Kubo and the Two Strings – Kubo e as Cordas Mágicas


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Contar histórias com maestria é um verdadeiro dom. E quando estas histórias, bem contadas, ainda tem algumas mensagens importantes costuradas de forma discreta em sua trama aqui e ali, tanto melhor. Kubo and Two Strings é uma animação que enche os olhos pela beleza de sua arte e que massageia a alma pela beleza de sua história. Um lindo, lindo filme, que eu só descobri porque ele está cotadíssimo para o Oscar. E merece chegar lá, não há dúvidas.

A HISTÓRIA: Começa em uma tempestade e com o narrador recomendando que ninguém pisque, que continuem olhando mesmo que alguns acontecimentos pareçam estranhos. Quando uma onda gigantesca aparece à frente de uma mulher que está surfando com uma guitarra, ela dá uma nota no instrumento e a onda se abre.

Mas, na sequência, outra onda se forma às costas da mulher e ela submerge, batendo a cabeça em uma pedra. Em terra firme, a mulher acorda com o choro de um bebê. O narrador diz que o herói se chama Kubo (voz de Art Parkinson), e esta é a história dele.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Kubo and Two Strings): Este é um filme que me surpreendeu. E não foi pouco. Pelo cartaz da produção – como vocês sabem, evito ao máximo de assistir a trailers de filmes ou de ler a respeito da história antes – eu achei que se tratava de um filme de ação, quem sabe com algo de lutas marciais, e bem ao estilo de “produção para meninos”. Eu não poderia estar mais enganada.

Diferente dos filmes da Disney que eu assisti para esta temporada pré-Oscar, Kubo and the Two Strings tem uma forte marca artística. Não apenas pelo estilo e pela técnica utilizada no desenho, que é um stop-motion de tirar o chapéu, mas também pela temática e pela proposta da história propriamente dita.

Kubo and the Two Strings é um filme de animação que segue o estilo aventura e ação, mas ele, diferente de Zootopia (comentado por aqui), tem na tradição de uma cultura, a japonesa, um elemento fundamental. Além disso, o filme rende uma grande, imensa homenagem para os contadores de histórias. O próprio protagonista é um deles. E ele segue uma tradição familiar, já que a mãe dele também era fera em contar histórias.

Uma das mensagens importantes deste filme é justamente esta, da valorização das tradições e da história familiar. Kubo empreende uma aventura de sobrevivência que é, acima de tudo, uma viagem de autodescoberta. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Logo nos primeiros minutos do filme vemos como Kubo sobreviveu a uma fuga desesperada da mãe dele. Conforme o garoto cresce, parece que a sua mãe (voz de Charlize Theron) vai ficando cada vez mais distante, com lapsos importantes de memória.

Como a cultura japonesa preconiza, Kubo tem que seguir uma série de regras para ficar “seguro”. Mas um dia, com a esperança de falar com o pai morto, o samurai Hanzo, seguindo uma tradição do vilarejo em que ele mora próximo com a mãe, Kubo quebra uma destas regras. Ele fica até depois do anoitecer “na rua” e acaba sendo encontrado pelas irmãs malévolas (voz de Rooney Mara) de sua mãe – ele estaria sempre sendo perseguido pelo avô, o Rei Lua (voz de Ralph Fiennes).

Para salvar o filho, a mãe de Kubo se sacrifica para mandá-lo para longe e enfrentando as irmãs. Quando acorda, Kubo está sob a guarda de uma macaca (voz de Charlize Theron) – o amuleto que a mãe dele sempre disse para ele manter por perto. A partir daí, os dois empreendem uma cruzada atrás da armadura e da espada que serão os únicos recursos possíveis para tentar proteger o nosso herói de seu algoz.

Os diferentes lugares pelos quais Kubo, a macaca e, depois, um ex-samurai convertido em besouro (voz de Matthew McConaughey) passam são fascinantes. O visual dos cenários, assim como a técnica de animação mais “artesanal” e o roteiro muito bem escrito por Marc Haimes e por Chris Butler baseados na história criada por Haimes e por Shannon Tindle são o ponto forte da produção.

