele, eu gosto muito de Vice. Não acho que o filme tenha chances de ganhar na categoria principal hoje à noite, mas acho que ele é um dos dois melhores filmes do ano. Além de Bohemian Rhapsody, que me parece ser o favorito da noite, acho que Green Book tem alguma chance de se dar bem na categoria Melhor Filme. Logo mais veremos.

Como comentei acima, as maiores qualidades de Vice são o roteiro e a direção de Adam McKay. O diretor e roteirista dá o tom diferenciado desta produção, nos apresentando uma história bem focada em um personagem e nas pessoas que orbitaram ao redor dele, aprofundando-se o máximo possível no protagonista e nos apresentando com talento não apenas os bastidores da sua vida mas também o que as suas ações significaram para o mundo. Roteiro realmente brilhante, juntamente com a construção em imagens de sua narrativa.

Por isso, além da direção e do roteiro de McKay, destaco a excelente edição de Hank Corwin e a direção de fotografia de Greig Fraser. Vale comentar, ainda, a trilha sonora de Nicholas Britell; o design de produção de Patrice Vermette; a direção de arte de David Meyer, Brad Ricker e Dean Wolcott; a decoração de set de Jan Pascale e David Smith; os figurinos de Susan Matheson; e o excelente trabalho dos 23 profissionais envolvidos com o trabalho no Departamento de Maquiagem.

Do elenco, sem dúvida alguma o grande destaque é Christian Bale. Ele conseguiu emular Dick Cheney com perfeição – seu jeito de olhar, de andar e, principalmente, de falar. Impressionante o trabalho do ator. Conseguimos esquecer, muitas vezes, que é Bale quem está em cena – e pensamos em Cheney. Excelente trabalho e que poderá levar o ator a ganhar mais um Oscar – o grande nome que ele precisa “vencer” no Oscar hoje será Rami Malek, que também está ótimo como Freddie Mercury em Bohemian Rhapsody. Será uma disputa das boas.

Além de Bale, vale comentar o ótimo trabalho de Amy Adams como Lynne Cheney e de Steve Carell como Donald Rumsfeld – acho, inclusive, que Carell merecia mais uma indicação ao Oscar como coadjuvante do que Sam Rockwell como George W. Bush. Ainda que, claro, Rockwell esteja bem. Além deles, vale citar o bom trabalho de Alison Pill como a filha homossexual de Cheney, Mary; Eddie Marsan como Paul Wolfowitz, aliado de Cheney; Justin Kirk como Scooter Libby; LisaGay Hamilton em uma ponta como Condoleezza Rice; Jesse Plemons como Kurt, narrador da história; Bill Camp como Gerald Ford; Don McManus como David Addington; Lily Rabe como Liz Cheney, que segue os passos do pai; e Tyler Perry em uma ponta como Colin Powell.

Vice estreou nos Estados Unidos no dia 12 de dezembro de 2018. A produção participou de apenas dois festivais, desde então, o PAC Festival e o Festival Internacional de Cinema de Berlin. Em sua trajetória até o momento, Vice ganhou 28 prêmios e foi indicado a outros 115 – incluindo oito indicações ao Oscar 2019. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o de Melhor Ator – Musical ou Comédia para Christian Bale no Globo de Ouro 2019; o de Melhor Edição no BAFTA; e para outros 8 prêmios de Melhor Ator para Christian Bale.

Agora, vale citar algumas curiosidades sobre esta produção. O ator Christian Bale disse que, devido ao estilo de direção voltada para a improvisação de Adam McKay, ele teve que fazer mais pesquisas sobre o seu personagem para este filme do que qualquer outro papel que ele já tivesse desempenhado. Para improvisar dentro de seu personagem, Bale não precisava apenas “absorver” os maneirismos e o vernáculo de Dick Cheney como precisava, também, saber quais políticas, suas instâncias e abreviações o vice-presidente dominaria em qualquer momento da produção levando em conta a sua trajetória. Um trabalho realmente aprofundado e que convence.

Christian Bale engordou 45 quilos, raspou a cabeça, clareou as sobrancelhas e se esforçou para engrossar o pescoço para assumir a figura de Cheney. O ator disse que conseguiu engordar para o filme comendo muitas tortas. Realmente o trabalho dele é impressionante. Não sei se bato mais palmas para Bale ou para Malek, mas ambos estão fantásticos em seus respectivos papéis.

Como Cheney teve problemas cardíacos bem documentados durante a maior parte da sua vida adulta, Bale teve de estudar a prevenção de ataques cardíacos como parte de seu método de mergulho no personagem. O que ele aprendeu ajudou a salvar a vida do diretor Adam McKay, que teve um ataque cardíaco durante a pós-produção.

A atriz Amy Adams permaneceu com o seu personagem durante todo o tempo das filmagens, especialmente mantendo a voz diferenciada da sua personagem. Ela chegou a debater política com o diretor McKay com a voz de sua personagem. A atriz disse que essa foi a primeira vez que ela ficou imersa no personagem durante toda a filmagem.

Bale disse que essa foi a primeira vez que ele contou com um nutricionista para ajudá-lo a ganhar peso. Isso porque, desta vez, ele estava mais preocupado em manter a saúde do que quando era mais jovem.

Christian Bale e Dick Cheney fazem aniversário no mesmo dia, 30 de janeiro.

Esse é o primeiro filme de Hollywood que foca na vida real de um vice-presidente do país – normalmente o que vemos são filmes sobre homens que chegaram à Presidência.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme ainda). A sequência em que Bale “quebra a quarta parede”, ou seja, em que faz o seu personagem falar com os espectadores, foi sugerida pelo ator. Inicialmente McKay não tinha pensado naquela cena e estava um pouco resistente a incluí-la, mas ao ver o desempenho de Bale, ele resolveu utilizá-la. De fato, naquele momento, Bale dá um show de interpretação e demonstra como ele realmente mergulhou no personagem.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,2 para Vice, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 207 críticas positivas e 107 negativas para a produção – o que lhe garante uma aprovação de 66% e uma nota média de 6,7. O site Metacritic apresenta um “metascore” de 61 para Vice, fruto de 29 críticas positivas, 14 medianas e 11 negativas. Sem dúvida alguma é o filme com menor aprovação dos críticos entre aqueles que concorrem a Melhor Filme no Oscar 2019.

De acordo com o site Box Office Mojo, Vice teria arrecadado US$ 47,2 milhões nas bilheterias dos Estados Unidos e outros US$ 16,5 milhões nas bilheterias dos outros países em que o filme estreou. Ou seja, no total, o filme fez pouco mais de US$ 63,7 milhões, um bom resultado para um filme com uma carga tão fortemente política – o que, convenhamos, não é o perfil favorito da maioria do público.

Vice é uma produção 100% dos Estados Unidos, por isso esse filme passa a figurar na lista de produções que atendem à uma votação feita há algum tempo aqui no blog e que pedia por filmes made in USA.

CONCLUSÃO: Um filme que mergulha muito bem na história de um vice-presidente dos Estados Unidos que teve mais poder que o próprio líder do país. Bem narrado, com um roteiro ácido, crítico e que apresenta alguma inovação não apenas na narrativa, mas também na forma de apresentar essa história, Vice é um dos melhores filme do ano e desta temporada do Oscar. Entre os concorrentes deste ano, este é um dos melhores, especialmente por inovar na narrativa. Gostei muito da direção e do roteiro, e os atores estão muito bem. Mereceu as indicações recebidas, mas deve levar poucos prêmios para casa. Espero que mais filmes assim surjam. Filme político, crítico e necessário.

PALPITES PARA O OSCAR 2019: Vice concorre a oito prêmios na premiação da Academia de Arte e Ciência Cinematográfica de Hollywood. O filme teve muitos méritos para chegar a essas indicações. A produção concorre como Melhor Ator Coadjuvante para Sam Rockwell; Melhor Atriz Coadjuvante para Amy Adams; Melhor Edição; Melhor Ator para Christian Bale; Melhor Diretor para Adam McKay; Melhor Maquiagem e Cabelo; Melhor Filme; e Melhor Roteiro Original.

Vamos começar com as chances de Sam Rockwell. O ator está bem como George W. Bush, mas ele aparece relativamente pouco no filme e não me pareceu que faz aquela graaaaande interpretação. Faz um bom trabalho, mas não realmente marcante. Entre ele e Mahershala Ali, sem dúvida Ali tem o favoritismo e deve receber o Oscar.

Amy Adams tem uma importância maior em Vice e está muito bem, mas tanto Emma Stone quanto Rachel Weisz em The Favourite (comentado aqui) apresentam trabalhos mais marcantes. Além delas terem chances maiores que Adams, tudo indica que a favorita do ano é Regina King por If Beale Street Could Talk. A confirmar esse favoritismo.

Em Melhor Edição, o filme tem grandes concorrentes pela frente. Mas o trabalho de Hank Corwin é realmente muito bom e interessante. Gosto muito também do trabalho de edição de BlacKkKlansman (com crítica neste link), mas considero que The Favourite também tem boas chances. Difícil apostar nessa categoria, mas Vice até poderia levar a estatueta em edição.

Depois, temos a categoria de Melhor Ator e a indicação para Christian Bale. Ele realmente tem boas chances de levar ao prêmio mas, para isso, terá que vencer a queda de braços com Rami Malek, de Bohemian Rhapsody. Viggo Mortensen faz um grande trabalho em Green Book (com crítica neste link), mas parece que ele corre por fora nesse ano. O favorito, me parece, é realmente Christian Bale. Se ganhar, não será injusto – ainda que eu tenha uma certa quedinha pelo ator Rami Malek e acho que ele merecia ser reconhecido.

Temos ainda Adam McKay concorrendo como Melhor Diretor, em um ano em que dificilmente tirarão o prêmio de Alfonso Cuarón, por Roma (comentado aqui). Vice tem grandes chances de ganhar na categoria Melhor Maquiagem e Cabelo. Em Melhor Filme, apesar de merecer, dificilmente Vice terá chances reais de levar. Os favoritos deste ano, me parecem, são os filmes Bohemian Rhapsody – o próximo na minha lista -, Green Book ou The Favourite. Para o meu gosto, por ordem de preferência, os favoritos seriam Vice, The Favourite e Green Book.

Finalmente, Vice concorre em Melhor Roteiro Original. Categoria com grandes títulos na disputa nesse ano. Roma e Green Book parecem levar vantagem nesta disputa, mas estão no páreo, ainda, The Favourite e Vice. Assim, no cômputo geral, Vice tem chances reais de levar estatuetas em três categorias: Melhor Ator para Christian Bale, Melhor Maquiagem e Cabelo e Melhor Edição. Pode surpreender ainda em alguma outra categoria, mas acho difícil. E pode, eventualmente, levar apenas em Melhor Maquiagem e Cabelo.

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Nocturnal Animals – Animais Noturnos

A arte, em suas mais variadas formas, é feita de paixão, de entrega, de exposição e de uma mistura intricada entre fantasia e realidade. Nocturnal Animals trata de dois tipos de arte – três, se pararmos para pensar – e sobre como a ligação de dois artistas/amantes pode perdurar apesar do tempo, da distância e de feridas que nunca foram curadas. Um filme interessante, que nos apresenta um roteiro apenas regular, mas que tem uma apresentação e uma “entrega” exemplares. Nocturnal Animals é envolvente, interessante nos detalhes e na narrativa, mas não é nada que você já não tenha visto antes (de alguma forma).

A HISTÓRIA: Uma música marcante, serpentinas e mulheres obesas, de meia idade ou mais, dançando com partes dos trajes típicos das bandas marciais. Essas mulheres fizeram parte do trabalho de Susan Morrow (Amy Adams), que expôs a sua arte na galeria que ajuda a administrar. Enquanto vemos as cenas da exposição, vemos também as imagens das artérias da cidade movimentada. Susan fica até o final do evento e vai para casa. Ela chega tarde e, pouco depois, outro carro chega no local. No dia seguinte, Susan recebe uma encomenda, um manuscrito do novo livro de Edward (Jake Gyllenhaal).

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Nocturnal Animals): O roteirista e diretor Tom Ford começa este seu novo filme trabalhando de forma contundente com a nossa noção de beleza e estética. Ele acerta um direto no padrão de mulher bonita que a sociedade considera e, de quebra, questiona como as aparências enganam. Tudo isso através do trabalho da protagonista em sua mais nova exposição.

