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Dolor y Gloria – Pain and Glory – Dor e Glória

Não importa o quanto brilhante alguém possa ser. Mais cedo ou mais tarde, ele não vai fugir da sua condição humana. E essa condição prevê muitos aspectos, inclusive a dor. Pedro Almodóvar volta a fazer um cinema bastante autoral, com uma carga de DNA espanhol novamente acentuado. Dolor y Gloria é uma mescla de presente com lembranças e sensações do passado na mesma medida em que é um reencontro de um cineasta com a sua inspiração. Perder-se e encontrar-se parece uma regra da vida, e algo muito presente nesta produção.

A HISTÓRIA: Em uma piscina, está submergido o cineasta Salvador Mallo (Antonio Banderas). Nas costas dele, uma cicatriz que percorre grande parte do seu corpo. Dentro da água, ele se lembra de uma cena antiga, quando a mãe dele, Jacinta (Penélope Cruz), estava com outras mulheres lavando roupa na margem de um rio. Sobre as costas da mãe, o jovem Salvador presta atenção em tudo que as mulheres falam. Em breve, Rosita (Rosalía) e suas companheiras Mari (Marisol Muriel) e Mercedes (Paqui Horcajo) vão soltar a voz cantando. Essa é uma das muitas lembranças do passado que embalam o presente de Salvador, um cineasta que parou de trabalhar por causa de seus problemas de saúde, especialmente das dores que tem na coluna e na cabeça.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte deste texto conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Dolor y Gloria): Possivelmente, se olharmos “à ferro e fogo”, essa produção não merece a nota alta que eu estou dando logo mais. Dolor y Gloria não é o melhor filme de Almodóvar e, possivelmente, lutaria para estar na lista dos 10 melhores do diretor. Mas depois de vê-lo fazendo produções bem “mais ou menos”, admito que gostei de assistir a um filme mais sóbrio e honesto do diretor.

Isso e mais o fato de eu ser neta de espanhóis e, por isso, entender um bocado sobre a essência desta cultura, me fez gostar realmente deste novo filme do diretor. Algo que apreciei em Dolor y Gloria é que Almodóvar parece mais maduro, menos preocupado em impressionar ou em impactar. Este é um de seus filmes mais sóbrios, uma de suas produções mais afetivas – ou, ao menos, assim parece. E eu gostei disso.

Acho que Almodóvar se dá bem em dois tipos de filmes, essencialmente: naqueles em que ele não se preocupa com os padrões e dá vazão para os desejos e para o lado cômico da vida, e naqueles em que ele faz um mergulho emocional, cultural e até filosófico em aspectos relacionados com as suas origens (em suma, com a Espanha). Dolor y Gloria faz parte do segundo tipo de filme, mas sem esquecer um pouco da libido que é quase uma assinatura do diretor.

Algo que me chamou a atenção desde o início desta produção: o excelente trabalho de Antonio Banderas. O ator, um dos preferidos de Almodóvar, captou muito bem a essência de seu papel e o seu desafio como Salvador Mallo. O seu trabalho, atencioso a cada detalhe, é um dos pontos altos do filme.

Assim como o roteiro de Almodóvar que, apesar de navegar por recursos já bem conhecidos – até batidos -, como pode ser o ir-e-vir da história em dois tempos (presente e passado), consegue manter um bom ritmo e o interesse dos espectadores em uma história que mistura aspectos culturais fortes da Espanha com questões universais – como a morte, o amor, a gratidão e a dor.

A história em si, em uma primeira análise, parece já conhecida também. Um diretor de cinema que parou de trabalhar porque já viveu o auge da sua carreira e que acaba, meio que sem querer, revisitando o próprio passado/êxito. As semelhanças com outras histórias terminam aí, me parece, porque não lembro de outro filme que trate de uma pessoa de sucesso, uma das referências do cinema de um país, que enfrente tanto o aspecto da dor.

Interessante – e muito válido – como Almodóvar não trata apenas das dores físicas, mas das dores psicológicas e “da alma”. Sabemos que somos feitos de diversos elementos e de muitos aspectos, e que o desequilíbrio de uma parte pode afetar todas – ou quase todas – as demais, provocando uma cadeia de problemas e, como bem explora esta produção, de dores. Então algo que eu achei interessante e muito marcante nesta produção é essa reflexão sobre finitude e humanidade que o roteiro de Almodóvar nos traz.

Como comentei lá no início, não importa o quanto uma pessoa pode ser grande na sua arte, o quanto ela pode ser respeitada e admirada dentro e fora do seu país. Como todas as demais, inclusive as anônimas, ela também passará por dificuldades, por dores, fraquezas, pela perda e pela solidão. Terá limitações físicas, deixará de fazer o que ama por um período, irá se perder e, se tiver sorte, conseguirá se encontrar apesar de tudo.

Isso é o que vemos em Dolor y Gloria. Mas não apenas isso. Além das limitações e das dores que, inevitavelmente, serão conhecidas por todos em algum momento das suas vidas, temos também tudo aquilo que nos faz seguir adiante e o que faz todo o restante – inclusive a dor – valer a pena. Nessa caixinha apresentada por Almodóvar estão as lembranças afetivas, o amor que nos une e que alimentamos, e o bem que podemos ter feito no caminho.

O protagonista desta produção sai de um estado de isolamento e de desânimo para fazer as pazes com diversas pessoas do seu passado – algumas vivas, outras mortas (sendo a principal delas, a sua mãe) ou de paredeiro desconhecido. Ao sair do casulo e se aproximar dos demais, ele faz a própria história avançar e evoluir.

Um exemplo disso acontece quando ele procura o ator Alberto Crespo (Asier Etxeandia), que estrelou o seu primeiro grande sucesso e com quem ele não falava há 32 anos. Como o filme que eles fizeram junto será homenageado e eles foram convidados para falarem da produção após a sua exibição, o protagonista se sente motivado a procurar Alberto. Isso após assistir ao próprio filme novamente e vê-lo com um olhar menos duro e crítico.

Como Zulema (Cecilia Roth em uma pequena ponta) diz para ele, o filme continua sendo o mesmo, o olhar de Salvador é que mudou. E isso acontece com a gente mesmo. O tempo passa e o nosso olhar para as obras, as nossas e as dos outros, muda. Isso acontece porque a gente também mudou no caminho. Bem, ao fazer o gesto de procurar Alberto, Salvador acaba desencadeando diversos acontecimentos que vão acabar mudando a sua vida.

Para começar, quem diria, ele se joga em um vício que ele sempre condenou. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). No passado, ele evitou de cair no vício da heroína (chamada de “caballo” ou “dama branca” na Espanha). Agora, quando os remédios já não fazem o efeito que ele gostaria para que a sua dor passe, ele acaba mergulhando neste vício junto com Alberto.

O ator, que teve muito menos sucesso e dinheiro que o diretor, está desesperado por um novo trabalho. Ao ler um texto de Salvador, Alberto sabe que pode fazer sucesso com aquele material. Ao concordar em ceder o texto para o ator, o protagonista acaba tendo um encontro emocionante com o seu grande amor do passado. Isso lhe dá uma motivação que há muito tempo ele não tinha. Ao procurar ajuda, bem na reta final da produção, ele também se depara com o seu primeiro desejo – e a lembrança da descoberta da sua sexualidade.

Mas, mais do que isso, ao encontrar o trabalho de Eduardo (César Vicente), o protagonista se depara com uma das partes mais importantes da sua vida. Neste momento, Dolor y Gloria mostra a sua potência ao nos fazer refletir que não importa toda a dificuldade que o protagonista passou ou esteja passando. Não importa o resultado de sua cirurgia, se ele continuará sentindo pouca ou muita dor, se ele sairá da depressão ou continuará a trabalhar.

O que realmente importa é quantas pessoas ele inspirou com o seu trabalho e talento e, no caso de Eduardo, o bem que ele deixou pelo caminho. No fundo, Salvador nunca saberá o quanto ele mudou a vida de Eduardo, uma pessoa simples que ele conheceu no “pueblo” em que ele foi morar com os pais quando era criança. Mas, certamente, ele fez muita diferença ao ensiná-lo a ler e a escrever. Depois, ele ainda deixaria uma obra que influenciaria e inspiraria muita gente. Isso, e mais o amor que ele viveu aqui e ali, é o que fica e o que importa no final.

Tratar de tudo isso sem forçar a barra, mas ligando o presente do protagonista com o seu passado e com as suas lembranças, é o que de melhor Almodóvar poderia nos apresentar. Gostei do resultado sóbrio desta produção. Um filme que, além de tudo que eu comentei, ainda nos apresenta uma Espanha com raízes firmes na cultura de “pueblo”, de pessoas simples e que tinham no apoio da Igreja uma forma de educar os seus filhos. Uma cultura na qual o papel da mulher e da mãe é extremamente forte e marcante. Tudo isso muito bem tratado nesta produção.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Eita que era para eu começar a escrever menos sobre os filmes, não é mesmo? Ao menos foi isso que eu comentei há algum tempo por aqui. Mas falar de um filme de Almodóvar escrevendo pouco é algo difícil. Especialmente quando é um filme tão carregado de mensagens, reflexões e de reminiscências como este Dolor y Gloria. Então me perdoem, mas tive que romper o meu desejo de escrever pouco ao falar deste filme. 😉

Sou franca em dizer que eu não estava esperando muito desta produção. Primeiro porque há tempos eu não via a algo bom vindo de Antonio Banderas e, sou franca em dizer, tenho um pouco de preguiça com Penélope Cruz. Mas gostei de me enganar com ambos. Para mim, sob a direção de Almodóvar, que deve conhecer a dupla de atores como poucos, ambos fizeram um trabalho muito bom. Me arrisco a dizer que entregaram dois desempenhos como há muito não se via na carreira deles. A meu ver, tanto Banderas quanto Penélope amadureceram. E isso é positivo.

