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Loving Vincent – Com Amor, Van Gogh

A cada novo frame, uma obra de arte. Sem exageros. Loving Vincent é uma obra estonteante, um verdadeiro deleite para quem já se pegou passando um longo tempo contemplando uma obra de arte. E se você é fã de Van Gogh, então… aposto que você vai ficar sem palavras com este filme. Honestamente, acho que este é um dos filmes mais bonitos que eu já assisti na vida. A história é envolvente, interessante, o filme têm dinâmica e movimento, apesar de ser todo feito a partir de um trabalho totalmente artesanal. Uma bela, belíssima homenagem ao artista que foi incompreendido no seu tempo e valorizado apenas após a sua morte.

A HISTÓRIA: Começa nos informando que o filme que vamos assistir foi totalmente pintado à mão por uma equipe de mais de 100 artistas. Em uma notícia ampliada de jornal, sabemos que em Auvers-Sur-Oise, no domingo dia 17 de julho, Van Gogh, com 37 anos, pintor holandês que estava com “estadia” em Auvers, atirou em si mesmo com um revólver nos campos, mas que ele acabou retornando para o quarto em que estava hospedado, onde morreu dois dias depois. Depois desta notícia, o filme informa que a história de Loving Vincent começa um ano após a morte de Vincent Van Gogh. A “jornada” começa em Aarles, no ano de 1891.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Loving Vincent): Este é um filme que preferencialmente, você deve assisti-lo em um cinema. Afinal, para curtir toda a beleza e o trabalho magnífico dos artistas envolvidos neste filme, só mesmo em frente a uma tela grande. Algo similar com ver uma obra de arte em um livro e/ou na tela do computador ou pessoalmente. A diferença entre as nossas leituras e impressões é gigantesca.

Eu não sou uma grande conhecedora da vida e da obra de Vincent Van Gogh. Eu já vi a algumas de suas obras pessoalmente, em museus de mais de uma latitude, mas eu sei o que quase todo mundo sabe sobre a vida dele. Antes de assistir a este filme, por exemplo, eu sabia sim que ele não tinha sido uma pessoa exatamente feliz em vida, que ele tinha alguns problemas psicológicos – a ponto de cortar a própria orelha em um dia de desespero. E era isso que eu sabia sobre a vida dele.

Sobre a obra… esta eu posso dizer que eu conhecia um pouco mais. Tinha visto a alguns de seus quadros pessoalmente e a vários outros em coleções e livros de arte que eu li há vários anos. A obra dele é realmente algo impressionante. E isso é o que me marcou logo nos primeiros segundos deste filme. Como a equipe dirigida por Dorota Kobiela e Hugh Welchman, responsáveis pelo roteiro desta produção junto com Jacek Dehnel, conseguiram reproduzir com tanto esmero e talento a obra do mestre que eles estão homenageando.

Realmente o trabalho é incrível. Cada frame que vemos em cena, especialmente do “tempo presente” da narrativa, é algo impressionante. Obras de arte que tem os traços e as cores das obras de Van Gogh. Como vários outros filmes com atores reais que são dirigidos em longas que não são de animação, em Loving Vincent o passado é narrado em preto e branco. Um recurso bem conhecido do público para diferenciar dois momentos narrativos diferentes.

Então este é outro ponto marcante nesta produção. Como cada tempo narrativo tem uma técnica diferente de pintura desenho e de arte. Muito interessante como os estilos, tão diferentes, acabam se complementando. Honestamente, achei o trabalho técnico e artístico deste filme impecável. Os realizadores não apenas resgatam a história de Van Gogh, mas o homenageiam de forma espetacular ao reproduzir algumas de suas telas na nossa frente. E o que não foi pintado pelo mestre holandês se inspira na obra dele para preencher os espaços entre uma obra e outra de Van Gogh que vemos em cena. Um trabalho belíssimo.

Imagino que quem conhece com profundidade a vida de Van Gogh, não tenha se surpreendido tanto com esta história quanto eu. Possivelmente esta pessoa que tem mais conhecimento tenha também achado um e outro defeito da história que está sendo contada. Da minha parte, de quem não é uma especialista em Van Gogh, achei o roteiro de Kobiela, Welchman e Dehnel muito bem construído. A história segue uma linha um tanto “clássica”, intercalando o momento presente da narrativa e o passado que tenta explicar o que teria provocado a morte prematura do pintor holandês.

O protagonista desta produção, o jovem Armand Roulin (com voz de Douglas Booth), que foi retratado por Van Gogh e que era filho do carteiro que atendeu o artista por muitos anos, faz as vezes em Loving Vincent de um investigador. Enviado pelo pai, Joseph Roulin (Chris O’Dowd), para encontrar a última carta escrita por Van Gogh, Armand acaba indo atrás, primeiro, do irmão do pintor holandês, Theo van Gogh (Cezary Lukaszewicz). Afinal, ele era o destinatário da carta e parecia a pessoa certa a receber esta última correspondência.

