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Money Monster – Jogo do Dinheiro

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A televisão mundo afora tem programas para todos os estilos e públicos. Há muitos programas bons, que descobrem histórias interessantes, contextualizam informações e ajudam a interpretar o mundo ao nosso redor. Mas há também muito lixo. Assim como muitos programas “perdidos”, que parecem não saber, exatamente, a quem eles estão servindo. Money Monster trata de um destes programas que parece um pouco perdido, mas este não é um filme apenas sobre isso.

Ele trata também sobre o mercado de capitais, sobre dinheiro, ganância e manipulação de informações. É um filme ágil, ainda que ele tenha uma premissa um tanto limitada em um determinado espaço por boa parte do tempo. Mas é inteligente, tem um roteiro interessante e bons atores. Surpreendente, até um certo sentido, ainda que siga uma linha recente de filmes bem determinada.

A HISTÓRIA: Começa com o apresentador Lee Gates (George Clooney) comentando que o espectador não faz ideia de onde o seu dinheiro está. Ele explica como o dinheiro atualmente, diferente da época em que ele estava atrelado a lastros físicos e palpáveis como barras de ouro, hoje não passa de fótons de energia que trafegam cada vez mais rapidamente por cabos de fibra ótica. Ele explica que quanto mais rápido anda o dinheiro, melhor. Lee Gates é o apresentador do programa Money Monster, focado no mercado de ações e em economia.

Uma série de matérias mostra como a empresa IBIS Clear Capital teve uma derrocada forte na bolsa depois que um algoritmo que operava as suas transações “ficou louco”. Para Gates, esta é uma grande oportunidade para que as pessoas comprem ações, já que este é apenas o primeiro round da batalha da empresa. O programa estava esperando entrevistar o CEO da empresa, Walt Camby (Dominic West), mas ele não vai aparecer. Quando Gates entra no ar, contudo, ele é surpreendido por um acionista da IBIS que se deu muito mal e que quer respostas reais para as suas dúvidas.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Money Monster): Quem tem acompanhado ao Oscar nos últimos anos sabe que produções que fazem um esforço em interpretar e criticar o mercado de capitais e o sistema financeiro têm ganho evidência. Primeiro foi The Wolf of Wall Street (comentado aqui), um filme corajoso de Martin Scorsese e que levou Leonardo DiCaprio a um outro nível de interpretação. Uma das grandes produções de dois anos atrás, sem dúvidas, especialmente porque ela mostrava um bocado dos bastidores de Wall Street e dos sujeitos que dedicam a sua vida a ganhar muito dinheiro naquele ambiente.

Depois, no Oscar deste ano, o filme da vez foi The Big Short (com crítica neste link), outro filme inteligente e com ótimas sacadas e que tentava, mais uma vez, mostrar como o sistema anda muito equivocada quando ele perde o contato com a realidade. The Big Short mostra a origem do colapso do sistema financeiro e da crise subsequente de 2008 de uma forma interessante e tentando, a todo momento, traduzir os pontos mais difíceis para o grande público.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Money Monster segue esta linha de filmes ao mostrar como uma empresa enganou seus investidores ao forjar uma falha no sistema para que o CEO da empresa conseguisse desviar muito dinheiro para tentar comprar um rebelde na África e, desta forma, conseguir sucesso em seus empreendimentos. O que este filme tem em comum com os outros dois que eu cite é justamente a crítica sobre o sistema financeiro e econômico atual, em que a tecnologia ajuda pessoas mal intencionadas a burlarem as regras e prejudicarem muitas pessoas para conseguirem o que elas querem.

O início do filme com roteiro de Jamie Linden, Alan DiFiore e Jim Kouf, baseado na história criada por DiFiore e Kouf, acerta na mosca ao questionar a lógica deste sistema que tem pouco lastro com a realidade. Ainda que a crítica não seja nova, ela foi bem feita. O personagem de Kyle Budwell (Jack O’Connell) também é convincente. Afinal, bem sabemos, nos Estados Unidos não é muito complicado conseguir uma arma. E não são poucos os casos de pessoas insatisfeitas que utilizam estas armas para atacar locais ou pessoas que eles consideram como fonte de seus problemas.