A introdução do filme, que apresenta mulheres obesas, a maioria em idade mais avançada, nuas e com alguns adornos, apenas, é um tipo de cartão de visitas sobre a quebra de “paradigmas” que este filme nos apresenta. A ideia de que as aparências enganam e que os padrões estão aí para serem quebrados é uma constante na produção. Afinal, além daquelas cenas iniciais, a própria vida e escolhas da protagonista também foram baseadas em escolhas um tanto equivocadas e que sempre giraram em torno da tentativa dela de negar os padrões familiares.

Mas antes de falarmos disso, vamos retomar um pouco a lógica da produção que tem roteiro de Ford baseado no livro de Austin Wright. Depois daquela introdução desafiadora para os padrões estéticos do que a sociedade considera belo, Nocturnal Animals logo faz uma apresentação interessante da protagonista.

Em pouco minutos percebemos que, apesar de casada e de ser uma “artista de sucesso”, Susan se sente sozinha e insegura com o próprio talento e trabalho. Na manhã seguinte da abertura da última exposição dela, Susan recebe o manuscrito do novo livro do ex-marido. Enquanto ela vê o marido, Hutton Morrow (Armie Hammer), cada vez mais distante, tanto física quanto amorosamente, Susan mergulha na obra de Edward e, consequentemente, nas lembranças sobre o relacionamento que teve com ele. De quebra, revisita os seus próprios sentimentos.

Desta forma, temos duas narrativas que correm paralelas e que vivem se entrelaçando: aquela em que Susan questiona a sua vida atual, revisita o passado e fantasia sobre o futuro; e aquela em que a história contada por Edward se desenvolve. Todo filme com duas narrativas paralelas em desenvolvimento já se torna interessante apenas por isso, pela dinâmica que a produção acaba tendo, naturalmente. Mas Nocturnal Animals apresenta um interesse diferenciado porque vive jogando com dois elementos que mexem tanto com as pessoas e a sociedade: a violência e o desejo sexual.

A melhor parte do filme, sem dúvida alguma, é aquele mergulho inicial que Susan faz no livro de Edward. Vários filmes já exploraram o “terror em uma rodovia” como a história de Edward nos apresenta, mas Tom Ford faz um trabalho de excelência na direção neste momento do filme, despertando no público a tensão e o interesse necessário para que encaremos o restante da produção. A história contada por Edward mistura ficção, fantasia e realidade (ele seleciona alguns elementos familiares para Susan e insere na narrativa) em uma narrativa violenta que, claramente, tem requintes de atração e de vingança relacionados a ex-mulher.

O texto de Edward não é apenas evolvente em relação a qualquer público. Ele parece matematicamente planejado para mexer com Susan. E aí está a vingança maior de Nocturnal Animals. Este sentimento não move apenas o personagem principal do livro, Tony Hastings, também vivido pelo ator Jake Gyllenhaal. O senso de vingança parece mover também Edward, que quer tirar Susan da inércia, provocá-la e, depois, deixá-la esperando em vão no restaurante.

Interessante que ao escrever a sua obra-prima, Edward trata bem da vingança e demonstra, no final, que ela concretizada não traz paz alguma. Através do personagem de Tony ele mostra que cobrar uma dívida na mesma “moeda” não traz conforto, esperança ou o amor e a presença de quem perdemos no processo. Tony já estava “morto” quando terminou a sua vingança, como provavelmente o próprio Edward estava quando se “vingou” de Susan.

Por sua parte, Susan demonstra que sempre podemos nos arrepender e rever as nossas próprias vidas mas que, nem sempre, isso é suficiente para mudar o que foi feito. Como o próprio livro de Edward argumenta, há erros/crimes que por mais que tentemos consertar, jamais terão conserto.

No fim das contas, este filme quebra alguns pré-conceitos e nos conta uma história de vingança e de amor frustrado. Eis uma narrativa de bastante desesperança e um tanto amarga no final. Um filme envolvente, bem conduzido, com ótimos atores e que nos apresenta uma história não exatamente nova. É uma produção competente sobre algo que já vimos antes. Vale como experiência, mas não é nada que ficará na memória por muito tempo.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Muito bem, meus bons amigos e amigas do blog. Agora sim, posso dizer que assisti ao que ainda faltava da temporada Oscar 2017. Claro que ainda tenho um documentário da lista de indicados para assistir, assim como os filmes que foram selecionados para representar os seus países no Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira. Mas isso vou fazendo aos poucos e sem pressa. Das categorias centrais do Oscar, contudo, já posso dizer que assisti a tudo que eu considerava mais importante. Tarefa cumprida, pois.

Assisti a Nocturnal Animals há umas duas ou três semanas. Escrevi este texto sobre o filme em diferentes dias. Então me perdoem se alguma parte da crítica estiver um tanto “deslocada” em relação às outras partes, mas os próximos textos serão mais coesos. Nestas últimas semanas passei por uma certa correria e por um tempo longe da internet, por isso esta crítica meio “atabalhoada”.

Tom Ford faz um trabalho competente na direção de Nocturnal Animals. Ele sabe tanto dar ritmo para o filme, especialmente na narrativa da obra de Edward, quanto sabe valorizar os ótimos atores que tem em cena. Mais uma vez Amy Adams e Jake Gyllenhaal mostram porque são dois atores dos mais talentosos de suas gerações. Sem dúvida a direção cuidadosa de Ford e a interpretação dos dois atores são o ponto forte do filme.

O roteiro de Ford, baseado na obra de Austin Wright, flui bem, ainda que tenha uma introdução muito longa, para o meu gosto, e que seja um bocado previsível. Mas a direção de Ford compensa um pouco a falta de originalidade da história. Me chamou a atenção o tom sombrio da produção, com uma direção de fotografia de Seamus McGarvey bastante “noturna” e/ou obscura durante boa parte do tempo.

Da parte técnica do filme, vale ainda comentar a competente edição de Joan Sobel, a trilha sonora de Abel Korzeniowski, os figurinos de Arianne Phillips, o design de produção de Shane Valentino, a direção de arte de Christopher Brown, a decoração de set de Meg Everist e o trabalho dos 10 profissionais envolvidos no departamento de maquiagem.

Nocturnal Animals teria custado US$ 22,5 milhões e faturado, nos Estados Unidos, cerca de US$ 10,6 milhões. Nos outros países em que o filme estreou ele fez outros US$ 18,6 milhões, somando cerca de US$ 29,25 milhões – ou seja, não chegou a obter lucro, até porque além dos custos da produção, sempre devemos calcular os gastos com a distribuição e a divulgação. Ou seja, o filme não foi um sucesso.

Esta produção foi toda rodada na Califórnia, em locais como Malibu, Los Angeles e Mojave Desert.

Ainda que o filme não tenha ido muito bem nas bilheterias, ele se saiu muito bem na negociação para ser distribuído mundialmente. A Focus Features teria pago US$ 20 milhões pelos direitos de distribuição de Nocturnal Animals em uma disputada concorrência após o filme ser exibido em Cannes. Aliás, esse é o valor mais alto pago por um filme em um festival.

A atriz Isla Fisher disse que a sequência noturna no deserto de Mojave durou cerca de 10 dias e que foi uma experiência cansativa e emocionalmente desgastante. Ela ficou aliviada quando o filme foi finalizado. Eu posso imaginar…

Nocturnal Animals ganhou 15 prêmios e foi indicado a outros 127, incluindo a indicação ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante para Michael Shannon. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o Globo de Ouro de Melhor Ator Coadjuvante para Aaron Taylor-Johnson (que interpreta ao vilão Ray Marcus) e para o Grande Prêmio do Júri – Leão de Prata para Tom Ford no Festival de Cinema de Veneza.

Além dos atores principais, que roubam a cena, vale comentar o bom trabalho de Michael Shannon como o delegado Bobby Andes; Aaron Taylor-Johnson como um dos algozes da história de Edward, Ray Marcus; Isla Fisher como a mulher do personagem Tony Hastings, Laura; Ellie Bamber como India Hastings, filha de Tony e de Laura; Armie Hammer em uma “ponta de luxo” como Hutton Morrow, marido de Susan; Laura Linney em outra super ponta como Anne Sutton, mãe de Susan; Karl Gusman como Lou, outro dos bandidos; e Robert Aramayo como Turk, o último do trio de bandidos que vitimiza Laura e India.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,5 para esta produção, enquanto os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 171 críticas positivas e 62 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 73% e uma nota média 7. Especialmente a média de avaliação do IMDb é boa, mas os críticos do Rotten Tomatoes foram mais reticentes. E eles tem razão.

Esta é uma produção 100% dos Estados Unidos. Por isso o filme passa a constar na lista de produções que atendem a uma votação feita há algum tempo por aqui.

CONCLUSÃO: A vingança é um prato que se come frio, como já nos ensinaram há tanto tempo. Nocturnal Animals nos conta, essencialmente, uma história de vingança. Muito tem orquestrada, diga-se. Com um roteiro bem escrito, ainda que ele não seja exatamente surpreendente, Nocturnal Animals mexe com paixões e com os efeitos das escolhas que os personagens fazem. Tom Ford sabe trabalhar e desconstruir a noção do belo, questionando noções básicas como a violência, a vingança e o amor. Interessante na proposta, mas um tanto previsível demais, Nocturnal Animals apresenta belas atuações do elenco e uma narrativa envolvente. Pena que no final tudo pareça tão simples e tão óbvio.

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Arrival – A Chegada

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Este filme é recomendado para quem gosta de ficção científica, de ciência pura e dura e de comunicação. Se você não está neste grupo, pense bem antes de assistir a Arrival. Digo isso porque, me perdoem a expressão, mas esse filme é cabecice pura. Sim senhor, sim senhora. Arrival leva várias questões dos fãs de ficção científica para outro patamar. Por mais que desconfiemos de algo aqui e ali, é só no final mesmo que o filme faz todo o sentido. E é aí que você percebe a genialidade da história. Mais um grande filme do Sr. Dennis Villeneuve.

A HISTÓRIA: Da sala de uma casa vemos a uma linda paisagem. Louise Banks (Amy Adams) está admirando a filha, ainda bebê. Na sequência, ela aparece sentada e pede para a filha voltar para ela. Depois, Louise aparece brincando com Hannah (Abigail Pniowsky) maiorzinha. A menina corre, sorri, mas depois Louise aparece chorando no hospital e se despedindo da filha. “Volte para mim”, Louise diz novamente.

Após comentar que não sabe exatamente onde está o começo ou o fim, Louise afirma que existem dias que “definem a sua história além da sua vida”. Então ela recorda do dia em que “eles” chegaram. Ela percebe a sala bastante vazia, na universidade, e então fica sabendo que naves estacionaram em 12 locais do mundo. Assim começa a história do envolvimento de Louise com a chegada de seres de fora do Planeta.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu à produção Arrival): Este é um filme em que não dá para dormir no ponto. Como é preciso ter atenção em cada detalhe, também não é recomendado assistir a Arrival cansado. Outros filmes já trataram de extraterrestres e da forma com que a Humanidade lidou com ele em uma possível “invasão” ao nosso Planeta. Mas Arrival leva o tema para um outro patamar.

Na verdade, por incrível que possa parecer, este filme segue a linha do diretor Denis Villeneuve em desbravar alguns dos principais dilemas individuais e coletivos das sociedades. Temos dilemas morais aqui, como em outros filmes dele, e mais que uma produção sobre extraterrestres, esta é uma produção sobre pessoas, seres humanos. Essa é uma das questões brilhantes do filme, mas ela não é a única.

Voltemos um pouquinho. Para começar, mais uma vez, Villeneuve trabalha bem com a questão temporal da história. A exemplo do que vimos antes em Prisoners (comentado aqui) e em Enemy (com crítica neste link), em Arrival, novamente, não temos certeza sobre a ordem dos fatos. Afinal, em que momento os acontecimentos que abrem esta produção estão situados?

A impressão que o roteiro de Eric Heisserer, baseado na história “Story of Your Life” de Ted Chiang, nos dá é que aquele começo são lembranças da protagonista sobre o que aconteceu com a filha dela. Só muito mais para a frente é que vamos saber exatamente do que se trata. Villeneuve a cada filme mostra o seu talento para a narrativa. Depois daquela introdução das memórias de Louise, mergulhamos na ação propriamente dita. A protagonista acompanha as notícias pela TV, como a maioria da população do mundo, mas por ser uma reconhecida especialista em linguística, ela acaba sendo chamada pelo Exército americano, mais especificamente pelo coronel Weber (Forest Whitaker) para ajudar.

