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Nocturnal Animals – Animais Noturnos

A arte, em suas mais variadas formas, é feita de paixão, de entrega, de exposição e de uma mistura intricada entre fantasia e realidade. Nocturnal Animals trata de dois tipos de arte – três, se pararmos para pensar – e sobre como a ligação de dois artistas/amantes pode perdurar apesar do tempo, da distância e de feridas que nunca foram curadas. Um filme interessante, que nos apresenta um roteiro apenas regular, mas que tem uma apresentação e uma “entrega” exemplares. Nocturnal Animals é envolvente, interessante nos detalhes e na narrativa, mas não é nada que você já não tenha visto antes (de alguma forma).

A HISTÓRIA: Uma música marcante, serpentinas e mulheres obesas, de meia idade ou mais, dançando com partes dos trajes típicos das bandas marciais. Essas mulheres fizeram parte do trabalho de Susan Morrow (Amy Adams), que expôs a sua arte na galeria que ajuda a administrar. Enquanto vemos as cenas da exposição, vemos também as imagens das artérias da cidade movimentada. Susan fica até o final do evento e vai para casa. Ela chega tarde e, pouco depois, outro carro chega no local. No dia seguinte, Susan recebe uma encomenda, um manuscrito do novo livro de Edward (Jake Gyllenhaal).

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Nocturnal Animals): O roteirista e diretor Tom Ford começa este seu novo filme trabalhando de forma contundente com a nossa noção de beleza e estética. Ele acerta um direto no padrão de mulher bonita que a sociedade considera e, de quebra, questiona como as aparências enganam. Tudo isso através do trabalho da protagonista em sua mais nova exposição.

A introdução do filme, que apresenta mulheres obesas, a maioria em idade mais avançada, nuas e com alguns adornos, apenas, é um tipo de cartão de visitas sobre a quebra de “paradigmas” que este filme nos apresenta. A ideia de que as aparências enganam e que os padrões estão aí para serem quebrados é uma constante na produção. Afinal, além daquelas cenas iniciais, a própria vida e escolhas da protagonista também foram baseadas em escolhas um tanto equivocadas e que sempre giraram em torno da tentativa dela de negar os padrões familiares.

Mas antes de falarmos disso, vamos retomar um pouco a lógica da produção que tem roteiro de Ford baseado no livro de Austin Wright. Depois daquela introdução desafiadora para os padrões estéticos do que a sociedade considera belo, Nocturnal Animals logo faz uma apresentação interessante da protagonista.

Em pouco minutos percebemos que, apesar de casada e de ser uma “artista de sucesso”, Susan se sente sozinha e insegura com o próprio talento e trabalho. Na manhã seguinte da abertura da última exposição dela, Susan recebe o manuscrito do novo livro do ex-marido. Enquanto ela vê o marido, Hutton Morrow (Armie Hammer), cada vez mais distante, tanto física quanto amorosamente, Susan mergulha na obra de Edward e, consequentemente, nas lembranças sobre o relacionamento que teve com ele. De quebra, revisita os seus próprios sentimentos.

Desta forma, temos duas narrativas que correm paralelas e que vivem se entrelaçando: aquela em que Susan questiona a sua vida atual, revisita o passado e fantasia sobre o futuro; e aquela em que a história contada por Edward se desenvolve. Todo filme com duas narrativas paralelas em desenvolvimento já se torna interessante apenas por isso, pela dinâmica que a produção acaba tendo, naturalmente. Mas Nocturnal Animals apresenta um interesse diferenciado porque vive jogando com dois elementos que mexem tanto com as pessoas e a sociedade: a violência e o desejo sexual.

A melhor parte do filme, sem dúvida alguma, é aquele mergulho inicial que Susan faz no livro de Edward. Vários filmes já exploraram o “terror em uma rodovia” como a história de Edward nos apresenta, mas Tom Ford faz um trabalho de excelência na direção neste momento do filme, despertando no público a tensão e o interesse necessário para que encaremos o restante da produção. A história contada por Edward mistura ficção, fantasia e realidade (ele seleciona alguns elementos familiares para Susan e insere na narrativa) em uma narrativa violenta que, claramente, tem requintes de atração e de vingança relacionados a ex-mulher.

O texto de Edward não é apenas evolvente em relação a qualquer público. Ele parece matematicamente planejado para mexer com Susan. E aí está a vingança maior de Nocturnal Animals. Este sentimento não move apenas o personagem principal do livro, Tony Hastings, também vivido pelo ator Jake Gyllenhaal. O senso de vingança parece mover também Edward, que quer tirar Susan da inércia, provocá-la e, depois, deixá-la esperando em vão no restaurante.

Interessante que ao escrever a sua obra-prima, Edward trata bem da vingança e demonstra, no final, que ela concretizada não traz paz alguma. Através do personagem de Tony ele mostra que cobrar uma dívida na mesma “moeda” não traz conforto, esperança ou o amor e a presença de quem perdemos no processo. Tony já estava “morto” quando terminou a sua vingança, como provavelmente o próprio Edward estava quando se “vingou” de Susan.

Por sua parte, Susan demonstra que sempre podemos nos arrepender e rever as nossas próprias vidas mas que, nem sempre, isso é suficiente para mudar o que foi feito. Como o próprio livro de Edward argumenta, há erros/crimes que por mais que tentemos consertar, jamais terão conserto.

No fim das contas, este filme quebra alguns pré-conceitos e nos conta uma história de vingança e de amor frustrado. Eis uma narrativa de bastante desesperança e um tanto amarga no final. Um filme envolvente, bem conduzido, com ótimos atores e que nos apresenta uma história não exatamente nova. É uma produção competente sobre algo que já vimos antes. Vale como experiência, mas não é nada que ficará na memória por muito tempo.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Muito bem, meus bons amigos e amigas do blog. Agora sim, posso dizer que assisti ao que ainda faltava da temporada Oscar 2017. Claro que ainda tenho um documentário da lista de indicados para assistir, assim como os filmes que foram selecionados para representar os seus países no Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira. Mas isso vou fazendo aos poucos e sem pressa. Das categorias centrais do Oscar, contudo, já posso dizer que assisti a tudo que eu considerava mais importante. Tarefa cumprida, pois.

Assisti a Nocturnal Animals há umas duas ou três semanas. Escrevi este texto sobre o filme em diferentes dias. Então me perdoem se alguma parte da crítica estiver um tanto “deslocada” em relação às outras partes, mas os próximos textos serão mais coesos. Nestas últimas semanas passei por uma certa correria e por um tempo longe da internet, por isso esta crítica meio “atabalhoada”.

Tom Ford faz um trabalho competente na direção de Nocturnal Animals. Ele sabe tanto dar ritmo para o filme, especialmente na narrativa da obra de Edward, quanto sabe valorizar os ótimos atores que tem em cena. Mais uma vez Amy Adams e Jake Gyllenhaal mostram porque são dois atores dos mais talentosos de suas gerações. Sem dúvida a direção cuidadosa de Ford e a interpretação dos dois atores são o ponto forte do filme.

O roteiro de Ford, baseado na obra de Austin Wright, flui bem, ainda que tenha uma introdução muito longa, para o meu gosto, e que seja um bocado previsível. Mas a direção de Ford compensa um pouco a falta de originalidade da história. Me chamou a atenção o tom sombrio da produção, com uma direção de fotografia de Seamus McGarvey bastante “noturna” e/ou obscura durante boa parte do tempo.

Da parte técnica do filme, vale ainda comentar a competente edição de Joan Sobel, a trilha sonora de Abel Korzeniowski, os figurinos de Arianne Phillips, o design de produção de Shane Valentino, a direção de arte de Christopher Brown, a decoração de set de Meg Everist e o trabalho dos 10 profissionais envolvidos no departamento de maquiagem.

Nocturnal Animals teria custado US$ 22,5 milhões e faturado, nos Estados Unidos, cerca de US$ 10,6 milhões. Nos outros países em que o filme estreou ele fez outros US$ 18,6 milhões, somando cerca de US$ 29,25 milhões – ou seja, não chegou a obter lucro, até porque além dos custos da produção, sempre devemos calcular os gastos com a distribuição e a divulgação. Ou seja, o filme não foi um sucesso.

Esta produção foi toda rodada na Califórnia, em locais como Malibu, Los Angeles e Mojave Desert.

Ainda que o filme não tenha ido muito bem nas bilheterias, ele se saiu muito bem na negociação para ser distribuído mundialmente. A Focus Features teria pago US$ 20 milhões pelos direitos de distribuição de Nocturnal Animals em uma disputada concorrência após o filme ser exibido em Cannes. Aliás, esse é o valor mais alto pago por um filme em um festival.

A atriz Isla Fisher disse que a sequência noturna no deserto de Mojave durou cerca de 10 dias e que foi uma experiência cansativa e emocionalmente desgastante. Ela ficou aliviada quando o filme foi finalizado. Eu posso imaginar…

Nocturnal Animals ganhou 15 prêmios e foi indicado a outros 127, incluindo a indicação ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante para Michael Shannon. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o Globo de Ouro de Melhor Ator Coadjuvante para Aaron Taylor-Johnson (que interpreta ao vilão Ray Marcus) e para o Grande Prêmio do Júri – Leão de Prata para Tom Ford no Festival de Cinema de Veneza.

Além dos atores principais, que roubam a cena, vale comentar o bom trabalho de Michael Shannon como o delegado Bobby Andes; Aaron Taylor-Johnson como um dos algozes da história de Edward, Ray Marcus; Isla Fisher como a mulher do personagem Tony Hastings, Laura; Ellie Bamber como India Hastings, filha de Tony e de Laura; Armie Hammer em uma “ponta de luxo” como Hutton Morrow, marido de Susan; Laura Linney em outra super ponta como Anne Sutton, mãe de Susan; Karl Gusman como Lou, outro dos bandidos; e Robert Aramayo como Turk, o último do trio de bandidos que vitimiza Laura e India.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,5 para esta produção, enquanto os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 171 críticas positivas e 62 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 73% e uma nota média 7. Especialmente a média de avaliação do IMDb é boa, mas os críticos do Rotten Tomatoes foram mais reticentes. E eles tem razão.

