Curtas Documentário Indicados ao Oscar 2018 – Avaliação

Olá amigos e amigas do blog!

Como manda a tradição dos últimos anos da cobertura do Oscar feita aqui no blog, vale a pena falarmos também sobre os curtas que concorrem em três categorias da premiação da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood.

Vou seguir, nesse ano, a ordem de divulgação dos indicados feita pela própria Academia. Assim, começo comentando sobre os filmes indicados na categoria Melhor Curta Documentário.

As bolsas de apostas já apontam os favoritos, mas a verdade é que nessa categoria, assim como na de Melhor Filme em Língua Estrangeira, o palpite dos apostadores é mais no “chutômetro” do que realmente baseado em chances reais de premiação. Ainda assim, vale falar também sobre como cada um destes curtas está sendo encarado pelos apostadores.

Vale lembrar que o Oscar 2018, que representa a 90ª premiação da Academia, será promovido esse ano no primeiro domingo de março – ou seja, no dia 4. Ou seja, estamos mais próximos do que nunca de saber quais destas produções sairá ganhando na disputa.

Eu sou uma incentivadora de curtas. Afinal, grande parte dos diretores que admiramos hoje em dia, começaram exatamente com essa modalidade de filmes. E grandes histórias podem ser contadas em curtas. Então vamos dar uma olhada no que temos esse ano na disputa da estatueta dourada na categoria de Curtas Documentário? Bóra lá!

1. Edith+Eddie

Achei a premissa desse curta muito, muito bacana. A diretora Laura Checkoway, que tem apenas três títulos no currículo como diretora, conta, nesse curta de 29 minutos, a história de Edith e de Eddie. Eles tem, respectivamente, 96 e 95 anos de idade, e são conhecidos por serem o casal de recém-casados inter-racial mais velho dos Estados Unidos.

O resumo do filme diz que a história de amor deles está ameaçada por suas respectivas famílias, que querem separá-los. Me pareceu muito interessante o filme porque ele não apenas trata do amor na velhice, e sobre a capacidade do ser humano de amar e de se reinventar durante a vida inteira, mas também aborda uma questão que parece nunca ter fim nos Estados Unidos – e em outras partes do mundo: o preconceito racial.

Esse é um tema muito vivo naquele país e que sempre rende filmes muito interessantes. Encontrei no YouTube o filme na íntegra – mas não sei por quanto tempo ele ainda estará disponível. O que me chamou muito a atenção, assistindo à essa produção, é a delicadeza e o respeito que a diretora tem pelos protagonistas de seu filme.

Edith e Eddie são mostrados em sua intimidade, começando pelo momento em que eles aparecem dançando em um dos tantos bares de música country do país, e passando para o momento em que eles estão dormindo juntos, lado a lado. Na introdução do filme, a diretora nos conta que eles se conheceram há 10 anos, em uma fila da loteria no Estado da Virginia.

Muito bacana ver aquela cena deles dormindo, com um urso de pelúcia junto com o casal na cama, e o retrato do casal na estante. Cenas de um cotidiano de pessoas reais, que descobriram que o amor é puro companheirismo. A questão é que nem tudo são flores, e eles, que já passaram por tanto na vida – só eles sabem o quanto -, ainda tem que, com toda aquela idade, enfrentar o preconceito – racial e de idade também, porque ambos existem.

Achei interessantíssimo o filme. Não apenas pelas temáticas que ele trata, que são muito atuais – e acho que serão por um longo tempo ainda -, mas pela forma com que a diretora conseguiu adentrar na intimidade do casal e valorizá-la com muita delicadeza e respeito.

Mas a história não tem um final feliz – desculpem o spoiler. E assim, sem firulas, a diretora nos faz questionarmos algo que poucos estão preparados para responder: até que ponto os filhos devem interferir na vida dos pais quando eles já estão com bastante idade e nem sempre capazes de fazer a melhor escolha com consciência? Essa não é uma resposta fácil, mas, sem dúvida alguma, o valor que deveria ser colocado na frente de outros não deveria ser o dinheiro ou a herança, mas o que a pessoa gostaria de ter feito antes de perder totalmente a capacidade de escolher.

Nas bolsas de apostas, Edith+Eddie é o favoritíssimo para ganhar a estatueta dourada do Oscar 2018. Mas essa não é a opinião de alguns críticos. Jude Dry, da IndieWire, por exemplo, nesse texto em que ele analisa os concorrentes, deu a menor nota para Edith+Eddie (C+). Nesse outro texto, da Slant Magazine, Ed Gonzalez comenta os curtas indicados nessa categoria e diz que Edith+Eddie pode ganhar a estatueta, mas que o favorito é Heroin(e).

