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The Irishman – O Irlandês

Estava procurando um filme para colocar na lista de melhores de 2019. Uma produção que eu pudesse chamar de cinema com C maiúsculo. Claro que estou de olho nos possíveis indicados e vencedores do Oscar 2020, já que estamos no início do ano. Até agora, devo admitir, nenhum filme tinha me convencido, realmente. Até agora. Hoje assisti a The Irishman, do grande Martin Scorsese. Sem dúvida alguma, o melhor filme desta temporada. Tenho outros filmes para assistir, mas até o momento, este se mostrou imbatível.

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Silence – Silêncio

Até hoje impressiona como ser cristão incomoda a tanta gente. Por que tantas pessoas se sentem “ofendidas” e muitas delas inclusive perseguem quem afirma de forma convicta que acredita em Deus e em Jesus Cristo? Para mim, esse é sempre um ponto de admiração. Mas tudo isso está previsto na Bíblia. Realmente os cristãos tem a sina de “incomodarem” e serem perseguidos. Quem persegue um cristão é que deveria se pergunta o porquê. Silence é um filme magistral, forte, e que trata de forma franca justamente um de tantos casos de perseguição de cristãos. Angustiante. De arrepiar.

A HISTÓRIA: Em uma montanha cheia de piscinas termais, alguns japoneses esperam pelos seus prisioneiros. O grupo chega escoltado. Um dos padres recebe água fervendo no rosto. Como resposta, ele reza. Na sequência, os padres são castigados com conchas que espirram a água fervente em seus corpos. Assistindo a tudo isso, o padre Ferreira (Liam Neeson), considerado um dos nomes mais importantes da evangelização no Japão. Ele mesmo narra o que está acontecendo em uma carta, datada de 1633, no qual ele diz que a profissão de fé dos colegas lhe enche de força.

Quem lê a carta é o padre Valignano (Ciarán Hinds) para os ex-alunos de Ferreira, o padre Rodrigues (Andrew Garfield) e o padre Garupe (Adam Driver). Ele insiste que o comerciante holandês que lhe entregou esta carta depois de um longo período dela ter se perdido garantiu que Ferreira renunciou a sua fé. Os ex-alunos dele se recusam a acreditar nesta versão e insistem em ir para o Japão para saber o que realmente aconteceu. Esta é a história deles e das pessoas que eles encontram no caminho.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Silence): A primeira cena deste filme me fez lembrar imediatamente de Akira Kurosawa. Aqueles homens caminhando em meio à neblina e/ou fumaça resgataram na minha memória o estilo do diretor japonês. Esta produção, como tantas outras, será sentida de forma diferente dependendo do background do espectador.

Se você é cristão, como eu, e conhece bem a vida e o exemplo de Jesus Cristo, se você acredita que Ele é o caminho, a verdade e a vida, Silence terá um efeito sobre você. Se você professa outra fé ou não tem fé alguma, certamente o efeito será outro. Como cristã, achei este filme marcante. Muito duro, muito denso, sem nenhuma razão para riso ou para a “leveza” que normalmente se encontra em um entretenimento.

Sim, Silence é cinema. E, para muitos, cinema é entretenimento. Eu entendo. Muitos filmes realmente são apenas isso, uma forma de entreter as pessoas e fazerem elas saírem de seu dia a dia comum e ordinário e viver outro tipo de sensação. Mas outros filmes estão além da linha do entretenimento e figuram na lista de obras de arte. Destas que nos fazem pensar não somente sobre o que o artista quer nos dizer, mas especialmente sobre nós mesmos e os outros, o que nos cerca.

Silence está nesta categoria. Respeito, mas não entendo os risinhos que eu ouvi no cinema ao assistir ao filme – por estas e por outros que, muitas vezes, prefiro ver um filme sozinha e não no cinema. Mas ok, temos que entender o diferente e que nem todos pensam ou agem como a gente. Ir no cinema é parte deste aprendizado.

Silence me tocou fundo porque eu sei que aquela história apresentada pelo filme não é uma coisa do passado. Hoje, quatro séculos depois do que Silence nos apresenta, muitos cristãos continuam sendo mortos todos os anos em diferentes partes do mundo simplesmente porque eles professam esta fé. Mas nenhum deles morre sozinho, ou em vão. Nenhum mártir morre em vão, como bem argumentou o padre Rodrigues (o ótimo Andrew Garfield).

Claro que o entendimento disto depende de fé. E diferente do que o próprio Rodrigues questiona, não é com a compreensão falha e limitada humana que vamos entender. Ele questiona, no filme, porque Deus permite que tantos morram em nome Dele. Ora, não é Deus que está matando aquelas pessoas. Quem é cristão sabe que um dos maiores presentes que Deus nos deu foi justamente o poder da escolha. Sendo assim, na mesma medida em que um cristão escolhe acreditar, o seu algoz pode escolher matá-lo. Sempre são escolhas individuais.

Enfim, este papo é longo e o blog não se presta a discutir religião. Mas o que eu posso dizer é que este é um grande filme sobre fé e sobre escolhas. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Tentado por Ferreira (Liam Neeson), seu antigo professor e exemplo, Rodrigues acaba cedendo e “renunciando” a própria fé para, aparentemente, salvar cinco vidas. Mas o que significa salvar alguém?

Para quem tem fé e realmente é cristão a morte física não representa absolutamente nada. Ou melhor, representa o fim da vida terrena e o início da vida eterna. Então nenhum dos padres que renunciou ao cristianismo estava, na verdade, salvando ninguém. Quem realmente salva, no sentido amplo e pleno desta palavra, é apenas Deus. Este foi o maior erro de Rodrigues. Acreditar na cantilena de Ferreira de que ele estava salvando ou condenando os cristãos que não renunciavam à sua fé.

Ora, cada cristão que decidia manter a sua fé e não renunciar à Deus ou à Cristo era executado não por causa de um ou de outro padre, mas em nome da fé e da convicção que eles tinham sobre ela. Em última instância, estavam morrendo em nome de Deus. Ninguém mais. Quando as pessoas se acham mais importante do que Deus é quando elas começam a sucumbir e perdem a firmeza dos mártires.

Claro que ao afirmar isso eu não estou condenando Ferreira ou Rodrigues. Se ninguém pode ser salvo se não por Deus, ninguém também pode ser condenado se não por Ele. E Deus é tão paciente, tão amoroso, que Ele parece nunca se cansar de nos dar chances de aprender, de acertar e de melhorar. A exemplo de Kichijiro (Yôsuke Kubozuka), que repetidas vezes renunciou a Deus para salvar a própria vida, mas que depois se arrependia e pedia perdão, qualquer pessoa pode ser salva por Deus se realmente estiver arrependida. É isso o que um cristão aprende.

Uma das maiores “fraquezas” humanas é a nossa vontade de viver o máximo possível. Por isso mesmo, no diálogo entre Rodrigues e Jesus, pouco antes dele renunciar à própria fé, Rodrigues acredita que Jesus lhe absolveu porque ele entendia a fraqueza humana. Por isso Ele teria se feito homem, justamente. Então, a priori, é possível sim perdoar a quem blasfemou contra Deus e renunciou a fé Nele, porque esta pessoa não conseguiria ver além da própria vida e sacrificá-la para defender a sua fé.

Claro que foram mais fortes todos os cristãos que aparecem no filme, assim como o padre Garupe (Adam Driver), que jamais renunciaram de sua fé. Eles tinham a convicção sobre o que lhes esperaria após a vida. Eles tinham a calma e a certeza de que ressuscitariam em Cristo. Mas não dá para condenar aos que foram fracos e que cederam a uma das maiores dificuldades do ser humano, que é a de aceitar a própria morte.

Agora, sou obrigada a dizer: quando Ferreira, parecendo o próprio Diabo que tentou Cristo, fala para Rodrigues que ele deveria agir como Jesus, e que Ele, naquela posição, também negaria a Deus para salvar um grupo de pessoas, ele estava cometendo a maior blasfêmia que eu já ouvi na vida. Evidentemente que nunca, sob circunstância alguma, Jesus negaria o próprio Pai. Ele não fez isso quando esteve aqui, não faria isso agora.