Em Paris, Armand descobre que Theo não morreu muito depois do irmão. E a esposa e filhos dele já não estão morando mais ali. Então ele decide ir para Auvers, onde Van Gogh morreu, para tentar encontrar algumas respostas sobre o que aconteceu com o amigo de seu pai. Inicialmente, Armand tinha pouco interesse em realmente saber o que tinha acontecido com Van Gogh, até porque ele acreditava na versão oficial de que o pintor tinha se matado. Mas a certeza do pai dele de que isso não teria acontecido com o amigo Van Gogh, que estaria melhor de uma depressão, fazem com que Armand acabe investigando as relações e os últimos dias de Van Gogh.

No fim das contas, Armand acredita que se ele entregar a carta de Van Gogh para o Doutor Gachet (Jerome Flynn), ele poderá dar o destino correto para a correspondência. É desta forma que ele conhece algumas pessoas interessantes e que foram retratadas por Van Gogh em suas obras. O roteiro de Loving Vincent equilibra, desta forma, esta espécie de “investigação” sobre a morte de Van Gogh, o que imprime um pouco de suspense para o roteiro do filme, com um resgate de fatos da vida do artista que aparecem como pinceladas volta e meia na história.

Assim, sabemos um pouco sobre a infância dele, da relação conturbada com os pais, sobre a dependência e a proximidade de Vincent com o irmão Theo, assim como sabemos sobre as alegrias e os muitos desafios e fontes de tristeza que o artista teve na sua vida. Fica evidente, com este filme, que Van Gogh foi incompreendido em seu tempo. Ele não teve apoio de ninguém além do irmão, e não teve sucesso com a sua arte enquanto vivo. Também sabemos sobre o quanto ele escrevia – muito! – para o irmão e sobre como ele era admirado pelas pessoas que o conheceram mais de perto. Afinal, ele era um sujeito calmo, atencioso, educado, e que vivia por sua arte.

Uma história interessante por si mesma, pois, e que foi muito bem explorada por esta produção. Claro que a vida de um artista como Van Gogh não pode ser resumida em 1h34 de filme, como é a duração desta produção, mas a homenagem que os realizadores fizeram para o artista aqui é impressionante e maravilhosa. Me apaixonei por esta produção. Achei uma grande experiência de cinema. Dos melhores filmes que eu já vi do gênero. Por isso, recomendo a todos que assistam a Loving Vincent. Especialmente nos cinemas.

Além de todos os fatos que eu citei anteriormente e de todas as qualidades relacionadas, também pela história inspiradora de Vincent Van Gogh. Ele viveu em outro tempo e em outros locais do que a gente, mas algo que podemos aprender com a sua história é que quando nos dedicamos a um talento com o qual nascemos, maravilhas surgem do nosso trabalho. Mas que para chegarmos a um trabalho excepcional, precisamos sacrificar outras partes da nossa vida e realmente trabalhar muito. Van Gogh era um apaixonado pela arte e uma pessoa muito atenta e admiradora de tudo que o cercava. Características que deveriam nos inspirar e nos fazer pensar sobre como gastamos o nosso tempo, não é mesmo? Belo filme.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Gostei dos poucos momentos em que este filme citou trechos de cartas e, consequentemente, do pensamento de Vincent Van Gogh. Claro que o filme, com a duração que ele tem, já deu muitíssimo trabalho para os realizadores, mas eu não teria achado ruim mais 10 ou 15 minutos de filme e a citação de mais trechos de cartas de Van Gogh. Algo que esta produção desperta é o nosso interesse por saber mais sobre o artista, a sua vida, o que ele pensava e como ele produzia as suas obras de arte.

Falando no pensamento de Van Gogh, uma das frases dele que são citadas, logo no início do filme e que serve como uma espécie de cartão-de-visitas da produção é esta aqui: “Só podemos falar através das nossas pinturas”. De fato, Van Gogh acreditava nisso. Como ele não tinha muitas relações pessoais e pensava e conversava através de sua arte, é que entendemos o porquê dele ser tão talentoso.

Todos os atores que “interpretam” os personagens deste filme, ou seja, que dão vozes para eles, estão muito bem. O destaque inevitável, claro, pela presença dele em tela e por conduzir a narrativa, é para o ator Douglas Booth, que interpreta a Armand Roulin. Mas outros personagens e atores que ganham destaque neste filme são Eleanor Tomlinson, que interpreta Adeline Ravoux, filha dos proprietários do hotel em que Van Gogh ficou hospedado e onde morreu; Saoirse Ronan como Marguerite Gachet, filha do Doutor Gachet e uma grande admiradora do talento de Van Gogh; Jerome Flynn como Doutor Gachet, uma figura muito próxima de Van Gogh na temporada próxima de sua morte; Robert Gulaczyk como Vincent Van Gogh; Cezary Lukaszewicz como Theo van Gogh; Robin Hodges como o Lieutenant Milliet; Chris O’Dowd como o carteiro Joseph Roulin; John Sessions como Pere Tanguy, dono de galeria que tentava comercializar as obras de Van Gogh em Paris; Helen McCrory como Louise Chevalier, empregada dos Gachet; Aidan Turner como o barqueiro que conviveu com Van Gogh e que é procurado por Armand; Bill Thomas como o Doutor Mazery, que deu outra interpretação para o tiro que Van Gogh levou; e Piotr Pamula em uma ponta como Paul Gaugin.

