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The Shape of Water – A Forma da Água

Uma bela homenagem ao amor e aos filmes. Um conto sobre como os diferentes podem se reconhecer, e como a nossa percepção da divindade pode estar equivocada. The Shape of Water é mais uma bela obra do diretor Guillermo del Toro, esse mexicano com um gosto diferenciado por contos nada óbvios. Novamente temos na nossa frente um filme com alma e com estilo, bem composto por todos os elementos que fazem o cinema ser uma viagem mágica. Ou seja, belas interpretações, roteiro interessante e com algumas surpresas e um visual incrível. Cheio de boas intenções, The Shape of Water só falha nos detalhes.

A HISTÓRIA: Começa com um local submerso em água. Adentramos lentamente e começamos a ver cadeiras, mesas e demais objetos flutuando na água. O narrador então comenta, que se ele falasse sobre aquilo, ele não saberia exatamente o que contar a respeito. Ele diz que não sabe se falaria sobre a época, que parece que foi há muito tempo, nos últimos dias do reinado de um príncipe justo…

Ou se falaria sobre o local, uma pequena cidade perto da costa e longe de todo o resto. Ou se falaria sobre ela, a princesa sem voz. Ou ainda ele poderia falar sobre a veracidade dos fatos. Um história de amor e de perda. E o monstro, que tentou destruir tudo aquilo. Após essa introdução, mergulhamos na história desse conto cheio de fantasia e de realidade ao mesmo tempo.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Shape of Water): Impossível, depois desse filme ter sido tão premiado nessa última temporada e de apresentar o maior número de indicações ao Oscar, não ter grandes expectativas sobre The Shape of Water. Então foi assim que eu fui assistir a esse filme, com um bocado de expectativas junto comigo.

Um pouco da história eu já sabia – apesar de não gostar nada de saber das histórias antes de conferi-las na telona. Mas não tinha como não saber que esse filme era protagonizado por uma personagem muda e que ela se interessa por um “monstro” aquático. O maravilhoso de The Shape of Water é que essa é apenas uma pequena parte da história. O filme surpreende pelo visual, em primeiro lugar, e, logo na sequência, pelo excelente trabalho dos atores.

O trio central está ótimo. Eu já esperava um belo trabalho de Sally Hawkins como Elisa Esposito, a protagonista dessa produção. Mas a atriz ainda conseguiu me surpreender por sua interpretação sensível, precisa, carismática e nada exagerada. Realmente ela está muito bem. Também fiquei encantada com o trabalho seguro e muito competente de Richard Jenkins e Octavia Spencer, respectivamente Giles e Zelda Fuller, os melhores amigos de Elisa.

Todos estão muito bem. E o roteiro de Guillermo del Toro e Vanessa Taylor, desenvolvido a partir de uma história criada pelo diretor, também começa muito bem. Logo de cara o filme nos apresenta os dois cenários centrais dessa história e que são muito representativos para The Shape of Water: a casa e o cinema abaixo dos apartamentos em que moram Elisa e Giles, e o laboratório militar em que Elisa e Zelda trabalham como “mulheres da limpeza”.

O que mais me surpreende em The Shape of Water é como o filme faz uma grande homenagem para o cinema. Volta e meia a produção é recheada por músicas e cenas de filmes que fizeram a história da Sétima Arte. Os filmes fazem parte do tempo vago dos personagens Giles e Elisa que, ainda para completar, moram próximos de um antigo cinema de rua – cada vez mais vazio e abandonado.

Assim, apesar do filme claramente ser um conto fantasioso sobre o amor entre duas “criaturas” solitárias e incompreendidas, mas com referência claríssima para outro conto clássico, A Bela e a Fera, The Shape of Water se apresenta também com algumas narrativas paralelas muito interessantes. Apesar de não ficar claro na introdução do filme, essa produção se passa nos anos 1960. Possivelmente a década em que perdemos a nossa inocência enquanto civilização por diversas razões.

O filme mostra isso de forma pincelada aqui e ali. Primeiro, com uma cena isolada na TV de Giles que mostra a perseguição e a violência policial contra negros. Depois, em um dos cenários principais da história, a base militar em que o malvado Richard Strickland (Michael Shannon) manda e desmanda, a violência dos militares americanos contra tudo que poderia ter o mínimo cheiro de inimigo.

E, claro, nos bastidores daquele cenário, a guerra fria entre Estados Unidos e União Soviética, cada um procurando ganhar do outro na corrida armamentista e de “conquista do Espaço”. Algo interessante desse filme do diretor Guillermo del Toro é como a história é cheia de referências.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Além de A Bela e a Fera citada e dos diversos filmes homenageados por essa produção, se destacam também as referências históricas. Para mim, impossível não pensar no massacre dos colonizadores aos incas, maias e demais povos latinos, assim como a influência dos Estados Unidos em ditaduras da América do Sul, quando os personagens falam sobre a origem do “homem anfíbio” (Doug Jones).

Em determinado momento, Strickland comenta que os “nativos” amazônicos consideram o “homem anfíbio” como uma espécie de Deus, oferecendo para ele oferendas. Ele ridiculariza tal ação. Mas por esse “detalhe” e pelas características dos personagens Elisa, Giles e do próprio “homem anfíbio”, The Shape of Water se mostra um filme sensível e especial.

Vejamos. Primeiro, The Shape of Water trata do preconceito religioso e dos perigos da visão limitada que uma crença pode provocar. Strickland, que abriga todo o perfil de um militar com visão limitada, seguidor de ordens e com perfil violento, também resume parte da visão do “americano médio”. Ou seja, ele leva ao pé da letra que “Deus criou o homem a sua imagem e semelhança”. Assim, ele não aceita que possa existir um ser especial como o “homem anfíbio”, um outro tipo de “Deus” para uma outra civilização.

Temos aí pincelado os perigos do extremismo religioso, e como ele pode levar à exclusão e à violência. The Shape of Water trata sim sobre a exclusão do que não entendemos e do que é diferente ao nosso “padrão”. Algo que já fez muito parte da história da Humanidade e que, infelizmente, em épocas de extremismo religioso pelo mundo, continua fazendo parte da nossa história.

Mas esse filme também trata sobre o massacre da beleza em outros sentidos. Como eu comentei antes, The Shape of Water trata muito bem sobre o esvaziamento dos cinemas de rua e sobre como o cinema deixou de ter importância na vida das pessoas com o surgimento da TV – e por outros fatores, evidentemente. Aquela magia de ir para uma sala de cinema foi sendo substituída por outros “passatempos”, e todos perdemos um pouco daquela magia por causa disso.

Essa produção ainda revela como a Guerra Fria provocou muitas mortes gratuitas e absurdas, com duas grandes nações competindo não pela evolução da Humanidade, mas sim em uma queda-de-braços para ver quem era “melhor”. Espionagem e contra-espionagem e muitas mortes como saldo disso.

Como o chefe russo do Dr. Robert Hoffstetler/Dimitri (Michael Stuhlbarg) bem define, o importante não era o que eles poderiam “descobrir” ou aprender com o “homem anfíbio”, mas sim impedir que o inimigo conseguisse descobrir algo significativo. Então esse é um conto fantasioso sobre aquele período, mas que revela bem as oportunidades que os dois países tiveram e que perderam por pura ambição.

De pano de fundo da história, também vemos a uma sociedade com muitas oportunidades desiguais para as pessoas. Giles rebolava tentando conseguir algum trabalho aqui e ali, enquanto Elisa e Zelda trabalhavam na madrugada para conseguir pagar as suas contas. Giles teve um problema com alcoolismo, e Zelda lida com um marido que é castigado pelo trabalho e com quem ela nem sempre tem uma boa relação. É a vida do cidadão comum no foco dessa produção.

Esse é um dos aspectos interessantes desse filme. Como a vida de pessoas comuns pode ter – e sempre tem, quando estamos atentos para perceber – muita poesia e significado. E, claro, The Shape of Water é um filme sobre a admiração e a aproximação de duas pessoas solitárias e incompreendidas. Por  um lado, a muda, solteira e com poucos amigos, Elisa, que se encanta por um “homem anfíbio” que também não tem voz, mas que é inteligente, sabe se comunicar de outra forma e é sensível. Como ela.

Os dois se identificam e se aproximam. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). E sim, por mais que eles flertaram e se aproximaram no decorrer da história, não deixa de ser estranha a noite de amor entre os dois quando o “homem anfíbio” está no banheiro de Elisa. Apesar daquela sequência ter sido um pouco forçada, ela ainda é justificável. O que me incomodou mesmo e que eu achei um certo “deslize” do roteiro de del Toro e de Taylor foi outra parte.

Ora, passa um bom tempo entre o “resgate”/sequestro do “homem anfíbio” e o momento em que Strickland persegue Dimitri no momento de sua “extração”. Achei um tanto “forçada” toda aquela incompetência de Strickland. Afinal, não seria natural que ele tivesse seguido o Dr. Hoffstetler e outros suspeitos antes? Mas tudo que ele parece fazer são interrogatórios sem muito sentido e pouco mais que isso.

Claro que houve um motivo para o filme ser desenrolado dessa forma. Se Strickland tivesse tido uma atitude mais coerente na história, provavelmente o romance e a aproximação do “homem anfíbio” e de Elisa não teria tido tempo de ocorrer. Mas esse “desleixo” relativo com a história e a falta de explicação para a fórmula do Dr. Hoffstetler começar a deixar de funcionar com o “homem anfíbio” enfraquecem um pouco o roteiro de The Shape of Water.

Ainda assim, esses são apenas detalhes e pequenos deslizes de um filme que renova o gênero dos contos de fantasia. Como qualquer conto, The Shape of Water trabalha a realidade com uma boa carga de fantasia para provocar reflexão. Nada pode ser muito óbvio ou realista, justamente para fazer as pessoas pensarem sobre a história e, a partir dela, sobre a própria realidade. Esse é um belo conto, cheio de ponderações interessantes.

O maior valor e “moral da história” da produção, evidentemente, reside na reflexão que todas as pessoas merecem ser amadas e serem vistas por suas características e qualidades e não por seus “problemas” ou por alguma diferença que tenham com o “modelo ideal” previsto pela sociedade. Todos merecem ser incluídos, compreendidos, amados. E não excluídos ou extintos porque são diferentes do que o padrão gostaria.

Em uma época como a nossa, em que alguns extremistas voltam com a ideia de dizer quem merece ou não viver, quem merece ter ou não oportunidades, The Shape of Water se revela um filme importante. Nem tanto pelo que ele deixa óbvio, mas pelo que ele sugere e faz refletir. Vejam essa produção como um conto, como uma fantasia. Como tantos outros contos clássicos, esse também está cheio de belas mensagens e de reflexão.

NOTA: 9,3 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Algo que eu amo no diretor e roteirista Guillermo del Toro: a visão artística diferenciada que ele tem. Para mim, ele possui um estilo e uma assinatura quase tão diferenciadas quanto Tim Burton. Esses são dois realizadores que tem um grande apreço pelo visual e pelos contos, algo que eu admiro. Novamente com The Shape of Water del Toro consegue nos apresentar uma história interessante e com um visual muito bacana. Esse tipo de filme que pode até não ficar tanto tempo na nossa mente pela história, mas talvez pelo visual da produção.

Nesse sentido, vale destacar o excelente trabalho de Dan Laustsen na direção de fotografia; de Paul D. Austerberry no design de produção; de Nigel Churcher na direção de arte; de Jeffrey A. Melvin e de Shane Vieau na decoração de set; e de Luis Sequeira nos figurinos. Todos eles, especialmente os três primeiros, fazem um trabalho fundamental para mergulharmos na época e no estilo diferenciado dessa história. Um belo trabalho, sem dúvida.

Entre os aspectos técnicos do filme, vale também destacar o bom trabalho de Alexandre Desplat na trilha sonora; de Sidney Wolinsky na edição; dos 12 profissionais envolvidos com o departamento de maquiagem; dos 21 profissionais responsáveis pelo departamento de arte e dos 69 profissionais envolvidos com os efeitos visuais da produção. Toda a equipe técnica está de parabéns.

Entre as belas lembranças do cinema resgatadas por The Shape of Water, devo dizer que fiquei especialmente tocada pela lembrança de Carmen Miranda. Apesar de ter nascido em Portugal, Carmen Miranda ficou conhecida após ter se radicado no Brasil e ter vendido a imagem do nosso país para o mundo antes mesmo do futebol e do Carnaval realmente dominarem o nosso imaginário fora das nossas fronteiras. Bacana terem lembrado dela.

Sobre o elenco, como comentei antes, os grandes destaques são mesmo Sally Hawkins, Richard Jenkins e Octavia Spencer. Todos muito bem, firmes e precisos em seus papéis, evitando os exageros e os estereótipos. Michael Shannon combina sempre muito bem com os papéis de “meio malvado, meio louco”. Novamente ele faz bem esse personagem. Assim como Michael Stuhlbarg combina bem com o papel do sujeito “humano, demasiado humano”, que tem os seus dilemas, mas que sempre (ou quase sempre) acaba fazendo o que é certo. Estou curiosa para o dia em que Shannon e Stuhlbarg conseguirem sair desses papéis-padrão.

Como é sempre indicado para filmes que querem desenvolver os seus personagens um pouco melhor, The Shape of Water tem um pequeno grupo de personagens importantes. Os demais, que aparecem em cena, realmente são secundários e com papéis pouco desenvolvidos. Isso funciona bem aqui – e na maioria das vezes. Entre os personagens com menor relevância, vale destacar o bom trabalho de David Hewlett como Fleming, o chefe de segurança do laboratório militar até a chegada de Strickland; Nick Searcy como o General Hoyt, superior de Strickland e perfil totalmente coerente com os militares americanos da época; Nigel Bennett como Mihalkov, líder russo e superior de Dimitri; Lauren Lee Smith como Elaine Strickland, esposa de Richard; e Wendy Lyon como Sally, a secretária do vilão. Ainda que ele não “dê as caras”, tem um trabalho importante nessa produção o ator Doug Jones. Ele é que dá a vida para o “homem-anfíbio”.