Enfim. O filme é muito interessante, faz pensar e, principalmente, mexe com o coração de quem compartilha com tantos mártires daquele tempo e de todos os tempos – inclusive hoje – a mesma fé. Acredito que seremos uma civilização razoavelmente evoluída quando respeitarmos todas as crenças e não matarmos mais ninguém porque a pessoa tem uma fé diferente da nossa – ou fé alguma.

Eu só não dei a nota máxima para esta produção porque me incomodou um pouco o argumento final de Ferreira para convencer Rodrigues, esse em que ele cita Jesus, e também porque eu esperava mais de Rodrigues. Claro que a História é a História e os fatos são os fatos, mas eu fiquei especialmente decepcionada com Ferreira. Ele poderia ter renunciado ao que ele quisesse, mas não precisava ter feito isso com Rodrigues. Ainda que, e isso fica evidente no final do filme, Rodrigues nunca renunciou a sua fé de verdade. Muitas vezes é no silêncio que manifestamos a nossa fé. Não em palavras, mas no nosso coração e no silêncio. Belo filme.

NOTA: 9,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Esta produção tem vários grandes momentos. Mas um dos melhores, para mim, foi quando Rodrigues finalmente encontra Ferreira. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). O jovem padre está cheio de razão em cada resposta e questionamento que ele faz para o ex-professor e ex-padre. Gostei, em especial, quando ele diz com todas as letras que ele, ao renunciar ao cristianismo e à Deus, não estava sendo nobre e nem salvando ninguém, mas estava apenas salvando a sim mesmo. Esta era a grande questão. Os padres que renunciaram às suas crenças estavam apenas salvando a própria pele – prova disso é que os fieis que se mantiveram firme na fé continuaram sendo mortos, ou seja, nenhum deles foi salvo por eles terem abdicado da promessa que fizeram.

Este é um filme longo, mas ele tem as suas razões para isso. O diretor Martin Scorsese, que também escreveu o roteiro junto com Jay Cocks, não teve pressa em contar essa história. Pelo contrário. Ele quis explorar cada detalhe da missão dos padres Rodrigues e Garupe desde que eles foram para o Japão em 1640. A história é linear, partindo da carta/relato de Ferreira antes dos jovens padres irem atrás dele e terminando apenas quando a história deles é concluída.

O foco do roteiro na figura de Rodrigues foi muito acertada. Ele é, praticamente, o narrador do filme. Vemos tudo sob a ótica dele, o que humaniza a história e mostra, sob a perspectiva dele, tudo o que aconteceu. É um filme lento, no melhor estilo dos clássicos do cinema japonês – não por acaso me lembrei de Akira Kurosawa no início. Assim, Scorsese respeita a cultura na qual esta história submerge. O diretor faz um grande trabalho aqui, e diferente de quase tudo que ele apresentou até então. Realmente interessante.

O roteiro de Scorsese e de Cocks é baseado no livro de Shûsaku Endô.

Todos os atores desta produção estão muito bem, mas diferente do que o cartaz da produção pode sugerir, o protagonista de Silence é Andrew Garfield e não Liam Neeson. Gosto muito de Neeson, mas neste filme não tem como não ficarmos com uma certa “raiva” do personagem dele. Claro que isso desaparece com o tempo, mas realmente o papel dele é complicado de ser “engolido”. Garfield, por outro lado, faz um grande trabalho e se consolida, com este filme e com Hacksaw Ridge (comentado aqui) como um dos grandes talentos da nova geração. Merece ser acompanhado, com certeza.

Gostei de todos os detalhes técnicos deste filme. Martin Scorsese faz uma grande direção, seguindo um bocado a escola japonesa, mostrando tanto os locais e as suas particularidades quanto a interpretação dos atores. O roteiro também é competente, sem nenhuma linha sobrar na história. Cada palavra, cada linha, cântico, grito, gemido e cada silêncio tem o seu propósito. Outros destaques são a direção de fotografia de Rodrigo Prieto; a edição de Thelma Schoonmaker; e o design de produção de Dante Ferretti.

Algo que Silence nos mostra também é a humanidade dos padres, freis e sacerdotes. Sim, eles são humanos, suscetíveis a erros, tentações, dúvidas, questionamentos e desespero. Alguns, como Garupe, parecem ter mais convicção e a fé mais clara, enquanto outros, como Rodrigues, estão mais suscetíveis às fraquezas humanas. Isso acontece em todas as partes. Sem dúvida há padres e fieis que tem a sua fé muito clara, são mais firmes nela do que outros. Faz parte. Precisamos entender e deixar que Deus exerça a Sua Misericórdia em relação a quem fraqueja e em relação a nós.

Além dos atores já citados, vale comentar o trabalho de Tadanobu Asano como o intérprete que acompanha Rodrigues por bastante tempo; Issei Ogata como o inquisidor Inoue; Shin’ya Tsukamoto simplesmente ótimo como Mokichi, um dos fieis que recebe os jovens padres e que é o braço direito da liderança local; Yoshi Oida também maravilhoso como Ichizo, o líder da comunidade cristã que os padres encontram logo que chegam; Shi Liang como o comerciante chinês que apresenta os padres para Kichijiro; Miho Harita como Tomi, mulher de Ichizo; Nana Komatsu como Monica/Haru, uma das cristãs que Rodrigues encontra quando está como prisioneiro; Ryo Kase como John/Chokichi, outro fiel desta fase; e Asuka Kurosawa como a “mulher” de Rodrigues. Há muitos outros atores que fazem papéis secundários. Todos estão muito bem e convincentes.

Ainda que a história se passe inteira no Japão, este filme foi praticamente todo rodado em Taiwan. Apenas uma pequena parte foi rodada em Macau, na China – são as imagens do início do filme, em que os jovens padres jesuítas falam com o padre Valignano.

Silence teria custado uma pequena fortuna, cerca de US$ 46,5 milhões. Como a produção não tem, digamos assim, um tema realmente popular, e imagino que também por ela ser “lenta” e um bocado longa, ela conseguiu pouco nas bilheterias. Nos Estados Unidos o filme fez pouco mais de Us$ 7,1 milhões. Pelo andar da carruagem, tem tudo para ser um fracasso nas bilheterias.

Esta produção ganhou seis prêmios e foi indicado a outros 40. Entre os prêmios que recebeu, destaque pelo filme ter sido listado como um dos melhores do ano segundo o AFI Awards e por ter vencido como Melhor Roteiro Adaptado no National Board of Review. Foi indicado ao Oscar de Melhor Fotografia, mas perdeu a estatueta para La La Land.

Silence é uma coprodução dos Estados Unidos, de Taiwan e do México.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,5 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 178 críticas positivas e 33 negativas para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 84% e uma nota média 7,5. Os dois níveis de aprovação estão bons para os padrões dos sites.

Como eu comentei antes, até hoje milhares de cristãos são mortos todos os anos por causa da fé que eles professam. Segundo esta matéria da Rádio Vaticano, as estimativas apontam que pelo menos 90 mil cristãos foram mortos pelo mundo em 2016 por causa de sua fé.

CONCLUSÃO: Este filme está para a perseguição de padres e de fiéis que acreditam em Cristo como The Passion of the Christ está para o sofrimento de Jesus. Silence vai fundo na questão da fé, da busca pela verdade e por respostas. Independente do tempo ou do local, sempre existe em maior ou menor medida a perseguição a quem acredita em Cristo. Seja de forma franca, seja de forma velada. Este importante tema é tratado de forma muito interessante pelo diretor Martin Scorsese. Um filme denso, longo, duro, mas que mostra que ninguém pode quebrar a fé de outra pessoa. Mesmo que ela seja obrigada a renunciar sobre o que acredita, é no silêncio que esta fé segue vivendo. Como uma chama bem guardada. Grande filme.

