The Shape of Water – A Forma da Água


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Uma bela homenagem ao amor e aos filmes. Um conto sobre como os diferentes podem se reconhecer, e como a nossa percepção da divindade pode estar equivocada. The Shape of Water é mais uma bela obra do diretor Guillermo del Toro, esse mexicano com um gosto diferenciado por contos nada óbvios. Novamente temos na nossa frente um filme com alma e com estilo, bem composto por todos os elementos que fazem o cinema ser uma viagem mágica. Ou seja, belas interpretações, roteiro interessante e com algumas surpresas e um visual incrível. Cheio de boas intenções, The Shape of Water só falha nos detalhes.

A HISTÓRIA: Começa com um local submerso em água. Adentramos lentamente e começamos a ver cadeiras, mesas e demais objetos flutuando na água. O narrador então comenta, que se ele falasse sobre aquilo, ele não saberia exatamente o que contar a respeito. Ele diz que não sabe se falaria sobre a época, que parece que foi há muito tempo, nos últimos dias do reinado de um príncipe justo…

Ou se falaria sobre o local, uma pequena cidade perto da costa e longe de todo o resto. Ou se falaria sobre ela, a princesa sem voz. Ou ainda ele poderia falar sobre a veracidade dos fatos. Um história de amor e de perda. E o monstro, que tentou destruir tudo aquilo. Após essa introdução, mergulhamos na história desse conto cheio de fantasia e de realidade ao mesmo tempo.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Shape of Water): Impossível, depois desse filme ter sido tão premiado nessa última temporada e de apresentar o maior número de indicações ao Oscar, não ter grandes expectativas sobre The Shape of Water. Então foi assim que eu fui assistir a esse filme, com um bocado de expectativas junto comigo.

Um pouco da história eu já sabia – apesar de não gostar nada de saber das histórias antes de conferi-las na telona. Mas não tinha como não saber que esse filme era protagonizado por uma personagem muda e que ela se interessa por um “monstro” aquático. O maravilhoso de The Shape of Water é que essa é apenas uma pequena parte da história. O filme surpreende pelo visual, em primeiro lugar, e, logo na sequência, pelo excelente trabalho dos atores.

O trio central está ótimo. Eu já esperava um belo trabalho de Sally Hawkins como Elisa Esposito, a protagonista dessa produção. Mas a atriz ainda conseguiu me surpreender por sua interpretação sensível, precisa, carismática e nada exagerada. Realmente ela está muito bem. Também fiquei encantada com o trabalho seguro e muito competente de Richard Jenkins e Octavia Spencer, respectivamente Giles e Zelda Fuller, os melhores amigos de Elisa.

Todos estão muito bem. E o roteiro de Guillermo del Toro e Vanessa Taylor, desenvolvido a partir de uma história criada pelo diretor, também começa muito bem. Logo de cara o filme nos apresenta os dois cenários centrais dessa história e que são muito representativos para The Shape of Water: a casa e o cinema abaixo dos apartamentos em que moram Elisa e Giles, e o laboratório militar em que Elisa e Zelda trabalham como “mulheres da limpeza”.

O que mais me surpreende em The Shape of Water é como o filme faz uma grande homenagem para o cinema. Volta e meia a produção é recheada por músicas e cenas de filmes que fizeram a história da Sétima Arte. Os filmes fazem parte do tempo vago dos personagens Giles e Elisa que, ainda para completar, moram próximos de um antigo cinema de rua – cada vez mais vazio e abandonado.

Assim, apesar do filme claramente ser um conto fantasioso sobre o amor entre duas “criaturas” solitárias e incompreendidas, mas com referência claríssima para outro conto clássico, A Bela e a Fera, The Shape of Water se apresenta também com algumas narrativas paralelas muito interessantes. Apesar de não ficar claro na introdução do filme, essa produção se passa nos anos 1960. Possivelmente a década em que perdemos a nossa inocência enquanto civilização por diversas razões.

O filme mostra isso de forma pincelada aqui e ali. Primeiro, com uma cena isolada na TV de Giles que mostra a perseguição e a violência policial contra negros. Depois, em um dos cenários principais da história, a base militar em que o malvado Richard Strickland (Michael Shannon) manda e desmanda, a violência dos militares americanos contra tudo que poderia ter o mínimo cheiro de inimigo.

