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Our Kind of Traitor – Nosso Fiel Traidor

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Um filme de espionagem clássico. Até demais. Our Kind of Traitor resgata alguns dos elementos básicos de filmes de espionagem mas cuida para inserir alguns elementos novos. Para começar, saímos da esfera do jogo de poder entre governos para cair no jogo de poder financeiro que envolve mafiosos, bancos usados para lavagem de dinheiro e políticos. Como em outros filmes do gênero, um “homem comum” acaba ganhando protagonismo no jogo que envolve gente graúda. Um filme bem feito, com um elenco escolhido à dedo, mas que carece de um certo “tempero”.

A HISTÓRIA: Começa com um artista em movimento no ar. Em paralelo, dois amigos, Misha (Radivoje Bukvic) e Dima (Stellan Skarsgard) se encontram e se cumprimentam. No teatro em que o artista se apresenta, a esposa de Misha, Olga (Dolya Gavanski), e a filha mais velha dele, Anna (Mariya Fomina), assistem à apresentação artística. Misha assina documentos para O Príncipe (Grigoriy Dobrygin). A história é ambientada em Moscou. O Príncipe entrega para Misha uma arma que herdou do pai e conta uma história sobre ela.

Misha agradece ao presente e vai embora. Na estrada, Misha e a família param em um local em que um caminhão recolhe toras de madeira. Todos são mortos. Corta para Marraquech. Em um quarto, o casal Perry (Ewan McGregor) e Gail (Naomie Harris) aproveita a viagem romântica, mas há tensão no ar. Depois, antes de terminarem de jantar, Gail sai para trabalhar e deixa Perry sozinho. Observando a cena, Dima chama Perry para beber com ele e os amigos. Dima aproveita esta rara chance de conhecer alguém diferente de seu meio para se aproximar de Perry e depois pedir a ajuda dele.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a assistir quem já viu a Our Kind of Traitor): Esta produção segue à risca o estilo do escritor John le Carré, um dos mestres em tramas de espionagem. Para começar, o filme dirigido por Susanna White é ambientado em diversos países, começando por Moscou, seguindo para Marraquech, depois por Londres, Paris e o interior da França. Além dos personagens, nas tramas de Carré sempre são importantes os países e a geopolítica.

Os diferentes países incluídos neste filme ajudam a torná-lo mais “internacional” e interessante para quem gosta de “viajar” na história. O desenvolvimento de personagens feito pelo roteiro de Hossein Amini baseado na obra de John le Carré tem os seus acertos, mas sem dúvida alguma ele não chega perto de um livro do autor. Normal. No cinema realmente não há muito espaço para desenvolver a história de diversos personagens. E ainda que Our Kind of Traitor tenha um pequeno núcleo de personagens principais – a história gira, essencialmente, ao redor do casal Perry e Gail e da família de Dima, além de Hector, do Serviço Secreto Inglês -, ele tem um grupo respeitável de coadjuvantes.

Estes coadjuvantes, no entanto, não tem as suas histórias e relações bem desenvolvidas, explicadas ou resolvidas. São muitos personagens secundários para tratar em tão pouco tempo. Assim sendo, ficamos sabendo um pouco mais sobre o momento delicado da relação de Perry e Gail e um pouco do estilo de Dima, e isso é praticamente tudo. Os personagens melhor desenvolvidos, sem dúvida, são o de Perry e Dima, e isso ajuda a explicar a relação dos personagens que, de outra forma, pareceria muito forçada.

Aliás, ajuda muito a fazer o espectador “engolir” a trama de Our Kind of Traitor o talento dos atores Ewan McGregor e Stellan Skarsgard. Especialmente o segundo é, geralmente, brilhante. Em algumas cenas-chave o espectador percebe que os dois, apesar de terem origem em realidades muito diferentes, tem alguns elementos em comum – ou pelo menos é isso que o personagem de Dima quer nos fazer acredita. Ambos, por exemplo, tem honra e defendem as mulheres independente do risco que isso pode significar para eles.

Aparentemente Perry é um sujeito que “se deixa levar”. Afinal, ele nunca tinha visto Dima pela frente e logo de cara aceita não apenas tomar um drinque com ele, mas acompanha-lo em uma festa e, depois, em uma partida de tênis. Eles se aproximam muito rapidamente e de forma um tanto “forçada” – se ignorarmos o talento dos atores e olharmos apenas para as situações, certamente parece um bocado exagerada a aproximação tão rápida dos dois. Perry se revela não apenas um sujeito que “se deixa levar” mas, também, uma pessoa crédula e de bom coração.

Ele é facilmente convencido por Dima não apenas a embarcar em seus convites, mas também a levar para ele uma mensagem para o Serviço Secreto Britânico. Dá para entender a estratégia dele. Como Dima mesmo diz, ele tem poucas oportunidades de ter contato com alguém que não seja controlado pelo Príncipe e por sua máfia russa. Se ele quer fugir disso, só lhe resta uma figura como Perry, crente, bom coração, ético e suscetível a embarcar em um pedido de ajuda desesperado.

Normalmente um sujeito como Perry compartilharia com a mulher o que está acontecendo. Uma rápida cena no início do filme e depois uma outra em que fica claro que os dois vivem uma situação complicada por causa de uma traição de Perry ajudam a explicar o porquê do professor universitário deixar a esposa “no escuro” durante a fase inicial do filme. Só assim para ele embarcar no pedido de Dima. Mas a partir da chegada deles no Reino Unido isso muda e Gail passa a fazer parte da trama – o que é algo interessante, porque dificilmente a mulher do “mocinho” é envolvida na história e tem um papel tão relevante.

Esta pode ser considerada uma “inovação” deste filme. O fato do mocinho ser um sujeito comum, por outro lado, não é exatamente nova. Afinal, em uma das obras-primas do grande Alfred Hitchcock, North by Northwest, de 1959, um sujeito comum também acaba sendo envolvido em uma intricada história de espionagem. A diferença é que Our Kind of Traitor não tem a direção de Hitchcock, com eletrizantes cenas de ação que marcaram uma época, e nem mesmo um gigante como Cary Grant como protagonista. O nível dos filmes é muito, mas muito diferente – veja o clássico de Hitchcock caso você ainda não tenha feito isso.

Então ter um “sujeito comum” como protagonista de uma intricada trama internacional de espionagem não é novidade. O que Carré e Amini tentam apresentar de novo é que o conflito, desta vez, não está exatamente entre espiões russos e americanos, ou do governo que for, mas entre mafiosos que se juntaram ao governo russo e que tentam controlar políticos de outro país – desta vez do Reino Unido – através de compra de votos para abrir um banco próprio para a lavagem de dinheiro. Ou seja, não é a questão política que domina o jogo desta vez, mas a questão econômica. Todos sabemos que o dinheiro reina no mundo e que a política perdeu força nas discussões, “corações e mentes” das pessoas, por isso não deixa de ser interessante ver esta mudança de direção em um filme do gênero.

No mais, a narrativa de Our Kind of Traitor é um bocado previsível. Ela segue uma linha lógica do início ao fim e com um ritmo até interessante e adequado. Mas o problema da história é justamente a previsibilidade dela. Não existe, como é indicado para um bom filme de ação e/ou espionagem, uma boa reviravolta na trama. Não. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). A única “surpresa” da trama, que é a explosão do helicóptero, era uma bola cantada desde que vemos o sujeito mexendo nas engrenagens da aeronave e que Dima decide embarcar sozinho.

Então, infelizmente, apesar de Susanna White fazer um bom trabalho na direção, este filme não tem o desejado elemento surpresa. A trama é interessante, mas nada inovadora ou surpreendente. Tudo que esperamos acontece, e ninguém que parecia uma coisa é outra. Todos são o que eles se apresentam e fim. Se a história não surpreende, ao menos temos um bom grupo de atores para ver em cena. Neste sentido, além dos protagonistas já citados, vale destacar o bom trabalho de Damian Lewis, sempre lembrado por Homeland, como um agente importante do MI6 chamado Hector. Ele está muito bem no papel, assim como o seu parceiro Luke. Filme bem feito, mas que poderia ser melhor. Há outros exemplares do gênero melhores para serem conferidos. Vale procurar outras opções.

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Esta produção tem muitas qualidades técnicas. Susanna White apostou em uma direção clássica, que busca o equilíbrio entre o foco nas atuações dos atores, valorizando o trabalho dos protagonistas, e a aposta em cenas de ação e que mostram as cidades em que a história se desenvolve. Nada demais, mas um trabalho competente. Da parte técnica, contudo, destaco a ótima trilha sonora de Marcelo Zarvos e a edição de Tariq Anwar e Lucia Zucchetti. Bom o trabalho também do diretor de fotografia Anthony Dod Mantle.

Do elenco, destaque realmente para o ótimo trabalho de Stellan Skarsgard, seguido do trabalho competente de Ewan McGregor e de Damian Lewis. Eles são os destaques principais. Tem um trabalho bom, ainda que um pouco atrás dos citados anteriormente, Naomie Harris e Khalid Abdalla. Além deles, o filme tem um elenco respeitável de coadjuvantes.

Vou citar alguns deles – os que eu não liste até o momento: Carlos Acosta como o bailarino que abre a produção; Velibor Topic como Emilio Del Oro, braço direito do Príncipe; Pawel Szajda como o Matador de Olhos Azuis; Alec Utgoff como Niki e Marek Oravec como Andrei, dois russos da máfia que acompanham Dima; Jana Perez como Maria, que atrai Perry na festa; Emily Beacock como Irina e Rosanna Beacock como Katya, as irmãs gêmeas e órfãs de Misha; Saskia Reeves como Tamara, esposa de Dima; Mark Stanley como Ollie; Mark Gatiss como Billy Matlock, chefe de Hector; Alicia von Rittberg como Natasha, filha de Dima; e Jeremy Northam em um papel estranho e bem secundário como o congressista Aubrey Longrigg.

Our Kind of Traitor estreou em maio no Festival Internacional de Cinema de San Francisco. A produção participou de outros dois festivais nos Estados Unidos: o de Seattle e o de Provincetown. E isso foi tudo. Ela não recebeu nenhum prêmio até o momento.