The Shape of Water estreou em agosto de 2017 no Festival Internacional de Cinema de Veneza. Depois, o filme participaria, ainda, de 38 festivais em diversos países mundo afora. Nessa trajetória, o filme conquistou 73 prêmios e foi nomeado a outros 231 prêmios – incluindo a indicação em 13 categorias do Oscar. Entre os prêmios que recebeu, destaque para os prêmios de Melhor Diretor para Guillermo del Toro e para Melhor Trilha Sonora no Globo de Ouro 2018; para 12 outros prêmios de Melhor Diretor para del Toro; outros 11 prêmios de melhor trilha sonora; 16 prêmios de Melhor Atriz para Sally Hawkins; 6 prêmios de Melhor Design de Produção; 6 prêmios de Melhor Filme; e 3 prêmios para Melhor Direção de Fotografia.

Entre os prêmios de Melhor Filme, destaque para o recebido no Festival de Cinema de Veneza.

Agora, algumas curiosidades sobre essa produção. O diretor Guillermo del Toro disse que a atriz Sally Hawkins não foi apenas a “primeira” escolha dele para o papel de Elisa, mas a sua “única” escolha. A personagem foi escrita para a atriz, assim como o personagem de Richard Strickland para Michael Shannon. Sobre Sally, o diretor e roteirista disse que queria uma atriz que lembrasse uma mulher de um “comercial de perfume”, ou seja, que o espectador visse e acreditasse que poderia estar ao seu lado em um ônibus ao mesmo tempo que ela tivesse uma “luminosidade e uma beleza quase mágica, etérea”. Melhor definição, impossível.

O visual do “homem-anfíbio” é fortemente inspirado na “criatura” do filme The Creature from the Black Lagoon, lançado em 1954. A exemplo do personagem de The Shape of Water, que é pego em um rio na América do Sul, o personagem de The Creature from the Black Lagoon também tinha essa origem.

Guillermo del Toro escreveu longos “backstories” para cada um dos personagens principais dessa produção. Alguns tinham mais de 40 páginas. Depois de escrever esse material, o diretor deixou os atores livres para utilizarem esse material ou não. Enquanto Richard Jenkins preferiu ignorar o “backstorie” para se centrar apenas no que acontecia em cena, Michael Stuhlbarg leu o “backstorie” de seu personagem e disse que esse material foi útil para ele desenvolver o seu papel no filme.

O sobrenome de Elisa, Esposito, tem origem italiana e costuma ser dado, nos Estados Unidos, para crianças que foram abandonadas.

De acordo com del Toro, se The Shape of Water tivesse sido um fracasso, ele teria se aposentado da carreira como diretor. O mesmo aconteceu antes, na carreira dele, com El Laberinto de Fauno e com The Devil’s Backbone – outros filmes que tiveram um grande envolvimento pessoal do diretor.

A atriz Sally Hawkins disse que se inspirou em Charles Chaplin, Stan Laurel, Oliver Hardy, Buster Keaton e Audrey Hepburn para fazer o seu papel. Mistura realmente interessante, e com alguns dos grandes nomes do cinema – infelizmente pouco conhecidos pela galera nova, ultimamente.

Inicialmente, Guillermo del Toro tinha pensado em fazer The Shape of Water em preto e branco. Teria ficado interessante, mas acho que menos do que a versão colorida que vimos na telona. O diretor desistiu a ideia porque filmar em preto e branco sairia mais caro.

As filmagens de The Shape of Water, quase todas feitas dentro de um estúdio, foram feitas durante 12 semanas.

Vale citar uma interpretação interessante do roteiro feita pela atriz Octavia Spencer. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Chamou a atenção dela, do roteiro, que o casal de protagonista é mudo, e que a maior parte do diálogo é feita por uma mulher negra e por um homem de meia idade gay, ambos perfis oprimidos pela sociedade nos anos 1960. Eu não tinha parado para pensar nisso, mas realmente é um toque interessante do filme.

The Shape of Water faturou quase US$ 44,6 milhões nas bilheterias dos Estados Unidos, e fez outros US$ 19,6 milhões nos outros países em que o filme já estreou. Somados, esses dois resultados dão cerca de US$ 64,2 milhões para o filme. A bilheteria não é ruim, mas me parece também muito distante de um sucesso comercial para a produção. E isso porque ela recebeu 13 indicações ao Oscar 2018… pelo jeito, muitas pessoas já não dão bola para isso. 😉

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,8 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 263 críticas positivas e 22 negativas para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 92% e uma nota média de 8,4. Os dois níveis de avaliação são muito bons, se levarmos em conta os padrões dos dois sites, mas especialmente a nota dos críticos é excelente.

Esse filme é uma produção 100% dos Estados Unidos – por isso ela atende a uma votação feita há algum tempo aqui no blog.

CONCLUSÃO: Um filme lindo, em vários sentidos. Especialmente nas mensagens que ele propaga e no visual. The Shape of Water é uma produção bonita, bem acabada tecnicamente e com um bom trabalho dos atores. O roteiro, segue a linha que o realizar gosta, de contos que resgatam e renovam a tradição desse gênero. Apenas a narrativa, que convence por uma boa parte do tempo, dá uma certa “escorregada” para justificar a ação por mais tempo.

Essa é a única falha do filme que, como eu disse no princípio, faz uma bela homenagem ao cinema e ao amor nas suas formas mais surpreendentes e inusitadas. Entre outras mensagens, The Shape of Water nos mostra como todos devem ter o direito de amar e de serem aceitos como eles são. Mesmo que o “sistema vigente” não pense da mesma forma, é possível resistir e buscar isso com uma certa ajuda “dos amigos”. Belo filme. Mais um gol de del Toro.

PALPITES PARA O OSCAR 2018: Esse filme é um grande mistério. Ao menos se pensarmos nas chances que ele tem na premiação da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Ele é o recordista em indicações nesse ano, concorrendo em 13 categorias… mas ele realmente deve se consagrar como o maior vencedor do ano?

Essa é a grande questão que se apresenta. Acho sim que ele tem alguma chance de levar como Melhor Filme. Mas, para isso, ele terá que vencer o favorito Three Billboards Outside Ebbing, Missouri (comentado por aqui). Não seria uma injustiça um ou outro vencer. Mas… para o meu gosto, acho Three Billboards mais interessante que The Shape. Nem tanto pelo visual ou pelos aspectos técnicos, mas pelo roteiro.

Então, pessoalmente, acho que Three Billboards, apesar de ter quase metade das indicações de The Shape, deve se consagrar como o grande vencedor da noite – ganhando não apenas Melhor Filme, mas Melhor Atriz, Melhor Ator Coadjuvante e, talvez, Melhor Roteiro Original (ainda que, nessa categoria, ele corra por fora).

Vejo The Shape com maiores chances de abocanhar os prêmios de Melhor Diretor, Melhor Design de Produção e Melhor Direção de Fotografia. Mas, não está descartado dele surpreender em outras categorias, como Melhor Filme e Melhor Trilha Sonora, por exemplo.

Da minha parte, ainda que eu tenha gostado muito dos atores coadjuvantes de Three Billboards, me chamou muito a atenção o trabalho de Richard Jenkins em The Shape. Ele poderia surpreender – mas nessa categoria é mais difícil o favorito Sam Rockwell não levar.

Enfim, The Shape pode sair com o Oscar principal e mais três ou quatro prêmios no Oscar 2018 como pode, também, sair com as mãos mais vazias. Espero que ele saia com alguns prêmios, porque o filme merece. Muito bem feito e com mensagens bacanas. Segundo as bolsas de apostas, as melhores chances do filme estão em cinco categorias. Tenho as minhas dúvidas se o filme levará tantas estatuetas para casa. Logo mais saberemos ao certo sobre isso.

ATUALIZAÇÃO (13/02): Olá amigos e amigas do blog! Senti a necessidade de fazer uma atualização desse texto. Até para explicar um pouco sobre as razões que fizeram eu baixar a nota do filme. Quem acompanha o blog há mais tempo, sabe que essa não é a primeira vez que isso acontece. Mas, como isso não é tão comum assim, acho importante explicar o que aconteceu dessa vez.

Admito que algumas vezes, quando escrevo a crítica pouco depois de ter assistido ao filme – o que foi o caso desse The Shape of Water -, a minha avaliação ainda está positivamente contaminada pelas sensações que a produção acaba de me despertar. Mas, transcorrido algum tempo, percebe que a nota que eu dei estava acima do que deveria. Esse foi o caso.

Fiquei surpresa com a beleza e a proposta visual de The Shape of Water e, sobretudo, com a homenagem que o filme faz para o cinema. Ok, essa não é a primeira vez que um filme faz isso – na verdade, temos algumas décadas de experiência de filmes que volta e meia homenageiam a Sétima Arte. Como o cinema, para mim, muitas vezes significa o mecanismo que salva a minha sanidade, sim, eu tenho um fraco por filmes que fazem essa homenagem.

Mas, devo admitir, passado um tempo desse impacto visual de The Shape of Water, os problemas de roteiro da produção começam a incomodar mais. Especialmente pelo fato de que eles poderiam ter sido facilmente resolvidos – com um pouco de esforço de Guillermo del Toro. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Então sim, me incomodaram três falhas um tanto “gritantes” nessa produção. Para começar, se Richard Strickland estava realmente desconfiando do Dr. Robert Hoffstetler, como ele não “flagrou” a visita dos russos ao “companheiro” no seu apartamento após o sequestro do “homem-peixe”? Não faz sentido.

Depois, ainda que tivesse rolado um “flerte” entre Elisa e o “homem peixe”, como eu disse na crítica, me pareceu um bocado forçada a “primeira noite de amor” entre os dois. Parecia que o diretor precisava correr com a narrativa. E, claro, durante a produção, me saltou “aos olhos” a falha comentada pelo Paulo Cesar Luz no comentário logo abaixo – pensei nisso enquanto o filme se desenrolava, mas, depois, esqueci de citar na crítica aqui do blog. Sim, me chamou muito a atenção o fato do “homem-peixe” ter sido encontrado em um “rio” da América do Sul e, depois, o cientista ter recomendado para Elisa uma solução “salina” para que ele não sofresse no cativeiro.

Ora, isso não faz o menor sentido. Claro, para a narrativa um tanto desleixada de del Toro, o “homem-peixe” precisar ficar em água salgada justificaria, depois, ele ser solto em um rio que iria desembocar no mar – caminho que ele poderia, então, “trilhar” para voltar para casa. Mas vamos combinar, então por que falar que ele foi achado em um rio? Ok, como o “homem-peixe” era capaz de “adaptar” o seu organismo para respirar na água e fora dela, ele também poderia ser capaz de se adaptar em água doce e salgada… mas isso não foi dito em momento algum da produção e, se fosse assim, ele não teria problema em ficar na água doce de uma banheira, não é mesmo?

Enfim, essas “forçadas de barra” do roteiro, os fios soltos da história que não precisavam ter sido deixados soltos – o que, para mim, só mostra desleixo de del Toro – me fizeram baixar mais a nota dessa produção. E, talvez, daqui a seis meses, eu até ache que o filme merece menos que 9. Mas é que ele é tão bonito e tão cheio de boas intenções… que vou deixar ele com essa nota por enquanto. É um bom filme, só um bocado desleixado no roteiro – nos outros aspectos ele funciona bem, especialmente no visual.

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Call Me By Your Name – Me Chame pelo Seu Nome

Quando somos jovens, o amor flui mais naturalmente. Com o passar do tempo, pensamos um pouco demais, sentimos um pouco menos. Colocamos cada vez mais dúvidas no que deveríamos fazer ou sentir. Mas quando somos jovens, não nos importamos tanto em nos equivocarmos. Sobre isso tudo é que Call Me By Your Name trata. E não apenas sobre isso. Essa produção conta uma bela história de amor. E não qualquer amor, mas o primeiro realmente grande para um jovem – e possivelmente para o seu par também. Um filme sensível, interessante, como há algum tempo a gente não via.

A HISTÓRIA: Verão de 1983. Elio (Timothée Chalamet) joga algumas roupas suas na cama em que está a amiga Marzia (Esther Garrel) quando ele escuta um carro chegando. Elio fala que está chegando “o usurpador”. A história se passa “em algum lugar ao Norte da Itália”. Quando o carro estaciona, os pais de Elio, Mr. Perlman (Michael Stuhlbarg) e Annella (Amira Casar), recepcionam o novo hóspede da família, Oliver (Armie Hammer). Mr. Perlman e Oliver já tinham trabalhado juntos, mas essa é a primeira vez que Oliver encontra a esposa e o filho do professor.

Elio tira as roupas e o violão da cama, e Oliver logo se joga para dormir. Ele está exausto. Enquanto Oliver ocupa o quarto de Elio, o jovem fica no quarto ao lado, com eles dividindo o banheiro. A relação deles vai se tornando cada vez mais próxima com o passar do tempo, em uma visível admiração que um sente pelo outro desde o princípio.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Call Me By Your Name): Depois de Moonlight (comentado aqui) ter vencido em três categorias do Oscar no ano passado, incluindo a de Melhor Filme, é bacana ver um outro filme tratando sobre a descoberta do amor e como ele pode transformar as pessoas. E, evidentemente, é bom que essas histórias de amor foquem um casal de homens, para variar um pouco.

Afinal, já estamos acostumados a muitas histórias de amor entre homens e mulheres. O cinema está recheado destas histórias. Mas é bem menos frequente vermos belas histórias de amor de casais de homens ou de mulheres. Homossexuais com belas histórias de amor sempre existiram na História, mas nem sempre as sociedades estiveram preparadas para falar abertamente sobre isso. Que bom que vivemos novos tempos, em que cada vez mais sociedades aprendem a observar estas histórias de amor como tão belas quanto as clássicas histórias de amor entre homens e mulheres.

Dito isso, no Globo de Ouro desse ano, vi o produtor brasileiro Rodrigo Teixeira, um dos responsáveis por Call Me By Your Name, comentar sobre isso, de como é importante, depois de Moonlight, um filme tratar de forma bela e sensível uma bela história de amor entre dois homens. Afinal, Moonlight mostra a transformação de um garoto que passou por diversas situações difíceis, até que encontrou o amor e uma forma de redenção.

Em Call Me By Your Name temos outra pegada. Um filme sobre o primeiro amor que não segue a cartilha de uma garota e um garoto que se apaixonam pela primeira vez. Ou então de uma mulher mais velha que ensina tudo o que sabe para um garoto inexperiente. Não. Dessa vez, temos um jovem com grande vocação artística que, aos 17 anos, descobre o amor para valer na relação com um universitário sete anos mais velho que ele que está concluindo o seu doutorado.