E, claro, nos bastidores daquele cenário, a guerra fria entre Estados Unidos e União Soviética, cada um procurando ganhar do outro na corrida armamentista e de “conquista do Espaço”. Algo interessante desse filme do diretor Guillermo del Toro é como a história é cheia de referências.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Além de A Bela e a Fera citada e dos diversos filmes homenageados por essa produção, se destacam também as referências históricas. Para mim, impossível não pensar no massacre dos colonizadores aos incas, maias e demais povos latinos, assim como a influência dos Estados Unidos em ditaduras da América do Sul, quando os personagens falam sobre a origem do “homem anfíbio” (Doug Jones).

Em determinado momento, Strickland comenta que os “nativos” amazônicos consideram o “homem anfíbio” como uma espécie de Deus, oferecendo para ele oferendas. Ele ridiculariza tal ação. Mas por esse “detalhe” e pelas características dos personagens Elisa, Giles e do próprio “homem anfíbio”, The Shape of Water se mostra um filme sensível e especial.

Vejamos. Primeiro, The Shape of Water trata do preconceito religioso e dos perigos da visão limitada que uma crença pode provocar. Strickland, que abriga todo o perfil de um militar com visão limitada, seguidor de ordens e com perfil violento, também resume parte da visão do “americano médio”. Ou seja, ele leva ao pé da letra que “Deus criou o homem a sua imagem e semelhança”. Assim, ele não aceita que possa existir um ser especial como o “homem anfíbio”, um outro tipo de “Deus” para uma outra civilização.

Temos aí pincelado os perigos do extremismo religioso, e como ele pode levar à exclusão e à violência. The Shape of Water trata sim sobre a exclusão do que não entendemos e do que é diferente ao nosso “padrão”. Algo que já fez muito parte da história da Humanidade e que, infelizmente, em épocas de extremismo religioso pelo mundo, continua fazendo parte da nossa história.

Mas esse filme também trata sobre o massacre da beleza em outros sentidos. Como eu comentei antes, The Shape of Water trata muito bem sobre o esvaziamento dos cinemas de rua e sobre como o cinema deixou de ter importância na vida das pessoas com o surgimento da TV – e por outros fatores, evidentemente. Aquela magia de ir para uma sala de cinema foi sendo substituída por outros “passatempos”, e todos perdemos um pouco daquela magia por causa disso.

Essa produção ainda revela como a Guerra Fria provocou muitas mortes gratuitas e absurdas, com duas grandes nações competindo não pela evolução da Humanidade, mas sim em uma queda-de-braços para ver quem era “melhor”. Espionagem e contra-espionagem e muitas mortes como saldo disso.

Como o chefe russo do Dr. Robert Hoffstetler/Dimitri (Michael Stuhlbarg) bem define, o importante não era o que eles poderiam “descobrir” ou aprender com o “homem anfíbio”, mas sim impedir que o inimigo conseguisse descobrir algo significativo. Então esse é um conto fantasioso sobre aquele período, mas que revela bem as oportunidades que os dois países tiveram e que perderam por pura ambição.

De pano de fundo da história, também vemos a uma sociedade com muitas oportunidades desiguais para as pessoas. Giles rebolava tentando conseguir algum trabalho aqui e ali, enquanto Elisa e Zelda trabalhavam na madrugada para conseguir pagar as suas contas. Giles teve um problema com alcoolismo, e Zelda lida com um marido que é castigado pelo trabalho e com quem ela nem sempre tem uma boa relação. É a vida do cidadão comum no foco dessa produção.

Esse é um dos aspectos interessantes desse filme. Como a vida de pessoas comuns pode ter – e sempre tem, quando estamos atentos para perceber – muita poesia e significado. E, claro, The Shape of Water é um filme sobre a admiração e a aproximação de duas pessoas solitárias e incompreendidas. Por  um lado, a muda, solteira e com poucos amigos, Elisa, que se encanta por um “homem anfíbio” que também não tem voz, mas que é inteligente, sabe se comunicar de outra forma e é sensível. Como ela.