Além da direção e do roteiro, já comentados antes, o grande mérito desta produção ser tão bela e perfeita são os artistas – mais de 100, como foi comentado na introdução deste filme – envolvidos nas pinturas que compõem este filme. O trabalho deles é que faz Loving Vincent ser tão diferenciado. Então todos os louros para os 20 nomes relacionados no Departamento de Arte deste filme e para os 111 nomes que trabalharam no Departamento de Animação. Eles são os grandes responsáveis por este filme ser tão especial. Parabéns a todos os envolvidos, pois!

Da parte técnica do filme, também vale destacar o ótimo – e fundamental – trabalho dos diretores de fotografia Tristan Oliver e Lukasz Zal; o belo e pontual trabalho de Clint Mansell com a trilha sonora; a edição cuidadosa e precisa de Dorota Kobiela e de Justyna Wierszynska; o design de produção de Matthew Button, Maria Duffek e Andrzej Rafal Waltenberger – os dois últimos envolvidos nas fotografias dos atores em Wroclaw, trabalho esse que depois influenciaria nas pinturas dos artistas que fizeram esta produção; a direção de arte de Daniela Faggio; os figurinos de Dorota Roqueplo; o trabalho dos 17 profissionais envolvidos com o Departamento de Som – responsáveis, entre outros pontos, pela difícil sincronização das falas dos atores com o trabalho dos artistas envolvidos com as animações; e os 50 profissionais envolvidos com os Efeitos Visuais.

Loving Vincent estreou em junho de 2017 no Annecy International Animation Film Festival. Depois, esta produção participaria, ainda, de outros 25 festivais em várias partes do mundo. Nesta trajetória, Loving Vincent ganhou seis prêmios e foi indicado a outros 11. Entre os que recebeu, destaque para os prêmios de Melhor Filme segundo a escolha do público no Annecy International Animation Film Festival; para o de Melhor Animação Estrangeira/Trailer Familiar e para o Melhores Gráficos Estrangeiros em um Trailer no Golden Trailer Awards; para o prêmio de Melhor Filme de Animação no Festival Internacional de Cinema de Shanghai; e para o prêmio Produção Internacional Mais Popular no Festival Internacional de Cinema de Vancouver. Loving Vincent também figura no Top 10 da lista do National Board of Review de Filmes Independentes. Ele é a única animação da lista, vale dizer.

Agora, algumas curiosidades sobre esta produção. De acordo com o site IMDb, Loving Vincent é o primeiro longa de animação totalmente pintado que já foi realizado pelo cinema mundial. Baita, não?

Segundo os produtores, cada um dos 65 mil frames que vemos em cena, nesta produção, são quadros de pinturas a óleo sobre tela. A parte do filme colorida utiliza a mesma técnica utilizada por Van Gogh; técnica esta reproduzida por pouco mais de 100 artistas.

Durante uma “masterclass” no Klik Amsterdam Animation Festival, os diretores Dorota Kobiela e Hugh Welchman afirmaram que, se você olhar atentamente para cada cena desta produção, em uma delas você poderá notar uma mosca presa na pintura de um dos quadros. Quem se habilita a buscar a tal mosca? 😉

Loving Vincent foi totalmente rodado no Three Mills Studios, na cidade de Londres, no Reino Unidos.

Este filme é uma coprodução do Reino Unido com a Polônia.

Claro que existem muitos outros textos melhores e mais profundos sobre a vida de Vincent Van Gogh. Mas vale, para os que ficaram curiosos para saber um “resumo” sobre a trajetória do artista, dar uma olhada nos textos dos sites InfoEscola; History; UOL Educação; e Huffpost Brasil.

De acordo com o site Box Office Mojo, Loving Vincent teria feito quase US$ 5,8 milhões nos cinemas dos Estados Unidos. Para um filme independente e com a proposta desta produção, acho que não está nada mal. Mas o principal concorrente dele no Oscar 2018 está em primeiro lugar nas bilheterias dos Estados Unidos e conseguiu, até o momento, pouco mais de US$ 135,5 milhões apenas nos Estados Unidos. Ou seja, uma comparação realmente brutal – e não fica difícil presumir para onde “pende” o pêndulo da indústria de Hollywood, não é mesmo?

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,9 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 94 críticas positivas e 21 negativas para este filme – o que garante para Loving Vincent uma aprovação de 82% e uma nota média 7. Pelos prêmios que eu citei antes, já dá para perceber que este filme agradou mais ao público do que aos críticos, não é mesmo?

Procurando saber um pouco mais sobre os realizadores deste filme, achei interessante saber – e comentar com vocês – que Loving Vincent marca a estreia na direção do produtor Hugh Welchman. Por outro lado, este filme é o quarto trabalho na direção de Dorota Kobiela. Ela estreou na direção com o longa The Flying Machine, em 2011, e, depois, dirigiu a dois curtas antes de fazer com Welchman o filme Loving Vincent.

Ah sim, e você, como eu, deve ter se perguntado como os artistas trabalharam cada frame que vemos em cena, não é mesmo? Pesquisando sobre o filme e vendo fotos de bastidores, percebi que os diretores filmaram as cenas com os atores e que depois cada um daqueles 111 envolvidos com o trabalho do Departamento de Animação produziram as telas que reproduziram a ação em quadros que são verdadeiras obras de arte. Bem bacana!