Essas histórias acontecem, não apenas na década de 1980, mas atualmente, na década de 2010. E antes disso, e seguirão existindo depois. Bacana ver uma história dessas ser contada com tanta naturalidade e com tanta paixão pelas pessoas envolvidas. E se você não “concorda” com nada disso, acha que as relações homossexuais são “erradas” e não deveriam ser retratadas com a mesma beleza que uma relação heterossexual, deixa eu te dizer uma coisa. Essas relações e essas formas de amar vão continuar existindo, independente da sua opinião. E quanto antes você perceber que as coisas no mundo não precisam da sua opinião ou da sua concordância para existir, melhor para você.

Dito isso, vamos ao que interessa. Falar sobre Call Me By Your Name. Essa produção segue um pouco a cartilha de um romance clássico. Ou seja, primeiro temos a aproximação entre os futuros amantes, nesse caso, Elio e Oliver. Especialmente o filho do casal de anfitriões observa cada gesto do hóspede da família. Mas ele também é observado – mesmo que não perceba. O cortejo entre os dois é cheio de provocações, de aproximações e de disfarces, como acontece (ou aconteceu) com qualquer um de nós em algum momento da vida.

Você e eu, provavelmente, já passamos por isso. Pelos “jogos” do amor. Por provocações, dissimulações, uma aproximação seguida de um disfarce. Tudo isso faz parte do cortejo, do encantamento, de tudo aquilo que é prometido mas ainda não realizado. Por grande parte de Call Me By Your Name, vemos a esse cortejo em cena. E, claro, como nem tudo acontece como Elio ou Oliver deseja, temos pequenos “desvios no caminho”, como quando Elio avança o sinal na amizade com Marzia e eles acabam transando para o jovem colocar para fora todo o tesão que, na verdade, tem por Oliver.

Claramente Oliver e Elio, e especialmente o primeiro, tem um grande apreço pelas belas feições humanas, tão bem plasmadas pela arte clássica e/ou greco-romana, que é a especialidade de Mr. Perlman. O hedonismo, aliás, está presente nesse filme desde as imagens de abertura e até o último minuto. A busca pelo prazer e a vivência dele acabam sendo um elemento vital nessa produção. Algo que toda a família de Elio entende muito bem – e isso é algo realmente raro. Mas vamos falar sobre a família dele na sequência.

Antes, falando sobre a dinâmica do roteiro de James Ivory, que teve contribuição do diretor Luca Guadagnino e que foi baseado no romance de André Aciman, vale ressaltar que Call Me By Your Name segue essa narrativa romântica tradicional. Depois dos “jogos” de aproximação e afastamento que Elio e Oliver fazem, o que apenas alimenta a expectativa dos espectadores para o momento em que eles realmente coloquem em prática todo o desejo que sentem um pelo outro, temos finalmente o grande encontro amoroso dos personagens.

Até lá, a história explora o amadurecimento da atração que Elio vai sentindo em relação a Oliver, a ponto de sentir o cheiro de suas roupas e de buscar sempre por onde anda o ser amado. Mais maduro, com 24 anos de idade, Oliver sabe bem alimentar esse desejo do jovem “pupilo”, ficando ausente o suficiente para que Elio se sinta incomodado e para que manifeste o seu desejo de maneira mais clara. Finalmente, os dois se encontram e vivem o seu romance, depois de terem “perdido” um bom tempo naquele tradicional jogo de “gato e rato”.

Interessante como os pais de Elio são sensíveis e inteligentes. Mesmo não deixando claro, eles estão cientes de tudo que está passando com Elio e em sua casa de veraneio. Não tenho dúvidas que a mãe dele, ao sugerir que Elio acompanhe Oliver em sua última estadia na Itália antes de voltar para casa, nos Estados Unidos, sabia exatamente o que estava fazendo. Diferente de outros pais, que tolhem as experiências dos filhos porque querem evitar que eles sofram com a decepção do fim do romance depois, Annella quer que Elio vivencie o amor o máximo possível.

Que a decepção, a tristeza e a dor venham depois, isso não deve impedir Elio de viver o que deseja. Isso tudo fica subentendido nos gestos de Annella e é declarado com quase todas as letras no diálogo que Mr. Perlman tem com o filho quando ele retorna da viagem com Oliver. Aliás, para mim, essa é uma das melhores partes de Call Me By Your Name. Até então, tínhamos visto a uma narrativa praticamente clássica de um romance. Mas é na análise sobre tudo o que aconteceu e na espécie de “mea-culpa” que Mr. Perlman faz que o filme ganha uma outra dimensão.

Na verdade, para ser justa, existem dois grandes momentos no roteiro do experiente James Ivory. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). O primeiro ocorre quando a produção praticamente chega à sua metade, quando Elio e Oliver vão até a cidade e, em um monumento em homenagem aos que morreram na 2ª Guerra Mundial, ocorre um dos melhores diálogos da produção. Oliver elogia como Elio sabe de tudo, ao passo que o jovem diz que Oliver nem sonha como ele não sabe de nada do que realmente interessa. O outro grande momento da produção é a conversa entre Mr. Perlman e o filho após o jovem voltar da sua viagem amorosa.

Mr. Perlman faz questão de dizer para Elio que ele deve ter a dimensão sobre o que ele viveu. Que foi algo muito especial, único, e que ele deve aproveitar isso enquanto é jovem, porque depois dos 30 anos parece que nos esvaziamos um pouco por termos dado tanto de nós antes. E nessa conversa ele fala grandes verdades. Admite, também, que teve algumas oportunidades na vida para vivenciar o que o filho viveu com Oliver, mas que acabou não se entregando para esse amor e que a oportunidade passou.

Nesse momento, de reflexão sobre o romance “clássico” que vimos, é que Call Me By Your Name consegue ser diferenciado. De fato, como eu disse no início desse texto, quando somos mais jovens, até os 20 e tantos anos, vivemos tudo mais intensamente. Nos soltamos mais e temos mais coragem em experimentar, em vivenciar o que queremos e desejamos. Depois dos 30 anos e após várias experiências amorosas, pensamos mais, analisamos, e abrimos mão de experiências que podem nos trazer dor e sofrimento. Com isso, consequentemente, deixamos de viver tudo que poderíamos.

No fim das contas, é sobre isso que se trata Call Me By Your Name. Sobre a nossa capacidade de vivenciar o amor de forma livre, solta, sem amarras ou julgamentos, e sobre a nossa capacidade de deixar de vivenciar isso depois de uma certa idade. Como eu acredito que tudo na vida é uma questão de decisão, de vontade e de escolha, acho sim que podemos vivenciar diversas fases e “vidas” dentro de uma mesma vida.

Assim, podemos ter as fases de amor platônico, de amor livre e de amor pleno, assim como as fases de tentar fugir das decepções amorosas e de seus joguinhos. Tudo é válido, desde que não percamos nunca a capacidade de amar. Porque existem diversas formas de amor e maneiras de manifestá-lo. Mesmo que abramos mão do amor apaixonado por um tempo, podemos canalizar o nosso amor para outras manifestações amorosas. E como Call Me By Your Name nos demonstra, o importante mesmo é que nunca nos deixemos embrutecer, não importa quantas desilusões amorosas vivenciemos.

O que é dito e o que é comunicado apenas pelos olhares nesse filme são elementos preciosos. Vale assistir Call Me By Your Name com tempo, com atenção e sabendo que esta produção bebe muito mais das fontes do cinema europeu do que do cinema clássico americano. Um filme com estilo, com cadência própria e com tempo para valorizar os sentimentos e expectativas de seus personagens – especialmente do protagonista, de quem a câmera de Luca Guadagnino está sempre próxima.

Afinal, a descoberta do primeiro grande amor nunca é algo banal. E esse filme sabe valorizar isso muito bem. Uma produção de romance clássica mas com a coragem de mostrar um casal de homossexuais no centro da narrativa. Muito bacana. Espero que mais pessoas passem a respeitar todas as formas de amor após assistirem a esse filme.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Na transmissão do Globo de Ouro, o produtor brasileiro Rodrigo Teixeira comentou sobre como é bom ver um filme sobre um romance homossexual com “final feliz”. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). E aí temos algo interessante nesse Call Me By Your Name: o filme realmente tem um final feliz? Isso vai depender tudo do que o espectador entende por final feliz. Admito que eu esperei que Elio e Oliver ficassem juntos. Ou seja, que Oliver iria aparecer novamente na propriedade italiana dos Perlman e assumir o seu romance com o jovem promissor. Isso não acontece mas, ainda assim, o filme deixa de ter um final feliz?

Para mim, não. E isso eu só percebi como o final do filme mesmo. Foi então que eu percebi que um “final feliz” não precisa, necessariamente, das pessoas ficando juntas “para sempre”. Até porque esse entendimento é relativo. Acredito sim que um “final feliz” acontece quando as pessoas se entregam totalmente ao que sentem e se elas foram honestas consigo mesmas, em primeiro lugar, e com o seu par, em segundo lugar. Se isso aconteceu, se o amor foi vivido intensamente, aí já temos um “final feliz”. O amor romântico geralmente provoca dor e termina.

Como já nos disse o sábio Vinicius de Moraes, que o “amor seja eterno enquanto dure”. Temos um “final feliz” quando vivemos essa eternidade e, quando o romance propriamente dito termina, saboreamos o que vivemos para o resto da nossa vida. Porque os laços continuam, e o amor também, mesmo que o contato físico não exista mais. Como bem disse Oliver perto do final, ele lembrava de tudo. E o quanto isso é imenso! Lembrar de tudo, ter apenas as lembranças boas do que passou, isso é amor e isso é ter um laço permanente com o ser amado, mesmo que nunca mais o vejamos na vida. Para mim, esse é um “final feliz” de uma história de amor. E temos isso em Call Me By Your Name.

Falando no nome do filme e do que ele representa. (SPOILER – não leia… bem você já sabe). Admito que, quando Oliver fala para Elio chamá-lo pelo seu nome e vice-versa, achei aquilo um pouco estranho. Me coloquei no lugar deles. Mas depois, conforme a história avança, é que tive a dimensão exata do que aquilo representava. Primeiro, que um chamar o outro pelo seu nome era algo que só eles sabiam, era algo que tinha um significado especial apenas para eles. Depois que, convenhamos, ninguém nos conhece – ou isso deveria ser sempre assim – melhor do que nós mesmos. Então você viver uma relação com alguém ao ponto de chamar essa outra pessoa pelo teu nome, porque você a conhece com toda essa profundidade, com toda essa intimidade… realmente é algo único. Interessante. E dá realmente a dimensão exata do que o romance que é retratado representa.

Quem acompanha esse blog há mais tempo pode estar estranhando as últimas notas que eu dei para os filmes. Mas, como comentei por aqui, na crítica de Lady Bird, resolvi ser um pouco mais “dura” e criteriosa com as notas que eu dou para as produções que eu assisto. Então, segundo o histórico do blog, pode parecer que a nota 9 não é muito boa. Mas convenhamos, lembrando da nossa época de colégio e tudo o mais, um 9 é uma nota ótima, não é mesmo? Estudávamos muito para tirar um 9 no colégio.

Então é isso. Call Me By Your Name é um filme bem feito, interessante, corajoso ao contar um romance clássico sob a ótica de um jovem que descobre que gosta de um doutorando mais velho. O primeiro amor, com toda a sua base narrativa que já conhecemos, ganha nova abordagem nesse filme. Por tudo isso, pelo belo trabalho dos atores e por dois grandes momentos dessa produção, acho que ela merece sim esse 9. Notas maiores que essa, só para filmes realmente mais marcantes e muito, muito bons, caminhando para excepcionais e excelentes. O que cada vez será mais raro por aqui.

Eu gostei das escolhas narrativas do diretor Luca Guadagnino. Ele pincela, aqui e ali na história, os seus momentos de pura arte – como em algumas sequências em que Elio está “maturando” o seu primeiro amor e na expectativa de realizar o encontro da “primeira vez” com Oliver. Nesses momentos, além da direção de fotografia de Sayombhu Mukdeeprom, é valorizada a trilha sonora que contou com Gerry Gershman como músico consultor, Lindsey Taylor como coordenadora musical e Robin Urdang como músico supervisor. Muito bons estes dois elementos na produção. Tanto a direção de fotografia quanto a música. Elementos importantes para a história e para os personagens.

Além desses aspectos técnicos que se destacam nesta produção, vale comentar o bom trabalho de edição de Walter Fasano; o design de produção de Samuel Deshors; a direção de arte de Roberta Federico; a decoração de set de Muriel Chinal, Sandro Piccarozzi e de Violante Visconti di Modrone; os figurinos de Giulia Piersanti; a maquiagem de Fernanda Perez; e os efeitos visuais que envolveram 16 profissionais.

O elenco é outro ponto a destacar nessa produção. Os atores centrais da história, Timothée Chalamet e Armie Hammer, estão realmente ótimos. Eles não forçam em suas interpretações e não parecem caricaturas de pessoas reais. Não. Ambos estão muito bem e convencem nas particularidades de seus personagens. Claro que é impossível não destacar, ainda assim, o trabalho de Chalamet. Afinal, ele está sendo focado pelas lentes de Luca Guadagnino praticamente o tempo inteiro do filme, e ele convence em cada momento. Sem dúvida, merece aplausos e o holofote que ele tem recebido. Hammer também está muito bem, carismático e provocativo na dose certa. Eles são o destaque da produção.

Além deles, é preciso comentar o bom trabalho dos coadjuvantes, com destaque, nesse sentido, para Michael Stuhlbarg e para Amira Casar. Os dois tem uma presença muito marcante no filme, nem tanto pelos diálogos – descontada a sequência da conversa de Mr. Perlman com o filho -, mas, principalmente, pela interpretação detalhista, com forte presença de olhares que dizem tudo. Especialmente Casar se destaca nesse sentido. Observem como ela percebe tudo sem dizer nada a respeito… muito interessante. E Stuhlbarg também segue essa linha, além de ter um diálogo decisivo na história. Outros coadjuvantes que merecem ser citados pelo bom trabalho são Esther Garrel como Marzia, amiga “colorida” de Elio; Victoire Du Bois como Chiara, garota “local” que fica fascinada por Oliver; Vanda Capriolo como Mafalda, empregada da família; e Antonio Rimoldi como Anchiese, outro funcionário da propriedade italiana dos Perlman.

