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Nightcrawler – O Abutre

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Figuras estranhas andam pelas noites das grandes cidades. Mas nem todas são tão assustadoras quanto o protagonista deste Nightcrawler. E o detalhe mais importante desta constatação é que ele é tão assustador por ser tão humano. Há centenas, talvez milhares de figuras como ele perambulando por aí. Filme bem escrito e bem conduzido, com um ótimo ator encabeçando a trama, Nightcrawler faz pensar em diversas direções. O que não é exatamente comum, mas certamente muito necessário.

A HISTÓRIA: Um outdoor em branco, desocupado, uma lua cheia fantástica no céu e uma cidade iluminada. Diversas cenas desta cidade e uma trilha sonora melancólica ao fundo. Nada demais parece estar acontecendo, e ao conferirmos a placa de Santa Monica, temos certeza que a cidade em foco é Los Angeles. Alguém corta uma cerca, mas para com a aproximação de um carro.

Confrontado por um vigilante (Michael Papajohn), o homem que roubava as cercas de arame, Louis Bloom (Jake Gyllenhaal) tenta disfarçar e diz que está perdido. O vigilante pede a identidade do invasor, e antes de mostrar o documento, Louis percebe o relógio caro que o interlocutor está usando. Em seguida, ele agride o vigilante. Depois, vende o produto do roubo. Mas é tentando voltar para casa que ele tem a ideia de uma profissão na qual ele poderá se encaixar.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu à Nightcrawler): Há tempos eu admiro o ator Jake Gyllenhaal. Acredito que desde o genial Donnie Darko – que recomendo, caso você não tenha assistido. Sempre que posso, confiro as produções em que ele está envolvido. E novamente, com esta Nightcrawler, ele não me decepcionou.

O protagonista deste filme, e vamos saber isso logo nos primeiros minutos da produção, é um psicopata. Quer dizer, não é logo de cara que sabemos disso. No início, Louis Bloom parece apenas um sujeito que vive de pequenos crimes. E ele também parece desesperado por um emprego e por uma fonte razoavelmente estável de dinheiro. Também percebemos, logo no início, que ele é um sujeito que gosta de estar no controle e que está sempre atento às oportunidades.

O roteiro do diretor Dan Gilroy foi construído para não causar tédio. Desde o início, todas as frases dos diálogos dos atores, todos os gestos deles e todas as cenas de ação tem um propósito e estão perfeitamente encadeadas. Conforme a história vai se desenvolvendo e nos aproximamos mais do protagonista, percebemos todos os ingredientes de um psicopata: Louis é um sujeito que gosta de estar sozinho, absorve informações de todas as partes e tem uma dificuldade crônica de ter um diálogo ou uma relação real com alguém.

Ele repete conceitos e frases feitas que foi aprendendo na internet. E esse é o primeiro acerto desta produção: ela nos faz refletir sobre o perigo que conceitos de gestão, administração, psicologia e outras fontes de certezas podem gerar quando disponíveis livremente para mentes insanas. Isso potencializado pela internet.

Claro que você pode argumentar que esta mesma facilidade existia antes, mas em forma de livros. Verdade. Mas a internet torna o processo ainda mais prático. Qualquer um pode acessar praticamente qualquer informação, conceito, frases feitas e formas de manipular os outros sem sair de casa e com uma sequência de comandos dados por algumas teclas do computador.

O assustador do personagem central deste filme é justamente o quanto há pessoas como Louis por aí. Não apenas psicopatas, mas figuras que apenas reproduzem conceitos sem jamais refletir sobre eles – ou, o que seria o ideal, absorver estes e vários outros conceitos e criar as suas próprias teorias e compreensão dos fatos. Informações boas e até corretas nas mãos de manipuladores são extremamente perigosas.

Além disso, é assustador também o fato de muitas pessoas viverem em busca de seus próprios desejos e o que consideram ser suas necessidades sem se importarem com mais nada ou ninguém. Nem sempre estas pessoas são psicopatas, como o Louis desta produção. Muitas vezes elas são apenas insensíveis e/ou cretinas crônicas. Nightcrawler nos faz pensar sobre isso, sobre figuras com algumas destas características que conhecemos em algum momento da nossa vida.