Algo que me encantou e surpreendeu também neste filme é a forma com que os roteiristas não tratam o público potencial de Kubo and the Two Strings de forma infantil. Crianças podem assistir a este filme sem problemas, é claro, mas elas vão perceber que nem todos os personagens tratam o herói com delicadeza. A macaca, em especial, lhe dá algumas duras muito boas – algo típico de adultos preocupados em ensinar e não apenas em adular os seus filhos.

Como pede um bom filme de ação que é protagonizado por uma criança e que tem um certo senso de realidade, Kubo and the Two String mostra um herói que deve estar preparado para ser perseguido e agredido. Este não é um filme politicamente correto. Apesar de ser, essencialmente, uma fantasia, ele mostra que crianças podem passar por momentos muito difíceis, por solidão, dor e perdas importantes.

Ainda muito jovem Kubo fica órfão e deve ainda lutar por sobreviver. Ele acaba amadurecendo rápido por causa disso, mas ainda assim não perde a leveza de suas criações ou abre mão dos valores que aprendeu da mãe. Desta forma, além de valorizar as tradições e as histórias bem contadas, Kubo and the Two Strings também presta uma bela homenagem para as famílias, para os mortos e seus legados e para a humanidade e toda a sua imperfeição.

Ao contrastar o Rei Lua, que seria sinônimo de retidão e de “perfeição”, com Hanzo e sua pequena família que prefere viver no meio das pessoas e sua realidade imperfeita, Kubo and the Two Strings mostra claramente como é preciso fazer uma escolha entre estes dois mundos. O herói da história não tem dúvidas sobre preferir e defender a humanidade, o amor, a imperfeição, a compaixão e o perdão que são característicos deste contexto – e não de um mundo perfeito.

Com uma trilha sonora fantástica e um roteiro que dá o espaço adequado para os momentos de silêncio e para os diálogos inteligentes, com um texto muitas vezes irônico e uma narrativa envolvente, Kubo and the Two Strings é uma grande surpresa. Um filme muito interessante sobre a força de uma boa história e a valorização de uma cultura.

Depois de assistir a este filme, eu acho que ele pode ser entendido de duas formas diferentes. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Exatamente da forma com que ele é apresentado, ou seja, com uma alta dose de fantasia, ou como uma alegoria de uma realidade difícil.

Se observarmos com atenção, na parte inicial do filme, quando Kubo está contando a sua história no festival cultural do vilarejo, na rua, o senhor idoso que aparece no final como sendo o avô dele está na plateia. Ele não parece se envolver na história como os demais – no final da produção, após o embate do Rei Lua com Kubo, o homem aparece “fora da fantasia”, normal, e parece sofrer de Alzheimer.

Ora, se este filme é uma grande alegoria, podemos entender que Kubo e a mãe dele viviam isolados por causa de algum problema familiar e que, após a morte dos pais do garoto, ele volta a tentar resgatar o avô de seu próprio esquecimento, se aproximando do patriarca da família que parecia ter feito muito bem para aquela comunidade mas que depois se perdeu em sua “própria escuridão”.

Olhando sob este prisma, Kubo tem um gesto muito bonito ao tentar “resgatar” o avô e trazê-lo para o contato com a realidade do vilarejo novamente. Ao mesmo tempo, a alegoria da história nos mostraria um menino fantasiando com os pais como animais – macaca e besouro – e vivendo com eles uma grande aventura como forma de conhecê-los melhor e de conviver um pouco mais com eles.