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The Wolf of Wall Street – O Lobo de Wall Street

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Todos os tipos de drogas, bebidas, sexo, orgias e exageros que o dinheiro pode comprar. Imagine tudo isso, potencialize por 10 e terás pela frente o inesquecível The Wolf of Wall Street. Martin Scorsese, um dos maiores gênios que o cinema ainda tem o prazer de ver trabalhar, fez o filme definitivo sobre os homens sem limites que um dia fizeram a fama da rua que simboliza a riqueza efêmera da bolsa de valores e do mercado financeiro dos Estados Unidos – e, por consequência, uma alegoria de tudo o que há de similar no mundo. Destes raros filmes em que três horas não passam devagar.

A HISTÓRIA: Um leão ruge na propaganda da Stratton Oakmont, Inc. Em seguida, a identificação da Wall Street, com um narrador argumentando que o mundo é um grande negócio e uma selva. Porque há perigo em toda a parte é que teria sido criada a Stratton Oakmont, composta por vendedores privados preparados para serem os melhores do mercado. Termina a propaganda, e aqueles homens respeitáveis estão jogando com um anão. O líder da trupe, Jordan Belfort (Leonardo DiCaprio), oferece US$ 25 mil para quem jogar o anão e acertar o alvo. Ele próprio tenta a sorte. E começa a se apresentar. Jordan Belfort é um ex-integrante da classe média criado por dois contadores no Queens. Aos 26 anos, ele já era o chefe de sua própria empresa de investimentos. Neste filme, mergulhamos em sua trajetória até tornar-se um homem milionário e encrencado.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Wolf of Wall Street): Ouvi alguns dizendo que Scorsese tinha “enlouquecido” por entregar uma produção destas. Que ela era uma loucura, e por aí vai. E para quem conhece a filmografia de Scorsese, pensar em uma produção dele que pudesse ser considerada exagerada dentro deste histórico, exigia muita imaginação. Além disso, eu sabia que o filme tinha três horas… mas apesar destas informações, que não favoreciam o filme antes de assisti-lo, me joguei na experiência. E que experiência!

Scorsese entrega para o público um de seus filmes mais contundentes. Exagerado em quase todos os sentidos mas, por isso mesmo, bastante corajoso. Para contar a história de Jordan Belfort, não dava para fazer de outra maneira, com o risco de estragar o material original. Fazer um filme definitivo sobre um assunto não é algo nada simples. Mas Scorsese conseguiu, mais uma vez – como havia feito, antes, com os filmes sobre gângster.

Mesmo afirmado isto, não custa dar um conselho: esta produção não é indicada para quem não gosta de ver a decadência humana, corpos nus e exageros por todas as partes. Porque é deste material que é feito The Wolf of Wall Street. E então, qual é a moral da história? Que alguns dos homens mais admirados do coração financeiro dos EUA e que encarnavam, de maneira exagerada, o “sonho americano”, eram os piores escroques de que já tivemos notícia.

Agora, antes de falar da moral do filme, acho que vale voltar um pouco a fita. Lembro bem da polêmica que Jordan Belfort levantou quando lançou o livro de “memórias” e começou a dar entrevistas como esta para o The Telegraph em 2008. O que muitos desconfiavam sobre a rotina dos corretores de Wall Street se confirmou com a obra de Jordan. Eles viviam ganhando e gastando milhões de dólares, esbanjando dinheiro em carros, iates, mansões, ternos caros e, principalmente, com gastos diários (ou quase) com prostitutas e os mais diversos tipos de drogas – sendo a rainha de todas elas, a cocaína.

A máscara daquele estilo de vida cobiçado de Wall Street tinha começado a cair. Inclusive antes do livro de Jordan aparecer (falarei disto logo abaixo, após a crítica do filme). Ainda assim, ele conseguiu fazer barulho. Afinal, contava o que outros sabiam “por dentro”, como uma das figuras que fez tudo aquilo – e, possivelmente, muito mais. Então, meus caros leitores, como contar aquela história?

Outros filmes sobre Wall Street já tinham sido feitos. O próprio Jordan, que aparenta ter uma ironia sem limites, comenta na entrevista dada para o The Telegraph em 2008 que ele se “inspirou” no personagem de Gordon Gekko, interpretado por Michael Douglas, no clássico de 1987 dirigido por Oliver Stone Wall Street. Outra figura em quem Jordan teria se inspirado: o personagem de Edward Lewis, vivido por Richard Gere em outro clássico, Pretty Woman. Mas esta última referência, convenhamos, é muito “bonitinha” para os padrões de Jordan.

Quando foi escrever as próprias memórias, já preso, Jordan disse que se inspirou em uma cópia do livro que inspirou o filme The Bonfire of the Vanities – também, vocês devem lembrar, ambientado em Wall Street. Mas nenhum dos personagens destes e de outros filmes baseados na meca do dinheiro nos EUA pode superar os exageros de Jordan. E isso fica muito evidente naquela entrevista que ele deu quando estava lançando a própria história – porque agora, com o sucesso do filme, há quem questione o trabalho de Scorsese. Cá entre nós, o trabalho deste grande diretor poucas vezes foi tão realista.

E corajoso, como eu disse antes e vou repetir depois. Afinal, logo nos primeiros minutos de The Wolf of Wall Street, o roteiro de Terence Winter baseado no livro de Jordan nos lança nos ingredientes principais do personagem e do filme: dinheiro, muito dinheiro, drogas, belas mulheres, e tudo o mais que milhões de dólares podem proporcionar para um homem ganancioso, exibicionista e sem limites.

A lógica do trabalho de Winter é a de muitos outros filmes: o roteiro primeiro apresenta o personagem em seu “melhor” momento. No auge. Depois, volta no tempo para contar como ele chegou aí. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). E no final, revela como ele caiu em “desgraça”. Ainda que para um sujeito como Jordan, cheio de malícia e com nenhuma ética, nunca existe o fundo do poço. Quando se vê encurralado e sem saída pelo agente do FBI Patrick Denham (Kyle Chandler), ele não pensa duas vezes em delatar os “amigos” e parceiros de golpe para conseguir uma importante redução de pena.

A história de Jordan é a clássica sobre a corrupção humana. Quase impossível acreditar que o mesmo sujeito que paga para uma funcionária raspar o cabelo na frente dos demais funcionário de sua empresa em troca de US$ 5 mil é o mesmo que chegou para trabalhar em Wall Street aos 22 anos, recém-casado, sem beber álcool no almoço ou mesmo “dar um tapa” em um pouco de cocaína.

A diferença de The Wolf of Wall Street para outras produções que seguem a linha de começar com o auge do personagem e depois retomar o passado para contar como ele chegou lá é o tipo de “herói” que o roteiro foca. Não estamos vendo a nenhum herói de guerra, ou cidadão que deixou a miséria para trás para erguer um grande império. Acompanhamos a evolução de um sujeito que “gasta os tubos” com orgias, drogas e tudo o mais que o dinheiro pode comprar e que, para conseguir este dinheiro, se diverte muito enganando “os trouxas”. Sabendo-se que estes trouxas são, muitas vezes, pessoas ricas, despreocupadas, e outras vezes sujeitos comuns que apenas acreditam que podem ganhar dinheiro com ações.

O que eu achei mais bacana neste filme é que o roteiro de Winter e a direção “avant-garde industrial” (inovadora, mas que também faz parte do mainstream) de Scorsese não aliviam e nem cedem em momento algum ao “politicamente correto”. É para fazer um filme sobre o descontrole do homem “pós-moderno” fascinado pelas promessas do dinheiro fácil de Wall Street? Então vamos fazer isso da maneira mais fiel e livre possível. Parece que esta foi a ordem no projeto comandado por Scorsese que, há tempos, devia para o seu público um filme “tresloucado” (no bom sentido) como este.

Daí que mergulhamos na história de Jordan em uma tresloucada narrativa em primeira pessoa – afinal, o material original no qual o filme se baseia é uma autobiografia. Nada melhor que explorar o ego do personagem principal também na forma com que ele conta a própria história. Desde o início, Scorsese apresenta uma direção ágil, que percorre os locais explorando os ícones da riqueza até se deparar com uma cena dantesca. E há várias delas. Seja no sexo com prostitutas ou no uso de drogas, o diretor parece desacelerar o tempo para formar quadros de decadência para o espectador.