CONCLUSÃO: Para quem é um profundo conhecedor da vida e da obra de Van Gogh, possivelmente a leitura deste filme será diferente da minha. Como eu não me enquadro neste perfil, me considero apenas uma pessoa com conhecido médio sobre o artista, achei Loving Vincent simplesmente divino. É um prazer passar pouco mais de uma hora e meia no cinema, frente a uma grande tela que desfila obras de arte a cada novo frame, como comentei lá na introdução deste texto.

Como animação, este filme é um dos melhores que eu já vi na vida. Enquanto história criada para o cinema, este filme cumpre bem o seu propósito, resgatando parte da vida, da obra e do pensamento do artista. Para mim, um trabalho irretocável. Merece ser visto com tempo e, quem sabe, até revisto. Este é um dos raros casos de peça de cinema que não cansa pela experiência prazerosa de cada cena. Não perca!

PALPITES PARA O OSCAR 2018: Loving Vincent é um dos 26 filmes de animação que a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood informou que está concorrendo a uma vaga na disputa de Melhor Filme de Animação no próximo Oscar. Este filme a exemplo do que aconteceu em outros anos, foge do padrão “hollywoodiano” de filmes de animação. Especialmente pelo fato desta produção ser artística e mais “adulta”, diferente das produções que costumam ganhar o prêmio e que são feitas pela Disney ou pelo estúdio Pixar.

Francamente, este é o primeiro filme da lista de 26 que eu assisto. E mesmo sem poder compará-lo com os demais ainda, digo com toda a certeza que ele não deveria ficar fora da disputa do Oscar 2018 em sua categoria. Esta produção é brilhante, belíssima, muito bem narrada e com uma beleza ímpar. Como e disse antes, um dos melhores filmes que eu já vi do gênero. Então, apesar de não ter o lobby dos grandes estúdios, Loving Vincent deveria sim estar entre os cinco finalistas desta categoria.

Agora, ele tem chances de ganhar o Oscar? O franco favorito, pelo que eu tenho lido, é o sucesso de público e de crítica Coco. Existem outros filmes que estariam na “dianteira” desta disputa, como The Breadwinner, Ferdinand e Birdboy: The Forgotten Children, além de outras produções que estariam correndo um pouco por fora mas com chances de chegar a uma das cinco indicações, como os filmes da grife The Lego Movie e The Boss Baby.

Para realmente opinar sobre esta categoria, eu preciso ver a outros concorrentes. Mas analisando apenas Loving Vincent, o meu foto seria, inicialmente, para ele. Seria muito injusto este filme não figurar entre os cinco finalistas ao Oscar. O grande desafio desta produção será vencer o grande lobby do filme Coco, uma coprodução das gigantes Disney e Pixar. Me parece que Coco leva vantagem, mas seria bacana ver a “zebra” Loving Vincent ganhar esta disputa.

ATUALIZAÇÃO (11/12): Hoje, dia 11 de dezembro, saiu a lista dos filmes indicados ao Globo de Ouro. Loving Vincent foi indicado na categoria Melhor Filme de Animação. Como esperado, o principal concorrente dele será Coco. Esperamos que este filme também consiga a sua vaga no Oscar. Eu estou na torcida desde já! 😉

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Hugo – A Invenção de Hugo Cabret

A magia do cinema é o foco central dos dois filmes que fazem a maior quebra-de-braço deste ano no Oscar. Além do já comentado The Artist, Hugo bebe desta fonte para encantar o público e a crítica. Mas diferente do filme francês, Hugo esbanja em efeitos especiais, no uso de recursos técnicos para encantar. The Artist, por outro lado, faz isso com um roteiro melhor acabado e com interpretações exemplares. Na queda-de-braço, Hugo perde – apesar de ser um filme interessante e que faz uma homenagem exemplar para um dos grandes inventores da Sétima Arte.

A HISTÓRIA: Engrenagens de um relógio dão lugar à lógica incessante do Centro iluminado de Paris. Neva, e nos aproximamos da estação de trem, onde parece pulsar o coração da cidade. A câmera passa ligeira entre muitas pessoas, até adentrar em um ponto fundamental daquela estação: um de seus relógios. Ali, invisível para as pessoas que entram e saem da estação, está Hugo Cabret (Asa Butterfield). O garoto observa, pelos números do relógio, a vida que transcorre na estação. Ele sai desta posição de observador apenas para roubar alguma comida e as peças que ele precisa para consertar um robô misterioso deixado pelo pai do garoto (Jude Law). Sem infância, a curiosidade do garoto sobre um brinquedo o aproxima do dono de uma das lojas da estação (Ben Kingsley).

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Hugo): Hugo é um filme maravilhoso, destes planejado, do início até o final, para encantar o espectador. Aquela sequência inicial, da câmera percorrendo Paris, foi um cartão-de-visitas eficaz do diretor Martin Scorsese para o que viria depois. A sequência, propriamente, não é uma novidade – já foi explorada por muitos filmes, inclusive o ótimo Moulin Rouge. Bem planejado e executado nos detalhes, Hugo é um show de técnica. Mas lhe falta, justamente, um pouco mais de emoção e de inovação.