Gostei também da produção focar tanto em Madrid, cidade que tanto Almodóvar quanto eu somos apaixonados, quanto nos lugares do interior em que o protagonista morou quando era criança. Sem dúvida esses lugares lhe marcaram e ajudaram a lhe formar como pessoa. As suas lembranças daquela fase de pobreza, mas também de admiração com as coisas simples e com a presença forte da mãe, foram determinantes para a sua obra e a sua vida. Tudo isso é muito bem retratado pelo diretor que, claramente, faz uma homenagem à sua própria história.

Apesar do recurso batido usado pelo diretor de intercalar o tempo presente do protagonista com as suas lembranças do passado – o que, em outro contexto, poderia parecer forçado e repetitivo mas, neste caso, funciona pela fase de vida na qual Salvador Mallo está passando -, gostei do ritmo que ele dá para o filme. Dolor y Gloria tem um bom desenvolvimento, sem nunca acelerar o passo. Parece até que ouvimos a história da produção em uma conversa em uma longa caminhada. Ou na mesa de um bar. Tudo contado de forma espaçada, em um ritmo cadenciado e constante. Não há momentos de aceleração e nem de tédio. Achei isso positivo.

A direção de Almodóvar busca valorizar o trabalho dos atores, em primeiro plano, mas sem esquecer do ambiente em que eles estão inseridos. O contexto, aliás, sempre foi algo importante para o diretor. Então os cenários, os locais pelos quais os personagens passam e onde eles se movimentam também é importante. Mas, como sempre, o diretor se destaca pelo trabalho com os atores. E o elenco dele, mais uma vez, foi escolhido a dedo. Muito boa cada escolha, inclusive dos grandes atores que aparecem em pontas.

Falando em elenco, sem dúvida alguma os grandes destaques são Antonio Banderas, como Salvador Mallo; Penélope Cruz como a mãe do protagonista quando ele era criança; e Asier Flores, como o Salvador quando menino. Eles roubam a cena sempre que aparecem. Mas, além deles, outros atores se destacam em papéis secundários, como Asier Etxeandia como Alberto Crespo – especialmente quando ele interpreta o monólogo de Salvador; Leonardo Sbaraglia rouba a cena como Federico Delgado; Nora Navas está muito bem como a amiga do protagonista, Mercedes; Julieta Serrano faz um trabalho tocante como Jacinta na velhice; César Vicente como Eduardo e Sara Sierra como a empregada Conchita.

Além deles, vale citar alguns trabalhos pequenos, mas de nomes expressivos, como Cecilia Roth como Zulema, velha conhecida de Salvador e que acaba dando o contato de Alberto para ele; Susi Sánchez como a beata que ajuda Jacinta a dar educação para o filho através da Igreja; Raúl Arévalo como Venancio Mallo, pai de Salvador; Pedro Casablanc como Dr. Galindo; Eva Martín como a radióloga que diagnostica o protagonista; as atrizes que fazem as lavadeiras e que já foram citadas; e, por curiosidade, Agustín Almodóvar como o padre que estimula o protagonista a ser solista do coral. Agustín é irmão de Pedro Almodóvar e, além de ator, produtor – inclusive deste filme.

Entre os aspectos técnicos desta produção, destaque para a direção de fotografia de José Luis Alcaine; para a trilha sonora de Alberto Iglesia, grande parceiro de Almodóvar; para a edição de Teresa Font; para o design de produção de Antxón Gómez; para a direção de arte de María Clara Notari; para os figurinos de Paola Torres; e para o trabalho dos 10 profissionais envolvidos com o Departamento de Arte.

Dolor y Gloria estreou em première em Madrid no dia 13 de março. Depois, em maio, o filme participou do Festival de Cinema de Cannes. Depois, o filme participou, ainda, de outros oito festivais de cinema, como os de Toronto, Munique e Sydney. Em sua trajetória, até o momento, o filme ganhou quatro prêmios e foi indicado a outros sete. Os prêmios que ele recebeu foram o de Melhor Ator para Antonio Banderas e de Melhor Compositor para Alberto Iglesias no Festival de Cinema de Cannes; e os de Melhor Ator e Prêmio do Júri dados pelo International Cinephile Society Awards.

Vale citar algumas curiosidades sobre esta produção. Essa é a primeira colaboração de Julieta Serrano com Almodóvar depois de quase 30 anos deles terem trabalhado juntos em várias produções. Ela participou, entre outros filmes, de filmes que fizeram o início da carreira do diretor, nos anos 1980, como Pepi, Luci, Bom y otras Chicas del Montón (1980); Entre Tinieblas (1983); Matador (1986); !Átame! (1989); e Mujeres al Borde de un Ataque de Nervios (1988).

Esse é o oitavo filme de Almodóvar com Antonio Banderas e o sexto dele com Penélope Cruz. Juntos, antes deste filme, os dois atores estrelaram outra produção de Almodóvar, Los Amantes Pasajeros (comentado aqui e, francamente, um dos piores – se não o pior – filme do diretor).

Julieta Serrano e Antonio Banderas viveram mãe e filho em outros dois filmes de Almodóvar: Matador e Mujeres al Borde de un Ataque de Nervios.

Sempre que possível, acho interessante ler a opinião do realizador sobre a sua própria obra. Procurando saber o que Almodóvar disse sobre Dolor y Gloria, encontrei esse texto interessante escrito por ele para El Mundo. Segundo Almodóvar, sem ter pensado nisso, Dolor y Gloria é a terceira parte de uma trilogia que demorou 32 anos para ser completada – as outras partes seriam, segundo o diretor, La Ley del Deseo e La Mala Educación.

Os pilares dessas histórias seriam o desejo e a ficção cinematográfica, segundo Almodóvar. “Ficção e vida fazem parte da mesma moeda, e a vida sempre inclui dor e desejo”, escreveu o diretor. Ele também comenta como esta, igual que as suas duas anteriores obras, é uma produção com homens como protagonistas. E sim, o filme também é uma homenagem ao cinema – algo que não comentei antes, mas que é evidente para quem o assiste.

Também vale citar este outro artigo escrito por Almodóvar e publicado em El País. O texto dele começa assim: “Dolor y Gloria é um filme baseado na minha vida? Não e sim, absolutamente. Todos os meus filmes me representam. É verdade que este (filme) me representa mais, mas sempre que eu começo a escrever sobre uma base conhecida – que tem origem na realidade, de algo que eu li no jornal, que tenham me contado, do que eu testemunhei ou simplesmente um episódio da minha própria vivência – a história começa a encontrar o seu verdadeiro caminho (cinematográfico, neste caso) para ser convertida em ficção”.

O restante do texto dele é bastante ilustrativo e explica bastante do filme, mas vou citar apenas uma outra parte que achei importante: “Dolor y Gloria não é auto-ficção, mas é verdade que o filme parte de mim mesmo. Não existiria roteiro se eu não tivesse sido operado das costas e vivido um longo pós-operatório e a imobilidade que veio depois, assim como a mudança radical que experimentam os músculos para compensar a ‘fixação’ da metade lombar”. Segundo o diretor, o personagem passou por situações piores que as dele.

Almodóvar também comenta que partiu de “sentimentos próprios reais” para escrever sobre a relação do protagonista com as pessoas, mas que isso serviu para a primeira linha e que o restante foi movido pela “força da ficção”. O diretor ainda afirma: “Tudo no meu cinema é representação, sempre fugi do naturalismo, não pretendo que os meus filmes pareçam reais. Mas sim pretendo que o espectador se reconheça neles”. Vale ler o texto todo.

Para quem se interessa pelas locações dos filmes, vale citar em que lugares Dolor y Gloria foi filmado. Além de Madrid, que é o local do “tempo presente” do protagonista, foi local de gravações a cidade de Paterna, em Valência, onde é filmado o “pueblo” em que a família de Salvador vai morar. Achei interessante eles irem morar em uma “casa cueva”, algo que realmente existe em diversas partes da Espanha até hoje – mas, geralmente, nas montanhas.

Como Dolor y Gloria mistura e/ou se inspira em realidade e em ficção e, claramente, faz uma homenagem ao cinema e ao seu papel na vida do protagonista, impossível não lembrar de 8 1/2, do Federico Fellini. Sem dúvidas Almodóvar se inspirou nele.

Assisti aos filmes antigos de Almodóvar, mas o blog não existia – e eu nem escrevia sobre filmes ainda. Mas é possível encontrar filmes mais recentes do diretor aqui no blog. Vocês podem acessar, por aqui, crítica dos seguintes filmes do diretor: Julieta; La Piel que Habito e Los Abrazos Rotos – além de Los Amantes Pasajeros, já citado antes.

Esse filme é uma produção 100% da Espanha.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,8 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 45 críticas positivas e quatro negativas para a produção – o que lhe garante uma aprovação de 92% e uma nota média de 7,83. No site Metacritic o filme registra o “metascore” 81, fruto de 11 críticas positivas e três críticas medianas. Segundo o site Box Office Mojo, o filme fez US$ 21 milhões nas bilheterias fora dos Estados Unidos – não há dados sobre o resultado em solo americano.

