Colossal

Uma homenagem curiosa para o cinema e as séries de TV que utilizaram monstros e robôs gigantes para aterrorizar/encantar crianças e jovens mundo afora a partir dos anos 1950. Colossal utiliza uma boa dose de criatividade e de “licença poética” para revirar esse tipo de história e homenagear, junto com ela, a criatividade dos escritores. Este filme é uma grande viagem, na verdade. Tem um punhado de bons atores em papéis inusitados e uma trama que nos remete para a nossa própria infância.

A HISTÓRIA: Música dramática. Uma garota procura a boneca que ela perdeu. A mãe diz para ela desistir, mas a menina insiste, até que encontra a boneca. Ela está feliz, mas logo essa felicidade desaparece quando ela vê um monstro gigante caminhando por trás de um par de prédios. A menina grita enquanto o monstro se aproxima. Corta. 25 anos depois, as cidades estão repletas de prédios altos. Em uma desta metrópoles, Gloria (Anne Hathaway) chega em casa devagarinho. Ela logo vai pedindo desculpas para o namorado, Tim (Dan Stevens).

Enquanto ele termina o café da manhã, Gloria conta uma história sem pé nem cabeça. Tim fica irritado com mais uma cena destas e diz para Gloria que ela deve ir embora. Há mais de um ano desemprega e expulsa do apartamento do namorado, ela acaba voltando para a cidade natal, onde reencontra um amigo de infância, Oscar (Jason Sudeikis). Em pouco tempo um monstro começa a atacar Seul e, estranhamente, Gloria tem tudo a ver com isso.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Colossal): Gosto de produções com uma boa pegada “alternativa” e underground. Embarquei em Colossal por causa dos nomes envolvidos na produção e, como geralmente faço, por observar que o filme recebeu mais críticas positivas que negativas. Como é meu costume também, procurei não saber nada do filme antes de assisti-lo. Por isso mesmo foi uma grande surpresa a premissa central da produção.

De uma forma bastante despretensiosa e inteligente o diretor e roteirista Nacho Vigalondo explora a memória afetiva dos fãs das séries de TV e dos filmes protagonizados por robôs e monstros gigantes e ainda nos conta uma história de pessoas que realmente “não cresceram”. A protagonista desta produção é uma garota que teve sucesso em sair da pequena cidade em que nasceu mas que, ao não conseguir o sucesso desejado, acaba lidando mal com a própria frustração.

A história começa mostrando claramente como Gloria tem problemas com a bebida. O ponto de quebra na vida dela e que dá início ao roteiro deste filme é justamente o momento em que o namorado da protagonista se enche dos efeitos do alcoolismo na rotina da namorada e a expulsa de casa. A única saída que Gloria encontra de manter uma certa independência – ou seja, evitar a alternativa de voltar a morar com os pais – é retornar para a casa vazia da família em sua cidade natal.

Logo de cara ela “esbarra” com um amigo de infância que parece “animadíssimo” com o retorno dela para a cidade. Oscar é super prestativo, atencioso, e até um pouco exagerado em suas demonstrações de “afeto” – ele oferece para Gloria uma televisão das grandes, um emprego e, após pisar na bola, mais vários outros móveis e itens de decoração. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). A sugestão óbvia inicial é de que ele é apaixonado por Gloria desde os tempos do colégio. Ledo engano.

Uma das qualidades desta produção é que ela mostra justamente como nem tudo que parece ser bacana e legítimo é, realmente, verdadeiro. Se olharmos a essência desta história, ela trata bastante de como as aparências enganam. Afinal, o monstro gigante, feio e assustador que ataca Seul acaba se revelando “do bem”, inofensivo e bacana, enquanto o robô igualmente gigante e reluzente é “do mau”, mesquinho e vingativo. Desta forma, Vigalondo subverte alguns dos princípios das séries e filmes clássicos do gênero.

Muitas das atitudes de Gloria e de Oscar – especialmente dele – são típicas de pessoas que parece não terem crescido. Nem digo tanto sobre as brincadeiras que Gloria faz para “comprovar” que ela é o monstro que “ataca” Seul e, depois, as feitas por Oscar para testar o mesmo “poder” como robô gigante. Me refiro principalmente as ações dele de “disputa” com Gloria, em uma quebra de braço que parece não ter fim, e as dela no “enfrentamento” do amigo e no ajuste de contas com o ex-namorado.