Nos últimos minutos do filme, Kubo and the Two Strings nos deixa mais uma bela mensagem. De que ninguém que morre e “nos deixa” parte de verdade. Como o roteiro de Haimes e Butler bem argumentam, as pessoas continuam vivas enquanto alguém lembrar delas e contar as suas histórias. Além disso, sempre estaremos conectados com as pessoas que partiram. Familiares e amigos que continuam vivos nas nossas memórias, corações, e que estão conectados com a gente em espírito. Belas mensagens. Lindo filme. Desta temporada, a melhor animação que eu vi.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Achei a direção de Travis Knight de uma delicadeza impressionante. Atento aos detalhes, mas também acertando em dar o ritmo certo para cada sequência, o diretor leva bem para a telona o ótimo roteiro da dupla Marc Haimes e Chris Butler. Além de envolvente, o roteiro acerta ao apostar em um número reduzido de personagens, o que permite que a relação entre eles seja valorizada, e também em equilibrar bem aventura, drama e comédia (com uma boa pitada de ironia).

Este filme marca a estreia do americano Travis Knight, de 43 anos, na direção. No currículo dele havia, até então, oito trabalhos como animador, com ele sempre compondo departamentos de animação. Ele estreou nesta função no ano 2000, no filme feito para a TV Boyer Brothers. Nos últimos anos ele participou de produções como Coraline, ParaNorman e The Boxtrolls. Por este último trabalho ele foi indicado ao Oscar, mas acabou perdendo a estatueta dourada para Big Hero 6.

Interessante como este filme tem alguns astros por trás das vozes dos personagens principais. Destaque para os ótimos desempenhos de Charlize Theron (mãe de Kubo/macaca), Matthew McConaughey (besouro), Ralph Fiennes (Rei Lua) e, claro, o ótimo Art Parkinson (Kubo). Além deles, vale citar o bom trabalho de Brenda Vaccaro, como Kameyo, a senhora idosa que é amiga de Kubo e fala com ele antes de cada apresentação; e de Rooney Mara como as tias de Kubo, ainda que ela tenha poucos diálogos comparado com outros atores. Os atores George Takei e Cary-Hiroyuki Tagawa interpretam a pessoas do vilarejo, sem grande destaque.

Da parte técnica do filme, sem dúvida alguma um dos grandes destaques é a trilha sonora de Dario Marianelli. Perfeita e muito inspirada. Também achei excelente o trabalho do diretor de fotografia Frank Passingham; do editor Christopher Murrie; e, claro, do excepcional departamento de arte da produção com 34 profissionais e da equipe super talentosa de 90 profissionais do departamento de animação.

Vale citar também o trabalho competente de Daniel R. Casey e Nelson Lowry com o design de produção; de Deborah Cook com os figurinos; dos 10 profissionais envolvidos com os efeitos especiais e dos 50 profissionais envolvidos com os efeitos visuais. Cada um deles com uma contribuição fundamental para o excelente resultado deste filme.

Kubo and the Two Strings estreou no Festival Internacional de Cinema de Melbourne em agosto de 2016. Depois, o filme participou de outros dois festivais, o de Norwegian e o de Deauville. Até o momento a produção recebeu 15 prêmios e foi indicada a outros 34, incluindo a indicação ao Globo de Ouro 2017 (que será entregue neste próximo domingo, aliás).

Entre os prêmios que recebeu, destaque para os 12 de Melhor Animação entregues pelas associações de críticos de cinema de Atlanta, Austin, Boston, Chicago, Flórida, Indiana, Las Vegas, Nova York, Phoenix, San Diego, Utah e de Washington. O filme também foi reconhecido como a Melhor Animação no Village Voice Film Poll, pela associação de críticos de cinema online e, um dos prêmios mais importantes da temporada, como Melhor Animação pelo National Board of Review.

Agora, algumas curiosidades sobre a produção. O Demônio Skeleton, que é inspirado no Gashadokuro do folclore japonês, é o maior boneco de stop-motion já construído para um filme. Ele tinha 16 pés – cerca de 5 metros – de altura. Aliás, vale continuar assistindo ao filme mesmo depois que a história termina, porque após os créditos principais aparecem algumas ilustrações e também a equipe montando o Demônio Skeleton e começando a utilizá-lo em algumas cenas.