ADENDO (31/12): Dolor y Gloria foi indicado em duas categorias do Globo de Ouro 2020: Melhor Filme – Língua Estrangeira e Melhor Ator – Drama para Antonio Banderas. Achei muito bacana terem indicado Banderas. Afinal, o trabalho dele neste filme está incrível, muito rico e maduro. Além disso, acho esse ator pouco valorizado pelo cinema. Então fico feliz por ele ter recebido uma indicação – mas não deve levar.

CONCLUSÃO: Um filme que fala sobre diversos aspectos fundamentais da vida, especialmente para quem já passou do “auge da juventude”. Dolor y Gloria nos traz um Almodóvar amadurecido e que parece ter aprendido bastante com os dois aspectos que ele escolheu para intitular a sua nova produção. Um filme que apresenta um bom ritmo, interpretações interessantes e mais um mergulho muito bem feito na Espanha profunda.

O recurso de “reminiscências” e de intercalar presente com passado já é conhecido, e até batido, mas funciona bem nesta produção por causa do talento dos atores. O melhor do filme, a meu ver, é a reflexão que ele faz sobre os limites do ser apesar da eternidade do talento. Mais um bom filme com a marca do grande Almodóvar.

PALPITES PARA O OSCAR 2020: Dolor y Gloria avançou na disputa do Oscar na rebatizada categoria Melhor Filme Internacional (antes, até 2019, chamada Melhor Filme em Língua Estrangeira). Além dele, até o momento, assisti apenas a Parasite (com crítica neste link). Preciso ver aos outros indicados (a saber, The Painted Bird, Truth and Justice, Les Misérables, Those Who Remained, Honeyland, Corpus Christi, Beanpole e Atlantics).

Mas me parece, neste momento, que os favoritos para chegar na lista dos cinco finalistas nesta categoria são Parasite, Dolor y Gloria, Corpus Christi, Atlantics e Les Misérables. Ainda a confirmar esta lista. Dito isso, acho sim que Dolor y Gloria chega na disputa final com muitos méritos – e também pela força da interpretação de Banderas e pelo nome de Almodòvar. Ganhar o prêmio, me parece, é uma tarefa muito mais difícil. Até o momento, eu apostaria em Parasite para isso.

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The Expendables 3 – Os Mercenários 3

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Algumas vezes tudo o que você quer buscando um filme nos cinema é a diversão. Neste sentido, The Expendables 3 entrega tudo o que o espectador espera. Isso me surpreendeu. Admito que não vi aos dois filmes anteriores da grife, e conhecendo bem o talento interpretativo do líder da trupe, Sylvester Stallone, não me atraía antes assistir a esta produção. Mas gostei do que eu vi. Os atores envolvidos, e a lista de astros é grande, claramente se divertiram muito fazendo este filme. E de quebra, eles divertem os espectadores.

A HISTÓRIA: Um trem blindado percorre o cenário de forma veloz. Ele segue em direção à prisão de Denzal, carregado de homens armados. Mas logo aparece o helicóptero pilotado por Barney Ross (Sylvester Stallone) e carregado de Mercenários. No grupo, Lee Christmas (Jason Statham), Gunner Jensen (Dolph Lundgren) e Toll Road (Randy Coutere). Eles pegam pesado contra o trem blindado para resgatar Doc (Wesley Snipes), que após oito anos desaparecido e mantido como prisioneiro, está sendo levado para a prisão. Os inimigos são derrotados e Doc resgatado, mas logo o grupo deverá enfrentar desafios bem maiores.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a The Expendables 3): Normalmente eu não assistiria a esse filme. Isso porque vocês, caros leitores, devem ter percebido que normalmente eu gosto de filmes mais “humanos”, “filosóficos”, daquele tipo que nos faz aprender algo, seja com a história, seja com nós mesmos ou com aqueles que nos rodeiam. Porque eles nos provocam a reflexão.

Mas a verdade é que eu trabalho em um jornal de Florianópolis e recebi, através da editora do caderno de cultura e variedades, um convite que havia sido mandado para ela ou alguém da editoria. E como ninguém se interessou, e ela sabe que tenho um blog de cinema, me perguntou se eu gostaria. E a resposta foi imediata: sim! Isso porque defendo que todo filme merece ser visto, mesmo se for para você achá-lo ruim, lamentável ou deplorável depois. Houve um tempo em que eu assistia a todos os filmes que entravam em cartaz no cinema, independente do tipo ou qualidade.

Hoje, inclusive por causa deste blog, que me obriga a escrever um texto para cada filme que assisto – como explico na apresentação desta página -, tenho que ser mais seletiva. Bueno, feito esta introdução, devo ser direta como no início deste texto: gostei de ter recebido o convite e de ter assistido a este filme que não faria parte da minha seleção normalmente. The Expendables 3 é um filme direto e que apresenta exatamente tudo aquilo que promete.

Para mim, um filme funciona quando faz exatamente isso. Entrega o que o seu público quer. Quem vai conferir The Expendables 3 conhece bem a capacidade interpretativa de Sylvester Stallone, pai desta trilogia da pancadaria e do tiroteio. Então dá para entender e perdoar toda vez que ele faz um grande esforço para repassar emoção, mas não consegue. Afinal, você já está esperando isso.

O que me surpreendeu, justamente porque não assisti aos dois filmes anteriores, foi o número de grandes nomes envolvidos neste projeto. Além dos tradicionais “mestres” da pancadaria, esta produção tem no elenco o “eternamente-com-cara-de-louco” Mel Gibson, que acho divertido a cada novo filme, e também o astro de alguns dos grandes clássicos do cinema nas últimas décadas e “homem mais sério” Harrison Ford. Eles dão um peso importante para o filme.

A comédia, natural em produções deste gênero nos últimos anos, se apresenta principalmente nas interações entre Stallone e Arnold Schwarzenegger e é concentrada no papel interpretado por Antonio Banderas. Este ator, normalmente envolvido em filmes construídos para ele ser o “amante latino”, surpreende neste filme de ação em um papel verborrágico e cheio de tiração de sarro.

Aliás, esta é uma das características desta produção, junto com as tradicionais cenas de ação. The Expendables 3 é cheio de autorreferências, ironizando outras produções do gênero e a própria expectativa envolvendo os atores veteranos. A fórmula desta terceira parte da trilogia é colocar em oposição os veteranos e uma nova turma, liderada pelo ator Kellan Lutz. Ele, em teoria, é a versão mais nova do personagem de Stallone.

Como o ator que assina a história e o roteiro desta produção não dá ponto sem nó, certamente Stallone está preparando o futuro da grife. Tendo uma turma jovem para encabeçar produções futuras, ele pode “matar” alguns personagens interpretados por seus amigos veteranos na interpretação e, quem sabe, daqui a uns três ou quatro filmes, ele mesmo, Stallone, possa ser morto em combate – deixando o ator responsável apenas pelos roteiros, por exemplo.

O desenrolar da história é super previsível. Ainda assim, há diversas cenas de ação surpreendentes. De tirar o chapéu para os responsáveis pelas coreografias de luta e por toda a equipe envolvida nas explosões e cenas de ação filmadas, além dos efeitos visuais e especiais. Logo cedo o espectador prevê que a nova equipe formada por Barney Ross terá que ser socorrida pelo time antigo, dos veteranos. E mesmo que isso seja evidente, quando o resgate acontece, você não fica decepcionado porque a ação é muito bem planejada.

O embate final entre Barney Ross e Stonebanks (Mel Gibson), antigos parceiros e amigos, só poderia terminar em uma disputa “mano a mano”. O desfecho, novamente, é previsível, mas não havia como esperar nada diferente. Sendo assim, esta produção entrega tudo como “combinado”, trazendo um roteiro com desenrolar conhecido, mas com diversas cenas colecionáveis de perseguição e matança.

De quebra, há momentos verdadeiramente engraçados, muita “gozação” entre os veteranos e um desfile de astros. Dá para perceber que eles estão se divertindo muito ao fazer este filme. E de quebra, eles nos divertem também com uma produção tão despretensiosa. Vale assistir a filmes assim, apenas para relaxar, de tempos em tempos. Aqui não há mensagem ou reflexão alguma, apesar do rápido discurso de que “o governo usa assassinos de aluguel para não parecer um vilão”, ou qualquer coisa do gênero. Esse é o máximo de complexidade que Stallone consegue. O que não é ruim.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Muito falaram sobre uma cópia de The Expendables 3 que teria vazado na internet antes mesmo do filme estrear nos cinemas. Da minha parte, assisti ao filme na telona em uma sessão de pré-estreia, na última quinta-feira. E posso dizer que vale a pena conferir o sonzaço e todos os efeitos especiais e visuais na telona. Após a versão vazar na internet, ouvi alguns comentando que o filme teria tido a bilheteria prejudicada por causa disso. Não acredito. E vou falar o porquê na sequência.

The Expendables 3 teve pré-estreia entre os dias 4 e 11 de agosto nas cidades de Londres, Marbella, Cologne, Paris e Los Angeles. A produção estreou no Líbano no dia 7 de agosto, e no dia 15 nos Estados Unidos. Até ontem, dia 22, o filme tinha arrecadado pouco menos de US$ 22,8 milhões apenas nos Estados Unidos, e mais US$ 21,5 milhões nos demais mercados em que havia estreado. No total, quase US$ 44,3 milhões. Francamente, não acho esses números ruins. O filme deve continuar fazendo bilheteria e chegar, no final, perto dos US$ 80 milhões ou US$ 100 milhões. Acho um bom resultado, levando em conta a fórmula da produção.

