Curtas Documentário Indicados ao Oscar 2017 – Avaliação

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Finalizo a sequência de três posts sobre os curtas-metragens que estão concorrendo ao Oscar 2017 com este texto sobre os curtas de documentário que estão na disputa de uma estatueta dourada neste ano.

Agora falta pouco para a grande premiação da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Devo começar a cobertura sobre a premiação acompanhando o tapete vermelho da premiação neste domingo, dia 26 de fevereiro, a partir das 20h.

Diferente dos dois últimos anos, quando cobri a entrega do prêmio pelo jornal em que eu trabalho, o Notícias do Dia, neste ano volto a fazer a cobertura exclusivamente pelo blog. Sem querer, será um presente bacana para todos nós, que estamos juntos por aqui há quase 10 anos – em agosto o blog celebra uma década de publicações.

Como vocês bem sabem, eu defendo a produção de curtas. Apesar das três categorias de curtas do Oscar serem as menos badaladas e conhecidas da premiação, sempre vale acompanhar este tipo de produção porque elas não apenas apresentam histórias interessante como também introduzem grandes nomes que vamos acompanhar depois como “novos diretores” de longas.

Após comentar sobre os curtas de animação e sobre os curtas de ficção que vão concorrer ao Oscar deste ano, chegou a hora de falar dos curtas de documentário na disputa. Confiram:

1. Extremis

O diretor Dan Krauss chega à sua segunda indicação ao Oscar com o curta Extremis, uma produção americana que se aprofunda na dor e nas outras emoções que acompanham cada decisão de colocar o fim na vida de um familiar ou amigo no hospital.

A produção acompanha a rotina de médicos, pacientes e de seus familiares em uma UTI hospitalar na fase final da vida de diversas pessoas. Assistindo ao trailer do curta, que está logo abaixo, percebi o quanto o tema é importante e forte. A produção da Netflix está ambientada no Highland Hospital e mostra a realidade complicada que envolve a morte.

É fato que todos nós vamos morrer. Esta é a única certeza que temos na vida. Mas encarar a morte de um familiar querido nunca é fácil. Dizer adeus e deixar a pessoa partir é complicado, mas necessário. Achei muito interessante e importante o tema de Extremis, produção que tem 24 minutos de duração.

Antes de dirigir este curta, Dan Krauss tinha apenas um outro curta documentário no currículo, The Life of Kevin Carter, de 2004, que lhe rendeu uma indicação ao Oscar em 2006. Depois ele fez dois documentários para a TV e mais o documentário The Kill Team. Por aqui, por enquanto, há uma versão do curta na íntegra.

Depois de assistir ao trailer, consegui ver a produção na íntegra. Realmente é um curta muito bem feito. O diretor se debruça em um punhado de histórias, como as de Donna, Selena, um morador de rua que não tem ninguém próximo para ajudar a tomar decisões, e outros pacientes que acabam não sendo identificados por créditos no curta.

Acompanhamos médicos e enfermeiros, alguns deles questionando o quanto estão ajudando ou apenas prolongando a dor de pacientes que vão morrer de qualquer forma. Na parte das famílias, vemos pessoas mais preparadas para darem o melhor “final” possível para os seus familiares e aqueles que estão esperando por um milagre.

A trilha sonora de Justin Melland é bastante pontual, mas entra em uma parte fundamental do curta, com muitas história se intercalando. Delicado e muito bem feito, Extremis merece estar no Oscar.

 

2. 4.1 Miles

Este curta com 26 minutos de duração e dirigido por Daphne Matziaraki conta a história de um capitão da guarda costeira grega que trabalha em uma pequena ilha e que acaba tendo a vida mudada quando se depara com centenas de refugiados que caíram no mar. A produção americana mostra como ele atua para salvar o máximo de pessoas que ele consegue.

A temática é mais do que atual, porque o mundo vive este drama humano sem precedentes. Enquanto escrevo estas linhas, milhões de refugiados estão tentando sobreviver em diversas partes do mundo, obrigados a sair de suas terras natais para buscar uma alternativa longe de casa. Muitos morrem nesta busca.

Assistindo ao trailer de 4.1 Miles, achei forte tanto as imagens quanto a premissa. A trilha sonora de William Ryan Fritch é vigorosa, e o ritmo do filme parece ser bastante interessante, mostrando tanto a vida do vilarejo quanto das pessoas que, da noite para o dia, se vêem frente a um drama humano sem paralelo.

Também consegui assistir ao curta completo. O filme tem uma direção primorosa de Daphne Matziaraki. Ela tem um olhar diferenciado sobre tudo o que acontece ao redor dela. Depois de um resgate de refugiados, o protagonista desta história fala sobre o primeiro resgate que eles fizeram, em 2001, e como aquilo marcou uma mudança definitiva na história dele e de todos daquela ilha grega.

Ele comenta como, em 2015, quando o curta é rodado, a realidade deles é muito diferente. Chama a atenção a grande quantidade de mulheres e crianças entre os refugiados tirados da água. De forma muito sensível, a diretora mostra como a vida daqueles pessoas é tranquila, mas que 10 deles trabalham para resgatar 200. Algo impressionante, realmente.

No segundo resgate mostrado no curta, é de cortar o coração o desespero das pessoas, a maioria com filhos pequenos. Um dos socorristas, mesmo não tendo conhecimento médico, batalha para salvar pessoas que caíram no mar e que precisam de primeiros socorros. A diretora mostra ele fazendo isso com duas crianças. É angustiante.

Acho bacana que um filme como este, diferenciado e mais que necessário, chegue até o Oscar. Mas apesar dele ter sido indicado, os especialistas e as bolsas de apostam colocam 4.1 Miles como a zebra na disputa. Ele estaria correndo totalmente por fora para conquistar a estatueta. Uma pena.

No final do curta, a diretora nos informa que entre 2015 e 2016 nada menos que 600 mil imigrantes cruzaram as 4,1 milhas (daí o nome do curta), equivalente a 6,6 quilômetros, de mar que separam a Turquia da ilha grega de Lesbos.

 

3. Joe’s Violin

O curta americano Joe’s Violin tem 24 minutos de duração e conta a história de um sobrevivente do Holocausto que aos 91 anos de idade resolve doar o seu violino para uma escola de música do Bronx. Esta doação acaba mudando a vida de uma estudante e, de forma inesperada, a do próprio Joseph Feingold.