Não por acaso, Hugo me deu sono. Me desculpem os fãs do filme, que talvez tenham visto na telona o que consideram ser um dos melhores filmes de Scorsese. Eu não chegaria tão longe. Ele é um grande diretor, mas não fez aqui um trabalho surpreendente. Pelo contrário. Apesar de bem filmado, Hugo sofre para decolar. Demora para ficar interessante. O protagonista é bom, mas ele desaparece quando aparecem em cena atores como Ben Kingsley ou Chlöe Grace Moretz, que interpreta a Isabelle, afilhada de “Papa George”. Se Hugo tivesse meia hora a menos, talvez fosse melhor.

Nunca assisto a trailers e tento, como vocês bem sabem, me informar o menos possível sobre um filme antes de assistí-lo. Sendo assim, eu sabia que Scorsese havia homenageado a Georges Méliès com Hugo, mas não sabia até que ponto. (SPOILER – não leia se você não assistiu ainda a este filme). Tinha lido algo a respeito de que o diretor havia reconstituído a alguns dos filmes de Méliès, um dos precursores mais brilhantes do cinema. Mas não sabia que o filme era, escancaradamente, sobre ele. Gostei da surpresa. De saber um pouco mais sobre este grande nome da Sétima Arte e do que aconteceu com ele após a Primeira Guerra Mundial. Foi muito bacana, também, a forma com que Scorsese reconstituiu alguns dos curtas mais famosos do diretor. Bela homenagem.

Mas o filme, infelizmente, não se resumo apenas à isso. Como Hollywood adora fazer, de tempos em tempos, Hugo coloca um jovem órfão como narrador de uma história cheia de fantasia. O protagonista, fascinado pelo cinema, arte que ele aprendeu a amar porque o pai lhe acostumou a levá-lo para a sala escura como uma espécie de presente, atua para resgatar um realizador esquecido. Ele simboliza a indústria fazendo um mea culpa. Incapaz de fazer isso enquanto Méliès estava vivo, essa indústria tenta fazer isso agora. Ainda que essa indústria seja outra, na verdade. Porque foi a indústria francesa que esqueceu Méliès em sua época – e a que o resgata agora é a de Hollywood.

Eis um ponto curioso sobre a disputa do Oscar deste ano. Vejamos: Hugo, o filme mais indicado do ano, é uma homenagem de Hollywood para um grande pioneiro do cinema, de origem francesa. The Artist, o melhor filme na disputa e o grande concorrente de Hugo, é uma homenagem francesa para o cinema mudo feito em Hollywood. Histórias que reverenciam o passado e o legado deixado por grandes realizadores de tempos extintos. Mas que não se debruçam sobre si mesmas, mas homenageiam escolas distintas. Interessante exercício.

Mas voltando a falar sobre o que prejudica Hugo: a lentidão do filme para que a história comece a decolar. Cansa um pouco aquela marcação cerrada do inspetor da estação de trem (Sacha Baron Cohen) contra toda e qualquer criança desacompanhada de um adulto. Fica repetitiva a corrida dele em busca de Hugo. O problema é que estas perseguições não criam tensão – afinal, todos nós sabemos que o protagonista não poderia se dar mal. Outro “suspense” do filme não se concretiza: o que envolve o robô herdado por Hugo. Não demora nada para percebermos que o robô é familiar a Papa George. E ainda que eu não tenha matado logo a charada de que o personagem de Ben Kingsley fosse, realmente, o próprio Méliès, torna-se evidente que o robô tinha uma forte ligação com ele. Faltava apenas explicar qual era a função dele, o que também não demora para acontecer – e nem surpreende.

Sem tensão ou grande expectativa sobre o que virá em seguida, Hugo passa lentamente. Como eu disse antes, ele chega a dar sono, apesar de toda a perfeição dos efeitos especiais e visuais. Aquelas histórias de “vida comum” da estação querem dar um “charme” para a produção, contextualizar aquela época e mostrar o cenário que fascinou os Lumière a ponto de inspirar os seus primeiros filmes. Mas francamente? Esse pano de fundo poderia ter sido mais resumido. Afinal, ele contribuiu pouco – para não dizer quase nada – para a história que mais interessa.

Um ponto é curioso neste filme: a “disputa” entre os mundos fascinantes de uma sala de cinema e de uma biblioteca. Hugo é fascinado pelo cinema. Isabelle, sua parceira de “aventuras”, pelas histórias narradas nas páginas dos livros. No final, a mensagem que o filme parece nos sugerir é que o fascínio de um não elimina o do outro. Tanto que Hugo é inspirado em um livro. E o protagonista mesmo comenta que era acostumado a ler livros junto com o pai. Neste sentido, o filme dá uma contribuição importante. Porque fica evidente a diferença de vocabulário entre as duas crianças da produção. Quem lê muito, como a personagem de Isabelle, consegue expressar-se muito melhor que os demais. Também conseguem fantasiar com muito mais facilidade, e encantar-se com as coisas mais comuns – enxergando referências em muitos feitos ordinários. Ainda assim, nada parece ser mais fascinante que o efeito que a fantasia tornada realidade, pela lente dos cineastas, causa nas pessoas – e isso, só uma sala de cinema é capaz de revelar.