Com um background como jornalista, Laura Checkoway estrou com o documentário Lucky em 2014. Depois, em 2016, ela lançou o curta Wolffland. Ou seja, Edith+Eddie é apenas o seu terceiro título – e o primeiro curta documentário. Até o momento, Checkoway tem sete prêmios no currículo. Destes prêmios, seis foram dados para Edith+Eddie – incluindo o prêmio de Melhor Curta no Prêmio da Associação Internacional de Documentários.

Sempre vale comentar a opinião do público e da crítica. Edith+Eddie tem a nota 7,3 no IMDb – mas ainda não tem avaliações no Rotten Tomatoes. Abaixo, eu deixo o curta na íntegra e, na sequência, o trailer do filme – afinal, eu não sei por quanto tempo o curta estará disponível no YouTube.

 

 

 

2. Heaven Is a Traffic Jam on the 405

Esse curta com 40 minutos de duração dirigido por Frank Stiefel conta a história de Mindy Alper, uma “torturada e brilhante artista de 56 anos de idade que é representada por uma das melhores galerias de Los Angeles”. Segundo a nota de apresentação do curta comenta, a protagonista desta história sofreu com “ansiedade aguda, transtorno mental e uma depressão devastadora”.

Esses problemas fizeram com que Mindy Alper passasse por instituições de tratamento para pessoas com transtornos mentais, onde ela passou por terapia de eletrochoque e por outros tratamentos que fizeram com que ela ficasse 10 anos sem falar. Detentora de uma grande auto-consciência, a artista produziu uma trajetória artística em que ela pode expressar todo o seu estado emocional com grande “precisão psicológica”.

Ainda segundo os produtores desse curta, Heaven Is a Traffic Jam on the 405 utiliza entrevistas, reconstituições, mostra a a construção de um busto feito em papel machê de oito pés (xx metros) que reconstituí o “amado psiquiatra” da artista e revela o talento dela através de desenhos que ela fez desde a infância para apresentar o retrato mais completo de Mindy Alper.

Dessa forma, segundo as notas da produção, o curta mostra como a artista retratada “emergiu da escuridão e do isolamento para uma vida que inclui amor, confiança e apoio”. Bastante interessante a premissa, não? A exemplo de Edith+Eddie, encontrei esse curta na íntegra também no YouTube – vamos ver até quando.

Gostei muito do começo, da forma com que o diretor Frank Stiefel mostra uma situação que pode irritar muita gente, que é o trânsito, e como ele é visto com prazer pela artista. Aliás, logo o filme se debruça sobre a forma de falar e de pensar de Mindy Alper. Gostei da trilha sonora e da pegada do curta. E aquele início já explica o título da produção. Em seguida, mergulhamos na arte da protagonista, assim como na sua história.

Segundo as bolsas de apostas para o Oscar, essa produção estaria em segundo lugar na disputa pela estatueta dourada da Academia. Na avaliação de Jude Dry, do site IndieWire, Heaven Is a Traffic Jam on the 405 empata com Traffic Stop com a melhor nota entre os concorrentes: A-. Segundo Dry, o filme de Stiefel tem muitas camadas e conta uma fascinante história em que a arte é a sobrevivência de uma pessoa.

O crítico também destaca como Stiefel “apimenta” a produção com os desenhos dinâmicos da artista, valorizando, assim, tanto a sua história de superação quanto a sua arte. Por sua parte, Ed Gonzalez, do site Slant Magazine, afirma que Heaven Is a Traffic Jam on the 405 é o filme que “deveria ganhar” o Oscar, mas ele aponta que essa produção não deve levar a estatueta.

O curta Heaven Is a Traffic Jam on the 405 é o segundo trabalho de Frank Stiefel como diretor. Antes, ele filmou apenas ao curta documentário Ingelore, em 2009. A carreira maior de Stiefel é como produtor. Com Heaven ele conseguiu a sua primeira indicação ao Oscar – a exemplo de Laura Checkoway, diretora de Edith+Eddie.

Heaven conquistou, até o momento, quatro prêmios. Entre eles, os prêmios do público e do júri como Melhor Curta Documentário no Festival de Cinema de Austin e os mesmos prêmios no Full Frame Documentary Film Festival. Os usuários do site IMDb deram a nota 7,3 para o filme – ainda não existem avaliações sobre essa produção no Rotten Tomatoes.

Achei a premissa e a “pegada” de Heaven bastante interessantes. Afinal, os artistas sempre precisam de uma boa plataforma para contar as suas histórias, e é sempre bacana ver alguém que passou por maus bocados, inclusive em questões psiquiátricas, conseguindo dar a volta por cima e tendo a arte como aliada para dar vasão para os seus sentimentos, pensamentos e desejos.