Call Me By Your Name estreou em janeiro de 2017 no Festival de Cinema de Sundance. Ou seja, o filme já está completando um ano de trajetória em festivais pelo mundo. Ele participou, até o momento, além do Festival de Sundance, de 46 festivais – sendo o mais recente dele, iniciado no dia 12 de janeiro de 2018, o Festival Internacional de Cinema de Palm Springs. Realmente impressionante a maratona de festivais em que o filme participou. Algo muito bacana para os nomes envolvidos no projeto, inclusive o produtor brasileiro Rodrigo Teixeira.

Aliás, vale comentar um pouco sobre a trajetória de Teixeira. Como produtor, ele tem 35 projetos no currículo. Começou em 2004 com o curta Desequilíbrio. Dois anos depois, ele produziria o seu primeiro longa, o brasileiro O Cheiro do Ralo. A primeira incursão internacional de destaque de Teixeira foi o elogiado e premiado Frances Ha – uma falha no meu currículo, eu admito -, lançado em 2012. Desde então, ele seguiu produzindo filmes brasileiros e internacionais. Entre outros títulos, vale citar The VVitch: A New-England Folktale, Love e Mistress America.

Nessa trajetória imensa de festivais pelo mundo, Call Me By Your Name recebeu 42 prêmios e foi indicado a outros 118 – incluindo indicações em três categorias do Globo de Ouro 2018: Melhor Filme – Drama, Melhor Ator – Drama para Timothée Chalamet e Melhor Ator Coadjuvante para Armie Hammer. Entre os prêmios que recebeu, destaque para 8 prêmios de Melhor Ator para Timothée Chalamet; para 9 prêmios de Melhor Roteiro Adaptado para James Ivory; para 5 prêmios de Melhor Filme; para 5 prêmios de Interpretação Arrebatadora para Timothée Chalamet; para 1 prêmio de Melhor Diretor para Luca Guadagnino e para 1 prêmio de Melhor Filme Internacional no St. Louis International Film Festival. Uma bela coleção de prêmios, sem dúvida.

Tem alguns detalhes da história de Call Me By Your Name que eu só descobri lendo a sinopse da produção – durante o filme estes pontos não ficaram claros para mim. Vale citar alguns deles. A história se passa em uma vila no Norte da Itália do século 17, onde a família Perlman passa as férias sempre recebendo um estudante como convidado(a). O protagonista Elio tem 17 anos e passa as férias lendo, tocando e estudando música clássica, nadando nos rios e lagos e flertando com a amiga Marzia. O pai de Elio é um eminente professor especializado na cultura greco-romana. A mãe do garoto é uma tradutora, que aprecia a natureza e a cultura tanto quanto o marido. Oliver é o “estudante” hóspede dessa temporada, que chega na propriedade para ajudar Perlman em seu trabalho. Ele tem 24 anos e está trabalhando em sua tese de doutorado quando vai visitar o professor Perlman e família.

Na estreia de Call Me By Your Name no Festival de Cinema de Nova York, o filme foi aplaudido por 10 minutos – a maior ovação que um filme recebeu no evento até hoje.

Agora, outras curiosidades sobre essa produção. Segundo a história do filme, Elio tinha 17 anos e Oliver 24 anos quando os dois se encontram. Os atores Timothée Chalamet tinha 20 anos e Armie Hammer 29 anos quando a produção foi rodada. Na Itália, a idade para uma relação sexual ser considerada legal e feita de forma consentida é de 14 anos.

O ator Timothée Chalamet aprendeu a falar italiano e a tocar violão para poder interpretar melhor Elio.

O filme tem várias cenas sensuais, mas a sequência que mais deixou o ator Armie Hammer sem graça foi aquela em que ele dança em uma pista comandada por um DJ.

Antes das filmagens começarem, os atores tiveram apenas um ensaio. Timothée e Armie chegaram para gravar uma cena, justamente a que os dois tem o primeiro contato amoroso após estarem deitados na grama. Eles encararam a cena e o diretor Luca Guadagnino pediu para eles demonstrarem mais paixão na cena. Então eles embarcaram nos personagens até que perceberam, após algum tempo, que o diretor já tinha se afastado. Esse foi o único ensaio – ou seja, praticamente todo o filme foi rodado pela primeira vez, com os atores sem praticar cada cena antes.

Call Me By Your Name é dedicado ao ator Bill Paxton, que morreu em fevereiro de 2017. Brian Swardson, marido de um dos produtores do filme, Peter Spears, era o melhor amigo e o agente de Bill Paxton. Ele também é o agente de Timothée Chalamet. Bill Paxton visitou o set em que o filme foi rodado, na Itália, e se tornou amigo de Luca Guadagnino antes de morrer.

O diretor Luca Guadagnino já comentou que pensa em fazer uma sequência para Call Me By Your Name. No romance original, de André Aciman, os personagens Elio e Oliver se reencontram 15 anos depois do que vemos nessa primeira produção. Realmente pode ser interessante mostrar o que acontece com os dois passado tanto tempo.

De acordo com o site Box Office Mojo, Call Me By Your Name faturou pouco mais de US$ 7,2 milhões nos cinemas dos Estados Unidos. Não é uma bilheteria ruim, mas está longe de ser um graaaande sucesso comercial. Especialmente porque a produção teria custado cerca de US$ 4 milhões – ou seja, precisa crescer ainda para começar a dar lucro. Veremos se o filme consegue decolar mais após as suas várias indicações e premiações.

Call Me By Your Name é uma coprodução da Itália, da França, do Brasil e dos Estados Unidos.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,4 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 214 críticas positivas e nove negativas para esta produção, o que garante para o filme um nível de aprovação de 96% e uma nota média de 8,8. Especialmente as notas dos dois sites chamam a atenção. Estão bem acima da média dada pelo público e pelos críticos nas duas páginas.

CONCLUSÃO: O amor é sempre válido, mesmo quando ele nos machuca no final. Call Me By Your Name nos conta uma história de amor que, como tantas outras, surgiu por acaso, com o encontro de duas almas e a coragem delas de encarar o que sentiam. Um filme contado com a suavidade de uma produção europeia mas com algumas pitadas do bom cinema americano. Um tanto lento no início, Call Me By Your Name sabe alimentar a expectativa do público na cadência certa, até que na reta final o filme cresce. Nos faz pensar sobre o amor, nossas escolhas e tudo aquilo que deixamos de encarar por pensar demais. Uma bela produção, de uma safra do Oscar bastante diversa e interessante.

PALPITES PARA O OSCAR 2018: Esse filme tem tudo para emplacar diversas indicações no prêmio deste ano da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Pelos prêmios que o filme já recebeu e pelos quais ele já foi indicado, dá para nos arriscarmos a dizer que ele pode ser indicado no Oscar 2018 nas seguintes categorias: Melhor Filme; Melhor Ator, para Timothée Chalamet; Melhor Ator Coadjuvante, para Armie Hammer; Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Canção Original (podendo concorrer tanto com “The Mystery of Love” quanto com “Visions of Gideon”).

O filme ainda tem chances, se conseguir fazer um bom lobby, de emplacar indicações nas categorias de Melhor Diretor, para Luca Guadagnino; e Melhor Direção de Fotografia. Ou seja, acredito que Call Me By Your Name tem chances de emplacar entre 5 e 7 indicações para o Oscar. Um belo desempenho, sem dúvidas.

Mas em que categorias o filme tem reais chances de vencer? Pelo andar da carruagem das bolsas de apostas – mais do que das premiações, porque muitas das principais de Hollywood ainda estão para acontecer -, acredito que ele tenha chances mesmo só em Melhor Roteiro Adaptado. Nas demais categorias o filme corre um pouco “por fora”, tendo sempre um ou dois candidatos muito fortes para derrubar antes de chegar na estatueta dourada.

Ainda assim, se o filme emplacar cinco ou mais indicações, ele já terá bastante visibilidade e conseguirá ser visto por ainda mais pessoas. E isso é tudo que um filme e os seus realizadores desejam. Veremos as próximas premiações para fazer um prognóstico ainda mais ajustado.

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Arrival – A Chegada

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Este filme é recomendado para quem gosta de ficção científica, de ciência pura e dura e de comunicação. Se você não está neste grupo, pense bem antes de assistir a Arrival. Digo isso porque, me perdoem a expressão, mas esse filme é cabecice pura. Sim senhor, sim senhora. Arrival leva várias questões dos fãs de ficção científica para outro patamar. Por mais que desconfiemos de algo aqui e ali, é só no final mesmo que o filme faz todo o sentido. E é aí que você percebe a genialidade da história. Mais um grande filme do Sr. Dennis Villeneuve.

A HISTÓRIA: Da sala de uma casa vemos a uma linda paisagem. Louise Banks (Amy Adams) está admirando a filha, ainda bebê. Na sequência, ela aparece sentada e pede para a filha voltar para ela. Depois, Louise aparece brincando com Hannah (Abigail Pniowsky) maiorzinha. A menina corre, sorri, mas depois Louise aparece chorando no hospital e se despedindo da filha. “Volte para mim”, Louise diz novamente.

Após comentar que não sabe exatamente onde está o começo ou o fim, Louise afirma que existem dias que “definem a sua história além da sua vida”. Então ela recorda do dia em que “eles” chegaram. Ela percebe a sala bastante vazia, na universidade, e então fica sabendo que naves estacionaram em 12 locais do mundo. Assim começa a história do envolvimento de Louise com a chegada de seres de fora do Planeta.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu à produção Arrival): Este é um filme em que não dá para dormir no ponto. Como é preciso ter atenção em cada detalhe, também não é recomendado assistir a Arrival cansado. Outros filmes já trataram de extraterrestres e da forma com que a Humanidade lidou com ele em uma possível “invasão” ao nosso Planeta. Mas Arrival leva o tema para um outro patamar.

Na verdade, por incrível que possa parecer, este filme segue a linha do diretor Denis Villeneuve em desbravar alguns dos principais dilemas individuais e coletivos das sociedades. Temos dilemas morais aqui, como em outros filmes dele, e mais que uma produção sobre extraterrestres, esta é uma produção sobre pessoas, seres humanos. Essa é uma das questões brilhantes do filme, mas ela não é a única.

Voltemos um pouquinho. Para começar, mais uma vez, Villeneuve trabalha bem com a questão temporal da história. A exemplo do que vimos antes em Prisoners (comentado aqui) e em Enemy (com crítica neste link), em Arrival, novamente, não temos certeza sobre a ordem dos fatos. Afinal, em que momento os acontecimentos que abrem esta produção estão situados?

A impressão que o roteiro de Eric Heisserer, baseado na história “Story of Your Life” de Ted Chiang, nos dá é que aquele começo são lembranças da protagonista sobre o que aconteceu com a filha dela. Só muito mais para a frente é que vamos saber exatamente do que se trata. Villeneuve a cada filme mostra o seu talento para a narrativa. Depois daquela introdução das memórias de Louise, mergulhamos na ação propriamente dita. A protagonista acompanha as notícias pela TV, como a maioria da população do mundo, mas por ser uma reconhecida especialista em linguística, ela acaba sendo chamada pelo Exército americano, mais especificamente pelo coronel Weber (Forest Whitaker) para ajudar.

Como já foi mostrado em outros filmes, sendo o clássico Close Encounters of the Third Kind talvez o exemplo mais conhecido, a comunicação é um elemento-chave em um encontro de humanos com seres extraterrestres. De forma magistral e irretocável Villeneuve vai construindo a expectativa e a tensão até que pessoas comuns como Louise e o físico Ian Donnelly (Jeremy Renner) se encontrem com os seres extraterrestres. A escolha é a acertada e funciona muito bem porque cria, desde o início, a empatia no público. Teria sido muito diferente mostrar “uma palhinha” de um encontro de um grupo de militares, por exemplo, como ocorreu no primeiro contato.

A primeira cena impactante é quando o público vê a nave. Impossível para mim, naquele momento, não lembrar do final de outro clássico, 2001: A Space Odyssey. Aliás, lembrei muito destes dois clássicos enquanto assistia a Arrival. E isso só fez ficar mais claro, para mim, como o filme de Villeneuve leva produções deste gênero para outro patamar. Diferente de outros filmes que apostam no confronto e na guerra entre humanos e extraterrestres, estas outras produções tem em comum um olhar muito mais cuidadoso, atento, e que observa, sobretudo, o nosso comportamento em relação ao diferente e ao estranho do que realmente os efeitos destes contatos.

De forma inteligente, o roteirista e o diretor de Arrival constroem a narrativa em um crescente. A primeira tensão é o encontro inicial dos protagonistas com os seres que eles deverão “desvendar”. Depois entra a parte superinteressante e lógica do trabalho linguístico de Louise. Enquanto os militares tem pressa para uma resposta, achando que ela virá simples em um entendimento sobre sons que eles nem sabem se tem algum significado, Louise mostra que é preciso sair do “modelo mental” humano e buscar conhecer a forma com que os seres de fora da Terra pensam.

Esta é a grande sacada do filme, a meu ver. E a grande explicação para o que a história nos revela está em um diálogo entre Louise e Ian. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Em determinado momento, quando todos trabalham para compreender a linguagem dos extraterrestres mas ainda não chegaram a parte alguma, Ian pergunta para Louise se ela já está sonhando no idioma deles. E daí ele observa que quando uma pessoa realmente mergulha em um outro idioma, ela passa a pensar de outra forma, a ter a compreensão do mundo modificada e, consequentemente, começa a “sonhar” naquele idioma.

Aí está a grande resposta para o enigma de Arrival. Até então eu ficava me pergunta qual era a razão de, volta e meia, Louise ficar lembrando de momentos com a filha. A primeira resposta, e a mais óbvia, é que fatos do presente estavam fazendo ela relembrar de momentos com Hannah. Essa é a forma linear de pensar, acreditando que a vida tem começo, meio e fim e que, consequentemente, nossa memória também funciona assim. Só que Louise descobre depois de investigar a linguagem dos extraterrestres que eles não tinham uma forma de comunicação linear.

A “viagem” do argumento de Arrival é que se eles não tinham uma linguagem linear, eles também não pensavam ou viam a realidade de forma linear. Desta forma, de fato não existiria passado, presente e futuro, mas todo o conhecimento de alguém que tivesse essa forma de comunicação e, consequentemente, este mapa mental seria também não-linear. Ou seja, atemporal. A genialidade de Arrival ao ter este argumento é que conforme a especialista em linguística Louise ia realmente entendendo a forma de comunicação não-linear, ela própria passava a ver o mundo desta maneira. Assim, ela passou a vivenciar o futuro com a filha que nem havia nascido. Genial, não?

