Song to Song – De Canção em Canção

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Três pessoas e seus amores – especialmente, suas mulheres. O diretor Terrence Malick volta à cena com mais uma de suas narrativas diferenciadas, fragmentadas e cheias de pensamentos, palavras não ditas e muita beleza. Song to Song nos parece, mais que uma história, um compêndio de lembranças. É como se os protagonistas revisitassem as suas próprias histórias e paixões e falassem sobre tudo aquilo como pessoas um tanto “onipresentes” sobre tudo o que acontecia. Um filme muito peculiar, bem ao estilo de seu realizador.

A HISTÓRIA: Ele abre a porte devagar enquanto ela espera com o rosto perto da parede e da porta. Faye (Rooney Mara) confessa, em suas reminiscências, que houve um tempo em que sexo bom, para ela, tinha que ser violento. Faye e Cook (Michael Fassbender) se provocam sobre o chão. Faye continua comentando sobre como, para ela, era importante tentar sentir algo. E que ela decidiu experimentar tudo que podia. Por sua parte, Cook vivia a vida freneticamente. Outras pessoas aparecem em cena. Pessoas das quais vamos saber parte de suas histórias e desejos.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Song to Song): Para assistir a este filme, não é preciso nenhum manual de instruções. Mas é altamente recomendado conhecer o estilo do diretor Terrence Malick. Especialmente o seu “mais recente” estilo de contar histórias de uma forma bastante fragmentada, de jeito “confessional” e mais artística do que o normal para Hollywood.

Não adianta assistir a um filme de Malick e achar que vai encontrar pela frente uma história “regular”, “mais uma” produção de um cineasta norte-americano. Esse diretor, que ficou 20 anos sem filmar depois de ter emplacado um sucesso de crítica e público, não se importa com convenções. Ele faz cinema como lhe parece melhor e de um jeito que faz sentido para ele. Em sua trajetória há filmes mais “palatáveis” e outros nem tanto. Depois de fazer o elogiado Days of Heaven, em 1978, Malick voltaria a lançar um longa apenas em 1998, The Thin Red Line.

Entre os seus filmes, The Thin Red Line pode ser considerada uma produção mais “mainstream” ou mais “facilmente digerível” pelo grande público. Mas nem sempre o diretor trabalha com este perfil de filme. Vide The Tree of Life que, quem acompanha o blog há mais tempo, sabe que me pareceu um tanto pretensioso demais. Mas Malick não se importa realmente com o que os outros acham. Ele faz os filmes da forma com que para ele faz sentido e espera que cada um trabalhe as suas histórias como lhe convir melhor.

Da minha parte – e como vocês sabem, super respeito as opiniões contrárias -, gostei mais deste Song to Song do que de The Tree of Life. Os dois filmes são um tanto pretensioso, além de “artísticos”, mas uma boa diferença entre eles é que nesta produção mais recente não temos que ver a uma longa de sequência da “origem dos tempos” que vimos em The Tree of Life. Em Song to Song o que interessa é a reflexão de três personagens sobre as suas próprias buscas pelo amor.

Sim, como eu comentei antes, novamente aqui temos a uma narrativa bem fragmentada e sem um sequência “lógica” dos fatos. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). A história não é linear, ainda que, por um tempo, o espectador pode acreditar que sim. Mas conforme vamos acompanhando as diferentes reflexões dos personagens sobre as suas escolhas e trajetórias, percebemos que não. A sequência dos fatos não é apresentada conforme tudo aconteceu e sim conforme os personagens vão “revisitando” as suas próprias lembranças.

Ainda que o filme tenha três “narradores” – Faye, Cook e BV (Ryan Gosling) em algum momento comentam as suas próprias lembranças -, existe um certo protagonismo da personagem de Rooney Mara. Ela é praticamente onipresente na história. Mas há sequências em que ela não aparece e nas quais os personagens de Ryan Gosling e Michael Fassbender contam um pouco sobre outras de suas desventuras amorosas.

Song to Song não é muito óbvio sobre a narrativa “ir e vir” na linha temporal. Percebemos isso nos detalhes, como quando BV pergunta para Faye o que “eles” fizeram com a “professora”. Ora, ele está se referindo à mulher de Cook, Rhonda (Natalie Portman). Conforme a história apresentada por Malick, parece que Cook conhece Rhonda após ele ter “desistido” de Faye. A nossa protagonista, encantada por BV, acaba deixando para trás a relação intensa, um tanto “doentia” e “caótica” que ela tinha com Cook. Mas quando a secretária do ricaço DJ e músico vira amante dele, aparentemente, ele já era casado com Rhonda.

Como este filme é um grande compêndio de reminiscências de três pessoas sobre os seus amores e as suas trajetórias, não existe uma preocupação temporal na narrativa. Pense em você mesmo. Quando você começa a lembrar de seus amores e de suas escolhas, dificilmente você segue uma ordem realmente cronológica, não é mesmo? As lembranças vão e vem conforme a ordem que nós mesmos colocamos nas nossas recordações. Muitas vezes a ordem que damos vai do ponto mais importante para o que tem menos importância, mas esta graduação também vai mudando com o tempo.

O mesmo parece acontecer com este filme. E por fazer esta escolha Malick nos apresenta algo interessante e um tanto “inovador”. Poucos diretores – para não dizer que mais nenhum – teria a coragem de fazer um filme tão diferenciado. Mas esta parece ser a natureza de Malick. Então a narrativa é interessante. Ponto. Mas isso não torna o filme brilhante. Francamente, acho que a produção deixa a desejar um bocado na questão musical – eu esperava bem mais música embalando a trama – e, muitas vezes, a história abre espaço para um certo “puxa-saquismo” de estrelas da música.

Certo que o foco da história são personagens que vivem naquele ambiente. Mas tem pouco a acrescentar as “aparições” de famosos como Iggy Pop, Patti Smith ou os caras do Red Hot Chili Peppers (Flea, Anthony Kiedis e Chad Smith). É bacana vê-los interagindo com os personagens da história, mas achei um tanto “forçado” colocar Iggy Pop e Patti Smith em sequências maiores do que aparições relâmpago.

Além disso, apesar de eu agradecer de não ter uma longa e tediosa sequência sobre “a origem da vida e a evolução até hoje” ao estilo de The Tree of Life para encarar neste novo filme, achei que toda a “arte” do nosso amigo Malick carece um pouco de conteúdo. Ele ama belas imagens, assim como ama tirar interpretações “legítimas” de seus atores, incentivando eles a se “soltarem” a partir de seus personagens. Dá para perceber que os astros em cena – e a lista é admirável – também se divertem. Mas no final, o que fica para nós, espectadores de tudo isso?

Sim, quem ama belas cenas tem várias aqui para curtir. Os fãs dos astros escolhidos à dedo para esta produção também vão vê-los em grande forma. Belos, valorizados pelo diretor. Mas e aí? O que Song to Song nos diz, afinal? O roteiro retrata alguns ambientes e personagens que tem tudo a ver com o século 21. Jovens – ou não tão jovens assim, mas que gostariam de ser jovens para sempre – que gostam de viver cada dia ao máximo.

Que gostam, como bem define Faye, de experimentar. Muitas vezes eles exageram nesta experimentação porque querem sentir algo… preencher um vazio que, só tempos depois, eles vão descobrir que não será preenchido com música, raves eletrônicas, conhecendo famosos, enchendo a cara ou se drogando. O tempo ensina um bocado, assim como as experiências, é claro. Este é um filme sobre pessoas que olham para as suas próprias trajetórias e amores tentando aprender com elas. Colhemos o que plantamos e, algumas vezes, um pouco mais do que isso. Song to Song trata disso e de mais.

Achei esse filme interessante por ele tratar tão bem de pessoas que estão vivendo os nossos dias. Pessoas de carne e osso, como você e eu, a gente tendo ou não os mesmos ambientes em comum. Não importa se você se identifica com eles ou não. Temos em comum a nossa humanidade e nossa busca pelo amor – atual ou que ficou no passado. Como eles. Achei por isso Song to Song um filme bastante humano, apesar da forma dele ser tão diferenciada e, muitas vezes, esta forma roubar o protagonismo do conteúdo.

Algo que eu achei interessante nesta produção é como ela mostra que uma pessoa nunca é uma coisa só. Faye nos mostra isso de uma forma muito bem acabada. Ela vive diversos amores durante a produção. Está sempre disposta a “experimentar”. Os diferentes momentos – que eu chamo de retratos – da personagem são mostrados neste filme. Mas a junção deles nos revela o “filme” da vida da personagem. E nós também somos assim. Somos retrato (no momento) e também filme (na passagem do tempo). Não somos, assim, uma coisa só… somos múltiplos, complexos, simples e, conforme a vida passa, sabemos cada vez mais o que nos interessa e o que não.

Esta é a beleza da vida. E isso Song to Song nos apresenta. Bem no seu estilo, é claro. Mas esta mensagem está ali. Depois de Faye experimentar um bocado, ela sabe definir melhor quem ela é o que lhe interessa. O que lhe faz mais sentido. Esta é a beleza da passagem do tempo e do aprendizado. Os personagens deste filme e nós mesmos vamos aprendendo com os nossos erros e nossos acertos. Sabendo selecionar melhor o que nos faz bem e o que nos dá sentido. Faye descobre que tipo de amor lhe interessa, ainda que essa descoberta parece ter sido um tanto tardia – e as suas escolhas anteriores terem cobrado um preço grande dela através da culpa.

Estas questões renderiam outro texto, longas discussões, mas não vem ao acaso. O que importa mesmo é o que Song to Song nos apresenta histórias de amor e de vida interessantes e muito atuais. No mundo há muita fúria, caos, amor, alegria, culpa, entrega e desespero. Sentimentos e reações que são retratados nesta produção. Cook é um cara cheio de grana que gosta de mostrar o que o dinheiro pode comprar e trazer “de bom”. Mas ele não percebe a destruição que esse mesmo dinheiro e falta de freios pode causar – até que é tarde demais.

Quantas pessoas existem no mundo com este perfil? Quantas você já encontrou pela frente ou apenas ouviu falar? Cook realmente “contamina” todos que estão ao seu redor mas, tão cheio de si, não percebe como esta sua forma de vida nos 220 volts provoca estragos. Novamente temos pela frente a questão do “como as pessoas buscam preencher os seus próprios vazios”. Esta é uma questão existencial, tão ao gosto de Terrence Malick.

Para o meu gosto, desta vez, a reflexão existencial dele não é chata. Ela está cheia de amor, cenas provocantes e sensuais e muita, muita beleza. Nossos olhos agradecem, ainda que, no final, podemos pensar que seria interessante ter, além da forma e do visual, um pouco mais de “substância” na história. Mas isso tudo, evidentemente, vai depender do gosto do cliente.