Juntamos um sujeito insatisfeito com um mercado financeiro suspeito e uma empresa pouco confiável e temos o estopim para a tensão da história de Money Monster. Mas aí temos um elemento diferenciado da produção: o local em que esta história se passa. O sujeito insatisfeito não invade a empresa que fez ele perder US$ 60 mil e sim o programa Money Monster apresentado por Lee Gates. Foi quando assistiu ao programa de Gates que Budwell teve a ideia de investir na empresa que o faria perder todo o dinheiro economizado.

Daí entra a outra camada de leitura deste filme. Como eu comentei lá no início, esta produção trata também sobre a qualidade e a responsabilidade da TV. Gates faz um programa sobre um assunto sério, que é o mercado financeiro e os investimentos em ações, mas ao estilo “palhaço”. Ele utiliza os mais diferentes recursos de comédia para entreter a plateia e a audiência. Ao melhor estilo “a televisão está aí para entreter e não para informar”, Gates está mais interessado no espetáculo do que na informação.

Por isso mesmo é inevitável que, ao ser confrontado por Budwell, o apresentador perceba como ele perdeu a noção do razoável e passou a comprometer o próprio trabalho ao tentar sempre “provar o seu próprio ponto”. O maior exemplo foi quando ele disse que investir na empresa de Walt Camby era mais seguro do que investir na Poupança. Budwell e tantos outros investidores foram influenciados por esta informação e se deram mal.

Claro que nunca um programa de televisão pode ser totalmente responsabilizado por algo assim, mas a verdade é que aquela informação do Money Monster tinha a sua parcela de responsabilidade sim. Este filme dirigido com precisão e muito talento por Jodie Foster joga os holofotes justamente sobre a responsabilidade da mídia e de seus profissionais. Sempre é importante fazer isso. Mas, até agora, ressaltei apenas as qualidades do filme. Pena que não é só delas que devemos falar.

O filme tem pelo menos três pontos bem questionáveis. O primeiro mais evidente é quando Gates “apela” para a “bondade” dos telespectadores para fazer com que as ações da IBIS Clear Capital aumentem. Honestamente, achei uma grande forçada de barra. Talvez o que os roteiristas quiseram dizer com essa “forçação” é que as pessoas realmente são individualistas.

Elas poderiam “resolver” o problema de Budwell e de tantos outros investidores contribuindo apenas um pouquinho, mas a verdade é que as pessoas não veem desta forma. Elas pensam que estariam favorecendo uma corporação duvidosa e várias outras pessoas que elas não conheciam. E não deixam de estar certas. Mas a leitura que fica no filme é que todos são insensíveis. Como eu disse, uma forçada de barra desnecessária e um tanto infantil.

O segundo ponto questionável é quando encontram a namorada de Budwell, Molly (Emily Meade), e a “usam” para tentar convencê-lo a largar aquela ameaça. É bem difícil de acreditar que a polícia colocaria ela para falar daquela forma descontrolada com Budwell sem treiná-la e prepará-la bem antes, não é mesmo? Outro ponto do filme um bocado exagerado. Parece que foi planejado apenas para aumentar o nível de tensão da história. Mas sempre que uma aposta dos roteiristas como esta parece exagerada ou difícil de acreditar, o filme só perde pontos com o espectador.

Para finalizar, por que escolheram aquela saída para o colete que Budwell coloca em Gates? (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Para mostrar que o sequestrador era “inofensivo” e que, no final das contas, ele não era nenhum vilão? Ora, claro que ele estava desesperado e que procurava ter alguma atenção. Faria mais sentido ele realmente ter feito um colete de bombas eficaz e não uma piada como aquela – tudo bem que a polícia sempre sai do pressuposto que pode ser uma bomba, mas realmente iriam cair naquela armação sem ao menos desconfiar? Novamente pontos difíceis de acreditar e um tanto descolados da realidade.

Descontados estes pontos controversos, eu achei a narrativa e o ritmo do filme muito interessantes. Basicamente seguem em paralelo duas linhas narrativas: aquela que envolve Gates, Budwell e todo o circo armado ao redor da TV, e aquela outra encabeçada por Diane Lester (Caitriona Balfe) e a sua própria investigação para descobrir o que realmente está acontecendo na empresa em que ela trabalha. Graças a este segundo ponto o filme não fica apenas restrito ao estúdio de TV, o que ajuda a diretora Jodie Foster a manter um ritmo interessante na história.