A produção é dirigida por Kahane Cooperman, praticamente uma estreante. Antes deste curta ela tinha dirigido apenas Making ‘Dazed”, um documentário em vídeo de 50 minutos sobre os bastidores de Dazed and Confused. Ou seja, ela estreia na direção de Joe’s Violin sendo, segundo especialistas e bolsas de apostas, a favorita para o Oscar de Melhor Curta Documentário.

Assistindo ao trailer, realmente achei muito interessante a produção. Ela mistura a história sempre forte do Holocausto, tema caro para os votantes da Academia e fundamental na vida do protagonista do curta, com a realidade da garota que acaba recebendo a doação do violino e que tem, por sua própria conta, outros desafios.

Depois do trailer, consegui assistir também ao curta. Foi aí que eu vi a bela direção e as grandes sacadas de Kahane Cooperman neste curta. Ela conta a história do sobrevivente do Holocausto mas, também, da cidade em que ele mora atualmente, Nova York, fazendo paralelo com as suas origens e trajetória. A edição de Amira Dughri e Andrew Saunderson é ótima.

E a trilha sonora, claro, é um dos destaques de Joe’s Violin. Aplausos para o trabalho de Gary Meister, nessa trilha, e também para o diretor de fotografia Robert Richman. Joe’s Violin realmente tem um ritmo exemplar, e a história de Joseph, com ele contando sobre como a música era importante para a sua família, é de arrepiar.

Ele comenta que tocou violino até a Segunda Guerra Mundial começar. E depois segue a narrativa do que aconteceu com ele e a família durante o conflito. Junto com o pai, Joseph fugiu para a área ocupada pelos russos e, ao lado de outros jovens, foi enviado por trem para a Sibéria. Nesta parte, o resgate histórico do curta é muito preciso e bem feito.

Mas ele não leva muito tempo. Logo Joe’s Violin parte para contar a história de como o violino doado por Joseph teve um destino especial. Ele foi para uma escola só de meninas que são filhas de imigrantes. Como bem define uma das entrevistadas da produção, todas aquelas meninas são sobreviventes, assim como o próprio Joseph.

O violino dele acaba sendo doado para Brianna, uma menina que tem a história contada neste curta. De forma inteligente a diretora mescla as duas histórias e promove, como esperado, o encontro dos dois. Um dos grandes ganhos de Joe’s Violin, para mim, não foi apenas apresentar a história de dois sobreviventes, mas mostrar como um gesto simples quanto doar algo que você não está usando mais pode modificar para melhor a vida de outra pessoa.

E, o que é mais bonito em tudo isso, doar algo ou a si mesmo não muda apenas a vida de quem ganha/recebe o que se está oferecendo, mas também muda a vida de quem faz este gesto. Uma bela mensagem, sem dúvida. E um belo curta. Mais uma boa escolha dos votantes da Academia.

 

4. Watani: My Homeland

Este curta inglês dirigido por Marcel Mettelsiefen tem 40 minutos de duração e conta a história da luta de uma família para sobreviver em meio à guerra na Síria. Após perder o marido, a mãe de família acaba decidindo deixar o seu lar para tentar, com este gesto doloroso, buscar um local melhor e mais seguro para os seus filhos.

Filmado no decorrer de três anos, Watani: My Homeland segue a trajetória desta família desde Aleppo e até uma pequena cidade na Alemanha. De acordo com as notas da produção, “escapar do caos e do terror de sua pátria destruída pela guerra acaba sendo um catalisador para um outro tipo de luta, aquela de compreender o próprio passado e de aceitar o presente, elementos fundamentais para a adaptação a uma nova vida, para manter a esperança e a ideia de pertencer a um lugar”.

Vamos combinar que apenas essa sinopse já dá arrepios, não? Afinal, a guerra na Síria e os milhares (ou milhões?) de refugiados que ela já provocou é o grande tema dos nossos tempos. Achei fundamental o diretor ter dedicado três anos de sua vida para contar essa história. Afinal, se queremos conhecer a fundo o que passa uma família de imigrantes que tem que deixar a sua terra e buscar oportunidades muito longe de casa, é preciso tempo, calma, e acompanhá-los de perto por um bom período.

O trailer de Watani: My Homeland mostra Faraha, uma das componentes da família que busca uma oportunidade de sobreviver longe de casa caminhando pelas ruas de Goslar, na Alemanha. Vemos ela no colégio, claramente tentando se adaptar ao local. Daquela sequência tranquila em terra alemã, voltamos para um cenário de caos, tiros e destruição. É impactante ver as crianças com fuzis nas mãos caminhando com eles como se fosse algo normal.

Eu gostaria de assistir ao curta inteiro, mas apenas o trailer me deixou arrepiada. Para mim, entre as produções na disputa que eu vi até agora, este parece ser o curta mais impactante. Antes de filmar este curta, Marcel Mettelsiefen tinha dirigido a cinco filmes e episódios de séries documentários para a TV. Quase todos “subprodutos” desta produção.

O primeiro documentário para a TV que ele lançou foi Syria: Children on the Frontline, que foi ao ar em 2014. Depois ele lançou Dancing in the Danger Zone, episódio da série de TV Unreported World, também em 2014; Children of Syria e Syria’s Second Front/Children of Aleppo, dois episódios da série de TV Frontline; o filme para a TV Children on the Frontline: The Escape, lançado em 2016, e Slum Britain: 50 Years On, documentário para a TV que foi lançado também em 2016. Com Watani: My Homeland ele recebe a primeira indicação da carreira em um Oscar.

 

5. The White Helmets

O curta inglês com direção de Orlando von Einsiedel tem 41 minutos de duração e conta a história do grupo de socorristas “indomável” que todos os dias arriscam as suas vidas para tentar salvar civis nos escombros dos ataques aéreos que destroem a Síria.

The White Helmets é mais uma produção na disputa neste ano com o selo do Netflix. Assisti a duas matérias que falam sobre o curta. Esta questiona a produção e também o trabalho dos “white helmets”. Mas, por se tratar de uma reportagem russa, é preciso ter um pezinho atrás com ela, não?