Para os fãs do diretor e para as pessoas que gostam dos atores em cena, dificilmente este filme não será prazeroso. Para os demais – a maioria – ele será longo demais e “artístico” demais. Acho que eu fico no meio do caminho entre estas duas visões, pendendo um pouco para a primeira. Até porque, no fim das contas, o filme tem uma mensagem interessante. De que o amor pode sim preencher aquele vazio existencial do qual boa parte da história trata. Voltar para o simples, deixar tanta besteira de lado e focar no amor pode ser uma boa saída. Song to Song nos mostra isso.

NOTA: 8,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Como sempre, não gosto de ver muito sobre o filme que eu vou assistir antes de conferi-lo de perto. Sendo assim, para mim foi uma surpresa ver tantos astros nesta produção. Claro que eu já sabia que estavam neste filme Ryan Gosling, Michael Fassbender e Rooney Mara. Mas foi uma surpresa ver também Natalie Porman e Cate Blanchett, só para citar os papéis importantes. Além delas, fazem papéis menores outros nomes interessantes/importantes, como Holly Hunter, Bérénice Marlohe, Val Kilmer, Linda Emond, Lykke Li e Olivia Grace Applegate.

Isso para citar apenas os atores. Além deles, há muitos outros famosos da música. Além dos já citados anteriormente, vale citar John Lydon, Florence Welch, Big Freedia, Tegan e Sara Quin, entre outros.

Song to Song estreou em março de 2017 no Festival de Cinema South by Southwest. Até agosto ele terá participado de outros quatro festivais – incluindo os de Sydney e Melbourne.

Não encontrei informações sobre o quanto o filme custou, e os dados sobre o resultado dele nas bilheterias americanas ainda é restrito, de cerca de US$ 443 mil – resultado em 77 dias em que ele ficou em cartaz em apenas 95 cinemas. Ou seja, ele estreou em um circuito bastante fechado e ainda não se deu muito bem.

Agora, aquelas curiosidades “clássicas” sobre a produção. De acordo com o ator Ryan Gosling, eles filmaram sem roteiro. Isso fica um pouco evidente ao assistirmos à produção, não? Provavelmente os atores receberam linhas gerais sobre os seus personagens e as suas histórias e improvisaram a partir daí. Depois é que vieram as “reflexões” sobre as suas histórias – o que construiu a narrativa propriamente dita.

O ator Christian Bale teria, inicialmente, um papel com certa importância no filme. Mas, no fim das contas, ele acabou participando de apenas quatro dias de filmagens e, no final, o personagem dele foi cortado da produção porque ele se parecia muito com o de Michael Fassbender. Ou seja, seria mais um nome de peso no elenco. Além dele, iriam participar com cenas na produção mas acabaram tendo estas participações cortadas na edição final nomes como Haley Bennett, Trevante Rhodes, Boyd Holbrook, Callie Hernandez, Clifton Collins Jr. e Benicio Del Toro.

Esta produção foi rodada ao mesmo tempo que Knight of Cups, filme dirigido por Terrence Malick e lançado em 2015 – e que eu não assisti. 😉

Song to Song foi parcialmente rodado durante o Austin City Limits Festival 2012 e, por isso, apresenta alguns artistas que se apresentaram no evento naquele ano, como Arcade Fire, John Lydon e Iron and Wine.

O diretor e roteirista Terrence Malick fez uma primeira versão desta produção com oito horas de duração. Já pensaram? hehehehehe. Deste corte final o filme foi sendo reduzido até ficar com pouco mais de duas horas de duração – ufa!

Esta produção foi rodada durante 40 dias no período de dois anos. Quando as filmagens eram feitas, elas eram longas, começando pela manhã e tendo apenas uma pausa de 30 minutos para o almoço. Malick saia com os atores pela cidade, muitas vezes filmando eles dirigindo, para depois usar estas imagens na produção.

Inicialmente esta produção iria receber o título de Limitless. Depois, foi batizada de Weightless. Até que chegaram à versão definitiva de Song to Song. Segundo Malick, com este filme ele quis mostrar como a vida é feita de “uma série de momentos”, como canções que marcam a nossa trajetória. Faz sentido e é muito coerente com o que vemos na telona.

Na primeira sessão de exibição deste filme em Los Angeles, cerca de 15 pessoas deixaram o cinema antes do filme acabar. Realmente o filme não agradou a muita gente, basta ver as bilheterias…

O destaque do filme, além da direção “visceral” de Terrence Malick é, sem dúvidas, o trio de atores principais. Rooney Mara, Ryan Gosling e Michael Fassbender estão bem “soltinhos” e se saem muito bem em seus respectivos papéis. Dos três, sem dúvida alguma o destaque mesmo é Mara. Ela está excelente.

Da parte técnica do filme, como a beleza é um elemento fundamental da história, um dos principais destaques é a direção de fotografia do sempre ótimo Emmanuel Lubezki. Depois, vale citar o bom trabalho do trio Rehman Nizar Ali, Hank Corwin e Keith Fraase na edição; o design de produção de Jack Fisk; a direção de arte de Ruth De Jong; a decoração de set de David Hack; os figurinos de Jacqueline West; o trabalho dos 24 profissionais envolvidos no departamento de som; e o trabalho dos seis profissionais que trabalham com o departamento musical.

Esta produção foi rodada na cidade de Austin, no Texas; e nas cidades mexicanas de Progreso, Mérida e Izamal.

Nem sempre os filmes de Terrence Malick são realmente marcantes. Talvez esta seja uma particularidade do diretor. Os filmes dele nos despertam impressões enquanto os assistimos mas, depois, não perduram muito na memória. Acho que esta é a característica dos filmes sem roteiros marcantes. Tanto isso é verdade que, por exemplo, não lembrava de ter assistido a To The Wonder, produção de Malick após The Tree of Life. Reparei, ao encontrar a crítica do filme, que gostei mais dele do que do anterior. 🙂

Os usuários do site IMDb deram a nota 6 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 58 críticas negativas e 44 positivas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 43% e uma nota média de 5,4. Realmente os críticos parecem ter gostado pouco da produção. Curioso que os críticos aprovaram em 84% The Tree of Life. Realmente o meu gosto não bate com o deles. hehehehe

Este é um filme 100% dos Estados Unidos. Por causa disso ele entra para a lista de produções que atende a uma votação feita há tempos aqui no blog.

CONCLUSÃO: Mais um filme artístico com a assinatura de Terrence Malick. Sim, o diretor tem um estilo próprio e esta produção é mais uma chance dele mostrar isso. Explorando a beleza dos lugares e das pessoas e um estilo de vida à la “carpe diem” nos 200 volts, Song to Song nos conta algumas histórias de amor embaladas por algo de música. Mais que som, o que vemos em cena é desejo, tesão, fúria, suavidade, e muitas, muitas reminiscências. O filme inteiro é como se alguém olhasse para trás, na própria história, e divagasse sobre o que viveu. É uma produção interessante, especialmente se você gosta do diretor e/ou dos atores. Mas vá com paciência. Porque este é um filme bem ao estilo Malick. Lento e “filosófico”, muitas vezes pretensioso e um bocado bonito.

Steve Jobs

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Um personagem de relevância histórica é sempre difícil de retratar em apenas um filme. Basta lembrar de grandes lideranças políticas ou de grandes artistas e os filmes que tentaram contar a suas histórias ou parte delas para ter isto claro. Mas algumas produções conseguem se dar melhor que outras nesta tarefa. Steve Jobs é um destes filmes que fica no meio do caminho. Ele tem qualidades, mas deixa bastante a desejar – especialmente se você conhece um pouco sobre a história do personagem retratado. Francamente, depois de assisti-lo, fico surpresa com as indicações que recebeu para o Oscar. Para mim, não passa de um filme razoável.

A HISTÓRIA: Começa com aquele vídeo histórico com a entrevista que um jornalista da rede ABC fez com o escritor Arthur C. Clarke, de 2001: A Space Odyssey. O jornalista apresenta para o escritor o seu filho Jonathan, comentando que ele será um adulto – a entrevista acontece em 1974 – no ano que o autor projetou em seu livro, e pergunta como será o mundo em 2001. Clarke prevê que todos terão um computador e que as pessoas terão mais liberdade e autonomia por causa disso. Corta.

Passamos para 1984, em Cupertino, na Califórnia, quando Steve Jobs (Michael Fassbender) se prepara para lançar o Macintosh para uma grande e sedenta plateia. Nos bastidores ele discute com Andy Hertzfeld (Michael Stuhlbarg) porque o computador não conseguirá responder “olá” durante a apresentação. A partir deste momento conhecemos mais sobre a personalidade e a vida do homem que transformara a Apple e o consumo de tecnologia no muno.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Steve Jobs): Honestamente, se não fosse pelo Oscar, eu não teria assistido a Steve Jobs. Digo isso porque, como comentei lá no início, sempre acho complicado um filme de duas horas ou pouco mais apresentar um recorte interessante de um personagem histórico interessante e controverso, como é o caso do ícone da informática em questão.

Enfrentei a missão por causa do meu desafio pessoal de assistir ao máximo de filmes que estão concorrendo ao Oscar. Além disso, admito, tinha curiosidade de ver o desempenho de Michael Fassbender e Kate Winslet nesta produção. Afinal, os dois estão sendo volta e meio lembrados em premiações como duas das melhores interpretações de 2015. Não sou uma fanática por Steve Jobs, daquelas que sabe tudo sobre a vida dele. Mas já li um bocado, vi alguns de seus vídeos disponíveis no YouTube – de apresentações de produtos, como o lançamento do iPod e do iPhone, até entrevistas com ele – e, por isso, sei que ele não era um gênio sem problemas.

Muito pelo contrário. Steve Jobs era um visionário com pés, canelas e pernas de barro. Talvez por isso ele chame tanto a atenção. Faz parte da atratividade dele, evidentemente, também ele ter ajudado a mudar uma indústria e a empresa que ele ajudou a fundar e recuperar fazer parte da vida de milhões de pessoas no mundo inteiro. Tivemos vários outros gênios na história da humanidade, muitos deles muito maiores que Steve Jobs – que tal falar de Copérnico, Galileu Galilei, Da Vinci, Darwin e Einstein, só para citar alguns dos óbvios?

Todos viveram em uma época em que não era possível utilizar a mídia global a seu favor e nem promover grandes eventos para o lançamento de suas últimas “descobertas”. Também havia uma capacidade de documentação e registro muito, mas muito menor do que aquela vivida por Steve Jobs. A favor dele, além de uma bela capacidade de persuasão e de convencimento da mídia – falando bem ou mal dele, mas normalmente bem -, havia o fato de tudo poder ser gravado, documentado, transmitido e propagado para milhões como nunca antes na história.