Os dois se identificam e se aproximam. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). E sim, por mais que eles flertaram e se aproximaram no decorrer da história, não deixa de ser estranha a noite de amor entre os dois quando o “homem anfíbio” está no banheiro de Elisa. Apesar daquela sequência ter sido um pouco forçada, ela ainda é justificável. O que me incomodou mesmo e que eu achei um certo “deslize” do roteiro de del Toro e de Taylor foi outra parte.

Ora, passa um bom tempo entre o “resgate”/sequestro do “homem anfíbio” e o momento em que Strickland persegue Dimitri no momento de sua “extração”. Achei um tanto “forçada” toda aquela incompetência de Strickland. Afinal, não seria natural que ele tivesse seguido o Dr. Hoffstetler e outros suspeitos antes? Mas tudo que ele parece fazer são interrogatórios sem muito sentido e pouco mais que isso.

Claro que houve um motivo para o filme ser desenrolado dessa forma. Se Strickland tivesse tido uma atitude mais coerente na história, provavelmente o romance e a aproximação do “homem anfíbio” e de Elisa não teria tido tempo de ocorrer. Mas esse “desleixo” relativo com a história e a falta de explicação para a fórmula do Dr. Hoffstetler começar a deixar de funcionar com o “homem anfíbio” enfraquecem um pouco o roteiro de The Shape of Water.

Ainda assim, esses são apenas detalhes e pequenos deslizes de um filme que renova o gênero dos contos de fantasia. Como qualquer conto, The Shape of Water trabalha a realidade com uma boa carga de fantasia para provocar reflexão. Nada pode ser muito óbvio ou realista, justamente para fazer as pessoas pensarem sobre a história e, a partir dela, sobre a própria realidade. Esse é um belo conto, cheio de ponderações interessantes.

O maior valor e “moral da história” da produção, evidentemente, reside na reflexão que todas as pessoas merecem ser amadas e serem vistas por suas características e qualidades e não por seus “problemas” ou por alguma diferença que tenham com o “modelo ideal” previsto pela sociedade. Todos merecem ser incluídos, compreendidos, amados. E não excluídos ou extintos porque são diferentes do que o padrão gostaria.

Em uma época como a nossa, em que alguns extremistas voltam com a ideia de dizer quem merece ou não viver, quem merece ter ou não oportunidades, The Shape of Water se revela um filme importante. Nem tanto pelo que ele deixa óbvio, mas pelo que ele sugere e faz refletir. Vejam essa produção como um conto, como uma fantasia. Como tantos outros contos clássicos, esse também está cheio de belas mensagens e de reflexão.

NOTA: 9,3 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Algo que eu amo no diretor e roteirista Guillermo del Toro: a visão artística diferenciada que ele tem. Para mim, ele possui um estilo e uma assinatura quase tão diferenciadas quanto Tim Burton. Esses são dois realizadores que tem um grande apreço pelo visual e pelos contos, algo que eu admiro. Novamente com The Shape of Water del Toro consegue nos apresentar uma história interessante e com um visual muito bacana. Esse tipo de filme que pode até não ficar tanto tempo na nossa mente pela história, mas talvez pelo visual da produção.

Nesse sentido, vale destacar o excelente trabalho de Dan Laustsen na direção de fotografia; de Paul D. Austerberry no design de produção; de Nigel Churcher na direção de arte; de Jeffrey A. Melvin e de Shane Vieau na decoração de set; e de Luis Sequeira nos figurinos. Todos eles, especialmente os três primeiros, fazem um trabalho fundamental para mergulharmos na época e no estilo diferenciado dessa história. Um belo trabalho, sem dúvida.

Entre os aspectos técnicos do filme, vale também destacar o bom trabalho de Alexandre Desplat na trilha sonora; de Sidney Wolinsky na edição; dos 12 profissionais envolvidos com o departamento de maquiagem; dos 21 profissionais responsáveis pelo departamento de arte e dos 69 profissionais envolvidos com os efeitos visuais da produção. Toda a equipe técnica está de parabéns.

Entre as belas lembranças do cinema resgatadas por The Shape of Water, devo dizer que fiquei especialmente tocada pela lembrança de Carmen Miranda. Apesar de ter nascido em Portugal, Carmen Miranda ficou conhecida após ter se radicado no Brasil e ter vendido a imagem do nosso país para o mundo antes mesmo do futebol e do Carnaval realmente dominarem o nosso imaginário fora das nossas fronteiras. Bacana terem lembrado dela.