Finalmente na reta decisiva da história Gates e Budwell saem do estúdio e ganham as ruas, o que aumenta, novamente, a tensão da história. Muito bem equilibrada a narrativa, com a tensão aumentando de nível pouco a pouco até o desfecho que é um tanto óbvio e “clássico”. Os atores estão muito bem, e os roteiristas acertam ao explorar a confiança que Gates tem em Patty Fenn (Julia Roberts), a diretora de Money Monster.

Por uma parte considerável da história os roteiristas tentam humanizar Gates e Budwell, explorando as suas histórias e fragilidades. Esse elemento humano também funciona para prender a atenção do espectador, ainda que não nos aprofundemos realmente em nenhuma das histórias. São apenas pinceladas aqui e ali.

Então o filme tem ótimos atores, um bom ritmo e direção, uma boa dose de tensão e alguns pontos de reflexão interessante. O problema é que ele exagera na dose em diversos momentos e isso tira um bocado da capacidade da produção de convencer a quem está assistindo. Descontados estes problemas, é um filme interessante, que ao mesmo tempo que prende a atenção do espectador, apresenta alguns problemas interessantes da nossa sociedade atual, em que a cultura do espetáculo ocupa boa parte do tempo das pessoas e na qual o dinheiro é volátil além do desejado.

NOTA: 8,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Assisti este filme há umas duas semanas, mas só agora eu consegui escrever sobre ele. Possivelmente perdi, no caminho, parte das impressões que ele me despertou, mas acho que a essência do que eu pensei está acima. Assisti a este filme não apenas por causa da diretora, Jodie Foster, a quem admiro como realizadora e como atriz, mas também por causa do elenco. Ainda que estes sejam bons motivos, a razão fundamental é que Money Monster foi apontado por vários críticos como um possível filme indicado ao Oscar 2017.

Como comentei antes, só vou abrir a seção “Palpites para o Oscar 2017” abaixo quando o filme realmente estiver indicado a alguma coisa. Por enquanto, nesta fase pré-Oscar, posso dizer que Money Monster até pode chegar lá, mas acho difícil ele levar alguma estatueta. Se a Academia quiser seguir a linha de indicações dos últimos anos, Money Monster até pode ser um dos 10 filmes indicados a Melhor Filme.

O ator George Clooney pode chegar a ser indicado como Melhor Ator – até porque Hollywood gosta muito dele – e, com sorte, o roteiro também pode ser indicado. Mas isso tudo se o filme tiver um ótimo lobby e vários fãs entre os votantes. Ainda que a direção de Jodie Foster seja ótima, não vejo muitas chances dela ser indicada ao Oscar. Não seria surpresa também se Money Monster não fosse indicado a nada. Afinal, entre os críticos ele não se saiu muito bem.

Da parte técnica do filme, o destaque, sem dúvida alguma, é para a ótima direção de Jodie Foster. Acho que a atriz se saiu muito, mas muito bem em um filme que poderia ser feito de forma mais “tradicional”, mas para o qual ela soube utilizar muito bem todas as tecnologias atualmente disponíveis para fazer takes com diferentes recursos e tornar a história bem dinâmica. O roteiro eu achei apenas mediano, mas vale destacar ainda a direção de fotografia de Matthew Libatique e a edição de Matt Chesse.

O elenco não é pequeno, mas alguns nomes se destacam na produção. A estrela, sem dúvida alguma, é George Clooney. O ator está muito bem como o apresentador Lee Gates. Outros nomes que estão bem, mas nenhum digno, a meu ver, a uma indicação ao Oscar, são o de Julia Roberts, Jack O’Connell, Dominic West e Caitriona Balfe. Todos fazem um bom trabalho, mas não achei nenhum além da média. Outros coadjuvantes que merecem ser citados são Giancarlo Esposito como o Capitão Powell, comandante da operação que tenta libertar Gates; Christopher Denham como Ron Sprecher, parte da equipe de Gates; Lenny Venito como o cameraman Lenny; Condola Rashad como Bree, assistente de Diane; e Aaron Yoo como Won Joon, o programador que ajuda a matar a charada da empresa.

Money Monster estreou no Festival de Cannes em maio deste ano, no mesmo dia em que a produção estreou em cinemas de cinco países. No Brasil o filme estreou no mesmo mês, só que duas semanas depois. Até o momento a produção não ganhou nenhum prêmio. Mais uma razão para ela não ter muitas chances no Oscar 2017.