Steve Jobs, o filme, faz um recorte bem pequeno da trajetória de Steve Jobs. O filme vai do lançamento do Macintosh, em 1984, passando pela saída traumática dele da Apple até o retorno do executivo para a companhia para o lançamento do iMac em 1998. Inicialmente, acho estranho contar de forma linear e tão limitada a vida de um personagem como este, tendo a possibilidade de utilizar outros recursos, como flashbacks para contar fatos importantes do passado – esse recurso até é utilizado, mas pouco e de forma muito pontual – e um roteiro e uma edição mais elaborada para contar uma parte maior da vida de Jobs.

Agora, entendo a escolha do roteirista Aaron Sorkin e do diretor Danny Boyle de centrar este filme apenas no período entre 1984 e 1998. Com esta escolha eles tentam resumir este personagem complexo e conturbado em um conceito: um homem brilhante, um tanto cruel, obcecado pelo trabalho e pelos detalhes, frio com a maioria das pessoas mas capaz de mostrar também algum sentimento e, principalmente, obcecado pela Apple e por fazer uma desforra contra todos aqueles que foram contra ele e/ou não entenderam a sua genialidade antes.

O problema é que esta é apenas uma parte da história de Jobs. Verdade que ele era tudo isso, mas ele era também um sujeito muito preocupado com o design e com o “estado de arte” da tecnologia. Ele poderia ser um pouco egocêntrico, mas ele não queria só ser o centro das atenções e retomar o posto que havia perdido na Apple. Ele queria, de fato, comprovar a própria teoria de que as pessoas poderiam ter bons equipamentos, úteis para as suas vidas e que ajudariam a revolucionar o mundo – como previu o Arthur C. Clarke que aparece no vídeo que abre o filme.

Entendo que Sorkin e Boyle escolheram o período citado por mostrar que este gênio da informática teve dois “fracassos” importantes antes de conseguir o primeiro sucesso. Isto é algo fundamental para as pessoas que atuam na área e para a cultura dos Estados Unidos.

Lá, diferente do Brasil, se aceita e até se estimula que um empreender tente e erre antes de simplesmente não tentar. Os fracassos fazem parte do processo. Neste sentido, Steve Jobs acerta ao mostrar como o protagonista desta história se deu mal com o lançamento do Macintosh e, depois, com o lançamento do Cubo da NeXT antes de ter sucesso comercial pela primeira vez.

Mas aí, justamente aí, está um dos grandes problemas deste filme. Algo que me incomodou quando saímos do lançamento do Cubo para “viajarmos” direto no tempo para o lançamento do iMac em 1998. Quem leu a obra de Walter Isaacson, no qual o roteiro de Sorkin teria se baseado ou, como eu, ao menos leu alguns trechos deste livro, sabe que há um capítulo importante neste período temporal de Jobs que fez toda a diferença para a vida dele e para esta história.

Esse capítulo tem a ver com a compra da Pixar por Jobs em 1986. Tudo o que ele fez no estúdio simplesmente é ignorado pelo filme de Sorkin/Boyle. Achei lamentável. Até porque não era difícil falar a respeito – mesmo que a intenção dos realizadores era mostrar sempre os bastidores e momentos de “tensão” que antecederam a algumas de suas famosas apresentações de novos produtos. Além disso, me pareceu exagerada a força que o roteiro fez para mostrar a relação (ou falta dela, em muitos momentos) de Jobs com a filha Lisa (Makenzie Moss quando ela tinha cinco anos, Ripley Sobo quando ela tinha nove e a brasileira Perla Haney-Jardine quando ela tinha 19 anos).

Neste filme percebemos muito o lado perfeccionista e cruel de Steve Jobs, seja no trato dele com a equipe com a qual ele trabalhava e que eram subordinados dele, seja na forma com que ele lidava com a ex-namorada Chrisann Brennan (Katherine Waterston) ou com Lisa. Parece que Sorkin fez questão de mostrar bastante da relação de Jobs com Lisa, em especial, para tentar “humanizá-lo”. Como se o robô fosse, pouco a pouco, se tornando humano. Sabemos que Jobs, de fato, foi com o tempo suavizando um pouco o trato, mas a verdade é que ele nunca deixou de ser perfeccionista e um tanto “babaca” com as demais pessoas.

Isso acontece com muitos de nós, diga-se de passagem. Somos mais diretos, afoitos e temos muita pressa para conquistar o que queremos quando somos muito jovens. Com o tempo, a maturidade nos ensina a desacelerar e a relaxar. Inevitável que isso tivesse acontecido com Jobs. Mas esta reflexão não aparece tanto no filme quanto desejado. Também achei estranho tantas discussões ao estilo “lavar a roupa suja” do protagonista com John Sculley (Jeff Daniels) e Steve Wozniak (Seth Rogen) enquanto o roteiro ignora a Pixar e os outros relacionamentos que Jobs teve na vida – apenas em um breve momento o roteiro cita Joan Baez, mas é só.

Toda obra, e os filmes estão incluídos nesta categoria, defende uma ideia. Isso acontece em Steve Jobs também. Mas a ideia que o filme defende é deficitária. Este é o problema. Esta produção é muito menor do que poderia ser. Verdade que ela tem o mérito, ao menos, de não endeusar Jobs. Menos mal. Ele tinha diversos pecados e falhas, como tantos outros gênios antes e depois dele – mas sem tanta documentação a respeito, volto a ressaltar.

O filme mostra parte delas, mas ignora muitas de suas qualidades – apenas algumas são enfocadas na história. Na maior parte do tempo ele parece apenas um grande babaca obcecado pelo trabalho e por apresentações de produtos perfeitas e que não sabia lidar com as pessoas, nem amar a filha, nem reconhecer os colegas que tinham feito os produtos que ele apresentava com tanta soberba. E ainda que ele fosse um pouco disso, certamente ele era mais do que este retrato imperfeito.

Também senti falta de algo importante no filme: um pouco mais sobre a história por trás dos três aparatos destacados nas apresentações de Jobs. Afinal, como surgiram as “viradas de chave” do Macintosh, do Cube da NeXT e do iMac? Em que pontos Jobs foi decisivo e em que pontos outras pessoas foram determinantes? Claro, alguém pode argumentar, que Sorkin não poderia ter se aprofundado na personalidade de Jobs ao mesmo tempo em que detalhava cada uma destas inovações. Mas acho que ele não precisava nem ir tanto ao céu e nem ir tanto a Terra.

Sorkin poderia perfeitamente ter encurtado as várias discussões entre o protagonista e Wozniak ou de Jobs com Sculley e ter colocado um pouco mais de dinâmica e edição em contar um pouco dos bastidores dos laboratórios e não apenas da “coxia” das apresentações dos produtos. Na verdade, achei o filme bem devagar, em muitos momentos, com um ritmo lento demais e sem a necessária profundidade narrativa ou do personagem central.

Alguns momentos da história também me pareceram forçados para arrancar algum “sentimento” do espectador – especialmente na reta final envolvendo a personagem de Joanna Hoffman (Kate Winslet) e a de Lisa em relação a Jobs. Vi uma forçada de barra desnecessária ali. E quanto às interpretações… Fassbender e Winslet estão bem. O filme é centrado bastante nos dois. Mas não vi em nenhum deles uma interpreta digna do Oscar. E mesmo eles terem sido indicados achei um pouco de bondade da Academia. Se eu votasse, não teria colocado eles lá.

NOTA: 7 6,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Gosto muito do diretor Danny Boyle. Ele está na lista dos diretores que eu gosto sempre de acompanhar. Por isso mesmo achei este Steve Jobs um ponto fora da curva da filmografia dele. Para mim, um de seus filmes mais fracos e, sem dúvida alguma, menos ousados. Claro que ele faz um bom trabalho, como não poderia deixar de ser. Boyle acompanha de perto os atores principais, especialmente Fassbender e Winslet. Acerta ao mostrar os comentários da imprensa após cada lançamento fracassado, dando um certo “contexto histórico” – ainda que limitado – para a história. Mas, cá entre nós, nada inovador.

O roteirista Aaron Sorkin realmente é um dos “queridinhos de Hollywood”. Só isso poderia explicar ele ganhando o Globo de Ouro de Melhor Roteiro por este filme. Para mim o roteiro de Steve Jobs é um dos pontos fracos da produção. E deveria ser exigido que constasse, em alguma parte, que o roteiro é “levemente” baseado no livro de Walter Isaacson.

Porque o livro homônimo dele sim trata Jobs de maneira muito mais ampla e justa, contando a história completa deste personagem, todas as suas nuances, crises, carreira e vida pessoal. Muito diferente do filme. Além disso, me parece um crime Steve Jobs ganhar o Globo de Ouro concorrendo com Room (comentado aqui), Spotlight (com crítica neste link) e mesmo The Big Short (crítica por aqui). Qualquer um destes três tem um roteiro muito, mas muito melhor que Steve Jobs.

Eu até simpatizo com o ator Seth Rogen mas, francamente, acho que um ator mais “de peso” e, talvez, mais velho, deveria ter encarnado Steve Wozniak. Faria mais sentido.

Como comentei antes, o filme é bastante centrado na interpretação de Michael Fassbender e de Kate Winslet. Até porque boa parte da história é feita sobre a interação dos dois. Ambos estão bem, mas nada extraordinário. Cite já alguns coadjuvantes de renome, como Jeff Daniels, Seth Rogen e Michael Stuhlbarg. Os três estão bem, mas algo esperado de atores deste nível – novamente, nada demais. Do elenco de apoio, gostei em especial da interpretação de Katherine Waterston como Chrisann Brennan e da carioca Perla Haney-Jardine como a filha de Jobs quando ela tinha 19 anos. Não lembro de ter visto Haney-Jardine em cena antes. Acho que ela tem carisma e promete. Pode estourar em breve – se tiver boas oportunidades para isso. É alguém interessante para ser acompanhada.

Além desse povo, aparece um pouco mais em cena, entre os coadjuvantes, John Ortiz como o jornalista Joel Pforzheimer.

Da parte técnica do filme, achei interessante o visual conferido em cada momento da história. Mérito do diretor Danny Boyle e, principalmente, das escolhas do diretor de fotografia Alwin H. Küchler. Boa também a edição de Elliot Graham. A trilha sonora de Daniel Pemberton aparece pouco, até porque o filme tem na verborragia dos diálogos de Jobs um de seus elementos centrais, dando pouco espaço para uma trilha sonora. Os demais elementos, como direção de arte, design de produção, decoração de set e figurinos são bem feitos, mas nada a destacar.

Steve Jobs estreou em setembro no Festival de Cinema de Telluride. Depois, o filme participaria ainda de outros seis festivais e mostras de cinema pelo mundo. Nesta trajetória o filme acumulou 12 prêmios e foi indicado a outros 83, incluindo duas indicações ao Oscar. Entre os prêmios que recebeu, destaque para os de Melhor Roteiro e de Melhor Atriz Coadjuvante no Globo de Ouro; e para nove prêmios de Melhor Ator para Michael Fassbender.

