Zimna Wojna – Cold War – Guerra Fria

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Um filme belíssimo, com uma fotografia incrível, muita música e uma história triste. Cold War mostra a beleza e a profundidade da fotografia preto e branco e valoriza a música como poucos filmes recentes. Mas a história em si não é exatamente inovadora ou surpreendente. Na verdade, tanta beleza contrasta com uma história de um amor impossível que é um bocado previsível. Mas o amantes não querem saber disso, e persistem. Uma história necessária sobre um tempo já ultrapassado – mas sobre o qual, alguns, parecem ter saudade.

A HISTÓRIA: Começa com a câmera focada em uma gaita. Em seguida, a câmera sobe até focar o rosto do homem que está tocando o instrumento. Ele começa a cantar. A canção é sobre uma frustração amorosa. Ao lado dele, um outro músico toca um violino e ajuda a fazer o dueto. Enquanto eles cantam, vemos o frio se plasmando no ar conforme cada palavra é pronunciada. Corta.

Em um furgão, o motorista e empresário Kaczmarek (Borys Szyc) pergunta para Irena (Agata Kulesza) se ela não se preocupa que a música que eles ouviram seja muito “monótona e primitiva”. Ela diz que não, e pergunta o porquê daquela indagação. Kaczmarek diz que de onde ele vem, todos os bêbados cantam daquele jeito. Irena e Wiktor (Tomasz Kot) não se importam com o que o acompanhante deles acha. A missão deles é registrar e resgatar a música típica e cada vez mais esquecida de seu país. A história começa na Polônia em 1949 e segue por diversos anos para adentrar nos bastidores da Guerra Fria.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Cold War): Sim, amigos e amigas do blog, muito tempo passou desde que eu estive por aqui pela última vez. Correria de final de ano, vocês podem imaginar. Primeiro, finaleira do trabalho. Depois, preparativos para o Natal. Mas agora, perto do final do ano, finalmente consigo voltar a escrever uma crítica aqui no blog.

Assisti à Cold War há várias semanas. Antes mesmo da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood divulgar a lista dos nove filmes que avançaram na disputa do Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira de 2019 – falo mais sobre isso no final desse texto. Algo que impressiona nesse filme, em primeiríssimo lugar, é a beleza da produção. Esse parece ser o ano das direções de fotografia em preto e branco. Além de Cold War, temos a Roma, outro forte concorrente do Oscar 2019, que também tem uma fotografia em preto e branco.

As escolhas do diretor e roteirista Pawel Pawlikowski, que criou a história de Cold War e escreveu esse roteiro com a ajuda de Janusz Glowacki e Piotr Borkowski, em relação à condução da trama, ao menos em relação às imagens, são perfeitas. Os ângulos das câmeras, a dinâmica das filmagens e, principalmente, a direção de fotografia Lukasz Zal realmente impressionam. Esses são os pontos fortes da produção. Assim como o trabalho dos atores principais, que fazem uma entrega muito coerente com o que a história nos apresenta.

Mas afinal, que história nos conta Pawlikowski? Cold War tem pelo menos duas narrativas centrais. A primeira, envolve a questão que fica mais evidente logo que ocorre o primeiro encontro entre os protagonistas. O professor, compositor e músico Wiktor fica fascinado por Zula (Joanna Kulig) logo que a vê. A garota é muito mais jovem que ele, mas parece saber muito bem o tipo de interesse que ela desperta nos homens – e no seu novo objeto de desejo.

O romance entre o professor e a aluna não demora muito para acontecer. Nesse sentido, o filme lembra um pouco ao clássico Lolita. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Depois, a história entre eles se complica um pouco mais, especialmente quando ele foge do controle que eles sofrem no país conquistado pelos russos enquanto ela decide ficar. Muito mais tarde, eles conseguem se reencontrar e viver em paz e em liberdade por um período, mas a imaturidade de ambos – ou o orgulho, como quiserem – acaba colocando tudo a perder novamente.

Fora a história de amor entre o professor e a sua aluna, Cold War nos conta uma outra história importante. A manipulação que o regime comunista fazia da realidade para conquistar a sua “narrativa perfeita”. Assim, o projeto de resgate da arte folclórica feita com esmero e boas intenções pelos professores e especialistas Wiktor e Irena acaba sendo manipulado pelo burocrata interesseiro Kaczmarek.

Quando o “camarada” do governo pede que a Mazurka, o projeto cultural liderado por Wiktor e Irena “trabalhem” temas de interesse do regime comunista, como a reforma agrária, a paz mundial e os riscos para que ela aconteça e homenageie o líder do proletariado mundial (na época, Stalin), Irena afirma que estes temas não interessam às pessoas da comunidade rural e que a Mazurka tem como proposta resgatar o folclore legítimo. Mas isso não é prolema para Kaczmarek, que faz o grupo encarnar as músicas que o regime considera como convenientes.

Assim, durante a Guerra Fria, sabemos que os dois lado da disputa – tanto União Soviética/Rússia quanto Estados Unidos – manipulavam as informações e a realidade conforme era mais interessante para cada lado. Curioso que hoje, tanto tempo depois, alguns regimes “democráticos” e líderes de grandes países façam o mesmo – manipulam a verdade conforme o seu próprio interesse. E nem todos parece realmente se importarem com isso.

Nesse sentido, Cold War se revela um filme bastante interessante. Ele nos mostra os bastidores da disputa de poder da época e como o jogo de interesses acontecia. Essa é a parte mais interessante da história. O ir e vir do romance dos protagonistas traz um elemento pessoal e dramático para trama, mas não torna ela realmente mais interessante ou original. Na verdade, apesar dos romances sempre serem interessantes, no caso de Cold War esse elemento apenas enfraquece a produção.

Quem gosta de um sofrido e arrastado romance “clássico”, cheio de idas e vindas, certamente irá discordar de mim. Mas beleza. Como vocês bem sabem, o cinema é algo muito pessoal. Para mim, as pressões e as manipulações da guerra de versões daquela época acaba sendo mais interessante, assim como a parte artística do filme – seja na música, seja na fotografia -, do que o romance dramático e um bocado previsível dos protagonistas. Apesar do roteiro não caprichar tanto na trama entre eles, devo admitir que o trabalho dos atores é excelente.