Este filme teria custado cerca de US$ 27 milhões. Apenas nos Estados Unidos o filme conseguiu pouco mais de US$ 41 milhões e, nos demais mercados em que estreou, outros US$ 51,7 milhões. Ou seja, o filme conseguiu um belo resultado nas bilheterias e deu um certo lucro para os seus realizadores.

Para quem gosta de saber onde os filmes são rodados, Money Monster foi totalmente realizado em Nova York, tanto nas cenas exteriores, feitas em Manhattan, como as de interior que foram rodadas no Kaufman Astoria Studios.

Agora, uma curiosidade sobre esta produção: por uma questão de agenda, os atores George Clooney e Julia Roberts tiveram dificuldades de contracenarem juntos em Money Monster. A atriz interpretou quase todas as suas cenas com um monitor verde em que depois foram inseridas as imagens de Clooney.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,6 para esta produção. Não é uma nota ruim, se levarmos em conta o padrão do site, mas também não é uma nota acima da média. Os críticos que comentaram o filme, por outro lado, ficaram bem mais incomodados com a produção. Apenas 55% das críticas sobre o filme no site Rotten Tomatoes, o equivalente a 133 críticas, foram positivas ao filme. Outras 98 críticas foram negativas. A nota média dada para a produção no site foi de 5,9.

Este é um filme 100% dos Estados Unidos – por isso ele aparecerá na lista de votações aqui no blog.

CONCLUSÃO: Um filme bem dirigido, com roteiro ágil e ótimos atores. A história é densa, mas consegue ter uma dinâmica muito interessante apesar de ficar boa parte do tempo com a narrativa limitada a um estúdio de TV. Money Monster segue a linha de filmes recentes que se debruçam sobre o mercado de ações e as entranhas de empresas que não são conhecidas por sua transparência. Mais que isso, ele se diferencia por também mostrar os bastidores de um programa de TV. Com estes dois focos da narrativa o filme ganha pontos porque ele se mostra bastante realista. O problema da história reside em alguns exageros na parte da tensão do “terrorista”, com algumas forçadas de barra desnecessárias. Mas, no geral, é um filme muito bem feito e que nos faz refletir sobre pontos importantes da nossa realidade muitas vezes insensível à história das pessoas comuns que são prejudicadas por grandes corporações. Ainda assim, fica bem atrás das histórias recentes sobre sistema financeiro e mercado de capitais.

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Unbroken – Invencível

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Diversos países, e não duvido que todo país do mundo, na verdade, tenha diversos heróis. Mas poucas nações sabem valorizar o heroísmo dos filhos de sua pátria como os Estados Unidos. Unbroken é mais um destes filmes que paga a história de um homem comum que acaba se transformando em herói pelo exemplo que ele vai dando, dia após dia, e contra todas as previsões e apostas. Um belo trabalho da atriz Angelina Jolie como diretora. O filme tem o espírito de produções que não vemos mais em Hollywood. Mesmo com estas qualidades, ele acaba se revelando longo demais, um pouco cansativo e, se você já tem uma bagagem no cinema, nada surpreendente e até com ideias repetidas.

A HISTÓRIA: Acima das nuvens, uma revoada de aviões se aproxima do alvo. Diversos homens em cada aeronave, e cada um deles em um posicionamento e com uma função bem definidos. Um destes homens é Louis Zamperini (Jack O’Connell), que após disparar com o bombardeiro, fica preocupado com o restante do grupo quando eles começam a sofrer a represália.

Em certo momento, ele começa a se lembrar de quando era uma criança, de tudo que os pais lhe ensinaram, do ambiente em que ele cresceu e, principalmente, que se não fosse pelo irmão mais velho, Pete (John D’Leo quando jovem, Alex Russell na vida adulta), provavelmente ele não teria sido alguém de destaque na vida. Pete incentivou Louis a correr, e o jovem atleta chegou até as Olimpíadas. Depois, na Segunda Guerra Mundial, ele passaria pelos maiores desafios imagináveis para sobreviver.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Unbroken): Como eu comentei anteriormente, se você tem uma certa bagagem assistindo à filmes, certamente não vai se surpreender com nada que Unbroken apresenta. Filmes anteriores já exploraram diversos pontos mostrados nesta produção. Assim sendo, ela não é surpreendente, mas também não pode ser considerada um filme ruim.

Verdade que achei ele longo demais, como comentei antes. Diversos momentos poderiam ter sido encurtados, especialmente no sofrimento dos amigos Louis, Phil (o ótimo Domhall Gleeson) e Mac (Finn Wittrock) no mar e nos embates quando Louis integra o grupo maior de americanos em campos de prisioneiros no Japão.