Depois de comentar isso, inevitável citar a maior crítica desta produção: a imprensa e a fixação de parte dos jornalistas com notícias que possam dar altos índices de audiência. Não conheço profundamente a grade de programação da TV dos Estados Unidos. Por isso, me arrisco a achar que esta produção exagera na crítica. Ainda assim, achei bacana Dan Gilroy fazer esta escolha pelo exagero. No burlesco é que muitas vezes percebemos que o rei está nu.

Sendo jornalista, posso fazer uma autocrítica de que a minha profissão muitas vezes erra na dose, no foco e na mensagem. Vejo sim muitos programas, seja no Brasil, nos Estados Unidos ou em outros países, explorando crimes, violência e sangue. Há mídia impressa além de televisiva que muitas vezes faz isso. A desculpa de quem envereda por estes caminhos é que este tipo de conteúdo é o que o público quer ver. Consequentemente, é o que dá audiência e dinheiro com anunciantes.

Me desculpe quem adota essa teoria, mas acho que o papel do jornalista é servir de instrumento para informações relevantes, interessantes e que prestem serviço para a sociedade. Algumas vezes é possível juntar estes três elementos, outras vezes não. Mas a violência dificilmente se encaixa em um destes tópicos. Ou seja, ela não deveria ser explorada. E se é isso que o público quer ver, faz parte do trabalho do jornalista apresentar outras alternativas de informação inclusive para educar este público. Esta é a minha postura, como cidadã e como profissional da área.

Por isso mesmo, achei especialmente interessante como Nightcrawler questiona esse modelo de comunicação que explora o pior das imagens de atos violentos. O lado mais absurdo do ser humano. O que esse tipo de cobertura está contribuindo para melhorar a vida das pessoas? Interessante que Dan Gilroy coloca o tema no holofote.

Algumas vezes, recentemente e após a morte da Lady Di, questionou-se a atuação dos paparazzi. Mas o que dizer de diversos canais de TV e de outras mídias que recorrem a recursos muito parecidos, alimentando não apenas uma rede de paparazzis, mas especialmente diversos “abutres” que vivem de caçar tragédias para vendê-las para a imprensa depois?

Estes questionamentos levantados pelo filme, assim como pelo menos três grandes sequências da produção – o tiroteio na mansão, a chantagem no restaurante e o desfecho com direito a novo tiroteio e perseguição pelas ruas de Los Angeles -, fazem de Nightcrawler uma produção bem acima da média. Bem escrito, com um mergulho interessante na vida do personagem central e sua busca desenfreada por atingir todas as metas pessoais e comprar tudo o que deseja, este filme é um exemplo de como fazer uma história provocadora, que fomenta o debate e que também prende o espectador com uma boa carga de ação.

Mas para não dizer que Nightcrawler é perfeito, fiquei incomodada com alguns detalhes. Para começar, e espero que isso não pareça contraditório com o que eu disse lá no início, achei que Jake Gyllenhaal não estava tão bem quanto poderia. Não sei, mas algumas vezes achei a interpretação dele exagerada e, em outras ocasiões, senti que estava vendo ele em um dos papéis de Enemy (comentado aqui).

Depois, apesar de terem um propósito, achei que os discursos do protagonista para o ajudante dele, Rick (Riz Ahmed), ficaram um pouco repetidos e algumas sequências poderiam ter sido encurtadas. Nem sempre o filme conseguiu manter o ritmo desejado – teve uma ou duas desaceleradas que poderiam ter sido evitadas. Além disso, infelizmente, parte do desfecho final acaba sendo muito previsível – mais que o desejado. Fora estes detalhes, o filme é ótimo. E há ainda o “pós-final”, aquela cena em que ele discursa para os novos recrutas, que é genial.

NOTA: 9,6.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: A cada ano que passa e a cada boa decisão de papel que toma, Jake Gyllenhaal vai se firmando como um dos melhores nome de sua geração. Sou fã dele, admito e repito. E acho que ele passa por um risco que acomete, inevitavelmente a todo grande ator: o de se repetir. Neste Nightcrawler eu vi ele repetir recursos, caras e bocas que já vimos em filmes anteriores do ator. E isso é ruim. Espero que ele continue diversificando os papéis e nos apresentando algo novo. Do contrário, não ficará tão divertido acompanhá-lo daqui pra frente.