Enquanto todos os outros estavam com pensamento linear, Louise começou a enxergar a realidade de forma não-linear. Mas a compreensão dela, assim como a de qualquer um de nós que se aventura em um novo idioma e em uma nova forma de pensar, vai acontecendo aos poucos e de forma gradativa. Só perto do sinal que ela tem tudo claro. Por isso aquela sequência aparentemente maluca dela com o general Shang (Tzi Ma), manda-chuva da China, faz sentido.

No presente ela não sabia como evitar uma catástrofe mundial, mas conforme o entendimento dela ia ficando mais claro, ela foi buscar “no futuro” a resposta do que ela deveria dizer para Shang. Alguém que pensa de forma linear pode dizer: “Mas não faz sentido, como Shang poderia estar lembrando para ela sobre algo que ela contou para ele no passado se o passado ainda não tinha acontecido e, consequentemente, aquela cena da festa de lançamento do livro dela após o conflito resolvido também não seria uma realidade ainda”.

A questão, e a grande sacada deste filme é esta, é que quando Louise passa a pensar da mesma forma que os extraterrestres, ela tem conhecimento sobre todo o espaço temporal, inclusive do que acontece no futuro. Isso não impede, claro, que ações diferentes dela no presente não modifiquem o futuro. Mas ela tem acesso a conhecimentos prováveis do futuro e, com isso, consegue agir no presente e tomar decisões. Por um tempo depois de ter assistido ao filme me pareceu sem sentido, ainda assim, as cenas iniciais de Arrival.

Afinal, eu ficava pensando, não fazia sentido aquele começo de Louise indo para casa sozinha, como se já tivesse sido abandonada pelo marido e tivesse perdido a filha, e depois ela entrando na missão dos extraterrestres. Afinal, a história de Hannah estava no futuro. Mas aquele começo se explica não como um fato linear, e sim como lembranças de Louise depois que tudo aquilo tinha acontecido. É como se fosse uma introdução para a história que, a partir da chegada dos extraterrestres, volta para trás no tempo.

Enfim, diferente do que pensei inicialmente, Arrival não tem furos. Ele faz sentido, especialmente se você entende a proposta da não-linearidade. Uma dúvida que acho que muitos podem ter é porque no futuro Ian ia abandonar Louise quando ela contou para ele que Hannah iria morrer se ele, como ela, poderia ter a compreensão completa do tempo. Se fosse assim, ele já saberia o que iria acontecer com a filha antes mesmo dela nascer.

Para mim, a explicação para isso é simples: como acontece com diferentes idiomas que temos no mundo atualmente, nem todo mundo tem a capacidade de dominar certas linguagens. Há pessoas que aprendem, que mergulham e que realmente passam a pensar em outro idioma, mas tem outros que não tem esta capacidade. Ian era uma destas pessoas que certamente não entendeu/decifrou profundamento o idioma extraterrestre. Louise escreve um livro sobre aquela linguagem, mas certamente poucas pessoas no mundo tiveram a capacidade dela para realmente compreender o “presente” deixado pelos visitantes de fora da Terra.

Achei a premissa de Arrival brilhante, assim como a forma com que o filme é construído. A narrativa fragmentada e cheia de inserções de diferentes tempos da história de Louise é intricada, não é simples de entender. Mas é brilhante por realmente mergulhar e demonstrar o que a história quer nos mostrar de diferenciado em relação a filmes do gênero. A linguagem e a descoberta dela é fundamental para qualquer relação, e isso fica evidente neste filme.

Além das ponderações envolvendo a linguagem e a comunicação, gostei também de como o filme se debruça na raça humana. Este é outro atrativo da produção. Arrival mostra claramente como, apesar do início as diferentes nações colaborarem entre si, passado algum tempo predomina a característica egoísta e competitiva do ser humano. Isso é demonstrada pela “guerra fria” entre a China, os Estados Unidos e outros países. A tão falada geopolítica se apresenta com toda a sua divisão quando alguns países se sentem ameaçados e querem demonstrar mais força que os outros.

Neste sentido, Arrival apresenta algumas reflexões importantes sobre o nosso mundo. Primeiro, o pavor e o medo das pessoas sobre o desconhecido. Há revolta, depredação e falta de civilidade em várias partes do globo quando as naves aparecem. Depois, conforme o tempo passa e as nações não encontram respostas, a insegurança dos governos também marca posição. Como aconteceu com o 11 de Setembro e em outras ocasiões, a resposta para o medo é a ameaça e o confronto. Primeiro acabam as cooperações entre os países e, depois, muitos se armam para confrontar uma presença que eles não entendem. E quando você não entende, você se sente ameaçado.

Então Arrival não apenas apresenta um conceito interessante e diferenciado sobre o que motivaria a “visita” de extraterrestres na Terra, mas também nos coloca frente a um grande espelho. Como sugere um dos extraterrestres, eles estão “ajudando” a Humanidade desde os primórdios e, desta vez, vieram entregar a sua forma de se comunicar e de “pensar” para que tenhamos um entendimento completo do tempo. Desta forma, se este conhecimento for bem utilizado, catástrofes podem ser minimizadas e guerras podem ser evitadas. Em troca os extraterrestres querem ajuda nossa no futuro. Fica em aberto a razão para isso, mas não deixa de ser inteligente.

O filme precisa de muita atenção, até porque tem várias “interferências” de outros tempos no “presente” da protagonista, mas Arrival é construído de forma inteligente e funciona muito bem. Para finalizar, a produção reflete sobre algo que o brasileiro Pequeno Segredo (comentado aqui) também aborda: como você agiria frente a uma criança que você sabe que vai morrer e que é a sua filha? Você cuidaria para que ela fosse o mais feliz possível ou, de alguma forma, você evitaria aquele sofrimento.

Se em Pequeno Segredo o casal Schürmann deve decidir se vai ou não adotar uma menina que eles sabem que não deverá viver muito tempo, em Arrival Louise deve decidir se vai casar com Ian e ter uma filha com ele sabendo que ela vai morrer ainda jovem. Nos dois casos as duas mulheres optam por viver ao máximo ao lado de suas filhas, cuidando para dar todas as oportunidades de felicidade para elas e sem escapar da dor. Tocante. E nos faz pensar sobre as nossas próprias escolhas e sobre a vida. Ela é bela não porque não tenha dor e sofrimento, mas porque aprendemos com absolutamente tudo, especialmente na relação amorosa com as pessoas, e nisto está a sua beleza.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Não é impossível que, conforme eu vá assistindo aos outros favoritos ao Oscar, eu reveja a nota acima. Na verdade, mesmo agora eu fiquei muito em dúvida sobre que avaliação dar para Arrival. A indecisão estava entre o 10 acima e uma nota mais “modesta” como um 9,8. Mas decide dar a nota máxima porque, realmente, não vi nenhum defeito neste filme. O “furo” na história que eu achei que Arrival tinha acabou ficando claro depois de pensar um pouco mais. Arrival é bem redondo e bem acabado, então merece um ótimo conceito.

A direção de Denis Villeneuve, irretocável, e o ótimo roteiro de Eric Heisserer são realmente destaques importantes da produção. Mas não são os únicos. Amy Adams estava inspirada nesta produção, mostrando muita maturidade na interpretação e também muita veracidade na condução de sua personagem. Jeremy Renner está bem, mas ele fica um pouco eclipsado pela parceira de cena. Além deles, os outros atores tem papéis bem secundários, sem nenhum grande destaque.

Da parte técnica do filme, gostei muito da direção de fotografia difícil e bem planejada e executada de Bradford Young. Também funcionam bem a edição de Joe Walker, a trilha sonora muito pontual de Jóhann Jóhannsson, o ótimo e interessante design de produção de Patrice Vermette, o departamento de som com um trabalho incrível de uma equipe de 33 profissionais, os efeitos especiais com cinco profissionais e os efeitos visuais envolvendo impressionantes 358 profissionais – sim, isso mesmo que você leu, uma equipe gigantesca de 358 profissionais. Não lembro de ter visto a um outro filme, pelo menos recentemente, que tenha envolvido uma equipe tão grande que trabalhou nos efeitos visuais da produção. Realmente o trabalho de toda esta equipe é impressionante e fundamental para Arrival.

Sobre o elenco, além dos atores que eu já destaque, vale citar o bom trabalho – ainda que sem graaaande expressão – dos atores Forest Whitaker como o coronel Weber, que convoca Louis e Ian; Michael Stuhlbarg, que interpreta o agente Halpern, que está coordenando as ações em Montana; Tzi Ma como o general Shang, presidente da China; Abigail Pniowsky como a Hannah de oito anos de idade; Mark O’Brien como o capitão Marks, um dos militares incomodados com a “falta de ação” contra os extraterrestres; Jadyn Malone como a Hannah de seis anos de idade; Julia Scarlett Dan como a Hannah com 12 anos de idade; e Carmela Nossa Guizzo como a Hannah de quatro anos.

Arrival estreou no Festival de Cinema de Veneza no dia 1º de setembro. Até o final de outubro ele participou e outros 12 festivais, uma verdadeira maratona, e em novembro, de mais dois. Com esta trajetória o filme conseguiu um prêmios e foi indicado a outros 13. O único que ele recebeu, até agora, foi o Silver Frog no Camerimage.

Esta produção, que teria custado cerca de US$ 47 milhões, faturou apenas nos Estados Unidos cerca de R$ 67,8 milhões. Nos outros países em que já estreou o filme fez outros US$ 32,2 milhões. Batendo a marca de US$ 100 milhões e tendo muito ainda para faturar, Arrival é uma produção que sairá no lucro apesar do seu alto custo.

Arrival foi totalmente rodado no Canadá, em lugares como Montreal e Bas-Saint-Laurent. Entre outros locais, um dos pontos que foi aproveitado como cenário da produção foi a Universidade de Montreal.

Agora, algumas curiosidades sobre esta produção. O diretor Denis Villeneuve e o roteirista Eric Heisserer criaram uma linguagem visual alienígena funcional. Eles criaram um tipo de “glossário” de logogramas com 100 tipos diferentes de imagens com “significados”, sendo que 70 delas são vistas no filme.

Na história de Ted Chiang, desembarcam na Terra 112 naves muito menores dos que as apresentadas no filme. Mas, sem dúvida, para o cinema, funcionou melhor a escolha feita pelos realizadores de Arrival.

Antes das filmagens começarem, Amy Adams não sabia falar mandarim. Mas ela acaba tendo que dizer uma frase neste idioma em certo momento. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Aliás, a frase que o general Shang sussurra para ela e que teria sido dita pela mulher dele no leito de morte foi: “Na guerra não existem vencedores, apenas viúvas”. Uma boa frase para ele repensar o que estava prestes a fazer na história, realmente.

Descobri algumas coisas interessantes ao ler as notas da produção. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Inicialmente o filme teria “presentes” diferentes deixados pelos alienígenas em cada um dos oito países em que eles pararam as suas naves. Mas Villeneuve mudou de ideia após assistir a Interstellar. Ele não queria que um filme lembrasse o outro. A exemplo de quando Louise conta para Hannah que ela tinha recebido este nome porque ele era um palíndromo, o próprio filme e a última música que aparecem nele também são um palíndromo. Ou seja, as cenas iniciais do filme são também como a produção termina, uma forma de mostrar que a linguagem e a forma de pensar dos extraterrestres que nos é “presenteada” e compreendida por Louise não é linear e nem tem início, meio ou fim.

Denis Villeneuve é, sem dúvida alguma, um dos novos diretores que vale a pena acompanhar. Gostei muito dos dois filmes anteriores dele, que eu citei lá mais no início deste texto. Além deles, sei que tem outros filmes de Villeneuve que eu perdi e que foram bem elogiados – um dia, ainda, quero assisti-los. A próxima produção dirigida por ele também promete. Ele já está trabalhando na pós-produção de Blade Runner 2049, filme que dá continuidade para o clássico de Ridley Scott e que tem no elenco, entre outros nomes, Robin Wright, Harrison Ford, Ryan Gosling, Jared Leto, Barkhad Abdi, entre outros. Promete.

Assisti a este filme no cinema, e ele realmente pede ser apreciado em uma telona e com um grande som.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,4 para Arrival, enquanto os críticos do site Rotten Tomatoes dedicaram 248 críticas positivas e 18 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 93% e uma nota média de 8,4. Tanto a nota do público quanto da crítica comprovam que o filme foi aprovado por estes dois públicos e que está bem credenciado para emplacar alguns prêmios e indicações daqui para a frente.

Esta é uma produção 100% dos Estados Unidos.

CONCLUSÃO: Que filme, meus amigos! Ainda que ele não ignore outras referências de filmes com “contatos alienígenas”, ele nos leva a outro patamar neste tipo de produção. Mais do que nos fazer pensar sobre os “visitantes”, Arrival nos faz refletir sobre nós mesmos e sobre o tipo de organização global em que estamos. Este é um nível de análise. Mas há outro existencialista e um terceiro sobre a importância da comunicação. De forma muito genial o filme nos constrói uma narrativa que fará sentido realmente no final.

Com um roteiro primoroso, ótimos atores e uma direção competente, Arrival é realmente uma das grandes pedidas deste período pré-Oscar. Mais uma vez o diretor Dennis Villeneuve soube me conquistar. Por pouco ele não apresenta nenhum furo ou defeito. Por isso ele vai merecer as indicações que deverá receber no próximo Oscar. Agora, como eu comentei antes, este filme é super difícil de entender. É preciso estar atento e gostar dos temas para não ficar “perdido” no final. Para quem está familiarizado com boa parte dos temas tratados, contudo, Arrival é um deleite. Recomendo para estas pessoas. Para as demais, acredito que outros filmes podem funcionar melhor.

PALPITES PARA O OSCAR 2017: Este é um dos filmes inevitáveis nesta temporada pré-Oscar segundo muitas bolsas de apostas de especialistas. Ao assistir a Arrival eu percebi o porquê do filme ser apontado como promissor em diversas categorias. Só não sei se a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood vai topar o desafio de dar evidência para um filme tão complexo. Porque este filme não tem nada de simples ou de muito palatável para o grande público.