Esta é uma produção 100% dos Estados Unidos. Por isso o filme passa a constar na lista de produções que atendem a uma votação feita há algum tempo por aqui.

CONCLUSÃO: A vingança é um prato que se come frio, como já nos ensinaram há tanto tempo. Nocturnal Animals nos conta, essencialmente, uma história de vingança. Muito tem orquestrada, diga-se. Com um roteiro bem escrito, ainda que ele não seja exatamente surpreendente, Nocturnal Animals mexe com paixões e com os efeitos das escolhas que os personagens fazem. Tom Ford sabe trabalhar e desconstruir a noção do belo, questionando noções básicas como a violência, a vingança e o amor. Interessante na proposta, mas um tanto previsível demais, Nocturnal Animals apresenta belas atuações do elenco e uma narrativa envolvente. Pena que no final tudo pareça tão simples e tão óbvio.

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Southpaw – Nocaute

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Tem filmes que você procura por causa das pessoas envolvidas – o diretor, os atores, ou todo o conjunto da obra. Outros, pela temática. Southpaw me interessou pelo primeiro caso. Gosto do ator Jake Gyllenhaal. Venho acompanhando a carreira dele desde Donnie Darko. Depois, descobri que se tratava de um filme sobre boxe. Pois bem, se você gosta de boxe, do ator e do diretor, há grandes chances de gostar deste filme, mesmo ele tendo uma história bastante previsível. Agora, se você não gosta destes elementos ou de parte deles, avalie bem o risco de assistir a Southpaw e não gostar do que você vai ver. Porque aqui não há surpresas, ou inovação. Apenas uma narrativa conhecida mas bem contada.

A HISTÓRIA: Sonzeira no fone de ouvido e para os espectadores escutarem enquanto a mão de Billy Hope (Jake Gyllenhaal) é enfaixada. Os juízes se certificam que tudo está sendo feito dentro das regras. Diversas pessoas estão ao redor de Billy e do comitê da luta, incluindo o agenciador Jordan Mains (50 Cent). Depois dele ser preparado e de tudo ser conferido, entra no local Maureen Hope (Rachel McAdams), mulher de Billy. Ela diz que ele está preparado e pede para que o marido não seja muito atingido. Corta. Com bastante sangue no rosto e um bom corte no olho, vemos Billy em ação. Ele não se defende muito, mas bate bem e acaba vencendo Jones (Cedric D. Jones) por nocaute. Na volta para casa, Maureen diz para o marido que ele deve se preparar para parar de lutar. Eles não sabem, mas em breve todos os planos da família vão mudar radicalmente.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Southpaw): Sempre tive um fraco pelo boxe. Sou do tempo em que este esporte passava na TV e mobilizava uma massa considerável de pessoas para assistir figuras como Mike Tyson e Evander Holyfield. Importante comentar isso para explicar porque Southpaw me interessou. Filme com diversos lugares-comum, é verdade, mas que vale pelo trabalho do diretor e, principalmente, se você é fã de Jake Gyllenhaal.

Esta produção, como comentei antes, não inova. Ela segue aquela velha fórmula de filmes do gênero desde Rocky Balboa de um lutador de boxe que veio do zero, que era pobre, mas que se fez na vida pela própria garra e determinação. Até que ele tem um revés importante na vida, perde tudo, e tem que provar novamente que consegue se reerguer. Sim, meus caros, tudo isso está neste filme também.

Mas mesmo sendo bastante previsível – afinal, alguém duvida que o protagonista dará a “volta por cima” depois da tragédia? – este filme funciona. Por que? Primeiro, por causa da entrega de Jake Gyllenhaal. Sem dúvida alguma o ator é o melhor da produção. Depois, porque o diretor Antoine Fuqua entende bastante do seu ofício. Ele preza por uma direção próxima dos atores e o mais “naturalista” possível. As cenas de boxe são realistas – muito mais do que as do tempo de Rocky Balboa. Nos sentimos como audiência de lutas para valer.

Depois, o roteiro de Kurt Sutter, ainda que cheio de lugares-comum, não alivia em mostrar as dificuldades do protagonista para manter a cabeça no lugar. De fato, e isso ele vai aprender só quando começa a treinar com Tick Wills (o sempre ótimo Forest Whitaker), o que ele precisa dominar é a sua própria explosão. Um ensinamento válido para todos nós. Conhecer-se a si mesmo e saber como controlar-se é um dos grandes desafios para a vida.

Este é um dos acertos do filme. Outro é mostrar como a noção de família persiste apesar das perdas e do desespero. A filha de Billy Hope não sabe lidar com tudo que está acontecendo e passa a ter raiva do pai depois que ele perde o controle e a guarda dela. Dá para entender a reação da menina, assim como parece crível o que ele pensa como saída. Ele só conhece o boxe e procura em um novo confronto se reerguer. Não só não há caminho fácil para essa “redenção” como o cenário ao redor dele segue agreste – prova disso é o menino Hoppy (Skylan Brooks).

A referência de vida e de segurança de Billy é a mulher Maureen. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Ele fica perdido quando ela morre. E ainda que, em algum momento, a própria filha lembra ele com palavras duras de que ela também perdeu a mãe, ele não tem equilíbrio para saber lidar com aquela ausência. Depois de ser afastado da filha é que ele começa a correr atrás do prejuízo. O restante… bem, já sabemos por onde a banda vai tocar. Mesmo assim, devo admitir que o final é emocionante. Não pelo resultado da luta mais que esperado, mas pela manifestação de amor que ele tem por Maureen após a redenção. São histórias de amor assim que alimentam o cinema.

Além da história de amor e de recomeço que perpassa todo o filme, o que me agradou nesta produção foi o trabalho dos atores e do diretor, além da busca por um certo tom “realista” da produção. A vida é agreste, para muita gente, mas sempre há espaço para buscar o lugar ao sol. O boxe e outros esportes são prodigiosos em exemplos assim, de pessoas que dão o sangue e a vida para se superarem e vencerem. Isso me emociona e me agrada. Mesmo em um filme que parece carecer, muitas vezes, de um pouco mais de inovação.

Essa avaliação, claro, leva em conta que já assisti a vários filmes de boxe. Para as novas gerações e para quem não cresceu com produções de cinema sobre este tema e nem vendo o esporte na televisão, talvez esta produção seja mais surpreendente e inovadora. De qualquer forma, seja por uma ótica ou outra, o fato é que este filme é bem acabado e realista. Qualidades importantes para produções do gênero.

NOTA: 8,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Talvez você, caro(a) leitor(a), pode estar estranhando eu falar de Southpaw apenas agora. O filme estreou há algum tempo no Brasil é verdade. Eu assisti a essa produção há duas ou três semanas, mas só agora consegui parar para escrever sobre ele. Por isso essa demora. Não lembro com toda a perfeição da história, como se a tivesse assistido hoje, ontem ou nos últimos dias, mas a lembrança principal ficou.

O roteirista Kurt Sutter faz um trabalho apenas mediano se levarmos em conta os outros filmes que tem o boxe como pano de fundo principal. Mas ele acerta ao dedicar tempo para revelar a personalidade e um pouco da origem do protagonista, além de contar um pouco da história dos outros personagens. Há espaço para ótimas cenas de ação, ainda que o grosso da história seja o drama particular de Billy Hope. O roteiro é morno, mas o trabalho do diretor Antoine Fuqua não deixa o espectador ficar com sono.

Se Southpaw tem ritmo, parte do mérito é de Fuqua, e a outra parte do editor John Refoua. Os dois juntos registram com precisão os bastidores do boxe e da vida de quem vive do esporte, imprimindo o ritmo correto com a ajuda da trilha sonora marcante e bem planejada por James Horner.

A direção de fotografia de Mauro Fiore é outro elemento importante para a construção da identidade deste filme. Durante boa parte do tempo as imagens são um bocado escuras, com os momentos mais iluminados restritos ao ringue e a festa de arrecadação de fundos para a instituição em que o protagonista cresceu. Desta forma, é como se os realizadores deixassem claro o contraste entre a aridez da vida real e a superficialidade iluminada do circo que se monta ao redor do esporte. Interessante.

Para mim, o nome forte deste filme é o de Jake Gyllenhaal. Ainda que, admito, acho que algumas vezes ele exagera na cara perturbada, mas acho que ele realmente se esforçou em encarnar o personagem, dando legitimidade para a história. Além dele, merecem destaque o sempre excelente Forest Whitaker que, aqui, imprime a dignidade e o espírito de “não ser comprado” na medida certa; Rachel McAdams que, mesmo não aparecendo tanto na história, deixa as suas digitais logo no início e “paira” durante todo o filme na memória não apenas do personagem de Billy, mas também na do espectador; e a jovem Oona Laurence se sai bem como Leila Hope, filha de Billy e Maureen. A garota parece uma pequena prodígio e reage da maneira certa nos diferentes momentos da produção. Belas escolhas.

Falando em Jake Gyllenhaal, fiquei impressionada com o físico do ator. Quanta diferença daquele magrelo de Donnie Darko! Para mim, o papel de pugilista caiu como uma luva para ele. E não sei vocês, mas acho que ele está cada vez melhor – como um vinho envelhecido. Vale acompanhá-lo!

Entre os coadjuvantes do filme, acho que Naomie Harris faz um bom papel como a assistente social Angela Rivera – ainda que aquela sequência dela acompanhando Leila nos bastidores da luta tenha sido forçada demais; Miguel Gomez como Miguel “Magic” Escobar, o grande adversário de Billy, cumpre o seu papel – ainda que ele seja beeeem fraquinho em termos de interpretação; e Beau Knapp como Jon Jon, um dos poucos amigos que não abandonam Billy quando ele está “na pior”, também faz o seu – sem grande destaque porque o próprio papel dele era assim.

Da parte técnica do filme, além dos nomes já citados, vale comentar o excelente trabalho do departamento de maquiagem composto de 11 profissionais e os figurinos acertados de David C. Robinson.