Inicialmente o nome de Dan Gilroy não me pareceu familiar. E, de fato, este é o primeiro filme dirigido por ele. Por outro lado, Nightcrawler é o oitavo roteiro escrito por ele. Gilroy estreou em 1992 com Freejack, que conta com Mick Jagger no elenco. Tenho impressão que eu assisti a esse filme, mas não tenho muitas lembranças da experiência para ter condições de dizer se gostei ou não – ou se, e isso é mais importante, se o filme é bom ou fraquinho.

Depois, ele escreveu o roteiro de Two For The Money, de 2005, com Al Pacino e Matthew McConaughey. Outra vez, tenho impressão que assisti ao filme, mas não tenho certeza. O que nunca é bom, a meu ver, porque se as produções tivessem sido boas e marcantes, eu lembraria melhor delas. 🙂 Antes de Nightcrawler, Gilroy escreveu o roteiro de The Bourne Legacy que, infelizmente, não assisti. Então eu não ter arquivo mental sobre ele se justifica. De qualquer maneira, acho que é um nome que vale ser acompanhado – até para sabermos se o próximo projeto vai seguir a qualidade desta estreia dele na direção ou se não.

O grande destaque desta produção é o ator Jake Gyllenhaal. Mais do que o talento do ator, pelo fato do roteiro de Dan Gilroy estar centrado no protagonista. Mas há outros nomes interessantes e que tem uma participação importante no filme. Inevitável não citar o retorno interessante e calculadamente decadente dos veteranos Bill Paxton como Joe Loder, um cinegrafista independente e que tem um bom tempo de estrada como “abutre” e que acaba, em uma noite de trabalho, inspirando a nova profissão de Louis Bloom; e Rene Russo como Nina Romina, a produtora de TV que acaba dependendo do trabalho de Bloom para segurar a própria carreira. Russo, em especial, chega a assustar… a idade, de fato, chega para todos. Mais cedo ou mais tarde – isso vai depender de uso de filtro solar, camadas de maquiagem e outros fatores.

Além dos veteranos citados acima, vale comentar a participação do ótimo Riz Ahmed como Rick, o sujeito sem eira nem beira que acaba servindo de ajudante e cúmplice do protagonista. O ator é, sem dúvida, a revelação do filme. Ele está bem em todas as cenas e interpreta de forma perfeita o tipo de personagem planejado por Gilroy. Um ator a ser acompanhado, pois. Aparecem em cena ainda Kevin Rahm como Frank Kruse, chefe de redação e colega de Nina Romina que fica pasmo com o mergulho da profissional cada vez mais no mundo antiético do “tudo pela audiência”; Ann Cusack como Linda; Kiff VandenHeuvel como o editor da televisão que compra os vídeos de Louis; e os atores Michael Hyatt e Price Carson como os detetives Fronteiri e Lieberman, respectivamente.

O filme conseguiu também amealhar alguns nomes da TV dos Estados Unidos. Faz parte da programação televisiva e aparecem interpretando a eles mesmos Kent Shocknek, Pat Harvey, Sharon Tay, Rick Garcia e Bill Seward. Interessante a participação deles no filme.

Da parte técnica da produção, destaco o ótimo trabalho de edição de John Gilroy; a trilha sonora marcante e que ajuda muito na produção do veterano James Newton Howard; e a direção de fotografia de Robert Elswit, que tem o desafio de manter a qualidade em um filme bastante rodado à noite.

Nightcrawler estrou no Festival Internacional de Cinema de Toronto no dia 5 de setembro. Depois, o filme participaria ainda de 14 festivais e eventos de cinema. Nesta trajetória a produção abocanhou cinco prêmios e foi indicado a outros 14, incluindo o Globo de Ouro de Melhor Ator – Drama para Jake Gyllenhaal. Entre os prêmios que recebeu, destaque para ter entrado como uma das 11 produções da lista “Filme do Ano” do respeitado Prêmio AFI; por ter entrado também na lista das 10 melhores produções de 2014 da National Board of Review; e pelo prêmio de excelente atuação por trás das câmeras para Dan Gilroy conferido pela Sociedade de Críticos de Cinema de Phoenix.