No fim das contas, Colossal também se revela um daqueles filmes que conta uma interessante história de amadurecimento. Gloria começa perdida e sem nada e termina sabendo exatamente quem ela é. Ela é uma pessoa com valores bem definidos, preocupada com os demais e capaz de enfrentar acontecimentos malucos com um bocado de serenidade. Mesmo tendo bastante “poder” na figura do monstro que aparece em Seul, ela não se deixa deslumbrar com as possibilidades que este poder pode lhe trazer. Bem diferente do que acontece com Oscar.

Depois de passar por aquela experiência surreal e de solucionar o problema daquela forma, certamente a protagonista desta história estará muito mais preparada para enfrentar as dificuldades da vida. Este processo de amadurecimento é algo interessante em Colossal – e algo que você vai perceber apenas depois da produção terminar. Enquanto estamos assistindo ao filme, o que ressalta aos olhos é como o roteiro de Vigalongo mexe com a imaginação dos fãs das produções de monstros e robôs gigantes. Afinal, o que eles fariam se pudessem “se passar” por estes personagens?

Esta é a brincadeira central do trabalho de Vigalongo em Colossal. Mexer com a imaginação e com a paixão dos fãs do gênero. Ainda que eu conheça algumas das produções japonesas que fizeram história com personagens deste tipo, não me considero uma fã deste tipo de série de TV/filme. Por isso mesmo eu consegui assistir a Colossal de forma despretensiosa e sem tanta “paixão”.

Achei o filme divertido e com algumas tiradas bacanas – como o roteiro que Gloria cria para dar um “fim” para a seu “alter-ego” antes de Oscar radicalizar em busca dos holofotes. Ao mesmo tempo, acho que Vigalongo teve um pouco de dificuldade de “arrematar” a história. Ou seja, ele teve uma premissa interessante e algumas ideias bacanas mas demonstrou uma certa insegurança em como dar continuidade para a história. Acho que o filme perde um pouco de força com o desenrolar do roteiro e exagera um pouco a dose na disputa juvenil entre Gloria e Oscar.

No fim das contas, mais na reta final do filme, os dois parecem duas crianças brigando por causa de um mal entendido ou de um brinquedo roubado no parquinho do bairro. Dá para entender a intenção de Vigalongo em explorar este perfil de “adultos que não cresceram”, tendo questões da infância ainda mal resolvidas (no caso de Oscar), mas me pareceu um pouco forçada a forma de agir de Oscar. Talvez a escolha de Jason Sudeikis para o papel não tenha sido a melhor – ele parece sempre ter a cara de bom moço… talvez um ator que pudesse fazer mais o tipo “insensível” ou cafajeste funcionasse mais.

Colossal interessa especialmente para quem é fã de filmes/séries de TV japonesas que iniciaram a leva de produções sobre monstros e robôs gigantes. Afinal, esta produção tem um estilo “saudosista” interessante. Com um pouco de imaginação conseguimos também ver uma boa crítica de Vigalongo para a era do espetáculo, onde há muitas pessoas mais interessadas em aparecer e ficar famosas do que em construir algo que realmente perdure no tempo.

Apesar de ter estas qualidades, contudo, o filme exagera no “espírito juvenil” em diversos momentos, além de perder muito tempo na dinâmica de personagens que acabam não tendo muito interesse ou profundidade – vide os amigos de Oscar, Joel (Austin Stowell) e Garth (Tim Blake Nelson). Stowell parece estar no filme mais para acrescentar um rosto bonito na produção e uma certa “tensão de triângulo amoroso” com Oscar e Gloria do que para apresentar um personagem realmente relevante na história. Para resumir, o roteiro de Colossal poderia ser melhor.