Southpaw estreou em junho no Festival Internacional de Cinema de Xangai, na China. Depois, em agosto, o filme participou do Festival de Cinema de Locarno. E isso foi tudo. O único roteiro de prêmios da produção. Cá entre nós, fica meio evidente o porque disso – extremamente comercial e sem inovação, o filme não foi feito para o circuito de festivais mesmo.

Esta produção teria custado cerca de US$ 30 milhões. Apenas nos Estados Unidos o filme fez pouco mais de US$ 51,8 milhões. Se juntar o desempenho em outros mercados, certamente o filme conseguiu registrar lucro.

Para quem gosta de saber sobre a locação das produções, Southpaw foi rodado em diferentes locais de Indiana, Pennsylvania (Pittsburgh e Washington) e em Las Vegas, Estado de Nevada. Ou seja, totalmente filmado nos Estados Unidos.

O MMA virou a última mania mundial de lutas. Mas, pessoalmente, eu achava muito mais interessante quando o boxe estava no auge. Ainda que, todos sabemos, e este filme acerta ao citar isso, o esporte decaiu justamente quando virou uma indústria e começou a ter o dinheiro como o verdadeiro juiz. Uma pena.

Agora, algumas curiosidades sobre esta produção: como Antoine Fuqua tinha um dinheiro bem restrito para esta produção – ainda que eu não achei US$ 30 milhões insignificante -, ele acabou não tendo grana para pagar a trilha sonora de James Horner. Mas o compositor veterano gostou tanto da história que teria feito o trabalho “na faixa”. Esse foi o último filme feito por Horner antes dele morrer em um acidente de avião em junho deste ano.

No início, o papel principal deste filme seria feito por Eminem. O rapper aceitou e começou a estrelar o filme, mas como a produção foi “congelada” por um tempo, Eminem resolveu focar na carreira musical e quando o filme voltou a ser rodado ele foi substituído por Jake Gyllenhaal. Claro que Eminem, a exemplo de 50 Cent, daria um “tempero” para a história mas, francamente, Jake é muito mais ator – sorte do público que houve essa troca.

Jake Gyllenhaal estudou o estilo do pugilista Miguel Cotto para construir o seu personagem.

Este é o primeiro roteiro de Kurt Sutter. Muito se explica. Torcemos para que ele evolua e fique melhor com o tempo.

A Universidade da Pensilvânia foi utilizada para simular os ringues de Las Vegas e de Madison Square Garden.

A música que aparece na parte final do filme, Wise Man, de Frank Ocean, foi originalmente escrita para o filme Django Livre, de Quentin Tarantino, mas como o diretor não conseguiu encaixá-la naquele filme, ela entrou agora na produção dirigida por Fuqua.

O título do filme faz referência à posição de mesmo nome adotada por um pugilista canhoto. A mesma expressão é usada também para falar de um lutador canhoto. Curioso que Jake Gyllenhaal é destro e o seu personagem também luta desta forma, até a estratégia final da luta decisiva. Eminem, por outro lado, é canhoto – o que faria o título do filme fazer mais sentido.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,6 para esta produção. Acho que eles se empolgaram com o ator e a direção tanto quanto eu – dando um bom desconto para o roteirista estreante. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes, por outro lado, foram mais “honestos” com a produção, dedicando 111 textos positivos e 76 negativos para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 59% e uma nota média 6.

Esta é uma produção 100% dos Estados Unidos.

CONCLUSÃO: Um filme com estilo, ainda que o roteiro seja fraco e previsível. Os pontos fortes são o trabalho dos atores e o estilo do diretor, que aposta em uma levada “realista”, seja nas cenas das lutas, seja na rotina do protagonista. O filme acerta ao mostrar os desafios de quem tenta viver do boxe e na origem de muitos pugilistas. O caminho é de pedras, mas com a motivação certa é possível superar cada uma delas. Southpaw nos lembra de valores importantes e entretém nas lutas ao mesmo tempo em que mergulha na história do protagonista. Se você gosta de boxe e de Jake Gyllenhaal, provavelmente vai apreciar esta produção.

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Nightcrawler – O Abutre

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Figuras estranhas andam pelas noites das grandes cidades. Mas nem todas são tão assustadoras quanto o protagonista deste Nightcrawler. E o detalhe mais importante desta constatação é que ele é tão assustador por ser tão humano. Há centenas, talvez milhares de figuras como ele perambulando por aí. Filme bem escrito e bem conduzido, com um ótimo ator encabeçando a trama, Nightcrawler faz pensar em diversas direções. O que não é exatamente comum, mas certamente muito necessário.

A HISTÓRIA: Um outdoor em branco, desocupado, uma lua cheia fantástica no céu e uma cidade iluminada. Diversas cenas desta cidade e uma trilha sonora melancólica ao fundo. Nada demais parece estar acontecendo, e ao conferirmos a placa de Santa Monica, temos certeza que a cidade em foco é Los Angeles. Alguém corta uma cerca, mas para com a aproximação de um carro.

Confrontado por um vigilante (Michael Papajohn), o homem que roubava as cercas de arame, Louis Bloom (Jake Gyllenhaal) tenta disfarçar e diz que está perdido. O vigilante pede a identidade do invasor, e antes de mostrar o documento, Louis percebe o relógio caro que o interlocutor está usando. Em seguida, ele agride o vigilante. Depois, vende o produto do roubo. Mas é tentando voltar para casa que ele tem a ideia de uma profissão na qual ele poderá se encaixar.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu à Nightcrawler): Há tempos eu admiro o ator Jake Gyllenhaal. Acredito que desde o genial Donnie Darko – que recomendo, caso você não tenha assistido. Sempre que posso, confiro as produções em que ele está envolvido. E novamente, com esta Nightcrawler, ele não me decepcionou.

O protagonista deste filme, e vamos saber isso logo nos primeiros minutos da produção, é um psicopata. Quer dizer, não é logo de cara que sabemos disso. No início, Louis Bloom parece apenas um sujeito que vive de pequenos crimes. E ele também parece desesperado por um emprego e por uma fonte razoavelmente estável de dinheiro. Também percebemos, logo no início, que ele é um sujeito que gosta de estar no controle e que está sempre atento às oportunidades.

O roteiro do diretor Dan Gilroy foi construído para não causar tédio. Desde o início, todas as frases dos diálogos dos atores, todos os gestos deles e todas as cenas de ação tem um propósito e estão perfeitamente encadeadas. Conforme a história vai se desenvolvendo e nos aproximamos mais do protagonista, percebemos todos os ingredientes de um psicopata: Louis é um sujeito que gosta de estar sozinho, absorve informações de todas as partes e tem uma dificuldade crônica de ter um diálogo ou uma relação real com alguém.

Ele repete conceitos e frases feitas que foi aprendendo na internet. E esse é o primeiro acerto desta produção: ela nos faz refletir sobre o perigo que conceitos de gestão, administração, psicologia e outras fontes de certezas podem gerar quando disponíveis livremente para mentes insanas. Isso potencializado pela internet.

Claro que você pode argumentar que esta mesma facilidade existia antes, mas em forma de livros. Verdade. Mas a internet torna o processo ainda mais prático. Qualquer um pode acessar praticamente qualquer informação, conceito, frases feitas e formas de manipular os outros sem sair de casa e com uma sequência de comandos dados por algumas teclas do computador.

O assustador do personagem central deste filme é justamente o quanto há pessoas como Louis por aí. Não apenas psicopatas, mas figuras que apenas reproduzem conceitos sem jamais refletir sobre eles – ou, o que seria o ideal, absorver estes e vários outros conceitos e criar as suas próprias teorias e compreensão dos fatos. Informações boas e até corretas nas mãos de manipuladores são extremamente perigosas.

Além disso, é assustador também o fato de muitas pessoas viverem em busca de seus próprios desejos e o que consideram ser suas necessidades sem se importarem com mais nada ou ninguém. Nem sempre estas pessoas são psicopatas, como o Louis desta produção. Muitas vezes elas são apenas insensíveis e/ou cretinas crônicas. Nightcrawler nos faz pensar sobre isso, sobre figuras com algumas destas características que conhecemos em algum momento da nossa vida.

Depois de comentar isso, inevitável citar a maior crítica desta produção: a imprensa e a fixação de parte dos jornalistas com notícias que possam dar altos índices de audiência. Não conheço profundamente a grade de programação da TV dos Estados Unidos. Por isso, me arrisco a achar que esta produção exagera na crítica. Ainda assim, achei bacana Dan Gilroy fazer esta escolha pelo exagero. No burlesco é que muitas vezes percebemos que o rei está nu.

Sendo jornalista, posso fazer uma autocrítica de que a minha profissão muitas vezes erra na dose, no foco e na mensagem. Vejo sim muitos programas, seja no Brasil, nos Estados Unidos ou em outros países, explorando crimes, violência e sangue. Há mídia impressa além de televisiva que muitas vezes faz isso. A desculpa de quem envereda por estes caminhos é que este tipo de conteúdo é o que o público quer ver. Consequentemente, é o que dá audiência e dinheiro com anunciantes.

Me desculpe quem adota essa teoria, mas acho que o papel do jornalista é servir de instrumento para informações relevantes, interessantes e que prestem serviço para a sociedade. Algumas vezes é possível juntar estes três elementos, outras vezes não. Mas a violência dificilmente se encaixa em um destes tópicos. Ou seja, ela não deveria ser explorada. E se é isso que o público quer ver, faz parte do trabalho do jornalista apresentar outras alternativas de informação inclusive para educar este público. Esta é a minha postura, como cidadã e como profissional da área.

Por isso mesmo, achei especialmente interessante como Nightcrawler questiona esse modelo de comunicação que explora o pior das imagens de atos violentos. O lado mais absurdo do ser humano. O que esse tipo de cobertura está contribuindo para melhorar a vida das pessoas? Interessante que Dan Gilroy coloca o tema no holofote.

Algumas vezes, recentemente e após a morte da Lady Di, questionou-se a atuação dos paparazzi. Mas o que dizer de diversos canais de TV e de outras mídias que recorrem a recursos muito parecidos, alimentando não apenas uma rede de paparazzis, mas especialmente diversos “abutres” que vivem de caçar tragédias para vendê-las para a imprensa depois?