Caso a Academia resolver dar o devido crédito para o filme, apesar dele não ser muito simples, Arrival realmente pode chegar longe no Oscar. Há quem aposte que Arrival poderá ser indicado como Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Atriz e Melhor Roteiro Adaptado. Realmente eu acho que ele pode emplacar todas estas indicações, além de algumas outras técnicas, como Melhores Efeitos Visuais, Melhor Mixagem de Som e, talvez, Melhor Edição de Som.

Entre as categorias principais, talvez apenas Melhor Diretor pode ser mais difícil do filme figurar. Nas demais, acredito que ela consiga emplacar uma indicação. Agora, saber se ela tem chance de ganhar em alguma ou mais de uma, só esperando para ver a outros dos favoritos. Aparentemente Arrival corre por fora, mas vou conseguir falar com mais propriedade sobre isso após assistir a outros favoritos, como La La Land, Jackie, Fences, Silence e Manchester by the Sea. Veremos.

ATUALIZAÇÃO (18/12): Nesta semana sai a lista dos filmes indicados ao Globo de Ouro 2017. Arrival foi indicado nas categorias Melhor Atriz – Drama (Amy Adams) e Melhor Trilha Sonora. A disputa nas duas categorias está bem acirrada.

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Trumbo – Lista Negra

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Quase todos os países do mundo já viveram épocas tenebrosas em suas histórias. Os Estados Unidos não é diferente. Na verdade, o mundo enquanto conjunto civilizatório já viveu diversas épocas tenebrosas e que valeriam variados filmes críticos. Trumbo trata de uma destas épocas sob uma ótica pouco mostrada pelos filmes de Hollywood: a chamada caça à bruxas dentro dos estúdios de cinema durante a Guerra Fria. Eu já tinha lido um bocado a respeito e sabia sobre a perseguição de vários nomes, mas nunca tinha visto um filme tão direto e focado neste assunto quanto este Trumbo.

A HISTÓRIA: Começa explicando que durante os anos 1930, em resposta à Grande Depressão e ao crescimento do Fascismo, milhares de americanos se filiaram ao Partido Comunista dos Estados Unidos. Depois que os Estados Unidos se aliaram à União Soviética durante a Segunda Guerra Mundial, muitos mais se juntaram ao partido. O roteirista Dalton Trumbo, antigo defensor dos direitos trabalhistas, tornou-se membro do partido em 1943. Mas a Guerra Fria lançou uma nova luz de suspeita sobre os comunistas americanos. A história propriamente começa em 1947, na propriedade de Trumbo ao norte de Los Angeles. Vemos o autor trabalhando, o cenário de Hollywood naquela época e o início da caça aos comunistas em Hollywood.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Trumbo): Gosto de filmes que falam de cinema e da relação que esta arte tem com a sociedade e vice-versa. Eles não são muito frequentes, por isso é sempre um deleite quando encontramos uma boa produção que trate desta indústria. Trumbo, para ser ainda melhor, não trata de uma fase qualquer da indústria, e sim quando ela mudou para sempre.

Há diversos acertos e alguns pequenos deslizes neste filme. Primeiro, vou falar de todos os acertos – que, em número, excedem em muito as falhas da produção. Para começar, o roteirista John McNamara, baseado no livro de Bruce Cook, acerta em focar a carreira de Trumbo pouco antes dela começar a ser questionada e desmoronar. Não demora muito, assim, para o filme entrar na questão central, que foi a criação pelo Comitê de Atividades Anti-Americanas, criado em 1938, de um inquérito para investigar a Indústria Cinematográfica de Hollywood em 1947.

Ao mesmo tempo que o roteiro de McNamara acerta em ir direto ao ponto e em se debruçar no que aconteceu durante, imediatamente depois e nos anos seguintes deste processo que ficou conhecido como “caça às bruxas em Hollywood”, o filme perde um pouco de contextualização. Eis um motivo para, apesar de soberbo, brilhante e necessário, este filme não ser perfeito.

Valeria ter gasto alguns minutos a mais para explorar melhor aquelas ameaças de greve que aparecem rapidamente no início de Trumbo. Na verdade, elas foram causadas, mais que por influência dos “comunistas”, como o filme pode ter sugerido, por uma mudança de lógica em Hollywood. Na década de 1940 os grandes estúdios, até então predominantes nas decisões de Hollywood, estavam começando a ruir enquanto catalisadores da indústria. Grandes diretores e atores surgiram com poder criativo e de escolha, ditando regras e não mais repetindo as velhas fórmulas dos estúdios.

Neste cenário, naturalmente diversas categorias começavam a exigir mais. Trumbo mostra os designers de produção fazendo piquetes e greve, mas na história de Hollywood há diversos outros profissionais que fizeram isso. Uma das greves mais conhecidas foi a relativamente recente paralisação dos roteiristas de Hollywood entre o final de 2007 e o início de 2008, em uma paralisação que durou 100 dias e que afetou produções para o cinema e para a televisão – confira aqui uma matéria que fala do final desta greve.

Comentei isso apenas para deixar claro que a greve dos designers de produção e as manifestações de outras categorias na Hollywood da segunda metade dos anos 1940 tinha pouco a ver com os comunistas. Verdade que eles defendiam uma outra organização econômica e social, mas nem todos eram panfletários. E mesmo que fossem, eles não faziam isso através dos filmes e sim em sua vida particular. Trumbo, o filme, mostra isso com propriedade.

Gostei muito do roteiro de McNamara e da direção de Jay Roach. Os dois realmente focam no personagem central, o roteirista Dalton Trumbo, mas nem por isso ignoram o que acontece ao redor dele. Verdade que acho que faltou um pouco mais de contextualização histórica, como eu comentei antes. Afinal, depois da prisão e da soltura de Trumbo, passados alguns anos daquela perseguição descabida, parece um tanto inusitado para quem não acompanhou a história de Hollywood o ator Kirk Douglas (interpretado por Dean O’Gorman) bater à porta do roteirista para pedir que ele refizesse o roteiro de Spartacus.

Afinal, quando Trumbo começa, figuras como Louis B. Mayer (interpretado por Richard Portnow), um dos fundadores do estúdio MGM, é quem dita as regras da indústria. Como, anos depois, Kirk Douglas era o produtor de seu próprio filme e, junto com Stanley Kubrick, foi o grande responsável por Spartacus? Isso tem a ver com o que eu disse antes, com a ascensão de diretores como Alfred Hitchcock e de atores como Huphrey Bogart e Kirk Douglas, que ganharam mais independência, autoridade e autonomia, enquanto os estúdios perderam força.

Essa falta de contextualização atrapalha um pouco Trumbo. Senti falta também de serem citados mais nomes perseguidos naqueles tempos. Afinal, verdade que Trumbo fez parte do “The Hollywood Ten” (Os Dez de Hollywood), primeiro grupo identificado e penalizado por ser comunista e trabalhar em Hollywood, mas em junho de 1950 três ex-agentes de FBI e um produtor de televisão de direita, Vincent Harnett, publicaram o Red Channels.

Esse documento listava nada menos que 151 nomes de roteiristas, diretores e atores que passaram a integrar a lista negra do Comitê de Atividades Anti-Americanas. Conforme as pessoas eram convocadas para falar com o Comitê e preferiam ficar caladas, elas também eram listadas – cerca de 320 pessoas passaram a fazer parte desta lista que as impedia, em teoria, de trabalhar na indústria. Entre os nomes incluídos nesta relação estavam os de Leonard Bernstein, Charlie Chaplin, John Garfield, Dashiell Hammett, Lillian Hellman, Arthur Miller e Orson Welles.

Claro que eu não esperava que Trumbo listasse todos esses nomes, mas poderia ter indicado, aqui e ali, no roteiro de McNamara, alguns destes nomes conhecidos além daqueles 10 iniciais que acabaram presos. Mas esses são os únicos aspectos que me “incomodaram” um pouco neste filme, pensando neles especialmente depois que a produção terminou. Porque enquanto o filme está se desenrolando ele é apenas um grande deleite.

Trumbo acerta ao mostrar os bastidores de Hollywood e, principalmente, em focar os efeitos daquela caça às bruxas na vida dos nomes perseguidos e suas famílias. Para mim, o filme tem dois grandes recortes: o óbvio, sobre a indústria do cinema, e o menos óbvio, dos perigos da histeria coletiva e da política do medo. Especialmente o segundo tema é mais do que atual. Nos Estados Unidos, desde o ataque às Torres Gêmeas, a política do medo vive assombrando a população e a cultura do país, provocando estragos particulares e coletivos dentro e fora do país.

Falemos primeiro do recorte sobre Hollywood que o filme faz. Fiquei impressionada não apenas com a interpretação de Bryan Cranston, que está perfeito, mas também com os atores que interpretam personagens importantes daquela época e daquele círculo como Edward G. Robinson (interpretado por Michael Stuhlbarg), Hedda Hopper (a ótima Helen Mirren), John Wayne (David James Elliott), Arlen Hird (Louis C.K.), Buddy Ross (Roger Bart), Frank King (John Goodman), Hymie King (Stephen Root) e Otto Preminger (Christian Berkel). Ainda ainda o já citado Kirk Douglas e uma ponta de John F. Kennedy (Rick Kelly).

Sempre é um prazer ver tantos personagens importantes da história – especialmente de Hollywood – sendo reinterpretados e trazidos novamente “à vida”. A reconstituição de época e os “bastidores” do cinema que permeiam toda a história são interessantíssimos, especialmente para quem gosta do tema. Interessante ver as relações de poder e o jogo de interesses que permeia os diferentes estúdios e profissionais que atuam naquela área, assim como o governo e formadores de opinião – como a jornalista Hedda Hopper. Na época figuras como ela podiam destruir ou, pelo menos, abalar reputações com bastante facilidade.

Essa narrativa dos bastidores de Hollywood não é muito comum e, por isso mesmo, Trumbo se torna um filme diferenciado. No fim das contas, apesar de toda a pressão e “terrorismo” das pessoas que queriam acabar com os comunistas no país, o talento venceu. Com a ajuda inicial fundamental dos irmãos Frank King e Hymie King, Trumbo conseguiu sobreviver e, pouco a pouco, trabalhar cada vez mais – e até em demasia – para pagar as contas e dar estabilidade para a família.

E daí surge o outro aspecto interessante de Trumbo. Ao focar essencialmente em um personagem importante daquela época, o filme dirigido por Roach se aprofunda na personalidade e no cotidiano do personagem, mostrando não apenas o seu talento, mas também o seu contexto familiar e de amizades. Esta produção acerta, sem dúvida, ao fazer isso, porque daí percebemos os efeitos daninhos de uma perseguição aloprada como aquela da caça às bruxas. Vale lembrar também que aquele tipo de perseguição se espalhou pelo mundo, em diferentes países e realidades – no Brasil ela também existiu e, como diz Trumbo, vitimou não apenas a cultura, mas também tirou vida de várias pessoas.

Bueno, voltando para o filme. Ao se debruçar na história de Trumbo, vemos como aquela paranoia coletiva cobrou um preço alto das famílias, que eram hostilizadas por vizinhos e conhecidos e não podiam admitir o que os perseguidos faziam para viver. As pessoas eram condenadas pelo que elas acreditavam e pensavam e não por seus atos. Como Trumbo afirma na entrevista que o filme reproduz apenas uma parte, o tal Comitê de Atividades Anti-Americanas nunca conseguiu provar nenhuma atividade realmente daninha para o país.

O que aquela perseguição provocou foi a perda de liberdade de centenas de pessoas que, no fim das contas, foram impedidas de trabalhar. E sem trabalho, passaram por diversas agruras – algumas morreram, como diz Trumbo, vítimas dos efeitos desta perseguição. No caso do protagonista deste filme, depois que saiu da prisão Trumbo ficou obcecado por fazer exatamente aquilo que a caça às bruxas queria lhe impedir de fazer: trabalhar.

Obcecado por escrever cada vez mais, mas sem a possibilidade de assinar os próprios roteiros, Trumbo virava as noites, trabalhava praticamente o tempo inteiro e sem ter mais tempo para a família – algo que ele conseguia fazer muito bem antes de ser perseguido. O filme mostra muito bem essa mudança e a forma com que Trumbo acaba envolvendo toda a família naquela nova rotina – até que a esposa dele, Cleo (interpretada pela ótima Diane Lane), resolve dar um basta e chamar a atenção do marido sobre a forma repressora que ele adotou em casa.

Esse filme tem grandes momentos – dois que me tocaram muito foi a conversa de Cleo com o marido e as vezes em que a família dele, em casa, torceram para que ele ganhasse os dois Oscar’s que ele ganhou assinando com outros nomes duas produções premiadas pela Academia.

Todo o contexto cruel que cercou todas aquelas vidas é um verdadeiro absurdo. E é bom falar deste absurdo hoje, em 2016, porque há muitas figuras que querem voltar para aquele tempo de censura e de perseguição. É preciso recordar, lembrar, para impedir que histórias assim se repitam. Trumbo funciona muito bem neste sentido. Grande filme, mais uma das boas descobertas apresentadas pelo Oscar 2016.

NOTA: 9,7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Vale listar os “The Hollywood Ten”: Herbert Biberman, Lester Cole, Albert Maltz, Adrian Scott, Samuel Ornitz, Dalton Trumbo, Edward Dmytryk, Ring Lardner Jr., John Howard Lawson e Alvah Bessie. Eles foram condenados a períodos que variaram entre seis e doze meses de prisão.

O tema da caça às bruxas feita em Hollywood é fascinante. Vale buscar mais a respeito. Recomendo, para quem quiser iniciar essa pesquisa, este texto bem ilustrativo sobre o Macartismo da Planeta Educação; também este outro texto do blog Ready for My Close Up Now que não apenas traz os nomes e obras dos 10 de Hollywood, mas também os movimentos de solidariedade à eles (algo que Trumbo também ignora); vale dar uma olhada neste texto da revista Época, com outras informações curiosas sobre o período; e, mesmo escapando um pouco do tema, mas complementando ele um bocado, vale a leitura deste texto da História Viva sobre a “colaboração” ou influência direta do Exército americano no cinema até que eles se divorciaram após o Vietnã.