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Colossal tem algumas sacadas visuais bem interessantes. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Elas se resumem às sequências em que aparecem o monstro e o robô gigante. Destas cenas, destaco especialmente as que mostram os amigos de Gloria assistindo ao “ataque ao vivo” do monstro em Seul com os seus celulares antes de olharem ao redor e perceberem que os gestos da amiga eram os mesmos do personagem assustador. A sequência é interessante especialmente porque fala muito dos nossos dias – quando algumas pessoas “enfiam” a cara no celular – seja nas refeições, seja assistindo a um show – ao invés de perceberem o que está acontecendo ao seu próprio redor. Reveladora.

Apesar do filme ter uma certa “barrigada” lá pelas tantas – o roteiro perde um pouco de interesse quando fica centrado na queda de braço entre Oscar e Gloria -, o final redime um pouco a história de Nacho Vigalondo. Gloria “desperta” para a mais inteligente e definitiva saída para o seu problema. Além disso, a última sequência ainda abre uma frente para outras teorias sobre o que aconteceu – como a de que Gloria teria imaginado tudo em um de seus grandes porres. O roteirista acerta no final – e isso é um alívio, porque o filme corria o risco de terminar de forma bem idiota.

Entre os atores, o destaque desta produção é Anne Hathaway. Ela faz uma interpretação bastante crível em um filme nonsense, o que apenas demonstra o seu talento – não seria difícil ela cair no exagero ou apresentar um desempenho um tanto caricatural. Mas não. O espectador acredita em todas as variáveis e na inconstância da personagem vivida pela atriz. Jason Sudeikis também faz um bom trabalho, mas parece que ele não se encaixa totalmente no perfil do personagem.

Colossal é muito centrado nos personagens de Gloria e Oscar. Mas outros atores, como Austin Stowell, Tim Blake Nelson e Dan Stevens tem boas oportunidades de mostrar trabalho nesta produção. Outros nomes que vale citar são o de Hannah Cheramy como Gloria quando criança e Nathan Ellison como o Oscar da mesma época.

Da parte técnica do filme, merece destaque a trilha sonora de Bear McCreary; a direção de fotografia de Eric Kress; a edição de Ben Baudhuin e de Luke Doolan; o design de produção interessante e que faz jus aos filmes japoneses e que leva a assinatura de Sue Chan; a direção de arte de Roger Fires; o trabalho dos 17 profissionais envolvidos com o departamento de arte; o belo trabalho dos 13 profissionais responsáveis pelo departamento de som; os efeitos especiais de Tracey Blumel, Robert Musnicki e Jak Osmond; e os 33 profissionais envolvidos no trabalho fundamental dos efeitos visuais.

Colossal estreou em setembro de 2016 no Festival Internacional de Cinema de Toronto. Depois o filme participou de outros seis festivais. O próximo da lista começa no dia 1º de julho de 2017: o Festival Internacional de Cinema Fantástico Neuchatel. Nesta trajetória o filme conquistou três prêmios: Melhor Filme no Austin Fantastic Fest; Melhor Ator Coadjuvante para Jason Sudeikis e Melhor Diretor para Nacho Vigalondo no Lost Weekend Award promovido pelo Film Club.

Não encontrei informações sobre o custo do filme, mas o Box Office Mojo informa que Colossal conseguiu pouco mais de US$ 3 milhões nas bilheterias dos Estados Unidos. Uma bilheteria pequena.

Agora, algumas curiosidades sobre esta produção. A atriz Anne Hathaway estava na terceira semana de sua gravidez quando começaram as filmagens de Colossal.

Colossal sofreu um processo judicial em maio de 2015 com a alegação de que o filme tinha muitas semelhanças com Godzilla, produção de 2014.

A frase escrita pelo monstro em coreano, “Sinto muito, foi um erro. Não vai acontecer de novo” é, literalmente, a frase que o Rei Juan Carlos I, da Espanha, disse após ser ferido tentando caçar um elefante em Botsuana.

Para quem gosta de saber onde os filmes foram rodados, vale comentar que Colossal foi feito em cidades do Canadá, como Vancouver, Langley e Fort Langley; e na cidade de Seul, na Coreia do Sul.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,3 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 149 críticas positivas e 38 negativas para a produção – o que lhe garante uma aprovação de 80% e uma nota média de 7,2.