Estes questionamentos levantados pelo filme, assim como pelo menos três grandes sequências da produção – o tiroteio na mansão, a chantagem no restaurante e o desfecho com direito a novo tiroteio e perseguição pelas ruas de Los Angeles -, fazem de Nightcrawler uma produção bem acima da média. Bem escrito, com um mergulho interessante na vida do personagem central e sua busca desenfreada por atingir todas as metas pessoais e comprar tudo o que deseja, este filme é um exemplo de como fazer uma história provocadora, que fomenta o debate e que também prende o espectador com uma boa carga de ação.

Mas para não dizer que Nightcrawler é perfeito, fiquei incomodada com alguns detalhes. Para começar, e espero que isso não pareça contraditório com o que eu disse lá no início, achei que Jake Gyllenhaal não estava tão bem quanto poderia. Não sei, mas algumas vezes achei a interpretação dele exagerada e, em outras ocasiões, senti que estava vendo ele em um dos papéis de Enemy (comentado aqui).

Depois, apesar de terem um propósito, achei que os discursos do protagonista para o ajudante dele, Rick (Riz Ahmed), ficaram um pouco repetidos e algumas sequências poderiam ter sido encurtadas. Nem sempre o filme conseguiu manter o ritmo desejado – teve uma ou duas desaceleradas que poderiam ter sido evitadas. Além disso, infelizmente, parte do desfecho final acaba sendo muito previsível – mais que o desejado. Fora estes detalhes, o filme é ótimo. E há ainda o “pós-final”, aquela cena em que ele discursa para os novos recrutas, que é genial.

NOTA: 9,6.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: A cada ano que passa e a cada boa decisão de papel que toma, Jake Gyllenhaal vai se firmando como um dos melhores nome de sua geração. Sou fã dele, admito e repito. E acho que ele passa por um risco que acomete, inevitavelmente a todo grande ator: o de se repetir. Neste Nightcrawler eu vi ele repetir recursos, caras e bocas que já vimos em filmes anteriores do ator. E isso é ruim. Espero que ele continue diversificando os papéis e nos apresentando algo novo. Do contrário, não ficará tão divertido acompanhá-lo daqui pra frente.

Inicialmente o nome de Dan Gilroy não me pareceu familiar. E, de fato, este é o primeiro filme dirigido por ele. Por outro lado, Nightcrawler é o oitavo roteiro escrito por ele. Gilroy estreou em 1992 com Freejack, que conta com Mick Jagger no elenco. Tenho impressão que eu assisti a esse filme, mas não tenho muitas lembranças da experiência para ter condições de dizer se gostei ou não – ou se, e isso é mais importante, se o filme é bom ou fraquinho.

Depois, ele escreveu o roteiro de Two For The Money, de 2005, com Al Pacino e Matthew McConaughey. Outra vez, tenho impressão que assisti ao filme, mas não tenho certeza. O que nunca é bom, a meu ver, porque se as produções tivessem sido boas e marcantes, eu lembraria melhor delas. 🙂 Antes de Nightcrawler, Gilroy escreveu o roteiro de The Bourne Legacy que, infelizmente, não assisti. Então eu não ter arquivo mental sobre ele se justifica. De qualquer maneira, acho que é um nome que vale ser acompanhado – até para sabermos se o próximo projeto vai seguir a qualidade desta estreia dele na direção ou se não.

O grande destaque desta produção é o ator Jake Gyllenhaal. Mais do que o talento do ator, pelo fato do roteiro de Dan Gilroy estar centrado no protagonista. Mas há outros nomes interessantes e que tem uma participação importante no filme. Inevitável não citar o retorno interessante e calculadamente decadente dos veteranos Bill Paxton como Joe Loder, um cinegrafista independente e que tem um bom tempo de estrada como “abutre” e que acaba, em uma noite de trabalho, inspirando a nova profissão de Louis Bloom; e Rene Russo como Nina Romina, a produtora de TV que acaba dependendo do trabalho de Bloom para segurar a própria carreira. Russo, em especial, chega a assustar… a idade, de fato, chega para todos. Mais cedo ou mais tarde – isso vai depender de uso de filtro solar, camadas de maquiagem e outros fatores.

Além dos veteranos citados acima, vale comentar a participação do ótimo Riz Ahmed como Rick, o sujeito sem eira nem beira que acaba servindo de ajudante e cúmplice do protagonista. O ator é, sem dúvida, a revelação do filme. Ele está bem em todas as cenas e interpreta de forma perfeita o tipo de personagem planejado por Gilroy. Um ator a ser acompanhado, pois. Aparecem em cena ainda Kevin Rahm como Frank Kruse, chefe de redação e colega de Nina Romina que fica pasmo com o mergulho da profissional cada vez mais no mundo antiético do “tudo pela audiência”; Ann Cusack como Linda; Kiff VandenHeuvel como o editor da televisão que compra os vídeos de Louis; e os atores Michael Hyatt e Price Carson como os detetives Fronteiri e Lieberman, respectivamente.

O filme conseguiu também amealhar alguns nomes da TV dos Estados Unidos. Faz parte da programação televisiva e aparecem interpretando a eles mesmos Kent Shocknek, Pat Harvey, Sharon Tay, Rick Garcia e Bill Seward. Interessante a participação deles no filme.

Da parte técnica da produção, destaco o ótimo trabalho de edição de John Gilroy; a trilha sonora marcante e que ajuda muito na produção do veterano James Newton Howard; e a direção de fotografia de Robert Elswit, que tem o desafio de manter a qualidade em um filme bastante rodado à noite.

Nightcrawler estrou no Festival Internacional de Cinema de Toronto no dia 5 de setembro. Depois, o filme participaria ainda de 14 festivais e eventos de cinema. Nesta trajetória a produção abocanhou cinco prêmios e foi indicado a outros 14, incluindo o Globo de Ouro de Melhor Ator – Drama para Jake Gyllenhaal. Entre os prêmios que recebeu, destaque para ter entrado como uma das 11 produções da lista “Filme do Ano” do respeitado Prêmio AFI; por ter entrado também na lista das 10 melhores produções de 2014 da National Board of Review; e pelo prêmio de excelente atuação por trás das câmeras para Dan Gilroy conferido pela Sociedade de Críticos de Cinema de Phoenix.

Nessa fase pré-Oscar é interessante estar de olho nas escolhas da AFI e da National Board of Review sobre os melhores filmes do ano porque, afinal, muitos deles devem aparecer na lista da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. A saber: a lista da AFI cita, além de Nightcrawler, os filmes American Sniper (do genial Clint Eastwood – já estou louca para ver!), Birdman (do excelente Alejandro González Iñarritu, de quem sou fã também), Boyhood, Foxcatcher, The Imitation Game, Interstellar, Into the Woods, Selma, Unbroken (dirigido por Angelina Jolie e com roteiro dos irmãos Coen) e Whiplash. Na lista da NBR, além de American Sniper, Birdman, Boyhood, The Imitation Game, Nightcrawler e Unbroken, aparecem Fury, Gone Girl (dirigido pelo ótimo David Fincher), Inherent Vice (do meu ídolo Paul Thomas Anderson) e The Lego Movie. Filmes que parecem ótimos e que correm um grande risco de estarem no próximo Oscar.

Esta produção, como a história mesma sugere, foi totalmente rodada em Los Angeles – tanto as cenas externas quanto as internas.

Nightcrawler teria custado cerca de US$ 8,5 milhões e faturado, apenas na semana de estreia nos Estados Unidos, cerca de US$ 10,9 milhões. De acordo com o site Box Office Mojo, a produção teria conseguido, até hoje, dia 21 de dezembro, pouco mais de US$ 31,5 milhões nas bilheterias americanas. Nada mal, pois. Pelo contrário. O filme já conseguiu um bom lucro e tende a acumular ainda mais conforme os prêmios forem aparecendo.

Agora, algumas curiosidades sobre a produção: Jake Gyllenhaal emagreceu 20 quilos para o papel. Essa foi uma sugestão do próprio ator, que pensou no personagem como um “coiote com fome”. Ou seja, magro e sedento. Interessante. Também curioso que na cena em que Louis se descontrola, após perder a história da queda do avião, Gyllenhaal de fato embarcou no personagem e quebrou o espelho, cortando a mão e tendo que ir para o hospital levar alguns pontos.

O ator Riz Ahmend se preparou para o papel neste filme acompanhando “nightcrawlers reais” de Los Angeles, ou seja, presenciando de perto como os cinegrafistas independentes fazem o seu trabalho nas ruas da cidade. Ou seja, de fato existem figuras que ganham a vida desta forma. Assustador.

Rene Russo é a esposa do diretor Dan Gilroy. Essa é para quem curte carrões: o carro vermelho que Gyllenhaal dirige no filme é um Dodge Challenger.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,1 para esta produção. Levando em conta o padrão do site, esta é uma ótima avaliação. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 182 avaliações positivas e apenas 10 negativas para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 95% e uma nota média de 8,2. Ambas fantásticas.

CONCLUSÃO: Filme de psicopatas, talvez você já tenha visto alguns. Mas um filme que foca em um sujeito sem culpa e que não gosta de pessoas – ele mesmo admite isso lá pelas tantas em Nightcrawler – e que ainda mergulhar em algumas das realidades mais chocantes do nosso tempo, não é tão comum. Esta produção não apenas trata de um psicopata, mas também mostra como parte da população está entregue a uma curiosidade mórbida por crimes e tragédias que apenas alimenta mais o lado sombrio do mundo e da nossa realidade.

Também faz refletir sobre o perigo que é tornar as informações públicas e acessíveis a qualquer pessoa pela internet. Frases feitas e de impacto podem ser usados nos contextos mais diversos e pelas pessoas mais equivocadas. Baita história que não apenas provoca o espectador a repensar alguns conceitos, mas também mantém o ritmo adequado, sem entediar aqueles que já viram filmes com psicopatas e/ou que analisam a mídia. Com algumas cenas que vão voltar à memória do espectador tempos depois da produção, tem tudo para virar um filme cult com o passar do tempo. E cá entre nós, de forma merecida.