O texto de Belfort é outro ponto forte da produção. Além dos comentários de Jordan sobre a própria vida, temos diálogos afiados, cheios de linguagem coloquial e de palavrões, em uma verborragia que lembra o melhor de Tarantino em algumas ocasiões. Ajuda muito na produção a excelente edição de Thelma Schoonmaker e a ótima e envolvente trilha sonora da equipe de Jennifer L. Dunnington.

Pensando de forma fria, Belfort acerta na mosca em optar pelo velho “chamariz” de mostrar o auge de Jordan antes de contar a história dele. Afinal, que homem não gostaria de ter aquela Ferrari branca, aquela mansão e a estonteante Naomi Lapaglia (a revelação Margot Robbie) como mulher, além dos outras “propriedades” que Jordan elenca no início da produção? Então você primeiro “fisga” o imaginário do público para, depois, revelar como tudo aconteceu. Sempre funciona, especialmente quando o “tudo” tem tanta ação e loucura.

Para funcionar da forma com que funciona, além de um diretor convicto de que deve explorar ao máximo aquele contexto sem fronteiras dos ricos de Wall Street, o filme precisa de um elenco afiado. E é isso que Scorsese consegue ao tirar o melhor de cada ator envolvido – com especial destaque para Leonardo DiCaprio que tem, neste filme, provavelmente o melhor desempenho de sua vida até o momento. Mas ele não está sozinho no bom trabalho.

Após o espectador ser fisgado por aquela figura sem moral chamada Jordan Belfort, voltamos no tempo e acompanhamos ele desde a chegada em Wall Street. Tentando conhecer de perto o trabalho de corretor para um dia tornar-se um deles, Jordan entra em uma empresa como tantas outras daquela rua e começa a ganhar dinheiro para fazer ligações para o corretor da mesa ao lado.

Logo no primeiro dia de trabalho ele é chamado para o almoço com Mark Hanna (o sempre ótimo Matthew McConaughey em um papel que dura apenas o primeiro trecho do filme). Rapidamente Hanna ensina o bê-à-bá daquela vida para Jordan. E assistimos, junto com o ainda inocente Jordan, o início de um comportamento de loucura que será visto depois em muitos dos personagens do filme.

Os acontecimentos vão se desenrolando no tempo certo e com agilidade. Rapidamente conhecemos os personagens secundários do filme e acompanhamos a lógica de Jordan em tirar o maior proveito possível das situações. Como explica este e outros textos sobre os homens de Wall Street, eles não se importam com o dinheiro de seus clientes. O importante, para eles, era retirar dinheiro de clientes ricos e embolsá-lo. Isso vale tanto para casas de investimento quanto para os grandes bancos.

Como informa o texto indicado no parágrafo anterior e publicado no The New York Times, muitos se escandalizaram com os bônus de até US$ 60 milhões que muitos executivos receberam naquele ano, final de 2006. Mas afinal, como Jordan e seus comparsas ganhavam tanto dinheiro. Como aquele texto do The Telegraph explica, Jordan e seu grupo – que, de fato, recebeu um texto com um passo-a-passo de como convencer as pessoas a investir em ações feito por Jordan para seguir – convenciam os investidores a desembolsar boas quantias em dinheiro.

Depois que eles tinham feito isso, os papéis se valorizavam e Jordan e seus sócios vendiam a grande quantidade de ações daquele papel que eles tinham. Com esta venda, Jordan e Cia. ganhavam grande quantidade de dinheiro, enquanto os clientes que eles tinham atendido perdiam os recursos na mesma proporção – já que, ao vender os papéis que tinham, Jordan e Cia. faziam com que aquela ação tivesse queda acentuada de valor.

Grande “vendedor”, Jordan chegou a ganhar US$ 50 milhões por ano. E como o filme mostra bem, ele teve a oportunidade de saltar do barco antes dele afundar, mas não quis fazer isso para continuar se sentindo importante na empresa que ele tinha criado. Fica evidente o gosto do protagonista não apenas pelo dinheiro e pelo poder que ele traz, mas principalmente pela admiração que as outras pessoas passaram a dedicar por ele.

Algo que me surpreendeu neste filme, além de um roteiro e de uma direção impecáveis, foi o humor que The Wolf of Wall Street acaba destilando. Em meio a tanto exagero, há cenas verdadeiramente dantescas. A que me fez rir sem parar, para a minha surpresa, foi aquela em que DiCaprio é abatido pela droga Lemmon-714, comprada por Donnie Azoff (Jonah Hill) em uma farmácia perto de casa e que estava esperando para ser vendida há 15 anos. A sequência faz lembrar a filmes menores, como Hangover, mas de forma muito mais exagerada e divertida. A melhor parte, para mim, vai do colapso de Jordan até a saída dele com o carro. Inacreditável!

Mas afinal, qual é a razão para o filme ser tão bom? Além do roteiro envolvente e da direção de Scorsese que consegue tirar o melhor de cada sequência e de cada ator, gostei muito do “espírito” da história de The Wolf of Wall Street. Sem “papas na língua”, os realizadores deste filme nos mostram o cotidiano de uma daquelas figuras “míticas” de Wall Street. Um dos “rapazes jovens de terno” ambiciosos que serviram de “inspiração” para mais de uma geração de norte-americanos.

Quantos não queriam ser um Jordan Belfort? Quantos não fora como ele ou ainda piores? Esse personagem, assim tão sem limites e ambicioso, acaba sendo o ídolo torto de um sistema cruel e interessado apenas nas cifras bancárias. O extremo do capitalismo, onde se vende e se compra apenas o valor estimado e muitas vezes equivocado de coisas reais, palpáveis.

The Wolf of Wall Street, desta forma, é uma importante crítica sobre a sociedade que criamos e ajudamos a manter. Onde a lógica do dinheiro fala mais alta e ignora todos os outros valores – especialmente os mais importantes, como a ética, a compaixão e a solidariedade. Na selva plasmada por este filme, sobrevive quem sabe enganar mais e melhor.

O herói é um escroque, um lixo – como lhe dizem no início da carreira -, mas também um símbolo de ascensão social que é vendido no “sonho americano”. Não por acaso, ele é tão aplaudido, paparicado e admirado no meio de Wall Street. E em todos os meios que derivam a partir dali. Contar a história de Jordan e das pessoas que o cercaram sem aliviar a dose é uma forma de bater no estômago deste sistema e de chacoalhar quem segue admirando aquela realidade. Ou deveria ser, pelo menos. Grande filme! Scorsese em sua melhor fase.

NOTA: 9,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Achei interessante, e por isso não me canso de citar, aquela matéria do The Telegraph. Especialmente porque o texto de Tom Leonard foi escrito quando Jordan estava lançando a própria autobiografia – antes de qualquer polêmica ou crítica negativa derivada do filme de Scorsese. O texto não apenas comprova que grande parte de The Wolf of Wall Street é legítima e fiel às memórias de Jordan como também traz informações sobre ele após a saída da prisão.

De acordo com o texto de Leonard, publicado em 2008, Jordan, na época com 45 anos, vivia em uma casa “modesta” de três quartos em Manhattan Beach e tinha que repassar metade do que ganhava por mês para pagar as dívidas que contraiu com os investidores que ele tinha fraudado. Em cinco anos, Jordan havia pago US$ 14 milhões dos US$ 110 milhões que ele devia. Uau!

Procurando mais sobre esta figura tresloucada que inspirou o filme de Scorsese, encontrei a página oficial de Jordan. Como o filme sugere, ele segue ganhando dinheiro ensinando as pessoas os seus “segredos de persuasão”. Até porque, segundo o site, através desta persuasão qualquer pessoa pode se tornar o “número 1 em vendas”, ganhando muito dinheiro. Certo, certo. Desta forma, Jordan oferece 10 módulos de seus “valiosos” segredos pelo valor de US$ 1.997.