Este filme teria custado US$ 30 milhões e faturado, nos Estados Unidos, até o dia 10 de dezembro, quase US$ 17,8 milhões. Nos outros mercados em que ele estreou ele faturou quase US$ 11,2 milhões. Ou seja, no total, ele ainda não conseguiu cobrir nem os gastos com as filmagens – e há ainda outros custos para cobrir. Em resumo, talvez ele não consiga se pagar. Cá entre nós, não me surpreende. O filme realmente não é digno de uma boa propaganda boca a boca. Ele está muito aquém do personagem que tenta retratar.

Steve Jobs foi totalmente rodado nos Estados Unidos, em locais como Berkeley, Cupertino, San Francisco (no War Memorial Opera House e no Davies Symphony Hall) e em Palo Alto.

Agora, algumas curiosidades sobre o filme. Para marcar bem a passagem de tempo, Steve Jobs foi filmado com equipamentos diferentes para cada momento da história. Na primeira parte, em 1984, o filme foi rodado em 16 mm; a segunda parte, em 1988, em 35 mm, e a última, em 1998, em digital.

Michael Fassbender chegou a dizer que o ator Christian Bale deveria ter feito o papel de Jobs. E esta produção, inicialmente, ia ser rodada por David Fincher. Mas a Sony resolveu não aceitar as exigências dele – como pagamento de US$ 10 milhões e controle criativo total sobre a produção – e, por isso, o filme ficou com Danny Boyle. Quando o diretor assumiu o projeto, Jobs foi oferecido para Leonardo DiCaprio, que não topou, e depois para Bale, que também recusou.

O cofundador da Apple Steve Wozniak teria trabalhado como consultor do filme. Por isso, talvez, o personagem dele aparece duas vezes basicamente discursando o mesmo. 😉

Algo curioso: DiCaprio não aceitou fazer Steve Jobs para poder, no lugar, embarcar em The Revenant. E é bem possível que ele ganhe o Oscar por causa desta decisão. Cá entre nós, comparando os filmes e roteiros, sem dúvida alguma ele acertou na aposta.

Inicialmente Aaron Sorkin queria Tom Cruise para interpretar Jobs. Sério?

Agora, mais razões para não gostar do roteiro de Sorkin. O que motivou, inclusive, que eu abaixasse um pouco mais a nota. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Algumas cenas “cruciais” da produção nunca aconteceram na vida real. Por exemplo, aquela em que Lisa faz um desenho no Macintosh. Outra que nunca aconteceu foi a “reconciliação” entre John Sculley e Jobs e a maioria dos argumentos utilizados por Steve Wozniak com Jobs, além da sequência final entre Jobs e a filha (esta, na verdade, ao menos para mim, já estava na cara que tinha sido forçada).

Busquei no livro de Isaacson essa parte sobre a paternidade de Lisa Brennan. O livro é claro sobre como tudo aconteceu e explica que Jobs simplesmente decidiu ignorar que ele era pai da menina. É como se ele pudesse “escolher” entre ser pai ou não e ter optado pela segunda opção – mesmo sendo óbvio que Lisa era a sua filha. No livro, comenta-se, que ele fez isso porque tinha outros planos para a sua vida – como fazer a carreira que ele fez. Ou seja, um belo de um babaca e covarde.

O computador que ele lançou com o nome de Lisa era, de fato, uma homenagem para a filha que ele negava até então. Outra verdade é que inventaram um acrônimo que não significava nada para tentar “esconder” a homenagem para a menina. Em outro momento do livro Isaacson comenta que quando Lisa ficou maior, ela e o pai viviam uma relação de altos e baixos. Os dois eram temperamentais e tinham dificuldade de pedir desculpas. Chegaram a ficar mais de um ano sem se falarem.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,5 para esta produção. Uma boa avaliação, levando em conta o padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 198 críticas positivas e 34 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 85% e uma nota média de 7,6. Este é um dos raros casos em que eu não consigo ter uma visão tão positiva quanto o resto do público e da crítica – vocês sabem que eu costumo ser bondosa. 😉

Este filme é uma coprodução dos Estados Unidos com o Reino Unido.

CONCLUSÃO: Há alguns anos eu ganhei o livro Steve Jobs, de Walter Isaacson, de presente. Até hoje não li a obra inteira, apenas trechos aqui e ali. Mas por atuar como jornalista e cobrar as áreas de economia e tecnologia, impossível não ter lido, nestes anos todos, tantas histórias e partes sobre a vida e a obra de Jobs. Por isso mesmo achei este filme bastante menor do que ele poderia ser. Verdade que a história acerta ao mostrar dois grandes fracassos do ícone da tecnologia antes dele começar a acertar e iniciar o processo que tornaria a Apple a empresa mais valiosa do mundo.

Mas fora isso, muito da personalidade e da história do retratado fica de fora – e detalhe, com “esquecimentos” importantes no período retratado. As interpretações dos atores principais são boas e coerentes, mas nada demais. Em resumo, um filme apenas mediano. Se tiveres outra opção para assistir e que tem a tendência de ser melhor, recomendo passar para uma segunda opção.

PALPITES PARA O OSCAR 2016: Steve Jobs acabou sendo indicado em apenas duas categorias do prêmio máximo da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Ele disputa como Melhor Ator para Michael Fassbender e como Melhor Atriz Coadjuvante para Kate Winslet. Francamente? Se for feita a justiça, ele não levará em nenhuma destas duas categorias.

Sem dúvida alguma Leonardo DiCaprio e Eddie Redmayne estão melhores e The Revenant e The Danish Girl (comentado aqui), respectivamente. E o mesmo pode ser dito de Matt Damon por seu trabalho em The Martian (com crítica neste link). Então, só em Melhor Ator, temos três nomes mais fortes que Fassbender na disputa. Se ele ganhasse, para mim, seria a maior zebra da noite.

O mesmo posso dizer da categoria Melhor Atriz Coadjuvante. Alicia Vikander, para mim, é o nome do ano. Ela merece levar o Oscar. Mas se ela não levar, prefiro Rooney Mara em Carol (com crítica neste link) do que Winslet em Steve Jobs. Nada contra os atores, quero deixar claro, mas para mim há uma diferença grande de performance entre eles. Sendo assim, não será nenhuma surpresa se Steve Jobs não ganhar nada no Oscar deste ano.

12 Years a Slave – 12 Anos de Escravidão

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A pior chaga da história recente das civilizações ganhou um filme que pode ser considerado definitivo. 12 Years a Slave foi feito para não deixar dúvidas de que a escravidão foi um absurdo na trajetória humana. Há quem tenha classificado ele como “The Passion of the Christ da escravidão”. Há sentido na comparação, mas 12 Years a Slave consegue ser um pouco mais “suave” que a produção dirigida por Mel Gibson que está completando uma década este ano. Ainda assim, não se engane: este é um filme forte e que mexe com o espectador.

A HISTÓRIA: Um grupo de homens negros está parado, de pé, como em uma fotografia antiga. Eles olham fixo para um senhor branco que lhes ensina o “jogo do corte” da cana de açúcar. Em seguida, os homens começam a trabalhar e seguem a instrução de fazerem isso ao som de uma canção. Um destes homens, Platt (Chiwetel Ejiofor) é observado pelo dono daquelas terras, o juiz Turner (Bryan Batt). Mais tarde, ao comer, Platt pensa em separar algumas frutas escuras do prato para transformá-las em tinta.

Ele fabrica o próprio “lápis” e tenta escrever, sem sucesso. À noite, todos os negros são colocados para dormir no chão, encostados uns nos outros. Platt acaba ajudando uma mulher a ter certo prazer em meio ao drama e à dor. Mas logo ele volta no tempo e lembra da mulher, Anne (Kelsey Scott) e dos filhos Margaret (Quvenzhané Wallis) e Alonzo (Cameron Zeigler) que ele foi obrigado a deixar.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes de 12 Years a Slave, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu ao filme): A expectativa era grande para este filme. Por mais que eu não goste de saber quase nada sobre uma produção que ainda não assisti, foi impossível não ouvir algo do grande burburinho sobre 12 Years a Slave. Primeiro, foi a ótima Ana Maria Bahiana a divulgar, muitos meses antes das bolsas de apostas para o Oscar ganharem força, que este filme era o melhor de 2013. E depois vieram as listas para o Oscar, e 12 Years a Slave sempre entre os mais cotados.

Sendo assim, impossível não começar a assistir ao novo filme de Steve McQueen sem esperar ver a uma grande produção. Como vocês sabem (eu já falei sobre isso aqui antes algumas vezes), toda grande expectativa é difícil de ser plenamente satisfeita. Por isso mesmo, e por mais que fiquem evidente várias qualidades deste filme logo no início, foi difícil achá-lo tão formidável quanto as críticas por aí tem comentado.

Voltemos um pouco nesta avaliação, antes da conclusão sobre o filme. Algo que eu achei interessante no trabalho do roteirista John Ridley, que trabalhou sobre o original de Solomon Northup – o romance Twelve Years a Slave – foi que ele evitou a forma de narrativa clássica. Ou seja, jogou em diferentes momentos com o vai e vem da história, mesclando “tempo presente” com a explicação sobre o que aconteceu com o personagem principal e as reminiscências que ele tinha sobre a própria história. O recurso não exatamente novo, mas funciona bem ao dar uma quebra importante no filme – evitando que ele se tornasse “maçante”.

Mas se por um lado o vai-e-vem do roteiro imprime dinâmica para 12 Years a Slave, ele também exige atenção redobrada da audiência. Afinal, não é a tarefa mais simples do mundo lembrar de personagens secundários como Parker (Rob Steinberg), por exemplo. E o detalhe é que personagens como ele acabam tendo uma relevância inusitada. (SPOILER – não leia a partir daqui se você ainda não assistiu ao filme). Para quem não conseguiu ligar o “nome à pessoa”, Parker é o dono da loja onde Solomon vai com a mulher e os filhos comprar mercadorias com uma certa frequência – o suficiente para a família ser tratada com respeito e simpatia. Esse mesmo Parker será o homem que irá atrás de Solomon quando ele é tratado como Platt na fazenda de Edwin Epps (o sempre ótimo Michael Fassbender).

Além do roteiro bem construído e que dá o espaço exato para cenas de pura crueldade – a mais angustiante, para mim, foi a do enforcamento de Solomon praticado pelo covarde John Tibeats (Paul Dano) -, algo que me chamou a atenção logo nos primeiros minutos do filme foi o estilo de direção de Steve McQueen. O diretor, que merecidamente deve ser indicado ao Oscar, escolheu a forma mais realista de contar esta história. Não é por acaso, mas bastante emblemática, a cena inicial, com um grupo de negros em pé, de olhos fixos, olhando para um capataz – imagem que lembra uma fotografia antiga.