PALPITES PARA O OSCAR 2015: Difícil avaliar as chances de um filme como Nightcrawler na maior premiação do cinema dos Estados Unidos no próximo ano. Isso porque um filme como esse, há 10 anos, não chegaria entre os finalistas. Mas a renovação pela qual a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood passou nos últimos anos muda este cenário.

O Oscar está muito mais ousado agora. Filmes diferentes que antes nunca chegariam lá agora estão sendo indicados. Sendo assim, olhando apenas para a história da premiação, eu diria que Nightcrawler não seria indicado ou, no máximo, chegaria na categoria Melhor Ator para Jake Gyllenhaal. Mas, como os tempos mudaram, não seria uma total surpresa se esta produção fosse indicada também como Melhor Roteiro Original e, o que seria um pouco mais difícil, aparecesse na lista de Melhor Filme – levando em conta que este ano podemos ter, novamente, 10 indicados nesta categoria.

Da minha parte, acho que Nightcrawler até pode ter uma ou três indicações, mas dificilmente levará alguma estatueta para casa. Não que ele não mereça, especialmente Gyllenhaal, mas acho que esta produção foge demais do perfil da Academia. Veremos.

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Enemy – O Homem Duplicado

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Imagine um sujeito que tem uma vida comum, ensinando os mesmos conceitos para estudantes dia após dia, mantendo uma relação morna com a namorada e repetindo os mesmos passos um após o outro. Até que ele quebra um pouco a rotina assistindo a um filme recomendado por um colega de trabalho e vê a própria imagem em um papel secundário na trama. Este é apenas o começo de uma reflexão sobre as escolhas que fazemos sobre a nossa própria vida e sobre as características que nos definem. Enemy trata disso e de muito mais. Um filme difícil de digerir no início, mas que vai ficando melhor conforme pensamos nele.

A HISTÓRIA: Imagens de uma cidade que parece parada. Em uma gravação, a mãe de Adam (Jake Gyllenhaal) agradece por ele ter mostrado para ela o seu novo apartamento. Na sequência ela emenda que está preocupada com ele e afirma que não sabe como o filho consegue viver daquela maneira. Ela pede para ele retornar e diz que o ama. Dentro do carro, Adam olha o movimento passar. Na cama, uma mulher grávida e nua olha para trás. Corta.

Uma frase vaticina: “Caos é a ordem ainda não decifrada”. Adam contempla uma chave que vai levá-lo a um local onde vários homens observam mulheres nuas sentindo prazer. Uma delas flerta com uma aranha. Corta. A cidade encoberta por uma névoa é revelada de perto. E o professor Adam fala para os seus alunos sobre controle. Em breve a vida organizada e controlada dele passará por um grande teste.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Enemy): Eis uma produção pesada. Não apenas nas mensagens, mas principalmente na narrativa e nos recursos “ambientais” (vide trilha sonora e direção de fotografia). Por isso mesmo a primeira sensação quando este filme acaba é de indecisão sobre o que assistimos. Afinal, do que este filme trata? E qual é a versão verdadeira – de algumas possíveis?

Procurando saber um pouco mais sobre a história depois que Enemy terminou, percebi que o roteiro de Javier Gullón foi baseado no livro O Homem Duplicado, do escritor português José Saramago. Lembro bem de quando a obra do português foi lançada. Ela dividiu opiniões e muita gente entendeu o que quis do livro. Então, meus caros, como esperar algo diferente de um filme inspirado em uma obra que já tinha, por essência, o desejo de fazer pensar sobre identidade e com isso, provocar confusão nas leituras a respeito do que foi narrado?

Dito isso, vamos ao que interessa: afinal, do que Enemy trata? (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Primeiro de tudo, esta produção aborda o sistema de vida atual de muitas sociedades modernas e urbanas. O protagonista deste filme é um sujeito que leva uma vida sem paixões e com muita rotina. Ainda que ele tenha um relacionamento com Mary (Mélanie Laurent), essa relação parece estar sempre próxima do fim – afinal, poucas vezes eles ficam mais tempos juntos do que na hora da cama. Há pouco diálogo e quase nenhuma convivência.

Quantas pessoas você conhece que vivem assim, cercadas de rotina e pouco sentimento? E mesmo o “antagonista” de Adam, o personagem de Anthony (o mesmo Jake Gyllenhaal), que em teoria tem uma vida bem mais “divertida” – afinal, ele é um ator que já conseguiu algumas pontas interessantes e que está procurando um lugar ao sol enquanto espera o primeiro filho ao lado da mulher Helen (Sarah Gadon) -, não tem uma vida exatamente “feliz”. Se fosse assim, ele não teria uma “vida dupla”.

E essa vida dupla não se manifesta apenas pelo clubinho de pervertidos do qual ele faz parte, mas também pelas traições dele no relacionamento – em certo momento Helen pergunta se ele vai ver a amante outra vez, apesar de ter prometido nunca mais fazer isso. Depois de ficar bem confusa com o filme, fui buscar mais informações sobre a obra de Saramago. E daí descobri que mais do que tratar de clonagem – essa foi a leitura de várias pessoas sobre a obra original -, o autor queria abordar a questão da identidade.

E quando ele trata dela, não está apenas discutindo o que, afinal, nos define ou não, mas também essa estranheza cada vez mais contaminante nos dias de hoje sobre o desconhecido, o diferente. Em uma sociedade individualista, cada vez mais as pessoas são “instruídas” a defender o seu próprio terreno, as opiniões e valores que tem, preservando estes conceitos sempre que se sente “ameaçada” por alguém que apresenta outras opiniões, valores e costumes.

O que você faz quando encontra alguém diferente ou muito parecida com você fala muito sobre a tua própria identidade. E afinal de contas é mais fácil lidar com alguém muito diferente ou muito parecido com a gente? Esta pergunta também aparece neste filme – e na obra de Saramago. Além disso, fica evidente como as duas obras – a cinematográfica e a literária – fazem uma crítica a essa vida “mais ou menos” que vai ocupando grande parte da existência do indivíduo. Ele não está satisfeito com a própria rotina ao mesmo tempo em que não consegue achar uma solução para este “estado das coisas”.

E o curioso do momento de “ruptura” da trama é a forma com que Adam e, principalmente, Anthony, flertam com a mudança radical da própria rotina para abraçar uma vida diferente. Claro que Anthony pensa em fazer isso rapidamente – trair a mulher com Mary e depois voltar para casa como se nada tivesse acontecido. Ele lida com os problemas da própria rotina desta forma, com pequenas escapulidas sem o “perigo” da ruptura radical.

Adam, por outro lado, não deseja mudar nada. Mas, ao mesmo tempo, quando encara a realidade da namorada sendo enganada por Anthony e traindo ele com o sósia egoísta, Adam não consegue ficar impassível. Resolve dar o troco, sem saber exatamente aonde está se enfiando. Ele faz isso mais por automatismo do que por vontade de alterar tudo radicalmente. O problema é que Saramago é um mestre da surpresa. Ele acaba com os planos dos próprios personagens que cria.

Não apenas Anthony tem um final surpreendente como Adam também cai em uma realidade que não tinha planejado. É isso o que acontece quando não pensamos bem a respeito dos nossos próprios atos. Com o acidente fatal de Anthony e Mary – o filme não deixa muito claro que eles morrem no carro, mas o livro de Saramago sim deixa isso claro -, Adam acaba assumindo o lugar do ator. Enemy termina antes do desfecho do livro – falarei dele mais abaixo.

Mas o importante desta produção é que ela mantém estas reflexões da obra original de Saramago. Com algumas pequenas mudanças feitas pelo roteirista Javier Gullón que tornam o filme um artigo independente. Vejamos. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Para começar, durante grande parte do filme o espectador não sabe exatamente o que está acontecendo. Especialmente as falas da mãe de Adam, interpretada pela veterana Isabella Rossellini, colocam dúvidas na cabeça do público.

Primeiro, ela diz que está preocupada com o filho e que não entende como ele consegue levar a vida que está levando. Isso sinaliza que Adam não estaria agindo bem. Mas daí mergulhamos na rotina dele, bastante entediante e “normal”, e parece deslocada aquela preocupação toda da mãe – mas deixamos a leitura sobre isso para depois, porque há mães um pouco “preocupadas demais”, por assim dizer, e aquela sensação de que existe alguma coisa podre no reino da perfeição pode ser apenas uma ilusão.

O tempo passa, Adam vê a “si mesmo” – ou alguém igual a ele, já que aparentemente ele não tem lembrança nenhuma de ter participado de filmes como figurante – em produções pouco conhecidas e daí fica esboçada a ideia de que Anthony é uma cópia perfeita de Adam e não a vida dupla do protagonista. É isso o que o roteiro nos faz acreditar, ainda que aquele sujeito igual a Adam pareça estranho, um pouco difícil de acreditar.

A primeira ideia que tive na cabeça, tentando “matar a charada” antes da hora, é que Anthony fosse a identidade dupla de Adam. E que ao confrontar a própria imagem no filme indicado pelo colega de trabalho (interpretado por Joshua Peace), em uma indicação “cheia de malícia”, ele tem que enfrentar o “transtorno dissociativo de personalidade”, como gostam de chamar os psicólogos. E mesmo o encontro no motel, para mim, não me pareceu definitivo – afinal, alguém que tem este transtorno pode também fantasiar um encontro inexistente.

Ajuda nesta teoria o encontro de Adam com a mãe quando o filme beira quase uma hora de duração. Além dela insistir que Adam é seu filho único e que é impossível ele ter encontrado alguém exatamente igual a ele – deve existir alguma diferença, ela argumenta -, a mãe do protagonista confunde a todos quando diz que ele deve desistir de atuar em filmes de terceira linha. Como mais tarde a mulher de Anthony comenta que achou estranho ele chegar em casa mais cedo porque iria visitar a mãe, algum desavisado pode achar que era o ator que estava falando com a mãe.

O problema é que o filme mostra Anthony perseguindo a namorada de Adam até o trabalho com uma roupa de motociclista e o homem que fala com a mãe em um apartamento estranho está vestido como o professor Adam. Então se aquele homem que fala com a própria mãe é Adam, por que ela comenta que ele deveria desistir de fazer filmes de terceira linha? Ela está apenas fazendo uma piada ou realmente dando um conselho para o filme? E se for o segundo caso, afinal de contas, Anthony nada mais é que a outra personalidade de Adam?