Não assisti aos filmes anteriores da grife, mas após sair da sala de cinema, ouvi alguns comentários de quem assistiu a todos esses filmes de que este terceiro é o melhor. Não duvido.

Além dos atores já citados, vale comentar o trabalho de Terry Crews como Caesar, parceiro de Barney Ross e que é atingido de maneira mortal por Stonebanks; Glen Powell como Thorn, o hacker da nova turma de The Expendables; Victor Ortiz como Mars, especialista em armas da nova leva; Ronda Rousey, mulher boa de sopapos e que atua com os anteriores; Kellan Lutz como Smilee, o líder natural da nova turma; Jet Li em quase uma ponta como o apoio de Drummer (Harrison Ford) no momento da ação; e o veterano Robert Davi como Goran Vata, que vai fazer negócios com Stonebanks.

Especialmente engraçada a participação do Schwarze neste filme. Ele aparece quase como a “voz da razão” de Stallone, e muitas vezes brinca com o fato de estar com tédio – como se o protagonista da produção fosse um tanto “mole”, mais que o Schwarze. Engraçado. Mais que a maioria da interpretação exagerada de Banderas – e, por isso mesmo, Stallone acerta ao tirar sarro do ator neste sentido.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,3 para esta produção. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 93 textos negativos e 48 positivos para esta produção, o que lhe garante uma aprovação de apenas 34% e uma nota média 4,9.

Termino por aqui, provisoriamente, os comentários sobre esta produção. Assim que possível, falo de outros aspectos do filme. Abraços e até logo!

CONCLUSÃO: O que esperar de um filme como The Expendables 3? Certamente muitas e variadas cenas de ação, incluindo perseguições, tiroteios sem fim e pancadarias “mano a mano”. Pois bem, esta produção apresenta tudo isso e mais um desfile surpreendente de astros. O roteiro tem diversos momentos de ironia, inclusive autorreferencial, com tiradas relacionadas ao estilo dos atores e de filmes do gênero. Para quem procura este formato de filme, é certeza de diversão e entretenimento. Recomendo.

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Los Amantes Pasajeros – I’m So Excited! – Os Amantes Passageiros

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O mundo é gay. E as pessoas aguardam apenas um momento de incerteza para transar, e muito. Essas são duas premissas do novo filme do espanhol Pedro Almodóvar, Los Amantes Pasajeros. Entendo o desejo do diretor de perder um pouco o controle vez ou outra, mas este filme, que começa até engraçado, lá pelas tantas perde a direção de maneira impressionante. Esqueça a fase mais filosófica e interessante do diretor. Em Los Amantes Pasajeros Almodóvar volta a trilhar o caminho iniciado no anterior La Piel Que Habito, no qual o principal interesse do realizador é assumir o exagero como ideia fundamental de seu trabalho.

A HISTÓRIA: Equipamentos são retirados após o embarque dos passageiros em um avião da companhia aérea Península. Uma das últimas etapas é a retirada das proteções dos pneus dos trens de pouso, feita por León (Antonio Banderas). Ao ver a Jessica (Penélope Cruz), León se entusiasma. E é correspondido. Distraída, Jessica atropela a um operário (Coté Soler). Este incidente interrompe as tarefas de León, o que vai prejudicar o voo pilotado por Benito Morón (Hugo Silva) e Álex Acero (Antonio de la Torre), e exigir jogo de cintura da equipe formada por Fajas (Carlos Areces), Joserra (Javier Cámara) e Ulloa (Rául Arévalo) para controlar os poucos passageiros que acabam não sendo sedados no avião.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Los Amantes Pasajeros): Gosto muito do estilo Almodóvar de fazer cinema. Especialmente porque ele deu um novo vigor para um cinema que tinha pouca relevância há algumas década, que era o cinema espanhol.

Depois de alguns experimentos nos anos 1970, Almodóvar chegou na década seguinte com filmes como Pepi, Luci, Bom y Otras Chicas de Montón, Entre Tinieblas e o divertidíssimo Qué He Hecho Yo para Merecer Esto!! O cinema dele era exagerado, mas carregado de sentido, de significados, da cultura espanhola e de uma carregada crítica ao puritanismo, a hipocrisia e aos valores antigos que pareciam não fazer mais sentido em uma sociedade que tentava ser mais moderna e libertária.

No final dos anos 1990, com Todo Sobre Mi Madre e Hable con Ella, Almodóvar deixa para trás o desejo de chocar com sexo e comédia carregada de costumes para fazer um cinema mais denso, psicológico, quase filosófico. Com estes filmes, ele chega ao auge da carreira, ganhando fãs internacionalmente que ele nunca tinha imaginado um dia conseguir. Paralelo a isso, ele também melhorou com a técnica da direção e da narrativa. Tornou-se um diretor e um roteirista melhor.

Muito bem, isso até este Los Amantes Pasajeros. Certo que suas produções anteriores, Los Abrazos Rotos (comentada aqui no blog) e La Piel que Habito (o qual comentei neste texto) não falavam tanto dos dilemas humanos quanto os brilhantes Todo Sobre Mi Madre e Hable con Ella mas, cada um deles, tinha peso dramático e envolvia o espectador a sua maneira. Além de roçar com exageros interessantes, que revisitavam partes “perdidas” da filmografia do diretor.

Los Amantes Pasajeros retoma a parte mais sexual de Almodóvar, mas sem muito sentido. Na verdade, o filme inicia como uma grande brincadeira. Os espanhóis tem um pouco essa filosofia de “cachorros de rua”. Até recentemente, antes da conquista da última Copa do Mundo, a Seleção espanhola era sempre vista como aquela que lutava, brigava, mas sempre morria na praia. E em muitas outras esferas, que não apenas a do futebol, eles são vistos como incapazes de grandes feitos – e essa leitura eu faço por ter morado na Espanha por alguns anos e ter visto esta estranha e constante divisão dos espanhóis entre serem arrogantes e terem este complexo de inferioridade mal resolvido.

Então imaginar uma situação como a vivida em Los Amantes Pasajeros com a filosofia do “cachorro de rua” espanhola é divertido. Um avião com risco de não conseguir pousar é um problema para qualquer tripulação e passageiros, mas nem todos lidariam com esta situação de forma tão displicente e típica quanto os espanhóis. Certo, a ideia até que não é ruim. Mas o desenvolvimento dela que acaba sendo o problema.

Quem já assistiu a muitos filmes, certamente viu a alguns clássicos que tem o ambiente claustrofóbico de um avião como cenário principal. A referência máxima de comédia sobre uma situação complicada é o filme Airplane!, simplesmente genial. Então quando Los Amantes Pasajeros começa a ganhar corpo e percebemos que aquele avião com três comissários de bordo gays tem problemas, é inevitável não relembrar do descontrole de Airplane! O que é ruim para a nova produção do diretor espanhol.

O roteirista Pedro Almodóvar faz comédia nos mínimos detalhes. A companhia aérea da produção chamar-se Península, por exemplo, faz alusão à empresa Iberia – que, inclusive, faz “presença” no filme com um avião que decola antes da aeronave onde a maior parte da história se passa. Os primeiros minutos da produção, com Antonio Banderas e Penélope Cruz fazendo pontas com acentuados sotaques andaluzes, também é uma cereja no bolo – os dois, como vocês sabem, foram descobertos e lançados no cinema por Almodóvar.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Em seguida, somos apresentados a figuras muito típicas do imaginário espanhol – a mulher “vidente”, Bruna (Lola Dueñas); o “matador de aluguel” Infante (José María Yazpik); o “don juan de meia idade” Ricardo Galán (Guillermo Toledo); o “executivo ladrão” Sr. Más (José Luis Torrijo) e a “celebridade” que conhece os homens mais poderosos do país, Norma Boss (Cecilia Roth). Almodóvar junta todos eles na classe executiva de um avião que tem o risco de não conseguir pousar por causa da trapalhada que acontece no início da produção.

Para enfrentar o problema, estes passageiros e mais os tripulantes, incluindo o trio de comissários gays e os pilotos “de cabeça aberta”, entram em uma sequência de “buscas pelo essencial” de suas vidas. Daí surgem as ligações telefônicas em que todos escutam tudo, e que passam pela escolha de Almodóvar em mostrar as mulheres da vida de Galán, assim como a tentativa de Norma em ameaçar um ministro para defender a própria vida e a retomada de um contato importante na vida de Sr. Más.

Para mim, o filme começa a perder a graça quando sai do avião e segue Alba (Paz Vega, irreconhecível) e Ruth (Blanca Suárez). Uma história paralela que não agrega praticamente nada para a trama e que faz o filme perder o ritmo. Dispensável, pois. A única justificativa para aquelas sequências foi o diretor colocar duas belas mulheres – especialmente Blanca – em cena.

Além de fazerem contato com as últimas pessoas com quem gostariam de falar na vida – afinal, existe a dúvida se aquele voo pode ser o último de suas existências -, os personagens principais da trama enchem a cara de álcool e sexo. No melhor estilo “o que você faria se este fosse o seu último voo”, cada um revela a sua personalidade sem filtros e sem censura. E isso é tudo.