Cheio de fantasia, e que apenas se inspira em uma história real. Muito do que vemos na telona não aconteceu, de fato. O que é real: Méliès realmente faliu e trabalhou, em meados da década de 1920, em uma loja de brinquedos na estação de trem de Paris. Mas ele não foi resgatado por um órfão, como Hugo, e sim por vários jornalistas que começaram a resgatar a importância que o diretor havia tido para o cinema. A razão para a falência dele também não se explica apenas pelo “desinteresse” do público pelos filmes cheios de fantasia que ele produzia após o excesso de realidade da Primeira Guerra. Esta foi uma das razões, mas não a principal. Depois falarei mais sobre isto.

O melhor deste filme demora para acontecer: o resgate de parte da história do cinema e de algumas das produções mais bacanas de Méliès. Só depois de uma hora e nove minutos é que mergulhamos no livro Inventer le Rêve, de René Tabard, que faz um rápido recorrido sobre as origens da Sétima Arte. E daí o grande mistério de Hugo é revelado. E surge, pouco depois, o resgate de cenas preciosas da obra de Méliès, reconstruídas com esmero por Scorsese. A partir daí, Hugo diz ao que veio. E acaba valendo o ingresso. Pena que demore tanto para chegarmos a este ponto.

NOTA: 9,2.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O visual de Hugo é o melhor do filme. Aplausos para a direção de fotografia de Robert Richardson, para o design de produção de Dante Ferretti, para a direção de arte comandada por 10 grandes nomes, para a decoração de set de Francesca Lo Schiavo e para os figurinos da premiada Sandy Powell. Esse grupo imenso de pessoas, e mais todas as outras que ajudaram a tornar o resgate de Paris nos anos 1930 e da origem do cinema, algumas décadas antes, uma realidade.

Um grande diretor, como Martin Scorsese, só consegue fazer um grande filme como este, complexo pelo resgate histórico e pela ousadia de recriar alguns trechos de curtas clássicos, tendo uma ótima equipe ao seu redor. Por isso mesmo, Hugo é um dos filmes concorrentes deste ano que mais elogia a arte do cinema como o resultado de um trabalho de equipe. Talvez por isso, este filme saia vencedor em várias categorias. Mas lhe falta um pouco de invenção, por incrível que pareça, para ser o favorito nas categorias principais.

Hugo é uma grande obra de fantasia. Mas ele tem algum fundo de realidade. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). O personagem central, daquele garotinho órfão “valente”, talvez tenha existido. Tenha percorrido várias vezes a estação de trem de Paris e, eventualmente, tenha parado no orfanato. Mas ele não existiu no ponto de mudar a parte final da vida de Georges Méliès. De fato, uma das mentes mais criativas do cinema ficou esquecida por muito tempo. Falido, abriu uma loja de brinquedos na estação parisiense. Mas as semelhanças com a história terminam aí. Méliès foi “resgatado” do ostracismo por jornalistas da época. E segundo este texto, em inglês, da Wikipédia, acabou de fato sendo homenageado, em dezembro de 1929, com uma retrospectiva de seus filmes na Sala Pleyel – antes da história de Hugo ser contada, portanto. Mesmo com esta homenagem, Méliès continuou pobre e precisou de ajuda para terminar a vida com o mínimo de dignidade. Vale a leitura do texto da Wikipédia.

Aliás, ao ler o texto sobre a vida do cineasta homenageado, fiquei um pouco mais incomodada com Hugo. Afinal, se era para fazer uma homenagem ao cinema e à Méliès, por que não contar um pouco melhor a sua história? Por que não falar das verdadeiras razões que fizeram o cineasta deixar de produzir filmes? Pelo texto da Wikipédia comentado, é verdade que os fatos da Primeira Guerra contribuiram para Méliès deixar de fazer filmes. Mas a derrocada do diretor havia começado muito antes do conflito de proporções mundiais eclodir.

Algo importante a comentar: Méliès não deixou o Théâtre Robert-Houdin para dedicar-se exclusivamente a fazer filmes. Pelo menos durante muito tempo. Os primeiros curtas de Méliès datam de 1896, quando ele estreou como diretor com Un Petit Diable. O famoso Le Voyage Dans la Lune, importante como fio condutor para o filme Hugo, está completando este ano 110 anos de seu lançamento. Mas segundo o texto da Wikipédia, em 1907, Méliès fazia sucesso lançando novas mágicas no teatro, enquanto produzia 19 curtas para o cinema. Segundo muitos críticos, a decadência do cineasta começou naquele ano, porque ele teria começado a repetir “velhas fórmulas” ao mesmo tempo em que lançava ideias novas. No ano seguinte, 1908, ocorreu um fato que seria decisivo – muito mais que a Primeira Guerra – para o futuro de Méliès: a criação da Motion Picture Patents Company (MPPC) por Thomas Edison.