Agora, talvez você esteja se perguntando o que o verdadeiro Jordan achou do filme que retrata parte da vida dele… Pois bem, este texto do Huffington Post ajuda a nos responder esta pergunta. Jordan considera Leonardo DiCaprio brilhante, assim como Martin Scorsese. Ao mesmo tempo que ele afirma que o filme não o está ajudando – será que é porque ele não continuou pagando a dívida citada acima? Os advogados de Jordan dizem que a obrigação dele de repassar metade do que ganha terminou em 2010, quando ele saiu em liberdade condicional. Mas há quem questione o dinheiro que ele está ganhando com os livros e com o filme que narram de que forma ele cometeu diferentes crimes.

Da parte técnica do filme, tiro o meu chapéu para a direção impecável de Scorsese. Que bom ver a este gênio do cinema voltando a fazer um filme da maneira que ele acha mais legítima, sem pensar no sucesso que a produção possa ter. Afinal, com tantos exageros, The Wolf of Wall Street poderia ter se saído apenas razoável nas bilheterias. Mas Scorsese não se importou com isso e nos entregou um dos melhores filmes que levam a sua assinatura em muuuuuuito tempo.

Também é ótimo o texto de Terence Winter, um dos roteiristas de The Sopranos e criador da série Boardwalk Empire. Além dos outros aspectos técnicos já destacados na crítica, importante destacar o excelente trabalho do diretor de fotografia mexicano Rodrigo Prieto, que ajuda a manter a qualidade da imagem em cada tomada da produção; assim como o bom trabalho da direção de arte de Chris Shriver, do design de produção de Bob Shaw e da decoração de set de Ellen Christiansen.

Todos os atores envolvidos no projeto estão bem. Ninguém destoa do conjunto da obra. Mas o grande destaque, sem dúvida, é Leonardo DiCaprio. Além de estrelar esta produção e prender o interesse do público do início até o final, o astro de Hollywood é um dos produtores do filme – junto com Scorsese e outros nomes. Depois dele, me impressionou o trabalho de Margot Robbie, que se destaca como a mulher “perfeita” de Jordan. Para mim, ela é a revelação do filme.

Além deles, me impressionou a entrega de Matthew McConaughey, que está em grande fase, e a coerência do desempenho de Kyle Chandler. Jonah Hill que, me perdoem os fãs, sempre achei medíocre, está um pouco acima da média que ele costuma entregar. Ainda assim, agora posso dizer: foi um exagero da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood ter indicado Hill ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante por este filme. Ele supera a mediocridade que está acostumado a apresentar, mas ainda assim… não merecia concorrer ao Oscar.

Outras figuras importantes aparecem em papéis secundários nesta produção. Entre outros, destaque para o diretor Rob Reiner como Max Belfort, pai de Jordan; Jon Bernthal, que ficou conhecido pelo papel de Shane na série The Walkind Dead, como Brad, um dos “funcionários” de Jordan – e peça fundamental para o protagonista levar vários milhões de dólares para fora dos Estados Unidos; o ganhador do Oscar Jean Dujardin como Jean Jacques Saurel, o francês que aceita o dinheiro fraudulento de Jordan em Genebra; Joanna Lumley interpreta a tia de Naomi, Emma, peça interessante da trama; Cristin Milioti está bem como Teresa Petrillo, a primeira esposa de Jordan; P.J. Byrne encarna Nicky Koskoff, conhecido também pelo apelido de Rugrat, um dos “fundadores” da empresa de Jordan e que era um dos mais malucos do grupo.

Os outros “fundadores” da empresa do protagonista que começou em uma garagem de uma antiga oficina foram Sea Otter, interpretado por Henry Zebrowski; Chester Ming, que ganha vida no trabalho do ótimo Kenneth Choi; e Robbie Feinberg, conhecido pelo apelido de Pinhead, interpretado por Brian Sacca. Hilários, todos. Eles ajudam DiCaprio na missão de carregar o filme de forma convincente.

The Wolf of Wall Street estrou no dia 25 de dezembro nos cinemas dos Estados Unidos, do Canadá e da França. Depois, pouco a pouco, ele foi entrando nos outros mercados. Segundo o site Box Office Mojo, até agora o filme conseguiu pouco mais de US$ 92,4 milhões apenas nos EUA, e outros US$ 77,1 milhões nos outros mercados em que está em cartaz. Detalhe: o filme teria custado aproximadamente US$ 100 milhões. Ou seja, deve ter algum lucro, mas ainda lhe falta um bom caminho para poder ser considerado um sucesso de bilheteria.

Para quem gosta de saber onde os filmes foram rodados, The Wolf of Wall Street foi filmado, principalmente, em Nova York, mas teve cenas ainda em New Jersey e nas Bahamas.

Até o momento, The Wolf of Wall Street ganhou 15 prêmios e foi indicado a outros 49. Entre os que recebeu, destaque para o Globo de Ouro de Melhor Ator – Comédia ou Musical para Leonardo DiCaprio; e para dois prêmios como Melhor Roteiro Adaptado para Terence Winter, incluindo o respeitado National Board of Review. Além deles, The Wolf of Wall Street foi indicado a cinco Oscar’s.

E para quem ficou interessado sobre o tema dos “desmandos” e exageros de Wall Street, encontrei alguns textos interessantes. Para começar, esta entrevista bacana com Jonathan Alpert, psicoterapeuta dos “malucos” de Wall Street e que foi publicada pela Alfa em 2011. Depois, este texto sobre o carioca Murilo dos Santos, um dos atores descobertos pelo filme Cidade de Deus e que acabou sendo engraxate dos executivos de Wall Street – no link com o texto publicado na IstoÉ Dinheiro em 2007 há informações sobre o que ele encontrou por lá e que contou em um livro. E para finalizar, este novo texto sobre o “real” Jordan Belfort, publicado em janeiro deste ano, após o lançamento de The Wolf of Wall Street, pela The Telegraph.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,6 para o filme. Uma bela avaliação, levando em conta os concorrentes diretos do filme no Oscar e o próprio padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram mais “comedidos”: eles dedicaram 171 críticas positivas e 50 negativas para The Wolf of Wall Street, o que garante 77% de aprovação para o filme e uma nota média de 7,7.

Esta é uma produção 100% dos Estados Unidos, por isso o filme entra na minha lista de críticas que satisfazem uma das três votações aqui no blog.

Ah sim, e agora vou adicionar alguns comentários que eu não pude fazer antes, pela correria de publicar este texto. Francamente, a interpretação de Matthew McConaughey merecia mais uma indicação ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante do que Jonah Hill. Mesmo McCounaughey tendo um papel bem menor que o do outro. Mas o importante é que ele arrasa em The Wolf of Wall Street – aliás, McConaughey está em grande fase. Ele faz por The Wolf of Wall Street o que Viola Davis fez por Doubt. Em poucos minutos, McConaughey é tão importante para o filme quanto os primeiros minutos de Jennifer Lawrence em American Hustle – ou seja, os dois roubam a cena.

CONCLUSÃO: Eu já tinha lido algo sobre os exageros de todas as espécies cometidos pelos homens engravatados que fizeram Wall Street ser a meca do dinheiro volátil no mundo. Mas por mais que eu tivesse lido algo a respeito, The Wolf of Wall Street me surpreendeu. E olha que eu vinha com certa expectativa para ver o filme. O que geralmente é ruim. Mas Scorsese conseguiu mais uma vez. Ele entrega, aqui, um filme ousado, exagerado, mas que precisava ser assim para respeitar o material original. The Wolf of Wall Street mergulha fundo na ambição e na falta de controle dos homens cheios de dinheiro e sem nenhuma moral de Wall Street.

Para a minha surpresa, as três horas passaram leves, porque o roteiro é envolvente e a condução de Scorsese, soberba. Leonardo DiCaprio tem a interpretação de sua vida, e é bem acompanhado pelo elenco de apoio. No final das contas, Scorsese mais uma vez debate a sociedade da qual ele faz parte, com o admirado Jordan Belfort sendo um símbolo da ambição que ajuda a explicar o “sonho americano”. Enquanto houver gente faminta por riqueza, existirão lobos para enganar os pastores e comer o rebanho. Mas um aviso: esta produção não é indicada para quem tem problemas em ouvir palavrões, ver gente sem moral e muitas, infindáveis cenas de sexo e drogas. Se você não tiver problema com isso, terás pela frente uma obra que faz pensar, além de um grande entretenimento. E para não deixar dúvidas: The Wolf of Wall Street deixa American Hustle no chinelo!