Para quem não tem um histórico muito grande de séries de TV e de filmes que inspiraram Colossal por abordarem monstros e robôs gigantes, vale citar este post do InfanTV sobre o Robô Gigante e este outro texto com os “20 melhores filmes de monstro da História” da Rolling Stone.

Este filme é uma coprodução dos Estados Unidos, do Canadá, da Espanha e da Coreia do Sul. Aliás, vale comentar que o diretor e roteirista Nacho Vigalondo é espanhol, natural de Cabezón de la Sal, cidade da província da Cantábria. Ele foi indicado ao Oscar de Melhor Curta em 2005 pela produção 7:35 de la Mañana. Com 40 anos de idade, Vigalondo tem 21 títulos no currículo como diretor – 11 deles são curtas.

Ah, algo bacana deste filme e que alguns cartazes dele valorizam bem é que não deixa de ser interessante pensar que Gloria é quem deu início a todo o terror mostrado na história em Seul e que foi ela mesma quem deu um fim naquela situação. Por ter problema com o álcool e, sem Oscar, ser uma garota desempregada e sem muitas perspectivas de uma vida melhor a curto prazo, Gloria acaba simbolizando o valor que todas as pessoas com estes perfis podem ter. Ninguém deve (ou deveria) ser julgado pela “capa”, por seus problemas ou limitações. Esta pode ser vista como uma das boas mensagens desta produção. Também achei interessante a ideia que os “desastres” no mundo muitas vezes são causados por nós e também podem ser resolvidos pela gente – vide os problemas no clima e agressões à Natureza.

CONCLUSÃO: Eis um filme que consegue, ao mesmo tempo, fazer uma boa viagem ao passado e um resgate curioso de um gênero que ficou bastante datado. Com muita criatividade e uma boa dose de nonsense, Colossal nos remete ao tempo do parquinho, da escola e das manhãs e/ou tardes de séries japonesas exageradas – e vistas, hoje, como peças cômicas. Ao mesmo tempo que este filme faz muito marmanjo/a reviver as próprias lembranças, ele também nos faz pensar sobre as escolhas que fazemos na vida e sobre feridas que não foram curadas. É uma produção interessante, com algumas tiradas bacanas, mas parece um tanto perdida lá pelas tantas. Pode valer como passatempo, especialmente para quem curtia filmes e séries de monstros e robôs gigantes. Afinal, esta produção é um belo exercício de imaginação e de satisfação para este público, em especial.

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A Walk Among the Tombstones – Caçada Mortal

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Filmes de ação que mostram um longo e doloroso processo de vingança fazem parte da história do cinema. Dezenas deles já foram feitos. Outros tantos também se debruçam no perfil de policiais que tiveram um problema grave em sua trajetória, o que fez eles mudarem de rumo. A Walk Among the Tombstones junta estas duas vertentes de filmes de ação sem reinventar a roda mas, ao mesmo tempo, respeitando a inteligência e o bom gosto do espectador.

A HISTÓRIA: Nova York, 1991. O policial Matt Scudder (Liam Neeson) escuta algumas recomendações do colega policial, Danny Ortiz (Maurice Compte). No puxão de orelha, Ortiz diz que está preocupado com Scudder, e que ele não está afundando apenas a si mesmo, mas colocando o parceiro em risco também. Scudder entra no bar e recebe o de sempre: duas doses de destilado e um café, enquanto lê o jornal.

Mas logo entram criminosos no local, que atiram no dono do bar (Patrick McDade). Scudder persegue os criminosos e acaba matando os três. Cenas de uma mulher. Corta. Nova York, 1999. Scudder está lendo o jornal em uma lanchonete quando chega Peter (Boyd Holbrook), que ele conheceu em uma reunião do AA (Alcoólicos Anônimos). Como detetive particular, Scudder é chamado para ajudar o irmão de Peter, Kenny Kristo (Dan Stevens), que está vivendo um drama pessoal pesado.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a produção A Walk Among the Tombstones): Gosto do Liam Neeson. Ele é um ator que soube, pouco a pouco, se especializar em um tipo de papel e de filme bem específicos. A expressão dele é dura, e a seriedade no semblante convence toda vez que ele encarna o personagem de durão. Funciona, em especial, em filmes como este A Walk Among the Tombstones, em que Neeson não é apenas um sujeito durão, mas um homem que tem uma dívida profunda com o próprio passado.