Como já foi mostrado em outros filmes, sendo o clássico Close Encounters of the Third Kind talvez o exemplo mais conhecido, a comunicação é um elemento-chave em um encontro de humanos com seres extraterrestres. De forma magistral e irretocável Villeneuve vai construindo a expectativa e a tensão até que pessoas comuns como Louise e o físico Ian Donnelly (Jeremy Renner) se encontrem com os seres extraterrestres. A escolha é a acertada e funciona muito bem porque cria, desde o início, a empatia no público. Teria sido muito diferente mostrar “uma palhinha” de um encontro de um grupo de militares, por exemplo, como ocorreu no primeiro contato.

A primeira cena impactante é quando o público vê a nave. Impossível para mim, naquele momento, não lembrar do final de outro clássico, 2001: A Space Odyssey. Aliás, lembrei muito destes dois clássicos enquanto assistia a Arrival. E isso só fez ficar mais claro, para mim, como o filme de Villeneuve leva produções deste gênero para outro patamar. Diferente de outros filmes que apostam no confronto e na guerra entre humanos e extraterrestres, estas outras produções tem em comum um olhar muito mais cuidadoso, atento, e que observa, sobretudo, o nosso comportamento em relação ao diferente e ao estranho do que realmente os efeitos destes contatos.

De forma inteligente, o roteirista e o diretor de Arrival constroem a narrativa em um crescente. A primeira tensão é o encontro inicial dos protagonistas com os seres que eles deverão “desvendar”. Depois entra a parte superinteressante e lógica do trabalho linguístico de Louise. Enquanto os militares tem pressa para uma resposta, achando que ela virá simples em um entendimento sobre sons que eles nem sabem se tem algum significado, Louise mostra que é preciso sair do “modelo mental” humano e buscar conhecer a forma com que os seres de fora da Terra pensam.

Esta é a grande sacada do filme, a meu ver. E a grande explicação para o que a história nos revela está em um diálogo entre Louise e Ian. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Em determinado momento, quando todos trabalham para compreender a linguagem dos extraterrestres mas ainda não chegaram a parte alguma, Ian pergunta para Louise se ela já está sonhando no idioma deles. E daí ele observa que quando uma pessoa realmente mergulha em um outro idioma, ela passa a pensar de outra forma, a ter a compreensão do mundo modificada e, consequentemente, começa a “sonhar” naquele idioma.

Aí está a grande resposta para o enigma de Arrival. Até então eu ficava me pergunta qual era a razão de, volta e meia, Louise ficar lembrando de momentos com a filha. A primeira resposta, e a mais óbvia, é que fatos do presente estavam fazendo ela relembrar de momentos com Hannah. Essa é a forma linear de pensar, acreditando que a vida tem começo, meio e fim e que, consequentemente, nossa memória também funciona assim. Só que Louise descobre depois de investigar a linguagem dos extraterrestres que eles não tinham uma forma de comunicação linear.

A “viagem” do argumento de Arrival é que se eles não tinham uma linguagem linear, eles também não pensavam ou viam a realidade de forma linear. Desta forma, de fato não existiria passado, presente e futuro, mas todo o conhecimento de alguém que tivesse essa forma de comunicação e, consequentemente, este mapa mental seria também não-linear. Ou seja, atemporal. A genialidade de Arrival ao ter este argumento é que conforme a especialista em linguística Louise ia realmente entendendo a forma de comunicação não-linear, ela própria passava a ver o mundo desta maneira. Assim, ela passou a vivenciar o futuro com a filha que nem havia nascido. Genial, não?

Enquanto todos os outros estavam com pensamento linear, Louise começou a enxergar a realidade de forma não-linear. Mas a compreensão dela, assim como a de qualquer um de nós que se aventura em um novo idioma e em uma nova forma de pensar, vai acontecendo aos poucos e de forma gradativa. Só perto do sinal que ela tem tudo claro. Por isso aquela sequência aparentemente maluca dela com o general Shang (Tzi Ma), manda-chuva da China, faz sentido.

No presente ela não sabia como evitar uma catástrofe mundial, mas conforme o entendimento dela ia ficando mais claro, ela foi buscar “no futuro” a resposta do que ela deveria dizer para Shang. Alguém que pensa de forma linear pode dizer: “Mas não faz sentido, como Shang poderia estar lembrando para ela sobre algo que ela contou para ele no passado se o passado ainda não tinha acontecido e, consequentemente, aquela cena da festa de lançamento do livro dela após o conflito resolvido também não seria uma realidade ainda”.

A questão, e a grande sacada deste filme é esta, é que quando Louise passa a pensar da mesma forma que os extraterrestres, ela tem conhecimento sobre todo o espaço temporal, inclusive do que acontece no futuro. Isso não impede, claro, que ações diferentes dela no presente não modifiquem o futuro. Mas ela tem acesso a conhecimentos prováveis do futuro e, com isso, consegue agir no presente e tomar decisões. Por um tempo depois de ter assistido ao filme me pareceu sem sentido, ainda assim, as cenas iniciais de Arrival.

Afinal, eu ficava pensando, não fazia sentido aquele começo de Louise indo para casa sozinha, como se já tivesse sido abandonada pelo marido e tivesse perdido a filha, e depois ela entrando na missão dos extraterrestres. Afinal, a história de Hannah estava no futuro. Mas aquele começo se explica não como um fato linear, e sim como lembranças de Louise depois que tudo aquilo tinha acontecido. É como se fosse uma introdução para a história que, a partir da chegada dos extraterrestres, volta para trás no tempo.

Enfim, diferente do que pensei inicialmente, Arrival não tem furos. Ele faz sentido, especialmente se você entende a proposta da não-linearidade. Uma dúvida que acho que muitos podem ter é porque no futuro Ian ia abandonar Louise quando ela contou para ele que Hannah iria morrer se ele, como ela, poderia ter a compreensão completa do tempo. Se fosse assim, ele já saberia o que iria acontecer com a filha antes mesmo dela nascer.

Para mim, a explicação para isso é simples: como acontece com diferentes idiomas que temos no mundo atualmente, nem todo mundo tem a capacidade de dominar certas linguagens. Há pessoas que aprendem, que mergulham e que realmente passam a pensar em outro idioma, mas tem outros que não tem esta capacidade. Ian era uma destas pessoas que certamente não entendeu/decifrou profundamento o idioma extraterrestre. Louise escreve um livro sobre aquela linguagem, mas certamente poucas pessoas no mundo tiveram a capacidade dela para realmente compreender o “presente” deixado pelos visitantes de fora da Terra.

Achei a premissa de Arrival brilhante, assim como a forma com que o filme é construído. A narrativa fragmentada e cheia de inserções de diferentes tempos da história de Louise é intricada, não é simples de entender. Mas é brilhante por realmente mergulhar e demonstrar o que a história quer nos mostrar de diferenciado em relação a filmes do gênero. A linguagem e a descoberta dela é fundamental para qualquer relação, e isso fica evidente neste filme.

Além das ponderações envolvendo a linguagem e a comunicação, gostei também de como o filme se debruça na raça humana. Este é outro atrativo da produção. Arrival mostra claramente como, apesar do início as diferentes nações colaborarem entre si, passado algum tempo predomina a característica egoísta e competitiva do ser humano. Isso é demonstrada pela “guerra fria” entre a China, os Estados Unidos e outros países. A tão falada geopolítica se apresenta com toda a sua divisão quando alguns países se sentem ameaçados e querem demonstrar mais força que os outros.

Neste sentido, Arrival apresenta algumas reflexões importantes sobre o nosso mundo. Primeiro, o pavor e o medo das pessoas sobre o desconhecido. Há revolta, depredação e falta de civilidade em várias partes do globo quando as naves aparecem. Depois, conforme o tempo passa e as nações não encontram respostas, a insegurança dos governos também marca posição. Como aconteceu com o 11 de Setembro e em outras ocasiões, a resposta para o medo é a ameaça e o confronto. Primeiro acabam as cooperações entre os países e, depois, muitos se armam para confrontar uma presença que eles não entendem. E quando você não entende, você se sente ameaçado.

Então Arrival não apenas apresenta um conceito interessante e diferenciado sobre o que motivaria a “visita” de extraterrestres na Terra, mas também nos coloca frente a um grande espelho. Como sugere um dos extraterrestres, eles estão “ajudando” a Humanidade desde os primórdios e, desta vez, vieram entregar a sua forma de se comunicar e de “pensar” para que tenhamos um entendimento completo do tempo. Desta forma, se este conhecimento for bem utilizado, catástrofes podem ser minimizadas e guerras podem ser evitadas. Em troca os extraterrestres querem ajuda nossa no futuro. Fica em aberto a razão para isso, mas não deixa de ser inteligente.

O filme precisa de muita atenção, até porque tem várias “interferências” de outros tempos no “presente” da protagonista, mas Arrival é construído de forma inteligente e funciona muito bem. Para finalizar, a produção reflete sobre algo que o brasileiro Pequeno Segredo (comentado aqui) também aborda: como você agiria frente a uma criança que você sabe que vai morrer e que é a sua filha? Você cuidaria para que ela fosse o mais feliz possível ou, de alguma forma, você evitaria aquele sofrimento.

Se em Pequeno Segredo o casal Schürmann deve decidir se vai ou não adotar uma menina que eles sabem que não deverá viver muito tempo, em Arrival Louise deve decidir se vai casar com Ian e ter uma filha com ele sabendo que ela vai morrer ainda jovem. Nos dois casos as duas mulheres optam por viver ao máximo ao lado de suas filhas, cuidando para dar todas as oportunidades de felicidade para elas e sem escapar da dor. Tocante. E nos faz pensar sobre as nossas próprias escolhas e sobre a vida. Ela é bela não porque não tenha dor e sofrimento, mas porque aprendemos com absolutamente tudo, especialmente na relação amorosa com as pessoas, e nisto está a sua beleza.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Não é impossível que, conforme eu vá assistindo aos outros favoritos ao Oscar, eu reveja a nota acima. Na verdade, mesmo agora eu fiquei muito em dúvida sobre que avaliação dar para Arrival. A indecisão estava entre o 10 acima e uma nota mais “modesta” como um 9,8. Mas decide dar a nota máxima porque, realmente, não vi nenhum defeito neste filme. O “furo” na história que eu achei que Arrival tinha acabou ficando claro depois de pensar um pouco mais. Arrival é bem redondo e bem acabado, então merece um ótimo conceito.

A direção de Denis Villeneuve, irretocável, e o ótimo roteiro de Eric Heisserer são realmente destaques importantes da produção. Mas não são os únicos. Amy Adams estava inspirada nesta produção, mostrando muita maturidade na interpretação e também muita veracidade na condução de sua personagem. Jeremy Renner está bem, mas ele fica um pouco eclipsado pela parceira de cena. Além deles, os outros atores tem papéis bem secundários, sem nenhum grande destaque.

Da parte técnica do filme, gostei muito da direção de fotografia difícil e bem planejada e executada de Bradford Young. Também funcionam bem a edição de Joe Walker, a trilha sonora muito pontual de Jóhann Jóhannsson, o ótimo e interessante design de produção de Patrice Vermette, o departamento de som com um trabalho incrível de uma equipe de 33 profissionais, os efeitos especiais com cinco profissionais e os efeitos visuais envolvendo impressionantes 358 profissionais – sim, isso mesmo que você leu, uma equipe gigantesca de 358 profissionais. Não lembro de ter visto a um outro filme, pelo menos recentemente, que tenha envolvido uma equipe tão grande que trabalhou nos efeitos visuais da produção. Realmente o trabalho de toda esta equipe é impressionante e fundamental para Arrival.