Por exemplo, neste material um participante do grupo diz que ele se inscreveu para ajudar civis mas que, ultimamente, está trabalhando como “ator” para o grupo em sequências fake. Mas quem nos garante que este depoimento dele é legítimo, dado por espontânea vontade e não sob tortura e cheio de mentiras? Guardo o meu direito de sempre desconfiar dos russos.

Também há uma confusão envolvendo outro curta, que se chama Syria’s White Helmets, dirigido por Nagieb Khaja. Acho que é deste curta que a matéria russa está falando. O curta de Khaja realmente parece um tanto fake. Mas não é este curta que está concorrendo ao Oscar, e sim o filme de Orlando von Einsiedel. Esta é a segunda indicação dele ao Oscar. Com 15 produções no currículo como diretor, von Einsiedel concorreu, em 2015, ao Oscar com o documentário Virunga.

Ele é um documentarista. Tem no currículo sete curtas documentário, três documentários feitos para a TV e dois documentários feitos para o cinema, além de dois episódios de uma série de TV e um curta de ficção. Assistindo ao trailer do curta, gostei do estilo do diretor, do cuidado dele com os detalhes, assim como gostei da trilha sonora de Patrick Jonsson. A direção de fotografia de Franklin Dow, Fadi Al Halabi, Hassan Kattan e Khaled Khateeb também é um ponto fundamental da produção.

Não assisti ao curta, então não é o mesmo que falar de um dos outros que eu assisti inteiro. Mas me parece que esta produção trata de um tema fundamental e teve muito risco para ser feita. Apenas por isso The White Helmets já merece os parabéns e a indicação ao Oscar. É mais uma história fundamental sobre toda esta tragédia humanitária envolvendo a Síria que precisava ser contada.

 

PALPITES PARA O OSCAR 2017: Grande safra de curtas documentário em disputa. Fiquei impressionada. Nenhuma das histórias acima parece forçada ou deslocada do lugar. Três das cinco produções eu consegui assistir na íntegra, e mesmo as duas que eu não consegui ver me impressionaram com os seus trailers.

As bolsas de apostas apontam para um favoritismo de Joe’s Violin. Na sequência aparece The White Helmets. A primeira história, é verdade, toca em um tema que a Academia costuma amar, que é a dos sobreviventes do Holocausto. O segundo curta narra a história de “heróis modernos” e reais, algo que o Oscar também ama. Então, de fato, parece que estes dois curtas levam vantagem na disputa.

Ainda que eu entenda as razões deles serem favoritos e de eu achar que as duas produções tem diversos méritos para ganhar, admito que eu fiquei especialmente impressionada com Watani: My Homeland, pela força das imagens e da história e pela dificuldade do curta ser feito; e por 4.1 Miles e a delicadeza de sua narrativa e o olhar diferenciado de sua diretora.

Não assisti a todos os concorrentes na íntegra mas, até o momento, admito que a minha torcida seria por Watani: My Homeland. Acho que a narrativa desta produção é fundamental e lança uma luz diferenciada para um tema urgente e muito, muito atual. De qualquer forma, esta me parece ser uma categoria que não importa quem ganhar, qualquer vencedor entre os cinco na disputa vai levar o Oscar para casa com justiça. Grande safra.

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Curtas de Animação Indicados ao Oscar 2017 – Avaliação

PIPER – Concept Art by Jason Deamer (Production Designer). ©2016 Disney•Pixar. All Rights Reserved.

Olá amigos e amigas do blog!

Faltam poucos dias agora para confirmarmos todas as expectativas sobre o Oscar 2017. O provável é que tenhamos poucas surpresas neste ano. La La Land é o favoritíssimo da premiação da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood e deverá papar quase tudo.

Como já comentei no blog antes, esta é uma bela safra do cinema americano e de outros países representada no Oscar. La La Land não é o melhor filme do ano, mas deve será o grande vencedor porque esta é a forma que Hollywood encontrou para defender os seus “ideais” e a “fábrica de sonhos” que ela representa frente a um governo de Donald Trump um tanto “ameaçador”.

Como em anos anteriores, aproveito para falar também das três categorias de curtas-metragens que estão na disputa. Ainda que no Brasil o grande público não dê grande importância para este tipo de filmes, é importante sempre falar deles. Afinal, muitos cineastas que vamos admirar pelos seus trabalhos depois começam justamente fazendo curtas.

De acordo com esta matéria da IndieWire, em 2017 houve um recorde de curtas-metragens animados que disputaram uma indicação ao Oscar: 69 produções. A exemplo de outras categorias, nesta também foi divulgada uma lista de pré-indicados de 10 produções e, no final, apenas cinco realmente disputam a estatueta dourada. Vejamos, então, um pouco mais sobre os indicados deste ano na categoria Melhor Curta de Animação:

1. Blind Vaysha

O curta de oito minutos dirigido e escrito pelo búlgaro Theodore Ushev conta a história de uma garota “muito especial” chamada Vaysha. Desde que nasceu, Vaysha tem uma condição diferenciada: pelo olho esquerdo ela vê sempre o passado das pessoas, dos lugares e das situações, enquanto pelo seu olho direito ela enxerga sempre o futuro.

Como vocês poderão ver abaixo, já que o curta está disponível na íntegra no YouTube, Blind Vaysha tem uma proposta diferenciada em todos os sentidos. Ushev teria se inspirado, segundo este site, na arte medieval e na linogravura para contar esta história. A verdade é que o curta, com toques bastante sombrios, parece estar contando esta história com traços de pintura em movimento à frente dos nossos olhos.

Eu gostei tanto dos traços de Ushev quanto da reflexão que ele levanta com a história de Vaysha. Afinal, se a protagonista é cega para o presente e só consegue enxergar o passado ou o futuro, ela não seria uma alegoria de muitas pessoas que vivem nos tempos atuais e que não conseguem viver o que está acontecendo agora, mas apenas se prender em tempos cronológicos para os quais esta pessoa tem pouco controle?

Ah sim, e vale comentar que Blind Vaysha é inspirado em um conto do escritor búlgaro Georgi Gospodinov lançado em 2001. O curta com narração de Caroline Dhavernas é a primeira indicação ao Oscar do experiente diretor Ushev, que tem nesta produção o seu 15º curta. Formado e mestre em desenho gráfico pela Academia Nacional de Finas Artes em Sofia em 1995, quatro anos depois se mudou para o Canadá, onde começou a atuar como artista multimídia, ilustrador e com animação.