Os protagonistas vivem uma relação conturbada, um amor que nem sempre pode ser considerado saudável. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Ela morre de ciúmes dele, enquanto ele não sabe lidar muito bem com o fato dos dois estarem juntos em uma Paris cheia de possibilidades. Parece que eles sofrem daquela síndrome clássica de quem “não consegue ser feliz”. Visivelmente eles se amam, mas acredito que ela não foge com ele da primeira vez porque ela não quer ser uma párea. Se for para ela escapar do regime totalitário, que seja por uma via que não pode ser contestada.

Depois que ela faz aquela besteira de voltar, após um breve período de felicidade com o amado em Paris, ele faz a besteira de ir atrás dela. O “destino” deles passa a ser selado a partir dali, já que ele é taxado como traidor – por ter abandonado o país e dado as costas para o regime comunista. Nessa parte, o filme parece fazer realmente sentido em suas duas histórias paralelas, já que partimos do coletivo para o individual e, nesse último aspecto, no romance impossível dos protagonistas, vemos de forma simbólica como a Guerra Fria contribuiu apenas para terminar com o amor. Seja de uma forma particular, seja em um contexto maior e coletivo.

Vendo sob este aspecto, este filme tem muito mais acertos do que erros. E ao fazer esta análise, eu vou aumentar a nota original que estava dando para esta produção – avaliação que estava abaixo de 9. Acho que o filme merece mais do que isso. Especialmente pelo seu começo, com aquela pegada de resgate do folclore original polonês. Um grande acerto de Pawlikowski ao fazer isso, sem dúvida. Um belo filme, recheado de boas intenções.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O diretor Pawel Pawlikowski e o diretor de fotografia Lukasz Zal são responsáveis por algumas cenas e sequências que são uma verdadeira pintura e/ou preciosidade. Essas imagens valem a experiência do filme e a narrativa um tanto “arrastada” de alguns momentos da produção. Os dois também estão sempre valorizando a beleza da protagonista, a sempre ótima Joanna Kulig. Com o holofote adequado, a atriz consegue magnetizar qualquer espectador. Em Cold War ela faz mais um trabalho exemplar.

Sem o charme ou a beleza de sua parceira de cena, Tomasz Kot acaba dando conta do recado por causa de seu talento. Ele encarna muito bem o homem mais maduro que não consegue lidar bem com o furacão com o qual ele está se relacionando. Os dois tem química e fazem uma bela parceria. Algo fundamental em um filme que é bem centrado em seus personagens.

A música e a fotografia roubam a cena nessa produção. A segunda, como comentei em mais de uma ocasião, é obra de Lukasz Zal. A segunda, a música, leva a assinatura, ao menos nos arranjos, de Marcin Masecki. Ele conta com um timaço que é responsável pelo Departamento de Música. Vale citá-los: Anna Bilicka, Piotr Domagalski, Maurycy Idzikowski, Piotr Knop, Luis Nubiola, Maciej Pawlowski e Jerzy Rogiewicz.

Gostei muito da direção de Pawel Pawlikowski. Ele constrói o filme, ao menos no apelo visual, com esmero e perfeição. Apenas o seu roteiro, a meu ver, começa muito bem e depois cai em um certo “lugar-comum” com o romance cheio de auto-sabotagem dos protagonistas. Ainda assim, ele faz um belo trabalho.

O filme é focado muito no talento e no trabalho de dois atores: Joanna Kulig e Tomasz Kot. Eles fazem uma bela parceria, como comentei antes, e conseguem convencer aos espectadores com perfeição. Além deles, vale citar o belo trabalho de Borys Szyc como Kaczmarek, o empresário manipulador (e um bocado canalha por se aproveitar de Zula) do grupo folclórico; Agata Kulesza como a idealizadora do grupo, Irena, que acaba pulando fora quando vê o seu projeto ser manipulado para favorecer aos interesses do regime comunista; Cédric Kahn como Michel, o diretor que acaba se aproveitando também de Zula; e Jeanne Balibar como Juliette, a poetisa e escritora que engata um romance com Wiktor antes de Zula voltar à cena.

Entre os aspectos técnicos do filme, além dos elementos já comentados, vale destacar o belo trabalho de Jaroslaw Kaminski na edição; de Benoît Barouh, Marcel Slawinski e de Katarzyna Sobanska-Strzalkowska no design de produção; e de Ola Staszko nos figurinos.

Interessante como esta produção mostra as mudanças dos personagens e do contexto cultural e político da Guerra Fria entre o final dos anos 1940 e até os anos 1960. A falta de esperança que resume a reta final da produção pode ser encarada como uma certa crítica aos efeitos que aquela época provocaram nas pessoas e no mundo. De fazer pensar.

Cold War estreou em maio de 2018 no Festival de Cinema de Cannes. Até novembro, o filme participaria, ainda, de outros 36 festivais de cinema em diferentes partes do mundo. Nessa trajetória, o filme ganhou 21 prêmios e foi indicado a outros 54. Números impressionantes. E que revelam a força desta produção. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o de Melhor Diretor para Pawel Pawlikowski no Festival de Cinema de Cannes; para o de Melhor Editor Europeu, Melhor Atriz Europeia para Joanna Kulig, Melhor Diretor Europeu, Melhor Roteirista Europeu e Melhor Filme Europeu conferidos no European Film Awards; o de Melhor Filme no FIPRESCI Prize do Festival de Cinema de Estocolmo; e o de Melhor Filme em Língua Estrangeira segundo a National Board of Review.

Agora, vale comentar uma ou duas curiosidades sobre Cold War. No final da produção, o diretor e roteirista Pawel Pawlikowski dedica o filme aos pais dele. Segundo as notas de produção do filme, o relacionamento “turbulento” dos protagonistas do filme foi inspirado na história real dos pais do diretor. Os pais de Pawlikowski se separaram e voltaram a se unir várias vezes, inclusive mudando de países em diversas ocasiões entre essas idas e vindas no romance. Curioso.

Cold War foi o primeiro filme falado em polonês a ser exibido na competição oficial do Festival de Cinema de Cannes desde o ano de 1990. Quando foi exibido no festival, o filme foi ovacionado por 18 minutos.

Dois dos personagens centras da trama foram inspirados em outras pessoas reais. Mais especificamente nos criadores, na vida real, do mundialmente famoso grupo de dança folclórica polonesa Zespól Piesni i Tanca Mazowsze. Os criadores desse grupo, Tadeusz Sygietynski e Mira Ziminska se casaram e, depois da Segunda Guerra Mundial, percorreram o interior da Polônia para buscar jovens talentos no canto e na dança. No filme, contudo, os criadores do grupo folclórico não eram casados – apenas eram parceiros de trabalho.