Porque todos, não importa pelo que eles passaram, merecem ser ouvidos, compreendidos e amados. Todos. Sem exceção. Gosto muito de filmes que valorizam as histórias de quem normalmente parece não ter vez. Esse me parece ser um filme com essa proposta. A exemplo do curta anterior, deixo por aqui também o curta que eu encontrei na íntegra, no YouTube e, na sequência, o trailer dele (afinal, não sei por quanto tempo o curta estará disponível na íntegra). Vale conferir ambos:

 

 

 

3. Heroin(e)

Com 39 minutos de duração, Heroin(e) conta a história de “três mulheres que lutam para quebrar o ciclo de uma vida, uma por vez”. Olhando dessa forma, essa descrição dos produtores parece bastante genérica, não é mesmo? Mas se pensarmos no título do curta, fica mais fácil de pensar sobre que “ciclo” estamos falando.

Classificado com a nota B+ pelo crítico Jude Dry, do site IndieWire, Heroin(e) traz um “retrato expansivo de uma cidade da Virgínia Ocidental envolvida em um epidemia de opióides” e que tem a sua narrativa conduzida por três mulheres “infatigáveis” na luta contra essa epidemia de drogas.

As protagonistas dessa história são a Chefe do Corpo de Bombeiros Jan Rader, que “gasta os seus dias revivendo viciados que caíram em overdose”; a juíza Patricia Keller, que tem um programa de reabilitação na corte que trata esses casos com humor e uma certa carga de amor; e a missionária Necia Freeman, do Brown Bag Ministry, que alimenta e aconselhas as mulheres que vendem os seus corpos para conseguir as drogas.

Na avaliação de Dry, a escolha da diretora Elaine McMillion Sheldon em seguir três mulheres para contar essa história da luta de uma cidade contra a epidemia de drogas é uma “grande vantagem” porque o espectador acaba ficando envolvido com as suas histórias e tem um retrato mais humano e completo da cidade com características industriais. Para o crítico, Heroin(e) é um retrato convincente de uma cidade dos esquecidos “Apalaches” e das mulheres que a mantêm.

Na avaliação do crítico Ed Gonzalez, do site Slant Magazine, Heroin(e) deve ganhar o Oscar na categoria Melhor Curta Documentário. Entre os apostadores, esse curta é apenas o terceiro na lista de preferência. Se olharmos pela nota do filme no IMDb (6,8) e pelo número de prêmios que ele recebeu – nenhum, até agora -, sem dúvida Heroin(e) corre atrás dos outros dois curtas citados anteriormente.

Mas como nada disso define o Oscar, realmente vamos precisar esperar para ver como Heroin(e) se sairá na premiação da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Heroin(e) é o sétimo projeto da diretora Elaine McMillion Sheldon. Ela estreou em 2011 com o documentário Lincoln County Massacre e, depois, lançou outros dois documentários antes de dirigir dois curtas documentário e um curta que antecederam a Heroin(e).

Apesar de ter uma trajetória reconhecida, com Heroin(e) ela conquistou a sua primeira indicação ao Oscar. Diferente dos outros dois curtas, que encontrei na íntegra no YouTube, dessa produção eu achei apenas o trailer. Mas por ser uma produção da Netflix, esse curta documentário esteja disponível para ser visto nesse serviço de streaming diretamente para quem tem uma assinatura. Deixo, abaixo, apenas o trailer do curta:

 

 

4. Knife Skills

Dirigido por Thomas Lennon, esse curta com 40 minutos de duração acompanha o “agitado lançamento” do restaurante Edwins na cidade de Cleveland, Estados Unidos. O restaurante é quase todo formado por homens e mulheres que saíram da prisão. O objetivo do negócio é que ele seja conhecido com um restaurante francês de classe mundial.

O desafio do negócio é treinar a equipe que faz parte do restaurante para atender às grandes expectativas dos clientes, já que a maior parte das pessoas contratadas nunca tinha cozinhado antes ou trabalhando em um negócio desse ramo. Para que o Edwins estreie da forma desejada, esse grupo de iniciantes passou dois meses aprendendo tudo que eles podiam sobre um restaurante com esse perfil.

De acordo com o texto de divulgação do curta, “nesse cenário improvável”, o espectador descobre os desafios dos homens e mulheres contratados para oferecer pratos deliciosos com seu “arcabouço de vocabulário francês”. No curta, o espectador vai conhecer de forma mais íntima três estagiários, assim como o fundador do restaurante – ele próprio assombrado com o seu tempo de prisão.