A explicação sobre o racha na máfia russa e o perigo envolvendo Dima e família foi resumido a apenas uma cena. Achei pouco. Certamente havia uma situação bem mais complexa no original mas que acaba muito diluída e superficial nesta produção.

Esta produção conseguiu, apenas nas bilheterias dos Estados Unidos, pouco mais de US$ 3,15 milhões. Nos outros mercados em que o filme já estreou ele fez outros US$ 6,7 milhões. Um bom resultado – ainda que não sabemos quanto o filme custou para, só assim, descobrir se ele está no azul e no lucro ou não.

Para quem gosta de saber sobre os locais de gravação dos filmes, Our Kind of Traitor foi rodado em diferentes locações de Marrakech, no Marrocos; de Paris, na França; de Moscou, na Rússia; de Londres, no Reino Unido; de Pralognan-la-Vanoise, na França (as cenas na neve); de Bern, na Suíça; da Filândia e nos Alpes Franceses. Pela lista considerável de locais em que a produção passou, certamente este foi um filme caro de ser feito.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,2 para esta produção. Uma avaliação razoável se levarmos em consideração o padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 77 textos positivos e 32 negativos para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 71% e uma nota média 6. Bastante justo.

Este filme é uma coprodução do Reino Unido e da França.

CONCLUSÃO: Para quem gosta de filmes de espionagem e não assistiu a mais do que um punhado deles até agora, este pode ser um bom exemplar. Para quem tem mais “experiência” em filmes do gênero, Our Kind of Traitor é “mais do mesmo”. Apesar de bem feito e de se esforçar em renovar um gênero já conhecido e um tanto desgastado, este filme carece de ao menos uma boa reviravolta na história ou de algum outro elemento surpreendente. Não há inovação nesta produção, seja em estilo, seja em roteiro. Temos apenas um tipo de espionagem requentada e um pouco modificada para os dias atuais, mas sem nenhuma grande surpresa na trama. Filme morno. Se tiveres uma opção melhor para assistir, talvez seja uma boa apostar nesta outra alternativa.

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Last Days in the Desert – Últimos Dias no Deserto

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Um filme para causar polêmica. Mas isso se você o levar muito à sério ou, melhor, ao pé da letra. Não faça isso. Não leve Last Days in the Desert muito à sério. E também não o leve na brincadeira. Esta produção não é para fundamentalistas e sim para quem está disposto a abrir o campo de visão e filtrar algumas ideias interessantes que o diretor nos apresenta. Claro que nem tudo passa pela peneira. Mas isso é natural. Afinal, estamos falando de Jesus Cristo. Impossível qualquer filme sobre ele agradar a gregos e troianos.

A HISTÓRIA: Começa com as seguintes frases: “Preparando-se para a sua missão, o homem santo foi ao deserto para jejuar e orar e procurar orientação”. Cenas do deserto em diferentes condições, incluindo sol, dia, nuvens e entardecer. Jesus está ajoelhado, com a cabeça baixa, até que levanta o olhar e pensa “Pai, onde está você?”. Ele tira o capaz. Depois, aparece dormindo em um local protegido. Ele toma um pouco de água e segue a caminhada. No trajeto, se encontra com uma mulher que, na verdade, é o diabo. Jesus se encontrará com ele várias vezes, mas é no encontro com uma família que ele encontra muitas respostas.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Last Days in the Desert): A Bíblia fala sobre os 40 dias em que Jesus Cristo passou no deserto antes de encarar o seu derradeiro final nesta vida terrena em Jerusalém. O diretor colombiano Rodrigo García pegou este fato para imaginar o que poderia ter acontecido com o filho de Deus no deserto durante este período. Roteirista desta produção, ele dá voz à própria imaginação e nos apresenta um filme instigante, interessante, com algumas ideias curiosas.

Para ler bem a Bíblia e também para entender melhor este filme é preciso interpretação. Não basta ler a Palavra ou entender o que se passa na telona com belas imagens planejadas por García. É preciso ir além. Para entender bem a Bíblia, é necessário conhecer não apenas o contexto da época de Jesus e do Velho Testamento, mas também entender sobre os contextos de quem escreveu as Escrituras.

O mesmo vale para esta produção de Rodrigo García. Mais do que saber sobre o diretor, é importante observar o que os fatos que ele nos apresenta significam. Na Bíblia está escrito apenas que Jesus passou 40 dias no deserto para orar, refletir e buscar o encontro com Deus que ele esperava, a força necessária para enfrentar todo o caminho de ultraje, agressões e morte que ele encararia em Jerusalém. Está na Bíblia que o Diabo o tentou repetidas vezes. E isso é tudo.

Não há nada sobre Jesus ter se encontrado com uma família no deserto e convivido com ela alguns dias. Esse trecho, como vocês devem saber, faz parte da imaginação de Rodrigo García. Mas devemos embarcar na história dele porque ela nos apresenta algumas reflexões muito interessantes. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Para mim, aquela família que Jesus encontra e convive é, na verdade, uma alegoria da própria Humanidade. Pai, mãe e filho são a essência da família e, claro, da criação humana.

Pois bem, Jesus vai para o deserto para encontrar respostas. E como ele diz para o garoto, filho do casal, em certo ponto da produção, ele encontrou as respostas que ele desejava. Algumas delas justamente no convívio com a família. Neste momento ele percebe, por exemplo, a força do amor e da dedicação, da generosidade, e percebe que o maior gesto de amor é quando alguém se doa pelo outro. Ele próprio fará isso quando for encarar Jerusalém e a sua injusta morte na cruz. Ele será sacrificado por todos.

Aquela família marca o encontro de Jesus com todas as famílias do mundo, com a Humanidade. Sem Jesus, o próprio Diabo comenta sobre isso, o jovem pensaria em si em primeiro lugar e sacrificaria o pai para conseguir realizar o próprio desejo de ser livre. Isso pode ser entendido como algo específico, para aquela situação, ou projetado para qualquer época, como para hoje. Quem acredita em Jesus, quem tem fé, jamais teria uma atitude como essa porque ele amaria a Deus acima de todas as coisas e o próximo como a si mesmo, jamais matando, por exemplo, mas defendendo a vida sob todas as circunstâncias.

O pai da história quer o melhor para a sua família. Ele cuida da esposa, que está doente, e quer que o filho siga a tradição, que cuide do que a família conquistou. É como o papel de liderança da sociedade patriarcal, em que o pai tem a sabedoria de determinar o futuro dos mais jovens e é a voz que deve ser seguida. Mas como o exemplo daquela família, existe conflito e ruptura quando o pai não consegue se comunicar com o filho. A distância entre eles parece insolúvel, mas com a proximidade de Jesus e seu olhar amoroso e compassivo, o pai tenta se aproximar do filho. Sem muito sucesso, é verdade, mas o gesto demonstra esperança.

A mãe, mesmo doente, tenta aproximar pai e filho e quer o melhor para o herdeiro da família. Ela também, a exemplo do pai, está disposta a se sacrificar pelo filho. Até este ponto, as ideias de García coincidem muito com o que parece ser a essência do que está na Bíblia. Mas há outras ideias que não são, digamos assim, muito óbvias. Pelo contrário. E aí que reside, na minha opinião, uma certa polêmica que este filme pode levantar. Por isso mesmo acho importante assisti-lo com tranquilidade, sem muitas paixões e levando em conta que esta é uma obra artística e não religiosa.

O primeiro ponto que chama a atenção, sem dúvida, é o fato do Diabo, a partir de sua segunda aparição, surgir como um “irmão gêmeo” e/ou uma cópia do próprio Jesus. Esta é a primeira ideia provocadora do filme e que pode ser entendida de duas formas diferentes – dependendo do gosto do espectador.

O Diabo ter a “imagem e semelhança” de Jesus pode ser encarado como uma forma de dizer que o Diabo não é nada mais do que uma outra parte de nós mesmos, o lado “mau” que devemos combater. Mas isso não faz muito sentido no caso de Jesus, já que ele era santo – se fez homem e sentiu o mesmo que qualquer homem, mas não cometeu pecado, consequentemente não teira o lado “mau”.

Outra forma de encarar o Diabo como “imagem e semelhança de Jesus” seria o de demonstrar como ele é ardiloso, tentando se passar por Jesus e procurando confundir o Filho de Deus. Também podia ser visto como uma forma do Diabo tentar se “igualar” ao filho de Deus, a quem se referia com clara admiração e perplexidade. Em mais de um momento o Diabo tenta Jesus com pecados muito terrenos – da água e do alimento até a mulher que está na tenda. Claro que nada realmente tenta Jesus, como está claro na Bíblia também.

Uma preocupação clara de Rodrigo García é humanizar a figura de Jesus Cristo. Para mim, mais do que o que ele sofre no primeiro trecho do filme, isso fica claro ao mostrar que Jesus sonhava e tinha pesadelos. Talvez esta seja uma das demonstrações mais claras do diretor em tentar “desmistificar” o Filho de Deus. Uma parte um tanto polêmica, também, porque dá pano para a manga imaginar que Jesus tinha pesadelos.

Um outro ponto que pode render polêmica, mas não acho que ela se justifique, é o fato de Jesus beijar o pai e a mãe na boca – esse tipo de saudação era comum para a época, especialmente quando alguém estava para morrer ou tinha morrido. Agora, admito que alguns pontos me incomodaram um pouco. Porque todos comentados até agora me parecem parte da imaginação do diretor e não fogem muito do que se poderia esperar de Jesus pelo que sabemos dele e que está na Bíblia.

Um ponto que me incomodou foi quando Jesus pede ajuda para o Diabo e o ordena que mostre o futuro do garoto. Sério mesmo? Achei uma forçada de barra desnecessária do diretor naquele ponto. Jamais Jesus pediria ajuda do Diabo para saber qualquer coisa. Muito menos para “matar a curiosidade” sobre a vida de alguém. Totalmente desnecessário. Também achei um tanto ridícula aquela “aparição” do Diabo quando Jesus estava próximo da morte, colocado na cruz, e aparece o Diabo como um beija-flor. Humm… ideia estranha.