 

2. Borrowed Time

O curta dirigido por Andrew Coats e Lou Hamou-Lhadj (animadores da Pixar) tem sete minutos de duração e conta a história de um velho sheriff que retorna para um local marcante. Com uma trilha sonora maravilhosa de Gustavo Santaolalla, o curta resgata a essência dos filmes de western para contar uma história amarga, de redenção e de “fazer as pazes” com o passado.

Interessante como um curta com tão pouca duração pode conter uma história tão interessante. Borrowed Time é uma destas produções que mostram que poucos minutos podem ser o suficiente para contar belas histórias. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao curta). O sheriff deste curta de western acaba voltando para a paisagem onde a carruagem em que ele estava com o pai, então o sheriff da época, foi atacada por bandidos.

O protagonista desta história tenta frear a carruagem, mas ele acaba caindo e o pai dele é jogado precipício abaixo. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). O jovem se espreita pela borda do precipício e vê que o pai pode ser salvo, mas ao tentar ajudá-lo, o garoto acaba apertando o gatilho da arma sem querer. Agora, envelhecido, ele resolve encarar aquele local novamente e chega a tentar se largar precipício abaixo, mas ele acaba tendo refletido o brilho do relógio que o pai tinha lhe dado. Neste momento, e de forma muito sutil, ocorre a redenção do personagem.

Bem feito, com um bom ritmo e uma história muito honesta e direta, o americano Borrowed Time é um destes curtas que merece ser visto. Ele é menos artístico que o anterior, tem uma história simples, mas é muito bem feito. Gostei tanto do estilo do filme quanto da trilha sonora e de seu tom meio “amargo” mas com mensagem positiva no final.

 

3. Pear Cider and Cigarettes

Com coprodução do Canadá e do Reino Unido, este curta é o mais longo da disputa, com 35 minutos de duração. Infelizmente não encontrei ele disponível na íntegra, mas o trailer abaixo já dá uma bela palhinha da força desta história e do trabalho do diretor e roteirista Robert Valley.

De acordo com a apresentação do curta, Pear Cider and Cigarettes é a “brutalmente honesta” história do relacionamento entre o diretor e o seu autodestrutivo e carismático amigo de infância que pede ajuda para ele após sofrer um acidente e estar confinado em um hospital na China. Tudo o que este amigo do “alter-ego” de Robert Valley quer é que ele vá ao seu socorro e o ajude a voltar para Vancouver.

Segundo o próprio texto de Valley, tudo o que Techno Stypes quer é beber e fumar, mas isso é tudo que ele não pode fazer porque está doente. Após sofrer um acidente de moto na China, ele estava internado lá. O diretor tinha ouvido duas instruções clara do pai dele: fazer com que Techno parasse de beber o tempo suficiente para que ele recebesse um transplante de fígado e levá-lo de volta para a sua cidade-natal.

Pelo trailer, o curta parece ter um estilo muito diferenciado. É um filme de ação com uma grande técnica de desenho e traços interessantes de Robert Valley. Esta é a primeira indicação ao Oscar do diretor que dirigiu, antes, apenas três trabalho para a TV. Algo que me chamou a atenção no trailer de Pear Cider and Cigarettes foi a ótima trilha sonora de Mass Mental? composta por Robert Trujillo e Armand Sabal-Lecco. Gostei também da arte de Valley e do que parece ser um excelente trabalho de edição.

 

4. Pearl

A VR (realidade virtual) está cada vez mais ganhando protagonismo mundo afora, e não apenas nos games ou nas produções jornalísticas, mas também em todo o tipo de ação que envolva produções artísticas e empresas. Não por acaso 2017 marca a primeira indicação de um curta feito em VR da história do Oscar.

Este estreante é o curta Pearl, dirigido por Patrick Osborne e com seis minutos de duração. A produção, que pode ser “vivenciada” através do vídeo abaixo do usuário Nathie, conta em detalhes a relação entre uma garota e o seu pai. O curta começa com ela adolescente reproduzindo um gravador em um carro, o que remete o espectador ao passado dela.

A partir daí o curta reproduz a experiência de um roadie movie, já que pai e filha vivem viajando e tem, basicamente, o carro como propriedade compartilhada. Pearl tem uma trilha sonora muito bacana, assinada por Pollen Music Group, Alexis Harte e JJ Wiesler, e uma estética que lembra a de alguns games.

A narrativa é bacaninha, sensível, e mostra como a relação de pai e filha amadurece com o tempo, além de explorar bem o conceito de que o amor do pai pela música acabou influenciando positivamente a filha. É uma proposta interessante, especialmente por colocar o espectador dentro da experiência com o VR, mas o curta não me parece ter a qualidade para ganhar o Oscar.

Ainda assim, sem dúvida alguma Pearl pode estar sinalizando uma tendência importante. Com um pouco mais de qualidade de produção e com uma evolução de técnica e narrativa, não será uma surpresa se um curta ou filme de VR ainda ganhar um Oscar no futuro.

Vale comentar que este é o segundo curta dirigido por Osborne – ele estreou na direção de curtas após trabalhar como animador em muitos filmes da Disney com Feast – curta que, aliás, ganhou o Oscar. Abaixo eu deixo o curta na íntegra (que deve ser visto, preferencialmente, com o óculos VR da Google ou qualquer outro do gênero) e o vídeo com a experiência de um espectador.

 

5. Piper

Finalmente comento aquele que, para muitos, é o favoritíssimo deste ano nesta categoria. O curta Piper tem seis minutos de duração e conta com roteiro e direção de Alan Barillaro, animador conhecido por diversos trabalhos da Pixar.

A verdade é que o curta surpreende. Inicialmente, você pensa sobre a capacidade de um curta sobre um filhote de passarinho e a sua mãe entreter o grande público. Mas aí que Piper mostra todo o potencial de Barillaro. Ele conta esta singela e bonita história sem diálogos e com muitas cenas graciosas de forma magistral.

Piper conta a história de um filhote de passarinho que enfrenta “o mundo” pela primeira vez. Incentivado pela mãe, ele deixa o ninho e se aventura até a orla, logo descobrindo a razão que faz todos os pássaros correrem quando uma onda se aproxima. Ele tenta “caçar” alguns bichinhos no início, mas depois é levado por uma onda.