PALPITE PARA O OSCAR 2014: Se há um filme com capacidade para surpreender na entrega das estatuetas douradas de Hollywood no próximo dia 2 de março, este filme se chama The Wolf of Wall Street. Porque apesar do favoritismo moral de 12 Years a Slave (comentado aqui no blog) e do favoritismo técnico de Gravity (com crítica aqui), The Wolf of Wall Street se revela um filme com muitas qualidades para deixar de ser o “azarão” da categoria de Melhor Filme e levar a estatueta.

Francamente, acho difícil a zebra ganhar. Mas se há uma zebra este ano, esta é o filme de Martin Scorsese. Indicado em cinco categorias (Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator – Leonardo DiCaprio, Melhor Ator Coadjuvante – Jonah Hill, Melhor Roteiro Adaptado), The Wolf of Wall Street tem menos chances de estatuetas que seis de seus concorrentes principais.

As chances do filme são extremas. Ou ele surpreende e leva estatuetas que ninguém espera, ou sai de mãos vazias. Para mim, não seria surpreendente a segunda opção. Mas como o Oscar tem as suas surpresas… The Wolf of Wall Street tem menos chances que 12 Years a Slave e Gravity como Melhor Filme. Outros favoritos: Alfonso Cuarón como Melhor Diretor; Matthew McCounaughey (ou Chiwetel Ejiofor) como Melhor Ator; 12 Years a Slave ou Before a Midnight como Melhor Roteiro Adaptado; e Jared Leto como Melhor Ator Coadjuvante. Para ganhar alguma estatueta, The Wolf of Wall Street terá que derrotar estes nomes e produções. Difícil, mas não impossível.

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Hugo – A Invenção de Hugo Cabret

A magia do cinema é o foco central dos dois filmes que fazem a maior quebra-de-braço deste ano no Oscar. Além do já comentado The Artist, Hugo bebe desta fonte para encantar o público e a crítica. Mas diferente do filme francês, Hugo esbanja em efeitos especiais, no uso de recursos técnicos para encantar. The Artist, por outro lado, faz isso com um roteiro melhor acabado e com interpretações exemplares. Na queda-de-braço, Hugo perde – apesar de ser um filme interessante e que faz uma homenagem exemplar para um dos grandes inventores da Sétima Arte.

A HISTÓRIA: Engrenagens de um relógio dão lugar à lógica incessante do Centro iluminado de Paris. Neva, e nos aproximamos da estação de trem, onde parece pulsar o coração da cidade. A câmera passa ligeira entre muitas pessoas, até adentrar em um ponto fundamental daquela estação: um de seus relógios. Ali, invisível para as pessoas que entram e saem da estação, está Hugo Cabret (Asa Butterfield). O garoto observa, pelos números do relógio, a vida que transcorre na estação. Ele sai desta posição de observador apenas para roubar alguma comida e as peças que ele precisa para consertar um robô misterioso deixado pelo pai do garoto (Jude Law). Sem infância, a curiosidade do garoto sobre um brinquedo o aproxima do dono de uma das lojas da estação (Ben Kingsley).

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Hugo): Hugo é um filme maravilhoso, destes planejado, do início até o final, para encantar o espectador. Aquela sequência inicial, da câmera percorrendo Paris, foi um cartão-de-visitas eficaz do diretor Martin Scorsese para o que viria depois. A sequência, propriamente, não é uma novidade – já foi explorada por muitos filmes, inclusive o ótimo Moulin Rouge. Bem planejado e executado nos detalhes, Hugo é um show de técnica. Mas lhe falta, justamente, um pouco mais de emoção e de inovação.

Não por acaso, Hugo me deu sono. Me desculpem os fãs do filme, que talvez tenham visto na telona o que consideram ser um dos melhores filmes de Scorsese. Eu não chegaria tão longe. Ele é um grande diretor, mas não fez aqui um trabalho surpreendente. Pelo contrário. Apesar de bem filmado, Hugo sofre para decolar. Demora para ficar interessante. O protagonista é bom, mas ele desaparece quando aparecem em cena atores como Ben Kingsley ou Chlöe Grace Moretz, que interpreta a Isabelle, afilhada de “Papa George”. Se Hugo tivesse meia hora a menos, talvez fosse melhor.

Nunca assisto a trailers e tento, como vocês bem sabem, me informar o menos possível sobre um filme antes de assistí-lo. Sendo assim, eu sabia que Scorsese havia homenageado a Georges Méliès com Hugo, mas não sabia até que ponto. (SPOILER – não leia se você não assistiu ainda a este filme). Tinha lido algo a respeito de que o diretor havia reconstituído a alguns dos filmes de Méliès, um dos precursores mais brilhantes do cinema. Mas não sabia que o filme era, escancaradamente, sobre ele. Gostei da surpresa. De saber um pouco mais sobre este grande nome da Sétima Arte e do que aconteceu com ele após a Primeira Guerra Mundial. Foi muito bacana, também, a forma com que Scorsese reconstituiu alguns dos curtas mais famosos do diretor. Bela homenagem.

Mas o filme, infelizmente, não se resumo apenas à isso. Como Hollywood adora fazer, de tempos em tempos, Hugo coloca um jovem órfão como narrador de uma história cheia de fantasia. O protagonista, fascinado pelo cinema, arte que ele aprendeu a amar porque o pai lhe acostumou a levá-lo para a sala escura como uma espécie de presente, atua para resgatar um realizador esquecido. Ele simboliza a indústria fazendo um mea culpa. Incapaz de fazer isso enquanto Méliès estava vivo, essa indústria tenta fazer isso agora. Ainda que essa indústria seja outra, na verdade. Porque foi a indústria francesa que esqueceu Méliès em sua época – e a que o resgata agora é a de Hollywood.

Eis um ponto curioso sobre a disputa do Oscar deste ano. Vejamos: Hugo, o filme mais indicado do ano, é uma homenagem de Hollywood para um grande pioneiro do cinema, de origem francesa. The Artist, o melhor filme na disputa e o grande concorrente de Hugo, é uma homenagem francesa para o cinema mudo feito em Hollywood. Histórias que reverenciam o passado e o legado deixado por grandes realizadores de tempos extintos. Mas que não se debruçam sobre si mesmas, mas homenageiam escolas distintas. Interessante exercício.

Mas voltando a falar sobre o que prejudica Hugo: a lentidão do filme para que a história comece a decolar. Cansa um pouco aquela marcação cerrada do inspetor da estação de trem (Sacha Baron Cohen) contra toda e qualquer criança desacompanhada de um adulto. Fica repetitiva a corrida dele em busca de Hugo. O problema é que estas perseguições não criam tensão – afinal, todos nós sabemos que o protagonista não poderia se dar mal. Outro “suspense” do filme não se concretiza: o que envolve o robô herdado por Hugo. Não demora nada para percebermos que o robô é familiar a Papa George. E ainda que eu não tenha matado logo a charada de que o personagem de Ben Kingsley fosse, realmente, o próprio Méliès, torna-se evidente que o robô tinha uma forte ligação com ele. Faltava apenas explicar qual era a função dele, o que também não demora para acontecer – e nem surpreende.

Sem tensão ou grande expectativa sobre o que virá em seguida, Hugo passa lentamente. Como eu disse antes, ele chega a dar sono, apesar de toda a perfeição dos efeitos especiais e visuais. Aquelas histórias de “vida comum” da estação querem dar um “charme” para a produção, contextualizar aquela época e mostrar o cenário que fascinou os Lumière a ponto de inspirar os seus primeiros filmes. Mas francamente? Esse pano de fundo poderia ter sido mais resumido. Afinal, ele contribuiu pouco – para não dizer quase nada – para a história que mais interessa.