Da minha parte, achei a história dessa produção muito interessante. Outro tema importante levantado por um dos curtas indicados ao Oscar desse ano. Eu sempre reflito sobre as poucas oportunidades de trabalho e de “virada de vida” que as pessoas dão para quem um dia já foi preso. Como queremos que quem já prestou as suas contas na Justiça tenha uma vida diferente se não ajudamos elas para conseguir isso?

E esse ajudar é tão simples – ou deveria ser – quanto lhes oferecer uma oportunidade de trabalho, uma chance para que elas mostrem os seus talentos e a vontade que elas têm de trilhar um novo caminho. Achei interessante a proposta do restaurante e a do diretor Thomas Lennon em contar essa história.

Vou citar novamente o crítico Jude Dry, da IndieWire. Entre os cinco finalistas na categoria Melhor Curta Documentário desse ano, ele deu a segunda nota mais baixa para Knife Skills: B-. De acordo com Dry, apesar de ter uma “história que valha a pena”, o filme não é tão saboroso quanto poderia ser.

Um problema da produção segundo o crítico, é que o diretor começou a acompanhar os preparativos para a abertura do restaurante apenas seis semanas antes do negócio abrir as portas – e a produção nunca apresenta as razões para ter uma “linha do tempo tão apertada”. Dry também considerou um bocado cruel dar para os três estagiários uma tarefa “tão impossível”.

O crítico comenta que o filme se conecta menos do que deveria com os estagiários, afirma que a passagem de tempo na produção não é bem resolvida e que, em resumo, Knife Skills abrange uma história fascinante, mas que o filme, simplesmente, “não combina com a engenhosidade do assunto”.

Knife Skills é o único curta, entre os indicados, que é dirigido por um nome que já venceu o Oscar antes. O diretor Thomas Lennon tem 13 títulos no currículo. Ele estreou na direção em 1984 com o documentário feito para a TV To Save Our Schools, to Save Our Children. Depois, ele fez mais quatro trabalhos para a TV – filme e séries de documentário – até estrear, em 2003, com o primeiro documentário feito para os cinemas, Unchained Memories: Readings from the Slave Narratives.

Depois, viriam mais três trabalhos feitos para a TV, dois documentários e um curta documentário antes de Knife Skills. Como eu disse, ele já ganhou um Oscar. Foi em 2007, na categoria Melhor Curta Documentário, por The Blood of Yingzhou District. Com Knife Skills, Lennon acumula quatro indicações ao Oscar – sendo que, em uma delas, a já citada de 2007, ele levou a estatueta para casa. Ou seja, temos aqui um veterano já reconhecido pela Academia.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,8 para Knife Skills. O curta, até o momento, ganhou apenas um prêmio, o de Melhor Curta Documentário no Traverse City Film Festival. Na bolsa de apostas do Oscar, esse é o penúltimo filme na lista das preferências dos apostadores.

Para vocês conferirem um pouco mais sobre esse curto, deixo aqui o trailer de Knife Skills:

 

5. Traffic Stop

Fechando a lista dos curtas documentário indicados ao Oscar 2018, chegamos até Traffic Stop, uma produção com 30 minutos de duração dirigida por Kate Davis. Esse filme conta a história de Breaion King, uma professora afroamericano de 26 anos da cidade de Austin, no Texas, que foi parado inicialmente por causa de uma violação das leis de trânsito e que acabou sendo preso de uma forma dramática.

De acordo com o texto de apresentação desse curta, King foi pega pelas câmeras da polícia e logo puxada de seu carro por um policial que lhe deu voz de prisão. Diversas vezes ela foi jogada no chão até ser algemada. Quando estava sendo levada para a prisão, King empreendeu uma conversa revelada com o oficial que a estava levando sobre a questão racial e o cumprimento da lei nos Estados Unidos.

O curta documentário justapõe imagens das câmeras dos policiais com cenas do cotidiano de King com o objetivo de “oferecer um retrato mais completo da mulher que foi apanhada em um encontro inquietante”. O crítico Jude Dry, do site IndieWire, classificou Traffic Stop com a melhor nota entre os curtas que concorrem ao Oscar – na verdade, o filme “empata” com Heaven Is a Traffic Jam on the 405 no conceito A-.

Dry comenta como, em 2015, Breaion King foi parado por causa de uma pequena violação de trânsito. Ele explica que o que deveria ter terminado com uma multa de rotina acabou terminando com uma prisão violenta. Dry destaca ainda como a cineasta Kate Davis “corta a tensão” das imagens da prisão capturadas pelas câmeras da polícia com cenas da “vida rica e variada” do protagonista dessa história.