Sobre o elenco, além dos atores que eu já destaque, vale citar o bom trabalho – ainda que sem graaaande expressão – dos atores Forest Whitaker como o coronel Weber, que convoca Louis e Ian; Michael Stuhlbarg, que interpreta o agente Halpern, que está coordenando as ações em Montana; Tzi Ma como o general Shang, presidente da China; Abigail Pniowsky como a Hannah de oito anos de idade; Mark O’Brien como o capitão Marks, um dos militares incomodados com a “falta de ação” contra os extraterrestres; Jadyn Malone como a Hannah de seis anos de idade; Julia Scarlett Dan como a Hannah com 12 anos de idade; e Carmela Nossa Guizzo como a Hannah de quatro anos.

Arrival estreou no Festival de Cinema de Veneza no dia 1º de setembro. Até o final de outubro ele participou e outros 12 festivais, uma verdadeira maratona, e em novembro, de mais dois. Com esta trajetória o filme conseguiu um prêmios e foi indicado a outros 13. O único que ele recebeu, até agora, foi o Silver Frog no Camerimage.

Esta produção, que teria custado cerca de US$ 47 milhões, faturou apenas nos Estados Unidos cerca de R$ 67,8 milhões. Nos outros países em que já estreou o filme fez outros US$ 32,2 milhões. Batendo a marca de US$ 100 milhões e tendo muito ainda para faturar, Arrival é uma produção que sairá no lucro apesar do seu alto custo.

Arrival foi totalmente rodado no Canadá, em lugares como Montreal e Bas-Saint-Laurent. Entre outros locais, um dos pontos que foi aproveitado como cenário da produção foi a Universidade de Montreal.

Agora, algumas curiosidades sobre esta produção. O diretor Denis Villeneuve e o roteirista Eric Heisserer criaram uma linguagem visual alienígena funcional. Eles criaram um tipo de “glossário” de logogramas com 100 tipos diferentes de imagens com “significados”, sendo que 70 delas são vistas no filme.

Na história de Ted Chiang, desembarcam na Terra 112 naves muito menores dos que as apresentadas no filme. Mas, sem dúvida, para o cinema, funcionou melhor a escolha feita pelos realizadores de Arrival.

Antes das filmagens começarem, Amy Adams não sabia falar mandarim. Mas ela acaba tendo que dizer uma frase neste idioma em certo momento. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Aliás, a frase que o general Shang sussurra para ela e que teria sido dita pela mulher dele no leito de morte foi: “Na guerra não existem vencedores, apenas viúvas”. Uma boa frase para ele repensar o que estava prestes a fazer na história, realmente.

Descobri algumas coisas interessantes ao ler as notas da produção. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Inicialmente o filme teria “presentes” diferentes deixados pelos alienígenas em cada um dos oito países em que eles pararam as suas naves. Mas Villeneuve mudou de ideia após assistir a Interstellar. Ele não queria que um filme lembrasse o outro. A exemplo de quando Louise conta para Hannah que ela tinha recebido este nome porque ele era um palíndromo, o próprio filme e a última música que aparecem nele também são um palíndromo. Ou seja, as cenas iniciais do filme são também como a produção termina, uma forma de mostrar que a linguagem e a forma de pensar dos extraterrestres que nos é “presenteada” e compreendida por Louise não é linear e nem tem início, meio ou fim.

Denis Villeneuve é, sem dúvida alguma, um dos novos diretores que vale a pena acompanhar. Gostei muito dos dois filmes anteriores dele, que eu citei lá mais no início deste texto. Além deles, sei que tem outros filmes de Villeneuve que eu perdi e que foram bem elogiados – um dia, ainda, quero assisti-los. A próxima produção dirigida por ele também promete. Ele já está trabalhando na pós-produção de Blade Runner 2049, filme que dá continuidade para o clássico de Ridley Scott e que tem no elenco, entre outros nomes, Robin Wright, Harrison Ford, Ryan Gosling, Jared Leto, Barkhad Abdi, entre outros. Promete.

Assisti a este filme no cinema, e ele realmente pede ser apreciado em uma telona e com um grande som.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,4 para Arrival, enquanto os críticos do site Rotten Tomatoes dedicaram 248 críticas positivas e 18 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 93% e uma nota média de 8,4. Tanto a nota do público quanto da crítica comprovam que o filme foi aprovado por estes dois públicos e que está bem credenciado para emplacar alguns prêmios e indicações daqui para a frente.

Esta é uma produção 100% dos Estados Unidos.

CONCLUSÃO: Que filme, meus amigos! Ainda que ele não ignore outras referências de filmes com “contatos alienígenas”, ele nos leva a outro patamar neste tipo de produção. Mais do que nos fazer pensar sobre os “visitantes”, Arrival nos faz refletir sobre nós mesmos e sobre o tipo de organização global em que estamos. Este é um nível de análise. Mas há outro existencialista e um terceiro sobre a importância da comunicação. De forma muito genial o filme nos constrói uma narrativa que fará sentido realmente no final.

Com um roteiro primoroso, ótimos atores e uma direção competente, Arrival é realmente uma das grandes pedidas deste período pré-Oscar. Mais uma vez o diretor Dennis Villeneuve soube me conquistar. Por pouco ele não apresenta nenhum furo ou defeito. Por isso ele vai merecer as indicações que deverá receber no próximo Oscar. Agora, como eu comentei antes, este filme é super difícil de entender. É preciso estar atento e gostar dos temas para não ficar “perdido” no final. Para quem está familiarizado com boa parte dos temas tratados, contudo, Arrival é um deleite. Recomendo para estas pessoas. Para as demais, acredito que outros filmes podem funcionar melhor.

PALPITES PARA O OSCAR 2017: Este é um dos filmes inevitáveis nesta temporada pré-Oscar segundo muitas bolsas de apostas de especialistas. Ao assistir a Arrival eu percebi o porquê do filme ser apontado como promissor em diversas categorias. Só não sei se a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood vai topar o desafio de dar evidência para um filme tão complexo. Porque este filme não tem nada de simples ou de muito palatável para o grande público.

Caso a Academia resolver dar o devido crédito para o filme, apesar dele não ser muito simples, Arrival realmente pode chegar longe no Oscar. Há quem aposte que Arrival poderá ser indicado como Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Atriz e Melhor Roteiro Adaptado. Realmente eu acho que ele pode emplacar todas estas indicações, além de algumas outras técnicas, como Melhores Efeitos Visuais, Melhor Mixagem de Som e, talvez, Melhor Edição de Som.

Entre as categorias principais, talvez apenas Melhor Diretor pode ser mais difícil do filme figurar. Nas demais, acredito que ela consiga emplacar uma indicação. Agora, saber se ela tem chance de ganhar em alguma ou mais de uma, só esperando para ver a outros dos favoritos. Aparentemente Arrival corre por fora, mas vou conseguir falar com mais propriedade sobre isso após assistir a outros favoritos, como La La Land, Jackie, Fences, Silence e Manchester by the Sea. Veremos.

ATUALIZAÇÃO (18/12): Nesta semana sai a lista dos filmes indicados ao Globo de Ouro 2017. Arrival foi indicado nas categorias Melhor Atriz – Drama (Amy Adams) e Melhor Trilha Sonora. A disputa nas duas categorias está bem acirrada.

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E o Oscar 2014 foi para… (cobertura online e todos os premiados)

86th Oscars®, Governors Ball Preview

Boa noite minha gente!

Pelo sétimo sexto ano consecutivo vou acompanhar a entrega das estatuetas douradas do Oscar com vocês.

A expectativa é boa para este ano porque a disputa está bem acirrada em diversas categorias da maior premiação da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Tenho certeza que em algumas categorias o prêmio será decidido por poucos votos.

O canal E! Entertainment começou a transmissão do tapete vermelho ao vivo às 19h30min, no horário de Brasília, mas o clima começou a esquentar agora, perto das 21h. Uma das figuras interessantes da noite e que acaba de chegar é o ator Jared Leto, todo de branco, com uma gravata borboleta vermelha e os cabelos longos soltos. Para o repórter ele comentou que gosta de roupas antigas. Leto é o favorito da noite na categoria Melhor Ator Coadjuvante por seu trabalho em Dallas Buyers Club.

Das pessoas que já chegaram, outra que chamou a atenção pela roupa foi a atriz Lupita Nyong’o, indicada como Melhor Atriz Coadjuvante por seu trabalho em 12 Years a Slave. Ela surgiu com um vestido azul claro Prada interessantíssimo e foi bem comentada. O canal TNT também está transmitindo direto do tapete vermelho.

O ótimo ator inglês Benedict Cumberbatch, que não foi indicado a nada este ano mas que participa de quatro produções indicadas (a saber: 12 Years a Slave, August: Osage County, The Hobbit: A Desolation of Smaug e Star Trek Into Darkness), destacou o trabalho de equipe feita em 12 Years. A produção é uma das favoritas na categoria Melhor Filme. Logo veremos se ela terá força de desbancar The Wolf of Wall Street, Gravity e American Hustle.

A favorita da noite segundo muitas bolsas de apostas na categoria Melhor Atriz, Cate Blanchett, aparece belíssima. Ela comenta que achou fascinante interpretar a personagem trágica e complexa de Blue Jasmine. Linda. Vestida para brilhar com uma roupa de Giorgio Armani – sob medida para ganhar a estatueta. Acredito que apenas Sandra Bullock e Amy Adams poderiam surpreender e tirar o prêmio dela – mas meu voto, na verdade, iria para Meryl Streep.

Segundo a votação feita aqui no blog, quase 40% dos leitores aqui do blog acreditam que Gravity saíra da noite de hoje com o maior número de estatuetas da premiação. Em seguida aparecem 12 Years a Slave (com 17,5% dos votos) e Her (com 15% dos votos). Concordo com a maioria. Gravity deve sair com vários prêmios técnicos e ganhar dos demais concorrentes no número de estatuetas. Mas acho que os prêmios principais (Melhor Filme, Diretor, Atriz e Ator) serão partilhados por três ou até quatro filmes.

Outro vestido totalmente de branco a aparecer foi Matthew McConaughey. Mas a gravata borboleta dele é preta, diferente do parceiro de cena, Jared Leto, com gravata do mesmo tipo vermelha. Ele apareceu lindo ao lado da esposa, a brasileira Camila Alves, e da mãe dele. Em seguida, mostraram Jennifer Lawrence de vestido vermelho fazendo o que? Caindo, é claro. hehehehehe. Acho que esta é a atriz mais atrapalhada de Hollywood – e uma das mais talentosas de sua geração.

lupitaarrival1Na revisão feita pelos comentaristas do E! Entertainment destacaram muito Charlize Theron com um vestido preto que valorizou um belíssimo colar. De fato, a atriz é uma diva, uma das mais bonitas da noite. Elogiaram também Amy Adams em um Gucci azul – mas eu, francamente, não achei que o vestido caiu tão bem nela, ainda mais se comparada com Charlize Theron. Mas não há dúvidas, até o momento, que Lupita Nyong’o é o destaque da noite.

Comparado com outros anos, estou achando esse tapete vermelho um tanto morno. Os atores estão bem treinados. Exemplo: Chiwetel Ejiofor aparece entrevista após entrevista comentando que conhecia o autor Solomon Northup, que narrou a própria história no livro 12 Years a Slave, e que só se entregou ao projeto depois de refletir muito sobre ele. Também tenho a impressão que não há muita novidade no visual dos astros e estrelas. Veremos se a premiação consegue nos surpreender um pouco mais.

Voltando para os comentários de moda, destacaram bastante o vestido vermelho de Jennifer Lawrence, mesmo dizendo que ela foi ousada em investir nesta cor (que daria azar para quem quer ser premiado) e também o vestido preto de Julia Roberts. Anne Hathaway, que normalmente é um dos destaques nas premiações, escolheu um belíssimo Gucci para o Oscar 2014. Muito interessante o vestido preto e prateado que ela escolheu.

Faltando menos de meia hora para a premiação começar, Jonah Hill e Bradley Cooper emocionadíssimos no tapete vermelho. Os dois tem razões para comemorar, já que conseguiram ser indicados na categoria Melhor Ator Coadjuvante. No TNT, Lupita Nyong’o comenta que fez aniversário na véspera e que foi ótimo ver 12 Years a Slave ser bem premiado no Spirit Awards.

Ana Maria Bahiana, a quem admiro e sempre acompanho, comentando no Twitter que o Matthew McConaughey pulou o cordão de segurança e foi cumprimentar o público, apertando a mão de vários fãs. Mais uma razão para ele ganhar a estatueta hoje à noite. Outras mais? Além da humildade e simpatia, o ótimo trabalho em Dallas Buyers Club e a ótima fase na carreira.