Nessa fase pré-Oscar é interessante estar de olho nas escolhas da AFI e da National Board of Review sobre os melhores filmes do ano porque, afinal, muitos deles devem aparecer na lista da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. A saber: a lista da AFI cita, além de Nightcrawler, os filmes American Sniper (do genial Clint Eastwood – já estou louca para ver!), Birdman (do excelente Alejandro González Iñarritu, de quem sou fã também), Boyhood, Foxcatcher, The Imitation Game, Interstellar, Into the Woods, Selma, Unbroken (dirigido por Angelina Jolie e com roteiro dos irmãos Coen) e Whiplash. Na lista da NBR, além de American Sniper, Birdman, Boyhood, The Imitation Game, Nightcrawler e Unbroken, aparecem Fury, Gone Girl (dirigido pelo ótimo David Fincher), Inherent Vice (do meu ídolo Paul Thomas Anderson) e The Lego Movie. Filmes que parecem ótimos e que correm um grande risco de estarem no próximo Oscar.

Esta produção, como a história mesma sugere, foi totalmente rodada em Los Angeles – tanto as cenas externas quanto as internas.

Nightcrawler teria custado cerca de US$ 8,5 milhões e faturado, apenas na semana de estreia nos Estados Unidos, cerca de US$ 10,9 milhões. De acordo com o site Box Office Mojo, a produção teria conseguido, até hoje, dia 21 de dezembro, pouco mais de US$ 31,5 milhões nas bilheterias americanas. Nada mal, pois. Pelo contrário. O filme já conseguiu um bom lucro e tende a acumular ainda mais conforme os prêmios forem aparecendo.

Agora, algumas curiosidades sobre a produção: Jake Gyllenhaal emagreceu 20 quilos para o papel. Essa foi uma sugestão do próprio ator, que pensou no personagem como um “coiote com fome”. Ou seja, magro e sedento. Interessante. Também curioso que na cena em que Louis se descontrola, após perder a história da queda do avião, Gyllenhaal de fato embarcou no personagem e quebrou o espelho, cortando a mão e tendo que ir para o hospital levar alguns pontos.

O ator Riz Ahmend se preparou para o papel neste filme acompanhando “nightcrawlers reais” de Los Angeles, ou seja, presenciando de perto como os cinegrafistas independentes fazem o seu trabalho nas ruas da cidade. Ou seja, de fato existem figuras que ganham a vida desta forma. Assustador.

Rene Russo é a esposa do diretor Dan Gilroy. Essa é para quem curte carrões: o carro vermelho que Gyllenhaal dirige no filme é um Dodge Challenger.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,1 para esta produção. Levando em conta o padrão do site, esta é uma ótima avaliação. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 182 avaliações positivas e apenas 10 negativas para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 95% e uma nota média de 8,2. Ambas fantásticas.

CONCLUSÃO: Filme de psicopatas, talvez você já tenha visto alguns. Mas um filme que foca em um sujeito sem culpa e que não gosta de pessoas – ele mesmo admite isso lá pelas tantas em Nightcrawler – e que ainda mergulhar em algumas das realidades mais chocantes do nosso tempo, não é tão comum. Esta produção não apenas trata de um psicopata, mas também mostra como parte da população está entregue a uma curiosidade mórbida por crimes e tragédias que apenas alimenta mais o lado sombrio do mundo e da nossa realidade.

Também faz refletir sobre o perigo que é tornar as informações públicas e acessíveis a qualquer pessoa pela internet. Frases feitas e de impacto podem ser usados nos contextos mais diversos e pelas pessoas mais equivocadas. Baita história que não apenas provoca o espectador a repensar alguns conceitos, mas também mantém o ritmo adequado, sem entediar aqueles que já viram filmes com psicopatas e/ou que analisam a mídia. Com algumas cenas que vão voltar à memória do espectador tempos depois da produção, tem tudo para virar um filme cult com o passar do tempo. E cá entre nós, de forma merecida.

PALPITES PARA O OSCAR 2015: Difícil avaliar as chances de um filme como Nightcrawler na maior premiação do cinema dos Estados Unidos no próximo ano. Isso porque um filme como esse, há 10 anos, não chegaria entre os finalistas. Mas a renovação pela qual a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood passou nos últimos anos muda este cenário.

O Oscar está muito mais ousado agora. Filmes diferentes que antes nunca chegariam lá agora estão sendo indicados. Sendo assim, olhando apenas para a história da premiação, eu diria que Nightcrawler não seria indicado ou, no máximo, chegaria na categoria Melhor Ator para Jake Gyllenhaal. Mas, como os tempos mudaram, não seria uma total surpresa se esta produção fosse indicada também como Melhor Roteiro Original e, o que seria um pouco mais difícil, aparecesse na lista de Melhor Filme – levando em conta que este ano podemos ter, novamente, 10 indicados nesta categoria.