Segundo o crítico, contrasta muito a pessoa alegre, solidária e emotiva que King é na vida real com as imagens absurdas de sua prisão violenta. O alívio vem da entrevista que a diretora faz com ela – um sinal de que ela sobreviveu. Dry elogia o trabalho de Davis, afirmando que ela cria “um retrato profundo em movimento de uma mulher cuja vida é virada de cabeça para baixo pela brutalidade e o racismo de uma polícia insidiosa”.

Ou seja, Traffic Stop trata de um tema muito quente nos Estados Unidos. Para Dry, esse curta é um dos dois favoritos desse ano na disputa – o outro forte concorrente, segundo o crítico, seria Heaven Is a Traffic Jam on the 405. Apesar dessa opinião dele, Traffic Stop aparece em último lugar na lista de preferências de quem apostou nessa categoria nas bolsas de apostas.

Traffic Stop é o décimo-sexto trabalho da diretora Kate Davis. Ela estreou em 1983 dirigindo um dos episódios da série de documentários feitos para a TV American Undercover. Poucos anos depois, em 1987, ela estreou o primeiro documentário feito para os cinemas, Girltalk. Depois disso, ela lançou sete documentários, dois episódios de séries de documentários feitos para a TV, três documentários feitos para a TV e um episódio de uma série de TV antes de lançar Traffic Stop.

Com esse curta documentário, pela primeira vez, Kate Davis conseguiu uma indicação ao Oscar. Entre os curtas que concorrem esse ano nessa categoria, essa produção é a que ostenta a menor nota no site IMDb: 5,9. O filme também não ganhou nenhum outro prêmio antes – então, apesar da crítica favorável de Dry, parece realmente que este curta documentário é uma grande zebra nessa disputa por uma estatueta dourado.

Deixo, para vocês conferirem, o trailer de Traffic Stop. Sou franca que o trailer me deixou impressionada. Acho que a proposta do curta é muito interessante, e coloca luz sobre um tema sempre fundamental de ser discutido nos Estados Unidos e em tantos países mundo afora:

 

PALPITES PARA O OSCAR 2018: Difícil opinar sobre todos esses concorrentes quando, na verdade, eu não pude conferir a todos eles. Mas observando a proposta de cada um e a “pegada” de cada produção que eu pude ver na íntegra ou através dos trailers, eu acho que os curtas mais interessantes são Traffic Stop, Edith+Eddie e Heaven Is a Traffic Jam on the 405.

Eu não sei se, exatamente, nessa ordem. Mas foram esses curtas que mais me “saltaram” aos olhos. Segundo os apostadores, Edith+Eddie e Heaven Is a Traffic Jam on the 405 são os favoritos. De acordo com críticos, a disputa está mais dividida, entre Heroin(e), Heaven Is a Traffic Jam on the 405 e Traffic Stop. Logo mais, veremos.

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Curtas Documentário Indicados ao Oscar 2017 – Avaliação

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Finalizo a sequência de três posts sobre os curtas-metragens que estão concorrendo ao Oscar 2017 com este texto sobre os curtas de documentário que estão na disputa de uma estatueta dourada neste ano.

Agora falta pouco para a grande premiação da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Devo começar a cobertura sobre a premiação acompanhando o tapete vermelho da premiação neste domingo, dia 26 de fevereiro, a partir das 20h.

Diferente dos dois últimos anos, quando cobri a entrega do prêmio pelo jornal em que eu trabalho, o Notícias do Dia, neste ano volto a fazer a cobertura exclusivamente pelo blog. Sem querer, será um presente bacana para todos nós, que estamos juntos por aqui há quase 10 anos – em agosto o blog celebra uma década de publicações.

Como vocês bem sabem, eu defendo a produção de curtas. Apesar das três categorias de curtas do Oscar serem as menos badaladas e conhecidas da premiação, sempre vale acompanhar este tipo de produção porque elas não apenas apresentam histórias interessante como também introduzem grandes nomes que vamos acompanhar depois como “novos diretores” de longas.

Após comentar sobre os curtas de animação e sobre os curtas de ficção que vão concorrer ao Oscar deste ano, chegou a hora de falar dos curtas de documentário na disputa. Confiram:

1. Extremis

O diretor Dan Krauss chega à sua segunda indicação ao Oscar com o curta Extremis, uma produção americana que se aprofunda na dor e nas outras emoções que acompanham cada decisão de colocar o fim na vida de um familiar ou amigo no hospital.

A produção acompanha a rotina de médicos, pacientes e de seus familiares em uma UTI hospitalar na fase final da vida de diversas pessoas. Assistindo ao trailer do curta, que está logo abaixo, percebi o quanto o tema é importante e forte. A produção da Netflix está ambientada no Highland Hospital e mostra a realidade complicada que envolve a morte.