O que reforça a minha teoria de que a família que Jesus encontra no deserto segundo a visão criativa de Rodrigo García seria a própria Humanidade é a sequência em que Jesus vai ajudar a mãe doente, perto do final. Não fica claro ali se ele iria curá-la ou apenas tirar a dor que ela estava sentindo, mas a mulher recusa a ajuda. O que acontecia muito naquela época e acontece até hoje: nem todos querem aceitar a Verdade da vinda de Jesus e também não querem ser ajudados. Cada pessoa daquela família simboliza uma vertente da conduta da própria Humanidade com a qual Jesus se encontra, observa e aprende a respeito.

Finalmente, García polemiza um pouco com aquele final. Em certo momento, o Diabo, tentando a Jesus, lhe questiona sobre o que ele vai fazer ao sair do deserto e se ele acredita que alguém lhe dará importância no futuro. A última sequência do filme mostra justamente o que parece ser um pai e um filho no desfiladeiro em que o pai da época de Jesus se sacrifica pelo filho. Na visão de García, nos tempos atuais, um pai e um filho vão ao local para fazer uma foto. Essa imagem provavelmente será compartilhada pelas redes sociais na sequência.

A questão que o diretor deixa no ar é: aquele pai e aquele filho estão lá por causa de Jesus ou apenas para ver a um belo cenário para uma foto? A resposta fica, como tantos outros pontos do filme, ao gosto do espectador. Da minha parte, acho sim que eles estão lá por causa de Jesus e que, diferente do que o Diabo sugeriu para o Filho de Deus, ele segue sendo importante e lembrado até hoje. A questão é que tipo de lembrança temos Dele? Apenas como uma desculpa para uma foto, para uma viagem de turismo com requintes de fé, ou será que vivenciamos o que ele tentou nos ensinar no dia a dia, de fato, tentando mudar a realidade ao nosso redor? Talvez esta seja uma pergunta importante que Last Days in the Desert nos deixe de presente.

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Este é um filme indicado para pessoas que não se importam com narrativas lentas e contemplativas. Porque é exatamente isso que Last Days in the Desert é. Rodrigo García faz um trabalho detalhista, atento ao cenário e à relação entre Jesus e os demais personagens entre si e com o entorno. Há muita contemplação em cena. O que não é ruim, mas certamente não agrada a todos os estilos de público. É bom você saber isso antes de assistir a esta produção. Assim como é bom saber, claro, que se trata de uma ficção sobre um capítulo na vida de Jesus Cristo. É bom ter algum interesse sobre o tema ou então, inevitavelmente, acharás tudo isso muito chato. 😉

O colombiano Rodrigo García acertou em cheio ao valorizar o deserto como um personagem importante nesta história na mesma medida em que acertou ao escolher um pequeno punhado de atores para a produção. E todos muito bons, diga-se. Ewan McGregor é admirável e não é de hoje. Para o meu gosto ele faz um belo trabalho como Jesus (e como o Diabo também). Ele não força na interpretação, muito pelo contrário. Ele consegue convencer bem neste papel, que nunca é fácil de ser interpretado, dando legitimidade e trazendo humanidade para o papel de Jesus.

Os demais atores foram escolhidos à dedo. Destaque, em especial, para o sempre ótimo Ciarán Hinds. Depois, fazem um bom trabalho Tye Sheridan – um garoto que vale acompanhar – e a atriz Ayelet Zurer. Ela, mais bonita e enigmática do que com desempenho de destaque, até porque o seu papel é o menor entre os citados.

Um ponto fundamental nesta produção é a direção de fotografia do veterano Emmanuel Lubezki. Ele apresenta aqui mais um excelente trabalho. A trilha sonora do filme é bastante pontual. Nem sempre ela está preenchendo os espaços do filme – pelo contrário, Last Days in the Desert tem muitos momentos de silêncio e de som ambiente. Mas quando aparece, a trilha sonora de Danny Bensi e Saunder Jurriaans ajuda a imprimir o sentimento que o diretor quer na história.

Antes citei trechos do filme que exigem interpretação – e, claro, comentei alguma interpretações que eu tive. Falei de pontos interessantes e de outros que me incomodaram. Pois bem, teve um outro ponto que me incomodou e que eu não citei. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Em certo momento, Jesus diz para o garoto que vai para Jerusalém para que ele ame a Deus sobre todas as coisas e para que ame a vida. Humm… Algo que fica evidente no filme de Rodrigo García é que ele mostra um Jesus bastante humano. Tanto que, e isso é inevitável, por ser humano ele ama muito a vida. Gostaria de ficar mais tempo por aqui – e daí vem a sua dúvida sobre o fim inevitável, porque ele amava a vida. Mas percebe que precisa se sacrificar para o bem de toda a Humanidade. Certo. Só que na Bíblia fica claro que Jesus resume todos os mandamentos em dois: amar a Deus sobre toda as coisas e o próximo como a ti mesmo. Por que então não repetir isso no filme e mudar a segunda parte para “ame a vida”? Me parece que se alguém ama a vida e não ao próximo a saída pode ser o egoísmo, não? Uma contradição no filme que me incomodou.

Além dos aspectos técnicos que eu já comentei, não existe muito o que destacar – o design de produção, a direção de arte e a decoração de set me pareceram ok, mas nada além do básico. Os figurinos, talvez, sejam um pouco mais interessantes – ainda que, volto a dizer, nada demais. Vale citar, contudo, o trabalho de Judianna Makovsky nos figurinos – realmente bem feito. Talvez eu destacaria apenas o bom trabalho dos 10 profissionais envolvidos com o departamento de som. E também o bom trabalho do editor Matt Maddox. E só.

O visual é uma parte fundamental do filme. Sem dúvida alguma um de seus pontos fortes.

Last Days in the Desert estreou no Festival de Cinema de Sundance em janeiro de 2015. Depois, o filme passaria por outros nove festivais antes de chegar comercialmente nos cinemas de alguns países. Nos Estados Unidos, por exemplo, ele estreou de forma limitada apenas em maio deste ano. Depois ele estreou em Cingapura e, no dia 8 de setembro, no Brasil.

Esta produção foi totalmente rodada no Anza-Borrego Desert State Park, na Califórnia – ou seja, muito distante do verdadeiro deserto por onde Jesus caminhou.

O diretor Rodrigo García nasceu na cidade de Bogotá no dia 24 de agosto de 1959. Ele estreou na direção com Things You Can Tell Just by Looking at Her, no ano 2000, com um belo elenco de atrizes: Gleen Close, Cameron Diaz, Calista Flockhart, Kathy Baker, Holly Hunter e Amy Brenneman. Depois, ele trabalharia na direção de episódios de diversas séries, inclusive a elogiada Six Feet Under e a série Big Love. Provavelmente o filme dele mais conhecido seja Nive Lives, de 2005. Até hoje, contudo, o diretor não recebeu nenhum grande destaque por seus longas.

Last Days in the Desert foi indicado a apenas um prêmio: Assistant Location Manager of the Year – Feature no desconhecido California on Location Awards em 2014. Mas ele não levou o prêmio para casa.

Os usuários do site IMDb deram a nota 5,6 para esta produção. Uma avaliação abaixo da média, sem dúvida. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 42 críticas positivas e 16 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 72% e uma nota média de 6,7. Ou seja, os críticos gostaram mais do filme do que o público em geral.

Algo que eu gostei no filme que talvez eu não tenha deixado claro antes vale citar aqui. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Se é verdade que este filme tem alguns pontos controversos e outros um tanto sem coerência, também é verdade que ele repassa algo fundamental de Jesus com muita propriedade. Neste filme, fica claro como Jesus se importa com as pessoas, com a dor humana, com as nossas dúvidas e atribulações. Ele se compadece, Ele quer ficar junto, mesmo quando não estamos exatamente dispostos a ouvi-lo ou a fazer o que deveríamos fazer. Mas ele está ali, está junto, nunca se separa e fica conosco até que o melhor aconteça. Isso é algo belo no filme, assim como a tentativa de mostrar um lado bem humano de Jesus – afinal, ele se fez carne e se tornou um de nós (exceto pelo pecado) para mostrar a todos que é possível trilhar um caminho de santidade.

Vale citar de que forma a experiência de Jesus no deserto é tratada na Bíblia. Em Mateus, após pedir para João Batista para ser batizado, “Jesus foi conduzido pelo Espírito ao deserto para ser tentado pelo demônio. Jejuou quarenta dias e quarenta noites. Depois teve fome”, e daí o Demônio se aproximou dele por três vezes e tentou Jesus de três formas diferentes, recebendo respostas sábias Dele todas as vezes. “Em seguida, o demônio o deixou e os anjos aproximaram-se dele para servi-lo”. Depois disso, Jesus teria ido para a Galileia e começado a Sua vida pública.

No Evangelho segundo São Marcos, após o batismo no Rio Jordão, “logo o Espírito” impeliu Jesus “para o deserto. Aí esteve quarenta dias. Foi tentado pelo demônio e esteve em companhia dos animais selvagens. E os anjos o serviam. Depois que João (Batista) foi preso, Jesus dirigiu-se para a Galileia”.

No Evangelho de São Lucas, novamente, temos Jesus indo para o deserto após o batismo no Rio Jordão. No deserto, Ele “foi tentado pelo demônio durante quarenta dias. Durante este tempo ele nada comeu e, terminados estes dias, teve fome”. Novamente aparecem as três tentações do Diabo e as respostas de Jesus, e Lucas afirma: “Depois de tê-lo assim tentado de todos os modos, o demônio apartou-se dele até outra ocasião”. Após esta experiência Jesus começa o seu ministério na Galileia. No Evangelho de São João não existe esta passagem sobre a ida de Jesus para o deserto.

Last Days in the Desert é uma produção 100% dos Estados Unidos. Por isso ela entra na lista de pedidos aqui no blog – em uma votação passada a maioria dos leitores pediu filmes originados naquele país.

CONCLUSÃO: Este é um grande exercício de imaginação do diretor Rodrigo García. Esqueça a Bíblia e o que ela nos diz sobre a peregrinação de Jesus pelo deserto. García pega um fato narrado pela Bíblia para se debruçar sobre alguns conceitos e reflexões muito interessantes. Para mim, este filme é mais sobre a Humanidade do que sobre Jesus, ainda que haja muito da sabedoria Dele na telona. Como comentei lá no início, não é possível assistir a esta produção com um olhar histórico, de fé ou fundamentalista. Saia de todos estes tipos de visão e assista com o olhar de uma obra artística. Com belas imagens, ótimos atores e um roteiro interessante, este filme nos leva pela mão em várias reflexões. Por isso mesmo, é mais do que muitas outras produções disponíveis no mercado. Vale a experiência.