Da minha parte, acho que Nightcrawler até pode ter uma ou três indicações, mas dificilmente levará alguma estatueta para casa. Não que ele não mereça, especialmente Gyllenhaal, mas acho que esta produção foge demais do perfil da Academia. Veremos.

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Haywire – À Toda Prova

Alguns diretores são interessantes. Eles se esforçam para desenvolver uma linguagem própria, um estilo diferenciado, apresentar uma cereja em cada bolo (leia-se filme) que entregam. Steven Soderbergh é um destes nomes. Em seu novo filme, Haywire, o diretor volta a apostar em uma forma diferenciada de fazer cinema. A proposta é boa, até um determinado momento do filme. Mas joga contra o diretor um roteiro fraco e uma atriz sem expressividade alguma. Mais uma vez, Soderbergh aposta em uma garota desconhecida para estrelar um filme seu. Desta vez, ele errou na escolha, ainda que Gina Carano seja ótima nas cenas de ação, na interpretação ela é péssima.

A HISTÓRIA: Uma garota olha com capuz olha fixo para um café de estrada. Ela entra, tira a mochila e senta em uma mesa. Tira o casaco, toma um chá e olha um grupo de amigos em uma mesa próxima. Vê a chegada de um carro, e não fica satisfeita ao ver quem saiu dele. Ela se prepara, e começa uma conversa truncada com Aaron (Channing Tatum). Ele pede para Mallory Kane (Gina Carano) facilitar e acompanhá-lo até o carro, mas ela se nega. Depois de brigarem, Mallory foge no carro de um dos rapazes que estava no café, Scott (Michael Angarano). Enquanto dirige e pede para ele fazer um curativo em seu braço, Mallory explica porque está sendo perseguida.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Haywire): A primeira parte deste filme é muito, muito interessante. O estilo de Haywire lembra demais os grandes filmes de ação dos anos 1960. Não apenas o estilo de direção, que foca os atores em um estilo que lembra algumas vezes o documentário, algo mais cru e naturalista, mas também pela presença marcante da trilha sonora. Ela parece onipresente, e um elemento fundamental para marcar o ritmo do filme.

O elemento novo, conquistado principalmente a partir dos anos 1980, são as lutas perfeitamente coreografadas. A violência come solta, nestes momentos – e há um bocado de pancadaria em Haywire. E se o início do filme já mostra algo fundamental para a produção, que é a beleza e a alta limitação interpretativa da atriz Gina Carano, logo de cara, ele também deixa claro, nos primeiros minutos, a escolha por ter filmes antigos como referencial principal do diretor.

Steven Soderbergh é um sujeito que conhece bem o seu ofício. Um diretor que procura fazer um trabalho diferenciado do “balaio” dos cineastas que fazem filmes de ação. Muitas vezes ele acerta, mas em outras ele erra. Depois de “descobrir” Sasha Grey, uma atriz de pornô, e decidir que ela seria a estrela de The Girlfriend Experience, Soderbergh resolveu destacar a novata Gina Carano em Haywire.

Nos dois casos, o principal predicado de escolha foi a beleza, não há dúvidas. As duas são garotas lindas. Como eu escrevi nesta crítica, acho que Grey se saiu bem no filme mais sério que ela já estrelou na vida por uma simples razão: ela conhece bem aquele tipo de papel, de mulher-objeto. Mas Carano não se sai tão bem. Ela é linda, é verdade, correu e bateu muito bem. Mas Haywire exigia para o papel principal uma atriz que conseguisse expressar alguma emoção mínima em determinados momentos. E ela não consegue isso.

Neste ponto, é possível ver um paralelo entre Carano e Arnold Schwarzenegger. Digamos que ela é um Schwarzenegger de saias. 🙂 Ambos se dão (no caso dele, se dava) muito bem em filmes de ação, batendo, assustando, fazendo caras de gente malvada. Mas isso é tudo. Há um momento em que Carano deve parecer muito sensual e provocante em Haywire. Não acho que ela convenceu neste papel. Não achei ela provocante, apenas bonita. Faltou encontrar uma atriz que pudesse servir de alvo para outro herói dos filmes do gênero, o personagem James Bond. Qualquer “bondgirl” convenceria masi que Carano.