O filme é cheio de baboseira mas, se visto com um pouco de distanciamento, se revela uma sátira à Espanha contemporânea. Algo que marca o cinema de Almodóvar – aqui, pelo menos, ele não se perdeu. O problema apresentado no filme é provocado pelos próprios espanhóis – com aquela trapalhada inicial protagonizada pelos personagens de Antonio Banderas e Penélope Cruz. Fazendo um paralelo, é o mesmo que dizer que a bolha imobiliária, a grande causadora da crise atual na Espanha, foi causada pela ambição e pela falta de critério dos próprios espanhóis – se não de todos, pelo menos do sistema financeiro, que no filme é criticado pelo exemplo do Sr. Más. Aliás, no jornal que o personagem lê, é possível ver vários escândalos envolvendo “cajas” e bancos do país – o que de fato aconteceu.

Como as pessoas agiram para enfrentar a crise atual, e que segue persistente, no país de Almodóvar? Houve o 15M, é claro – que envolveu passeatas e “acampadas” para protestar contra as políticas de cortes do governo e contra a crise. Mas, no dia a dia das pessoas, houve também muita gente enfrentando os problemas com álcool, drogas, sexo e musicais. Alguns quiseram manter as aparências, como Norma Boss, enquanto tantos outros, talvez a maioria, permaneceu “anestesiado” – como a maior parte dos passageiros do voo comanda por Almodóvar.

Fazendo esse exercício de paralelo dramático/artístico com a realidade espanhola, até que o filme não parece tão idiota assim. Mas enquanto eu estava assistindo à produção, o pensamento predominante era: “Almodóvar, meu caro, aonde você vai com esta história burlesca?”. Não achei que ele fosse chegar a parte alguma, mas torcia para o filme não ter mais de duas horas. E, uma das poucas qualidades desta produção, além de uma ou outra parte realmente engraçada, é que ela dura menos de uma hora e meia. Gracias! Agora, nos resta esperar a um Almodóvar um pouco mais inspirado e menos tresloucado da próxima vez.

NOTA: 5,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Sempre que assisto a uma comédia, fica evidente para mim que o humor é algo muito, muito pessoal. Até mais do que outras escolhas que fazemos na vida – como o time de futebol para o qual torcemos, nossa religião ou forma de amar. Muitas vezes o meu senso de humor não coincide com o de vários leitores deste blog. Sabendo disso, sou obrigada a comentar que o “ponto alto” desta produção, que é a encenação da música I’m So Excited, de The Pointer Sisters, não me fez gostar mais do filme. Pelo contrário. Achei muito sem graça.

Adoro assistir a Madrid como personagem de filmes – especialmente dos de Almodóvar. Mas achei bem forçada a entrada da cidade na história junto com as personagens Alba e Ruth. Ok que o diretor quisesse dar mais “profundidade” para os seus personagens. Mas, de fato, a entrada das duas mulheres no roteiro torna o filme mais interessante? Não achei.

Agora, nem tudo são problemas em Los Amantes Pasajeros. Javier Cámara está maravilhoso no papel de Joserra, o comissário que ganha protagonismo na história. Também foi muito bom rever Raúl Arévalo, Carlos Areces, Hugo Silva e Antonio de la Torre em cena. Eles são alguns dos atores mais importantes do cenário do cinema espanhol atual. Sem contar, claro, a sempre diva Cecilia Roth e a respeitada e competente Lola Dueñas.

Algo bacana nesta produção é o espaço que ela dá para os bonitões made in Espanha. Hugo Silva, claro. E, além dele, Miguel Ángel Silvestre como o Noivo que é um colírio para os comissários do avião – e para os espectadores.

Tecnicamente, mais uma vez, Almodóvar nos entrega um filme limpo e bem construído visualmente. Para isso, ele contou com a ajuda do diretor de fotografia José Luis Alcaine. A trilha sonora, um dos pontos fortes da produção, achei apenas “ok”, nada demais. E ela é assinada por Alberto Iglesias, antigo parceiro do diretor.

Inicialmente eu estava dando até uma nota menor para este filme. Um 5. Mas aí o paralelo com a atual situação da Espanha me fez melhorar um pouquinho a nota. Ainda assim, claro, ela está muito abaixo da média para os filmes do Almodóvar.

Falando em notas, vale citar os dois sites que eu normalmente comento por aqui. Os usuários do IMDb deram a nota 5,7 para esta produção. Para vocês terem uma ideia, esta é a menor nota para um filme de Almodóvar no site, exceto por Folle… Folle… Fólleme Tim!, primeiro e desconhecido longa do diretor lançado em 1978. Todas as outras produções lançadas por ele depois tem uma nota melhor que Los Amantes Pasajeros. Achei justo porque, afinal, este filme está beeeem abaixo do padrão do diretor ao qual estamos acostumados. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 56 textos negativos e 52 positivos para esta produção, o que lhe garante uma aprovação de 48% e uma nota média de 5,7. Quase empatei na avaliação com eles – e só porque gosto muito do Almodóvar.

Agora, algumas curiosidades sobre esta produção: Los Amantes Pasajeros marcou a sétima parceria entre Banderas e Almodóvar e a quinta entre Penélope Cruz e o diretor. Mesmo com tantas presenças em filmes do diretor espanhol, esta foi a primeira vez que os dois contracenaram juntos em uma produção de Almodóvar.

Como normalmente faz em suas produções, Pedro Almodóvar dá uma pequena ponta para o irmão e produtor Agustín Almodóvar. Ele “interpreta”, neste filme, ao controlador da torre do aeroporto onde a produção acaba.

Los Amantes Pasajeros estreou no circuito comercial dos cinemas espanhóis em março deste ano. Depois, o filme passaria por cinco festivais, nenhum de ponta. O mais conhecido é o de Los Angeles. Nesta trajetória, a produção não foi indicada para nenhum prêmio – seria uma surpresa se tivesse acontecido diferente.

Para quem gosta de saber os locais em que o filme foi rodado, Los Amantes Pasajeros teve cenas gravadas em Madrid e em Ciudad Real.

De acordo com o site Box Office Mojo, este último filme de Almodóvar conseguiu, até o último dia 22 de agosto, quase US$ 1,3 milhão nas bilheterias dos Estados Unidos e pouco mais de US$ 10,3 milhões nas bilheterias dos demais mercados onde já estreou. Pouco, como se pode ver.

CONCLUSÃO: Gostei do começo despretensioso e irônico de Los Amantes Pasajeros. As pontas dos astros Antonio Banderas e Penélope Cruz foram muito bem planejadas e tem o tempo adequado para o filme. Depois, achei brilhante o desempenho de Javier Cámara e Lola Dueñas. Mas quando Los Amantes Pasajeros resolve colocar histórias paralelas para “aprofundar” a ação, em um filme nada profundo, e descamba para a orgia, me cansei.

Aparentemente Almodóvar se cansou de fazer filmes mais “existenciais”, naquela fase em que ele se tornou um cineasta premiado e reconhecido internacionalmente. Não acho que ele seja obrigado a seguir uma filmografia séria, até porque o passado dele é muito mais satírico, exagerado e polêmico e abandonar esta verve seria negar o próprio passado do diretor. Mas este novo filme dele, para mim, apenas tirou uma hora e meia do meu tempo, que poderia ter sido utilizado para assistir a um filme melhor, com um diretor e roteirista mais inspirado. Esta produção tem alguns momentos engraçados mas, no saldo geral, achei ela beeeeem dispensável – apesar da produção fazer uma sátira contemporânea da Espanha. Veja se gostar muito do diretor e se não tiver nada melhor para assistir.

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Haywire – À Toda Prova

Alguns diretores são interessantes. Eles se esforçam para desenvolver uma linguagem própria, um estilo diferenciado, apresentar uma cereja em cada bolo (leia-se filme) que entregam. Steven Soderbergh é um destes nomes. Em seu novo filme, Haywire, o diretor volta a apostar em uma forma diferenciada de fazer cinema. A proposta é boa, até um determinado momento do filme. Mas joga contra o diretor um roteiro fraco e uma atriz sem expressividade alguma. Mais uma vez, Soderbergh aposta em uma garota desconhecida para estrelar um filme seu. Desta vez, ele errou na escolha, ainda que Gina Carano seja ótima nas cenas de ação, na interpretação ela é péssima.

A HISTÓRIA: Uma garota olha com capuz olha fixo para um café de estrada. Ela entra, tira a mochila e senta em uma mesa. Tira o casaco, toma um chá e olha um grupo de amigos em uma mesa próxima. Vê a chegada de um carro, e não fica satisfeita ao ver quem saiu dele. Ela se prepara, e começa uma conversa truncada com Aaron (Channing Tatum). Ele pede para Mallory Kane (Gina Carano) facilitar e acompanhá-lo até o carro, mas ela se nega. Depois de brigarem, Mallory foge no carro de um dos rapazes que estava no café, Scott (Michael Angarano). Enquanto dirige e pede para ele fazer um curativo em seu braço, Mallory explica porque está sendo perseguida.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Haywire): A primeira parte deste filme é muito, muito interessante. O estilo de Haywire lembra demais os grandes filmes de ação dos anos 1960. Não apenas o estilo de direção, que foca os atores em um estilo que lembra algumas vezes o documentário, algo mais cru e naturalista, mas também pela presença marcante da trilha sonora. Ela parece onipresente, e um elemento fundamental para marcar o ritmo do filme.