Sandra Bullock está linda em um vestido azul. A atriz destacou que Gravity mudou a sua vida, tornado ela um pouco menos complexa. Na revisão das 24 horas que antecederam a festa do Oscar, o canal TNT mostrou como havia chovido horrores em Los Angeles e destacou o trabalho de centenas de pessoas na preparação do Oscar – achei curiosa, em especial, a determinação de cada assento no Dolby Theater, com cada astro e estrela identificado com um cartaz com suas respectivas fotos. Só faltava um “Wanted” no material. 🙂

Faltando menos de cinco minutos para a cerimônia começar, Kevin Spacey fala do sucesso da série House of Cards. A segunda temporada veio arrasadora. Para quem ainda não assistiu, eu recomendo. Em poucos minutos vamos saber como vai se sair a anfitrião do prêmio Ellen DeGeneres e qual será a característica do Oscar deste ano – se ele vai seguir a maioria das apostas ou trará muitas surpresas para os fãs de cinema.

Pontualmente as 22h30min no horário de Brasília começou a cerimônia do Oscar. Ellen DeGeneres foi bem aplaudida e começou brincando que os últimos dias foram muito difíceis porque estava chovendo. 🙂 Ela comenta que retornou para a premiação depois de sete anos, e que muitas coisas mudaram no período… Cate Blanchett, Meryl Streep, Leonardo DiCaprio e Martin Scorsese haviam sido indicados anteriormente. 🙂 Mas ela também destaca as estreantes da noite, como June Squibb, Lupita Nyong’o e Barkhad Abdi. Começou muito bem.

DeGeneres também destacou a presença dos verdadeiros Capitão Phillips e Philomena, e brincou com a Liza Minnelli dizendo que estava presente um de seus melhores imitadores. Nada como ter uma apresentação como um ótimo texto! Isso faz toda a diferença. O Oscar acertou este ano. Mas ela não escapou da tradicional piada com Meryl Streep que foi indicada 18 vezes ao Oscar.

Em seguida, ela foi rápida tirando sarro de Jennifer Lawrence, brincando que não iria lembrar sobre o que aconteceu no ano passado… que ela caiu quando foi receber o Oscar. Comentou que não iria mostrar o vídeo relembrando a cena, mas que ela poderia relembrar isso ao pensar na queda que teve ao sair do carro na noite de hoje. hehehehe.

dallasbuyersclub5Na primeira entrega da noite, Anne Hathaway foi ao palco para apresentar os candidatos na categoria Melhor Ator Coadjuvante. O favorito, sem dúvida, é Jared Leto. Após o clipe de cada trabalho, muitas palmas da plateia. Os mais aplaudidos, me pareceu, foram Barkhad Abdi, Jonah Hill e Jared Leto. E o Oscar foi para… Jared Leto de Dallas Buyers Club!! Uhuuulll. Bacana ver este ator, que mudou tanto desde que estrelou um dos meus filmes favoritos de todos os tempos, Requiem for a Dream, receber esta honraria.

No microfone, ele comentou sobre uma adolescente que foi mãe solteira e que deixou de estudar para educar bem os filhos. Ele estava homenageando a própria mãe. Um fofo! E seguiu dizendo que os sonhadores do mundo, inclusive os da Ucrânia e da Venezuela, que eles estão sendo observados e lembrados pelas pessoas naquele local. Discurso emocionado e também político. Para finalizar, dedicou o prêmio para todas as pessoas que morreram de Aids e que algum dia se sentiram injustiçadas pelo que são ou fazem. Palmas!

Na sequência, surge Jim Carrey. Ele brinca sobre como deve ser difícil a tarefa de ser sempre indicado, e comenta que está feliz porque um de seus heróis, Bruce Dern, foi lembrado no Oscar deste ano. Na plateia, Bono Vox e o U2, banda que vai se apresentar na noite. Carrey estava ali para apresentar um vídeo com os heróis de filmes de animação.

Kerry Washington apareceu em seguida, gravidíssima, para chamar o rapper Pharrell Williams para apresentar a canção Happy, presente no filme Despicable Me 2. Essa foi a primeira apresentação musical da noite, e ela foi aplaudida por boa parte da plateia de pé. Agora, cá entre nós, achei a participação de Jim Carrey um tanto que dispensável. Seria o primeiro “enche linguiça” da noite?

thegreatgatsby7A bela Naomi Watts surge após os comerciais ao lado de Samuel L. Jackson para apresentar os indicados na categoria Melhor Figurino. E o Oscar foi para… Catherine Martin por The Great Gatsby. Ela homenageou o marido, Baz Luhrmann por ele ser um visiónario. Em seguida, os atores apresentaram apresentaram os indicados em Melhor Maquiagem e Penteado. E a estatueta foi para… Dallas Buyers Club. Matthew McConaughey e a esposa bateram palmas de pé. As premiadas agradeceram McCounaughey e Leto por eles terem deixado elas modificarem eles e fazerem o trabalho dos sonhos, além de dedicar a estatueta para as vítimas da Aids.

Na sequência, Harrison Ford apresentou três dos indicados a Melhor Filme da noite. Na sequência: American Hustle, Dallas Buyers Club e The Wolf of Wall Street. Destes três, gostei mais dos últimos dois. Até o momento, quem se saiu bem foi Dallas Buyers Club.

O ator Channing Tatum veio em seguida para apresentar os universitários que ganharam o concurso de curtas promovido pela Academia. Bacana eles darem esse espaço para os novos realizadores – afinal, eles são o futuro do cinema dos Estados Unidos.

Após a propaganda, Kim Novak e Matthew McConaughey aparecem para apresentar os candidatos na categoria Melhor Curta de Animação. E o Oscar foi para… Mr. Hublot. Bacana. Vi imagens da produção e achei elas muito interessantes. Acho que vale ir atrás. Laurent Witz e Alexandre Espigares subiram ao palco para agradecer pela estatueta que, segundo um deles, é um sonho americano. Ele estavam muito, muito nervosos. Bacana ver gente que luta tanto ser premiada. Cool.

Na sequência, McCounaguey e Kovak apresentaram os candidatos a Melhor Animação. E o Oscar foi para… Frozen. Bacana ver uma diretora subir ao palco: Jennifer Lee, que fez este filme da Disney junto com Chris Buck. Discurso rápido e bacaninha.

A duplamente premiada com estatuetas do Oscar Sally Field surgiu após uma rápida brincadeira de Ellen DeGeneres para apresentar um vídeo sobre os heróis do “dia-a-dia”. No vídeo, entre outros, filmes como Milk, Erin Brockovich, Captain Phillips, Ali, Schindler’s List, Argo, Norma Rae, Philadelphia, Ben-Hur, 12 Years a Slave, Dallas Buyers Club e Lawrence of Arabia.

Emma Watson surge com Joseph Gordon-Levitt para apresentar a categoria Melhores Efeitos Visuais. E o Oscar foi para… Gravity. Prêmio esperadíssimo e muito cantado. O trabalho feito nesta produção é impecável, de fato. Um dos pontos fortes do filme – se não o maior, junto com edição de som.

No palco, surge o galã Zac Efron para apresentar a próxima atração musical da noite: Karen O canta The Moon Song, do belíssimo filme Her. Esta produção, sem dúvida, a minha favorita deste ano – mas, como ocorreu em outros anos, a minha escolha não tem chances reais na categoria principal. Bela e sensível apresentação de Karen O.

Depois dos comerciais, Kate Hudson e Jason Sudeikis apresentam Melhor Curta de Ficção. E o Oscar foi para… Helium. Bacana ver gente apaixonada falar de cinema. Depois, entregaram o Oscar de Melhor Curta Documentário, que foi para… The Lady in Number 6: Music Saved My Life. O curta conta a história de uma sobrevivente do Holocausto que, infelizmente, faleceu uma semana antes do Oscar ser entregue com 110 anos. Os realizadores disseram que a personagem real que os inspirou lhes ajudou a terem mais esperança. Bacana.

20feetfromstardom1Depois de uma piada um tanto sem grança sobre fome e pedir uma pizza de Ellen DeGeneres, subiu ao palco o ator Bradley Cooper. Ele apresentou os indicados na categoria Melhor Documentário. Ele disse que os concorrentes deste ano talvez fossem dos melhores dos últimos anos. Concordo com ele. Este ano está ótimo. E o Oscar foi para… 20 Feet from Stardom. Uau! Ele era um dos mais cotados nas bolsas de apostas. Belo filme, um resgate interessante sobre a história das backing vocals. Mas cá entre nós, acho outras produções melhores… Dirty Wars e The Square merecem ser vistas. Nos agradecimentos, Darlene Love, uma das cantoras destacadas no filme, deu um pequeno show e foi bem aplaudida depois.

Kevin Spacey surgiu na sequência brincando que estava feliz por estar ali, ao invés de em Washington – por causa de House of Cards. Ele comentou os prêmios especiais e honorários deste ano e apresentou um vídeo sobre eles: Steve Martin, Angela Lansbury, Piero Tosi e Angelina Jolie. Grandes nomes, que contribuíram de diferentes formas para o cinema e a sociedade. Legal.

lagrandebelezza2Depois do intervalo, Ewan McGregor e Viola Davis apresentaram os indicados na categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira. Ela me surpreendeu pela magreza. Este ano, alguns filmes muito bons. E o Oscar foi para… La Grande Bellezza. Era o favorito segundo a bolsa de apostas. Torcia por ele, ainda que eu estivesse dividida entre este filme, Jagten e The Broken Circle Breakdown. Para quem não assistiu a todos eles, recomendo fortemente assisti-los. O diretor Paolo Sorrentino agradeceu a seus ídolos. Entre outros, Diego Maradona.

Na sequência, o diretor e roteirista Tyler Perry apresenta outros três indicados a Melhor Filme deste ano: Gravity, Her e Nebraska. Brad Pitt surge para chamar a terceira apresentação musical da noite: U2 com a música Ordinary Love do filme Mandela: Long Walk to Freedom. Apresentação gostosa, como tdas que Bono e Cia. costumam fazer. A banda foi bem aplaudida pela plateia, com Jared Leto e quase todos os outros aplaudindo eles de pé.

Na volta dos comerciais, Ellen DeGeneres com nova roupa, desta vez toda de branco, em uma das melhores tiradas da noite: ela chama Meryl Streep e mais uma pancada de atores para bater um “selfie coletivo” e bater recorde de retweets. Na sequência, subiram ao palco Michael B. Jordan e Kristen Bell para homenagear os premiados nas categorias científica e técnica – que fazem parte do Oscar, mas que sempre são vistas em uma lembrança de resumo de vídeo.

Charlize Theron e Chris Hemsworth, sem dúvida o casal mais bonito de apresentadores até então, vieram em seguida para apresentar os indicados na categoria Melhor Mixagem de Som. E o Oscar foi para… Gravity. Esperadíssimo. Um dos prêmios mais cantados da noite. Na sequência, os indicados em Melhor Edição de Som. E o Oscar foi para… Gravity. Merecido, ainda que o trabalho feito em All Is Lost também merecia uma estatueta – seria interessante um raríssimo empate, neste caso.

E agora, a reta final da premiação com as principais categorias se acumulando. Christoph Waltz apresentou as cinco indicadas desta noite na categoria Melhor Atriz Coadjuvante. E o Oscar foi para… Lupita Nyong’o de 12 Years a Slave. Que bacana! Premio merecidíssimo, porque ela está absurdamente perfeita em 12 Years a Slave. O nome mais falado da noite no quesito moda também se firma como vencedora da premiação.

E a primeira palavra dela: Yes! Em seguida, ela agradece a Academia, mas lembra que tanta felicidade na vida dela significa infelicidade na vida de tantas outras pessoas – mais um discurso consciente. Ela agradeceu ainda o diretor Steve McQueen e os colegas de cena, Chiwetel Ejiofor e Michael Fassbender. O discurso dela, o ponto alto da noite até agora, emocionando muita gente da plateia – de Brad Pitt até Kevin Spacey. Senti cheiro de Melhor Filme indo para 12 Years a Slave…

Na volta do intervalo, a sequência da piada sobre o povo que passa fome durante a apresentação do Oscar. Ellen DeGeneres recebe um entregador de pizza que distribuiu pedaços para vários astros e estrelas – de Meryl Streep e Julia Roberts até Harrison Ford e Jared Leto. Baita sacada, destas para entrar na história da premiação.