É fato que todos nós vamos morrer. Esta é a única certeza que temos na vida. Mas encarar a morte de um familiar querido nunca é fácil. Dizer adeus e deixar a pessoa partir é complicado, mas necessário. Achei muito interessante e importante o tema de Extremis, produção que tem 24 minutos de duração.

Antes de dirigir este curta, Dan Krauss tinha apenas um outro curta documentário no currículo, The Life of Kevin Carter, de 2004, que lhe rendeu uma indicação ao Oscar em 2006. Depois ele fez dois documentários para a TV e mais o documentário The Kill Team. Por aqui, por enquanto, há uma versão do curta na íntegra.

Depois de assistir ao trailer, consegui ver a produção na íntegra. Realmente é um curta muito bem feito. O diretor se debruça em um punhado de histórias, como as de Donna, Selena, um morador de rua que não tem ninguém próximo para ajudar a tomar decisões, e outros pacientes que acabam não sendo identificados por créditos no curta.

Acompanhamos médicos e enfermeiros, alguns deles questionando o quanto estão ajudando ou apenas prolongando a dor de pacientes que vão morrer de qualquer forma. Na parte das famílias, vemos pessoas mais preparadas para darem o melhor “final” possível para os seus familiares e aqueles que estão esperando por um milagre.

A trilha sonora de Justin Melland é bastante pontual, mas entra em uma parte fundamental do curta, com muitas história se intercalando. Delicado e muito bem feito, Extremis merece estar no Oscar.

 

2. 4.1 Miles

Este curta com 26 minutos de duração e dirigido por Daphne Matziaraki conta a história de um capitão da guarda costeira grega que trabalha em uma pequena ilha e que acaba tendo a vida mudada quando se depara com centenas de refugiados que caíram no mar. A produção americana mostra como ele atua para salvar o máximo de pessoas que ele consegue.

A temática é mais do que atual, porque o mundo vive este drama humano sem precedentes. Enquanto escrevo estas linhas, milhões de refugiados estão tentando sobreviver em diversas partes do mundo, obrigados a sair de suas terras natais para buscar uma alternativa longe de casa. Muitos morrem nesta busca.

Assistindo ao trailer de 4.1 Miles, achei forte tanto as imagens quanto a premissa. A trilha sonora de William Ryan Fritch é vigorosa, e o ritmo do filme parece ser bastante interessante, mostrando tanto a vida do vilarejo quanto das pessoas que, da noite para o dia, se vêem frente a um drama humano sem paralelo.

Também consegui assistir ao curta completo. O filme tem uma direção primorosa de Daphne Matziaraki. Ela tem um olhar diferenciado sobre tudo o que acontece ao redor dela. Depois de um resgate de refugiados, o protagonista desta história fala sobre o primeiro resgate que eles fizeram, em 2001, e como aquilo marcou uma mudança definitiva na história dele e de todos daquela ilha grega.

Ele comenta como, em 2015, quando o curta é rodado, a realidade deles é muito diferente. Chama a atenção a grande quantidade de mulheres e crianças entre os refugiados tirados da água. De forma muito sensível, a diretora mostra como a vida daqueles pessoas é tranquila, mas que 10 deles trabalham para resgatar 200. Algo impressionante, realmente.

No segundo resgate mostrado no curta, é de cortar o coração o desespero das pessoas, a maioria com filhos pequenos. Um dos socorristas, mesmo não tendo conhecimento médico, batalha para salvar pessoas que caíram no mar e que precisam de primeiros socorros. A diretora mostra ele fazendo isso com duas crianças. É angustiante.

Acho bacana que um filme como este, diferenciado e mais que necessário, chegue até o Oscar. Mas apesar dele ter sido indicado, os especialistas e as bolsas de apostam colocam 4.1 Miles como a zebra na disputa. Ele estaria correndo totalmente por fora para conquistar a estatueta. Uma pena.

No final do curta, a diretora nos informa que entre 2015 e 2016 nada menos que 600 mil imigrantes cruzaram as 4,1 milhas (daí o nome do curta), equivalente a 6,6 quilômetros, de mar que separam a Turquia da ilha grega de Lesbos.

 

3. Joe’s Violin

O curta americano Joe’s Violin tem 24 minutos de duração e conta a história de um sobrevivente do Holocausto que aos 91 anos de idade resolve doar o seu violino para uma escola de música do Bronx. Esta doação acaba mudando a vida de uma estudante e, de forma inesperada, a do próprio Joseph Feingold.