Trumbo não trata do tema, mas o blog Ready for My Close Up Now lembra bem que se existia o MPA (Motion Picture Alliance for the Preservation of American Ideals), que tinha entre um de seus líderes John Wayne, também existia para contrabalancear a balança o Comitê Pela Primeira Emenda que contava com Humphrey Bogart, Lauren Bacall, John Huston, entre outras personalidades que defendiam os 10 de Hollywood. Aliás, falando em MPA, Trumbo não trata disso, mas ela foi fundada por Walt Disney – sim, meus caros! – e tinha como participantes, ainda, Gary Cooper, Barbara Stanwick, Cecil B. DeMille, Ginger Rogers, Ronald Reagan, King Vidor, entre outros.

Uma coisa, e Trumbo aborda bem isso, é alguém “dedurar” um colega para sobreviver, como alegou o ator Edward G. Robinson, interpretado com precisão e brilhantismo por Michael Stuhbarg, outra bem diferente é a delação “por prazer”, praticamente, como aquela feita por Elia Kazan – que era brilhante, mas pisou na bola ao destruir a vida de diversos colegas. Diversos nomes não precisavam ter denunciado os colegas para sobreviver.

O diretor Jay Roach acerta ao apostar no talento de Bryan Cranston e estar sempre próximo do ator, assim como dos outros personagens próximos a ele. Ele faz uma boa e competente direção, mas sem nenhuma grande “invenção”. O que é bom, porque valoriza o trabalho dos atores e o bom roteiro de John McNamara – ainda que ele tenha falhado em alguns pontos que eu já comentei, especialmente na falta de contextualização e da citação de mais nomes daquele contexto histórico.

O elenco de apoio do filme é muito competente – e chama a atenção a quantidade de estrelas. Além de Bryan Cranston, se destacam Helen Mirren, Diane Lane, Michael Stuhlbarg e Louis C.K. Mas além deles e dos outros nomes já citados, vale comentar o bom trabalho dos atores que dão vida para os filhos dos Trumbo: Toby Nichols como Chris Trumbo entre as idades de seis e 10 anos; Madison Wolfe como Niki Trumbo na idade entre oito e 11 anos; Meghan Wolfe como Mitzi Trumbo na idade entre seis e oito anos; Mitchell Zakocs como Chris Trumbo entre os 10 e os 12 anos; Mattie Liptak como Chris Trumbo entre os 13 e os 17 anos; Becca Nicole Preston como Mitzi Trumbo entre os nove e os 12 anos; John Mark Skinner como Chris Trumbo quando ele tem 29 anos; e a sempre competente Elle Fanning como Niki Trumbo na fase universitária/adulta quando ela tem uma troca mais madura com o pai.

Da parte técnica do filme, vale destacar a ótima trilha sonora de Theodore Shapiro; a direção de fotografia de Jim Denault; a edição de Alan Baumgarten; o design de produção de Mark Ricker; a direção de arte de Lisa Marinaccio e Jesse Rosenthal; a decoração de set de Cindy Carr; e os figurinos de Daniel Orlandi. Todos eles, especialmente os últimos, são fundamentais para a ambientação da história.

Achei os irmãos King – que, na verdade, tinham o sobrenome Kozinsky – mais que admiráveis. Eles deram emprego não apenas para Trumbo, mas para vários outros nomes perseguidos pela lista negra. Vale dar uma conferida na história deles neste link da Wikipédia.

Eu nem preciso dizer que Bryan Cranston mais que mereceu a indicação como Melhor Ator no Oscar 2016, né? Grande ator. Espero que ele faça mais filmes excelentes e que logo mais ganhe, por mérito puro, uma estatueta dourada. Este ano não tinha como porque a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood já devia um Oscar há tempos para o Leonardo DiCaprio, mas eu espero, sinceramente, que a hora de Cranston chegue. Agora, falando ainda e Oscar, Helen Mirren bem que podia ter sido indicada como Melhor Atriz Coadjuvante pelo trabalho neste filme, não? Ela está tão bem que não tem como não odiar a personagem que ela está fazendo. 😉

Trumbo estreou em setembro de 2015 no Festival Internacional de Cinema de Toronto. Depois, o filme participaria, ainda, de outros sete festivais mundo afora. Nesta trajetória, até o momento, o filme recebeu dois prêmios e foi indicado a outros 31. Ele rendeu apenas o terceiro lugar como Melhor Ator para Bryan Cranston no Prêmio dos Críticos de Cinema de Iowa; o Spotlight Award no Festival Internacional de Cinema de Palm Springs para Bryan Cranston e o prêmio de Melhor Ator para Cranston no Prêmio da Associação de Críticos de Cinema Southeastern.

Algo que este filme aborda e que nunca eu vou entender: por que tantas pessoas tem medo de outras que pensam diferente e preferem combatê-las do que aceitar que elas tem o direito de pensar diferente? Isso já aconteceu muito na história da Humanidade – da Inquisição na Idade Média até a “blacklist” de Hollywood – e volta e meia alguém tenta fazer este tipo de medo e de atitude predominar. Temos que estar alertas e cada vez mais defender que todas as pessoas tenham liberdade de pensar diferente – desde que este pensamento não se materialize em crime e infrinja as leis, evidentemente. Neste segundo caso, a aplicação da lei deve ser feita. E isso é tudo.

Agora, algumas curiosidades sobre o filme: o diretor Jay Roach disse que muitas cenas de Trumbo em que o protagonista escreve sozinho na mesa ou na banheira foram improvisadas por Bryan Cranston enquanto as câmeras estavam rodando e que ele realmente estava criando frases para os roteiros que o personagem estaria escrevendo.

O ator Steve Martin comentou que quando ele era muito jovem a sua namorada e a família dela lhe apresentaram novas ideias e oportunidades intelectuais – e o pai dela era Dalton Trumbo, de quem Martin nunca tinha ouvido falar até aquele momento.

Gary Oldman foi cogitado para o papel de Trumbo. Francamente, Cranston faz um trabalho tão impressionante como o roteirista que eu não consigo imaginar mais ninguém como protagonista deste filme.

Importante observar duas “incorreções” do filme. Edward G. Robinson, na verdade, nunca delatou nenhum nome para o Comitê, como Trumbo mostra. Ele testemunhou quatro vezes, mas nunca apontou nenhum nome. Outro personagem, Arlen Hird, não existiu com este nome – ele é, na verdade, um amálgama de vários nomes de escritores que fizeram parte da lista negra. Observando a lista dos 10 de Hollywood, da qual ele teria feito parte, realmente já dá para perceber isso. Curioso não terem escolhido um outro personagem real, não é mesmo? Não vi muito a razão para isso. Também não entendi porque colocar Robinson como delator quando ele não foi – e outros sim.

Trumbo fez pouco mais de US$ 7,8 milhões nos Estados Unidos. Somando com o que a produção fez nas outras bilheterias mundo afora, ele chegou a US$ 8,2 milhões. Ainda pouco para o filme.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,5 para esta produção, enquanto os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 107 críticas positivas e 38 negativas para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 74% e uma nota média de 6,7. Fiquei curiosa para ver o documentário sobre Trumbo. Será que é melhor que o filme? Alguém viu e quer comentar? 😉

Esta é uma produção 100% dos Estados Unidos.

CONCLUSÃO: Filme extraordinário e que conta um momento muito importante da história não apenas dos Estados Unidos, mas do mundo. Afinal, enquanto artistas eram perseguidos naquele país, tínhamos situação parecida no Brasil quando por aqui tivemos ditadura militar, e em tantos outros países em fases um pouco anteriores ou posteriores. Bem narrado, com um ator de primeiríssima linha como protagonista e um belo elenco de apoio nos outros papéis, Trumbo é um destes filmes inevitáveis para quem gosta de cinema.

Quem dera que mais filmes se debruçassem não apenas nas relações e bastidores da Sétima Arte, mas que também falassem de épocas tenebrosas da nossa história coletiva. O filme acerta no ritmo e na crítica, assim como na imersão na história pessoal e profissional do protagonista. Por pouco ele não é perfeito. Senti falta da produção citar mais nomes importantes de Hollywood que foram perseguidos naquela época, assim como explicar um pouco melhor a mudança do “sistema” da indústria, que deixou naqueles anos de ser dominada por grandes estúdios para passar a ser muito mais autoral.

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Steve Jobs

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Um personagem de relevância histórica é sempre difícil de retratar em apenas um filme. Basta lembrar de grandes lideranças políticas ou de grandes artistas e os filmes que tentaram contar a suas histórias ou parte delas para ter isto claro. Mas algumas produções conseguem se dar melhor que outras nesta tarefa. Steve Jobs é um destes filmes que fica no meio do caminho. Ele tem qualidades, mas deixa bastante a desejar – especialmente se você conhece um pouco sobre a história do personagem retratado. Francamente, depois de assisti-lo, fico surpresa com as indicações que recebeu para o Oscar. Para mim, não passa de um filme razoável.

A HISTÓRIA: Começa com aquele vídeo histórico com a entrevista que um jornalista da rede ABC fez com o escritor Arthur C. Clarke, de 2001: A Space Odyssey. O jornalista apresenta para o escritor o seu filho Jonathan, comentando que ele será um adulto – a entrevista acontece em 1974 – no ano que o autor projetou em seu livro, e pergunta como será o mundo em 2001. Clarke prevê que todos terão um computador e que as pessoas terão mais liberdade e autonomia por causa disso. Corta.

Passamos para 1984, em Cupertino, na Califórnia, quando Steve Jobs (Michael Fassbender) se prepara para lançar o Macintosh para uma grande e sedenta plateia. Nos bastidores ele discute com Andy Hertzfeld (Michael Stuhlbarg) porque o computador não conseguirá responder “olá” durante a apresentação. A partir deste momento conhecemos mais sobre a personalidade e a vida do homem que transformara a Apple e o consumo de tecnologia no muno.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Steve Jobs): Honestamente, se não fosse pelo Oscar, eu não teria assistido a Steve Jobs. Digo isso porque, como comentei lá no início, sempre acho complicado um filme de duas horas ou pouco mais apresentar um recorte interessante de um personagem histórico interessante e controverso, como é o caso do ícone da informática em questão.

Enfrentei a missão por causa do meu desafio pessoal de assistir ao máximo de filmes que estão concorrendo ao Oscar. Além disso, admito, tinha curiosidade de ver o desempenho de Michael Fassbender e Kate Winslet nesta produção. Afinal, os dois estão sendo volta e meio lembrados em premiações como duas das melhores interpretações de 2015. Não sou uma fanática por Steve Jobs, daquelas que sabe tudo sobre a vida dele. Mas já li um bocado, vi alguns de seus vídeos disponíveis no YouTube – de apresentações de produtos, como o lançamento do iPod e do iPhone, até entrevistas com ele – e, por isso, sei que ele não era um gênio sem problemas.

Muito pelo contrário. Steve Jobs era um visionário com pés, canelas e pernas de barro. Talvez por isso ele chame tanto a atenção. Faz parte da atratividade dele, evidentemente, também ele ter ajudado a mudar uma indústria e a empresa que ele ajudou a fundar e recuperar fazer parte da vida de milhões de pessoas no mundo inteiro. Tivemos vários outros gênios na história da humanidade, muitos deles muito maiores que Steve Jobs – que tal falar de Copérnico, Galileu Galilei, Da Vinci, Darwin e Einstein, só para citar alguns dos óbvios?

Todos viveram em uma época em que não era possível utilizar a mídia global a seu favor e nem promover grandes eventos para o lançamento de suas últimas “descobertas”. Também havia uma capacidade de documentação e registro muito, mas muito menor do que aquela vivida por Steve Jobs. A favor dele, além de uma bela capacidade de persuasão e de convencimento da mídia – falando bem ou mal dele, mas normalmente bem -, havia o fato de tudo poder ser gravado, documentado, transmitido e propagado para milhões como nunca antes na história.

Steve Jobs, o filme, faz um recorte bem pequeno da trajetória de Steve Jobs. O filme vai do lançamento do Macintosh, em 1984, passando pela saída traumática dele da Apple até o retorno do executivo para a companhia para o lançamento do iMac em 1998. Inicialmente, acho estranho contar de forma linear e tão limitada a vida de um personagem como este, tendo a possibilidade de utilizar outros recursos, como flashbacks para contar fatos importantes do passado – esse recurso até é utilizado, mas pouco e de forma muito pontual – e um roteiro e uma edição mais elaborada para contar uma parte maior da vida de Jobs.

Agora, entendo a escolha do roteirista Aaron Sorkin e do diretor Danny Boyle de centrar este filme apenas no período entre 1984 e 1998. Com esta escolha eles tentam resumir este personagem complexo e conturbado em um conceito: um homem brilhante, um tanto cruel, obcecado pelo trabalho e pelos detalhes, frio com a maioria das pessoas mas capaz de mostrar também algum sentimento e, principalmente, obcecado pela Apple e por fazer uma desforra contra todos aqueles que foram contra ele e/ou não entenderam a sua genialidade antes.

O problema é que esta é apenas uma parte da história de Jobs. Verdade que ele era tudo isso, mas ele era também um sujeito muito preocupado com o design e com o “estado de arte” da tecnologia. Ele poderia ser um pouco egocêntrico, mas ele não queria só ser o centro das atenções e retomar o posto que havia perdido na Apple. Ele queria, de fato, comprovar a própria teoria de que as pessoas poderiam ter bons equipamentos, úteis para as suas vidas e que ajudariam a revolucionar o mundo – como previu o Arthur C. Clarke que aparece no vídeo que abre o filme.

Entendo que Sorkin e Boyle escolheram o período citado por mostrar que este gênio da informática teve dois “fracassos” importantes antes de conseguir o primeiro sucesso. Isto é algo fundamental para as pessoas que atuam na área e para a cultura dos Estados Unidos.

Lá, diferente do Brasil, se aceita e até se estimula que um empreender tente e erre antes de simplesmente não tentar. Os fracassos fazem parte do processo. Neste sentido, Steve Jobs acerta ao mostrar como o protagonista desta história se deu mal com o lançamento do Macintosh e, depois, com o lançamento do Cubo da NeXT antes de ter sucesso comercial pela primeira vez.

Mas aí, justamente aí, está um dos grandes problemas deste filme. Algo que me incomodou quando saímos do lançamento do Cubo para “viajarmos” direto no tempo para o lançamento do iMac em 1998. Quem leu a obra de Walter Isaacson, no qual o roteiro de Sorkin teria se baseado ou, como eu, ao menos leu alguns trechos deste livro, sabe que há um capítulo importante neste período temporal de Jobs que fez toda a diferença para a vida dele e para esta história.