No início, o jovem pássaro fica traumatizado. Mas o pavor dele da água logo é superado quando ele demonstra uma grande capacidade de aprendizado. Singelo, bacana, divertido. Vale também comentar que este é o primeiro curta dirigido por Barillaro.

Apesar da Pixar ter um histórico de indicações ao Oscar, desde 2002 o estúdio não ganha a categoria de Melhor Curta de Animação. Piper tem grandes chances de acabar com esta longa ausência de prêmios para o estúdio – derrotado oito vezes desde que venceu pela última vez com For the Birds. Como Piper foi lançado nos cinemas junto com o blockbuster Finding Dory, sem dúvida ele é o curta na disputa mais popular.

 

PALPITES PARA O OSCAR 2017: Esta é uma safra de curtas com propostas e estilos muito diferentes. Difícil comparar produções tão diversas, mas acho que a disputa tem três produções com maiores chances e duas que correm por fora. As favoritas parecem ser, nesta ordem: Piper, Blind Vaysha e Pear Cider and Cigarettes.

Ainda que eu tenha gostado do estilo de Borrowed Time, acho que o curta é um tanto “simples” demais para o Oscar. O mesmo pode ser dito sobre Pearl, que tem como destaque ser o primeiro curta VR a ser indicado para a premiação. Avaliando o conjunto da obra, ou seja, a história, a criatividade da narrativa e a parte artística, admito que eu estou com os especialistas que apontam Piper como o favorito.

Blind Vaysha é o mais artístico dos curtas na disputa. Pear Cider and Cigarettes me chamou muito a atenção pelo estilo, mas como eu só vi o trailer do curta, não posso opinar realmente com propriedade sobre ele. Então, avaliando todos os outros, aos quais vi na versão integral, realmente Piper parece ser o provável vencedor.

Curtas de Ficção Indicados ao Oscar 2016 – Avaliação

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Olá meus caros leitores e leitoras.

Sigo na missão do Oscar 2016. Desta vez resolvi comentar a todos os curtas que estão concorrendo à uma estatueta. Acho esta categoria tão importante quanto qualquer outra, apesar dela ser menos comentada – inclusive aqui no blog. Como a premiação já será feita amanhã, vale ainda hoje conhecer um pouco mais sobre os indicados nestas categorias.

Lembrando que apesar da dificuldade de encontrarmos os curtas indicados ao Oscar para assistir, vale a pena ficar de olho nos festivais pelo país e na internet para quando estas produções estiverem “liberadas”. Todo diretor que se preze um dia já fez um curta. Há muitas produções de qualidade neste formato. Vejamos os indicados na categoria Melhor Curta de Ficção:

 

1. Ave Maria

O trailer é instigante. Vemos a um grupo de freiras em voto de silêncio que acabam sendo surpreendidas por um acidente de carro de uma família. Sem dúvida alguma dá vontade de ver ao curta de 15 minutos inteiro para saber o que acontece na sequência.

Dirigido pelo israelense Basil Khalil, este curta tem roteiro assinado por Khalil e Daniel Yáñez Khalil. A sinopse do curta é a seguinte: “A rotina silenciosa de cinco freiras que vivem no deserto da Cisjordânia é interrompida por uma família de colonos israelitas que se acidenta em frente ao convento justamente quando o Sabá está começando. A família quer voltar para casa logo, mas a lei do Sabá proíbe que os israelenses utilizem o telefone. Por sua vez, as freiras estão com o voto de silêncio. Para sair daquela situação, eles devem procurar juntos uma alternativa nada ortodoxa”.

Lendo a sinopse e na própria descrição do curta ele está classificado como comédia. O trailer confirma essa impressão. Mas, sem dúvida, o filme utiliza a comédia para falar sobre diálogo inter-religioso, sobre fé e convivência social. Coproduzido pela Palestina, pela França e pela Alemanha, este curta já é a sétima produzida dirigida pelo jovem Basil Khalil, de 35 anos. No currículo ele já tem um documentário para cinema, dois documentários para a TV, um outro curta, um curta de documentário para a TV e o episódio de uma série de TV de documentários.

Até agora Ave Maria ganhou quatro prêmios e foi indicado a outros 12 – incluindo a indicação para o Oscar. O curta está na dianteira na bolsa de apostas para a categoria, mas no site IMDb ele tem apenas a avaliação 6,6. Confira o trailer do curta:

 

 

2. Day One

Vários filmes tem abordado a questão do Afeganistão – inclusive uma das produções indicadas este ano ao Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira. O curta Day One parece abordar a questão sob um ângulo até então não explorado: o de uma mulher envolvida no conflito e na tensão diária do país.

Segundo a sinopse do curta, Day One é “inspirado em uma história verdadeira de uma mulher afegã-americana que após sair de um divórcio se junta ao Exército dos EUA como intérprete. No primeiro dia de trabalho dela no Afeganistão, a unidade que ela integra investiga uma casa remota que seria de um fabricante de bombas. Quando a mulher do fabricante de bombas entra em trabalho de parto, a intérprete recém-chegada deve deixar o trabalho como militar de lado para fazer o parto”.

Tanto o trailer quanto a sinopse me parecem um pouco “sentimentalóides”, ou não? Ainda que eu tenha achado a premissa diferente, especialmente por abordar uma mulher naquela zona de conflito mas em uma posição privilegiada, me pareceu que o curta é um tanto dramático demais. De fato Day One se classifica como um curta dramático e de guerra.

Produzido 100% nos Estados Unidos, Day One é dirigido por Henry Hughes, um estreante na direção e no roteiro segundo o site IMDb. O curta tem 25 minutos de duração e recebeu, até agora, quatro prêmios. Como o próprio site oficial do filme comenta, a protagonista deste curta passa por situações em que as questões de gênero e religiosas acabam tendo uma importância grande.