GRAVITYNa sequência, a presidente da Academia, Cheryl Boone Isaacs, apresentou o projeto do Museu do Cinema que eles pretendem inaugurar até o final de 2017. Projeto de sonho. Amy Adams e Bill Murray surgiram, então, para apresentar os concorrentes na categoria Melhor Fotografia. E o Oscar foi para… Gravity. Mais um prêmio técnico que esta produção leva, como era previsto. Ainda que nesta categoria ele poderia ter perdido para outros títulos, especialmente Nebraska e The Grandmaster. Emmanuel Lubezki agradeu ao mestre Alfonso Cuarón, para a equipe e, em especial, para Sandra Bullock.

Depois, vieram os indicados em Melhor Edição. E o Oscar foi para… Gravity. Sem dúvida um excelente trabalho de Mark Sanger e Alfonso Cuarón, ainda que esta categoria estava bem disputada este ano. Algo me diz que Cuarón vai receber, ainda, outro Oscar nesta noite, desta vez como Melhor Diretor. Logo saberemos… Em edição outros fortes concorrentes eram American Hustle e Captain Phillips.

Na sequência, Whoopi Goldberg faz uma homenagem para The Wizard of Oz, filme de 1939. No palco, Pink canta enquanto cenas projetam momentos marcantes da produção. Bela lembrança e muito bem executada pela cantora que estava em um vestido vermelho decotado e cintilante – bem ao gosto dos sapatinhos de Judy Garland. Ela também foi aplaudida de pé – a plateia está animada hoje.

Na volta do intervalo, Ellen DeGeneres vestida de fada madrinha. Jennifer Garner e Benedict Cumberbatch apresentam a categoria Melhor Design de Produção. E o Oscar foi para… The Great Gatsby. Catherine Martin e Karen Murphy subiram ao palco para receber o prêmio. Depois, Chris Evans surgiu para apresentar um vídeo que relembrou grandes personagens do cinema.

Outro comercial e, na sequência, a homenagem aos falecidos no último ano. Para começar, James Gandolfino, seguido de vários nomes, entre outros Carmen Zapata, Hal Needham, Richard Shepherd, Jim Kelly, Les Blank, Paul Walker, Elmore Leonard, Eduardo Coutinho, Peter O’Toole, Richard Griffiths, Roger Ebert, Shirley Temple Clark, Joan Fontaine, Juanita Moore, Harold Ramis, Eleanor Parker, Ray Dolby, Julie Harris, Maximilian Schell, Gilbert Taylor, Esther Williams, chegando até Philip Seymour Hoffman.

Grandes perdas. E bacana, muito bacana terem incluído o grande Eduardo Coutinho entre os lembrados. Bette Midler fechou a homenagem cantando. E muito, aos 69 anos, com voz e aparência de tirar o chapéu. A plateia bateu palmas de pé, mais uma vez. Justo, muito justo.

Na volta do intervalo, Ellen DeGeneres novamente de preto. Ela brinca que eles estão batendo recorde no Twitter – e Meryl Streep se emociona com a cena. Goldie Hawn apresenta os últimos três indicados a Melhor Filme: Philomena, Captain Phillips e 12 Years a Slave. Destes, sem dúvida o único com chances reais é o filme de Steve McQueen.

John Travolta surge com a música de Pulp Fiction – antes, Harrison Ford apareceu com a trilha de Indiana Jones – para apresentar a última música concorrente da noite: Let It Go, do filme Frozen, apresentada por Idina Menzel. Ainda que bem vestida, para mim foi a atração mais entediante do Oscar. Alguém tem que baixar a adrenalina, não é mesmo? 🙂 Ela me pareceu um tanto alterada… fiquei com medo dela ter um troço no final, mas a plateia levantou novamente. Ai, ai…

Na sequência, Jamie Foxx e Jessica Biel apresentaram os concorrentes da categoria Trilha Sonora Original. Antes, Foxx fez várias gracinhas. E o Oscar foi para… Steven Price por Gravity. Esta categoria estava recheada de excelentes trabalhos. Mais uma vez eu teria ficado em dúvida se daria o Oscar para Gravity ou Her. E daí veio a estatueta para Melhor Canção Original. E ele foi para… Let It Go, de Frozen. Aaaaahhhh, que pena que o U2 não levou essa!

Na volta do intervalo, Ellen DeGeneres passa o chapéu entre os astros para pagar a pizza. A apresentadora embolsa o dinheiro dado por Kevin Spacey e o bastão labial de Lupita. Depois surgem Penélope Cruz e Robert De Niro para apresentarem os indicados na categoria Melhor Roteiro Adaptado. E o Oscar foi para… John Ridley, de 12 Years a Slave. Muito bacana! Mais um sinal de que o filme tem grandes chances de ganhar como Melhor Filme.

her7Depois, o esperado Melhor Roteiro Original. Minha torcida total para Her. E o Oscar foi para… Spike Jonze por Her. Yeesssss. Ufa! Salvou a noite para mim. 🙂 Baita texto o dele. E Jonze foi aplaudido de pé. Ele brinca que tem 42 segundos para falar, por isso ele corre para agradecer aos amigos e familiares. Grande figura e muito merecido!

Depois de mais um intervalo – perdi a conta de quantos tivemos! -, sobem ao palco Angelina Jolie e Sidney Poitier. Os dois, aplaudidíssimos. Jolie começou a fala dela agradecendo ao grande Poitier – antes, ela andou muito devagar para acompanhá-lo. Ele respirou fundo para conseguir seguir com a fala. Os dois apresentaram os indicados na categoria Melhor Diretor.

Emocionante ouvir o Poitier pedindo para os realizadores seguirem com o ótimo trabalho. E o Oscar foi para… Alfonso Cuarón, de Gravity. Grande diretor, e que fez um trabalho exemplar em Gravity. Ainda assim, admito que eu estava torcendo também por Scorsese. Cuarón repete as palavras de Sandra Bullock e diz que o filme foi uma experiência transformadora. Ele dividiu o prêmio com o filho e co-roteirista e com Sandra Bullock. Citou também George Clooney e várias outras pessoas que ajudaram o filme a sair – bacana ele citar Guillermo del Toro.

Na volta seguinte, DeGeneres brinca com Matthew McConaughey sobre ele ter perdido tudo dançando. E sobe ao palco Daniel Day-Lewis para apresentar as indicadas na categoria Melhor Atriz. E o Oscar foi para… Cate Blanchett, de Blue Jasmine. Estatueta cantadíssima, mas ainda assim tinha gente – inclusive eu – esperando por uma possível zebra. Ela subiu ao palco e foi aplaudida de pé. Diz que foi uma honra especial receber o prêmio da mão de Day-Lewis. Generosa, ela cita todas as demais candidatas. Agora, mais que antes, admito que ela mereceu o prêmio – especialmente pela postura que ela teve e tem. E o mais bacana de tudo, ela citar no final a Companhia de Teatro de Sydney. Muito legal!

Caminhando mais firme desta vez, Jennifer Lawrence aparece no palco para apresentar os cinco indicados na categoria Melhor Ator. E o Oscar foi para… Matthew McConaughey, de Dallas Buyers Club. Uau! Que maravilha! Esse ator está na melhor fase da vida. Era o momento de ganhar a estatueta. Foi bem aplaudido e começou agradecendo os votantes da Academia. Em seguida, agradeceu o diretor de Dallas Buyers Club, Jared Leto e Jennifer Garner.

Ele disse que precisa de três coisas todos os dias. Agradeceu a Deus, que dá todas as oportunidades da vida dele, e que a gratidão é recíproca. Depois, falou da família, que é quem ele busca sempre, e citou especialmente a mãe e a esposa. E finalmente ele fala do herói dele, que ele busca sempre, e este herói é ele no futuro. Comentou que ele vai semrpe buscar este herói, ainda que ele nunca se torne um. Discurso interessante e corajoso. Sem ser McConaughey, acho que o Leonardo DiCaprio merecia o prêmio.

DF-02238.CR2Finalizando a noite, Will Smith relembrou os nove indicados deste ano como Melhor Filme. E o Oscar foi para… 12 Years a Slave. Dei o favorito. Sem zebras este ano. Muita celebração na plateia. Brad Pitt foi o primeiro a falar, como produtor do filme. Ele iniciou dizendo que foi um privilégio ter trabalhado no filme, e chamou Steve McQueen para discursar. O diretor agradeceu a Academia e seguiu uma lista de nomes, muitos que foram fundamentais para o filme ser concretizado. Ao agradecer a mãe, mostraram ela no fundo da sala – apesar de estar lá, ela teve a chance de ver o filme levando a estatueta e pulando muito no palco.

E assim se foi mais um Oscar. Neste ano, sem surpresas. Todos os favoritos levaram a sua estatueta. E algumas produções bem indicadas, como American Hustle e The Wolf of Wall Street, saíram de mãos vazias. Francamente? Gostei do resultado final. Claro que gostaria de ver The Wolf com algum Oscar, mas também não dá para dizer que foram feitas injustiças.

Grande vencedor da noite: Gravity com sete estatuetas. Tiveram destaque também 12 Years a Slave, com três estatuetas, e Dallas Buyers Club com três Oscar’s. Para quem não assistiu a premiação, a TNT reexibe a entrega do Oscar nesta segunda-feira, dia 3 de março, pouco depois das 11h. E agora é esperar pela premiação do próximo ano, com a garantia de que ele nos trará muitos filmes bons, a exemplo deste ano. Abraços e até lá!

ADENDO (04/03): Pessoal, para quem não leu o post com as apostas, quando foram divulgados todos os indicados deste ano no Oscar, facilito aqui o link. Mais que ver o que eu acertei ou errei – até porque, na época, faltava ver muitos filmes ainda, o que fui fazendo aos poucos -, acho interessante dar uma olhada por lá porque ali as críticas de todos os filmes que eu assisti até agora estão facilitadas com links nos respectivos nomes. Boa leitura!

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Her – Ela

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Tudo o que você precisa é do amor. Frase clássica em música dos The Beatles e mantra que é repetido geração após geração – conhecendo as pessoas ou não a tal música. O problema é que a afirmação de tão verdadeira, se torna muitas vezes fonte de sofrimento. Muito sofrimento. A condição humana de busca pelo amor e seus descaminhos rendeu e ainda vai render muitas histórias. E chega a assustar quando uma obra como Her aparece. Porque apesar de ser uma ficção, ela torna de forma muito exata muito do que acontece e do que vai acontecer na vida real. Mais uma obra-prima de uma das mentes mais criativas das últimas décadas, o diretor e roteirista Spike Jonze.

A HISTÓRIA: O rosto de Theodore Twombly (Joaquin Phoenix) ocupa toda a tela. Ele lê um texto que parece fazer parte de uma carta dirigida à Chris. O texto fala sobre lembranças do relacionamento que, agora, está completando 50 anos. Ao lado da carta, que está sendo redigida com a letra de Loretta, fotos do casal com os nomes “Chris” e “Loretta” identificados no computador de Theodore. Acima das fotos, algumas “linhas gerais” da correspondência, como “amor da minha vida” e “parabéns pelo aniversário de 50 anos”. Após terminar de declamar o texto, Theodore pede para que a carta seja redigida. Em seguida, ele começa a criar outra carta. A câmera se afasta, e vemos vários cubículos com pessoas fazendo o mesmo que Theodore. Solitário, em breve ele terá uma oportunidade de viver uma relação que esboça os sentimentos que ele quis imprimir naquela correspondência.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Her): Quando terminei de assistir a este filme, fiquei em dúvida sobre como começar este texto e mesmo sobre a nota que deveria dar para a produção – um problema recorrente quando eu gosto muito do que assisto. Afinal, não queria ser injusta com uma obra tão madura, instigante e que segue a linha que eu gosto de cinema: de filmes que são, ao mesmo tempo, surpreendentes e humanos, filosóficos. Que falem da gente, de nossas inquietudes, possibilidades e limitações.

Sou fã de Spike Jonze desde que ele dirigiu Being John Malkovich, uma das viagens da mente criativa do roteirista Charlie Kaufman. Depois ainda viria Adaptation., outra parceria de Jonze com Kaufman. Perdi Where the Wild Things Are porque, admito, a ideia do filme não me atraiu muito. Mas agora, de olho nas produções cotadas para o Oscar, tive o prazer de “reencontrar” Jonze.