Falei tanto da atriz porque ela é fundamental para Haywire. A história gira em torno dela. Mas algo que não funciona muito bem neste filme é, também, o roteiro de Lem Dobbs. Ele escolheu um dos caminhos clássicos do gênero: entrega uma pílula da história quando ela já está avançada, em um momento fundamental da “fuga”, e depois, a partir de um conflito, investe no recurso do flashback – pontuado, como manda a regra, volta e meia por alguma cena do momento presente.

Certo, recurso batido. Mas ele existe por uma razão simples: que o momento presente seja explicado e “complicado”, pouco a pouco, pela explicação do que levou os personagens até aquele ponto. O problema é que o flashback não dialoga bem com o presente. E quando digo isso, não quero dizer que existam falhas na condição da história, mas que simplesmente o presente não torna o flashback mais tenso ou vice-versa. E sem essa tensão, o recurso se esvazia.

Lá pelas tantas, a história segue a rota linear. Ou seja, sae de cena o flashback e tudo o que acontece é no momento presente. Aí sim o roteiro mostra o quanto ele é batido, fraco, e como o final será previsível. Evidente que a direção de Soderbergh é a melhor parte do filme.

O diretor acerta no resgate do estilo cru de filmes como o clássico Bullitt, e de filmes do James Bond estrelados por Sean Connery, para citar dois exemplos. As cenas de pancadaria muito bem encenadas e filmadas, é o que o filme tem de melhor. Assim como as outras de perseguições – pelas ruas, correndo, ou em prédios, como se fazia antigamente, antes da ação se resumir a carros e tiroteios – são bem feitas. Mas isso é tudo. E é muito pouco.

O final é decepcionante. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Afinal, toda aquela simulação para culpar a protagonista foi feita tendo como motivação dinheiro e uma certa “dor de cotovelo” do ex-chefe e amante, Kenneth (Ewan McGregor). E mais uma neurose de Rodrigo (Antonio Banderas), que se sentiu exposto por ela em uma negociação. Argumentação bem fraquinha, convenhamos. Haywire não vale o ingresso, apesar de sempre ser interessante ver um diretor como Soderbergh tentando acertar.

NOTA: 5,7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Steven Soderbergh é, provavelmente, junto com Quentin Tarantino, o sujeito que melhor sabe aproveitar as referências dos filmes do passado, especialmente os de ação, e escancará-las em uma releitura mais modernete. A linguagem de Haywire lembra totalmente a de filmes históricos do gênero. Além dos filmes já citados, me lembrei de The French Connection, Shaft (o original, de 1971), Mean Streets, e de um clássico que ainda estou para ver: Faster, Pussycat! Kill! Kill!, dirigido por Russ Meyer e considerado, por nomes como John Waters, com o melhor filme de todos os tempos.

Nada em Haywire supera espécimes do gênero feitas anteriormente. E daí vem aquela pergunta básica: então para que gastar US$ 23 milhões em uma produção que não agrega nada? Pois é, eis uma boa pergunta. Acho que um filme como este só se justifica pela preguiça das pessoas em buscarem filmes melhores no passado. Porque há pessoas – e conhece algumas – que acham que não há nada de bom no cinema mudo ou naquele anterior aos anos 1980 ou 1990.

Que pena que muitos pensem assim. Alguns dos melhores filmes de ação de todos os tempos são, justamente, dos anos 1960 e 1970. Por isso acho que diretores como Soderbergh e Tarantino se dão tão bem. Eles fazem filmes para quem não conhece os originais e, consequentemente, vê muitas novidades nestas versões “cheias de homenagens” – para não dizer cópias.

Se o roteiro de Haywire é fraco e a direção de Soderbergh tem seus momentos interessantes, e se a atriz principal é só bonita, mas o elenco de “apoio” é formado por nomes de respeito, temos que admitir que algumas figuras da equipe técnica merecem alguns aplausos.

Para começar e, principalmente, a trilha sonora de David Holmes. Grande trabalho – e principal trunfo do filme. Outro que faz a sua parte com excelência é Soderbergh na direção de fotografia. Acertadas as escolhas de cores, tons e os momentos em que o filme fica em preto e branco. Ele sabe trabalhar bem com o visual.