Depois de ter pensado nos protagonistas de Cold War, Pawlikowski buscou uma maneira de uni-los. E foi aí que surgiu a ideia dele “homenagear”, mesmo que livremente, ao grupo de dança folclórica polonês. A música, assim, passou a ser uma boa “desculpa” para unir aos personagens. Curioso que a história “nasceu” desta forma. Para mim, a homenagem ao grupo folclórico é o grande acerto desta produção – e o seu diferencial.

Pawlikowski e a atriz Joanna Kulig tiveram a atriz Lauren Bacall em mente para construírem a personagem Zula – especialmente na apresentação de seus diálogos mais cortantes e sarcásticos.

Procurei saber um pouco mais sobre Pawel Pawlikowski. O seu nome não me parecia estranho. Buscando sobre ele aqui no blog, descobri que eu já assisti a outros de seus filmes: Ida (comentado por aqui). Esse outro filme, também com uma fotografia maravilhosa em preto e branco, achei mais original e porreta. Ainda que ela não foi a protagonista de Ida, mas Joanna Kulig também está na outra produção – que, vejam que coincidência, foi também a última que rendeu uma crítica no blog em um determinado ano, no caso, em 2014. Curiosamente, Cold War é o primeiro trabalho de Pawlikowski na direção desde Ida. Ou seja, estou acompanhando ele bem desde então. 😉

Pawlikowski, é importante dizer, não é um diretor que lança muitos filmes. Desde 1987, ele dirigiu um episódio de uma série de documentários para a TV, quatro documentários feitos para a TV, um curta documentário para a TV e seis filmes longa-metragem para os cinemas – sendo Cold War o de número 6. A boa nova é que ele já está em pré-produção de seu novo filme, Limonov. Acho que o nome dele merece ser acompanhado.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,8 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 107 textos positivos e nove textos negativos para a produção – o que lhe garante uma aprovação de 93% e uma nota média de 8,2. Especialmente o nível das notas dos dois sites chama a atenção por estarem acima da média. O site Metacritic apresenta um “metascore” de 91 para o filme (fruto de 32 críticas positivas), assim como o selo “Metacritic Must-see” (ou seja, a recomendação do site para que o filme seja visto). Ou seja, Cold War caiu no gosto dos críticos e do público.

De acordo com o site Box Office Mojo, Cold War teve um desempenho pífio nas bilheterias dos Estados Unidos: cerca de US$ 99 mil. Ou seja, até o momento, esse foi um filme essencialmente de festivais. Veremos se ele terá poder de “barganha” para chegar forte ao Oscar – para ganhar, me refiro, porque ele deve ser indicado entre os cinco finalistas.

CONCLUSÃO: Um filme sobre arte, amor e as limitações para estes dois elementos quando a política e os jogos de poder entram em cena. A maior qualidade de Cold War é resgatar a cultura do interior, das pessoas comuns e a sua poesia propositalmente relegada ao esquecimento. Um belo filme, pelo cuidado que o diretor tem com a fotografia, o trabalho dos atores e, em especial, o registro de pessoas comuns da Polônia.

O único porém da produção é que ela realmente não surpreende na narrativa, já que trata-se de uma história de amor impossível tanto por conta da perseguição política que alguns sofreram na Polônia comunista quanto pela falta de sintonia entre os personagens centrais. Como tantas histórias de amor, eles não souberam lidar com os seus próprios sentimentos e expectativas, e quando isso surge no filme, a história fica um tanto “comum”. Apesar disso, é um belo filme, sem dúvidas. Especialmente por seu visual e pelo resgate cultural que faz da cultura polonesa.

PALPITES PARA O OSCAR 2019: No dia 17 de dezembro a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood divulgou uma lista mais curta de filmes “finalistas” em nove categorias do Oscar 2019. Uma das categorias contempladas com a “lista curta” de indicados foi a de Melhor Filme em Língua Estrangeira. Cold War está entre os nove filmes que avançaram na disputa nesta categoria.

Junto com Cold War estão Birds of Passage; The Guilty; Never Look Away; Shoplifters; Ayka; Capernaum; Roma e Burning. Destes, assisti apenas a The Guilty (comentado por aqui) e a Burning (com crítica neste link). Me parece que Roma, Capernaum e Never Look Away são fortes concorrentes. Assim, em teoria, sobrariam apenas duas vagas para os demais filmes. Uma destas vagas deverá ser de Cold War. Mais que nada, pela beleza da produção – nem tanto pela força da história.

Para mim, não seria uma surpresa Cold War chegar até os cinco finalistas ao prêmio nesta categoria. Na verdade, acredito que ele tem méritos para chegar lá. Agora, ele levar a estatueta… entre os filmes que eu assisti, continuo preferindo a The Guilty. O próximo da lista, que vou assistir – já dou spoiler para vocês – será Roma que, para muitos, é o favoritíssimo nessa categoria no Oscar 2019. Veremos. Acho que Cold War chega entre os finalistas, mas dificilmente levará o prêmio. Ainda que a Academia ama um filme sobre guerra, não é mesmo? Veremos…

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Les Innocentes – The Innocents – Agnus Dei

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Cada um lida com o horror de uma maneira diferente. Há quem o encare como uma forma de superação e de aprendizado, após conseguir “lidar” com ele, e desta forma o horror passa a ser um ponto de partida para conquistar algo maior e melhor. Outros encaram o horror como um abismo contra o qual não há como escapar, não há saída do escuro, motivação ou alavanca que propicie a superação. Neste segundo caso, o horror pode ser um ponto final.

Les Innocentes nos conta uma história de horror que convida o espectador a conhecer de perto mais uma das chagas pouco comentadas e que foram deixadas pela Segunda Guerra Mundial. Além de apresentar uma história menos conhecida, o filme convida especialmente as mulheres a fazerem um exercício de empatia que é duro, mas necessário.

A HISTÓRIA: Começa dizendo que o filme está inspirado em eventos que realmente aconteceram. Som de sino batendo e de passos. Vemos um grupo de freiras caminhando em um convento. Elas rezam através de cantos. Gritos cortam o ar, e eles parecem afetar a uma das freiras. As cenas que vemos se passam na Polônia em dezembro de 1945. Aquela freira preocupada aproveita uma oportunidade para sair do convento.