Interessante ler o depoimento do diretor no site oficial do curta. Há uma foto dele de 2009, quando ele serviu ao Exército no Afeganistão, e ao seu lado uma intérprete. O curta é baseado na história dela. Hughes chama a sua ex-colega de Exército de “musa”. Nas bolsas de apostas Day One aparece na penúltima posição. Os usuários do site IMDb deram a nota 6,8 para o curta. Me chamou a atenção o elenco envolvido no projeto. Há pelo menos dois atores conhecidinhos no grupo: Layla Alizada (conhecida por séries de TV) e Navid Negahban (de muitos filmes, como American Sniper, Brothers e The Stoning of Soraya M.). Confira o trailer de Day One aqui:

 

 

3. Everything Will Be Okay

Este curta coproduzido pela Alemanha e pela Áustria é, claramente, um drama sobre as dificuldades da vida após o divórcio – tanto pela ótica de um pai quanto de sua filha. O trailer do curta deixa o espectador tenso imaginando o desdobramento dos fatos. Com 30 minutos de duração, Everything Will Be Okay é dirigido por Patrick Vollrath, um diretor que aos 30 anos já contabiliza sete curtas no currículo – incluindo este novo filme.

Originalmente intitulado como Alles Wird Gut, este curta tem a seguinte sinopse: “Um pai divorciado pega a sua filha de oito anos de idade, Lea, para eles passarem o final de semana juntos. Cada segundo do final de semana parece ser bonito, mas depois de um tempo Lea começa a sentir que tem algo de errado. A partir daí eles começam a experimentar uma viagem fatídica”.

Eu não sei o que se vende melhor, se o trailer ou a sinopse. hehehehehehe. Se por um lado eles despertam a curiosidade, por outro me pareceram não ter a força necessária para realmente fazer alguém ir atrás do curta. O filme é estrelado pelo veterano ator austríaco Simon Schwarz. Ele faz uma dobradinha com a jovem Julia Pointner.

Até o momento Everything Will Be Okay ganhou 18 prêmios e foi indicado a outros sete – incluindo nas indicações o Oscar. Na bolsa de apostas esta produção aparece em último lugar. No site do diretor há uma lista bem maior de prêmios do que a citada pelo IMDb. Por falar em IMDb, os usuários do site deram a nota 7,6 para este curta. Confira o trailer de Everything Will Be Okay aqui:

 

 

4. Shok

Outro país estreando nas indicações ao Oscar: Kosovo. O país, que lutou tanto para ser independente e que conseguiu ser reconhecido por metade dos países da ONU como tal a partir de 2008, chega pela primeira vez ao prêmio máximo da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood com o curta Shok, coproduzido pelo Reino Unido.

Para a nossa alegria o curta, que é bem forte, está disponível na íntegra no link abaixo. Antes de falar sobre ele após ter tido a sorte de assisti-lo, vou repassar o que os produtores divulgaram como sendo a sinopse de Shok: “A amizade de dois meninos é testada até os seus limite enquanto eles lutam pela sobrevivência durante a guerra de Kosovo”.

Vale contextualizar e relembrar um pouco a história de Kosovo. Depois de fazer parte dos impérios romano, bizantino, búlgaro, sérvio e otomano, no século passado Kosovo passou para as mãos do Reino da Sérvia, do império italiano e da Iugoslávia. Os problemas no território começaram em 1912, quando apesar do país ter a maioria da população de origem albanesa – 95% da população, aproximadamente -, ele passou a ser integrado pela Sérvia e não pelo principado da Albânia.

Apesar de rebeliões albanesas em dois períodos, o país se tornou parte da Sérvia até que entre 1941 e 1944 ele passou a ser anexado à Albânia durante a ocupação italiana. Após ser reintegrado à Iugoslávia, o território se tornou autônomo, ainda que integrado à república Sérvia.

Em 1991 o país declarou a independência, mas houve uma resistência forte do regime de Slobodan Milosevic e os conflitos internos começaram, até que em 1999 a OTAN atacou a Iugoslávia dando início a Guerra de Kosovo. Enquanto a OTAN atacava alvos iugoslavos, as guerrilhas albanesas se digladiavam com as forças sérvias. Por causa disso foram formados grandes contingentes de refugiados – algo que é mostrado em Shok.

Feita esta ponderação, um rápido comentário sobre o curta dirigido por Jamie Donoughue e que tem 21 minutos de duração. A história é bem construída e vai direto ao que interessa. Primeiro, apresenta com naturalidade e uma certa rapidez a grande amizade entre Oki (Andi Bajgora) e Petrit (Lum Veseli). Depois, esperando que o espectador lembre do que eu comentei acima sobre Kosovo, o diretor logo mostra o risco da proximidade dos soldados. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao curta). No final, o curta mostra que a guerra é cruel, desumana, e faz muita gente perder seus melhores amigos – não importa se eles são adultos ou crianças.

Acho que o Shok é muito competente na narrativa da história que ele quer contar. Mérito da direção e do roteiro de Donoughue que, antes, dirigiu a apenas um longa e codirigiu a um curta. Trabalham muito bem também os atores envolvidos no projeto, especialmente os garotos que dão a vida a Oki e Petrit.

Na bolsa de apostas para o Oscar, Shok aparece em segundo lugar – apenas atrás de Ave Maria. De acordo com o site IMDb, Shok recebeu, até o momento, 11 prêmios. Os usuários do site, aliás, conferiram a nota 8,5 para este curta. Achei uma boa avaliação. Eu ficaria entre 8,5 e 9. Confira o curta na íntegra por aqui – no idioma original e com legendas em espanhol:

 

 

5. Stutterer

Fechando a lista de indicados na categoria Melhor Curta de Ficção temos Stutterer, produção do Reino Unido com roteiro e direção de Benjamin Cleary. Os produtores divulgam a sinopse do curta desta forma: “Um tipógrafo solitário tem um discurso cruel de impedimento mas, ao mesmo tempo, uma voz interior eloquente lhe motiva a enfrentar o seu maior medo”.

Para a nossa sorte, a exemplo do representante de Kosovo, Stutterer está disponível integralmente na internet. Depois de assistir ao curta de 12 minutos, farei alguns comentários sobre ele. Para começar, o filme de Cleary tem muitas características ao mesmo tempo. No início, ele parece um filme um tanto angustiante, um tanto previsível. Até que ele nos apresenta uma sacada ótima.

A angústia está no protagonista, um jovem tipógrafo boa pinta que tem problemas sérios de comunicação. O próprio pensamento dele é repetitivo e um tanto desordenado. A fala, então… complicadíssima – para não dizer impossível. Por isso mesmo ele aprendeu a língua dos sinais e muitas vezes “foge” de se comunicar através dela. E justamente por causa disso o filme tem uma virada bonitinha e fofa no final.