O roteiro de Enemy dá a entender que as traições de Adam e Anthony ocorrem simultaneamente. Enquanto Adam se faz passar por Anthony e se aproxima de Helen, o ator está na cama com Mary e, depois, se acidenta de carro quando Helen decide consumar a traição. A diferença é que Helen sabe o que está fazendo – que Adam não é Anthony – enquanto Mary está sendo enganada. Mas quem nos garante que, de fato, os fatos são simultâneos? Será mesmo que Adam não poderia ter “atuado” como Anthony com Helen primeiro e depois ter “atacado” Mary? As duas mulheres serem loiras e bem parecidas – exceto pela gravidez – também ajudam na confusão – que, sem dúvida, é um dos objetivos da história.

O que contradiz esta teoria de que os dois homens seriam a mesma pessoa são três pequenos detalhes. Primeiro, a questão temporal. Ainda é dia quando Anthony pega Mary para um dia diferente e “romântico” e também é dia quando Adam vai para o apartamento que o ator tem com a mulher grávida. Depois, quando amanhece, Helen ouve no rádio a notícia do acidente que ocorreu na madrugada antes de mudar a estação – dificilmente Adam teria tempo de transar com as duas mulheres e chegar em casa a tempo de Helen não desconfiar. E, finalmente, a questão da marca da aliança. Mary identifica o impostor porque ele tem a marca de uma aliança – algo que Adam nunca teve.

Estes detalhes derrubam a tese de que Adam tinha dupla personalidade. De fato, ele e Anthony eram idênticos, mas dois indivíduos diferentes. E como seria possível algo assim? Para mim, ficou evidente que a mãe de Adam mente. Ainda que ela jure que ele não teve um irmão gêmeo, será isso verdade? E se ele realmente era filho único, em que momento e com que objetivo teriam feito uma cópia perfeita dele? Seria possível uma clonagem sem o conhecimento da mãe de Adam? Acho beeeeeeeeeeem improvável.

Da minha parte, analisando apenas o filme, acredito que Anthony era irmão gêmeo de Adam e que as famílias dos dois não foram francas com eles – por motivos que desconhecemos. Quando Adam vê uma pessoa igual a ele atuando em filmes, fica perturbado. Ele se pergunta quem é ele, quem é o outro? O que define e o que diferencia cada um deles? Fica perturbado, perplexo, mas acaba aceitando essa figura diferente e tão parecida com ele. Com a aparição de Anthony, Adam repensa a própria vida.

O problema é que quando ele está pronto para fazer decisões importantes em sua própria vida, Anthony decide estragar tudo ao pular a cerca com Mary. Para o ator, acostumado a ter uma vida dupla e a enganar a mulher, esta será apenas mais uma traição. Para Adam, o significa do ato de Anthony é muito diferente. Ele não consegue lidar com a ideia de Mary estar na cama com outro homem, e a vida perfeita e ordenada que ele tinha acertado em sua própria cabeça desmorona.

No final, Adam acaba assumindo a posição de Anthony – mesmo antes dele e de Helen saberem do destino trágico de seus parceiros. Essa solução parece um pouco estranha no filme, mas é melhor explicada no livro. Aparentemente, segundo o roteiro de Gullón, Adam não consegue lidar com a traição involuntária de Mary e diz que não pode mais encontrar a namorada. Tendo perdido a amada, para ele parece natural assumir a outra vida já desenhada – de seu “sósia” Anthony. Helen estava farta do marido inconstante e traidor, e vê em Adam uma nova oportunidade de recomeço.

Claro que na vida real estas saídas parecem um tanto improváveis. Mas é bom lembrar que esta é uma ficção. 🙂 Sendo assim, acho sim que aqueles dois sujeitos idênticos eram, de fato, muito diferentes entre si. Ainda que eles tivessem em comum algo fundamental: a facilidade de mudar radicalmente de vida quando tivessem uma oportunidade. De forma simbólica, quando Adam aceita repetir os passos de Anthony e fazer parte daquele clube de homens sádicos, no lugar de Helen ele encontra uma aranha gigante.

Esta aranha, que ocupa todo o quarto, simboliza o mesmo animal que entra dentro da mulher observada por um grupo de homens excitados e silenciosos. Ela provoca prazer e dor na mulher, assim como a vida dupla que Adam começa a assumir vai trazer para ele e para quem estiver próximo dele. Provocações interessantes do roteirista Javier Gullón e do diretor Denis Villeneuve.

Ainda assim, muitas perguntas que Enemy levanta não são respondidas pela produção. E se você, como eu, for atrás do original, do livro O Homem Duplicado de José Saramago, tampouco terá uma resposta esclarecedora. Em sua obra, Saramago deixa claro que Mary e Anthony morreram no acidente de carro. Isso fica esclarecido. Mas o final do livro abre outra pergunta que Enemy não levanta.

Depois de assumir a identidade de Anthony a pedido de Helen, Adam recebe um telefonema em casa. A exemplo do que ele fez antes, agora é um outro homem que está ligando para dizer que ele é igual a Adam (agora na pele de Anthony). Mesmo perplexo, Adam aceita se encontrar com o desconhecido. Mas desta vez ele sai para o encontro armado. Temendo ser substituído da mesma forma com que ele fez com Anthony ele vai encontrar a sua cópia para eliminá-la? Conseguindo isto, por quanto tempo ele continuará seguro? A sensação de risco permanente é outra “praga” contemporânea. Saramago acerta ao tratar disto.

Mas a origem destas cópias não é explicada no livro de Saramago. Seriam elas resultado de clonagem? E se afirmativo, porque esta seria a resposta mais “plausível” (o que por si só já é um bocado absurdo, convenhamos), como estas cópias teriam sido feitas? E quem, afinal de contas, seria cópia de quem? Certamente há muita mentira e segredos espalhados aqui e ali para que aquelas cópias existissem. E a ameaça delas será constante. Assim como na vida real, sem que tenhamos cópias nos ameaçando, são arriscadas as ameaças constantes da vida que nos colocam em xeque a nossa própria identidade. Trabalho inteligente, ainda que o filme seja um pouco confuso demais.

NOTA: 8,7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Importante dizer que eu apenas entendi melhor a proposta de Enemy depois que busquei o original de Saramago. E ainda que isso seja interessante – essa ligação que muitas vezes o cinema faz com a literatura -, sou defensora da independência destas duas expressões artísticas. Por isso mesmo, acho ruim quando um filme como este exija do espectador que ele vá atrás da obra original para entender o que aconteceu – acho que ele deveria ser mais autoexplicativo.

Durante a exibição do filme, achei Enemy muito pesado. Não apenas pela história, que é um tanto confusa e tensa, mas também por causa das escolhas feitas pelo diretor de fotografia Nicolas Bolduc e pelos responsáveis pela trilha sonora, sempre densa e pesada, Danny Bensi e Saunder Jurriaans. Estes elementos ajudam no desconforto que a história quer provocar – assim como a obra de Saramago.

Por falar no original, no livro O Homem Duplicado, acho interessante citar o que o autor queria com a própria produção. Nesta entrevista para a Folha de São Paulo em 2002, na época do lançamento do livro, Saramago afirmava que tinha uma preocupação constante pelo outro e que O Homem Duplicado era um livro “engajadíssimo”. Apesar de comentar isso, ele não esclarece de forma clara o que queria com esta obra. Esboça, contudo, que a questão dos nomes tem uma importância menor – para as pessoas é importante dar nomes para tudo, ainda que isso não seja determinante sobre o que as coisas ou as pessoas são.

Gostei do título original do filme. Enemy. Afinal, o “inimigo” é aquele que aparece na vida do protagonista para confrontá-lo, vindo de fora, ou é ele próprio ao tomar as atitudes erradas? Seríamos nós mesmos os nossos maiores inimigos através da nossa consciência? Esta ideia também está, aparentemente, no original de Saramago.

Muito boa e segura a direção de Denis Villeneuve. Depois de dirigir o “fenômeno” Prisoners (comentado aqui), o diretor canadense marca mais uma dentro com Enemy. Novamente ele confunde o público com diversas pistas mas esclarece as dúvidas nos detalhes. Ou, pelo menos, tenta. 🙂 Eis um diretor para ficarmos de olho. Atualmente, ele trabalha na pré-produção de Sicario, previsto para ser lançado no próximo ano e tendo Josh Brolin, Benicio Del Toro e Emily Blunt no elenco; e também em Story of Your Life, previsto para 2016, com Amy Adams. Estaremos de olho.

Este é um filme com um elenco reduzido. A trama gira em torno dos personagens vividos por Jake Gyllenhaal – e por suas duas loiras. Além dos atores já citados, vale citar as pontas dos atores Tim Post, que interpreta o homem que trabalha na recepção do prédio de Anthony e que está louco para conseguir uma nova chave para a “diversão da turma”; e Kedar Brown como o segurança que entrega o envelope com a nova chave para Adam – correspondência destinada para Anthony. Os dois fazem pontas com certa relevância e que imprimem um pouco mais de mistério na história. Mas o grande trabalho fica mesmo com Gyllenhaal, muito bom em diferenciar os dois personagens/personalidades da história.

Da parte técnica do filme, além da trilha sonora e da direção de fotografia pesadas, vale citar o bom trabalho do editor Matthew Hannam e o figurino sutil e fundamental de Renée April.

Enemy estreou em setembro de 2013 no Festival Internacional de Cinema de Toronto. Depois, o filme participaria de outros 21 festivais – uma marca impressionante! Nesta trajetória o filme conseguiu abocanhar sete prêmios e foi indicado a outros seis. Entre os que recebeu, destaque para os de Melhor Fotografia, Melhor Direção, Melhor Edição, Melhor Trilha Sonora Original e Melhor Atriz Coadjuvante para Sarah Gadon na categoria Canadian Screen Award do Genie Awards, realizado em Ontario, no Canadá, neste ano.