Assim, a câmera do diretor desliza entre as folhas da plantação de cana-de-açúcar, foca nas pás do barco que leva os escravos de maneira opressiva, acompanha cada tortura e crueldade infligida aos negros da mesma forma com que revela o modo de vida dos brancos senhoriais. McQueen tem um propósito muito claro na cabeça e sabe concretizá-lo sem pestanejar. Ele quer contar a história verdadeira de Solomon Northup seguindo o ponto de vista deste artista negro que foi sequestrado e vendido como escravo, ficando nesta condição por tempo suficiente para não ver o crescimento do casal de filhos.

O efeito é marcante. Impossível não ver a cenas como a já citada e extremamente angustiante sequência do quase enforcamento do protagonista, assim como à pancadaria que Solomon sofre quando é “transformado” em Platt ou às chibatadas sádicas contra Patsey (a revelação excelente Lupita Nyong’o) sem nos sentirmos também feridos.

Se não fisicamente, porque nunca teremos a noção exata da dor física e moral de toda aquela injustiça, mas pelo menos na alma. McQueen e equipe conseguem o propósito de não apenas revisitar um capítulo da história dos Estados Unidos nunca explorado de forma realista, mas também de trazer toda aquela dor e absurdo à tona de forma com que o espectador descubra em si uma empatia necessária e urgente.

Li em alguma parte, como eu disse lá no início, uma comparação de 12 Years a Slave com The Passion of the Christ. De fato, em algumas cenas, especialmente nas mais fortes do filme de McQueen, temos a sensação de que o nível de crueldade não pode ser maior – sensação similar ao assistir à releitura que Gibson fez da sempre lembrada história do calvário de Cristo. Mesmo que haja paralelo, contudo, 12 Years a Slave não apresenta tantos closes de feridas e flagelos impostos injustamente quanto The Passion of the Christ – ainda assim, há quem diga que parte da Academia resiste a premiar o filme porque ele seria cruel demais.

Além do estilo do diretor, algo muito marcante em 12 Years a Slave, me chamou muito a atenção no filme a trilha sonora de Hans Zimmer. Em diversos momentos a música ajuda a contar a história, tornando ainda mais angustiante e repressivo o momento vivido pelo espectador. Um trabalho interessante e que não é muito comum no cinema – onde, na maior parte do tempo, a trilha sonora ajuda a contar a história, mas não se torna uma de suas protagonistas. Mais um excepcional trabalho deste veterano do cinema, Hans Zimmer.

Após comentar os elementos que mais me chamaram a atenção, devo dizer que 12 Years a Slave é, desde já, o filme mais marcante do qual tenho lembrança sobre o tema da escravidão. Desde Gone with the Wind os escravos são mostrados no cinema norte-americano, em diferentes produções, como uma classe necessária para o progresso do país e que foi tratada com “benevolência” pelos patrões. Sabemos que isso é uma grande balela. Quem nunca ouviu falar nos navios negreiros, no trabalho forçado e no estupro sem fim pelo que passaram os escravos que tente acreditar em uma mentira como esta.

No Brasil, para a nossa “sorte”, não tivemos uma segregação racial formal como nos Estados Unidos, onde até hoje muitos brancos do Sul do país acreditam que os negros são inferiores. Talvez por isso mesmo 12 Years a Slave tenha outra repercussão na América do Norte. Não que por aqui o filme não tenha valor. Nada disso. Mas lá, tenho certeza, ele tem outro tipo de discussão e de repercussão. O que resta saber é se o país e a Academia, que faz parte da indústria cultural que dita e revisa valores no país e para o mundo, estão preparados para aceitar a reflexão com maturidade e valorizando a coragem de McQueen.

Em mais de um século de cinema, é difícil um filme ser lançado e rapidamente tornar-se um marco em determinado tema. 12 Years a Slave conseguiu isso em relação ao tema da escravidão. Além dos pontos já citados, é preciso destacar o excelente trabalho do elenco escolhido de forma precisa. Chiwetel Ejiofor de fato está ótimo como Solomon Nothup, o músico talentoso que vivia com a família em Saratoga, cidade que faz parte do condado de Nova York, e que tem a vida mudada em 1841. Depois que a família viaja para fora da cidade, ele aceita o convite dos “artistas” Brown (Scoot McNairy) e Hamilton (Taran Killam) para ganhar um bom dinheiro em apresentações com um circo em Washington.

Enganado pela dupla, Solomon acaba sendo sequestrado e transformado no escravo Platt. Não demora nada para que ele seja espancado e “ensinado” a sobreviver. Desta forma, Solomon abandona a própria identidade e aprende a ser subjugado. É comprado primeiro por Ford (o também sempre competente Benedict Cumberbatch, estrela da ótima série Sherlock) que, apesar de ser um homem íntegro e culto, não é capaz de romper a lógica da exploração humana. Na fazenda de Ford, Platt/Solomon logo mostra ser um homem diferenciado, com diversas habilidades – o que desperta a inveja do cruel Tibeats, o chefe carpinteiro da propriedade e considerado um dos “mestres” da fazenda.

Mesmo incapaz de dar ouvidos a Platt, Ford tem a dignidade de agir para salvar a vida do homem que, mesmo sem admitir, ele passou a admirar. Desta forma que Solomon acaba parando nas mãos de Epps, considerado um dos mais cruéis donos de escravos da região. Na ótima interpretação de Michael Fassbender conhecemos um pouco mais a cara do “homem senhorial” dos Estados Unidos no século 19. Fraco para a bebida, sádico e racista, ele maltratava homens e mulheres de diferentes formas, tendo a esposa interpretada por Sarah Paulson (muito bem no papel também) não apenas como cúmplice, mas como artífice também de crueldades.

Além de trabalhar duro cortando madeira e construindo edificações com ela, Platt/Solomon foi explorado na colheita de algodão e de cana-de-açúcar. Encontrou em Ford e no juiz Turner interlocutores um pouco mais atentos, que foram capazes de ver talento naquele homem subjugado. Mas nenhum deles foi capaz de ouvi-lo ou mudar em algo o “status quo” do absurdo da época. No fim das contas, o protagonista teve a sorte de ter o caminho cruzado por Bass (Brad Pitt em uma ponta importante), um estrangeiro que via a escravidão como ela deveria sempre ter sido encarada: como um verdadeiro absurdo. Com a interferência de Bass conseguimos conhecer esta história.

Um filme bem conduzido e que não me arrebatou por pouco. Talvez porque fosse bastante previsível o que viria no final, ou porque para nós, brasileiros, esta história seja menos reveladora do que para os norte-americanos. Não sei exatamente a razão, mas o que posso dizer é que aguardo um filme que me impressione mais e que esteja cotado para o próximo Oscar. Algum azarão que provavelmente não vai ganhar nada, mas que me apresente mais elementos surpreendentes do que este 12 Years a Slave.

NOTA: 9,8 9,6.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Filme bem acabado nos detalhes, 12 Years a Slave transporta o espectador para os Estados Unidos de 173 anos atrás. Contribui de forma fundamental para isto o figurino Patricia Norris, o design de produção de Adam Stockhausen, a direção de arte de David Stein e a decoração de set de Alice Baker. Todos trabalharam bem e em prol da história.

Além destes profissionais, merecem menção o trabalho do diretor de fotografia Sean Bobbitt, que usa as tradicionais cores cálidas para dar um tom de “envelhecido” para a produção; a maquiagem feita por 18 profissionais, incluindo os “cabeças” da equipe Ma Kalaadevi Ananda e Adruitha Lee – importante especialmente nas cenas pós-torturas; e a edição precisa de Joe Walker.

Interessante como o ator Brad Pitt se envolveu neste projeto. Ele não é um dos atores com maior espaço no filme, mas o personagem dele teve um papel fundamental na trama. Além disso, o ator entrou como um dos produtores de 12 Years a Slave – junto com o diretor Steve McQueen e outros nomes.

Falando em Brad Pitt, achei curioso que ele e o ator Michael Fassbender tiveram profissionais de maquiagem individuais e próprios – respectivamente Rena Grady e Nana Fischer.

12 Years a Slave tem vários atores interessantes em papéis secundários e menores. Alguns exemplos são Chris Chalk como Clemens, um dos negros que viaja de navio com Solomon e que lhe dá algumas “dicas” de sobrevivência; Paul Giamatti como Freeman, o negociante de negros que não se importa sobre a origem deles – porque está apenas preocupado em faturar; Liza J. Bennett como a esposa de Ford; J.D. Evermore como Chapin, capataz da fazenda de Ford e que acaba impedindo a morte de Solomon; Alfre Woodard como a Madame Shaw, uma ex-escrava que virou “madame” e que ajuda Patsey; e Garret Dillahunt como Armsby, o ex-capataz que caiu em desgraça ao virar alcoólatra e que trai a confiança do protagonista.

Esta produção estreou em agosto de 2013 no Festival de Cinema de Telluride. Depois, o filme participaria ainda de outros 13 festivais. De lá para cá, 12 Years a Slave ganhou o número impressionante de 87 prêmios e foi indicado a outros 106 – incluindo sete indicações ao Globo de Ouro.

Nas bilheterias dos Estados Unidos o filme conseguiu, até o momento, pouco mais de US$ 38 milhões. Não é uma cifra desprezível – até porque o custo da produção não teria sido muito alto -, mas está bem abaixo do desempenho do principal concorrente da produção no Oscar, Gravity, que teria conseguido pouco mais de US$ 251 milhões apenas na terra do Tio Sam.

12 Years a Slave foi totalmente rodado no estado da Louisiana, nos Estados Unidos, um dos territórios que deram um “jeito de burlar os direitos dos escravos libertados (após a proibição da escravidão em 1865), mantendo restrições legais, os chamados black codes” segundo este texto elucidativo sobre a questão nos EUA. Não deixa de ser irônico que o filme tenha sido rodado em um dos territórios mais resistentes ao fim da escravidão.

O livro de memórias de Solomon Northup que serviu de base para o roteiro de 12 Years a Slave tinha rendido uma outra produção anteriormente. Em 1984 foi lançado American Playhouse: Solomon Northup’s Odyssey, um filme produzido para a TV com direção de Gordon Parks, estrelado por Avery Brooks e que foi lançado em vídeo em 1985 com o título Half Slave, Half Free.

E agora, uma curiosidade sobre a produção: ela marca a estreia no cinema de Lupita Nyong’o. Incrível! Espero que a interpretação da atriz, marcante neste filme, lhe renda uma indicação ao Oscar.