Sobre o elenco, como comentei antes, os grandes destaques são mesmo Sally Hawkins, Richard Jenkins e Octavia Spencer. Todos muito bem, firmes e precisos em seus papéis, evitando os exageros e os estereótipos. Michael Shannon combina sempre muito bem com os papéis de “meio malvado, meio louco”. Novamente ele faz bem esse personagem. Assim como Michael Stuhlbarg combina bem com o papel do sujeito “humano, demasiado humano”, que tem os seus dilemas, mas que sempre (ou quase sempre) acaba fazendo o que é certo. Estou curiosa para o dia em que Shannon e Stuhlbarg conseguirem sair desses papéis-padrão.

Como é sempre indicado para filmes que querem desenvolver os seus personagens um pouco melhor, The Shape of Water tem um pequeno grupo de personagens importantes. Os demais, que aparecem em cena, realmente são secundários e com papéis pouco desenvolvidos. Isso funciona bem aqui – e na maioria das vezes. Entre os personagens com menor relevância, vale destacar o bom trabalho de David Hewlett como Fleming, o chefe de segurança do laboratório militar até a chegada de Strickland; Nick Searcy como o General Hoyt, superior de Strickland e perfil totalmente coerente com os militares americanos da época; Nigel Bennett como Mihalkov, líder russo e superior de Dimitri; Lauren Lee Smith como Elaine Strickland, esposa de Richard; e Wendy Lyon como Sally, a secretária do vilão. Ainda que ele não “dê as caras”, tem um trabalho importante nessa produção o ator Doug Jones. Ele é que dá a vida para o “homem-anfíbio”.

The Shape of Water estreou em agosto de 2017 no Festival Internacional de Cinema de Veneza. Depois, o filme participaria, ainda, de 38 festivais em diversos países mundo afora. Nessa trajetória, o filme conquistou 73 prêmios e foi nomeado a outros 231 prêmios – incluindo a indicação em 13 categorias do Oscar. Entre os prêmios que recebeu, destaque para os prêmios de Melhor Diretor para Guillermo del Toro e para Melhor Trilha Sonora no Globo de Ouro 2018; para 12 outros prêmios de Melhor Diretor para del Toro; outros 11 prêmios de melhor trilha sonora; 16 prêmios de Melhor Atriz para Sally Hawkins; 6 prêmios de Melhor Design de Produção; 6 prêmios de Melhor Filme; e 3 prêmios para Melhor Direção de Fotografia.

Entre os prêmios de Melhor Filme, destaque para o recebido no Festival de Cinema de Veneza.

Agora, algumas curiosidades sobre essa produção. O diretor Guillermo del Toro disse que a atriz Sally Hawkins não foi apenas a “primeira” escolha dele para o papel de Elisa, mas a sua “única” escolha. A personagem foi escrita para a atriz, assim como o personagem de Richard Strickland para Michael Shannon. Sobre Sally, o diretor e roteirista disse que queria uma atriz que lembrasse uma mulher de um “comercial de perfume”, ou seja, que o espectador visse e acreditasse que poderia estar ao seu lado em um ônibus ao mesmo tempo que ela tivesse uma “luminosidade e uma beleza quase mágica, etérea”. Melhor definição, impossível.

O visual do “homem-anfíbio” é fortemente inspirado na “criatura” do filme The Creature from the Black Lagoon, lançado em 1954. A exemplo do personagem de The Shape of Water, que é pego em um rio na América do Sul, o personagem de The Creature from the Black Lagoon também tinha essa origem.

Guillermo del Toro escreveu longos “backstories” para cada um dos personagens principais dessa produção. Alguns tinham mais de 40 páginas. Depois de escrever esse material, o diretor deixou os atores livres para utilizarem esse material ou não. Enquanto Richard Jenkins preferiu ignorar o “backstorie” para se centrar apenas no que acontecia em cena, Michael Stuhlbarg leu o “backstorie” de seu personagem e disse que esse material foi útil para ele desenvolver o seu papel no filme.

O sobrenome de Elisa, Esposito, tem origem italiana e costuma ser dado, nos Estados Unidos, para crianças que foram abandonadas.