Também acaba sendo inevitável não lembrar de outras produções enquanto a história se desenvolve – o efeito surpresa, realmente, poucas vezes aparece nesta produção. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Talvez o momento mais surpreendente seja o ataque que Louis, Phil e Mac sofrem no mar quando eles pedem socorro e acabam recebendo algumas rajadas de tiros.

Mesmo sendo pouco surpreendente e um bocado longo demais, acho que Unbroken tem um bom roteiro. Joel Coen, Ethan Coen, Richard LaGravenese e William Nicholson conseguiram adaptar a história de um homem comum que se superou em diversos momentos, surpreendeu e inspirou a muitos com o seu exemplo em uma produção com a cara de Hollywood. Dividida em diversos momentos da história do protagonista, o filme parte do clássico “momento decisivo” para fazer um retrocesso na biografia do retratado e recontá-la desde a sua infância.

Desta forma é que vemos como Louis se envolveu com o esporte e como, influenciado pelo irmão, ele levou a sério o desafio e tornou-se medalhista olímpico. A volta no tempo tem uma justificativa clara: mostrar como o protagonista encarnou ainda jovem o desejo de superação e de surpreender a todos que apostavam que ele seria “um nada”. Esse espírito seria fundamental no futuro, quando ele seria testado até o extremo pelos japoneses.

Então o filme mostra esse herói imperfeito – como qualquer modelo mortal – que dá uma guinada na vida e se destaca no esporte antes que os nazistas se revelassem inimigos que deveriam ser combatidos por boa parte do mundo, incluindo o país de Louis. Senti falta, contudo, já que estavam fazendo um apanhadão da vida dele, de vermos como ele chegou no Exército. Pequeno detalhe, verdade, mas que senti falta – certo, evidente que a convocação era obrigatória, mas acho que não custava mostrar o momento em que ele deu a entrada no Exército.

Depois de uma rápida repassada na infância e na juventude do protagonista, como se fosse o próprio Louis tendo na “iminência da morte” um filme dele próprio passando na cabeça, mergulhamos novamente no cenário de guerra. Primeiro nos céus, com os bombardeiros, depois no mar, quando eles sobrevivem de um choque na água da aeronave em outra missão e, por fim, em solo.

Para mim, foi inevitável não lembrar de outros filmes enquanto eu assistia a Unbroken. Para começar, a excelente direção de fotografia de Roger Deakins me fez lembrar de filmes de guerra e/ou drama de guerra feitos nos anos 1950 e 1960 como The Guns of Navarone, Paths of Glory e, principalmente, o clássico The Bridge on the River Kwai. Quando Louis começa a correr, impossível não lembrar um outro clássico, este bem mais “moderno”: Forrest Gump. Durante o estresse no mar, impossível não lembrar de Life of Pi. E para fechar a lista de lembranças, quando Louis está na fase Olimpíadas, recordei o clássico Chariots of Fire.

Se você, como eu, assistiu a estas produções, vai achar Unbroken um bocado previsível na fórmula e no conteúdo. Ainda assim, algo é preciso admitir: Angelina Jolie faz um bom trabalho na direção. Ela sabe explorar a adrenalina e o estresse dos momentos de batalha, fazendo a câmera tremer na medida certa sem tirar o foco sempre em algum ator. E nos momentos de embates mais “mano a mano”, especialmente entre Louis e o vilão Watanabe (o fraquinho Takamasa Ishihara), ela busca sempre a emoção dos intérpretes. Conhece o ofício, pois – ela teve um ótimo mestre, Clint Eastwood, de quem é amiga.

Então apesar de um bocado óbvio, o roteiro de Unbroken tem condução e focos bem definidos, é envolvente e sabe valorizar bem a progressão do heroísmo do protagonista. A direção de Jolie é coerente e competente, ainda que nada inventiva. Mas o destaque está mesmo no homem que inspirou este filme – ele sim, merece ter o próprio enredo contado e difundido. E também no ator que interpreta ele. Jack O’Connell convence e se entrega para o trabalho, o que faz todo o pacote negativo da produção ser minimizado.