Ela anda por cenários brancos de neve e chega até o vilarejo mais próximo, onde pede ajuda de alguns meninos para encontrar um médico – desde que ele não seja “polaco ou russo”. É assim que ela encontra a Mathilde Beaulieu (Lou de Laâge), uma médica francesa que acaba ajudando as freiras do convento em segredo.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Les Innocentes): Primeiramente, quero pedir desculpas para vocês, meus bons leitores e leitoras, por ter demorado tanto para voltar a atualizar o blog. A verdade é que eu vi a Les Innocentes há pouco mais de uma semana, mas só agora eu consegui escrever sobre o filme. Me desculpem. Prometo me esforçar para tentar atualizar mais vezes este espaço precioso.

Bem, agora falando do filme. Les Innocentes começa muito bem. Com uma boa construção de imagens logo no início e uma bela fotografia que relembra filmes recentes protagonizados por mulheres em fase de descoberta e de superação. Mas estes elementos logo dão espaço para uma história mais centrada no roteiro, no drama pessoal das personagens e no desenvolvimento de algumas delas. Como outras produções centradas em um grupo de personagens, Les Innocentes acaba perdendo um pouco a força por tornar um pouco difícil a identificação dos espectadores com as personagens centrais da história.

Claro que um punhado de personagens acaba se desenvolvendo bem neste filme. São exemplo deste desenvolvimento “melhor acabado” as protagonistas – acredito que podemos considerá-las assim – Mathilde Beaulieu, médica francesa que ajuda as freiras grávidas em segredo; a freira Maria (Agata Buzek), que é como um braço direito da Madre Superiora; e a própria Madre Superiora (Agata Kulesza).

Outras freiras que aparecem bastante, algumas delas interpretadas inclusive por atrizes europeias já conhecidas, acabam sendo identificadas apenas com a ajuda das fotos da produção. É que o fato de todas usarem hábitos não ajuda a identificá-las bem. Além disso, poucas tem realmente um desenvolvimento de personagem que vai além do superficial.

Eu diria que, neste sentido, de desenvolvimento de personagem, as que tem um espaço melhor no filme são mesmo as protagonistas. Em segundo plano estão as freiras Teresa (Eliza Rycembel), que vai buscar ajuda para a amiga que está dando a luz; Zofia (Anna Próchniak), a amiga de Teresa que é a primeira a dar a luz no filme; Irena (Joanna Kulig), que acaba deixando o filho dela no convento para as freiras cuidarem e resolve seguir outro rumo na vida; Anna (Katarzyna Dabrowska), freira que acaba duvidando da própria fé e, após dar a luz, assume com alegria a nova função de ser mãe; e a freira Ludwika (Helena Sujecka) que, de tão traumatizada, não tinha percebido que estava grávida e não tinha se dado conta de ter dado a luz sentada na própria cama.

Este filme é essencialmente de mulheres. Mas alguns homens aparecem em cena – especialmente no cotidiano de Mathilde, cercada de homens no hospital militar. Um destes homens tem destaque na produção: o médico Samuel (Vincent Macaigne). Ele aparece, na verdade, para reforçar a leitura da personagem de Mathilde e para ajudar a contrastar a vida dela com a das freiras do convento.

Feitos estes comentários, vamos entrar na história propriamente dita. Les Innocentes agrega valor à leitura variada que nós temos dos efeitos da Segunda Guerra Mundial especialmente porque conta uma história pouco conhecida e sob uma ótica bem feminina. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). A guerra tinha acabado, mas os efeitos dela ainda estavam bem presentes nos países que tinham vivido o horror do confronto na própria carne.

Neste contexto conhecemos duas realidades muito diferentes: a de mulheres enclausuradas que acabaram tendo as suas vidas invadidas e agredidas de forma covarde e sem possibilidade de defesa em contraste com a vida independente de uma médica que fez a escolha de dedicar a vida para ajudar as pessoas na Cruz Vermelha. Mathilde é solteira, tem uma profissão, sai com o homem que ela quer, fuma, tem origem familiar um tanto comunista e, basicamente, faz o que ela quer e acha correto. Em contrapartida as freiras que ela encontra em situação de vergonha e medo devem seguir ordens, hierarquia, terem obediência e dedicarem todo o seu tempo para adorar a Deus.

Inicialmente estas duas realidades femininas poderiam se chocar e se confrontar, mas não é isso que acontece. Pelo lado da Madre Superiora há uma resistência inicial com Mathilde não por seu perfil, mas porque ela está muito preocupada em guardar o segredo de suas freiras grávidas. E pelo lado de Mathilde, ela olha para aquela realidade tão diferente da dela com curiosidade, respeito, mas nunca com resistência. Ainda assim, para ela é um pouco difícil se colocar no lugar daquelas jovens mulheres que, em sua maioria, eram virgens antes de serem estupradas. Mas em certa noite ela passa por uma situação muito parecida e então consegue se colocar no lugar delas.

Neste sentido Les Innocentes é um filme muito interessante. Ele faz qualquer mulher, independente do estilo de vida que ela leve, se colocar no lugar de garotas inocentes, puras e que tiveram esta inocência e pureza roubadas de forma bruta. É ultrajante. Não tem como não ficar mexida e indignada com o que vemos em cena. A direção cuidadosa de Anne Fontaine nos leva pela mão e faz com que não seja difícil nos colocarmos no lugar daquelas vítimas – especialmente se o público for feminino.

Como disse lá no início, o que aconteceu com elas foi puro horror, mas cada um reage em relação a esse horror de forma diferente. Quase todas as freiras se questionaram “Por que Deus permitiu que isso acontecesse?”. Na verdade, esta é uma grande questão. Pessoalmente eu não acho que Deus quer ou permite que muitos absurdos e horrores aconteçam. Mas a grande questão é que ele nos deu o livre arbítrio, ou seja, a liberdade de decidir os nossos caminhos e os nossos atos. Ao fazer isso, ao nos dar a liberdade para escolher, ele nos dá a possibilidade de escolher o caminho do bem, da partilha e da doação, assim como nos permite escolher o caminho da maldade, do crime e do ultraje.

Deus nos permitiu escolher, mas jamais concorda com que escolhamos o caminho da maldade. Concordar é uma coisa, nos dar a liberdade para fazer é outra bem diferente. Muitas freiras questionam Deus e inclusive a própria fé, mas depois desta fase muitas acabam entendendo que Deus não teve nada a ver com aquilo. A partir deste momento, em que elas percebem que não devem agradecer ou culpar Deus pelo que soldados calhordas fizeram, elas passam a aceitar ou não a maternidade. Novamente é uma escolha individual de cada uma.