Entre os prêmios que 12 Years a Slave já recebeu, destaque para o de Filme do Ano pelo AFI Awards; o de Melhor Filme no Gotham Awards; o Prêmio de Atriz Revelação para Lupita Nyong’o no Festival Internacional de Cinema de Palm Springs; o de Melhor Trilha Sonora e a Menção Especial de Filme no Festival de Cinema de Estocolmo; o Prêmio de Escolha do Público para Steve McQueen no Festival Internacional de Cinema de Toronto; e por figurar na lista Top Ten Films de 2013 da National Board of Review. Além destes prêmios, 12 Years a Slave foi considera o Melhor Filme do ano por nada menos que 10 associações de críticos dos EUA. Este último número torna ele o favorito a ganhar o Globo de Ouro como Melhor Filme – Drama. Logo veremos…

Falando em Globo de Ouro, enquanto 12 Years a Slave tem sete indicações, Gravity conseguiu quatro. Entre os dois, sem dúvidas, prefiro o filme de McQueen.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,6 para 12 Years a Slave. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 205 textos positivos e apenas oito negativos para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 96% e uma nota média de 9. Estes últimos números tornam o filme quase uma unanimidade.

12 Years a Slave é uma coprodução dos Estados Unidos e do Reino Unido.

CONCLUSÃO: 12 Years a Slave não deixa espaço para dúvidas. Entre a casa grande e a senzala não havia espaço para bondade ou condescendência. A escravidão foi uma época obscura da história. Pela primeira vez um filme feito nos Estados Unidos deixa para trás de forma tão contundente o estigma de “bom patrão” para tratar da relação de brancos com negros. A exemplo do que Mel Gibson fez antes sobre a reta final na vida de Jesus, 12 Years a Slave conta uma história dura e que foi estrategicamente esquecida até agora. Um belo resgate de uma história que dói na pele de qualquer pessoa, independente da cor que ela tenha.

Dirigido com maestria, com uma trilha sonora há tempos não vista e interpretações muito convincentes, 12 Years a Slave é uma experiência de cinema e de revisão histórica interessante. Prende o espectador, ainda que não nos conte tanta novidade assim – pelo menos nós, brasileiros, aprendemos nas escolas há tempos que a escravidão era cercada de violência e não de simpatia entre “proprietário e mercadoria”.

Para o meu gosto, apesar de funcionar muito bem, 12 Years a Slave não chegou a me arrebatar. Mas faltou pouco. De qualquer forma, o trabalho de Steve McQueen e equipe cumpre o seu papel com eficácia e paixão, tendo um peso importante, em especial, para o cinema feito nos Estados Unidos.

PALPITES PARA O OSCAR 2014: Todas as bolsas de apostas apontam 12 Years a Slave como um dos principais favoritos em indicações e prêmios na próxima festa do cinema dos Estados Unidos. E dá para entender tal fascínio pela produção. Primeiro, ela de fato é muito competente. Tem uma escalação muito boa de atores e uma história que não deixa o espectador relaxar. Depois, este filme tem grande relevância para o cinema feito nos EUA, que insistia em contar “histórias da carochina” sobre o tempo da escravidão. Sem contar que ainda existe muita gente naquele país que até hoje não entende porque houve a abolição da escravatura…

Sob essa ótica de importância história e agente desmistificador nos Estados Unidos – e em outras partes do mundo -, não há dúvida que 12 Years a Slave merece os holofotes que teve até agora e que terá com uma possível enxurrada de indicações ao Oscar. Além disso, esta produção resgata uma história impressionante de maneira bem direta, sem firulas e com bastante realismo. Estes predicados devem fazer a produção ter uma queda-de-braço importante com Gravity e outros filmes que eu ainda não vi, mas que estão bem cotados para a maior premiação da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood.

Para mim, não seria nenhuma surpresa se 12 Years a Slave recebesse algo em torno de 12 indicações. E isso não apenas para combinar com o título do filme. 🙂 O fato é que vejo reais chances dele ser indicado para Melhor Filme, Melhor Diretor (Steve McQueen), Melhor Ator (Chiwetel Ejiofor), Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Trilha Sonora, Melhor Design de Produção, Melhor Edição, Melhor Atriz Coadjuvante (Lupita Nyong’o), Melhor Edição de Som, Melhor Maquiagem e Cabelo, Melhor Fotografia e Melhor Ator Coadjuvante (Michael Fassbender).

Agora, a pergunta que não quer calar é: quantos prêmios 12 Years a Slave poderá levar? Bem, esta questão já é mais difícil de responder. Tudo vai depender, basicamente, de uma escolha dos integrantes da Academia sobre qual título eles vão querer colocar no Olimpo do cinema este ano: Gravity e seu apuro técnico com história fraca e desenrolar previsível ou 12 Years a Slave com sua história marcante mas com final também em certo ponto previsto.

O fato é que os principais concorrentes deste ano não surpreendem pelos seus respectivos desfechos, mas sim pela convicção de seus realizadores em levar ao extremo diferentes preocupações de estilo. Gravity prima pela técnica, por tornar a experiência de ver um filme algo marcante com tudo que a tecnologia permite atualmente. 12 Years a Slave busca a história, o envolvimento humano e a revisão de um capítulo tenebroso da humanidade, apostando na interpretação dos atores. Os dois filmes tem em comum, aliás, elogios para os protagonistas.

Da minha parte, prefiro sem dúvida alguma a 12 Years a Slave. Mas ainda estou esperando por um filme que me deixe de queixo caído, entre os principais “concorrentes” deste ano no Oscar – a exemplo do que Black Swan fez comigo no Oscar de 2011. Há vários outros filmes para assistir ainda. Mas tudo indica que 12 Years a Slave vai receber muitas indicações. A dúvida que fica é se ele será capaz de vencer ao lobby de Gravity.

Haywire – À Toda Prova

Alguns diretores são interessantes. Eles se esforçam para desenvolver uma linguagem própria, um estilo diferenciado, apresentar uma cereja em cada bolo (leia-se filme) que entregam. Steven Soderbergh é um destes nomes. Em seu novo filme, Haywire, o diretor volta a apostar em uma forma diferenciada de fazer cinema. A proposta é boa, até um determinado momento do filme. Mas joga contra o diretor um roteiro fraco e uma atriz sem expressividade alguma. Mais uma vez, Soderbergh aposta em uma garota desconhecida para estrelar um filme seu. Desta vez, ele errou na escolha, ainda que Gina Carano seja ótima nas cenas de ação, na interpretação ela é péssima.

A HISTÓRIA: Uma garota olha com capuz olha fixo para um café de estrada. Ela entra, tira a mochila e senta em uma mesa. Tira o casaco, toma um chá e olha um grupo de amigos em uma mesa próxima. Vê a chegada de um carro, e não fica satisfeita ao ver quem saiu dele. Ela se prepara, e começa uma conversa truncada com Aaron (Channing Tatum). Ele pede para Mallory Kane (Gina Carano) facilitar e acompanhá-lo até o carro, mas ela se nega. Depois de brigarem, Mallory foge no carro de um dos rapazes que estava no café, Scott (Michael Angarano). Enquanto dirige e pede para ele fazer um curativo em seu braço, Mallory explica porque está sendo perseguida.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Haywire): A primeira parte deste filme é muito, muito interessante. O estilo de Haywire lembra demais os grandes filmes de ação dos anos 1960. Não apenas o estilo de direção, que foca os atores em um estilo que lembra algumas vezes o documentário, algo mais cru e naturalista, mas também pela presença marcante da trilha sonora. Ela parece onipresente, e um elemento fundamental para marcar o ritmo do filme.

O elemento novo, conquistado principalmente a partir dos anos 1980, são as lutas perfeitamente coreografadas. A violência come solta, nestes momentos – e há um bocado de pancadaria em Haywire. E se o início do filme já mostra algo fundamental para a produção, que é a beleza e a alta limitação interpretativa da atriz Gina Carano, logo de cara, ele também deixa claro, nos primeiros minutos, a escolha por ter filmes antigos como referencial principal do diretor.

Steven Soderbergh é um sujeito que conhece bem o seu ofício. Um diretor que procura fazer um trabalho diferenciado do “balaio” dos cineastas que fazem filmes de ação. Muitas vezes ele acerta, mas em outras ele erra. Depois de “descobrir” Sasha Grey, uma atriz de pornô, e decidir que ela seria a estrela de The Girlfriend Experience, Soderbergh resolveu destacar a novata Gina Carano em Haywire.

Nos dois casos, o principal predicado de escolha foi a beleza, não há dúvidas. As duas são garotas lindas. Como eu escrevi nesta crítica, acho que Grey se saiu bem no filme mais sério que ela já estrelou na vida por uma simples razão: ela conhece bem aquele tipo de papel, de mulher-objeto. Mas Carano não se sai tão bem. Ela é linda, é verdade, correu e bateu muito bem. Mas Haywire exigia para o papel principal uma atriz que conseguisse expressar alguma emoção mínima em determinados momentos. E ela não consegue isso.

Neste ponto, é possível ver um paralelo entre Carano e Arnold Schwarzenegger. Digamos que ela é um Schwarzenegger de saias. 🙂 Ambos se dão (no caso dele, se dava) muito bem em filmes de ação, batendo, assustando, fazendo caras de gente malvada. Mas isso é tudo. Há um momento em que Carano deve parecer muito sensual e provocante em Haywire. Não acho que ela convenceu neste papel. Não achei ela provocante, apenas bonita. Faltou encontrar uma atriz que pudesse servir de alvo para outro herói dos filmes do gênero, o personagem James Bond. Qualquer “bondgirl” convenceria masi que Carano.

Falei tanto da atriz porque ela é fundamental para Haywire. A história gira em torno dela. Mas algo que não funciona muito bem neste filme é, também, o roteiro de Lem Dobbs. Ele escolheu um dos caminhos clássicos do gênero: entrega uma pílula da história quando ela já está avançada, em um momento fundamental da “fuga”, e depois, a partir de um conflito, investe no recurso do flashback – pontuado, como manda a regra, volta e meia por alguma cena do momento presente.

Certo, recurso batido. Mas ele existe por uma razão simples: que o momento presente seja explicado e “complicado”, pouco a pouco, pela explicação do que levou os personagens até aquele ponto. O problema é que o flashback não dialoga bem com o presente. E quando digo isso, não quero dizer que existam falhas na condição da história, mas que simplesmente o presente não torna o flashback mais tenso ou vice-versa. E sem essa tensão, o recurso se esvazia.

Lá pelas tantas, a história segue a rota linear. Ou seja, sae de cena o flashback e tudo o que acontece é no momento presente. Aí sim o roteiro mostra o quanto ele é batido, fraco, e como o final será previsível. Evidente que a direção de Soderbergh é a melhor parte do filme.