A produção é dirigida por Kahane Cooperman, praticamente uma estreante. Antes deste curta ela tinha dirigido apenas Making ‘Dazed”, um documentário em vídeo de 50 minutos sobre os bastidores de Dazed and Confused. Ou seja, ela estreia na direção de Joe’s Violin sendo, segundo especialistas e bolsas de apostas, a favorita para o Oscar de Melhor Curta Documentário.

Assistindo ao trailer, realmente achei muito interessante a produção. Ela mistura a história sempre forte do Holocausto, tema caro para os votantes da Academia e fundamental na vida do protagonista do curta, com a realidade da garota que acaba recebendo a doação do violino e que tem, por sua própria conta, outros desafios.

Depois do trailer, consegui assistir também ao curta. Foi aí que eu vi a bela direção e as grandes sacadas de Kahane Cooperman neste curta. Ela conta a história do sobrevivente do Holocausto mas, também, da cidade em que ele mora atualmente, Nova York, fazendo paralelo com as suas origens e trajetória. A edição de Amira Dughri e Andrew Saunderson é ótima.

E a trilha sonora, claro, é um dos destaques de Joe’s Violin. Aplausos para o trabalho de Gary Meister, nessa trilha, e também para o diretor de fotografia Robert Richman. Joe’s Violin realmente tem um ritmo exemplar, e a história de Joseph, com ele contando sobre como a música era importante para a sua família, é de arrepiar.

Ele comenta que tocou violino até a Segunda Guerra Mundial começar. E depois segue a narrativa do que aconteceu com ele e a família durante o conflito. Junto com o pai, Joseph fugiu para a área ocupada pelos russos e, ao lado de outros jovens, foi enviado por trem para a Sibéria. Nesta parte, o resgate histórico do curta é muito preciso e bem feito.

Mas ele não leva muito tempo. Logo Joe’s Violin parte para contar a história de como o violino doado por Joseph teve um destino especial. Ele foi para uma escola só de meninas que são filhas de imigrantes. Como bem define uma das entrevistadas da produção, todas aquelas meninas são sobreviventes, assim como o próprio Joseph.

O violino dele acaba sendo doado para Brianna, uma menina que tem a história contada neste curta. De forma inteligente a diretora mescla as duas histórias e promove, como esperado, o encontro dos dois. Um dos grandes ganhos de Joe’s Violin, para mim, não foi apenas apresentar a história de dois sobreviventes, mas mostrar como um gesto simples quanto doar algo que você não está usando mais pode modificar para melhor a vida de outra pessoa.

E, o que é mais bonito em tudo isso, doar algo ou a si mesmo não muda apenas a vida de quem ganha/recebe o que se está oferecendo, mas também muda a vida de quem faz este gesto. Uma bela mensagem, sem dúvida. E um belo curta. Mais uma boa escolha dos votantes da Academia.

 

4. Watani: My Homeland

Este curta inglês dirigido por Marcel Mettelsiefen tem 40 minutos de duração e conta a história da luta de uma família para sobreviver em meio à guerra na Síria. Após perder o marido, a mãe de família acaba decidindo deixar o seu lar para tentar, com este gesto doloroso, buscar um local melhor e mais seguro para os seus filhos.

Filmado no decorrer de três anos, Watani: My Homeland segue a trajetória desta família desde Aleppo e até uma pequena cidade na Alemanha. De acordo com as notas da produção, “escapar do caos e do terror de sua pátria destruída pela guerra acaba sendo um catalisador para um outro tipo de luta, aquela de compreender o próprio passado e de aceitar o presente, elementos fundamentais para a adaptação a uma nova vida, para manter a esperança e a ideia de pertencer a um lugar”.

Vamos combinar que apenas essa sinopse já dá arrepios, não? Afinal, a guerra na Síria e os milhares (ou milhões?) de refugiados que ela já provocou é o grande tema dos nossos tempos. Achei fundamental o diretor ter dedicado três anos de sua vida para contar essa história. Afinal, se queremos conhecer a fundo o que passa uma família de imigrantes que tem que deixar a sua terra e buscar oportunidades muito longe de casa, é preciso tempo, calma, e acompanhá-los de perto por um bom período.

O trailer de Watani: My Homeland mostra Faraha, uma das componentes da família que busca uma oportunidade de sobreviver longe de casa caminhando pelas ruas de Goslar, na Alemanha. Vemos ela no colégio, claramente tentando se adaptar ao local. Daquela sequência tranquila em terra alemã, voltamos para um cenário de caos, tiros e destruição. É impactante ver as crianças com fuzis nas mãos caminhando com eles como se fosse algo normal.