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August: Osage County – Álbum de Família

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Todos nós conhecemos histórias de famílias problemáticas. E mesmo as “normais” tem os seus rompantes de absurdo. August: Osage County foca a atenção em um encontro familiar destes clássicos, com muitas confissões e brigas. Uma desculpa perfeita para aquela que provavelmente é a maior atriz de todos os tempos brilhar novamente. Meryl Streep parece não existir. E a comparação dela com qualquer outra intérprete roça o impossível. Neste filme, mais uma vez, ela dá um show. E é bem acompanhada por algumas falas ótimas e por um elenco “de apoio” que segura a responsabilidade.

A HISTÓRIA: Uma planície. E uma voz cansada diz a frase “A vida é muito longa”, de TS Eliot. Depois, outras imagens seguem revelando as paisagens de Osage County, território no Missouri, Estados Unidos, onde esta história é ambientada. Em uma casa branca de dois andares, encontramos a voz cansada de Beverly Weston (Sam Shepard). Ele para de falar quando escuta um barulho no andar de cima. Ele avisa que a fonte do barulho é Violet (Meryl Streep), sua esposa. Beverly confidencia que ela toma pílulas, e que ele bebe.

Este é o acordo que eles tem. E enquanto ele fala sobre o vício de cada um, Violet se levanta da cama e começa a caminhar. Quando ela se aproxima do marido, conhece a Johnna Monevata (Misty Upham), que está sendo contratada por Beverly para ajudar nos afazeres de casa. Em breve, Johanna vai conhecer profundamente esta família composta, ainda, por três filhas do casamento de Beverly e Violet e seus agregados.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a August: Osage County): Logo que Meryl Streep apareceu em cena, fiquei boquiaberta. Como é mágico assistir a uma grande intérprete em cena! E ela está, mais uma vez, arrasadora. Para mim, neste papel de frágil e ao mesmo tempo forte Violet, ela consegue uma das melhores interpretações da carreira. E isso não é pouco para a atriz que é recordista em indicações no Oscar.

Quando surgem aquelas paisagens de Osage County, seguidas da voz inconfundível do veterano Sam Shepard, tudo parece ter sido milimetricamente planejado neste filme. Uma produção se revela interessante se ela começa com isto, com as escolhas certas. E daí o personagem de Beverly ainda cita TS Eliot e a frase simbólica de que a vida é muito longa. Meus caros, não se enganem. Esta sensação dita o sentimento de dois dos personagens principais da trama – e, talvez, até de outras pessoas que fazem parte da história.

Logo nos créditos iniciais da produção, percebi que August: Osage County tinha o roteiro de Tracy Letts, a mesma autora da peça que inspirou esta produção. Para mim, esta é sempre uma vantagem. Afinal, ninguém melhor que a autora original para conhecer os meandros e detalhes de sua obra. Normalmente o prosseguimento do trabalho de um autor em outro formato, como pode ser o cinema após o sucesso de um texto no teatro, garante não apenas a legitimidade da produção, mas também a continuidade de sua qualidade.

Não assisti à peça de Letts, mas gostei muito do trabalho dela neste filme. Verdade que a premissa central da história já é conhecida: uma família passa por um momento difícil, que faz os filhos voltarem para casa, e este retorno provoca o conflito de gerações e memórias. Outros filmes trataram deste tema, e muitos outros ainda vão se debruçar no intricado relacionamento familiar e suas desigualdades.

Mas o que eu gostei no texto de Letts é que, apesar dele focar um tema um tanto desgastado, a autora nos reserva alguns ótimos momentos e alguns diálogos muito bons. Falando exclusivamente do roteiro, gostei que ele entra direto na ação. Letts não tem tempo a perder. Assim, somos apresentados logo ao casal Beverly e Violet e a suas dependências declaradas: álcool e remédios. Os dois precisam destes “aditivos” para seguir encarando a “vida longa demais”.

O primeiro elemento que rompe a rotina daquele casal é a chegada da empregada com forte descendência índia Johnna. Ainda que sobre pouco espaço no filme para discutir a questão de dominação racial e seus resquícios naquela região dos Estados Unidos, o tema está presente na história. Aliás, a questão da dominação é uma tônica na produção que conta com a competente direção de John Wells.

Há um jogo importante de dominação naquela família. Violet tenta ser a voz mais encorpada, mas ela tem um contraponto importante no estilo silencioso e amoroso do marido. Soma-se a isso a questão da idade e da doença, que fragilizam a personagem central. Enfrentando um câncer na boca – que chega a render uma leve ironia do marido -, Violet não tem mais a força que um dia teve para enfrentar a independência das filhas ou do marido. Ainda assim, ela não se dobra. E a influência dela em cada pessoa da família vai se revelando aos poucos.

A rotina de cortinas fechadas e semi-breu na casa dos Weston é primeiro quebrada pela chegada de Johnna. Mas não demora quase nada para que o cenário mude com a chegada de vários familiares quando Beverly desparece. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). No início, fiquei em dúvida se tantas pessoas “socorrem” Violet porque estão com pena dela ficar sozinha na casa ou porque estão realmente preocupados com Beverly. Conforme a história vai se desenrolando, a motivação de cada um vai ficando mais clara. Mas, no geral, quase todos são movidos pelo “dever” de socorrer a uma senhora idosa e que está, aparentemente, sozinha – descontada a presença da “estranha” (leia-se de fora da família) Johnna.

O texto de Letts não tem papas na língua. Não há espaço em August: Osage County para enganos, ou para maquiagens. As relações naquela família são desveladas pouco a pouco, mas sem meios termos. Desta forma, apesar de serem “fruto” de um mesmo casal, cada uma das filhas dos Weston é movida por um sentimento e apresenta uma determinada reação no reencontro familiar.

Para começar, a segunda personagem central nesta história, Barbara (Julia Roberts), a filha “dominante” do casal, claramente está indo a contragosto para a casa dos pais. Ela segue a voz do “dever”, de quem precisa dar apoio em um momento de incertezas. Mas fica claro, logo no início, que ela não está exatamente feliz em fazer a viagem de “volta às raízes”. Depois, há a filha “sempre presente”, Ivy (a interessante Julianne Nicholson), que parece conviver mais de perto com os pais. E, finalmente, há Karen (Juliette Lewis), aparentemente a caçula da casa e a mais “desmiolada”.

No caso de Ivy, ela está presente naquele momento de sumiço do pai como, aparentemente, ela está presente na maioria das ocasiões. Em mais de uma cena ela aparenta ser a “menos estranha” naquele ninho. Acompanha os pensamentos de Violet, ouve mais do que opina, e respeita o espaço dos pais mais do que consegue fazer-se respeitar. Karen aparece depois do fato principal da história acontecer, arrastando consigo a última “conquista amorosa”, o noivo Steve Huberbrecht (Dermot Mulroney). Ela não parece fazer muito parte daquela família. Está ali para dar apoio para a mãe, mas sem quase nenhum compromisso.

A personagem dominante, entre as filhas, sem dúvida é Barbara. As irmãs olham sempre para ela quando algo inusitado é dito pela mãe. E ela não se importa de confrontar a matriarca, mesmo a mulher estando doente. Uma das cenas mais fortes da produção acontece, justamente, depois que Barbara resolve mostrar para a mãe quem está “mandando no pedaço”, após uma clássica cena de reunião familiar à mesa. Para mim, naquela sequência Julia Roberts garantiu a sua indicação ao Oscar – além de manter, por grande parte do filme, uma conduta regular.

Sem dúvida alguma este filme não é fácil. Como não é fácil nenhuma família – certo que existem algumas exceções pelo mundo… mas elas são exatamente isso, exceções. Além da queda de braços entre a mãe e o pai das garotas, existe uma “disputa” por poder entre a filha mais velha – que acredito ser Barbara – e a mãe. Jogos de poder em família sempre dão pano pra manga e, neste caso, rendeu um filme bem construído, comovente e com algumas cenas de impacto.

Para mim, August: Osage County se mostrou interessante, e diferente de outras produções do gênero, por focar em dois aspectos interessantes. O primeiro é o efeito que a falta de generosidade pode causar entre pais e filhos. Fica claro, especialmente em dois momentos da trama – na cena familiar na mesa e, depois, no diálogo final entre Violet e Barbara -, que a experiência de vida dos personagens Violet, Beverly e da irmã de Violet, Mattie (a competente Margo Martindale) é muito diferente daquela vivida por seus filhos.

Na mesa, Violet “joga na cara” das filhas que elas não estão fazendo nada demais da vida, apesar de terem todas as oportunidades do mundo – inclusive de estudar -, muito diferente deles (Violet, Beverly e Mattie), que foram pobres e passaram por maus bocados. No segundo momento que eu citei antes, Violet volta a explicar para Barbara como para a geração dela o dinheiro é importante. E para a geração de Barbara?

Aí que o filme ganha vários pontos de interesse. Barbara está passando pelo processo de separação do marido, Bill Fordham (Ewan McGregor), que, aparentemente, a traiu com uma garota pouco mais velha que a filha, Jean (Abigail Breslin). Ivy nunca conseguiu “engrenar” em um relacionamento a longo prazo, aparentemente porque ela teria sido “prejudicada” pela dedicação que teve no cuidado dos pais. E Karen está buscando dar certo com mais um homem que possa lhe pagar as contas. Em resumo: todas em busca do amor, mas sem grande sucesso.

Então, diferente dos pais, as filhas estão mais preocupadas com algum relacionamento que faça sentido do que com o dinheiro. Parece algo das últimas gerações. O efeito? Violet e Mattie aguentam muito mais os problemas dos relacionamentos do que os seus filhos – e do que a gente, possivelmente. O choque de geração está ali, assim como uma aparente falta de generosidade das mães com os seus rebentos. Mattie, inclusive, é confrontada pelo marido, Charlie Aiken (o ótimo Chris Cooper), pela crueldade que ela destila contra o filho, Little Charles (Benedict Cumberbatch).