Com 1 hora e 41 minutos de duração, Kubo and the Two Strings é o filme de stop-motion mais longo da história. Ele acabou batendo Coraline por um minuto.

Para vocês terem uma ideia da dificuldade de fazer uma produção como esta, apenas a sequência do barco levou 19 meses para ser filmada. O personagem de Kubo rendeu 23.187 protótipos de rostos para satisfazer a todas as necessidades do personagem. Destes rostos, foram mapeadas 48 milhões de possíveis expressões faciais para o personagem.

Esta produção foi possível com a utilização de pelo menos 145 mil fotografias que, depois, foram transformadas em sequências de stop-motion.

Como eu comentei antes, este filme marca a estreia de Travis Knight na direção. Ele é o CEO do estúdio Laika Entertainment, responsável pelo filme. Antes de Kubo and the Two Strings, o estúdio Laika tinha sido responsável por Corpse Bride, pelo curta Moongirl, por vários episódios de Slacker Cats, por Caroline, ParaNorman, The Boxtrolls e por Junior Surveyor/Matchmover.

Kubo and the Two Strings teria custado cerca de US$ 60 milhões e faturado, apenas nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 48 milhões. Nos outros mercados em que o filme já estreou ele fez outros Us$ 21,9 milhões. No total, pouco mais de US$ 69,9 milhões. Ou seja, até o momento, ele ainda não pagou os custos da produção e da distribuição. Mais uma razão para o filme ser finalista ou até mesmo ganhar o Oscar. Talvez assim ele pudesse ter um “empurrãozinho” para buscar algum lucro.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,0 para esta produção, enquanto os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 176 críticas positivas e apenas seis negativas para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 97% e uma nota média de 8,4. Especialmente as notas dos dois sites chamam a atenção por estarem bem acima da média normal de ambos. Sinal que o filme caiu no gosto da crítica. E eu consigo entender o porquê. 😉

Kubo and the Two Strings é um filme com recursos 100% dos Estados Unidos. Por isso esta produção entra para a lista de filmes que atende a uma votação feita aqui no blog há um bocado de tempo.

CONCLUSÃO: Um filme belíssimo por sua arte e pelas mensagens que vai deixando pelo caminho. O visual da produção é incrível, assim como a maneira com que Kubo and the Two Strings respeita e resgata a tradição oriental. Utilizando muita fantasia, criatividade e arte, este filme nos conta uma trajetória de autodescoberta e de valorização da família e do legado que as pessoas que já partiram desta vida nos deixaram. Para mim, a grande surpresa da animação deste ano. Merece ser descoberto.

PALPITES PARA O OSCAR 2017: Kubo and the Two Strings é um dos 27 filmes de animação habilitados para concorrer a uma estatueta dourada no Oscar. Mas observando as bolsas de apostas da premiação as chances da produção avançar na disputa ficam ainda mais evidentes.

De acordo com as pessoas que estão apostando dinheiro nos possíveis vencedores do prêmio máximo da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, Kubo and the Two Strings está concorrendo diretamente com Zootopia. Pois sim. Estes dois filmes seriam os favoritos para levar para casa a estatueta dourada de Melhor Animação.

Francamente, do que eu assisti até agora, Kubo and the Two Strings e Zootopia realmente são os melhores filmes da temporada. Da minha parte, e acho que deixei isso claro com a minha nota, ainda prefiro Kubo. Mas não será também uma grande injustiça se Zootopia levar. Afinal, apesar do primeiro ser muito mais trabalhoso e artístico, preciso admitir que o segundo é um filme muito bem feito e divertido – além de ter o 3D como diferencial em uma disputa com Kubo.

Acho que seria uma grande zebra se Kubo and the Two Strings (assim como Zootopia) ficar de fora do Oscar 2017. Quanto a ganhar a estatueta… ainda que eu torça por ele, acho que será difícil ele vencer da gigante Disney. Veremos quem terá mais bala na agulha. Da minha parte, torço para o “mais fraco” e artístico Kubo and the Two Strings.

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