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Unbroken pré-estreou no dia 17 de novembro em Sydney e, no dia 25 daquele mês, entrou em cartaz nos Estados Unidos, no Canadá e na Espanha. A produção teria custado cerca de US$ 65 milhões para ser feita. Apenas nos Estados Unidos o filme conseguiu pouco mais de US$ 108 milhões e, no restante dos mercados em que já estreou, cerca de US$ 21,8 milhões. Ou seja, ainda está tentando se pagar – na média, um filme só começa a dar lucro depois que arrecada o dobro do que custou, já que boa parte do custo adicional surge com a distribuição do filme.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,2 para esta produção, o que mostra que o público tem aprovado o filme. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram menos generosos: eles dedicaram 92 críticas positivas e 91 negativas para a produção, o que lhe garante aprovação de 50% e nota média de 6,1.

Hoje eu corri para entregar mais esta crítica para vocês. Mas faltou fazer outros comentários. Assim que possível, atualizarei o blog com eles. Até breve.

Agora sim, voltando. A minha leitura desta produção eu fiz antes. Mas claro que algo da história é importante acrescentar. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Fica clara, em Unbroken, a influência de Louis Zamperini para dezenas de soldados norte-americanos que eram prisioneiros dos japoneses durante a Segunda Guerra Mundial. O embate pessoal dele com o algoz Watanabe simbolizava também o desejo daqueles soldados em ganhar a guerra, vencer o adversário, mostrar que eles eram mais resistentes que o oponente. No fim das contas, toda guerra é exatamente isso: uma queda de braços para ver que nação é mais forte, que sistema é mais viril. Vidas são sacrificadas no processo, mas no fim das contas um ou mais de um país recebe o prêmio e tem a sua(s) respectiva(s) economia vitaminada com a disputa que é coletiva, mas também entre indivíduos. Por tudo isso, é evidente, este filme também é ufanista e levanta a bandeira dos Estados Unidos. Neste sentido, dá para entender porque a produção chegou ao Oscar.

O nome forte desta produção, sem dúvida, é do ator Jack O’Connell. Ele faz um belo trabalho como o determinado Louis Zamperini. Além dele e dos atores já citados, vale destacar a participação de Garrett Hedlund como Fitzgerald, um dos soldados do campo de prisioneiros mantido por Watanabe – ele está em um papel menor do que estamos acostumados.

Da parte técnica do filme, além da ótima direção de fotografia de Deakins, vale destacar a trilha sonora marcante de Alexandre Desplat; a edição da dupla William Goldenberg e Tim Squyres; os figurinos de Louise Frogley; a equipe de 36 profissionais envolvidos com o departamento de arte; os 32 profissionais que trabalharam no departamento de som; os 13 profissionais que trabalharam nos efeitos especiais e as dezenas – me cansei de contar – profissionais envolvidos com os efeitos visuais. Sem estes dois últimos grupos, em especial, o filme teria sido quase impossível de ser feito – e, sem dúvida, não teria a qualidade visual que conferimos na telona.

Apesar de ser uma produção 100% dos Estados Unidos, Unbroken foi totalmente rodado na Austrália – cenas em estúdio e externas também.

Até o momento, Unbroken ganhou nove prêmios e foi indicado a outros 18, incluindo a indicação a três estatuetas do Oscar 2015. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o CFCA Award como “intérprete mais promissor” para Jack O’Connell no Prêmio da Associação de Críticos de Cinema de Chicago; para o prêmio de interpretação para Jack O’Connell no Prêmio do Círculo de Críticos de Cinema de Dublin; e para o prêmio de interpretação marcante para O’Connell no National Board Review. Em todas estas premiações o ator foi reconhecido também pelo trabalho em Starred Up. Unbroken também foi reconhecido por mais de um prêmio como um dos 10 melhores filmes de 2014.

O roteiro dos irmãos Coen, de LaGravenese e de Nicholson é baseado no livro de Laura Hillenbrand lançado em 2010 e que, antes, ficou conhecida pela obra Seabiscuit. Ela foi a primeira mulher a receber o prêmio inglês William Hill’s Sports.

Agora, uma curiosidade sobre esta produção: o Universal Studios comprou os direitos para a história de Louis Zamperini em 1957, mas foi apenas com a publicação do livro de Hillenbrand que o projeto tomou corpo para sair do plano apenas das intenções.

O ator Takamasa Ishihara manteve distância de Jack O’Connell para conseguir, nos momentos necessários, interpretar toda a frieza necessária para Watanabe praticar as suas crueldades contra o inimigo. Na cena mais tensa do filme, quando o protagonista levanta o vergalhão acima da cabeça, Ishihara chegou a vomitar no set como reação ao choque provocado pela cena.