De acordo com del Toro, se The Shape of Water tivesse sido um fracasso, ele teria se aposentado da carreira como diretor. O mesmo aconteceu antes, na carreira dele, com El Laberinto de Fauno e com The Devil’s Backbone – outros filmes que tiveram um grande envolvimento pessoal do diretor.

A atriz Sally Hawkins disse que se inspirou em Charles Chaplin, Stan Laurel, Oliver Hardy, Buster Keaton e Audrey Hepburn para fazer o seu papel. Mistura realmente interessante, e com alguns dos grandes nomes do cinema – infelizmente pouco conhecidos pela galera nova, ultimamente.

Inicialmente, Guillermo del Toro tinha pensado em fazer The Shape of Water em preto e branco. Teria ficado interessante, mas acho que menos do que a versão colorida que vimos na telona. O diretor desistiu a ideia porque filmar em preto e branco sairia mais caro.

As filmagens de The Shape of Water, quase todas feitas dentro de um estúdio, foram feitas durante 12 semanas.

Vale citar uma interpretação interessante do roteiro feita pela atriz Octavia Spencer. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Chamou a atenção dela, do roteiro, que o casal de protagonista é mudo, e que a maior parte do diálogo é feita por uma mulher negra e por um homem de meia idade gay, ambos perfis oprimidos pela sociedade nos anos 1960. Eu não tinha parado para pensar nisso, mas realmente é um toque interessante do filme.

The Shape of Water faturou quase US$ 44,6 milhões nas bilheterias dos Estados Unidos, e fez outros US$ 19,6 milhões nos outros países em que o filme já estreou. Somados, esses dois resultados dão cerca de US$ 64,2 milhões para o filme. A bilheteria não é ruim, mas me parece também muito distante de um sucesso comercial para a produção. E isso porque ela recebeu 13 indicações ao Oscar 2018… pelo jeito, muitas pessoas já não dão bola para isso. 😉

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,8 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 263 críticas positivas e 22 negativas para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 92% e uma nota média de 8,4. Os dois níveis de avaliação são muito bons, se levarmos em conta os padrões dos dois sites, mas especialmente a nota dos críticos é excelente.

Esse filme é uma produção 100% dos Estados Unidos – por isso ela atende a uma votação feita há algum tempo aqui no blog.

CONCLUSÃO: Um filme lindo, em vários sentidos. Especialmente nas mensagens que ele propaga e no visual. The Shape of Water é uma produção bonita, bem acabada tecnicamente e com um bom trabalho dos atores. O roteiro, segue a linha que o realizar gosta, de contos que resgatam e renovam a tradição desse gênero. Apenas a narrativa, que convence por uma boa parte do tempo, dá uma certa “escorregada” para justificar a ação por mais tempo.

Essa é a única falha do filme que, como eu disse no princípio, faz uma bela homenagem ao cinema e ao amor nas suas formas mais surpreendentes e inusitadas. Entre outras mensagens, The Shape of Water nos mostra como todos devem ter o direito de amar e de serem aceitos como eles são. Mesmo que o “sistema vigente” não pense da mesma forma, é possível resistir e buscar isso com uma certa ajuda “dos amigos”. Belo filme. Mais um gol de del Toro.

PALPITES PARA O OSCAR 2018: Esse filme é um grande mistério. Ao menos se pensarmos nas chances que ele tem na premiação da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Ele é o recordista em indicações nesse ano, concorrendo em 13 categorias… mas ele realmente deve se consagrar como o maior vencedor do ano?

Essa é a grande questão que se apresenta. Acho sim que ele tem alguma chance de levar como Melhor Filme. Mas, para isso, ele terá que vencer o favorito Three Billboards Outside Ebbing, Missouri (comentado por aqui). Não seria uma injustiça um ou outro vencer. Mas… para o meu gosto, acho Three Billboards mais interessante que The Shape. Nem tanto pelo visual ou pelos aspectos técnicos, mas pelo roteiro.

Então, pessoalmente, acho que Three Billboards, apesar de ter quase metade das indicações de The Shape, deve se consagrar como o grande vencedor da noite – ganhando não apenas Melhor Filme, mas Melhor Atriz, Melhor Ator Coadjuvante e, talvez, Melhor Roteiro Original (ainda que, nessa categoria, ele corra por fora).