A dureza na fala e na forma de agir parece ser uma característica das mulheres “mais fortes” da família. Mesmo sem perceber, Barbara segue os passos de dureza da mãe, Violet, e da tia Mattie. Mas as mulheres mais velhas tem a “desculpa” de terem comido “o pão que o diabo amassou”, por terem tido vidas complicadas. E qual seria a desculpa de Barbara? Talvez ela também tenha uma vida complicada, mas não por causa da falta de dinheiro, e sim de afeto.

Então qual miséria pode ser pior? A causada pela falta de recursos financeiros ou aquela causada pela falta de recursos afetivos? Aparentemente, segundo o que nos conta August: Osage County, estas duas carências podem motivar espíritos duros, com dificuldade de buscar afeto e o perdão. Mas claro que nada é imutável, e só escolhemos “seguir no inferno” causado por estes cenários agrestes se quisermos. Sempre é possível buscar um outro caminho. Talvez as herdeiras dos Weston consigam isso, se elas souberem encarar a herança familiar de forma madura e aprender com os próprios erros.

Outro tema que o filme traz e que eu sempre achei importante é a questão das expectativas familiares e as fraquezas individuais. Fica evidente que Barbara conhece bem a dependência materna de comprimidos e de que ela não aceita isso – provavelmente, quando adolescente, teve que suportar muitos “surtos” da mãe provocados pelo excesso de remédios. Mas o que fazer naquele cenário?

Este assunto, especificamente, é um dos levantados por um dos meus filmes preferidos de todos os tempos, Requiem for a Dream. Tanto naquela produção quanto nesta nova, a questão principal é: como encarar a dependência de uma mãe? E ela estando doente – especialmente Violet, que reclama de dores -, como retirar este “prazer” dela? Evidentemente que ninguém gosta de ver outra pessoa se descontrolando por causa de uma dependência química, mas que vida melhor você pode garantir para quem está naquela condição?

Com isso eu não quero dizer que apoio a dependência química e que deixaria Violet seguir com a vida que ela levava. Mas acho muito cruel também avançar contra ela e tirar-lhe um dos poucos – e talvez últimos – prazeres e válvulas de escape da vida. Afinal, ela terá uma vida melhor ou mais miserável a partir do fim do contato com os remédios?

Ao mesmo tempo, entendo a postura de Barbara. Afinal, nenhum filho quer ver a mãe descontrolada. Mas esta busca de controle por parte de Barbara – e da gente mesmo, quando agimos em relação aos nossos pais, ou filhos – é para causar o bem ou apenas para mostrar força e que ela pode mais? Situações complicadas.

E que nos levam a mais uma reflexão, alimentada especialmente pela sequência final da produção: por mais que a gente negue, muitas vezes somos mais parecidos com os nossos pais do que a gente gostaria de admitir – ou mesmo de ser. Barbara procura ser muito correta, falar o que pensa e enfrentar os “desmandos” da mãe sempre que possível. Mas será que estas reações dela não são, exatamente, o avesso e, algumas vezes, a cópia da mãe que ela gosta tanto de confrontar?

O lado “careta” de Barbara é um contraponto às dependências da mãe e do pai. Ok. Mas aquela busca por controle é totalmente uma característica de Violet. E a personagem de Meryl Streep sabe algo que qualquer jornalista tem muito claro no seu cotidiano: informação é poder. Ela tem tanta segurança naquela família e “canta de galo” porque sabe de tudo. Dos maiores segredos e das mais baixas motivações.

Por isso ela tem poder, apesar de, como todos nós que um dia nos sentimos “poderosos”, ser apenas carne e osso. Com a idade, ela percebeu que também é frágil. E a cena em que ela vai buscar apoio em Johnna, não por acaso, plasma com toda a profundidade esta carência e fragilidade que Violet e todos nós temos. Gostando de admitir ou não.

Desta forma, August: Osage County se mostra um filme muito interessante. Durante o desenrolar da trama, salta aos olhos os infindáveis “embates” familiares. Para mim, a sequência das irmãs conversando e descobrindo que elas são verdadeiras estranhas umas para as outras, foi das melhores – achei muito realista, até porque nas famílias isso acontece muito. Mas apesar das discussões e desentendimentos dominarem a trama, depois que o filme acaba é que as outras camadas de leitura da produção vão se desenrolando. Apenas por isso, por nos permitir diferentes e variadas leituras, o trabalho de Tracy Letts e John Wells, junto com o restante da equipe, já vale ser visto.

NOTA: 9,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Este é mais um filme desta safra pré-Oscar com um elenco bem escolhido. Mérito da dupla Kerry Barden e Paul Schnee, responsáveis pelo “casting” da produção. Além da inigualável Meryl Streep, temos a uma esforçada Julia Roberts (que admitiu que ficou nervosa por contracenar com o ícone Meryl), e um elenco de apoio bastante interessante.

Para começar, é sempre bom ver a Sam Shepard em cena. Aliás, este é um destes atores que eu acho que é menos valorizado do que deveria. Sempre que o vejo em cena, ele nos dá uma entrega muito boa. Outro nome que muitas vezes fica em terceiro plano nas produções é o de Chris Cooper. Neste filme, o personagem dele acaba tendo uma relevância bem maior – ele é responsável, por exemplo, por diálogos mais relevantes que os mais badalados Ewan McGregor, Dermot Mulroney e Benedict Cumberbatch.

A impressão que fica é que a “velha guarda” do filme tem muito mais propriedade e potência em suas vozes e gestos, e que os mais jovens ainda estão aprendendo como se “impor”. Exceto pela personagem de Julia Roberts, claro. Apesar de terem importância menor na história, McGregor, Mulroney e Cumberbatch fazem uma boa entrega em seus respectivos papéis. Mas são os velhos, Shepard e Cooper, que roubam a cena sempre que aparecem.

O elenco feminino também é bem competente. Ainda que eu tenha percebido um grande “disparate” nas personagens e entregas de duas atrizes. De Meryl Streep e Julia Roberts eu já falei o suficiente. Talvez valha apenas acrescentar que senti falta da personagem da Julia ser um pouco mais realista, ou seja, apresentar nuances mais variadas de comportamento. Afinal, em 99% do tempo ela fica com aquela carranca dura, pronta para qualquer confronto – em pouquíssimas vezes ela sorri ou é capaz de uma fala menos dura. Até a mãe dela apresenta nuances muito mais variadas.

Mas falemos das outras atrizes… Para mim a grande surpresa do filme foi Julianne Nicholson. A atriz tem uma relevância considerável na história e consegue repassar suas emoções apenas com o olhar – diferente de outras figuras em cena. A personagem dela tem várias nuances e a atriz consegue flutuar entre os diferentes sentimentos de forma convincente. Gostei. A veterana Margo Martindale também mostra segurança em seu papel, e tem pelo menos um grande momento no filme – quando Mattie discute com Charlie e depois conta um segredo forte da família para Barbara. A única que achei apenas razoável foi Juliette Lewis.

Falando em segredos de família… (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Acredito que o final não tenha deixado muitas dúvidas, mas não custa explicar por aqui o que aconteceu para aqueles que deram uma adormecida nos minutos decisivos. 🙂 Violet dá um show ao mostrar como ela é, realmente, uma sobrevivente. Não apenas por ter enfrentado um câncer, mas por ter passado por muitas e pesadas dificuldades durante a vida. Além da traição do marido e da irmã, ela explica para Barbara como foi o desfecho da história de Beverly.

(SPOILER – continuação…). O marido deixou um bilhete suicida para a mulher, avisando onde estaria antes de se matar no rio. Ela, encarando aquilo como um “desafio” do marido, não acudiu para impedi-lo. No lugar disso, ela foi garantir que as economias que eles tinham guardado estavam lá. Segundo a leitura de Violet, aquele gesto final de cansaço de Beverly era, também, uma última queda-de-braço, da qual ela não estava disposta a perder. A filha fica chocada, é claro, mas eu concordo com Violet quando ela diz que ambas tinham “culpa” sobre o que aconteceu, ao mesmo tempo que ninguém tinha culpa. Afinal, a decisão de se matar foi dele, independente das motivações que ele tivesse tido. Da minha parte, sempre encaro um suicídio desta forma também. O único responsável pelo ato é aquele que o pratica. Alguém poderia ter impedido? Acho que o que podemos fazer é tentar não causar dor e desespero nos outros, mas no fim das contas cada um é responsável pelos seus atos.

Da parte técnica do filme, gostei muito da direção de John Wells. Acho que ele conseguiu estar atento aos detalhes das vidas daquelas pessoas, valorizando a interpretação dos atores. Afinal, este é um filme de atores e que explora os diálogos e a história entre eles. Não se trata de uma destas produções com cenas de ação ou reviravoltas. Por isso mesmo, grande parte da trama se desenrola na casa dos Weston, cenário bem explorado por Wells.

Ajuda na qualidade do filme o trabalho competente do diretor de fotografia Adriano Goldman, que consegue a luz certa mesmo em diversas sequências de semi breu. Gostei também da trilha sonora de Gustavo Santaolalla e da decoração de set de Nancy Haigh. O departamento de maquiagem faz um trabalho fundamental, com a atuação de oito profissionais – destes, destaco J. Roy Helland e Matthew W. Mungle, responsáveis pela mudança na aparência de Meryl Streep.

August: Osage County estreou em setembro de 2013 no Festival de Toronto. Depois, o filme participaria de outros nove festivais – e o próximo da lista será o Festival de Cinema de Belgrado, no dia 1 de março de 2014. Nesta trajetória, o filme abocanhou sete prêmios e foi indicado a outros 35, incluindo a indicação a dois Oscar. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o de Melhor Atriz Coadjuvante para Julia Roberts e para o de Melhor Elenco no Hollywood Film Festival. Julia Roberts também ganhou como Melhor Atriz Coadjuvante no Palm Springs International Film Festival.

Esta produção teria custado cerca de US$ 25 milhões e arrecadado, apenas nos Estados Unidos, até o dia 27 de janeiro, esta última segunda-feira, pouco mais de US$ 26,9 milhões. Nos outros mercados em que a produção já estreou, ela teria conseguido pouco mais de US$ 11,5 milhões. Ou seja, até agora, o filme está esperando para começar a fazer lucro.

August: Osage County teve cenas rodadas nas cidades de Bartlesville e Pawhuska, em Oklahoma, no parque Lake Tenkiller State, também em Oklahoma, e em Los Angeles, na Califórnia.