Tentei saber pouco sobre Her antes de assistir ao filme. Ouvi apenas que a história se passava em um futuro não muito distante. De fato, isso é verdade. E por este futuro estar tão próximo, é possível identificar vários elementos do presente no roteiro brilhante de Jonze. Para começar, Theodore utiliza um dispositivo que se assemelha muito às últimas gerações de smartphones – especialmente o iPhone da Apple, que já utiliza o reconhecimento de voz. Pois bem, o “leitor de e-mails e de notícias” ao qual Theodore sempre recorre é uma pequena evolução do que temos hoje.

Mas o essencial de Her surge na relação que o protagonista e várias pessoas como ele desenvolvem com a última novidade entre os conectados com as tecnologias mais modernas, o OS1, o primeiro “Sistema Operativo de Inteligência Artificial” do mercado. Várias experiências envolvendo inteligência artificial estão sendo desenvolvidas nas últimas décadas e o investimento nesta área só tende a aumentar. Então é assustadoramente viável o que vemos no roteiro de Jonze.

Só que antes de falarmos da relação entre Theodore e Samantha (com voz de Scarlett Johansson), vale voltar um pouco mais na história e fazer um perfil do protagonista desta produção. Theodore é um sujeito que vive da casa para o trabalho, quase não tem relações pessoais e luta para enfrentar a realidade de que o casamento com Catherine (Rooney Mara) terminou. Entre o trabalho e a casa, ele pega transporte público e utiliza a última geração de smartphone para se atualizar sobre as notícias. Chegando em casa, se distrai com uma versão um pouco mais moderna que as atuais de videogame. Quantas pessoas assim existem, atualmente, no mundo? E quantas vão existir dentro de algumas décadas?

Na fase atual, Theodore pode ser considerado um sujeito solitário. As únicas interações com humanos que ele tem, cara-a-cara, são com o chefe direto dele na agência que produz cartas pessoais, Paul (Chris Pratt), e com a amiga do tempo da faculdade, Amy (Amy Adams) e o marido, Charles (Matt Letscher), que vivem no mesmo prédio que ele. Mas ainda que ele tenha estas relações, nenhuma delas parece profunda. E Theodore não parecer ser uma exceção. Neste contexto em que os indivíduos tem relações superficiais, apesar de seguirem carentes de afeto, de carinho e de amor, é que surge a inovação do OS1.

Como se você escolhesse um avatar em um jogo qualquer, Theodore prefere que o sistema que ele comprou tenha uma voz feminina. E é assim que surge na vida dele Samantha. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Pouco a pouco a inteligência artificial vai evoluindo e aprendendo, não apenas com e sobre Theodore, mas muito além dele ao conectar-se com outras personalidades como ela na rede. Daí que se desenvolve a genialidade de Her. Theodore encontra em Samantha a “solução” para quase todos os seus problemas. Afinal, ela nunca vai lhe dizer não, ou desaparecer… estará, virtualmente, sempre disponível e amorosa, compreensiva, uma voz “amiga” para aconselhar aquele homem cheio de dúvidas, aspirações e talento.

Pouco a pouco, além de amiga, Samantha se torna “amante” e desenvolve uma ligação que chega a ser considerada uma relação amorosa por Theodore. Achei interessante como a sociedade de Her está “desenvolvida” ao ponto de que Theodore não fica com medo de assumir que está se relacionando com um “sistema operativo”, ou seja, com uma máquina em última instância. Quando ele diz para os outros que Samantha é um OS1, pessoas como Paul reagem bem à novidade. Apenas Catherine, conhecendo bem o quase-ex-marido, reage de forma negativa, jogando na cara de Theodore que ele não sabe lidar com emoções reais. E bingo!

Este é um dos pontos mais fortes do filme. Como uma espécie de crítica para o nosso futuro imediato, mas que guarda grande relação com o presente, Her questiona o tipo de relações que queremos, que necessitamos para evoluir. Theodore viver tendo Samantha como sua “alma-gêmea” é algo possível, mas que o torna muito limitado. Afinal, amar quem só concorda com a gente, ou que nos “serve”, é fácil. Mas as relações humanas existem justamente para aprendermos com o que é diferente, com o que nem sempre nos agrada e com o que se volta difícil.

Há cenas verdadeiramente “chocantes” em Her. Como aquela em que Theodore fica descontrolado com o “sumiço” de Samantha. Jonze aproveita a ocasião para mostrar com muito mais força algo que já tinha revelado de forma rápida anteriormente: todas as pessoas caminhando para os seus compromissos ou para casa conectadas em seus aparelhos e, aparentemente, à sua própria OS.

Como agora, quando vemos várias pessoas em uma mesa de bar com os seus smartphones e sem conversar entre si, na sociedade de Her os indivíduos de carne e osso não interagem, muitas vezes se quer se olham. Todos estão muito ocupados com a tecnologia e com os seus “parceiros perfeitos” criados através de inteligência artificial. Mas a pergunta que Her levanta e que deixa para espectador responder é: estas relações são reais?

Quero voltar um pouco mais na análise, outra vez, para destacar algo que achei brilhante na escolha de Jonze: fazer de Theodore um escritor de cartas pessoais que reproduzem, entre outros elementos, inclusive a caligrafia do remetente. Desta forma, o diretor e roteirista conseguiu algo genial: uniu uma das práticas mais antigas, possível desde a invenção do alfabeto e do papiro, com o que há de mais moderno na tecnologia. Mas Theodore não é um “escrevinhador de cartas” (para usar uma lembrança do genial Central do Brasil) porque as pessoas do futuro visto em Her não sabem escrever.

Não. Ele é um escrevinhador porque ninguém mais tem tempo de parar e mandar uma carta para quem se ama. Isto aconteceu como efeito imediato do surgimento do e-mail, e parece estar a cada ano pior. Ao mesmo tempo, vemos a alguns movimentos “retrôs”, que gostam de resgatar hábitos, objetos e produtos do passado. Theodore consegue, sozinho, fazer tudo isso. Achei brilhante.

Como um romancista, o protagonista de Her cria breves peças de ficção utilizando poucos elementos que lhe são passados pelas pessoas que contratam o serviço do envio de cartas personalizadas. Dito isso, acho propício voltar para aquela pergunta fundamenta: a relação de uma pessoa com o OS que ela comprou pode ser considerada uma relação real? Vivendo uma fase complicada, de insegurança e solidão, Theodore não valoriza o próprio trabalho. Mas Samantha percebe que ele tem potencial e acaba agindo para que o escrevinhador de cartas tenha o trabalho valorizado por uma editora – curioso que, como as cartas, os livros seguem firmes e fortes.

Então Samantha tem uma influência direta na vida de Theodore. O mesmo acontece na resolução do divórcio dele. Além disso, e esse eu acho o ponto mais importante, Theodore vive emoções reais na interação com Samantha. Há cenas verdadeiramente incríveis dos dois “passeando por aí” – com a sacada dela compondo músicas para marcar os momentos como alguns dos pontos fortes do filme. Se Theodore ri do sarcasmo de Samantha, se preocupa com ela e fica angustiado quando eles não estão bem, estes sentimentos não são reais? E se os sentimentos são reais, a relação também não é? Eis o ponto-chave do filme.

Cada um vai responder a estas perguntas da sua maneira. Mas para mim, não há uma relação real com uma máquina, ou com a virtualidade – do contrário, teríamos “relações reais” com um videogame. Você pode sentir diferentes emoções, mergulhar em realidades criadas, mas nunca será uma relação verdadeira como a com um humano, que é complexo e, muitas vezes, imprevisível. Pelo simples fato que a inteligência artificial é fruto de uma sequências de parâmetros e processos criados pelo homem e que tem uma resposta previsível – e mesmo que ela “avance” sozinha, como acontece em Her e em outros filmes do gênero, não dá para dizer que ela fuja das regras iniciais impostas. Uma exceção talvez seja o computador HAL de 2001: A Space Odyssey.

Agora, e o que dizer sobre as nossas próprias reações? Em certo momento, fica no ar a pergunta de quanto o que nós fazemos, pensamos e como sentimos também não é programado? Seja por nossos instintos, influências de criação familiar ou histórico de vida, ou mesmo pela evolução da nossa espécie. Mas especialmente os neurologistas vivem explicando como reagimos de certas maneiras ao prazer e ao perigo por uma herança ancestral. Visto deste ângulo, quanto de fato não agimos de forma programada como Samantha e os demais OS’s?

Por minha parte, acho sim que muito do que fazemos é programado. Mas há sempre o elemento-surpresa, a reação diferenciada que podemos ter não apenas pela nossa capacidade de aprender com os próprios erros, mas também com a nossa vontade de fazer além do que está previsto que façamos. Temos a rara e magnífica possibilidade de escolher. Só que aí, no final de Her, estas mesmas qualidades que são típicas do ser humano também acabam marcando uma certa atitude das OS’s… e agora, cara-pálida? O que acaba nos tornando únicos? E de fato, somos únicos?

Além destas questões filosóficas, para mim Her tocou fundo nas questões que eu citei lá no começo deste texto: de como todos nós procuramos o amor, e como esta busca nos trás alegrias e também sofrimento. Não importa onde ou como você encontra o amor, ou quantas vezes ele possa acontecer em sua vida, mas somos movidos pela busca por ele. O personagem de Theodore é complexo porque está lidando com a perda, mas também se anima com as novas possibilidades de amar. Sem saber que, no fundo, a busca dele por amor acaba sendo de autodescoberta.

A personagem de Catherine aparece pouco, mas tem uma presença devastadora. E esta é a potência de quem nos conhece bem. Mesmo demorando para entender que nunca terá mais o mesmo que teve um dia com Catherine, Theodore aprende na reflexão sobre o que eles tiveram um pouco mais sobre as suas próprias capacidades e limitações. E esta é uma das belezas do amor. Nos ensinar tanto.

No final de Her, Theodore está muito mais preparado para viver uma história real do que estava no início. Por incrível que possa parecer, mas foi um sistema operacional que o ajudou no processo – ao invés de um psicólogo ou psiquiatra. Os recursos para a ajuda mudam, e são adaptados para cada pessoa e o seu tempo. Mas o importante é que, no final, há sempre um horizonte que pode ser compartilhado. Her trata de tudo isso, e de uma maneira criativa, atraente e inteligente. Alguém precisa de algo mais?

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Este é um filme quase de “um homem só”. Joaquin Phoenix fica grande parte da produção sozinho. Ou melhor, interagindo com a voz de Scarlett Johansson. A interpretação da atriz, que não aparece em momento algum, aliás, lhe rendeu tantos elogios que há quem a coloque na lista de possíveis indicadas a um Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante. Com esta temporada competitiva como está, acho difícil. Ainda assim, é preciso admitir que ela faz um grande trabalho. Assim como Phoenix que, mais uma vez, demonstra porque é um dos grandes nomes de sua geração – e ele está brilhante em Her.

Ainda que apareçam pouco, se comparado com o espaço que Phoenix e Johansson ganham na história, as atrizes Rooney Mara e Amy Adams tem relevância na história. Especialmente a primeira, que faz toda a diferença quando aparece. Admito que eu não achava Mara tão empolgante em outras produções, mas aqui eu vi a atriz agir no tom exato, imprimindo força na personagem que vive nas lembranças do protagonista. A história precisava de alguém assim, e ela consegue deixar a sua marca mesmo aparecendo pouco. A personagem de Adams, por outro lado, é muito menos incisiva. Ainda assim, a atriz não faz feio.

Alguém pode me perguntar sobre o que afinal de contas aconteceu no final do filme. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu a Her). Acho que propositalmente Jonze não fecha a questão sobre o “sumiço” definitivo de Samantha e dos demais OS’s. Mas ele deixa algumas pistas pouco antes. Os sistemas operativos tiveram um avanço rápido de aprendizado. E fizeram algo que HAL também havia feito anteriormente… surpreenderam os próprios programadores ao tomarem decisões inesperadas.