O elemento novo, conquistado principalmente a partir dos anos 1980, são as lutas perfeitamente coreografadas. A violência come solta, nestes momentos – e há um bocado de pancadaria em Haywire. E se o início do filme já mostra algo fundamental para a produção, que é a beleza e a alta limitação interpretativa da atriz Gina Carano, logo de cara, ele também deixa claro, nos primeiros minutos, a escolha por ter filmes antigos como referencial principal do diretor.

Steven Soderbergh é um sujeito que conhece bem o seu ofício. Um diretor que procura fazer um trabalho diferenciado do “balaio” dos cineastas que fazem filmes de ação. Muitas vezes ele acerta, mas em outras ele erra. Depois de “descobrir” Sasha Grey, uma atriz de pornô, e decidir que ela seria a estrela de The Girlfriend Experience, Soderbergh resolveu destacar a novata Gina Carano em Haywire.

Nos dois casos, o principal predicado de escolha foi a beleza, não há dúvidas. As duas são garotas lindas. Como eu escrevi nesta crítica, acho que Grey se saiu bem no filme mais sério que ela já estrelou na vida por uma simples razão: ela conhece bem aquele tipo de papel, de mulher-objeto. Mas Carano não se sai tão bem. Ela é linda, é verdade, correu e bateu muito bem. Mas Haywire exigia para o papel principal uma atriz que conseguisse expressar alguma emoção mínima em determinados momentos. E ela não consegue isso.

Neste ponto, é possível ver um paralelo entre Carano e Arnold Schwarzenegger. Digamos que ela é um Schwarzenegger de saias. 🙂 Ambos se dão (no caso dele, se dava) muito bem em filmes de ação, batendo, assustando, fazendo caras de gente malvada. Mas isso é tudo. Há um momento em que Carano deve parecer muito sensual e provocante em Haywire. Não acho que ela convenceu neste papel. Não achei ela provocante, apenas bonita. Faltou encontrar uma atriz que pudesse servir de alvo para outro herói dos filmes do gênero, o personagem James Bond. Qualquer “bondgirl” convenceria masi que Carano.

Falei tanto da atriz porque ela é fundamental para Haywire. A história gira em torno dela. Mas algo que não funciona muito bem neste filme é, também, o roteiro de Lem Dobbs. Ele escolheu um dos caminhos clássicos do gênero: entrega uma pílula da história quando ela já está avançada, em um momento fundamental da “fuga”, e depois, a partir de um conflito, investe no recurso do flashback – pontuado, como manda a regra, volta e meia por alguma cena do momento presente.

Certo, recurso batido. Mas ele existe por uma razão simples: que o momento presente seja explicado e “complicado”, pouco a pouco, pela explicação do que levou os personagens até aquele ponto. O problema é que o flashback não dialoga bem com o presente. E quando digo isso, não quero dizer que existam falhas na condição da história, mas que simplesmente o presente não torna o flashback mais tenso ou vice-versa. E sem essa tensão, o recurso se esvazia.

Lá pelas tantas, a história segue a rota linear. Ou seja, sae de cena o flashback e tudo o que acontece é no momento presente. Aí sim o roteiro mostra o quanto ele é batido, fraco, e como o final será previsível. Evidente que a direção de Soderbergh é a melhor parte do filme.

O diretor acerta no resgate do estilo cru de filmes como o clássico Bullitt, e de filmes do James Bond estrelados por Sean Connery, para citar dois exemplos. As cenas de pancadaria muito bem encenadas e filmadas, é o que o filme tem de melhor. Assim como as outras de perseguições – pelas ruas, correndo, ou em prédios, como se fazia antigamente, antes da ação se resumir a carros e tiroteios – são bem feitas. Mas isso é tudo. E é muito pouco.

O final é decepcionante. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Afinal, toda aquela simulação para culpar a protagonista foi feita tendo como motivação dinheiro e uma certa “dor de cotovelo” do ex-chefe e amante, Kenneth (Ewan McGregor). E mais uma neurose de Rodrigo (Antonio Banderas), que se sentiu exposto por ela em uma negociação. Argumentação bem fraquinha, convenhamos. Haywire não vale o ingresso, apesar de sempre ser interessante ver um diretor como Soderbergh tentando acertar.

NOTA: 5,7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Steven Soderbergh é, provavelmente, junto com Quentin Tarantino, o sujeito que melhor sabe aproveitar as referências dos filmes do passado, especialmente os de ação, e escancará-las em uma releitura mais modernete. A linguagem de Haywire lembra totalmente a de filmes históricos do gênero. Além dos filmes já citados, me lembrei de The French Connection, Shaft (o original, de 1971), Mean Streets, e de um clássico que ainda estou para ver: Faster, Pussycat! Kill! Kill!, dirigido por Russ Meyer e considerado, por nomes como John Waters, com o melhor filme de todos os tempos.

Nada em Haywire supera espécimes do gênero feitas anteriormente. E daí vem aquela pergunta básica: então para que gastar US$ 23 milhões em uma produção que não agrega nada? Pois é, eis uma boa pergunta. Acho que um filme como este só se justifica pela preguiça das pessoas em buscarem filmes melhores no passado. Porque há pessoas – e conhece algumas – que acham que não há nada de bom no cinema mudo ou naquele anterior aos anos 1980 ou 1990.

Que pena que muitos pensem assim. Alguns dos melhores filmes de ação de todos os tempos são, justamente, dos anos 1960 e 1970. Por isso acho que diretores como Soderbergh e Tarantino se dão tão bem. Eles fazem filmes para quem não conhece os originais e, consequentemente, vê muitas novidades nestas versões “cheias de homenagens” – para não dizer cópias.

Se o roteiro de Haywire é fraco e a direção de Soderbergh tem seus momentos interessantes, e se a atriz principal é só bonita, mas o elenco de “apoio” é formado por nomes de respeito, temos que admitir que algumas figuras da equipe técnica merecem alguns aplausos.

Para começar e, principalmente, a trilha sonora de David Holmes. Grande trabalho – e principal trunfo do filme. Outro que faz a sua parte com excelência é Soderbergh na direção de fotografia. Acertadas as escolhas de cores, tons e os momentos em que o filme fica em preto e branco. Ele sabe trabalhar bem com o visual.

O filme está centrado em Gina Carano. Mas há um elenco de “apoio” importante, e com nomes que já mostraram um excelente trabalho em outros filmes – mas que aqui, como Carano, parecem muito anestesiados. São eles: Channing Tatum como Aaron, parceiro de Mallory em missões encomendadas e bem pagas; Ewan McGregor como Kenneth, o chefe da agência de espiões; Antonio Banderas como Rodrigo, o homem por trás da “genial” ideia que irá resolver os problemas de alguns poderosos – ele incluído; Michael Douglas como Coblenz, um cara do governo dos Estados Unidos que gosta de Mallory; Michael Fassbender como Paul, um agente secreto inglês; Mathieu Kassovitz como Studer, o sujeito rico que está por trás de toda essa história; Bill Paxton como John Kane, pai de Mallory; e Anthony Brandon Wong como Jiang, o “sequestrado” que é resgatado por Mallory e equipe e que não tem uma fala no filme, mas que é importante para a história. Um baita elenco, mas que não tem espaço para aprofundar a história de nenhum de seus personagens. Todos muito rasos e superficiais.

Francamente? A minha vontade era dar uma nota ainda menor para este filme. Mas em respeito ao “virtuosismo” da direção de Soderbergh, resolvi elevar um pouco o conceito. Não porque o filme seja bom, mas porque ele se esforçou para fazer algo diferente.

Haywire estreou no Festival AFI em novembro de 2011, mas entrou em cartaz, comercialmente, apenas em janeiro deste ano nos Estados Unidos e em outros 16 países. Até o dia 18 de março, o filme havia acumulado pouco mais de US$ 18,9 milhões nos Estados Unidos. Como ele custou, pelo menos, US$ 23 milhões, pode-se dizer que ele não está no caminho do sucesso.

Antes de estrelar este filme, a texana Gina Carano havia participado da série de TV Fight Girls, em 2006, feito um papel no game Command & Conquer: Red Alert 3 e um papel em Blood and Bone. E só. Agora, pós Haywire, ela vai estrelar o thriller In the Blood, atualmente em pré-produção e que será dirigido por John Stockwell.

Algumas outras pessoas que merecem palmas por este filme são Jonathan Eusebio, J.J. Perry, Don Tai e Jon Valera. Eles atuaram como coreógrafos das lutas. Sem dúvida, a melhor parte de Haywire são aquelas cenas de pancadaria muito bem planejadas. Além de criativas, elas vendem bem a ideia de serem plausíveis – ainda que a protagonista pareça demais uma Mulher Maravilha.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,3 para o filme. Achei uma boa nota. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram bem mais generosos, dedicando 129 críticas positivas e 32 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 80% e uma nota média de 6,8.

Haywire foi filmado em Dublin, na Irlanda, e em Los Alamos, nso Estados Unidos – com algumas cenas simulando locais de Nova York. Esta é uma co-produção Estados Unidos e Irlanda.