Para morrer basta estar vivo. E para acontecer coisas boas e ruins também. Esta é a verdade nua e crua e da qual não gostamos de ouvir falar muitas vezes. Nada justifica o que aqueles invasores covardes fizeram. Mas a partir do momento em que o “estrago” está feito, o que cada uma daquelas freiras poderiam fazer a respeito? Daí é uma questão muito individual, porque não foi dado para elas o poder da escolha. Há mulheres com vocação para ser mãe, mas nem todas nasceram com esta vocação. Por isso acho perfeitamente compreensível que algumas daquelas freiras se encontraram na maternidade enquanto outras não quiseram saber disso.

Achei o roteiro de Sabrina B. Karine e Alice Vidal, com diálogos de Pascal Bonitzer e Anne Fontaine baseados no conceito original de Philippe Maynial muito sensível. Ele dá o espaço adequado para o drama daquelas freiras se desenvolverem, assim como para a aproximação de Mathilde para aquela história – no fim das contas ela faz a vez dos espectadores que, como ela, devem “mergulhar” aos poucos naquela realidade do convento tão diferente ao que estamos acostumados. A forma com que Anne Fontaine e equipe trabalham funciona muito bem.

Da minha parte, eu apenas encurtaria um pouco a história de Mathilde e de Samuel. É a parte menos interessante da produção e que poderia ter sido ainda mais secundária. Eles tem uma química relativa e se a mensagem era mostrar a independência de Mathilde, não precisava tanto tempo de romance morno entre os dois. O filme perde um pouco de ritmo quando ele tenta descobrir o que Mathilde anda fazendo e tenta se aproximar. Algo que não ajuda na história principal.

Mas algo interessante do filme, e volto a tocar neste ponto, é a aproximação de realidades tão diferentes como o “mundo externo” e o “mundo interno” de um convento. No fim, desmistificamos tanto o papel das freiras quanto o papel da jovem independente. As primeiras são humanas, frágeis mas também fortes, com grande convicção mas também com momentos de dúvidas e questionamentos. E a mulher independente é capaz de se colocar no lugar do outro e também de ser sensível, de se aproximar e conhecer com respeito as realidades que ela não conhecia até há pouco tempo.

Também há o segundo ponto chocante do filme. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). O primeiro ponto chocante é o estupro coletivo das freiras e muitas delas terem ficado grávidas contra as suas vontade. Mas há um outro ponto chocante e que é revelado na parte final da produção e que, este sim, dependia de uma escolha de uma das mulheres enclausuradas. Eu já tinha ficado desconfiada com aquela história da Madre Superiora sempre sair sozinha e só ela dar uma “destinação” para os recém-nascidos. Por isso não foi exatamente uma grande surpresa quando fica claro que ela abandonava as crianças para, se tivessem sorte, fossem encontradas por alguém em meio à neve.

Agora, a troco de quê ela fazia isso? A Igreja é feita por pessoas e, consequentemente, é falha. Tem muitos méritos, virtudes, mas também apresenta, uma ou outra vez, falhas graves. O que Madre Superiora deveria fazer e com o que ela deveria se preocupar? Sem dúvida alguma, por ser cristã, ela deveria buscar preservar a vida sempre, sob qualquer circunstância. Mas com a justificativa de “defender” as freiras ela fez aquele absurdo de abandonar os recém-nascidos. Na verdade o que ela queria era levar para longe a “vergonha” pela qual elas tinham passado. Mas ao sacrificar crianças inocentes ela só tornava o horror ainda maior e mais absurdo.

Enfim, este é um belo filme, com uma história forte e que faz pensar. Ele também convida as mulheres, em especial, a se colocarem no lugar de pessoas interessantes e em um cenário muito diferente. Os homens, imagino, também conseguem dimensionar o horror – ainda que, francamente, eles nunca vão conseguir se colocar totalmente no lugar de uma mulher, neste caso. Mas encarar este absurdo e se conscientizar a respeito dele repudiando qualquer violência contra uma mulher já pode ser um bom começo.

NOTA: 8,8 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Um dos pontos fortes deste filme é, sem dúvida alguma, as ótimas atrizes envolvidas nos papéis principais. Lou de Lâage, que eu já tinha visto antes em outro filme, Respire (com crítica neste link), está ótima. Ela sempre mostra um espírito bastante independente mas, ao mesmo tempo, tem um olhar atento e curioso que casa muito bem com as suas personagens. Uma atriz que vale ser acompanhada, especialmente porque ela costuma se entregar bastante aos seus papéis.

Neste filme a grande revelação para mim foi Agata Buzek. Ela é a freira com a maior complexidade nesta história. Visivelmente ela tem na fé uma de suas fortalezas mas, ao mesmo tempo, ela não é dogmática. Ela realmente se interessa pelas colegas freiras e pelas crianças, assim como pela preservação da vida. Ela tem uma preocupação menor em proteger a Igreja ou a “vergonha” delas e está mais focada em que todas fiquem bem. Sem dúvida alguma uma das personagens melhor desenvolvidas da trama. Merece destaque também a atriz Agata Kulesza, que interpreta a Madre Superiora. Ela é bem mais rígida – até o extremo, podemos dizer -, mas tem um trabalho preciso e que foge, por pouco, do estereótipo.

Como comentei antes, o roteiro deste filme é bom, mas poderia ser um pouco mais curto e reduzir a trama de Mathilde e Samuel. A direção de Anne Fontaine equilibra a valorização do trabalho das atrizes, em especial, ao mesmo tempo que explora as peculiaridades daquele local e daquela época. Na maior parte do tempo a câmera dela está perto das atrizes, flagrando as nuances de suas interpretações, mas em alguns momentos importantes ela valoriza as paisagens cheias de neve – e que, neste caso, representam também perigo.

Da parte técnica do filme, sem dúvida alguma o principal destaque vai para a direção de fotografia de Caroline Champetier. Também fazem um bom trabalho Annette Dutertre na edição; Joanna Macha no design de produção; Anna Pabisiak na direção de arte; Kinga Babczynska na decoração de set; e Katarzyna Lewinska nos figurinos. Puxa, agora ao buscar os nomes das pessoas envolvidas no projeto é que me dei conta de como este filme é repleto de mulheres. Muito bacana isso. Por causa deste detalhe importante – fico feliz de ver uma diretora chamando uma equipe basicamente de mulheres e contando uma história importante para elas – vou aumentar um pouco a nota que eu ia dar para este filme originalmente. A proposta da diretora merece.

A trilha sonora de Les Innocentes é muito, muito pontual. Ainda assim, vale citar o seu responsável: Grégoire Hetzel.