O filme está centrado em Gina Carano. Mas há um elenco de “apoio” importante, e com nomes que já mostraram um excelente trabalho em outros filmes – mas que aqui, como Carano, parecem muito anestesiados. São eles: Channing Tatum como Aaron, parceiro de Mallory em missões encomendadas e bem pagas; Ewan McGregor como Kenneth, o chefe da agência de espiões; Antonio Banderas como Rodrigo, o homem por trás da “genial” ideia que irá resolver os problemas de alguns poderosos – ele incluído; Michael Douglas como Coblenz, um cara do governo dos Estados Unidos que gosta de Mallory; Michael Fassbender como Paul, um agente secreto inglês; Mathieu Kassovitz como Studer, o sujeito rico que está por trás de toda essa história; Bill Paxton como John Kane, pai de Mallory; e Anthony Brandon Wong como Jiang, o “sequestrado” que é resgatado por Mallory e equipe e que não tem uma fala no filme, mas que é importante para a história. Um baita elenco, mas que não tem espaço para aprofundar a história de nenhum de seus personagens. Todos muito rasos e superficiais.

Francamente? A minha vontade era dar uma nota ainda menor para este filme. Mas em respeito ao “virtuosismo” da direção de Soderbergh, resolvi elevar um pouco o conceito. Não porque o filme seja bom, mas porque ele se esforçou para fazer algo diferente.

Haywire estreou no Festival AFI em novembro de 2011, mas entrou em cartaz, comercialmente, apenas em janeiro deste ano nos Estados Unidos e em outros 16 países. Até o dia 18 de março, o filme havia acumulado pouco mais de US$ 18,9 milhões nos Estados Unidos. Como ele custou, pelo menos, US$ 23 milhões, pode-se dizer que ele não está no caminho do sucesso.

Antes de estrelar este filme, a texana Gina Carano havia participado da série de TV Fight Girls, em 2006, feito um papel no game Command & Conquer: Red Alert 3 e um papel em Blood and Bone. E só. Agora, pós Haywire, ela vai estrelar o thriller In the Blood, atualmente em pré-produção e que será dirigido por John Stockwell.

Algumas outras pessoas que merecem palmas por este filme são Jonathan Eusebio, J.J. Perry, Don Tai e Jon Valera. Eles atuaram como coreógrafos das lutas. Sem dúvida, a melhor parte de Haywire são aquelas cenas de pancadaria muito bem planejadas. Além de criativas, elas vendem bem a ideia de serem plausíveis – ainda que a protagonista pareça demais uma Mulher Maravilha.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,3 para o filme. Achei uma boa nota. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram bem mais generosos, dedicando 129 críticas positivas e 32 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 80% e uma nota média de 6,8.

Haywire foi filmado em Dublin, na Irlanda, e em Los Alamos, nso Estados Unidos – com algumas cenas simulando locais de Nova York. Esta é uma co-produção Estados Unidos e Irlanda.

CONCLUSÃO: Uma pena quando um filme tem uma proposta bacana, mas não consegue sustentá-la até o final. Gina Carano é muito fraca. Ótima na corrida e na pancadaria, mas péssima em qualquer momento em que ela precisa repassar o mínimo de emoção que deveria estar sendo vivida por sua personagem. E quando um filme tem uma atriz no foco o tempo todo, como é o caso de Haywire, ele acaba sendo muito prejudicado com uma intérprete fraquinha. Este é um dos problemas fundamentais deste filme. Mas não é o único. O estilo do filme, que relembra a alguns clássicos antigos de ação, acaba cansando lá pelas tantas. Especialmente da metade para a frente, quando o filme da uma certa “reviravolta”. A “surpresa” não cria realmente tensão – a trilha sonora é mais eficaz que o roteiro neste ponto. E todos sabemos o que vai acontecer até o final, o que mata o filme antes dele terminar – afinal, o elemento surpresa já era. Fora isso, esta é mais uma produção cheia de estilo e experimental de Soderbergh. Mas ele já fez melhores. Quem sabe no próximo ele acerte a mão? Ou segue apresentando trabalhos que, ao apostar tanto em uma linguagem mais dinâmica e diferenciada, se esquecem de elementos básicos, como um roteiro melhor acabado e uma atriz principal decente. Não foi desta vez, com Haywire, que ele conseguiu o equilíbrio.