CONCLUSÃO: Uma pena quando um filme tem uma proposta bacana, mas não consegue sustentá-la até o final. Gina Carano é muito fraca. Ótima na corrida e na pancadaria, mas péssima em qualquer momento em que ela precisa repassar o mínimo de emoção que deveria estar sendo vivida por sua personagem. E quando um filme tem uma atriz no foco o tempo todo, como é o caso de Haywire, ele acaba sendo muito prejudicado com uma intérprete fraquinha. Este é um dos problemas fundamentais deste filme. Mas não é o único. O estilo do filme, que relembra a alguns clássicos antigos de ação, acaba cansando lá pelas tantas. Especialmente da metade para a frente, quando o filme da uma certa “reviravolta”. A “surpresa” não cria realmente tensão – a trilha sonora é mais eficaz que o roteiro neste ponto. E todos sabemos o que vai acontecer até o final, o que mata o filme antes dele terminar – afinal, o elemento surpresa já era. Fora isso, esta é mais uma produção cheia de estilo e experimental de Soderbergh. Mas ele já fez melhores. Quem sabe no próximo ele acerte a mão? Ou segue apresentando trabalhos que, ao apostar tanto em uma linguagem mais dinâmica e diferenciada, se esquecem de elementos básicos, como um roteiro melhor acabado e uma atriz principal decente. Não foi desta vez, com Haywire, que ele conseguiu o equilíbrio.

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La Piel Que Habito – A Pele Que Habito

Pedro Almodóvar é um sujeito raro. Ele tem um gosto estético e apreço pelas estranhezas da alma humana diferenciados no cinema mundial. Quem mais, além dele, poderia fazer um filme como La Piel Que Habito? David Lynch, talvez. Mas certamente Lynch faria isso com menos dramaticidade, cores, lógica histérica e sóbria, dependendo do momento, como Almodóvar. O diretor espanhol sabe como fascinar, provocar risos, tesão e chocar como poucos. Mais uma vez, ele faz tudo isso. Ainda que com menos maestria que em produções anteriores. Ou, talvez, um pouco menos de classe.

A HISTÓRIA: Toledo, 2012. Na propriedade El Cigarral, uma mulher faz exercícios. Depois ela medita, enquanto lhe preparam um café da manhã com um remédio dissolvido no suco de laranja. Com um livro de Louise Bourgeois ao lado, ela corta um pedaço de tecido fino com uma lixa de unha para moldar mais um personagem. Marilia (Marisa Paredes), empregada da casa, envia por um elevador interno o café da manhã de Vera (Elena Anaya). Depois de fazer um pedido e tê-lo recusado, Vera escolhe um vestido, o coloca e corta um pedaço do pano. Corta. Ouvimos, em um auditório, o médico Robert Ledgard (Antonio Banderas) fala sobre a importância da reconstrução estética para a recuperação de sobreviventes de queimaduras. Logo mais, vamos descobrir o que une Vera e Ledgard.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir comenta trechos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a La Piel Que Habito): O apuro estético e a força da trilha sonora de La Piel Que Habito foram os dois elementos que me chamaram a atenção no filme, logo no início. E eles seguiram se destacando até o final. Almodóvar tem um gosto plástico e estético fundamental. Ele avançou nesta qualidade com o tempo e, mesmo que a história deste novo filme relembre produções mais antigas, este apuro estético revela a evolução do diretor. Relembra sua fase mais atual. E a trilha sonora…

Logo no início, fiquei imaginando o filme sem a música que o cadencia. Ele perderia, sem dúvida, muito de sua graça. O que só comprova que La Piel Que Habito é uma produção dramática, que exige uma trilha sonora potente para intensificar as “emoções” exploradas pelas linhas do roteiro. De fato, o ótimo e experiente Alberto Iglesias faz neste filme mais um grande trabalho. A trilha é tão protagonista desta produção quanto Antonio Banderas e Elena Anaya.

Além da música e do critério estético apurado de Almodóvar, La Piel Que Habito se destaca por retomar um tom dramático exarcebado do diretor. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Ainda que ele nunca tenha deixado de ser “visceral”, em seus últimos filmes a violência ligada ao sexo perdeu força. Os gostos mais duvidosos e as taras mais estranhas perderam força em outras produções – algo que era mais comum no início da carreira de Almodóvar. Mas aqui, elas voltam a mexer com a libido e a imaginação do espectador.

Sem medo de errar, o diretor e roteirista investe em uma história densa, que trata de loucura, paixão, desejos reprimidos, busca da perfeição e de vingança e, claro, desejo de fugir. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Elementos que Almodóvar conhece bem, por eles estarem tão entranhados na cultura espanhola. Não deixa de ser especialmente significativo este filme desenrolar-se em Toledo, uma cidade pequena, muito turística, tradicional e que é “vendida” como local do encontro de três culturas: a cristã, a judia e a islâmica.

Interessante que, desde o princípio, La Piel Que Habito deixa claro que Vera era uma prisioneira. Sabemos disso, mas não entendemos bem o porquê daquela prisão, no início. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). A semelhança dela com Gal, a mulher morta de Robert, abre uma série de conjecturas. Por exemplo: seria possível ele ter feito um clone da mulher? Mas aí a questão da idade não bateria – ele teria que estar muito mais velho. Por isso mesmo, quando descobrimos o que realmente aconteceu, a surpresa não é completa. O que surpreende, claro, é a narrativa das mudanças pelas quais passa Vicente (o ótimo Jan Cornet) feita com esmero e requintes de sadismo por Almodóvar.

Este desejo de mostrar o absurdo em detalhes, quase com uma lupa, é o que faz Almodóvar sem quem é. E que torna La Piel Que Habito um retorno curioso para o lado mais sádico do diretor. Há humor e absurdo na história, claro, como é típico de Almodóvar. Mas o dramalhão está ali, assim como o esforço do diretor em mostrar que muitos dos problemas psicológicos e ações desmedidas/violentas tem origem em desejos sexuais mal administrados.

A respeito dos protagonistas, algo me chamou a atenção: o quanto eles estão presos a desejos opostos. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Desde o princípio, Vicente/Vera alimenta um desejo angustiante de fuga. Ele quer sair de Toledo, daquela forma de vida provinciana. Mas apegado à mãe (Susi Sánchez), ele adia a saída do “pueblo”. Depois, quando acontece o que acontece e ele passa a ser prisioneiro, ele segue querendo fugir. Mesmo quando parece que não, que ele está conformado. É apenas a forma dissimulada que ele adota para sobreviver.

(SPOILER). Por outro lado, Robert está apegado àquela “finca”, à sua propriedade e sentimentos. Mesmo quando o amor que ele sente é por pessoas que já morreram e por realidades que não podem mais ser resgatadas. Ele é a permanência, o tradicional, o sujeito que aparenta uma coisa para a sociedade mas que, em casa, revela-se algo totalmente diferente – e repugnante, detestável. Vicente é o rebelde, aquele que toma drogas para aguentar uma realidade que não suporta. Ele é o novo que não consegue lidar com o antigo e com as aparências enganosas.

Não acho que foi um acaso a escolha do título deste filme ou mesmo do que este nome significa dentro da trama. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Afinal, todo aquele cuidado de Robert com a pele de Vera simboliza o seu apreço pelas aparências. Mas a pele e, consequentemente, estas aparências não resistem muito tempo. Não resistem ao desejo da mudança de Vera/Vicente. Roupas, tecidos, peles se rasgam e se cortam facilmente. Robert, que simboliza a sociedade tradicional espanhola – e de vários outros países – pode até costurar, remendar, consertar. Alterar as aparências para atingir determinados padrões de beleza. Mas o que Almodóvar parece nos dizer, implícita ou explicitadamente, é que este jogo de aparências terá fim. Uma hora ou outra, e talvez de maneira trágica. Porque, afinal de contas, “o novo sempre vem”. E ele, normalmente, quebra os padrões até então vigentes. Rasga peles. Algumas vezes sem remendos.

Esta, para mim, é a leitura principal de La Piel Que Habito. É a mensagem de fundo de um filme que pode ser visto apenas como uma sequência de bizarrices. Ok, essa compreensão também não estaria equivocada. Mas como qualquer outro filme de Almodóvar, o diretor quer dizer mais do que o óbvio. Pelo que eu comentei antes, achei o filme interessante. Os atores, mais uma vez, são um ítem a parte. Muito bem escolhidos pelo diretor, eles dão um show. Convencem. Emocionam. Conduzem os espectadores pela mão.

Antonio Banderas, que há tempos não me convencia como ator, está bem. Para a minha surpresa, devo admitir. Ele não está exagerado – em um papel onde não seria difícil um ator se perder. Está sóbrio, preciso, charmoso e viril, como o personagem exige. Elena Anaya também está perfeita, mostrando fragilidade nos gestos e firmeza no olhar que definem a personagem. Marisa Paredes… bem, ela está engraçada como sempre. Uma veterana que merece respeito. Mas quem rouba a cena, para mim, foi o ator Jan Cornet. Fantástico. Ele vai ganhando pontos conforme a história vai ficando mais densa. Mas toda a sua interpretação é bem cadenciada, equilibrada para cada momento.

Até aqui, só falei dos acertos de La Piel Que Habito. Mas o filme tem algumas falhas também, a meu ver. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Para começar, e acho que só nós, brasileiros, vamos entender esta crítica com a devida prudência, achei muito “fake” a forma com que o diretor, que conhece bem o Brasil, simplificou a história de Zeca (Roberto Álamo). Meio boba a mistura do português com o espanhol – ok, muitos brasileiros que moram na Espanha falam o “portunhol”, mas não vi muito sentido em introduzir isso na história. Também bastante óbvia a ideia de “meu filho não foi criado por mim, e sim em uma favela, virando ‘aviãozinho’ logo cedo” para justificar o desvio de Zeca. A velha e batida história de que qualquer criança que cresce na favela está fadada a ser bandido. Achei bobo, simplista. Dispensável.