Les Innocentes estreou em janeiro deste ano no Festival de Cinema de Sundance. Depois o filme participaria, ainda, de outros sete festivais de cinema pelo mundo. Nesta trajetória o filme colecionou um prêmio e três indicações. O prêmio que ele recebeu foi o dado pelo público como Melhor Filme no Festival Internacional de Cinema de Princetown.

Coproduzido pela França e pela Polônia, Les Innocentes teria custado 6 milhões de euros. Nos Estados Unidos o filme fez pouco mais de US$ 487 mil – não há informações, ainda, sobre as bilheterias nos outros países.

Agora, uma curiosidade sobre a produção: a atriz Adèle Haenel foi cotada para interpretar Mathilde Beaulieu antes de Lou de Laâge. Bela disputa, eu diria.

Esta produção foi totalmente gravada na Polônia, em cidades como Orneta e Krosno.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,3 para Les Innocentes. Por sua vez, os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 41 críticas positivas e apenas quatro críticas negativas para esta produção, o que lhe garante uma aprovação de 91% e uma nota média de 7,7. Belas avaliações, diga-se.

CONCLUSÃO: Provavelmente este filme terá diferentes leituras conforme o gênero do espectador. As mulheres devem ter uma percepção muito mais aguda do que os homens sobre o que significa este Les Innocentes. Mas independente do gênero do público, algo é fato: esta produção acrescenta mais uma colherada importante na leitura diversificada e múltipla que temos hoje sobre a desgraça que foi a Segunda Guerra Mundial. O tema não parece ter fim, e isso é bom.

Bem construído e com um bom elenco, este filme só peca um pouco pela duração – ele poderia ter, facilmente, meia hora a menos. Mas nada que tire a força da história. Além disso, Les Innocentes tem belas imagens e dramas plausíveis que tornam esta produção mais um importante documento sobre aquela fase tenebrosa da nossa história. Vale ser visto, ainda que ele não esteja na lista dos melhores do gênero. Há filmes mais contundentes e inovadores, mesmo recentes, sobre a Segunda Guerra. Adicione este especialmente se já conferiu aos demais.

Ida

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Desacelere e reflita. Não é com pressa que você vai entender o que aconteceu e o que está acontecendo. Filmes como Ida nos apresentam uma história que tem esta lógica e que, de quebra, também nos faz agir da mesma maneira para não apenas entender o que acabamos de assistir, mas também para entender as nossas próprias escolhas. Ida não é um filme evidente, com leitura simplória. Exige um tempo de reflexão, de contemplação das belas imagens reveladas pela história e também dos sentimentos que ela apresenta. Realmente um fortíssimo – para alguns o favorito – concorrente ao Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira.

A HISTÓRIA: Uma freira pinta o rosto de Jesus. Depois ela e outras três freiras levam a imagem para fora, colocando-a em um pedestal em meio à neve. Elas rezam. Depois, inserida em um grupo maior, a primeira freira, Anna (Agata Trzebuchowska), canta antes de alimentar-se. Ela é observada pela madre superiora (Halina Skoczynska) que, depois, comunica para a jovem que ela vai conhecer a uma tia que não quis, quando ela ficou órfã, ficar com a menina. Mesmo relutante, ela vai conhecer essa tia, Wanda Gruz (Agata Kulesza). As duas juntas procuram pelo passado da jovem que está prestes a fazer os seus votos perpétuos.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Ida): O primeiro elemento claro de destaque deste filme é a fotografia da produção. Impactante. Belíssima. Exemplar. Palmas para a dupla Ryszard Lenczewski e Lukasz Zal. Mas tão importante quanto a direção de fotografia dos dois é a da direção de Pawel Pawlikowski que, ao lado de Rebecca Lenkiewicz, é responsável pelo roteiro de Ida.

Considero a direção de Pawlikowski fundamental porque, afinal, é ele quem decide os enquadramentos junto com os diretores de fotografia. E a escolha de cada ângulo, do enfoque de cada cena, é o que torna este filme uma joia rara. Não é só isso, evidente. Mas os enquadramentos que valorizam os ambientes e, especialmente, tendem a jogar a visão do espectador para um “plano mais elevado”, significam muito.

Nenhum ângulo, elemento que aparece em cena, fala ou silêncio está em Ida por acaso. Tudo tem um propósito, como estes elementos e tantos outros nas nossas vidas também. Pawel Pawlikowski parece nos dizer constantemente isso. Que por mais que a existência da protagonista seja um mistério para ela mesma, e por mais que ela vai descobrindo elementos novos a cada passo e interação, tudo que aconteceu e o que está acontecendo tem uma finalidade.

Nestes termos Ida tem um significado existencial profundo. Esta produção não se resume apenas na busca de descendentes judias pela verdade em uma cruzada para esclarecer o passado. Ela é também uma reflexão profunda sobre as escolhas cotidianas que nos levam por determinados caminhos, e não por outros, e sobre a necessidade de ampliar o campo de visão antes de focar a mirada e a vida em uma determinada direção.

Mas antes de me largar filosofando sobre esta produção, quero voltar um pouco na história propriamente dita. Sugestivo e bastante acertado o filme começar em um cenário frio, de muita neve, e terminar com os campos descongelados. É como se a busca pelo conhecimento da protagonista limpasse o cenário, tornando ele menos encoberto e gélido e mais fértil e promissor.

Claramente o roteiro de Pawlikowski defende a busca pela verdade e pela reconciliação do presente com o passado, seja ele individual, no caso de Ida (inicialmente Anna) e da tia, Wanda, seja do país Polônia, invadido pelos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial. Aliás, este recorte histórico é especialmente interessante – o que torna o filme, de fato, um forte candidato ao Oscar.

Toda vez que uma produção resolve visitar o segundo grande conflito mundial, novos elementos são expostos para o grande público no holofote. Em Ida, a novidade está na parte da população polonesa que, inicialmente, protegeu os judeus perseguidos e, depois, aproveitou-se deles ao eliminá-los da face da Terra. Quem poderia desconfiar da traição, afinal, eles estavam em um país invadido e com inimigos mais evidentes e fortes. Mas os descendentes das vítimas, como Wanda, nunca esqueceram.

Ela própria conseguiu buscar justiça contra muitos algozes do próprio país que eliminaram judeus para ficar com as propriedades deles nos anos 1950. Mas estranhamente, e isso me faz lembrar aquele dito de que “em casa de ferreiro o espeto é de pau”, Wanda não conseguiu fazer as pazes com o próprio passado. Provavelmente porque ela não se sentia preparada ou verdadeiramente forte para isso. Mas quando bate à porta dela a sobrinha que ela fez questão de esquecer até então, Wanda não consegue mais fechar os olhos e anular a consciência.