Vejo The Shape com maiores chances de abocanhar os prêmios de Melhor Diretor, Melhor Design de Produção e Melhor Direção de Fotografia. Mas, não está descartado dele surpreender em outras categorias, como Melhor Filme e Melhor Trilha Sonora, por exemplo.

Da minha parte, ainda que eu tenha gostado muito dos atores coadjuvantes de Three Billboards, me chamou muito a atenção o trabalho de Richard Jenkins em The Shape. Ele poderia surpreender – mas nessa categoria é mais difícil o favorito Sam Rockwell não levar.

Enfim, The Shape pode sair com o Oscar principal e mais três ou quatro prêmios no Oscar 2018 como pode, também, sair com as mãos mais vazias. Espero que ele saia com alguns prêmios, porque o filme merece. Muito bem feito e com mensagens bacanas. Segundo as bolsas de apostas, as melhores chances do filme estão em cinco categorias. Tenho as minhas dúvidas se o filme levará tantas estatuetas para casa. Logo mais saberemos ao certo sobre isso.

ATUALIZAÇÃO (13/02): Olá amigos e amigas do blog! Senti a necessidade de fazer uma atualização desse texto. Até para explicar um pouco sobre as razões que fizeram eu baixar a nota do filme. Quem acompanha o blog há mais tempo, sabe que essa não é a primeira vez que isso acontece. Mas, como isso não é tão comum assim, acho importante explicar o que aconteceu dessa vez.

Admito que algumas vezes, quando escrevo a crítica pouco depois de ter assistido ao filme – o que foi o caso desse The Shape of Water -, a minha avaliação ainda está positivamente contaminada pelas sensações que a produção acaba de me despertar. Mas, transcorrido algum tempo, percebe que a nota que eu dei estava acima do que deveria. Esse foi o caso.

Fiquei surpresa com a beleza e a proposta visual de The Shape of Water e, sobretudo, com a homenagem que o filme faz para o cinema. Ok, essa não é a primeira vez que um filme faz isso – na verdade, temos algumas décadas de experiência de filmes que volta e meia homenageiam a Sétima Arte. Como o cinema, para mim, muitas vezes significa o mecanismo que salva a minha sanidade, sim, eu tenho um fraco por filmes que fazem essa homenagem.

Mas, devo admitir, passado um tempo desse impacto visual de The Shape of Water, os problemas de roteiro da produção começam a incomodar mais. Especialmente pelo fato de que eles poderiam ter sido facilmente resolvidos – com um pouco de esforço de Guillermo del Toro. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Então sim, me incomodaram três falhas um tanto “gritantes” nessa produção. Para começar, se Richard Strickland estava realmente desconfiando do Dr. Robert Hoffstetler, como ele não “flagrou” a visita dos russos ao “companheiro” no seu apartamento após o sequestro do “homem-peixe”? Não faz sentido.

Depois, ainda que tivesse rolado um “flerte” entre Elisa e o “homem peixe”, como eu disse na crítica, me pareceu um bocado forçada a “primeira noite de amor” entre os dois. Parecia que o diretor precisava correr com a narrativa. E, claro, durante a produção, me saltou “aos olhos” a falha comentada pelo Paulo Cesar Luz no comentário logo abaixo – pensei nisso enquanto o filme se desenrolava, mas, depois, esqueci de citar na crítica aqui do blog. Sim, me chamou muito a atenção o fato do “homem-peixe” ter sido encontrado em um “rio” da América do Sul e, depois, o cientista ter recomendado para Elisa uma solução “salina” para que ele não sofresse no cativeiro.

Ora, isso não faz o menor sentido. Claro, para a narrativa um tanto desleixada de del Toro, o “homem-peixe” precisar ficar em água salgada justificaria, depois, ele ser solto em um rio que iria desembocar no mar – caminho que ele poderia, então, “trilhar” para voltar para casa. Mas vamos combinar, então por que falar que ele foi achado em um rio? Ok, como o “homem-peixe” era capaz de “adaptar” o seu organismo para respirar na água e fora dela, ele também poderia ser capaz de se adaptar em água doce e salgada… mas isso não foi dito em momento algum da produção e, se fosse assim, ele não teria problema em ficar na água doce de uma banheira, não é mesmo?