Um ponto é curioso neste filme: a “disputa” entre os mundos fascinantes de uma sala de cinema e de uma biblioteca. Hugo é fascinado pelo cinema. Isabelle, sua parceira de “aventuras”, pelas histórias narradas nas páginas dos livros. No final, a mensagem que o filme parece nos sugerir é que o fascínio de um não elimina o do outro. Tanto que Hugo é inspirado em um livro. E o protagonista mesmo comenta que era acostumado a ler livros junto com o pai. Neste sentido, o filme dá uma contribuição importante. Porque fica evidente a diferença de vocabulário entre as duas crianças da produção. Quem lê muito, como a personagem de Isabelle, consegue expressar-se muito melhor que os demais. Também conseguem fantasiar com muito mais facilidade, e encantar-se com as coisas mais comuns – enxergando referências em muitos feitos ordinários. Ainda assim, nada parece ser mais fascinante que o efeito que a fantasia tornada realidade, pela lente dos cineastas, causa nas pessoas – e isso, só uma sala de cinema é capaz de revelar.

Cheio de fantasia, e que apenas se inspira em uma história real. Muito do que vemos na telona não aconteceu, de fato. O que é real: Méliès realmente faliu e trabalhou, em meados da década de 1920, em uma loja de brinquedos na estação de trem de Paris. Mas ele não foi resgatado por um órfão, como Hugo, e sim por vários jornalistas que começaram a resgatar a importância que o diretor havia tido para o cinema. A razão para a falência dele também não se explica apenas pelo “desinteresse” do público pelos filmes cheios de fantasia que ele produzia após o excesso de realidade da Primeira Guerra. Esta foi uma das razões, mas não a principal. Depois falarei mais sobre isto.

O melhor deste filme demora para acontecer: o resgate de parte da história do cinema e de algumas das produções mais bacanas de Méliès. Só depois de uma hora e nove minutos é que mergulhamos no livro Inventer le Rêve, de René Tabard, que faz um rápido recorrido sobre as origens da Sétima Arte. E daí o grande mistério de Hugo é revelado. E surge, pouco depois, o resgate de cenas preciosas da obra de Méliès, reconstruídas com esmero por Scorsese. A partir daí, Hugo diz ao que veio. E acaba valendo o ingresso. Pena que demore tanto para chegarmos a este ponto.

NOTA: 9,2.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O visual de Hugo é o melhor do filme. Aplausos para a direção de fotografia de Robert Richardson, para o design de produção de Dante Ferretti, para a direção de arte comandada por 10 grandes nomes, para a decoração de set de Francesca Lo Schiavo e para os figurinos da premiada Sandy Powell. Esse grupo imenso de pessoas, e mais todas as outras que ajudaram a tornar o resgate de Paris nos anos 1930 e da origem do cinema, algumas décadas antes, uma realidade.

Um grande diretor, como Martin Scorsese, só consegue fazer um grande filme como este, complexo pelo resgate histórico e pela ousadia de recriar alguns trechos de curtas clássicos, tendo uma ótima equipe ao seu redor. Por isso mesmo, Hugo é um dos filmes concorrentes deste ano que mais elogia a arte do cinema como o resultado de um trabalho de equipe. Talvez por isso, este filme saia vencedor em várias categorias. Mas lhe falta um pouco de invenção, por incrível que pareça, para ser o favorito nas categorias principais.

Hugo é uma grande obra de fantasia. Mas ele tem algum fundo de realidade. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). O personagem central, daquele garotinho órfão “valente”, talvez tenha existido. Tenha percorrido várias vezes a estação de trem de Paris e, eventualmente, tenha parado no orfanato. Mas ele não existiu no ponto de mudar a parte final da vida de Georges Méliès. De fato, uma das mentes mais criativas do cinema ficou esquecida por muito tempo. Falido, abriu uma loja de brinquedos na estação parisiense. Mas as semelhanças com a história terminam aí. Méliès foi “resgatado” do ostracismo por jornalistas da época. E segundo este texto, em inglês, da Wikipédia, acabou de fato sendo homenageado, em dezembro de 1929, com uma retrospectiva de seus filmes na Sala Pleyel – antes da história de Hugo ser contada, portanto. Mesmo com esta homenagem, Méliès continuou pobre e precisou de ajuda para terminar a vida com o mínimo de dignidade. Vale a leitura do texto da Wikipédia.

Aliás, ao ler o texto sobre a vida do cineasta homenageado, fiquei um pouco mais incomodada com Hugo. Afinal, se era para fazer uma homenagem ao cinema e à Méliès, por que não contar um pouco melhor a sua história? Por que não falar das verdadeiras razões que fizeram o cineasta deixar de produzir filmes? Pelo texto da Wikipédia comentado, é verdade que os fatos da Primeira Guerra contribuiram para Méliès deixar de fazer filmes. Mas a derrocada do diretor havia começado muito antes do conflito de proporções mundiais eclodir.

Algo importante a comentar: Méliès não deixou o Théâtre Robert-Houdin para dedicar-se exclusivamente a fazer filmes. Pelo menos durante muito tempo. Os primeiros curtas de Méliès datam de 1896, quando ele estreou como diretor com Un Petit Diable. O famoso Le Voyage Dans la Lune, importante como fio condutor para o filme Hugo, está completando este ano 110 anos de seu lançamento. Mas segundo o texto da Wikipédia, em 1907, Méliès fazia sucesso lançando novas mágicas no teatro, enquanto produzia 19 curtas para o cinema. Segundo muitos críticos, a decadência do cineasta começou naquele ano, porque ele teria começado a repetir “velhas fórmulas” ao mesmo tempo em que lançava ideias novas. No ano seguinte, 1908, ocorreu um fato que seria decisivo – muito mais que a Primeira Guerra – para o futuro de Méliès: a criação da Motion Picture Patents Company (MPPC) por Thomas Edison.

O objetivo de Edison era colocar ordem e, de certa maneira, controlar a indústria cinematográfica nos Estados Unidos e na Europa. Várias empresas aderiram à proposta dele, incluindo a American Pathé e a Méliès’s Star Film Company. Edison assumiu a presidência do coletivo de realizadores. Naquele ano, a companhia de Méliès produziu 68 filmes e forneceu mil metros de filme por semana para cumprir o contrato com a MPPC. O irmão de Georges, Gaston Méliès, abriu então um estúdio em Chicago com a intenção de ajudar a empresa familiar a produzir a quantidade de filmes necessária. Mas ele não produziu nada em 1908. No início do ano seguinte, Méliès parou de fazer novos filmes e, em fevereiro, presidiu a primeira reunião do Congresso Internacional de Cineastas em Paris. Como outros diretores, ele estava descontente com o monopólio de Edison.

Naquele congresso, Méliès liderou um movimento de reação. O resultado é que Edison definiu que os filmes não seriam mais vendidos, mas alugados por um prazo de quatro meses apenas por integrantes da organização e que seria adotado uma mesma contagem de perfurações de filme para todas as produções. Méliès não gostou do último ponto, porque a maioria de seus clientes eram feirantes e proprietários de casas de espetáculo que eram contra esta padronização. Na época, Méliès dizia que não era uma empresa, mas um produtor independente. Ele voltou a filmar apenas no outono daquele ano. Enquanto isso, o irmão dele, Gaston, começou a produzir filmes nos Estados Unidos, abrindo estúdios diferentes até 1912. Entre 1910 e 1912, Gaston produziu mais de 130 filmes, enquanto o irmão, Georges, apenas 20.

Apenas em 1910, Georges Méliès produziu 10 filmes. Mas ele já passava mais tempo no teatro do que fazendo curtas para o cinema. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). No outono daquele ano, Méliès fez um acordo com Charles Pathé que, segundo o texto da Wikipédia, acabaria destruindo a carreira cinematográfica dele. Pelo contrato, Méliès recebeu uma grande quantidade de dinheiro para produzir filmes que seriam distribuídos por Pathé Frères – as produções também poderiam ser editadas por Pathé, caso ele achasse conveniente. Fez parte do acordo com Pathé as escrituras da casa e da propriedade onde estava o estúdio de Méliès.

O diretor começou a fazer os seus filmes mais elaborados, como The Adventures of Baron Munchausen e The Haunted Window. O problema é que a extravagência destas produções, sucesso uma década antes, acabou resultando no fracasso de bilheteria das novas produções. Em 1912 Méliès seguiu com os projetos ousados e caros e, sem conseguir sucesso nas bilheterias, passou a ter os seus trabalhos editados por Pathé. Algumas produções de Méliès foram editadas por seu rival, Ferdinand Zecca, naquele ano, até que o diretor resolveu quebrar o contrato com Pathé.