Inicialmente ela até tenta. Mas volta atrás. E ao fazer isso, tanto a vida dela quanto a de Ida/Anna mudam definitivamente. O que nos faz pensar que também os nossos encontros e aberturas para determinadas pessoas e fatos mudam a nossa trajetória para sempre. Interessante o contraponto entre tia e sobrinha. Como Wanda mesmo comenta, em determinado momento da produção, ela faz as vezes de “puta”, enquanto a sobrinha representa a “santa”.

Mas em cenários como aquele ou em diversos outros em que nós habitamos, quanto fácil pode ser identificar a puta ou a santa? Outro dia saí para celebrar o final de ano com duas amigas, quase na véspera do Natal, e fiquei chocada com o comportamento de garotas jovens em um bar. Todas vestidas com micro-saias e parecendo, para olhos com vontade de julgar, umas “putas”. Mas elas não eram. E me choquei um pouco com garotas tão jovens tendo comportamento de manada e não se dando conta da mensagem que elas estavam passando.

Wanda não conseguiu encarar a própria história durante muito tempo. E buscou, como tantas pessoas que circulam na vida real aqui e ali, maneiras de anestesiar-se. Conseguiu, por muito tempo, até que ela confrontou as suas piores dores ao ter uma convivência rápida com a sobrinha – que, de quebra, lhe fazia lembrar muito a irmã assassinada. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Quando ela coloca certa música na vitrola, é praticamente uma morte anunciada. Pelo menos eu vislumbrei muito antes da queda que ela teria aquele fim.

Então Ida fala sobre esse passado nacional que, mesmo dolorido, em certo momento precisa ser revisitado. A verdade precisa ser descoberta e as vítimas terem um destino adequado. Esta é a Polônia dos sonhos do diretor Pawlikowski. Aliás, este deveria ser o sonho de todo cidadão de qualquer país que tenha contas a resolver com o próprio passado. Quanto mais transparência e informação sobre abusos e crimes do passado, melhor para o coletivo de uma nação.

O problema é que nem sempre essa verdade consegue ser trabalhada individualmente. Um exemplo disto é a personagem de Wanda. Que passou grande parte da vida tentando buscar justiça ou fuga sem, contudo, resolver o problema internamente. Sem dúvida a culpa pelo “abandono” do filho no passado e a falta de perspectiva inclusive familiar futura foram decisivos para a decisão final da personagem.

Por outro lado, e aí está o lado mais filosófico da produção, a protagonista tem um outro desafio para vencer. Sem esperar, ela encontra uma parente que não sabia que existia, descobre ser judia e é mordida pela ânsia de respostas originada pela tia. Após saber mais sobre os pais mortos e conviver um pouco mais com a tia, Ida sente-se também com oportunidade para dar vazão para instintos reprimidos no convento. Ela está fora da clausura e da proteção daquele ambiente e, desta forma, é “contaminada” com o mundo do pecado.

Interessante a forma muito natural com que Pawlikowski mostra esta jovem em busca de respostas também para os seus desejos e necessidades. Depois de descobrir sobre a história dos antepassados, ela volta para o convento e não se sente preparada para dar os votos de fidelidade eterna para Deus. Sua cabeça está em outro local, no músico Lis (Dawid Ogrodnik), que ela conheceu quando a tia deu uma carona para o rapaz.

Acredito que esta seja a parte mais polêmica da produção. O desejo e o contato da freira até então imaculada com o rapaz que ela mal conheceu. Da minha parte, acho que aí está uma outra reflexão interessante: que só podemos ter uma escolha verdadeiramente lúcida e firme pelas virtudes após conhecer o pecado. Com isso não quero dizer que devemos experimentar tudo para, depois, sermos capazes de abdicar de um pecado determinado.

Mas certamente quem tem mais conhecimento sobre a vida pode fazer escolhas mais lúcidas sobre determinados assuntos – como a castidade ou sobre afastar-se de algumas tentações para buscar uma vida mais virtuosa. Especialmente importante para esta produção o trabalho dos atores principais, com destaque para a força do olhar da atriz Agata Trzebuchowska. Ela nos hipnotiza e convence a cada segundo pelo olhar, muito mais que pelo diálogo. Junto com a direção de fotografia, sem dúvida ela é o ponto forte do filme.

Mesmo destilando tanto elogios para a produção, devo dizer que demorei um bom tempo após o filme terminar para conseguir ter esta leitura tão positiva sobre Ida. Inicialmente, a minha impressão não era tão boa. Então, por isso mesmo, escrevi aquela introdução lá encima. Dê tempo ao tempo em relação a esse filme.

Pouco a pouco as imagens dele vão fazendo mais sentido. Apesar desta ponderação, admito que não dei uma nota melhor para o filme, logo abaixo, porque senti falta dele me emocionar e tocar mais. Ida é uma produção virtuosa, cheia de qualidades, mas que não fisga o espectador como eu gostaria. Ou, pelo menos, da forma com que eu gosto de ser envolvida. Dito isso, confirmo o que vocês já sabem: cinema é uma arte muito pessoal.

NOTA: 9,4.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Ida é uma prova cabal de que um filme não precisa ser longo para ser bom. Na maioria das vezes, muito pelo contrário. Pois bem, esta produção, caros leitores, tem menos de 1h30 de duração. Perfeito.

Fiquei curiosa para saber um pouco mais sobre os diretores de fotografia desta produção. Ryszard Lenczewski é um polonês de 66 anos que tem 53 trabalhos como diretor de fotografia no currículo e 11 prêmios para apresentar. Lukasz Zal é bem mais novo, tem 33 anos, também é polonês, tem sete títulos como diretor de fotografia mas, por outro lado, apresenta já um bom portfólio de prêmios: sete até o momento. Até Ida, o forte de Zal eram os documentários.

Interessante saber, também, sobre Pawel Pawlikowski. Este polonês de 57 anos começou a carreira de diretor em 1991 com o documentário para a TV From Moscow to Pietushki. Na sequência, ele dirigiu outros três documentários e um curta de documentário, até estrear, em 1998, com o filme não-documental The Stringer. De 2004 para cá ele lançou duas produções: My Summer of Love e La Femme du Vème. Em sua trajetória, Pawlikowski recebeu 36 prêmios e foi indicado a outros 18. Nada mal, hein?