No início, Stutterer parecia um filme muito singelo. Sobre a angustiante realidade de diversas pessoas que não conseguem se encaixar muito bem em uma sociedade com excesso de discursos. No final, ele ganha pontos pela “virada” do diretor, que deixa uma mensagem de esperança – todos, afinal, podem ser felizes. Ainda assim, perto de Shok, sem dúvida este filme é menor e corre por fora na disputa.

Além da boa sacada do diretor, que tem um roteiro bem inteligente e uma narrativa condizente com o seu texto, Stutterer tem a qualidade de ter um bom ator em cena. Gostei de Matthew Needham como Greenwood. Além dele, aparecem no curta Chloe Pirrie como Ellie e Eric Richard como o pai de Greenwood. Este é o terceiro roteiro de Benjamin Cleary e a estreia na direção dele. Sem dúvida alguma é um nome a ser acompanhado. Ele tem estilo.

Segundo o canal do diretor no Vimeo, Stutterer já ganhou 11 prêmios em diferentes festivais pelo mundo. Na bolsa de apostas sobre o Oscar o filme aparece em terceiro lugar entre os favoritos. Os usuários do site IMDb deram a nota 7,7 para a produção. Eu daria uma nota um pouco maior, talvez um 8 ou um 8,5. Confira neste link o curta na íntegra – com o idioma original em inglês:

 

 

PALPITES PARA O OSCAR 2016: Dois dos cinco filmes indicados na categoria Melhor Curta de Ficção estão disponíveis integralmente na internet para serem vistos antes da premiação. Isso é um presente. Mas o paraíso seria termos os cinco, não é mesmo? Tendo assistido aos curtas Shok e Stutterer na íntegra e apenas ao trailer dos outros três, posso comentar que realmente parece que a decisão ficará entre Ave Maria e Shok.

Ainda que Day One, Everything Will Be Okay e Stutterer tenham as suas qualidades, acho que eles não tem a força de Shok ou a criatividade de Ave Maria para conquistar uma estatueta dourada. Independente do resultado, mais uma vez o Oscar mostra abertura para produções com propostas muito diferentes e nos ajuda a conhecer novos diretores de diferentes partes do mundo. Isso, por si só, já é bacana.

Curtas de Animação Indicados ao Oscar 2016

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Olá, meus caros leitores e leitoras do blog.

Amanhã à noite vai terminar a nossa expectativa sobre os premiados do Oscar 2016. Em outros anos eu comentei sobre os curtas que concorrem à premiação anual da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Nem sempre sobrou tempo para fazer isso, mas resolvi retomar os comentários sobre os curtas neste ano.

Infelizmente no Brasil não temos tanto o hábito de assistir a curtas quanto deveríamos. Afinal, este é um produto tão interessante quanto um longa e, geralmente, é nos curtas que grandes diretores e outros profissionais começam. Diferente dos longas, também é mais difícil de encontrar estes curtas para assistir – seja nos cinemas ou mesmo na internet. Por isso vou divulgar, por aqui, um resumo de cada curta e disponibilizar os trailers.

Vou começar os comentários sobre os curtas indicados este ano pela categoria Melhor Curta de Animação. Os cinco indicados são Bear Story (Historia de un Orso); Prologue; Sanjay’s Super Team; We Can’t Live Without Cosmos; e World of Tomorrow. Vamos falar um pouco de cada um deles.

 

1. Bear Story (Historia de un Orso) ou A História de Um Urso

Primeiro curta-metragem de animação produzido pelo Chile a concorrer a um Oscar, Historia de un Orso é dirigido por Gabriel Osorio Vargas. O curta com 11 minutos de duração marca a estreia do diretor na direção para o cinema – antes ele dirigiu apenas a série de TV Flipos.

De acordo com o site oficial do filme, Historia de un Orso é inspirado no exílio do avô de Osorio Vargas durante o regime militar chileno. No curta, um velho urso solitário conta a sua própria história através de um diorama mecânico. Ainda conforme o site oficial, a história é sobre “um urso que deseja voltar para a sua família, onde ele pertence”. Dirigido por Gabriel Osorio Vargas, o curta é produzido por Pato Escala.

Depois de estrear no Festival de Animação de Annecy, em 2014, o curta já contabiliza pouco mais de 50 prêmios em festivais mundo afora, incluindo reconhecimentos no Palm Springs Shortfest, Nashville, Cleveland Film Festival, Animamundi, além de prêmios do público em Zagreb, Florida Film Festival e Klik! Holland Festival de Animação.

No site oficial o diretor também escreveu uma mensagem contando o pano de fundo do filme e comentou: “Este curta-metragem é o resultado de mais de dois anos de trabalho duro. Alguns dos melhores animadores chilenos e artistas se uniram para fazer isso acontecer”.

Francamente eu não vi mais do que o que vocês vão ver abaixo. Ou seja, assisti apenas ao trailer do filme. Mas gostei muito do que eu vi. E ainda por ter essa mensagem de fundo, além de ser produto de um país do nosso continente, sinceramente a minha torcida amanhã irá para este curta. Para quem ficou interessado no curta, há ainda a página dele no Facebook. Na bolsa de apostas do Oscar, contudo, este curta aparece na terceira posição entre os favoritos. No site IMDb o curta tem a nota 7,6. Confira o trailer:

 

 

2. Prologue

Com seis minutos de duração, Prologue é ambientado há 2,4 mil anos e mostra uma violenta batalha entre dois grupos de espartanos e guerreiros atenienses. Esse curta é dirigido pelo experiente Richard Williams, um dos grandes nomes da animação dos Estados Unidos. Perto de fazer 86 anos, esse diretor nascido em Ontário, no Canadá, fez carreira em Hollywood.

Ele tem, no currículo, trabalhos como diretor de animação dos filmes The Pink Panther Strikes Again, Who Framed Roger Rabbit e The Thief and the Cobbler. Como diretor, ele tem nada menos que 10 curtas no currículo – como longas, apenas Raggedy Ann & Andy: A Musical Adventure e The Thief and the Cobbler. Por Who Framed Roger Rabbit ele ganhou dois Oscar’s em 1989.

Curta produzido no Reino Unido, Prologue tem apresenta uma técnica interessante, como de desenhos em stop motion, mas os comentários que eu li de pessoas que viram o curta é de que ele carece de uma boa história. É, basicamente, um trabalho de boa técnica e artístico.