De acordo com o site Box Office Mojo, Enemy teria conseguido pouco mais de US$ 1 milhão nos cinemas dos Estados Unidos. Pouco.

Enemy foi totalmente rodado nas cidades de Toronto e Mississauga, ambas no Canadá.

Agora, algumas curiosidades sobre este filme: o elenco assinou um contrato de confidencialidade que não lhes deixa dar entrevistas ou qualquer explicação sobre o significado das aranhas para a história. Interessante.

O protagonista foi oferecido para Javier Bardem, mas o ator achou que o personagem não “combinava” com ele. Estranho… pensar que alguns personagens não combinam com o ator. Depois, o papel foi oferecido para Christian Bale, que não pode aceitar devido a um conflito de agendas. Acho que ele teria se saído bem – só não sei se melhor que o Jake Gyllenhaal.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,9 para Enemy. Uma boa avaliação, ainda que apenas mediana perto de outros filmes que viraram “sensação”. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 60 textos positivos e 20 negativos para a produção – o que lhe garante uma aprovação de 75% e uma nota média de 6,7.

Esta é uma coprodução do Canadá com a Espanha.

CONCLUSÃO: No início, não gostei tanto de Enemy. Achei o filme um pouco arrastado, enquanto a história se desenrolava, e o roteiro também bastante confuso. Mas isso apenas em um primeiro momento. Conforme fui pensando na história e conheci o original de José Saramago, as peças foram se encaixando melhor. Não existe apenas uma forma de entender este filme – ou a obra original que o inspirou. E isso é sempre uma grande qualidade para qualquer história. Enemy carece de um pouco mais de ritmo, mas até essa forma de narrativa ajuda na sensação de incômodo – que é o foco principal desta produção. No fim das contas este filme incomum mexe com nossos conceitos, interpretações, e deixa muitas perguntas no ar. Vale uma conferida por causa disso.

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Prisoners – Os Suspeitos

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Filmes policiais nos provocam. Afinal, sobram histórias de crimes ao nosso redor. Desaparecimentos, sequestros, mistérios que nos afetam direta ou indiretamente. Quando um roteiro de filme do gênero é bem escrito, nos fascina pelo mistério. Não por acaso, Seven é um dos meus filmes favoritos do gênero e de sempre. Desde o excelente filme de David Fincher, uma produção do gênero não mexia tanto comigo como esta Prisoners. Envolvente, bem escrito, mas com alguns probleminhas aqui e ali, este é um filme que respeita o gênero policial e a nossa inteligência.

A HISTÓRIA: Cenário de árvores e neve. Keller Dover (Hugh Jackman) reza um Pai Nosso. Lentamente, um cervo começa a aparecer na cena. A câmera vai se afastando, e aparece à esquerda um rifle. O filho de Keller, Ralph (Dylan Minnette) dispara e acerta no alvo, sendo cumprimentado pelo pai. Na volta para casa, Keller explica para o filho o que a esposa lhe ensinou de mais valioso: estar sempre preparado. Ele diz que não importa o que aconteça, a família deles precisa estar preparada para enfrentar problemas. Por isso, ele mantém um estoque de suprimentos em casa. Mas nenhuma preparação vai impedir que a caçula da família, Anna (Erin Gerasimovich), e a filha de um casal de amigos, Joy Birch (Kyla Drew Simmons), desapareçam, tornando a vida de Keller e dos demais um verdadeiro purgatório.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Prisoners): Algo que me chamou a atenção neste filme, desde o princípio, é como ele alimenta a nossa dúvida. Afinal, o que aconteceu com aquelas duas meninas? Será possível que aquele trailer detonado que parou na vizinhança pode não ter nada a ver com o sumiço delas? Pouco provável, não é mesmo? E o estranho Alex Jones (Paul Dano) de fato tem a maturidade de uma criança de 10 anos e não fez nada ou é um sujeito dissimulado?

Estas são apenas algumas das várias perguntas que alimentam o imaginário do espectador enquanto a ação de Prisoners vai se desenvolvendo. E claro, como pede um bom filme policial, o detetive Loki (Jake Gyllenhaal) vai seguindo várias pistas e o próprio instinto e lançando informações que parecem desconexas, sem muito sentido, na nossa frente. Enquanto o próprio detetive tenta ligar os pontos, o espectador é convidado a fazer o mesmo pelo roteiro de Aaron Guzikowski.

Diferente de outros filmes, como muitas produções de Alfred Hitchcock, em Prisoners não temos o privilégio de saber mais da história do que os personagens envolvidos. Sem uma posição privilegiada, nos resta seguir os passos da dupla de protagonistas, o detetive Loki e o pai Keller, para saber quem está mais próximo da verdade. Tendo o risco de nenhum deles estar avançando na direção certa. Esta dúvida constante, esta incerteza é o que torna Prisoners angustiante e atraente.

Não é por acaso que o roteiro fica centrado nas ações destes dois personagens, o detetive e o pai desesperado. No caso de um desaparecimento, quando a polícia funciona, são estes dois agentes, a polícia e a família, mais diretamente afetados pelo acontecimento. Gostei da forma com que Prisoners mostra estes dois elementos. Temos um detetive que parece dedicado ao trabalho, mas que cria dúvidas sobre a sua competência para o espectador na medida em que o tempo vai passando e ele não consegue nada de muito concreto sobre o caso; e temos o pai de família que funciona com a visão de mundo de que ele é o provedor e o protetor, a pessoa que deve garantir a segurança de todos e resolver o problema.

Interessante esta leitura feita pelo roteiro de Guzikowski porque, bem sabemos, em muitos locais – e não apenas nesta ficção ambientada nos Estados Unidos – as coisas funcionam com esta lógica. Percebo que grande parte da população, inclusive no Brasil, pensa bastante com a lógica de “fazer as coisas a sua maneira”. Ou, em um contexto como o mostrado pelo filme, em pensar que a justiça deve ser feita de qualquer forma, a qualquer custo, e que a solução dos problemas está na mão dos envolvidos.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Neste ponto Prisoners nos apresenta dúvida suficiente para pensar se as atitudes de Keller são exageradas ou estão indo na direção certa e necessária, ainda que não seja bonito ver alguém ser tão maltratado, agredido, torturado como Alex. E daí jogam um papel importante o casal Nancy (Viola Davis) e Franklin Birch (Terrence Howard), pais de Joy. Eles querem, evidentemente, que a filha seja resgatada com vida. Assim, tem o mesmo desejo essencial de Keller. Mas é evidente que Franklin não concorda com os métodos e com o grau de crueldade a que chega o amigo. Ainda assim, o que ele faz?

Ele divide o problema com a mulher. Não consegue carregar aquele “fardo” sozinho. E aí os Birch tomam a atitude de muita gente que legitima os absurdos cometidos na nossa e em tantas outras sociedade: eles lavam as próprias mãos. Nancy diz que não vai contribuir para que as torturas continuem, mas que eles também não devem fazer nada para impedir Keller. Esta ânsia por “justiça com as próprias mãos” está difundida e é muito perigosa, além de absurda.

Certo que alguém pode dizer que Keller poderia estar certo. Verdade. Mas de fato ele precisava fazer aquilo? A polícia não chegaria à verdade mais cedo ou mais tarde? A justificativa de Keller é que, quando isso acontecesse, poderia ser tarde demais para a filha dele e dos Birch. Bem, esse é o risco que se corre sempre que um crime é cometido. Mas nem por isso temos o direito de sair culpando pessoas e exigindo que elas paguem por algo que não temos certeza que ocorreu.

A sociedade existe com leis e regras justamente para não vivermos no caos. Imaginaram todos fazendo o que acham certo, sem seguir o que está estabelecido? Seria uma verdadeira loucura e, tenho certeza, muitas outras injustiças seriam cometidas. A Justiça é falha, verdade. Assim como a polícia nem sempre consegue resolver todos os crimes. Mas sem a confiança da sociedade nestas instituições tudo seria ainda pior. Viveríamos na barbárie.

Prisoners trata um pouco de tudo isso. Sobre este desejo das pessoas, especialmente dos “chefes de família”, de ter controle sobre tudo, de resolver os seus problemas sem ter a paciência ou a confiança necessárias nas instituições estabelecidas. Hugh Jackman convence muito bem como o pai desesperado e que segue a própria convicção tendo o resgate da filha e de sua amiga como seu único propósito. Mas quantas pessoas bacanas, corretas e com “fé” podem agir de forma equivocada e provocar absurdos tendo esta arrogância de saber o que é “melhor” a todo o momento?

As pessoas cheias de certezas são as mais perigosas que podem existir. A arrogância é um perigo, assim como a certeza de que temos o controle sobre tudo o que nos cerca. Isso é impossível. Interessante como a família Dover acredita nisto, que estão muito preparados para tudo – mantendo, inclusive, um grande estoque de mantimentos para qualquer catástrofe ou eventualidade que possa acontecer. Acreditando serem muito espertos, e preparados, eles não aceitam quando algo inesperado como o sumiço de Anna acontece. Difícil lidar com pessoas assim, e mais difícil ainda é perceber que há muita gente por aí com esta postura.

Não deixa de ser tragicamente cômico que este filme comece com um Pai Nosso. Porque tudo o que Keller e sua família parece carecer é de fé. Eles não acreditam na polícia. Não apenas Keller resolve fazer a “justiça com as próprias mãos” e resolver o problema sozinho, por não acreditar na eficiência de Loki, como a esposa dele, Grace (Maria Bello) não consegue sair da cama. Parece em depressão constante. Claro que dá para entendê-los. Afinal, o sumiço de uma filha deve ser algo horrível de enfrentar. Mas onde ficou a fé deles? Essa crise de valores, ou de ser coerente com o que se acredita e como se age, é uma leitura crítica interessante dos nosso tempo.

O outro protagonista desta história, o detetive Loki, por sua vez, demonstra uma fé aparentemente incansável no próprio trabalho. Ele segue todas as pistas que considera importantes e não perde a esperança de conseguir chegar a um bom resultado. E aí surge uma das razões principais para o roteiro de Guzikowski funcionar tão bem: o espectador passa a conhecer vários elementos que parecem não se encaixar com a história do sumiço de Anna e Joy.