O diretor acerta no resgate do estilo cru de filmes como o clássico Bullitt, e de filmes do James Bond estrelados por Sean Connery, para citar dois exemplos. As cenas de pancadaria muito bem encenadas e filmadas, é o que o filme tem de melhor. Assim como as outras de perseguições – pelas ruas, correndo, ou em prédios, como se fazia antigamente, antes da ação se resumir a carros e tiroteios – são bem feitas. Mas isso é tudo. E é muito pouco.

O final é decepcionante. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Afinal, toda aquela simulação para culpar a protagonista foi feita tendo como motivação dinheiro e uma certa “dor de cotovelo” do ex-chefe e amante, Kenneth (Ewan McGregor). E mais uma neurose de Rodrigo (Antonio Banderas), que se sentiu exposto por ela em uma negociação. Argumentação bem fraquinha, convenhamos. Haywire não vale o ingresso, apesar de sempre ser interessante ver um diretor como Soderbergh tentando acertar.

NOTA: 5,7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Steven Soderbergh é, provavelmente, junto com Quentin Tarantino, o sujeito que melhor sabe aproveitar as referências dos filmes do passado, especialmente os de ação, e escancará-las em uma releitura mais modernete. A linguagem de Haywire lembra totalmente a de filmes históricos do gênero. Além dos filmes já citados, me lembrei de The French Connection, Shaft (o original, de 1971), Mean Streets, e de um clássico que ainda estou para ver: Faster, Pussycat! Kill! Kill!, dirigido por Russ Meyer e considerado, por nomes como John Waters, com o melhor filme de todos os tempos.

Nada em Haywire supera espécimes do gênero feitas anteriormente. E daí vem aquela pergunta básica: então para que gastar US$ 23 milhões em uma produção que não agrega nada? Pois é, eis uma boa pergunta. Acho que um filme como este só se justifica pela preguiça das pessoas em buscarem filmes melhores no passado. Porque há pessoas – e conhece algumas – que acham que não há nada de bom no cinema mudo ou naquele anterior aos anos 1980 ou 1990.

Que pena que muitos pensem assim. Alguns dos melhores filmes de ação de todos os tempos são, justamente, dos anos 1960 e 1970. Por isso acho que diretores como Soderbergh e Tarantino se dão tão bem. Eles fazem filmes para quem não conhece os originais e, consequentemente, vê muitas novidades nestas versões “cheias de homenagens” – para não dizer cópias.

Se o roteiro de Haywire é fraco e a direção de Soderbergh tem seus momentos interessantes, e se a atriz principal é só bonita, mas o elenco de “apoio” é formado por nomes de respeito, temos que admitir que algumas figuras da equipe técnica merecem alguns aplausos.

Para começar e, principalmente, a trilha sonora de David Holmes. Grande trabalho – e principal trunfo do filme. Outro que faz a sua parte com excelência é Soderbergh na direção de fotografia. Acertadas as escolhas de cores, tons e os momentos em que o filme fica em preto e branco. Ele sabe trabalhar bem com o visual.

O filme está centrado em Gina Carano. Mas há um elenco de “apoio” importante, e com nomes que já mostraram um excelente trabalho em outros filmes – mas que aqui, como Carano, parecem muito anestesiados. São eles: Channing Tatum como Aaron, parceiro de Mallory em missões encomendadas e bem pagas; Ewan McGregor como Kenneth, o chefe da agência de espiões; Antonio Banderas como Rodrigo, o homem por trás da “genial” ideia que irá resolver os problemas de alguns poderosos – ele incluído; Michael Douglas como Coblenz, um cara do governo dos Estados Unidos que gosta de Mallory; Michael Fassbender como Paul, um agente secreto inglês; Mathieu Kassovitz como Studer, o sujeito rico que está por trás de toda essa história; Bill Paxton como John Kane, pai de Mallory; e Anthony Brandon Wong como Jiang, o “sequestrado” que é resgatado por Mallory e equipe e que não tem uma fala no filme, mas que é importante para a história. Um baita elenco, mas que não tem espaço para aprofundar a história de nenhum de seus personagens. Todos muito rasos e superficiais.

Francamente? A minha vontade era dar uma nota ainda menor para este filme. Mas em respeito ao “virtuosismo” da direção de Soderbergh, resolvi elevar um pouco o conceito. Não porque o filme seja bom, mas porque ele se esforçou para fazer algo diferente.

Haywire estreou no Festival AFI em novembro de 2011, mas entrou em cartaz, comercialmente, apenas em janeiro deste ano nos Estados Unidos e em outros 16 países. Até o dia 18 de março, o filme havia acumulado pouco mais de US$ 18,9 milhões nos Estados Unidos. Como ele custou, pelo menos, US$ 23 milhões, pode-se dizer que ele não está no caminho do sucesso.

Antes de estrelar este filme, a texana Gina Carano havia participado da série de TV Fight Girls, em 2006, feito um papel no game Command & Conquer: Red Alert 3 e um papel em Blood and Bone. E só. Agora, pós Haywire, ela vai estrelar o thriller In the Blood, atualmente em pré-produção e que será dirigido por John Stockwell.

Algumas outras pessoas que merecem palmas por este filme são Jonathan Eusebio, J.J. Perry, Don Tai e Jon Valera. Eles atuaram como coreógrafos das lutas. Sem dúvida, a melhor parte de Haywire são aquelas cenas de pancadaria muito bem planejadas. Além de criativas, elas vendem bem a ideia de serem plausíveis – ainda que a protagonista pareça demais uma Mulher Maravilha.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,3 para o filme. Achei uma boa nota. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram bem mais generosos, dedicando 129 críticas positivas e 32 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 80% e uma nota média de 6,8.

Haywire foi filmado em Dublin, na Irlanda, e em Los Alamos, nso Estados Unidos – com algumas cenas simulando locais de Nova York. Esta é uma co-produção Estados Unidos e Irlanda.

CONCLUSÃO: Uma pena quando um filme tem uma proposta bacana, mas não consegue sustentá-la até o final. Gina Carano é muito fraca. Ótima na corrida e na pancadaria, mas péssima em qualquer momento em que ela precisa repassar o mínimo de emoção que deveria estar sendo vivida por sua personagem. E quando um filme tem uma atriz no foco o tempo todo, como é o caso de Haywire, ele acaba sendo muito prejudicado com uma intérprete fraquinha. Este é um dos problemas fundamentais deste filme. Mas não é o único. O estilo do filme, que relembra a alguns clássicos antigos de ação, acaba cansando lá pelas tantas. Especialmente da metade para a frente, quando o filme da uma certa “reviravolta”. A “surpresa” não cria realmente tensão – a trilha sonora é mais eficaz que o roteiro neste ponto. E todos sabemos o que vai acontecer até o final, o que mata o filme antes dele terminar – afinal, o elemento surpresa já era. Fora isso, esta é mais uma produção cheia de estilo e experimental de Soderbergh. Mas ele já fez melhores. Quem sabe no próximo ele acerte a mão? Ou segue apresentando trabalhos que, ao apostar tanto em uma linguagem mais dinâmica e diferenciada, se esquecem de elementos básicos, como um roteiro melhor acabado e uma atriz principal decente. Não foi desta vez, com Haywire, que ele conseguiu o equilíbrio.

A Dangerous Method – Um Método Perigoso

Me disseram, certo dia, que qualquer pessoa que quiser ajudar outra a se tratar psicologicamente deve ter, também, um pouco de loucura para resolver. Ou, em outras palavras, que qualquer psicólogo ou psiquiatra deve, em algum momento, precisar de análise também, para enfrentar os seus próprios problemas e/ou demônios. Impossível não admirar a Freud, um dos grandes nomes das ciências de todos os tempos. Mas mesmo admirando-o, nunca entendi muito bem porque da fixação dele com as questões sexuais. Li algumas teorias a respeito, mas nunca me aprofundei sobre as razões que fizeram ele ir tão fundo apenas nesta direção. A Dangerous Method surge para contribuir com estes debates porque ele foca uma amizade entre dois científicos que mudou a história. Fala de Freud e de Jung. Fascinante.

A HISTÓRIA: Dois homens seguram uma mulher descontrolada em uma carruagem. Sabina Spielrein (Keira Knightley) quer sair dali, ela resiste, mas quando a carruagem para, ela é levada para dentro da Clínica Burghölzli na cidade de Zurique, na Suíça, em agosto de 1904. Na manhã seguinte, ela é recepcionada pelo médico Carl Jung (Michael Fassbender), que começa a experimentar com Sabina os métodos de psicanálise de Sigmund Freud (Viggo Mortensen). A proposta de Jung é que ele e a paciente se encontrem quase todos os dias para conversar. Conforme o caso dela vai avançando e o tratamento surte efeito, Jung se arrisca a começar a corresponder-se com Freud. A partir daí, o filme conta a história destes três personagens.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu ao filme A Dangerous Method): O surgimento da psicanálise, momento revolucionário no tratamento dos problemas e dores da mente, é o foco deste filme. A primeira sensação que A Dangerous Method nos provoca é a da angústia, ao ver Keira Knightley se retorcendo, literalmente, para interpretar a personagem de Sabina Spielrein em sua fase de crise e mesmo depois.

A atriz faz um bom trabalho. Mas continuo achando que esse tipo de papel não é para ela. Senti Knightley um pouco deslocada no papel. Quando você sente o esforço do ator, é porque as coisas não vão bem. Quando assistimos a um ator vivenciando o personagem, tornando-o legítimo, aquele personagem faz sentido. Quando o esforço fica evidente… parece que para o espectador é jogada a outra parte do sacrifício.

Isso acontece com os outros dois atores. Eles estão bem, mas parecem se esforçar em assumir um tom sério e intelectual. A Dangerous Method tem menos de duas horas, mas parece ter mais. E isso não se deve apenas à densidade do roteiro de Christopher Hampton, inspirado em sua peça The Talking Cure e no livro A Most Dangerous Method, de John Kerr. Parte do esforço que o espectador tem que fazer para continuar interessado na história se deve também pelas interpretações, algumas vezes forçadas.

Mas a história, por si só, é fascinante. E, evidentemente, não cabe em um filme, em uma peça ou em um livro. O surgimento da psicanálise e as relações amistosas e depois de ruptura entre Freud e Jung estão cheias de detalhes que merecem ser conhecidos e, eu diria, estudados.

A Dangerous Method humaniza os dois ícones da psicanálise e nos faz pensar em como mesmo o mais genial e ousado cientista tem, ele próprio, as suas imperfeições. Se um ícone estivesse alheio a defeitos e problemas, não seria humano, certo? Eu já conhecia um pouco da história de Freud e Jung, mas francamente este filme torna muito mais simples a explicação de pontos fundamentais na vida dos cientista. Para começar, a fixação de Freud pelo que Jung chamou de “interpretação exclusivamente sexual do material clínico” que eles estudavam.