A atriz Julia Roberts realmente ficou emocionada em contracenar com Meryl Streep. Quando ela estava promovendo o filme Mirror Mirror, a atriz chegou a chorar quando falou sobre a parceria com Meryl que, segundo ela, é a sua atriz favorita.

Agora, uma curiosidade sobre a produção: a autora Tracy Letts se opôs, mas sem sucesso, pela escolha dos irmãos Weinstein de escalar atores britânicos – leia-se McGregor e Cumberbatch – para a produção. Isso porque, inicialmente, esta história deveria ser muito “americana”, com atores interpretando a personagens daquele país. Mas a autora admitiu que mudou de ideia ao ver o resultado final da produção.

Na peça original, a personagem de Violet foi vivida pela atriz Deanna Dunagan. Ela ganhou um prêmio Tony – o mais importante do teatro – pelo desempenho com a personagem na Broadway.

E uma última curiosidade. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). O final original da produção (e da peça) era a entrega frágil de Violet no colo de Johnna depois que todas as suas filhas tinham ido embora. Apesar deste ser o final preferido do diretor e da roteirista, os testes com a audiência fizeram com que fosse acrescentada a sequência com Barbara. Isso porque, segundo dos produtores do filme, a audiência pedia por um desfecho para a personagem – que terminou como a mãe, mas que, para o público, esta informação não tinha ficado clara e precisava ser apresentada em um desfecho. Curioso.

Antes comentei sobre a trilha sonora. Ela tem algumas músicas muito interessantes. Entre outras, Lay Down Sally, de Eric Clapton; Gawd Above, de John Fullbright; e Last Mile Home, do Kings of Leon (música interessante e que aparece nos créditos finais). Muito bacana também a musiquinha que Benedict Cumberbatch canta em determinado momento do filme – ela tem o título de Can’t Keep It Inside.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,4 para o filme. Certamente, por causa, principalmente, do ótimo elenco. Essa é uma boa avaliação, levando em conta o padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram menos generosos. Eles escreveram 103 críticas positivas e 56 negativas para August: Osage County – o que lhe garantiu uma aprovação de 65% e uma nota média de 6,4.

CONCLUSÃO: Uma família pode ser fonte de sustentação para o indivíduo nas mais diferentes horas complicadas que ele tem na vida como pode ser, também, fonte de muita dor e de rejeição. August: Osage County não é o primeiro filme e nem deverá ser o último a focar as lentes para as relações de uma família complicada. A grande vantagem deste filme é que ele tem um elenco equilibrado, sob a liderança de uma estrela de Hollywood que está à frente de quase todas as intérpretes que já assistimos. Meryl Streep dá um show, mais uma vez. Além disso, o filme tem um roteiro competente, com algumas boas falas entre uma cena e outra de entrega dramática. Recomendado para quem gosta do tema das relações familiares e seus efeitos nos indivíduos. O tema sempre rende e vale ser debatido. Este filme se junta a outros na lista de bons exemplares do gênero. Sem contar que ele se diferencia de outros por ser uma crônica potente dos jogos de poder, dos segredos e das válvulas de escape da família “média e tradicional” dos Estados Unidos.

PALPITES PARA O OSCAR 2014: Se a premiação da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood fosse justa, Meryl Streep receberia uma estatueta em todos ou quase todos os anos em que a atriz concorreu a um Oscar. É como se ela fosse hors concours e merecesse receber a estatueta sempre, pela perfeição de seu trabalho. Paralelo ao prêmio de Meryl, a Academia devia entregar outra estatueta para a segunda melhor atriz do ano.

Claro que o meu comentário parece exagerado. Mas é que é tão complicado comparar Meryl Streep com qualquer outra atriz… este ano, por exemplo. Cate Blanchett está levando tudo pelo trabalho em Blue Jasmine (comentado aqui no blog). Certo que Blanchett é uma grande atriz. Ninguém duvida disso. Mas daí você assiste a Meryl Streep em August: Osage County, e fica impossível fazer uma comparação justa. Meryl está muitos níveis acima de qualquer concorrente.

Dito isso, vamos falar de maneira realista sobre o Oscar deste ano. Como eu disse antes, August: Osage County está concorrendo em duas categorias da premiação da Academia. O filme foi indicado em Melhor Atriz, com Meryl Streep, e Melhor Atriz Coadjuvante, com Julia Roberts. E qual é a chance delas? Segundo as bolsas de apostas, nenhuma, zero. Meryl Streep tem tudo para sair, pela décima-quinta vez em sua trajetória, com as mãos vazias do Oscar – lembrando que a atriz é recordista em indicações e que já recebeu três estatuetas. O mesmo deve acontecer com Julia Roberts.

Segundo os especialistas de Hollywood, o Oscar de Melhor Atriz deve ficar mesmo com Cate Blanchett, que tem arrasado nos prêmios. A estatueta de Melhor Atriz Coadjuvante estaria entre Lupita Nyong’o e Jennifer Lawrence por seus trabalhos em 12 Years a Slave (comentado aqui) e American Hustle (com crítica aqui), respectivamente. Da minha parte, acho mesmo que Julia Roberts se saiu bem, no geral, mas que não foi tão bem para ganhar um Oscar. Mas Meryl… sem dúvida eu daria a estatueta para ela. Mais esta, quero dizer. Porque ela já mereceu outras vezes e não levou.

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Salmon Fishing in the Yemen – Amor Impossível

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Lasse Hallström é um especialista em fazer filmes bonitos. Ele busca belas imagens, e gosta de ter tempo de revelá-las. Nos incita à contemplação. Não é diferente com Salmon Fishing in the Yemen, um filme divertido, muito inglês, e que busca enfatizar como não há limites para a vontade – e o dinheiro. Bem ao estilo de Hallsröm, que gosta de adaptar romances bacaninhas para a telona, Salmon Fishing aborda temas muito diferentes de forma leve e um tanto descompromissada.

A HISTÓRIA: Água, e belos peixes. Uma figura com vara de pescar e turbantes pesca em um cenário incrível. E começa a narrativa com uma carta escrita por Harriet Chetwode-Talbot (Emily Blunt), de um escritório de advocacia, para o Dr. Alfred Jones (Ewan McGregor). Ela diz que representa um cliente com muito dinheiro que quer financiar um projeto para que o Iêmen comece a produzir salmão. Harriet comenta, na correspondência, que o projeto tem o apoio do Ministério de Relações Exteriores inglês, que quer reforçar a cooperação com o pequeno país árabe que faz fronteira com a Arábia Saudita e Oman. Após mandar o e-mail para o Dr. Jones, Harriet sai para se encontrar com o militar Robert Mayers (Tom Mison), com quem ela está começando a se envolver. Dr. Jones acha a ideia de criar salmões no Iêmen absurda, mas acaba sendo forçado, por questões políticas, a embarcar no projeto financiado pelo Sheikh Muhammmed (Amr Waked).

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momento importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Salmon Fishing in the Yemen): Um ponto forte desta produção é o humor da história. E a coragem do roteiro de Simon Beaufoy, adaptado do livro de Paul Torday, em refletir sobre questões como as relações diplomáticas, a política inglesa e seus “veja bem”, assim como na ironia de mostrar os extremos de um cientista que busca lógica constante e de um sheikh árabe movido pela fé e que tem dinheiro suficiente para mover montanhas.

Como a vida mesma ensina, este filme revela como as convicções vão sendo modificadas e enfraquecidas pela experiência. Nem o cientista segue sendo tão objetivo quando ele esperava, nem o sheikh com todas as ferramentas na mão (especialmente a fé e o dinheiro) consegue tudo o que quer. A vida é mais complexa do que parece, como escreveria e cantaria Jorge Drexler. E as variantes vão nos moldando. Porque a nossa vontade, por mais que algumas vezes surpreendente, sempre é limitada. O desejo de um indivíduo esbarra na vontade de seu semelhante, quando as pessoas não estão olhando na mesma direção.

Salmon Fishing in the Yemen ensina um pouco sobre isso. O que é surpreendente. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Por incrível que pareça, este filme me fez lembrar de algums discussões que eu tive o prazer de ter no meu doutorado. Especificamente sobre projetos de desenvolvimento local. O erro mais comum, incluside de organizações internacionais de respeito, é querer implantar em locais diferentes as mesmas fórmulas de desenvolvimento. Sem se preocupar em ouvir as pessoas daquela localidade, seja para saber se aquela proposta é adequada para elas, seja para despertar nos indivíduos a capacidade de encontrarem soluções para os seus próprios problemas. E Salmon Fishing trata exatamente disto.

O sheikh Mohammed está cheio de boas intenções, investe um rio de dinheiro – literalmente – para levar uma alternativa econômica e de renda para aquele local antes depreciado, mas não encontra este mesmo entendimento entre um grupo de pessoas local. Claro que se ele tivesse feito outro movimento, como ouvir as pessoas locais antes de atuar, envolvendo elas nesta proposta de desenvolvimento, ele teria tido outra resposta. O que nos leva a outra questão: por mais que achemos que estamos fazendo o bem e uma escolha certa, devemos sempre nos questionar. Partir da posição humilde de que não sabemos tudo, e que deveríamos ouvir mais do que falar aquilo que, para nós, parece tão evidente e certo.

Salmon Fishing, aliás, parece estar sempre falando sobre como esta posição humilde de questionar-se sempre parece ser a mais adequada. Dr. Jones e Harriet acabam, cada um em seu momento, questionando as suas próprias escolhas de vida. O sheikh, por mais diferente que é a sua realidade e firmeza de propósitos, também acaba se questionando. E o que o filme mostra, e eis uma parte bacana dele, é que há sempre alternativas. Não importa o problema que você esteja enfrentando, ou as escolhas que já tenhas tido na vida, há sempre um novo recomeço possível. Para isso, basta ter um pouco de fé, e alguma humildade e coragem.

Fora as questões filosóficas sobre ter paciência – a velha alusão ao ato de pescar – e de investir em uma ideia movidos pelo amor, Salmon Fishing acerta ao contrapor os homens “da ciência e da fé”, justamente para mostrar que eles não são tão diferentes assim e podem ser igualmente “contaminados” por uma característica ou outra. Porque, no fim das contas, e ainda que o Dr. Jones não tenha percebido, mas é justamente o amor por uma mulher (no caso dele) ou por uma ideia/povo (no caso do sheikh) que move ele, Harriet e o sheikh.