A diretora Angelina Jolie não pode comparecer na pré-estreia do filme porque ela ficou enferma com uma varicela.

(SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Como Unbroken revela nos minutos finais, Louis Zamperini morreu no dia 2 de julho de 2014. Ou seja, ele faleceu antes do filme sobre a sua história estrear. Mas ele chegou a ver uma versão prévia do filme no notebook de Angelina Jolie quando ele estava internado no hospital.

Jolie e o diretor de fotografia Roger Deakins afirmaram que uma das grandes influências deles para Unbroken foi a produção The Hill, de 1965, dirigida por Sidney Lumet e protagonizada por Sean Connery.

Este é o terceiro trabalho de Angelina Jolie na direção. Ela estreou atrás das câmeras com o documentário A Place in Time, de 2007, e fez a primeira obra ficcional em 2011 com In the Land of Blood and Honey. Não assisti a nenhum dos dois. Agora, ela trabalha na pós-produção de By the Sea e já tem outro projeto no gatilho: Africa. Me parece que todas estas produções – ou quase todas – defendem questões bem ideológicas da atriz/diretora.

CONCLUSÃO: Uma das principais qualidades de Unbroken é que ele transporta o espectador para produções que eram frequentes nos anos 1950 e 1960. Filmes ufanistas, que procuravam valorizar a bandeira do país de origem – normalmente os Estados Unidos – e que tinham aquele saber de “homens viris e a suas bravuras”. Bem conduzido, com ritmo adequado, um protagonista que convence e uma direção de fotografia impecável, Unbroken é um filme que entrega o que promete. Mas para quem já assistiu a outros filmes do gênero, isso é pouco.

A história, como eu disse lá no início, acaba sendo longa demais – ela poderia ter sido encurtada meia hora, pelo menos. E apesar de ser incrível a resistência do personagem baseado em um homem real, não é exatamente surpreendente o que vai acontecendo no minuto seguinte por grande parte do filme. Isso, para o cinema, não é exatamente bom. Para resumir, um filme mediano, mas que tem as suas qualidades.

PALPITE PARA O OSCAR 2015: Interessante a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood ter lembrado diversas vezes de Unbroken nas indicações de sua premiação este ano. Porque o filme, por mais que tenha qualidades – e as tem, como dito antes -, poderia perfeitamente ter sido esquecido pela Academia. Os votantes da maior premiação do cinema dos Estados Unidos já fizeram isso antes com produções melhores.

Mas o filme de Angelina Jolie – ela seria a razão principal das indicações, já que é um dos nomes fortes de Hollywood? – conseguiu figurar em três categorias do Oscar 2015: Melhor Fotografia, Melhor Mixagem de Som e Melhor Edição de Som. Tudo bem que são apenas categorias técnicas. Ainda assim, sempre há uma forte concorrência nesta área. Mas Unbroken, é preciso dizer, chega com estas três indicações merecendo.

De fato, o trabalho da equipe de som – seja na mixagem, seja na edição – e do diretor de fotografia veterano Roger Deakins é o que a produção tem de melhor. Junto com a interpretação de Jack O’Connell, é claro. O filme pode sair vencedor em alguma destas categorias? Bem, ainda preciso assistir aos outros indicados, mas acho que a ele terá uma parada duríssima em Edição de Som, porque enfrenta a ficção científica Interstellar (esse gênero, tradicionalmente, vai muito bem nestas categorias) e a ótima edição de som de The Hobbit: The Battle of the Five Armies. Desconfio também que a edição de som de American Sniper deve ser muito boa… parada bem dura, pois.

Em mixagem do som, os adversários a serem batidos são Interstellar, mais uma vez, American Sniper e, um elemento forte e adicional na queda-de-braços, o drama musical Whiplash – que, ainda não o assisti, mas presumo que tenha uma mixagem de som perfeita. Unbroken, para mim, corre por fora nas duas categorias. E o mesmo acontece em Melhor Fotografia. Ida tem um trabalho primoroso neste quesito. Além disso, há os super indicados do ano Birdman e The Grand Budapest Hotel para serem batidos – o segundo, deste já posso falar, tem realmente uma fotografia excelente. Enfim, a vida de Unbroken está bem complicada. Mas acho que o filme e seus realizadores devem ficar felizes já por terem sido lembrados no Oscar.