Esse capítulo tem a ver com a compra da Pixar por Jobs em 1986. Tudo o que ele fez no estúdio simplesmente é ignorado pelo filme de Sorkin/Boyle. Achei lamentável. Até porque não era difícil falar a respeito – mesmo que a intenção dos realizadores era mostrar sempre os bastidores e momentos de “tensão” que antecederam a algumas de suas famosas apresentações de novos produtos. Além disso, me pareceu exagerada a força que o roteiro fez para mostrar a relação (ou falta dela, em muitos momentos) de Jobs com a filha Lisa (Makenzie Moss quando ela tinha cinco anos, Ripley Sobo quando ela tinha nove e a brasileira Perla Haney-Jardine quando ela tinha 19 anos).

Neste filme percebemos muito o lado perfeccionista e cruel de Steve Jobs, seja no trato dele com a equipe com a qual ele trabalhava e que eram subordinados dele, seja na forma com que ele lidava com a ex-namorada Chrisann Brennan (Katherine Waterston) ou com Lisa. Parece que Sorkin fez questão de mostrar bastante da relação de Jobs com Lisa, em especial, para tentar “humanizá-lo”. Como se o robô fosse, pouco a pouco, se tornando humano. Sabemos que Jobs, de fato, foi com o tempo suavizando um pouco o trato, mas a verdade é que ele nunca deixou de ser perfeccionista e um tanto “babaca” com as demais pessoas.

Isso acontece com muitos de nós, diga-se de passagem. Somos mais diretos, afoitos e temos muita pressa para conquistar o que queremos quando somos muito jovens. Com o tempo, a maturidade nos ensina a desacelerar e a relaxar. Inevitável que isso tivesse acontecido com Jobs. Mas esta reflexão não aparece tanto no filme quanto desejado. Também achei estranho tantas discussões ao estilo “lavar a roupa suja” do protagonista com John Sculley (Jeff Daniels) e Steve Wozniak (Seth Rogen) enquanto o roteiro ignora a Pixar e os outros relacionamentos que Jobs teve na vida – apenas em um breve momento o roteiro cita Joan Baez, mas é só.

Toda obra, e os filmes estão incluídos nesta categoria, defende uma ideia. Isso acontece em Steve Jobs também. Mas a ideia que o filme defende é deficitária. Este é o problema. Esta produção é muito menor do que poderia ser. Verdade que ela tem o mérito, ao menos, de não endeusar Jobs. Menos mal. Ele tinha diversos pecados e falhas, como tantos outros gênios antes e depois dele – mas sem tanta documentação a respeito, volto a ressaltar.

O filme mostra parte delas, mas ignora muitas de suas qualidades – apenas algumas são enfocadas na história. Na maior parte do tempo ele parece apenas um grande babaca obcecado pelo trabalho e por apresentações de produtos perfeitas e que não sabia lidar com as pessoas, nem amar a filha, nem reconhecer os colegas que tinham feito os produtos que ele apresentava com tanta soberba. E ainda que ele fosse um pouco disso, certamente ele era mais do que este retrato imperfeito.

Também senti falta de algo importante no filme: um pouco mais sobre a história por trás dos três aparatos destacados nas apresentações de Jobs. Afinal, como surgiram as “viradas de chave” do Macintosh, do Cube da NeXT e do iMac? Em que pontos Jobs foi decisivo e em que pontos outras pessoas foram determinantes? Claro, alguém pode argumentar, que Sorkin não poderia ter se aprofundado na personalidade de Jobs ao mesmo tempo em que detalhava cada uma destas inovações. Mas acho que ele não precisava nem ir tanto ao céu e nem ir tanto a Terra.

Sorkin poderia perfeitamente ter encurtado as várias discussões entre o protagonista e Wozniak ou de Jobs com Sculley e ter colocado um pouco mais de dinâmica e edição em contar um pouco dos bastidores dos laboratórios e não apenas da “coxia” das apresentações dos produtos. Na verdade, achei o filme bem devagar, em muitos momentos, com um ritmo lento demais e sem a necessária profundidade narrativa ou do personagem central.

Alguns momentos da história também me pareceram forçados para arrancar algum “sentimento” do espectador – especialmente na reta final envolvendo a personagem de Joanna Hoffman (Kate Winslet) e a de Lisa em relação a Jobs. Vi uma forçada de barra desnecessária ali. E quanto às interpretações… Fassbender e Winslet estão bem. O filme é centrado bastante nos dois. Mas não vi em nenhum deles uma interpreta digna do Oscar. E mesmo eles terem sido indicados achei um pouco de bondade da Academia. Se eu votasse, não teria colocado eles lá.

NOTA: 7 6,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Gosto muito do diretor Danny Boyle. Ele está na lista dos diretores que eu gosto sempre de acompanhar. Por isso mesmo achei este Steve Jobs um ponto fora da curva da filmografia dele. Para mim, um de seus filmes mais fracos e, sem dúvida alguma, menos ousados. Claro que ele faz um bom trabalho, como não poderia deixar de ser. Boyle acompanha de perto os atores principais, especialmente Fassbender e Winslet. Acerta ao mostrar os comentários da imprensa após cada lançamento fracassado, dando um certo “contexto histórico” – ainda que limitado – para a história. Mas, cá entre nós, nada inovador.

O roteirista Aaron Sorkin realmente é um dos “queridinhos de Hollywood”. Só isso poderia explicar ele ganhando o Globo de Ouro de Melhor Roteiro por este filme. Para mim o roteiro de Steve Jobs é um dos pontos fracos da produção. E deveria ser exigido que constasse, em alguma parte, que o roteiro é “levemente” baseado no livro de Walter Isaacson.

Porque o livro homônimo dele sim trata Jobs de maneira muito mais ampla e justa, contando a história completa deste personagem, todas as suas nuances, crises, carreira e vida pessoal. Muito diferente do filme. Além disso, me parece um crime Steve Jobs ganhar o Globo de Ouro concorrendo com Room (comentado aqui), Spotlight (com crítica neste link) e mesmo The Big Short (crítica por aqui). Qualquer um destes três tem um roteiro muito, mas muito melhor que Steve Jobs.

Eu até simpatizo com o ator Seth Rogen mas, francamente, acho que um ator mais “de peso” e, talvez, mais velho, deveria ter encarnado Steve Wozniak. Faria mais sentido.

Como comentei antes, o filme é bastante centrado na interpretação de Michael Fassbender e de Kate Winslet. Até porque boa parte da história é feita sobre a interação dos dois. Ambos estão bem, mas nada extraordinário. Cite já alguns coadjuvantes de renome, como Jeff Daniels, Seth Rogen e Michael Stuhlbarg. Os três estão bem, mas algo esperado de atores deste nível – novamente, nada demais. Do elenco de apoio, gostei em especial da interpretação de Katherine Waterston como Chrisann Brennan e da carioca Perla Haney-Jardine como a filha de Jobs quando ela tinha 19 anos. Não lembro de ter visto Haney-Jardine em cena antes. Acho que ela tem carisma e promete. Pode estourar em breve – se tiver boas oportunidades para isso. É alguém interessante para ser acompanhada.

Além desse povo, aparece um pouco mais em cena, entre os coadjuvantes, John Ortiz como o jornalista Joel Pforzheimer.

Da parte técnica do filme, achei interessante o visual conferido em cada momento da história. Mérito do diretor Danny Boyle e, principalmente, das escolhas do diretor de fotografia Alwin H. Küchler. Boa também a edição de Elliot Graham. A trilha sonora de Daniel Pemberton aparece pouco, até porque o filme tem na verborragia dos diálogos de Jobs um de seus elementos centrais, dando pouco espaço para uma trilha sonora. Os demais elementos, como direção de arte, design de produção, decoração de set e figurinos são bem feitos, mas nada a destacar.

Steve Jobs estreou em setembro no Festival de Cinema de Telluride. Depois, o filme participaria ainda de outros seis festivais e mostras de cinema pelo mundo. Nesta trajetória o filme acumulou 12 prêmios e foi indicado a outros 83, incluindo duas indicações ao Oscar. Entre os prêmios que recebeu, destaque para os de Melhor Roteiro e de Melhor Atriz Coadjuvante no Globo de Ouro; e para nove prêmios de Melhor Ator para Michael Fassbender.

Este filme teria custado US$ 30 milhões e faturado, nos Estados Unidos, até o dia 10 de dezembro, quase US$ 17,8 milhões. Nos outros mercados em que ele estreou ele faturou quase US$ 11,2 milhões. Ou seja, no total, ele ainda não conseguiu cobrir nem os gastos com as filmagens – e há ainda outros custos para cobrir. Em resumo, talvez ele não consiga se pagar. Cá entre nós, não me surpreende. O filme realmente não é digno de uma boa propaganda boca a boca. Ele está muito aquém do personagem que tenta retratar.

Steve Jobs foi totalmente rodado nos Estados Unidos, em locais como Berkeley, Cupertino, San Francisco (no War Memorial Opera House e no Davies Symphony Hall) e em Palo Alto.

Agora, algumas curiosidades sobre o filme. Para marcar bem a passagem de tempo, Steve Jobs foi filmado com equipamentos diferentes para cada momento da história. Na primeira parte, em 1984, o filme foi rodado em 16 mm; a segunda parte, em 1988, em 35 mm, e a última, em 1998, em digital.

Michael Fassbender chegou a dizer que o ator Christian Bale deveria ter feito o papel de Jobs. E esta produção, inicialmente, ia ser rodada por David Fincher. Mas a Sony resolveu não aceitar as exigências dele – como pagamento de US$ 10 milhões e controle criativo total sobre a produção – e, por isso, o filme ficou com Danny Boyle. Quando o diretor assumiu o projeto, Jobs foi oferecido para Leonardo DiCaprio, que não topou, e depois para Bale, que também recusou.

O cofundador da Apple Steve Wozniak teria trabalhado como consultor do filme. Por isso, talvez, o personagem dele aparece duas vezes basicamente discursando o mesmo. 😉

Algo curioso: DiCaprio não aceitou fazer Steve Jobs para poder, no lugar, embarcar em The Revenant. E é bem possível que ele ganhe o Oscar por causa desta decisão. Cá entre nós, comparando os filmes e roteiros, sem dúvida alguma ele acertou na aposta.

Inicialmente Aaron Sorkin queria Tom Cruise para interpretar Jobs. Sério?

Agora, mais razões para não gostar do roteiro de Sorkin. O que motivou, inclusive, que eu abaixasse um pouco mais a nota. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Algumas cenas “cruciais” da produção nunca aconteceram na vida real. Por exemplo, aquela em que Lisa faz um desenho no Macintosh. Outra que nunca aconteceu foi a “reconciliação” entre John Sculley e Jobs e a maioria dos argumentos utilizados por Steve Wozniak com Jobs, além da sequência final entre Jobs e a filha (esta, na verdade, ao menos para mim, já estava na cara que tinha sido forçada).

Busquei no livro de Isaacson essa parte sobre a paternidade de Lisa Brennan. O livro é claro sobre como tudo aconteceu e explica que Jobs simplesmente decidiu ignorar que ele era pai da menina. É como se ele pudesse “escolher” entre ser pai ou não e ter optado pela segunda opção – mesmo sendo óbvio que Lisa era a sua filha. No livro, comenta-se, que ele fez isso porque tinha outros planos para a sua vida – como fazer a carreira que ele fez. Ou seja, um belo de um babaca e covarde.

O computador que ele lançou com o nome de Lisa era, de fato, uma homenagem para a filha que ele negava até então. Outra verdade é que inventaram um acrônimo que não significava nada para tentar “esconder” a homenagem para a menina. Em outro momento do livro Isaacson comenta que quando Lisa ficou maior, ela e o pai viviam uma relação de altos e baixos. Os dois eram temperamentais e tinham dificuldade de pedir desculpas. Chegaram a ficar mais de um ano sem se falarem.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,5 para esta produção. Uma boa avaliação, levando em conta o padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 198 críticas positivas e 34 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 85% e uma nota média de 7,6. Este é um dos raros casos em que eu não consigo ter uma visão tão positiva quanto o resto do público e da crítica – vocês sabem que eu costumo ser bondosa. 😉

Este filme é uma coprodução dos Estados Unidos com o Reino Unido.

CONCLUSÃO: Há alguns anos eu ganhei o livro Steve Jobs, de Walter Isaacson, de presente. Até hoje não li a obra inteira, apenas trechos aqui e ali. Mas por atuar como jornalista e cobrar as áreas de economia e tecnologia, impossível não ter lido, nestes anos todos, tantas histórias e partes sobre a vida e a obra de Jobs. Por isso mesmo achei este filme bastante menor do que ele poderia ser. Verdade que a história acerta ao mostrar dois grandes fracassos do ícone da tecnologia antes dele começar a acertar e iniciar o processo que tornaria a Apple a empresa mais valiosa do mundo.

Mas fora isso, muito da personalidade e da história do retratado fica de fora – e detalhe, com “esquecimentos” importantes no período retratado. As interpretações dos atores principais são boas e coerentes, mas nada demais. Em resumo, um filme apenas mediano. Se tiveres outra opção para assistir e que tem a tendência de ser melhor, recomendo passar para uma segunda opção.

PALPITES PARA O OSCAR 2016: Steve Jobs acabou sendo indicado em apenas duas categorias do prêmio máximo da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Ele disputa como Melhor Ator para Michael Fassbender e como Melhor Atriz Coadjuvante para Kate Winslet. Francamente? Se for feita a justiça, ele não levará em nenhuma destas duas categorias.

Sem dúvida alguma Leonardo DiCaprio e Eddie Redmayne estão melhores e The Revenant e The Danish Girl (comentado aqui), respectivamente. E o mesmo pode ser dito de Matt Damon por seu trabalho em The Martian (com crítica neste link). Então, só em Melhor Ator, temos três nomes mais fortes que Fassbender na disputa. Se ele ganhasse, para mim, seria a maior zebra da noite.

O mesmo posso dizer da categoria Melhor Atriz Coadjuvante. Alicia Vikander, para mim, é o nome do ano. Ela merece levar o Oscar. Mas se ela não levar, prefiro Rooney Mara em Carol (com crítica neste link) do que Winslet em Steve Jobs. Nada contra os atores, quero deixar claro, mas para mim há uma diferença grande de performance entre eles. Sendo assim, não será nenhuma surpresa se Steve Jobs não ganhar nada no Oscar deste ano.