Achei especialmente engraçado como o protagonista, tão enfático em seu conhecimento científico, é tão “inocente” a respeito da vida real. Como Dr. Jones, há muitos especialistas espalhados por aí que são quase autistas. Vivem tão fechados em seus mundos científicos que não percebem como o restante da vida se desenvolve. Para ele, como cientista, é impossível criar salmões em um clima como aquele do Iêmen. Mas ele logo descobre que não há fronteiras para a capacidade do dinheiro em mudar realidades e transformar o impossível em algo possível. Certamente ele amadurece conforme esta história se desenvolve, e acompanhá-lo nesta “passagem” da vida pueril de um cientista para a de um sujeito que embarca em um projeto cheio de interesses e interessante encanta o espectador.

Outro acerto da produção é ironizar não apenas o jeito interessante dos ingleses encararem a sua própria intimidade, como também os bastidores da política. Servem de condimento para a história a relação fria entre Alfred e Mary Jones (Rachael Stirling). Eles são destes casais, e há muitos na Inglaterra e em outros países, que ficaram juntos cedo e que são mais amigos do que amantes ou confidentes. Há pouca intimidade naquele lar. E essa falta de paixão contamina todo o restante.

A mesma intimidade pouco afetiva é vista na casa da poderosa Patricia Maxwell (a excelente Kristin Scott Thomas), assessora de imprensa do Primeiro Ministro britânico. Fora de casa ela intimida e consegue mudar as coisas a favor do governo britânico impondo autoridade, mas dentro do lar ela não consegue ser ouvida pelo filho adolescente. Um contraste interessante e que faz refletir sobre a capacidade de homens em mulheres em obter sucesso em determinado campo da vida – profissional ou pessoal – mas, dificilmente, em todos. Até porque, e Salmon Fishing fala sobre isso, a dedicação para um propósito ou outro faz toda a diferença.

NOTA: 8,9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Não li ao livro de Paul Torday, e que inspirou o roteiro de Salmon Fishing, mas algo eu posso dizer: que belo trabalho de Simon Beaufoy! Mais um, aliás. Aqui, outra vez, ele cuida de um roteiro ágil, cheio de diálogos preciosos e bem planejados/costurados. Não há sobras, e sim muitas linhas bem escritas. Dá gosto de ver um roteiro assim. E ainda que ele não seja muito surpreendente, no final, ele segura o interesse até o último minuto, bastante ajudado pelo carisma dos protagonistas e pelo ótimo trabalho dos coadjuvantes.

Falando nos coadjuvantes, Kristin Scott Thomas rouba a cena cada vez que aparece. Mas junto com ela, merecem ser mencionados alguns atores que fazem a diferença. Como, por exemplo, Conleth Hill, que interpreta a Bernard Sugden, o burocrata que é o chefe do Dr. Jones, político padrão, e que morre de medo de Patricia Maxwell. Os dois servem como uma ótima dupla de apoio para os protagonistas, junto com o excelente egípcio Amr Waked, que tem uma presença impressionante frente às câmeras, e do galã com pequena participação na trama, Tom Mison.

Salmon Fishing conseguiu, até o dia 3 de junho, pouco mais de US$ 9 milhões nas bilheterias dos Estados Unidos. Um desempenho baixo, comparado com os blockbusters, mas não está mal para um filme com estilo “alternativo”.

Esta produção estreou no Festival de Toronto em setembro de 2011. Depois, ele participou de outros três festivais de cinema, o de Portland, de Palm Springs e o de Tokyo. Nesta trajetória, ele conquistou um prêmio, o segundo lugar como melhor narrativa no festival de Palm Springs. Recentemente ele foi indicado para três prêmios no Globo de Ouro: Melhor Filme – Musical ou Comédia, Melhor Ator em Filme – Musical ou Comédia para Ewan McGregor e Melhor Atriz em Filme – Musical ou Comédia para Emily Blunt. Acho bem difícil ele ganhar qualquer um destes três.

Da parte técnica do filme, merecem ser mencionados os ótimos trabalhos do diretor de fotografia Terry Stacey, a trilha sonora de Dario Marianelli, e a edição de Lisa Gunning, que dá um ritmo interessante e que apresenta um trabalho técnico excelente.

Para quem gosta de saber aonde as produções foram filmadas, Salmon Fishing foi rodado em Londres, na Escócia e em Marrocos.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,8 para esta produção. Não está mal, avaliando a média de notas do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 91 críticas positivas e 45 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 67% e uma nota média de 6,2.

De fato, público e crítica tiveram uma avaliação muito próxima. E a minha, acima, talvez tenha sido muito generosa. Mas é que me surpreendi com todos os temas que esta produção trata. Admito, contudo, que ela simplifica um bocado os personagens principais – Dr. Jones muito estigmatizado como o “cientista insensível e deslocado do mundo real” e o sheikh muito estereotipado como o sujeito cheio da grana que gasta um rio de dinheiro em um projeto absurdo. Mas a verdade é que estes personagens existem na vida real, com um pouco menos ou mais de caricatura. Então devo dizer que este filme me convenceu, apesar do exagero em alguns momentos e pela falta total de surpresa na reta final. Mas tudo isso para dizer que eu entendo a avaliação menos generosa das outras pessoas. 🙂

Salmon Fishing in the Yemen é uma produção 100% inglesa.

Agora, uma pequena e fácil observação: o título original é bacana porque é autoexplicativo e resume parte da produção. Por outro lado, o título para o mercado brasileiro… horrível. Como em tantas outras vezes. Que Amor Impossível o que? Lamentável.

CONCLUSÃO: Há uma grande dose de realidade e de fantasia neste filme. Pescar, e isso Hemingway e tantos outros escritores já haviam nos ensinado, é uma questão filosófica e quase espiritual. Por tratar também de pescaria, Salmon Fishing in the Yemen pretende ser além do que uma bonita embalagem. Ele roça em questões como fé, superação humana e a motivação para nos fazermos maiores do que o ser insignificante (mas poderoso) que somos. E a grande motivação, claro, é o amor. Agora, francamente, se esta produção fosse apenas isto, filosofia em forma de pílulas, ela seria chata. Mas ela vai além. Aborda o jeito inglês de viver, trabalhar e amar, assim como os bastidores ridículos da política. Imagem é tudo, já diria uma certa propaganda. E o roteirista Simon Beaufoy e o diretor Lasse Hallström acertam a mão ao misturar todos estes elementos, buscando o equilíbrio entre eles. O resultado é um filme divertido, muito bem conduzido, que não surpreende no final, mas que traz alguns elementos interessantes no decorrer da história, além de um grupo de atores muito concentrado e com bom desempenho. Vale ser conferido, ainda que não seja inevitável.

PALPITES PARA O OSCAR 2013: Salmon Fishing in the Yemen deve ser indicado em algumas categorias do próximo Oscar. Mas é difícil precisar em quantas. Como sempre, tudo vai depender do lobby de seus produtores e realizadores. Não seria surpreendente ele chegar a ser indicado como Melhor Filme, especialmente agora que até 10 produções podem chegar lá. Na versão anterior da premiação, quando apenas cinco eram indicadas, certamente ele ficaria de fora. Mas com a lista maior, é possível que ele chegue, mesmo não sendo o melhor do ano – e isso porque eu não assisti nem a metade dos favoritos.

Também é possível, pela “ficha corrida” de Hallström e pelo trabalho competente que ele fez nesta produção, que ele seja indicado como Melhor Diretor. É mais difícil, é verdade, mas nunca se sabe. No mais, não seria surpresa se o filme aparecesse na lista de Melhor Direção de Fotografia, Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Trilha Sonora. Porque cada um destes elementos funciona com perfeição e tem destaque na produção.

Mesmo que o filme chegue a conquistar todas estas indicações, francamente acredito que ele saia de mãos vazias da premiação. Talvez Salmon Fishing tenha mais chances em direção de fotografia e trilha sonora. Mas, ainda assim, meu palpite é que ele não deverá ganhar nada. O que não seria injusto, analisando os seus concorrentes.

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Haywire – À Toda Prova

Alguns diretores são interessantes. Eles se esforçam para desenvolver uma linguagem própria, um estilo diferenciado, apresentar uma cereja em cada bolo (leia-se filme) que entregam. Steven Soderbergh é um destes nomes. Em seu novo filme, Haywire, o diretor volta a apostar em uma forma diferenciada de fazer cinema. A proposta é boa, até um determinado momento do filme. Mas joga contra o diretor um roteiro fraco e uma atriz sem expressividade alguma. Mais uma vez, Soderbergh aposta em uma garota desconhecida para estrelar um filme seu. Desta vez, ele errou na escolha, ainda que Gina Carano seja ótima nas cenas de ação, na interpretação ela é péssima.

A HISTÓRIA: Uma garota olha com capuz olha fixo para um café de estrada. Ela entra, tira a mochila e senta em uma mesa. Tira o casaco, toma um chá e olha um grupo de amigos em uma mesa próxima. Vê a chegada de um carro, e não fica satisfeita ao ver quem saiu dele. Ela se prepara, e começa uma conversa truncada com Aaron (Channing Tatum). Ele pede para Mallory Kane (Gina Carano) facilitar e acompanhá-lo até o carro, mas ela se nega. Depois de brigarem, Mallory foge no carro de um dos rapazes que estava no café, Scott (Michael Angarano). Enquanto dirige e pede para ele fazer um curativo em seu braço, Mallory explica porque está sendo perseguida.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Haywire): A primeira parte deste filme é muito, muito interessante. O estilo de Haywire lembra demais os grandes filmes de ação dos anos 1960. Não apenas o estilo de direção, que foca os atores em um estilo que lembra algumas vezes o documentário, algo mais cru e naturalista, mas também pela presença marcante da trilha sonora. Ela parece onipresente, e um elemento fundamental para marcar o ritmo do filme.