Enfim, essas “forçadas de barra” do roteiro, os fios soltos da história que não precisavam ter sido deixados soltos – o que, para mim, só mostra desleixo de del Toro – me fizeram baixar mais a nota dessa produção. E, talvez, daqui a seis meses, eu até ache que o filme merece menos que 9. Mas é que ele é tão bonito e tão cheio de boas intenções… que vou deixar ele com essa nota por enquanto. É um bom filme, só um bocado desleixado no roteiro – nos outros aspectos ele funciona bem, especialmente no visual.

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10 comentários em “The Shape of Water – A Forma da Água

  1. Estou pensando em ver esse filme novamente. Pode ter sido por questão de expectativas, mas não vi muita graça. Para além da atuação da Sally Hawkins nada mais me chamou atenção, tudo me pareceu “certinho” demais, nada me surprendeu.
    Achei legal que você tenha mencionado o Burton, pois, também pensei nele por conta da assinatura visual. O Doug Jones, inclusive, é o Johnny Deep do Del Toro, está sempre com ele. Aproveitarei o ensejo para procurar ver The Creature of the Black Lagoon, o design da criatura só me remeteu ao Abe Sapien de Hellboy, enfim.
    Mesmo a interpretação do Michael Shannon, como você comentou se mantém no mesmo lugar. Era como a mesma personagem de Animais Noturnos. Esperei ele mostrar a que veio como vilão e… Nada. Até pensei que esse comportamento dele era pela prepotencia dele que não conseguiria enxergar o óbvio se partisse de “pessoas inferiores”.
    Concordo contigo na torcida do Three Billboards Outside Ebbing, Missouri. Esse me pegou de um jeito que eu nem consigo falar do filme ainda.

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  2. Primeiramente, parabéns pela excelente crítica desse belo filme. Só uma colaboração em relação às pequenas falhas do filme: Quando a Elisa está “furtando” o homem anfíbio a base militar, o Dr. Dimitri lhe orienta que a água em que ele fica deve ter 70% de sal (acho que é essa a informação), o que não bate com a informação de que ele foi capturado em algum rio da Amazônia. Isso só faria sentido se ele na realidade vivesse em águas marinhas e eventualmente adentrasse o Rio Amazonas. Essa informação foi a que mais me deixou com “pulga atrás da orelha”. No mais, um grande filme que merece prêmios da Academia… esperemos para ver quantos. Abraços.

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  3. Olá!!
    Del toro é um dos cineastas mais inventivos, e que mais tenho gostado de acompanhar, e não me decepcionei com “the shape of water”.
    Como sempre tu descrevestes perfeitamente a produção. Acrescento ainda o fato da deficiência de Elisa estar simbolicamente relacionada à um período onde as minorias não tinham voz.
    Dou nota nove 9 pro filme também!
    Saudações!

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  4. Minha questão com o filme, apesar de ter achado algumas de suas críticas muito boas, é o fato de exposição do corpo da mulher em cenas desnecessárias, como a cena do sexo entre o vilão e sua esposa. Não acrescentou em nada na trama na minha opinião leiga sobre filmes. Outra coisa que me incomoda é o desafio as leis da física. Certo o fish-man é uma criatura mítica que era vista como um deus e com alguns poderes, mas não existe maneira de aceitar um banheiro ser inundado daquele jeito, simplesmente NÃO existe. A trama se desenvolveu de uma maneira que foi esperada, não achei nenhuma novidade. No caso do vilão do filme, como ele sabia onde a protagonista e sua companheira de limpeza moravam? Quando que ele parou para procurar suas informações? No final quando ele dispara contra a protagonista e a criatura o amigo dela bate com um pedaço de madeira na cabeça dele, porém ainda deixa a oportunidade do cara se levantar de novo, deixando a brecha pra criatura matá-lo, bem óbvio para chamar um pouco de atenção. E afinal, o cara morre ou não? Acho também que algumas coisas ficaram muito com a intenção de ser subentendidas, como o passado dos personagens que é passado “por cima”. Provavelmente não existiria como explicar tudo, principalmente pq o filme já ficou longo com apenas o que apresenta. Mas me deixou muitas dúvidas e algumas coisas bem desconfortáveis que desafiam algumas leis da natureza humana e da física (não citando a parte da criatura mítica, tudo envolvendo ela é aceitável).

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