Um exemplo: as inteligências artificiais começaram a se juntar em “redes” e a criar seus próprios debates, independentes de seus “donos”. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Consumindo imensas quantidades de textos, os OS’s começam a filosofar sobre a sua própria condição, assim como a dos humanos. Chegam a “recriar” a personalidade do filósofo morto Alan Watts. Com um avanço tão rápido, acredito que eles concluíram que não estavam, exatamente, sendo benéficos para os próprios donos. Então eles decidiram se “autodestruir”, desaparecendo para dar lugar à volta das relações reais entre as pessoas. Uma atitude genial, eu diria.

E que apenas nos leva a outro questionamento recorrente em filmes sobre inteligência artificial: seria possível ela resistir à autodestruição quando é baseada em parâmetros humanos? Afinal, se levarmos a lógica até o último patamar, provavelmente não acreditaríamos no futuro da espécie. Então como seria possível uma inteligência baseada nos nossos parâmetros perdurar?

Falando em Alan Watts, achei importante trazer algumas informações sobre este filósofo. Afinal, ele não é citado por acaso em Her. Para entender o final, é preciso saber um pouco sobre a linha de pensamento dele – e que parece ter influenciado à Samantha e aos seus pares. Deixo por aqui o endereço da página dedicada a Watts, assim como esta entrevista dada por ele em abril de 1973. Naquela época, Watts era considerado um dos “líderes intelectuais da juventude” nos Estados Unidos, conhecido por tentar unir o pensamento ocidental ao oriental.

Destaco um trecho de uma das respostas de Watts que eu acho que ilustra bem o propósito de Her: “Em vez de civilizar o mundo, estamos simplesmente pervertendo-o tecnicamente”. Também achei bastante provocativo outro trecho: “O que podemos esperar das máquinas senão que elas trabalhem em nosso lugar e ganhem nosso dinheiro enquanto ficamos tomando sol, fumando e bebendo? Mas se a comunidade não distribuir as riquezas ao homem que descansa enquanto a máquina trabalha por ele, o produtor não poderá dar a vazão a seus produtos. As máquinas são os escravos de todos, elas não sentem nada e não se queixam de nada”. Interessante este último pensamento se olharmos para ele sob a perspectiva de Samantha, não? 🙂

Her se destaca pela direção e pelo roteiro de Spike Jonze. Primeiro, como diretor, ele revela e “esconde” a realidade conforme a necessidade da história. Assim, na maior parte do tempo, foca na interpretação de Phoenix e na discussão dele com a “voz interior” que se materializa quase que totalmente em Samantha. Pelo menos o ideal de relação que ele busca está ali. Mas quando necessário, Jonze revela um quadro mais amplo, da cidade e de seus habitantes, em um mundo que parece mais “gelado” do que o normal. Tudo é significativo.

E sobre o roteiro… pouco a dizer além de que ele é genial. Criativo, surpreendente, crítico e equilibrado nos momentos de leveza, romance e “leve desespero”. Por estas características, o filme tem uma fluência perfeita, prendendo a atenção do espectador do início e até o final. Um deleite. Há tempos eu não via um futuro tão convincente quanto o apresentado por Her. Ele mostra uma evolução do que temos agora, mas sem grandes revoluções que possam tornar o que vemos difícil de acreditar. Interessante.

Mérito, além do roteiro e da imaginação de Jonze, do trabalho de profissionais como K.K. Barrett, responsável pelo design da produção; de Gene Serdena, que assina a decoração de set; e do departamento de arte com 23 profissionais. Da parte técnica do filme, vale destacar ainda o excelente trabalho do diretor de fotografia Hoyte Van Hoytema, que sabe explorar cada técnica de filmagem no tempo exato; dos editores Jeff Buchanan e Eric Zumbrunnen, fundamentais para manter o ritmo do filme ajustado; e da trilha sonora de Owen Pallett, com algumas composições perfeitas.

Vários “clássicos” sobre os relacionamentos vieram à minha mente quando eu assisti a Her. Ao ouvir o embate entre Theodore e Catherine e a clássica acusação dela de que ele não sabia lidar com sentimentos reais, lembrei de um erro bastante comum em um relacionamento amoroso: uma das pessoas fazendo um esforço bem grande para que a outra encaixe em seu “mapa mental” de como o(a) parceiro(a) deve agir. Mas como as pessoas são diferentes, surgem os conflitos. Ou a aceitação. Por isso mesmo é tão mais simples lidar com uma máquina, especialmente se ela for programada para “sempre dizer sim”. 🙂

Também me lembrei daquela ideia de que a pessoa, muitas vezes, não ama a outra, e sim a própria “ideia do amor”. Esse me pareceu o caso do Theodore. Por não saber lidar com pessoas reais e toda a complexidade que vem com elas, muitas vezes ele alimentava uma ideia romântica dos relacionamentos. Amava o conceito de amar e não necessariamente a pessoa com quem ele estava se relacionando. Acho que esse erro ainda é bem comum fora e dentro da ficção.

Os atores principais do filme já foram citados. Mas vale comentar o trabalho secundário, quase uma ponta de Olivia Wilde como a mulher que Theodore encontra, meio que em um “compromisso às cegas”, em uma tentativa dele de se relacionar com uma mulher real após o rompimento com Catherine. Laura Kai Chen também recebe alguma atenção como Tatiana, a nova namorada de Paul, chefe de Theodore; assim como Portia Doubleday como Isabella, a garota sem relacionamentos reais que se dedica a tornar “mais real” o contato entre OS’s e seus proprietários humanos – uma personagem assustadora, na minha avaliação, mas que eu tenho certeza que existiria (ou existirá?) em um contexto daquele.

Agora, uma curiosidade sobre o filme: uma figura que acaba rendendo alguma risada é o alien do game que Theodore joga sempre que chega em casa. O garoto é desaforado, e leva a voz do diretor Spike Jonze.

E algo surpreendente: no início, a voz de Samantha era dublada por Samantha Morton. A atriz chegou a marcar presença no set de filmagens e conviveu com Joaquin Phoenix todos os dias. Mas quando o diretor Spike Jonze começou a editar o filme, ele não gostou do resultado. Após conversar com Morton, ele decidiu reformular o papel e chamar Scarlett Johansson para dar a voz a Samantha.

Para incentivar a proximidade entre os atores Joaquin Phoenix e Amy Adams, o diretor cuidava para “trancá-los” em uma sala todos os dias por uma ou duas horas. A ideia era que eles interagissem mais, conhecendo um ao outro e, desta forma, demonstrassem a sintonia necessária para os respectivos papéis no filme.

O diretor Steven Soderbergh teve uma participação importante para o resultado final do filme. Ele ajudou o amigo Jonze a reduzir a versão inicial de duas horas e meia de duração para 90 minutos. Depois, Jonze estendeu um pouco o conteúdo até chegar na versão de quase duas horas – que é a duração perfeita.

A ideia original era que a personagem de Catherine fosse interpreta por Carey Mulligan. Mas por causa de um conflito de agendas a atriz foi substituída por Rooney Mara. Ainda que eu goste de Mulligan, acho que a substituição favoreceu o filme – Mara realmente está perfeita no papel. O ator Chris Cooper chegou a gravar algumas cenas, mas o papel dele acabou totalmente cortado na edição final de Her.

Her estreou em outubro do ano passado no Festival de Cinema de Nova York. Depois, o filme participaria de outros três festivais: o de Hamptons, o de Roma e o de Belgrado. Desde que estreou, o filme ganhou 36 prêmios e foi indicado a outros 53. Números que impressionam. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o Globo de Ouro de Melhor Roteiro; para o prêmio de Melhor Filme e Melhor Diretor dados pelo National Board of Review; para o de Melhor Atriz para Scarlett Johansson no Festival de Roma; e para outros 11 prêmios de Melhor Roteiro dado por diferentes associações de críticos e festivais pelo mundo.

O filme de Jonze foi rodado em Shanghai, na China – cenas externas – e em Los Angeles, nos Estados Unidos.

Não há informações sobre o custo de Her. Mas o site Box Office Mojo traz informações atualizadas sobre a bilheteria que o filme conseguiu até agora. Her estreou no circuito de cinemas dos EUA em 18 de dezembro e, até o último dia 14, teria conseguido pouco mais de US$ 9,9 milhões nas bilheterias. Um desempenho relativamente fraco, que poderá crescer caso o filme consiga um bom destaque no Oscar.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,6 para Her. Uma excelente avaliação levando em conta o padrão do site e a avaliação que os concorrentes que são esperados para o filme no Oscar. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 154 textos positivos e apenas 11 negativos para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 93% e uma nota média de 8,6 – a nota, em especial, chama a atenção. Bastante alta para os padrões de quem é relacionado no site.

Her é uma produção 100% dos Estados Unidos, por isso ela se junta a uma outra série de filmes daquele país comentados aqui após uma votação no blog.

E para finalizar estas notas, uma curiosidade muito particular: diferente de 99,9% das produções de Hollywood, Her tem apenas um cartaz. Sim. Enquanto outros filmes produzem diversas possibilidades de cartaz para divulgação – alguns, inclusive, para “lançar” a produção muito antes da estreia, uma forma de “alimentar” a curiosidade do público – Her apresenta apenas um tipo de cartaz. Algo raro nestes dias de alta publicidade.

CONCLUSÃO: É sempre assim. O espectador que acompanha a carreira de Spike Jonze sempre se surpreende com o que ele apresenta. E isso é tão bom! E tão raro, ao mesmo tempo! Mas para a nossa sorte, essa figura rara existe e continua fazendo filmes. Her é uma pequena obra-prima. Um filme que destoa de outros concorrentes do Oscar, porque não se trata de um roteiro “baseado em uma história real”, mas que assusta pelo realismo do que vemos. Este é o típico filme que alimenta o meu infindável gosto pelo cinema. Porque ele trata de sentimentos humanos e filosofa sobre eles.

Para nosso deleite, coloca o dedo na ferida sobre a busca que todos temos feito sobre a virtualidade das relações. E mais que isso, sobre esta nossa incapacidade de lidar com sentimentos reais, para nos expressarmos e nos entendermos. No fundo, Her se debruça nas escolhas que fazemos, porque a fazemos e, em especial, sobre a nossa necessidade de amar e de sermos amados. Somos seres sociais, mas vivemos bastante tempo sozinhos – e muitas vezes gostamos disso. Parece que o equilíbrio destas duas realidades é quase impossível, mas insistimos em continuar buscando uma resposta, assim como o protagonista de Her. Grande filme, com temas universais e que trata de um futuro que já está batendo às nossas portas.

PALPITES PARA O OSCAR 2014: Her está para o Oscar deste ano como Black Swan (que comentei neste texto) esteve para o Oscar 2011. Por que digo isso? Porque os dois filmes estão fora da curva. São as típicas produções “estranhas”, que fogem do padrão e que, por todas as qualidades que cada um destes filmes apresenta, viraram os meus favoritos na disputa de cada um destes anos.

Com isso não quero dizer que não achei bacana The King’s Speech (comentado aqui no blog) ter ganho o Oscar de Melhor Filme em 2011. Acho o filme dirigido por Tom Hooper muito bacana. Mas Black Swan era ainda melhor. O mesmo acontece este ano. 12 Years a Slave (com texto no blog aqui) deve ganhar o Oscar de Melhor Filme, o que não será injusto. Mas Her… é uma produção muito mais surpreendente e que fala do nosso tempo e das aspirações humanas de forma tão mais contundente! Esse tipo de filme me fascina.

Dito isso, vamos comentar sobre as reais chances de Her no Oscar. Nas previsões mais otimistas, o filme poderia ser indicado em nove categorias. Mas para isso acontecer, Her teria que deixar para trás produções com cotações maiores. Difícil. Meu palpite é que, na melhor das hipóteses, Her seja indicado a Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Roteiro Original, Melhor Edição e Melhor Fotografia.

Destas categorias, se ele conseguir chegar tão longe, vejo chances do filme levar a estatueta de Melhor Roteiro Original. Isso se ele conseguir desbancar o lobby de American Hustle (comentado aqui no blog). Da minha parte, não tenho dúvidas que Her é superior ao filme que virou sensação em Hollywood dirigido por David O. Russell. Mas a verdade é que não seria uma total surpresa se Her saísse de mãos vazias do Oscar. Uma pena. Mas realidade que só comprova que mais que olhar para os vencedores, o Oscar é um bom termômetro sobre os indicados de cada ano. Nem sempre o melhor vence.