Como por exemplo a história do padre Patrick Dunn (Len Cariou) e do homem que Loki encontra morto no porão dele. O que ela tem a ver com o caso que o detetive está investigando agora? E por que a senhora Milland (Sandra Ellis Lafferty) tem tanta certeza que a mesma pessoa que levou o filho dela, há 26 anos, cometeu o mesmo crime agora contra Anna e Joy? Puro chute? Ou estas histórias podem estar relacionadas? Não faz muito sentido, mas também seria estranho elas estarem no filme se fossem totalmente descoladas da trama.

Quando o personagem de Bob Taylor (David Dastmalchian) aparece em cena, as dúvidas aumentam. Suspeitíssimo, ele cria tensão ao entrar nas casas dos Birch e dos Dover. O que ele foi fazer lá? Ele é o parceiro de crime de Alex? Sem dúvida o filme ganha com este personagem, enquanto o tempo passa e a pressão fica cada vez maior para que um desfecho aconteça. Você chega a pensar que tudo aquilo pode ser um grande engano, ou que as meninas nunca mais serão encontradas. Muitas dúvidas no ar.

O desafio de um roteiro de filme policial não é apenas envolver o espectador com tensão, cenas de ação e com pistas jogadas aqui e ali para tornar a história interessante. No final, tudo precisa se encaixar e fazer sentido. Cada fato relevante mostrado no filme precisa estar conectado e fazer sentido. E isso acontece em Prisoners. Todos os elementos se encaixam. Mas há pelo menos dois pontos que não se encaixam muito bem e que acabam incomodando e prejudicando o resultado final.

(SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Para começar, se de fato Alex era inocente e tinha a mentalidade de uma criança de 10 anos, por que ele não reagiu antes falando a verdade para Keller? Impossível alguém acreditar que uma pessoa aguentaria tanta tortura e agressões apenas com medo de sofrer ainda mais ao dedurar a “tia” Holly Jones (Melissa Leo). Certamente ela e o marido educaram o garoto com medo, mas ainda assim é difícil acreditar que sob tanta tortura ele não falaria que deixou as meninas para a sequestradora. E o longo sequestro de Alex também justifica porque ele ficou com aquela mentalidade subdesenvolvida – afinal, ele não estudou e, certamente, foi bastante maltratado.

Outro ponto difícil de engolir tem a ver com o final. O detetive Loki faz barulho com o carro ao chegar, bate na porta e ainda chama a Holly. E, mesmo assim, a mulher segue com a rotina e não pensa em dispensar o policial ou se ver livre dele de outra maneira? Por que ela desistiria no final? Não faz sentido.

Esses dois pontos incomodam porque o restante do filme funciona muito bem. Além de questionar pontos importantes sobre a perda de fé, a loucura e as formas com que as pessoas lidam com a perda e o imprevisto, Prisoners amarra bem todas as pontas. Só não convence nos dois pontos citados, além de ser difícil de acreditar na resolução final para o drama de Keller. Por quanto tempo ele fez barulho? E como ninguém ouviu antes? O detetive Loki parece que é o único herói desta produção, que consegue envolver bem o espectador e que tem muitas qualidades, mas alguns probleminhas que poderiam ter sido evitados.

NOTA: 9,2.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Foi difícil chegar a uma nota para este filme. Inicialmente, cheguei a avaliá-lo até melhor. Movida pela tensão criada pela história logo depois que Prisoners terminou. Mas os dias foram passando e, quanto mais eu pensava nos pontos que não se encaixavam, mas eu achava que deveria diminuir a nota do filme. Cheguei na avaliação acima porque acho que Prisoners toca em pontos importantes e que precisam ser discutidos. Se não fosse assim, talvez as pequenas mas importantes falhas do roteiro fariam ele descer ainda mas na minha avaliação.

O diretor Denis Villeneuve faz um belo trabalho. Além de destacar a interpretação dos atores, e de colocá-los sempre em sequências bastante extremas, ele não economia nas cenas noturnas e de impacto. O filme tem ritmo e valoriza o bom roteiro de Guzikowski. Mais um belo trabalho do diretor canadense que já acumula 53 prêmios na carreira que tem apenas seis longas, quatro curtas, uma série de TV e a participação em outro longa com um segmento até agora.

O personagem de Bob Taylor acaba se revelando ainda mais interessante no final. Ele e Alex Jones ganham uma dimensão totalmente diferente. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme ainda). Descobrimos que Bob foi o segundo garoto sequestrado pelo casal Jones e que, depois de fugir, nunca mais se recuperou. Ele descobriu o livro Finding the Invisible Man e resolveu recriar o roteiro de terror que viveu de uma forma bastante sinistra. E sem ser compreendido. O símbolo do labirinto, compartilhado por Bob e Alex, tinha origem no medalhão do marido de Holly, o mesmo homem que acaba sendo preso após confessar para o padre Patrick Dunn que havia matado a 16 crianças. Bob e Alex foram tão traumatizados que não conseguiram se livrar daquele terror, mas o detetive Loki acaba chegando à verdade.

Aliás, outro ponto interessante deste filme é a ironia do final. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Desprezível a violência empregada por Keller contra Alex que, no fim das contas, foi a maior vítima de toda esta história. Mas se não fosse o cativeiro que ele provocou, o detetive Loki não teria ido até a casa de Holly para avisá-la do resgate de Alex e, consequentemente, não teria descoberto a verdade. Interessante esta provocação da história, após fazer toda aquele reflexão de que a justiça com as próprias mãos pode ser bastante injusta.

Os atores envolvidos nesta história fazem um belo trabalho. A ponto de convencer o espectador sobre o momento que cada um deles vive. O destaque, claro, fica para Jake Gyllenhaal e Hugh Jackman, que dominam a cena. Em papéis menores, mas igualmente convincentes, estão Viola Davis, Maria Bello e Terrence Howard. Mesmo aparecendo muito menos que os protagonistas, os suspeitos desta produção se saíram muito bem. Em papéis delicados, os atores Paul Dano e David Dastmalchian convencem pelo tanto que eles se revelam “desfuncionais”. Melissa Leo também está bem, se bem que eu acho que o excesso de maquiagem/caracterização atrapalha um pouco a atriz.

Da parte técnica do filme, vale destacar o ótimo trabalho do veterano diretor de fotografia Roger Deakins. Ele tem que lidar com várias cenas escuras e em penumbra e consegue um belo resultado final. Muito bom também o trabalho de edição da dupla Joel Cox e Gary Roach. A trilha sonora de Jóhann Johannsson é fundamental para o filme, ainda que não seja nada inovadora. Ela apenas segue o peso e o estilo de outros filmes de suspense policial.

Agora, algumas curiosidades sobre esta produção. Hugh Jackman entrou no projeto quando Antoine Fuqua era o diretor escalado para Prisoners. Depois, os dois saíram do projeto. Após vários anos de desenvolvimento para o filme sair do papel, Jackman acabou voltando.

Mark Wahlberg e Christian Bale chegaram a ser cogitados para estrelar o filme tendo Bryan Singer como diretor. Hummm… essa junção teria sido interessante também.

Prisoners estreou em agosto deste ano no Festival de Cinema de Telluride. Depois, ele passou pelos festivais de Toronto, San Sebastián e Zurique. Nesta trajetória, a produção ganhou dois prêmios: Melhor Ator Coadjuvante para Jake Gyllenhaal no Hollywood Film Festival e o terceiro lugar na escolha da audiência no Festival de Cinema de Toronto.

Aliás, gostei muito do nome original deste filme. Prisoners… o conceito de prisioneiros pode ser aplicado a vários personagens deste filme. Não apenas às vítimas diretas, as crianças, mas também aos familiares, que ficam aprisionados no drama da falta de respostas, e aos personagens Bob e Alex.

No Brasil, o filme acabou levando o nome de Os Suspeitos. Não é um nome equivocado, evidentemente. Mas acho que o original tinha mais força. Sem contar que já existe um filme com este nome no mercado nacional – tradução de The Usual Suspects, ótimo filme de 1995 dirigido por Bryan Singer.

Prisoners teria custado cerca de US$ 46 milhões. Nas bilheterias dos Estados Unidos, até ontem, dia 18, o filme faturou pouco mais de US$ 55,8 milhões. Nos demais mercados onde o filme já estreou, ele teria acumulado outros US$ 22,6 milhões. Ou seja, está dando lucro.

Esta produção foi filmada em três cidades do estado da Georgia, nos Estados Unidos: Porterdale, Conyers e Atlanta.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,1 para Prisoners. Uma excelente nota, levando em conta o padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 170 textos positivos e 39 negativos para Prisoners, o que lhe garante uma aprovação de 81% e uma nota média de 7,3.

A disputa entre os bonitões neste filme é dura. E os papéis que eles desempenham não favorecem muito para as fãs. 🙂 Mas apesar do cacoete com o olho, acho que eu votaria no Jake Gyllenhaal como o mais interessante do filme.

Esta é uma produção 100% dos Estados Unidos. Sendo assim, ela se soma a outras publicadas recentemente aqui no blog e que satisfazem a votação em que os EUA ganharam como alvo de uma série de críticas aqui no site. Espero que esteja sendo do agrado de vocês, caros leitores.

CONCLUSÃO: Crimes envolvendo crianças são mais cruéis. Mexem com qualquer pessoa, sendo ela mãe, pai, ou não tendo filhos. Prisoners pega o espectador pelo estômago quando duas meninas desaparecem e o tempo corre sem uma solução para o mistério. Um policial e um pai dividem a atenção na busca pela verdade. Busca essa que coloca a nossa apreensão e crença em uma solução em xeque. Normalmente, as pessoas querem que os bandidos se ferrem.

Mas e quando não temos certeza sobre quem é o bandido? E mesmo tendo esta certeza… a melhor saída é realmente a vingança? Este filme vai bem, coloca muitas pistas no caminho e explica tudo no final de forma satisfatória. Mesmo assim, tem alguns probleminhas para convencer ao público nos detalhes, o que não permite que ele seja perfeito. Mas é bom e angustiante.