Eu gostaria de assistir ao curta inteiro, mas apenas o trailer me deixou arrepiada. Para mim, entre as produções na disputa que eu vi até agora, este parece ser o curta mais impactante. Antes de filmar este curta, Marcel Mettelsiefen tinha dirigido a cinco filmes e episódios de séries documentários para a TV. Quase todos “subprodutos” desta produção.

O primeiro documentário para a TV que ele lançou foi Syria: Children on the Frontline, que foi ao ar em 2014. Depois ele lançou Dancing in the Danger Zone, episódio da série de TV Unreported World, também em 2014; Children of Syria e Syria’s Second Front/Children of Aleppo, dois episódios da série de TV Frontline; o filme para a TV Children on the Frontline: The Escape, lançado em 2016, e Slum Britain: 50 Years On, documentário para a TV que foi lançado também em 2016. Com Watani: My Homeland ele recebe a primeira indicação da carreira em um Oscar.

 

5. The White Helmets

O curta inglês com direção de Orlando von Einsiedel tem 41 minutos de duração e conta a história do grupo de socorristas “indomável” que todos os dias arriscam as suas vidas para tentar salvar civis nos escombros dos ataques aéreos que destroem a Síria.

The White Helmets é mais uma produção na disputa neste ano com o selo do Netflix. Assisti a duas matérias que falam sobre o curta. Esta questiona a produção e também o trabalho dos “white helmets”. Mas, por se tratar de uma reportagem russa, é preciso ter um pezinho atrás com ela, não?

Por exemplo, neste material um participante do grupo diz que ele se inscreveu para ajudar civis mas que, ultimamente, está trabalhando como “ator” para o grupo em sequências fake. Mas quem nos garante que este depoimento dele é legítimo, dado por espontânea vontade e não sob tortura e cheio de mentiras? Guardo o meu direito de sempre desconfiar dos russos.

Também há uma confusão envolvendo outro curta, que se chama Syria’s White Helmets, dirigido por Nagieb Khaja. Acho que é deste curta que a matéria russa está falando. O curta de Khaja realmente parece um tanto fake. Mas não é este curta que está concorrendo ao Oscar, e sim o filme de Orlando von Einsiedel. Esta é a segunda indicação dele ao Oscar. Com 15 produções no currículo como diretor, von Einsiedel concorreu, em 2015, ao Oscar com o documentário Virunga.

Ele é um documentarista. Tem no currículo sete curtas documentário, três documentários feitos para a TV e dois documentários feitos para o cinema, além de dois episódios de uma série de TV e um curta de ficção. Assistindo ao trailer do curta, gostei do estilo do diretor, do cuidado dele com os detalhes, assim como gostei da trilha sonora de Patrick Jonsson. A direção de fotografia de Franklin Dow, Fadi Al Halabi, Hassan Kattan e Khaled Khateeb também é um ponto fundamental da produção.

Não assisti ao curta, então não é o mesmo que falar de um dos outros que eu assisti inteiro. Mas me parece que esta produção trata de um tema fundamental e teve muito risco para ser feita. Apenas por isso The White Helmets já merece os parabéns e a indicação ao Oscar. É mais uma história fundamental sobre toda esta tragédia humanitária envolvendo a Síria que precisava ser contada.

 

PALPITES PARA O OSCAR 2017: Grande safra de curtas documentário em disputa. Fiquei impressionada. Nenhuma das histórias acima parece forçada ou deslocada do lugar. Três das cinco produções eu consegui assistir na íntegra, e mesmo as duas que eu não consegui ver me impressionaram com os seus trailers.

As bolsas de apostas apontam para um favoritismo de Joe’s Violin. Na sequência aparece The White Helmets. A primeira história, é verdade, toca em um tema que a Academia costuma amar, que é a dos sobreviventes do Holocausto. O segundo curta narra a história de “heróis modernos” e reais, algo que o Oscar também ama. Então, de fato, parece que estes dois curtas levam vantagem na disputa.

Ainda que eu entenda as razões deles serem favoritos e de eu achar que as duas produções tem diversos méritos para ganhar, admito que eu fiquei especialmente impressionada com Watani: My Homeland, pela força das imagens e da história e pela dificuldade do curta ser feito; e por 4.1 Miles e a delicadeza de sua narrativa e o olhar diferenciado de sua diretora.

Não assisti a todos os concorrentes na íntegra mas, até o momento, admito que a minha torcida seria por Watani: My Homeland. Acho que a narrativa desta produção é fundamental e lança uma luz diferenciada para um tema urgente e muito, muito atual. De qualquer forma, esta me parece ser uma categoria que não importa quem ganhar, qualquer vencedor entre os cinco na disputa vai levar o Oscar para casa com justiça. Grande safra.