O objetivo de Edison era colocar ordem e, de certa maneira, controlar a indústria cinematográfica nos Estados Unidos e na Europa. Várias empresas aderiram à proposta dele, incluindo a American Pathé e a Méliès’s Star Film Company. Edison assumiu a presidência do coletivo de realizadores. Naquele ano, a companhia de Méliès produziu 68 filmes e forneceu mil metros de filme por semana para cumprir o contrato com a MPPC. O irmão de Georges, Gaston Méliès, abriu então um estúdio em Chicago com a intenção de ajudar a empresa familiar a produzir a quantidade de filmes necessária. Mas ele não produziu nada em 1908. No início do ano seguinte, Méliès parou de fazer novos filmes e, em fevereiro, presidiu a primeira reunião do Congresso Internacional de Cineastas em Paris. Como outros diretores, ele estava descontente com o monopólio de Edison.

Naquele congresso, Méliès liderou um movimento de reação. O resultado é que Edison definiu que os filmes não seriam mais vendidos, mas alugados por um prazo de quatro meses apenas por integrantes da organização e que seria adotado uma mesma contagem de perfurações de filme para todas as produções. Méliès não gostou do último ponto, porque a maioria de seus clientes eram feirantes e proprietários de casas de espetáculo que eram contra esta padronização. Na época, Méliès dizia que não era uma empresa, mas um produtor independente. Ele voltou a filmar apenas no outono daquele ano. Enquanto isso, o irmão dele, Gaston, começou a produzir filmes nos Estados Unidos, abrindo estúdios diferentes até 1912. Entre 1910 e 1912, Gaston produziu mais de 130 filmes, enquanto o irmão, Georges, apenas 20.

Apenas em 1910, Georges Méliès produziu 10 filmes. Mas ele já passava mais tempo no teatro do que fazendo curtas para o cinema. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). No outono daquele ano, Méliès fez um acordo com Charles Pathé que, segundo o texto da Wikipédia, acabaria destruindo a carreira cinematográfica dele. Pelo contrato, Méliès recebeu uma grande quantidade de dinheiro para produzir filmes que seriam distribuídos por Pathé Frères – as produções também poderiam ser editadas por Pathé, caso ele achasse conveniente. Fez parte do acordo com Pathé as escrituras da casa e da propriedade onde estava o estúdio de Méliès.

O diretor começou a fazer os seus filmes mais elaborados, como The Adventures of Baron Munchausen e The Haunted Window. O problema é que a extravagência destas produções, sucesso uma década antes, acabou resultando no fracasso de bilheteria das novas produções. Em 1912 Méliès seguiu com os projetos ousados e caros e, sem conseguir sucesso nas bilheterias, passou a ter os seus trabalhos editados por Pathé. Algumas produções de Méliès foram editadas por seu rival, Ferdinand Zecca, naquele ano, até que o diretor resolveu quebrar o contrato com Pathé.

Enquanto isso, Gaston Méliès gastou muitos recursos viajando com a família e uma equipe de 20 pessoas pelo Tahiti, pelo Pacífico Sul e pela Ásia. As filmagens foram enviadas através do filho dele para Nova York, mas grande parte do material acabou sendo danificado e perdido. Consequentemente, Gaston não conseguiu cumprir o acordo com a empresa de Edison. Além de gastar US$ 50 mil na viagem – uma fortuna para a época -, Gaston teve que se livrar do estúdio nos Estados Unidos.

Quando Méliès quebrou o contrato com a Pathé, em 1913, ele se viu em apuros para conseguir pagar o que devia para a companhia. Por ironia, a moratória declarada com o surgimento da Primeira Guerra Mundial salvou Méliès de perder as propriedades para a Pathé. Mas falido e sem possibilidade de seguir fazendo filmes, Méliès viu a situação piorar quando a primeira esposa, Eugénie Génin, morreu em maio de 1913 e seu teatro, o Robert-Houdin, ficou fechado por um ano. Foi aí que ele deixou Paris por vários anos, até retornar e começar a trabalhar em uma loja de brinquedos na estação de trem Montparnasse em meados da década de 1920. Depois da morte da esposa, Méliès teria se casado com Jeanne d’Alcy, que aparece em vários de seus filmes e que teria sido sua amante por vários anos – é ela que aparece no filme Hugo.

Durante a guerra, o exército francês confiscou mais de 400 impressões originais de filmes que faziam parte do catálogo do estúdio de Méliès para derretê-los em busca de matéria-prima para fazer solas de sapatos. O próprio Méliès, em um acesso de raiva, destruiu muitos de seus filmes. Ainda assim, segundo o texto da Wikipédia, pouco mais de 200 produções que levam a assinatura dele foram recuperadas e podem ser vistas em DVD.

Segundo o ótimo site de referências IMDb, Georges Méliès dirigiu, entre 1896 e 1913, 552 curtas metragens – a maioria deles, peças de ficção, mas alguns eram documentários. Além de diretor, Méliès trabalhou como ator em 85 curtas, como produtor de 71 deles e como roteirista de 42.

Ah sim, e era verdade que ele foi um dos espectadores maravilhados com a primeira exibição dos irmãos Lumière.

Os atores em Hugo estão muito bem, especialmente os veteranos. Roubam a cena, claro, Ben Kingsley e Helen McCrory – ela como Mama Jeanne. Jude Law faz uma ponta, assim como Michael Stuhlbarg como Rene Tabard, mas ambos estão muito bem. O garoto Asa Butterfield não faz feio, mas também não se destaca. Chlöe Grace Moretz sim, ocupa todo o espaço na tela sempre que aparece. Sacha Baron Cohen parece desconfortável em um papel sério. E outros atores conhecidos, como Emily Mortimer, que aparece como a florista Lisette, e Christopher Lee como o livreiro Labisse, praticamente desaparecem em meio a um roteiro que dá mais atenção para as cenas de perseguição do que para o trabalho dos atores.