Com poucos personagens, Ida é um filme que depende muitos do desempenho dos poucos atores em cena. Por isso mesmo, palmas para Alina Falana, responsável pelo casting da produção. Ela acertou na mosca com a escolha das duas joias raras, das duas Agatas que protagonizam este filme. Agata Trzebuchowska dá um banho como Anna/Ida, enquanto Agata Kulesza dá o equilíbrio perfeito e propicia a dobradinha necessária com a outra Agata ao interpretar Wanda.

Além destas atrizes e do já citado Dawid Ogrodnik, o outro destaque da produção, vale comentar o trabalho de Jerzy Trela como Szymon; Adam Szyszkowski como Feliks; e Joanna Kulig, com presença marcante e muita beleza como a cantora da banda de Lis. Os outros atores fazem papéis muito pequenos, quase sempre pontas na história.

Ida estreou no Festival de Cinema de Telluride no dia 30 de agosto. Depois, o filme participaria ainda de outros 35 festivais. Uma jornada impressionante! O último previsto, o de número 37, será o Festival Internacional de Cinema de Palm Springs, que vai começar no próximo dia 3 de janeiro. Nesta super trajetória de festivais, Ida conseguiu abocanhar 44 prêmios – número também impressionante – e outras 28 indicações.

Entre os prêmios que recebeu, destaque para o de Melhor Filme segundo o Público do Prêmio de Cinema Europeu, além dos reconhecimentos de Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Roteiro e Melhor Direção de Fotografia entregues também por este prêmio.

Ida ganhou ainda como Melhor Filme no Festival de Cinema de Londres; como Melhor Filme em Língua Estrangeira no Prêmio do Círculo de Críticos de Cinema de Nova York; como Melhor Atriz para Agata Kulesza, Melhor Roteiro, Melhor Design de Produção e Melhor Filme no Festival Internacional de Cinema de Gijón. O filme ainda está concorrendo como Melhor Filme em Língua Estrangeira no Globo de Ouro 2015. E deve chegar ao Oscar forte…

Não há informações sobre o custo desta produção, mas ela conseguiu, apenas nos Estados Unidos e em circuito restrito, pouco mais de US$ 3,7 milhões nas bilheterias. Não é desprezível para um filme polonês no concorridíssimo mercado estadunidense.

Esta produção foi totalmente rodada na Polônia, em cidades como Lódz, Pabianice, Mianów e Szczebrzeszyn. Desafio vocês a pronunciarem o nome da última cidade. 😉

Agora, algumas curiosidades sobre a produção: o diretor Pawel Pawlikowski estava com tanta dificuldade para encontrar a atriz para fazer as vezes de protagonista de Ida que ele resolveu recorrer para os amigos. Ele pediu que eles fizessem fotos escondidas de mulheres que fossem interessantes para o papel. Um dos amigos do diretor encontrou Agata Trzebuchowska em um café, fez a foto da garota e a convenceu a fazer o teste para o papel. O resto é história.

A atriz Agata Trzebuchowska é uma ateia devota. Curioso, não? Ela estreou no cinema protagonizando esta produção.

Ida tem um certo tom autobiográfico. O diretor e roteirista Pawel Pawlikowski tinha uma mãe católica e um pai judeu e descobriu, muito mais tarde na vida, que a avó dele tinha morrido no campo de concentração de Auschwitz.

Lendo as notas de bastidores do filme é que fiquei sabendo porque de dois diretores de fotografia. O experiente Ryszard Lenczewski deixou a produção pouco depois dela ter começado. Ele alegou razões médicas, mas o diretor Pawlikowski disse que ele não estava tão engajado no filme quanto o diretor gostaria. Foi aí que entrou em cena Lukasz Zal, até então apenas um operador de câmera na produção.

O compositor dinamarquês Kristian Eidnes Andersen aparece assinando a trilha sonora do filme, ainda que boa parte do trabalho dele foi cortado para dar lugar para uma peça de Bach.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,5 para esta produção. Uma boa avaliação levando em conta o padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram mais efusivos, dedicando 110 textos positivos para Ida e apenas cinco negativos para a produção – o que lhe garante uma aprovação de 96% e uma nota média de 8,4.

Com esta crítica, me despeço de 2014. Um ano excelente, ainda que eu tenha ficado em dívida com você, querido leitor deste blog. Primeiro, porque não atualizei o site como eu deveria e/ou gostaria. Depois, porque estou com as respostas aos comentários feitos por vocês muito atrasadas. Mas deixa… 2015 há de ser melhor. Para todos nós. Apesar do blog ficar um pouco relegado, meu 2014 foi ótimo. Espero que o ano de vocês também. E que 2015 venha ainda melhor, inclusive com muitos filmes ótimos para assistirmos. Agradeço, imensamente, pela companhia e visita de vocês. Sem esta presença constante, este espaço não teria muito sentido. Abraços, beijos, e um 2015 maravilhoso para cada um@ de vocês!

CONCLUSÃO: Este é um daqueles filmes que, no primeiro momento, você pode até não gostar muito. Ou, pelo menos, e o que foi o meu caso, não sentir-se tão afetado pela história. Mas aos poucos Ida vai mostrando toda a sua eficácia. Quanto mais pensamos no que assistimos, mais encontramos nuances de interpretação. Visualmente belíssimo, com uma fotografia em preto-e-branco irretocável, este filme tem contemplação, escolha permanente pela “elevação”, filosofia, religião e mensagens duras pinceladas com maestria e suavidade. Nada de pirotecnia ou daquela forçada de barra para fazer o público chorar no momento certo. Uma pequena joia que precisa, como tantas outras, ser lapidada aos poucos e com cuidado dentro do espectador depois que os créditos terminam.

PALPITE PARA O OSCAR 2015: Ida avançou na disputa por uma estatueta na categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira. De acordo com um dos boletins da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, Ida é um dos nove pré-selecionados nesta categoria. Como vocês devem saber, no caso de acompanharem o Oscar, normalmente a lista final é anunciada com cinco produções.

Os pré-selecionados foram: Ida (Polônia), Relatos Salvajes (Argentina), Tangerines (Estônia), Corn Island (Geórgia), Timbuktu (Mauritânia), Accused (Holanda), Leviathan (Rússia), Force Majeure (Suécia) e The Liberator (Venezuela). Não assisti aos outros candidatos, mas acredito que Ida deve chegar na lista dos cinco finalistas. Tanto pela qualidade da produção quanto pelas temáticas abordadas – perseguição aos judeus e busca pessoal pela fé. Quanto a receber a estatueta… vou me sentir mais confortável em opinar conforme for assistindo aos outros pré-selecionados.