Além deste ponto e, francamente, o que mais me incomodou, foi o final. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Ok, sabemos que Almodóvar é dramático. Quem conhece um pouco mais de perto a cultura espanhola, sabe que eles gostam de um drama. Mas aquele “tiroteio” realmente era a forma mais interessante de terminar a história? Para o meu gosto, pareceu demais com o final de qualquer novela. Muito previsível e simplista… até parecia que o diretor estava com pressa de terminar o trabalho. Almodóvar me deu a impressão, com este final, que ele achou muito mais interessante contar a história do que terminá-la. Além disso, há a cena do vestido… eu acho que foi uma forma bacana de terminar o filme. Afinal, como o personagem convenceria quem ele queria com a sua história? Elementos simbólicos sempre ajudam neste sentido. Mas não deixei de me perguntar, mesmo assim, da onde ele tirou aquele vestido? A peça estaria na casa da mãe dele e ele passou lá antes de ir para a loja, já vestido? Certo, nem todo filme precisa ser lógico e convencer em todos os seus pontos. Ainda assim, estas sequências finais me incomodaram e tiraram parte do êxito do filme.

NOTA: 8,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Acho que é hora de fazer uma confissão, por aqui. Afinal, eis o último dia de 2011. E eis que publico mais um texto atrasado. E a minha confissão para vocês, queridos leitores deste blog, é que eu também sou um pouco rara. Não com o talento do Almodóvar para rareza – e outras coisitas más – mas sou meio estranha para outras coisas. Como na decisão sobre o filme seguinte que eu vou assistir.

La Piel Que Habito estava na minha lista de filmes a serem assistidos há vários e vários meses. Claro, o novo filme do Almodóvar, só poderia fazer parte da minha lista. Mas daí ele foi lançado, chegou aos cinemas brasileiros, e eu não consegui assistí-lo naquele momento. Daí eu pensei: “Ah, agora passou do tempo”. Porque eu sou estranha assim… por mais que eu goste de um diretor ou por mais que eu queira ver a um determinado filme, se eu acho que passou do tempo de assistí-lo, eu deixo pra lá. E vou assistir a outra produção qualquer que está na minha lista.

Só voltei atrás e assisti a La Piel Que Habito no início desta semana porque eu vi que ele está concorrendo ao próximo Globo de Ouro. Daí eu pensei: “Taí a minha desculpa para ressuscitá-lo”. E eis que ele acabou sendo o último filme que eu assisti em 2011. Queria ver outro filme, esta semana, mas não deu tempo. Gostei que, no fim das contas, mesmo que meio que por acidente, acabou sendo este o último a aparecer por aqui em 2011. Faz sentido. Quem sabe esta não é uma homenagem indireta à Espanha, país que eu adoro e que voltei a visitar este ano? Pois…

Até o momento La Piel Que Habito não obteve êxito nos cinemas. Há estimativas de que o filme tenha custado cerca de US$ 13 milhões. Nos Estados Unidos, até o dia  18 de dezembro, ele tinha arrecadado pouco mais de US$ 2,94 milhões. E olha que Almodóvar é bem conhecido e respeitado na terra do Tio Sam. Na Espanha, o filme chegou perto de conseguir uma bilheteria de US$ 5,8 milhões. No fim das contas, juntando todo o resultado nos cinemas, talvez o filme se pague. Mas não conseguirá quase lucro algum. Algo ruim, claro. Mas nada que impedirá o diretor a seguir trabalhando.

Esta produção estreou no Festival de Cannes, em maio de 2011. Depois, ele participou de outros 12 festivais e duas semanas de cinema. Entre os festivais, esteve no Karlovy Vary, no de Toronto, no do Rio de Janeiro e em Estocolmo. Mesmo com esta trajetória, ele não saiu vencedor em nenhum evento no qual participou.

O único prêmio recebido por La Piel Que Habito, até o momento, foi o de melhor filme em língua estrangeira entregue pela Associação de Críticos de Cinema de Washington DC. Além deste, ele foi indicado a outros sete prêmios.

Francamente, não acho que este novo trabalho de Almodóvar vai ganhar o próximo Globo de Ouro. Não porque o diretor não mereça. Não porque o filme seja ruim. Mas eu acho que há concorrentes mais fortes. Não assisti a nenhum dos outros quatro indicados, mas acho que seria mais fácil a crítica premiar o iraniano Jodaeiye Nader az Simin (que tem a nota 8,6 no IMDb) ou o belga Le Gamin Au Vélo (com nota 7,6) do que este La Piel Que Habito. Se fosse outro filme do Almodóvar, acho que ele até poderia ganhar. Mas este novo é muito “underground” para levar um prêmio comercial como o Globo de Ouro. Sempre posso errar, claro, mas esta é a minha aposta.

Para quem ficou curioso de saber onde o filme foi rodado, além de Toledo, que aparece identificada no início da história, La Piel Que Habito tem cenas rodadas em Pontevedra, na Galícia; em Puente Ulla e Santiago de Compostela, em La Coruña; e em Madrid.

Todos os atores que aparecem no elenco deste filme fazem um belo trabalho. Mesmo o personagem tosco do Zeca é bem interpretado por Roberto Álamo. Sempre é um prazer assistir a Marisa Paredes. E foi surpreendente ver Banderas bem, assim como o trabalho competente de Elena Anaya. Volto a comentar que achei o grande destaque do filme o ator Jan Cornet. E faltou citar, antes, o bom trabalho de Blanca Suárez como Norma (ou Norminha), filha de Robert Ledgard;  Bárbara Lennie como Cristina, em uma ponta que se destaca na produção; o conhecido ator (pelo menos na Espanha) Eduard Fernández como Fulgencio, amigo do protagonista e que ajuda ele a manter uma clínica ilegal; e de Fernando Cayo em uma ponta como médico.

Como acabou sendo costume na segunda parte da filmografia de Almodóvar, aqui, outra vez, ele dedica momentos relevantes da história para a interpretação de algumas músicas. A artista da vez, na ótica do diretor, é Buika, uma cantora de 39 anos nascida na cidade de Palma, nas Ilhas Baleares. No filme, são interpretadas duas canções dela: El Último Trago e Pelo Amor.

A trilha sonora é fundamental para este filme dar certo. Mas além dela, outros aspectos técnicos merecem ser destacados. O diretor de fotografia José Luis Alcaine faz um belo trabalho, assim como José Salcedo na edição, Antxón Gómez no design de produção e Carlos Bodelón na direção de arte. O figurino, assim como a trilha e a fotografia, também ganha relevância especial. Um bom trabalho de Paco Delgado.

Os usuários do site IMDb deram uma boa nota para La Piel Que Habito: 7,7. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes quase acompanharam esta nota. Eles publicaram 112 textos positivos e 30 negativos para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 79% (e uma nota média de 7,3). Especialmente a nota me chamou a atenção, já que os críticos do Rotten Tomatoes geralmente são bem exigentes.

Lembrei de outro detalhe do filme que talvez incomode a algumas pessoas mais detalhistas. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Alguns de vocês podem pensar, como eu: “Ok, até posso engolir que Vera foi totalmente ‘moldada’ ao gosto de Robert, cortando aqui, emendando ali, enchendo com silicone acolá. Mas como diabos ela foi ter aquela voz, tão diferente?”. Pois então, eis algo muito mais difícil de mudar. Não apenas as mãos e pés são complicadas de serem alteradas. Assim como a estrutura física – um ser mais alto que outro. Mas principalmente, e eis o ponto, a questão da voz. Só que no início do filme vemos Marilia colocando um remédio na bebida de Vera. Poderia ser um tipo de hormônio – ainda que eu ache que deveria ser tranquilizante. E até o “ópio” poderia ser outra substância. Ou enfim, Vera poderia ser tratada com hormônios em outro momento, o que “afinaria” a voz. E no fim, é preciso “tapar um olho” para embarcar na história, não é mesmo? 🙂

Ah sim, e antes que eu me esqueça, La Piel Que Habito não foi o indicado da Espanha para o próximo Oscar. Sendo assim, ele concorreria na premiação apenas em alguma categoria principal – melhor filme, diretor, atores ou roteiro. Acho difícil.

Não comentei antes, mas La Piel Que Habito foi escrito por Pedro Almodóvar com a colaboração de Agustín Almodóvar, seu irmão. Os dois se basearam no livro Tarantula, de Thierry Jonquet.

CONCLUSÃO: Este não é o melhor filme de Almodóvar. Mas com esta produção ele retoma uma fase de estranheza deixada para trás há bastante tempo. Almodóvar dá um tempo na profundidade dramática plasmada em suas últimas produções para contar uma história que flerta entre o terror psicológico, o terror ligeiro e o drama. Claro que há loucura e sexo no meio da história. Dois dos temas de fundo preferidos do diretor. E ainda que ele não emocione, como em outras ocasiões, ele provoca outros sentimentos. E se o cinema existe para isso, para provocar, Almodóvar segue em forma. Há momentos em que a história flerta perigosamente com o mau gosto, com o tosco, mas o diretor acerta o momento exato que faz ele desviar-se do abismo. Como eu disse antes, não é o seu melhor filme. Mas La Piel Que Habito mostra um frescor importante do diretor. Quem sabe o próximo não vem ainda melhor calibrado?