Nunca entendi porque ele limitava as interpretações a essa questão. Devo dizer que sempre concordei com Jung e outros teóricos que afirmavam que havia muito mais em jogo do que apenas a questão sexual. Mas A Dangerous Method torna evidente que esta foi uma escolha pragmática de Freud. Ele preferia manter-se firme à esta leitura do que abrir o foco para outras possibilidades e fazer a psicanálise ser combatida ao ponto de ser desacreditada. Faz sentido. Na época – e até hoje – as ideias dele foram muito combatidas. Se ele tivesse ampliando muito o leque, talvez tivesse todo o seu trabalho, que surtia e continua surtindo efeito, destruído.

Sobre Jung, eu sabia menos… e achei fascinante a escolha do filme em pegá-lo como personagem principal. Interessante as suas fraquezas e a vontade do médico pesquisador em lançar-se na experiência de satisfazer os próprios desejos, independente do efeito que estas suas ações poderia ter na parte frágil da história, Sabina Spielrein. Claro que, posteriormente, ela mesma se tornaria uma teórica e pesquisadora, mas ela era a pessoa que precisa de maior cuidado. Se bem que, se olharmos com um pouco de lupa, toda a relação de admiração e, ao mesmo tempo, competitividade e negação de atitudes de Freud por parte de Jung mostrava que, este último, também precisava de algum cuidado e, quem sabe, ajuda profissional.

Aliás, essa ideia de que mesmo os profissionais precisam de ajuda fica ainda mais evidente com o personagem de Otto Gross (Vincent Cassel). Ele mesmo se classificava como neurótico, e defendia a ideia de que ninguém deveria reprimir os seus desejos, até porque a monogamia era uma afronta ao indivíduo. Sua racionalidade, mesmo que muitos possam considerá-la equivocada, fez com que Jung se lançasse em direções que ele antes não havia experimentado.

Interessante conhecer os métodos antigos para o tratamento de pessoas doentes, e as primeiras medições relacionadas com os desejos e sentimentos dos pacientes desenvolvidas por Jung. A ciência avançou muito, desde então, mas poucos tiveram uma importância tão decisiva no desenvolvimento de um método inovador quanto Freud com essa ideia de conversar com o paciente – ao invés de tratá-lo com sessões de choque, isolamento, e etc.

A direção de David Cronenberg segue uma linha tradicional, sem que ele seja inventivo. Na verdade, acho que 90% dos diretores norte-americanos poderiam ter feito um filme igual ou muito parecido com esse. O roteiro de Hampton é bom, mas recomendado apenas para as pessoas interessadas nos personagens – duvido muito que este texto, denso como ele é, agrade ao grande público. O diretor de fotografia Peter Suschitzky também faz um belo trabalho.

Outro ponto é fundamental para explicar as diferenças entre Jung e Freud: a diferença social e de origens deles. A mulher de Jung, Emma (a ótima Sarah Gadon), era de uma família rica e tinha dinheiro. Jung trabalhava, mas não tinha que se preocupar tanto com o sustento da casa quanto Freud – que tinha mais filhos que Jung e era o provedor familiar. Há uma cena importante em que Freud comenta que há outro risco para ele e o grupo de Viena que trabalhava a psicanálise: o fato deles serem judeus. Jung pergunta o que isso tem a ver, e Freud comenta que eis uma afirmação típica de um protestante.

Pouco depois, na primeira e, especialmente, na segunda guerra mundial, ficaria evidente que a questão dos judeus era algo importante para aquela época. Foi também na relação entre Jung e Freud, assim como nas convicções deles sobre quais deveriam ser as linhas da psicanálise. Em uma conversa com Freud, Sabina afirma que Jung está preocupado não apenas a explicar aos pacientes que eles são de determinada forma por isso e por aquilo (a proposta de Freud), mas ajudá-los a, a partir desta constatação, encontrar aquilo que eles gostariam de ser. Para Freud, isso era brincar de ser Deus.

Até hoje a divisão entre estas duas correntes existe. E mesmo sem ser uma pesquisadora e, muito menos, uma especialista nesta seara, me arrisco a dizer que eu prefiro a linha de quem vê as questões sexuais como fundamentais, mas não como únicas, e que tenta ir além da constatação do problema para tentar, também, buscar alternativas e caminhos para os pacientes em busca de ajuda. Sempre fui um pouco mais para o lado de Jung. E com este filme, apesar dos equívocos do homem, continuo tendo mais interesse por suas ideias.

Ainda que o filme seja interessante e tenha bons atores à frente da produção, senti falta de outros personagens, de outros pacientes e casos clínicos tratados por Jung ou algum por parte de Freud para exemplificar um pouco mais os seus métodos e conclusões. Há pouco exemplo prático nesta história, o que eu acho que a tornaria mais fascinante. Claro que foi uma escolha de A Dangerous Method manter o foco na vida pessoal e nos bastidores do trabalho de Jung e Freud. Isso é bacana. Mas alguns discursos teóricos poderiam ter dado lugar para exemplos práticos. Faltou isso.

NOTA: 8,7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Eu admito que a Keira Knightley me irritou um pouquinho, especialmente com aquelas saídas fáceis de arcada dentária para a frente e contorsionismo do início, quando ela estava na fase mais difícil da doença. Sei que a personagem exigia mostrar este descontrole, só achei a forma equivocada. Michael Fassbender está melhor e, em especial, Viggo Mortensen. Eles fazem um bom duelo. Os demais atores, ainda que importantes para a história, se destacam menos. Vale voltar a comentar sobre Vincent Cassel, que está muito bem e charmoso neste filme,  e a talentosa e comedida Sarah Gadon.

Da parte técnica da produção, além do diretor de fotografia, faz um bom trabalho o editor Ronald Sanders. A trilha sonora do veterano Howard Shore tem uma presença pouco marcante, basicamente importante no início e no final do filme. Achei ela bastante previsível, sem grande inventividade. Um trabalho medíocre, apesar de levar a assinatura de um mestre.

Fiquei curiosa para saber se o filme foi rodado nos locais citados, ou se várias cenas foram feitas em estúdio. De fato, A Dangerous Method foi rodado nas cidades de Viena, na Áustria, e em diversas cidades alemãs, a saber: Bodensee, na Bavária, e Constance e Überlingen, ambas em Baden-Württemberg, além do estúdio MMC em Hürth, também Alemanha.

Fiquei admirada com a quantidade de produtores e estúdios envolvidos em A Dangerous Method. Nomes que aparecem na abertura do filme. Para a realização deste projeto, vieram recursos de quatro países: Reino Unido, Alemanha, Canadá e Suíça.

A Dangerous Method estreou em setembro do ano passado no Festival de Veneza. Depois, o filme passou por outros 12 festivais, incluindo os de Toronto, Zurique, Nova York, Chicago, Rio de Janeiro, Londres e Estocolmo.

Nesta trajetória, o filme recebeu 13 prêmios, foi indicado a outros 13 e ainda ao Globo de Ouro de Melhor Ator Coadjuvante para Viggo Mortensen. Entre os que recebeu, destaque para os recebidos por Michael Fassbender no National Board of Review e pelos críticos de Londres e Los Angeles. Ainda que estes prêmios que ele recebeu não foram dados apenas pelo trabalho em A Dangerous Method, mas por sua performance em outras produções, como Jane Eyre, X-Men: First Class e Shame.

A Dangerous Method teria custado, aproximadamente, US$ 15 milhões. Nas bilheterias dos Estados Unidos ele conseguiu um terço disto, arrecadando pouco mais de US$ 5,6 milhões até o dia 22 de março. No mercado internacional ele foi melhor, ainda que nada excepcional – se levarmos em conta os ótimos nomes por trás da produção, especialmente os atores -, arrecadando pouco mais de US$ 17,5 milhões. Por tratar-se de um filme difícil, que não foi feito para cair no gosto do grande público, até que ele não se saiu tão mal quanto poderia ter se saído.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,7 para A Dangerous Method. Para os padrões do site e pela densidade desta produção, podemos considerar esta uma boa nota. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 113 críticas positivas e 33 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 77% e uma nota média de 6,9.

Um dos críticos que eu costumo citar, Tom Long, do Detroit News, disse que a história real por trás deste filme é extraordinária, mas que o filme não consegue chegar neste nível. Devo concordar. Outro que eu gosto de citar, Peter Howell, do Toronto Star, afirma que Cronenberg chegou a um patamar na carreira em que não tem mais que satisfazer expectativas. Que, para ele, basta envolver o público. Na opinião de Howell, ele consegue isso neste filme.

Uma curiosidade sobre o filme: a atriz Keira Knightley disse que não sabia como interpretar o momento de histeria de sua personagem. Até que ela leu as anotações de Sabina Spielrein e viu que a mulher se descrevia, quando estava neste estágio, entre as figuras de um demônio ou de um cão. Daí Knightley começou a pensar nas caretas e recebeu a aprovação de Cronenberg.

Para quem quiser saber um pouco mais sobre as diferenças entre Freud e Jung, um bom começo é este texto assinado por Adriana Tanese Nogueira. Gostei da explicação dela, bem didática. Interessante, em especial, a explicação dela para conceitos fundamentais dos dois cientistas. Como a livre associação de Jung, mostrada de forma interessante neste filme. Bacana também a distinção entre a ação dos dois com os seus pacientes, e a forma com que Jung observou como qualquer psicólogo é parte do diálogo com o paciente – não pode ausentar-se do diálogo, como propunha Freud. Achei bacana também este outro texto, que reproduz uma parte do livro Incesto e Amor Humano, de Robert Stein. Finalmente, recomendo este outro texto, de Andrew Samuels, sobre a aproximação e ruptura entre Jung e Freud.

CONCLUSÃO: Eis um filme denso e complexo. Não porque ele seja feito de quebra-cabeças. A Dangerous Method não exige que o espectador descubra uma charada. Mas ele trata de assuntos difíceis, conta parte da trajetória de personagens históricos complexos e remexe em questões densas da psique humana. Possivelmente muitas pessoas se sentirão retratadas na produção. Seja pela dificuldade que alguns tem, mais que outros, de manter a conduta próxima do discurso e de suas crenças. Seja pelas pedras que alguém que pensa fora da curva costuma encontrar pelo caminho. A Dangerous Method acerta em focar a atenção no talento do trio de protagonistas. Mas por ser dirigida por David Cronenberg, que já fez filmes mais ousados e experimentais, esta produção parece menor do que poderia ser. Em alguns momentos, ela chega a ser arrastada. Poderia ter ajudado o filme, neste sentido, focar em outros casos tratados por Jung e Freud, além da personagem de Sabina Spielrein. Mas como filme histórico, ele é interessante. Nos mostra uma parte importante da história até então pouco revelada. Vale ser assistido, especialmente se você gosta do tema psicanálise ou de saber um pouco mais sobre personagens históricos.