Na bolsa de apostas para o Oscar ele aparecem em quarto lugar. Independente se o curta merece ou não ganhar, é bom ver um veterano como este ainda produzindo, filmando e chegando a ser indicado pela Academia. No site IMDb o curta tem a nota 6,1. Encontrei o vídeo abaixo que mostra um pouco da técnica do curta e também um depoimento de Richard Williams:

 

 

3. Sanjay’s Super Team ou Os Heróis de Sanjay

Nada como um bom material de divulgação. Faz toda a diferença para um curta não apenas ficar mais conhecido, mas também para ganhar votos. E isso é algo que a Pixar sabe fazer muito bem. Outro indicado na categoria Melhor Curta de Animação é este Sanjay’s Super Team, dirigido por Sanjay Patel.

O curta também tem uma história interessante por trás – com requinte um tanto autobiográfico, a exemplo do concorrente chileno. A sinopse de Sanjay’s Super Team é de que “um garoto indiano, entediado com as meditações do pai, imagina os deuses hindus como super-heróis”. Pelo que eu pude ver do trailer do filme e do vídeo com comentários do diretor, o curta vai além desta “brincadeira” inter-geracional.

Para começar, esta produção resgata as memórias afetivas do diretor, além da cultura de seus pais. Há uma reflexão interessante sobre as diferenças entre gerações e, pelo visto, um resgate interessante de diferentes culturas. A exemplo dos outros concorrentes eu não achei o curta completo na internet, mas encontrei o trailer e o depoimento do diretor, que já dão uma boa prévia da produção.

Com sete minutos de duração, Sanjay’s Super Team tem produção executiva de John Lasseter, um dos chefões da Pixar. Antes de estrear na direção com este curta, Patel tinha trabalhado no departamento de animação de 10 longas, incluindo Toy Story 2; Monsters, Inc.; The Incredibles; Ratatouille; e Monsters University. Este curta acompanha o lançamento da Pixar The Good Dinosaur.

No site oficial do curta, Sanjay’s Super Team comenta que o diretor utilizou a sua própria experiência para contar a história de um menino cujo “amor pela cultura pop ocidental entra em conflito com as tradições de seu pai”. Sanjay é fascinado por desenhos animados e por quadrinhos, e o pai tem um belo desafio para tentar apresentar para o filho as tradições da prática hindu.

A imaginação do menino transforma as divindades Hanaman, Durga e Vishnu em super-heróis, e o diretor se inspirou nas tradições das danças Bharatanatyam, Odissi e Kathakali para dar uma personalidade diferente para cada uma delas. Os usuários do site IMDb deram a nota 7 para o curta.

Confira um dos trailers do curta por aqui:

 

E neste vídeo o making off da produção – incluindo comentários do diretor:

 

 

4. We Can’t Live Without Cosmos

Com 16 minutos de duração, este curta russo conta a história de dois cosmonautas que são amigos e que batalham todos os dias, juntos, para realizar o sonho de viajarem para o espaço. O curta é dirigido por Kostantin Bronzit, 49 anos, que tem nove curtas no currículo como diretor, um longa e um episódio de série para a TV.

Esta é a segunda indicação de Bronzit para o Oscar na categoria Melhor Curta de Animação. Ele concorreu, antes, com Lavatory – Love Story, no Oscar de 2009. We Can’t Live Without Cosmos ganhou, até o momento, seis prêmios, e foi indicado a outros quatro – incluindo aí o Oscar.

Na lista das bolsas de apostas o filme aparece em último lugar. Não consegui assistir aos curtas na íntegra mas, pelos trailers, ele me pareceu um dos mais interessantes – junto com o curta chileno. Os usuários do site IMDb deram a nota 7,7 para esta produção.

Confira o trailer do curta:

 

E confira esta matéria da rede RT sobre a indicação da animação russa:

 

 

5. World of Tomorrow

Este curta finaliza a lista de indicados deste ano mostrando a diversidade de produções do mercado e a escolha igualmente diversificada do Oscar. World of Tomorrow é uma produção filosófica que promove o encontro de uma mulher com a sua versão mais nova, mostrando para a menina que um dia ela já foi que tipo de futuro ela terá.

Este curta com produção 100% dos Estados Unidos é dirigido por Don Hertzfeldt, diretor californiano de 39 anos que tem 12 curtas e um longa no currículo como diretor. O único longa dele até agora foi It’s Such a Beautiful Day, lançado em 2012.

Antes de ser indicado ao Oscar por World of Tomorrow, Hertzfeldt concorreu também a uma estatueta dourada da Academia por Rejected no Oscar de 2001. De acordo com o site da produtora do curta, World of Tomorrow já ganhou 42 prêmios, incluindo o Grande Prêmio de Curtas no Festival de Cinema de Sundance.

De acordo com as notas de produção, este é o primeiro curta animado digitalmente por Hertzfeldt. Os outros curtas dele foram filmados em 16 mm e 35 mm e animados com um tablet Cintiq, usando Photoshop e Final Cut Pro. O diretor disse que escolheu a animação digital porque a história se passa em um futuro abstrato e que teria sido muito demorado se ele fizesse a animação diretamente no filme.

Francamente, pelo trailer, achei este curta um dos fortes concorrentes do ano. Ele tem 17 minutos de duração. Na bolsa de apostas ele aparece em segundo lugar, atrás apenas de Sanjay’s Super Team. Os usuários do site IMDb deram a nota 8,2 para o filme. Confira o trailer aqui:

 

PALPITE PARA O OSCAR 2016: Difícil avaliar os curtas apenas pelos trailers. Não vejo a hora de conferir cada um deles na íntegra. Mas pelo que é possível ver da proposta de cada um dos curtas, levando em conta a proposta artística e narrativa de cada produção, os três mais interessantes são World of Tomorrow, Historia de un Orso e We Can’t Live Without Cosmos.

Os três me chamaram a atenção pela técnica e pela história. Minha torcida particular vai para os “hermanos” chilenos representados por Historia de un Orso. Ainda assim, neste caso, assim como na categoria de Melhor Animação, o favoritismo é do filme com maior recursos e uma marca forte por trás. Neste caso, leva vantagem Sanjay’s Super Team. Logo mais saberemos quem se sairá melhor.