Até o momento, Hugo pode ser considerado um fracasso nas bilheterias. Afinal, ele custou aproximadamente US$ 170 milhões e arrecadou, até o dia 29 de janeiro, pouco mais de US$ 58,9 milhões nas bilheterias dos Estados Unidos. Mesmo que o filme se recupere ganhando algumas estatuetas do Oscar, dificilmente ele conseguirá ser um êxito. Algo ruim, mas previsível – afinal, o filme não convence o suficiente e não entra na famosa propaganda boca-a-boca.

Hugo estreou no festival de Nova York no dia 10 de outubro. De lá para cá, a produção participou de apenas um festival de cinema, o de Roterdã, na Holanda.

Mesmo sem ir bem nas bilheterias, Hugo fez sucesso entre os seus pares e entre a crítica. James Cameron, após assistir ao filme, classificou-o como uma “obra de arte” e disse que é a melhor experiência de filme 3D já feita – superando, inclusive, os seus próprios filmes, como Avatar. Admito que assisti Hugo sem ser na versão 3D. Talvez neste formato ele pareça mais impressionante.

Até o momento, Hugo ganhou 26 prêmios e foi indicado a outros 65 – incluindo as 11 indicações ao Oscar. Os mais importantes que ele recebeu foram o Globo de Ouro de melhor diretor para Scorsese; e os prêmios de melhor filme e melhor diretor do National Board of Review.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,2 para Hugo. Uma boa nota, mas nada excepcional. Os críticos do Rotten Tomatoes foram mais generosos, dedicando 178 críticas positivas e 12 negativas para o filme, o que lhe garantiu uma aprovação de 94% e uma nota média de 8,3.

Hugo tem um bom roteiro, mas ele poderia ter sido melhor construído – sem tantas sobras e pegando ritmo mais rápido. John Logan fez um trabalho competente, mas que deixou a desejar. O roteiro dele teve o livro The Invention of Hugo Cabret, de Brian Selznick, como fonte de inspiração.

CONCLUSÃO: Volta e meia, Hollywood gosta de olhar-se no espelho. De falar sobre seus grandes diretores, artistas, de relembrar de tempos em que o glamour dominava o cenário do cinema. Eram tempos diferentes, quando não haviam muitas escolas de cinema ou centros de produção de filmes no mundo. Hugo aparece 116 anos depois da primeira exibição pública do invento dos irmãos Lumière cheio de homenagens e tentando repassar para a telona a mesma magia que encantou as primeiras audiências desta arte já centenária. O problema é que, apesar do trabalho técnico competente e das boas intenções, Hugo não consegue ter o mesmo encanto. Ele nem chega perto dele, aliás. O roteiro não surpreende e a história demora para engrenar. O final sim, sela o trabalho com chave de ouro, e faz o restante do tom morno do filme parecer pouco importante. De fato, a homenagem é bonita e o final é exemplar, mas o restante do filme, nem tanto. Bem feito, bacana, mas pouco inspirado e menos criativo que o seu grande rival no ano, The Artist.

PALPITE PARA O OSCAR 2012: Hugo foi o filme que ganhou o maior número de indicações para a maior premiação de Hollywood este ano: 11, no total. Surpresas sempre podem acontecer, mas francamenteu eu acho que ele ficará a ver navios na maior parte das indicações.

Muito bem acabado nos detalhes, Hugo tem melhores chances de vencer em categorias técnicas. Frente à The Artist, ele não merece ganhar como melhor filme. Claro, não seria nenhum absurdo se ele ganhasse. Afinal, é um bom filme. Mas não é o melhor do ano – ou na disputa, pelo menos. Martin Scorsese faz um trabalho ótimo na direção. Pode levar a estatueta. Mas se Michel Hazanavicius, de The Artist, ou Woody Allen, por Midnight in Paris, conseguissem embolsar a estatueta dourada, também não seria nenhuma injustiça – francamente, torço por Hazanavicius.

Das outras nove indicações, vejo Hugo tendo uma chance grande de vencer nas categorias de melhor edição, melhores efeitos especiais, melhor edição de som, melhor direção de arte e melhor mixagem de som. Não seria uma surpresa se o filme ganhasse ainda em melhor fotografia, ainda que eu veja outros filmes como favoritos – como The Artist e The Tree of Life. E mesmo na lista de categorias técnicas em que Hugo tem chances fortes, há sempre pelo menos um outro concorrente que pode surpreender e vencê-lo. É preciso esperar para ver o quanto a Academia quer ou não deixar o prêmio “em casa” e seguir olhando fixamente para o próprio espelho.

Para resumir, eu diria que Hugo merece entre quatro e cinco estatuetas, todas nas categorias técnicas. Mas se Hollywood quiser homenagear a si mesma e deixar o prêmio nos Estados Unidos, ignorando a superioridade de The Artist, Hugo poderá receber entre sete e oito Oscars. Logo veremos…