O elemento novo, conquistado principalmente a partir dos anos 1980, são as lutas perfeitamente coreografadas. A violência come solta, nestes momentos – e há um bocado de pancadaria em Haywire. E se o início do filme já mostra algo fundamental para a produção, que é a beleza e a alta limitação interpretativa da atriz Gina Carano, logo de cara, ele também deixa claro, nos primeiros minutos, a escolha por ter filmes antigos como referencial principal do diretor.

Steven Soderbergh é um sujeito que conhece bem o seu ofício. Um diretor que procura fazer um trabalho diferenciado do “balaio” dos cineastas que fazem filmes de ação. Muitas vezes ele acerta, mas em outras ele erra. Depois de “descobrir” Sasha Grey, uma atriz de pornô, e decidir que ela seria a estrela de The Girlfriend Experience, Soderbergh resolveu destacar a novata Gina Carano em Haywire.

Nos dois casos, o principal predicado de escolha foi a beleza, não há dúvidas. As duas são garotas lindas. Como eu escrevi nesta crítica, acho que Grey se saiu bem no filme mais sério que ela já estrelou na vida por uma simples razão: ela conhece bem aquele tipo de papel, de mulher-objeto. Mas Carano não se sai tão bem. Ela é linda, é verdade, correu e bateu muito bem. Mas Haywire exigia para o papel principal uma atriz que conseguisse expressar alguma emoção mínima em determinados momentos. E ela não consegue isso.

Neste ponto, é possível ver um paralelo entre Carano e Arnold Schwarzenegger. Digamos que ela é um Schwarzenegger de saias. 🙂 Ambos se dão (no caso dele, se dava) muito bem em filmes de ação, batendo, assustando, fazendo caras de gente malvada. Mas isso é tudo. Há um momento em que Carano deve parecer muito sensual e provocante em Haywire. Não acho que ela convenceu neste papel. Não achei ela provocante, apenas bonita. Faltou encontrar uma atriz que pudesse servir de alvo para outro herói dos filmes do gênero, o personagem James Bond. Qualquer “bondgirl” convenceria masi que Carano.

Falei tanto da atriz porque ela é fundamental para Haywire. A história gira em torno dela. Mas algo que não funciona muito bem neste filme é, também, o roteiro de Lem Dobbs. Ele escolheu um dos caminhos clássicos do gênero: entrega uma pílula da história quando ela já está avançada, em um momento fundamental da “fuga”, e depois, a partir de um conflito, investe no recurso do flashback – pontuado, como manda a regra, volta e meia por alguma cena do momento presente.

Certo, recurso batido. Mas ele existe por uma razão simples: que o momento presente seja explicado e “complicado”, pouco a pouco, pela explicação do que levou os personagens até aquele ponto. O problema é que o flashback não dialoga bem com o presente. E quando digo isso, não quero dizer que existam falhas na condição da história, mas que simplesmente o presente não torna o flashback mais tenso ou vice-versa. E sem essa tensão, o recurso se esvazia.

Lá pelas tantas, a história segue a rota linear. Ou seja, sae de cena o flashback e tudo o que acontece é no momento presente. Aí sim o roteiro mostra o quanto ele é batido, fraco, e como o final será previsível. Evidente que a direção de Soderbergh é a melhor parte do filme.

O diretor acerta no resgate do estilo cru de filmes como o clássico Bullitt, e de filmes do James Bond estrelados por Sean Connery, para citar dois exemplos. As cenas de pancadaria muito bem encenadas e filmadas, é o que o filme tem de melhor. Assim como as outras de perseguições – pelas ruas, correndo, ou em prédios, como se fazia antigamente, antes da ação se resumir a carros e tiroteios – são bem feitas. Mas isso é tudo. E é muito pouco.

O final é decepcionante. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Afinal, toda aquela simulação para culpar a protagonista foi feita tendo como motivação dinheiro e uma certa “dor de cotovelo” do ex-chefe e amante, Kenneth (Ewan McGregor). E mais uma neurose de Rodrigo (Antonio Banderas), que se sentiu exposto por ela em uma negociação. Argumentação bem fraquinha, convenhamos. Haywire não vale o ingresso, apesar de sempre ser interessante ver um diretor como Soderbergh tentando acertar.

NOTA: 5,7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Steven Soderbergh é, provavelmente, junto com Quentin Tarantino, o sujeito que melhor sabe aproveitar as referências dos filmes do passado, especialmente os de ação, e escancará-las em uma releitura mais modernete. A linguagem de Haywire lembra totalmente a de filmes históricos do gênero. Além dos filmes já citados, me lembrei de The French Connection, Shaft (o original, de 1971), Mean Streets, e de um clássico que ainda estou para ver: Faster, Pussycat! Kill! Kill!, dirigido por Russ Meyer e considerado, por nomes como John Waters, com o melhor filme de todos os tempos.

Nada em Haywire supera espécimes do gênero feitas anteriormente. E daí vem aquela pergunta básica: então para que gastar US$ 23 milhões em uma produção que não agrega nada? Pois é, eis uma boa pergunta. Acho que um filme como este só se justifica pela preguiça das pessoas em buscarem filmes melhores no passado. Porque há pessoas – e conhece algumas – que acham que não há nada de bom no cinema mudo ou naquele anterior aos anos 1980 ou 1990.

Que pena que muitos pensem assim. Alguns dos melhores filmes de ação de todos os tempos são, justamente, dos anos 1960 e 1970. Por isso acho que diretores como Soderbergh e Tarantino se dão tão bem. Eles fazem filmes para quem não conhece os originais e, consequentemente, vê muitas novidades nestas versões “cheias de homenagens” – para não dizer cópias.

Se o roteiro de Haywire é fraco e a direção de Soderbergh tem seus momentos interessantes, e se a atriz principal é só bonita, mas o elenco de “apoio” é formado por nomes de respeito, temos que admitir que algumas figuras da equipe técnica merecem alguns aplausos.

Para começar e, principalmente, a trilha sonora de David Holmes. Grande trabalho – e principal trunfo do filme. Outro que faz a sua parte com excelência é Soderbergh na direção de fotografia. Acertadas as escolhas de cores, tons e os momentos em que o filme fica em preto e branco. Ele sabe trabalhar bem com o visual.

O filme está centrado em Gina Carano. Mas há um elenco de “apoio” importante, e com nomes que já mostraram um excelente trabalho em outros filmes – mas que aqui, como Carano, parecem muito anestesiados. São eles: Channing Tatum como Aaron, parceiro de Mallory em missões encomendadas e bem pagas; Ewan McGregor como Kenneth, o chefe da agência de espiões; Antonio Banderas como Rodrigo, o homem por trás da “genial” ideia que irá resolver os problemas de alguns poderosos – ele incluído; Michael Douglas como Coblenz, um cara do governo dos Estados Unidos que gosta de Mallory; Michael Fassbender como Paul, um agente secreto inglês; Mathieu Kassovitz como Studer, o sujeito rico que está por trás de toda essa história; Bill Paxton como John Kane, pai de Mallory; e Anthony Brandon Wong como Jiang, o “sequestrado” que é resgatado por Mallory e equipe e que não tem uma fala no filme, mas que é importante para a história. Um baita elenco, mas que não tem espaço para aprofundar a história de nenhum de seus personagens. Todos muito rasos e superficiais.

Francamente? A minha vontade era dar uma nota ainda menor para este filme. Mas em respeito ao “virtuosismo” da direção de Soderbergh, resolvi elevar um pouco o conceito. Não porque o filme seja bom, mas porque ele se esforçou para fazer algo diferente.

Haywire estreou no Festival AFI em novembro de 2011, mas entrou em cartaz, comercialmente, apenas em janeiro deste ano nos Estados Unidos e em outros 16 países. Até o dia 18 de março, o filme havia acumulado pouco mais de US$ 18,9 milhões nos Estados Unidos. Como ele custou, pelo menos, US$ 23 milhões, pode-se dizer que ele não está no caminho do sucesso.

Antes de estrelar este filme, a texana Gina Carano havia participado da série de TV Fight Girls, em 2006, feito um papel no game Command & Conquer: Red Alert 3 e um papel em Blood and Bone. E só. Agora, pós Haywire, ela vai estrelar o thriller In the Blood, atualmente em pré-produção e que será dirigido por John Stockwell.

Algumas outras pessoas que merecem palmas por este filme são Jonathan Eusebio, J.J. Perry, Don Tai e Jon Valera. Eles atuaram como coreógrafos das lutas. Sem dúvida, a melhor parte de Haywire são aquelas cenas de pancadaria muito bem planejadas. Além de criativas, elas vendem bem a ideia de serem plausíveis – ainda que a protagonista pareça demais uma Mulher Maravilha.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,3 para o filme. Achei uma boa nota. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram bem mais generosos, dedicando 129 críticas positivas e 32 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 80% e uma nota média de 6,8.

Haywire foi filmado em Dublin, na Irlanda, e em Los Alamos, nso Estados Unidos – com algumas cenas simulando locais de Nova York. Esta é uma co-produção Estados Unidos e Irlanda.

CONCLUSÃO: Uma pena quando um filme tem uma proposta bacana, mas não consegue sustentá-la até o final. Gina Carano é muito fraca. Ótima na corrida e na pancadaria, mas péssima em qualquer momento em que ela precisa repassar o mínimo de emoção que deveria estar sendo vivida por sua personagem. E quando um filme tem uma atriz no foco o tempo todo, como é o caso de Haywire, ele acaba sendo muito prejudicado com uma intérprete fraquinha. Este é um dos problemas fundamentais deste filme. Mas não é o único. O estilo do filme, que relembra a alguns clássicos antigos de ação, acaba cansando lá pelas tantas. Especialmente da metade para a frente, quando o filme da uma certa “reviravolta”. A “surpresa” não cria realmente tensão – a trilha sonora é mais eficaz que o roteiro neste ponto. E todos sabemos o que vai acontecer até o final, o que mata o filme antes dele terminar – afinal, o elemento surpresa já era. Fora isso, esta é mais uma produção cheia de estilo e experimental de Soderbergh. Mas ele já fez melhores. Quem sabe no próximo ele acerte a mão? Ou segue apresentando trabalhos que, ao apostar tanto em uma linguagem mais dinâmica e diferenciada, se esquecem de elementos básicos, como um roteiro melhor acabado e uma atriz principal decente. Não foi desta vez, com Haywire, que ele conseguiu o equilíbrio.