Enquanto isso, Gaston Méliès gastou muitos recursos viajando com a família e uma equipe de 20 pessoas pelo Tahiti, pelo Pacífico Sul e pela Ásia. As filmagens foram enviadas através do filho dele para Nova York, mas grande parte do material acabou sendo danificado e perdido. Consequentemente, Gaston não conseguiu cumprir o acordo com a empresa de Edison. Além de gastar US$ 50 mil na viagem – uma fortuna para a época -, Gaston teve que se livrar do estúdio nos Estados Unidos.

Quando Méliès quebrou o contrato com a Pathé, em 1913, ele se viu em apuros para conseguir pagar o que devia para a companhia. Por ironia, a moratória declarada com o surgimento da Primeira Guerra Mundial salvou Méliès de perder as propriedades para a Pathé. Mas falido e sem possibilidade de seguir fazendo filmes, Méliès viu a situação piorar quando a primeira esposa, Eugénie Génin, morreu em maio de 1913 e seu teatro, o Robert-Houdin, ficou fechado por um ano. Foi aí que ele deixou Paris por vários anos, até retornar e começar a trabalhar em uma loja de brinquedos na estação de trem Montparnasse em meados da década de 1920. Depois da morte da esposa, Méliès teria se casado com Jeanne d’Alcy, que aparece em vários de seus filmes e que teria sido sua amante por vários anos – é ela que aparece no filme Hugo.

Durante a guerra, o exército francês confiscou mais de 400 impressões originais de filmes que faziam parte do catálogo do estúdio de Méliès para derretê-los em busca de matéria-prima para fazer solas de sapatos. O próprio Méliès, em um acesso de raiva, destruiu muitos de seus filmes. Ainda assim, segundo o texto da Wikipédia, pouco mais de 200 produções que levam a assinatura dele foram recuperadas e podem ser vistas em DVD.

Segundo o ótimo site de referências IMDb, Georges Méliès dirigiu, entre 1896 e 1913, 552 curtas metragens – a maioria deles, peças de ficção, mas alguns eram documentários. Além de diretor, Méliès trabalhou como ator em 85 curtas, como produtor de 71 deles e como roteirista de 42.

Ah sim, e era verdade que ele foi um dos espectadores maravilhados com a primeira exibição dos irmãos Lumière.

Os atores em Hugo estão muito bem, especialmente os veteranos. Roubam a cena, claro, Ben Kingsley e Helen McCrory – ela como Mama Jeanne. Jude Law faz uma ponta, assim como Michael Stuhlbarg como Rene Tabard, mas ambos estão muito bem. O garoto Asa Butterfield não faz feio, mas também não se destaca. Chlöe Grace Moretz sim, ocupa todo o espaço na tela sempre que aparece. Sacha Baron Cohen parece desconfortável em um papel sério. E outros atores conhecidos, como Emily Mortimer, que aparece como a florista Lisette, e Christopher Lee como o livreiro Labisse, praticamente desaparecem em meio a um roteiro que dá mais atenção para as cenas de perseguição do que para o trabalho dos atores.

Até o momento, Hugo pode ser considerado um fracasso nas bilheterias. Afinal, ele custou aproximadamente US$ 170 milhões e arrecadou, até o dia 29 de janeiro, pouco mais de US$ 58,9 milhões nas bilheterias dos Estados Unidos. Mesmo que o filme se recupere ganhando algumas estatuetas do Oscar, dificilmente ele conseguirá ser um êxito. Algo ruim, mas previsível – afinal, o filme não convence o suficiente e não entra na famosa propaganda boca-a-boca.

Hugo estreou no festival de Nova York no dia 10 de outubro. De lá para cá, a produção participou de apenas um festival de cinema, o de Roterdã, na Holanda.

Mesmo sem ir bem nas bilheterias, Hugo fez sucesso entre os seus pares e entre a crítica. James Cameron, após assistir ao filme, classificou-o como uma “obra de arte” e disse que é a melhor experiência de filme 3D já feita – superando, inclusive, os seus próprios filmes, como Avatar. Admito que assisti Hugo sem ser na versão 3D. Talvez neste formato ele pareça mais impressionante.

Até o momento, Hugo ganhou 26 prêmios e foi indicado a outros 65 – incluindo as 11 indicações ao Oscar. Os mais importantes que ele recebeu foram o Globo de Ouro de melhor diretor para Scorsese; e os prêmios de melhor filme e melhor diretor do National Board of Review.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,2 para Hugo. Uma boa nota, mas nada excepcional. Os críticos do Rotten Tomatoes foram mais generosos, dedicando 178 críticas positivas e 12 negativas para o filme, o que lhe garantiu uma aprovação de 94% e uma nota média de 8,3.

Hugo tem um bom roteiro, mas ele poderia ter sido melhor construído – sem tantas sobras e pegando ritmo mais rápido. John Logan fez um trabalho competente, mas que deixou a desejar. O roteiro dele teve o livro The Invention of Hugo Cabret, de Brian Selznick, como fonte de inspiração.

CONCLUSÃO: Volta e meia, Hollywood gosta de olhar-se no espelho. De falar sobre seus grandes diretores, artistas, de relembrar de tempos em que o glamour dominava o cenário do cinema. Eram tempos diferentes, quando não haviam muitas escolas de cinema ou centros de produção de filmes no mundo. Hugo aparece 116 anos depois da primeira exibição pública do invento dos irmãos Lumière cheio de homenagens e tentando repassar para a telona a mesma magia que encantou as primeiras audiências desta arte já centenária. O problema é que, apesar do trabalho técnico competente e das boas intenções, Hugo não consegue ter o mesmo encanto. Ele nem chega perto dele, aliás. O roteiro não surpreende e a história demora para engrenar. O final sim, sela o trabalho com chave de ouro, e faz o restante do tom morno do filme parecer pouco importante. De fato, a homenagem é bonita e o final é exemplar, mas o restante do filme, nem tanto. Bem feito, bacana, mas pouco inspirado e menos criativo que o seu grande rival no ano, The Artist.

PALPITE PARA O OSCAR 2012: Hugo foi o filme que ganhou o maior número de indicações para a maior premiação de Hollywood este ano: 11, no total. Surpresas sempre podem acontecer, mas francamenteu eu acho que ele ficará a ver navios na maior parte das indicações.

Muito bem acabado nos detalhes, Hugo tem melhores chances de vencer em categorias técnicas. Frente à The Artist, ele não merece ganhar como melhor filme. Claro, não seria nenhum absurdo se ele ganhasse. Afinal, é um bom filme. Mas não é o melhor do ano – ou na disputa, pelo menos. Martin Scorsese faz um trabalho ótimo na direção. Pode levar a estatueta. Mas se Michel Hazanavicius, de The Artist, ou Woody Allen, por Midnight in Paris, conseguissem embolsar a estatueta dourada, também não seria nenhuma injustiça – francamente, torço por Hazanavicius.

Das outras nove indicações, vejo Hugo tendo uma chance grande de vencer nas categorias de melhor edição, melhores efeitos especiais, melhor edição de som, melhor direção de arte e melhor mixagem de som. Não seria uma surpresa se o filme ganhasse ainda em melhor fotografia, ainda que eu veja outros filmes como favoritos – como The Artist e The Tree of Life. E mesmo na lista de categorias técnicas em que Hugo tem chances fortes, há sempre pelo menos um outro concorrente que pode surpreender e vencê-lo. É preciso esperar para ver o quanto a Academia quer ou não deixar o prêmio “em casa” e seguir olhando fixamente para o próprio espelho.

Para resumir, eu diria que Hugo merece entre quatro e cinco estatuetas, todas nas categorias técnicas. Mas se Hollywood quiser homenagear a si mesma e deixar o prêmio nos Estados Unidos, ignorando a superioridade de The Artist, Hugo poderá receber entre sete e oito Oscars. Logo veremos…