Os primeiros minutos desta produção juntam dois gêneros com filmes bem interessantes: western e os film noir. São momentos eletrizantes e que provocam o espectador, servindo de um belo cartão de visitas do diretor e roteirista Scott Frank. Pouco depois, mergulhamos em alguns lugares-comuns, como o protagonista sendo convidado para investigar um crime que levará ele a confrontar o próprio passado e escolhas equivocadas que ele tomou.

O ex-policial Matt Scudder, há vários anos frequentando encontros de AA, é levado por um colega deste ambiente a encontrar um sujeito com o qual ele jamais trabalharia em conjunto no passado: o traficante Kenny Kristo. No início, achei o ator Dan Stevens muito ruim. Mas pouco a pouco vamos entendendo aquele jeito estranho do personagem – ainda que, na comparação com Neeson, ele fique sempre atrás. O mesmo acontece com o ator que interpreta o irmão dele, Boyd Holbrook. Todos se esforçam, mas nenhum deles consegue realmente convencer em seus papéis. Atores melhor preparados teriam conseguido um resultado melhor com estes mesmos personagens.

Mas voltando para a história: Scudder acaba caindo no enredo de vingança pessoal de Kenny de uma forma um tanto previsível – primeiro ele nega trabalhar para ele, depois acaba cedendo porque percebe que deve contribuir para terminar com uma série de crimes cruéis. A lógica é que se existe alguém pior para ser combatido, por que não se juntar com alguém que você desprezaria normalmente?

Como nos film noirs clássicos, aqui também o limiar entre o herói e o bandido muitas vezes tem a densidade de uma fumaça. Daí que no decorrer da história surge o garoto TJ (Brian “Astro” Bradley). O protagonista encontra ele “vivendo” na biblioteca onde ele começa a investigar crimes similares ao da mulher de Kenny. Volta e meia o garoto surge, principalmente para o protagonista exercer um pouco de sua verve paterna e cheia de conselhos sábios. Daí que eu não sei vocês, mas eu fiquei me perguntando se essa era realmente a finalidade do garoto: servir de trampolim para um pouco de filosofia contra o crime do ex-policial Scudder.

Muitas vezes o personagem de TJ me parecia uma tentativa do roteirista em dar um lado mais “humano” e um pouco “cômico” para a história, para que ela não ficasse macabra demais. Fiquei feliz quando vi que o garoto tinha um propósito maior e uma participação decisiva na reta final da produção. Desta forma, o personagem de TJ nos faz pensar de como nem sempre percebemos que relações “sem grande importância” aparente podem ser, no fim das contas, decisivas em determinados momentos das nossas vidas.

Quem disse que um filme de ação não pode ter um pouco de filosofia no meio? 🙂 O desenrolar da trama, propriamente dita, ocorre de maneira um tanto previsível e sem nenhuma inovação narrativa. Há um começo, um meio e um fim. Pouco a pouco o experiente Scudder vai montando o quebra-cabeças do perfil dos criminosos até que, de forma inteligente, ele alerta através de Kenny outros bandidos que tinham as características de possíveis futuros alvos dos bandidos.

Não demora muito para que um novo caso ocorra – afinal, o roteirista tinha pressa para deslanchar o filme. Esqueçam o modus operandi normal de uma dupla de serial killers que, normalmente, dão um certo espaço de tempo entre um crime e outro. Em A Walk Among the Tombstones esses tempo não existe. Logo depois de estuprar, matar e esquartejar a mulher de Kenny, os criminosos Ray (David Harbour) e Albert (Adam David Thompson) querem mesmo é atacar a próxima vítima.

Interessante como o filme de Scott Frank, baseado na obra homônima de Lawrence Block, desconfia dos “homens da lei”. Além de termos um protagonista que se arrepende de um ato do passado, quando ele era alcoólatra e acabou matando não apenas três bandidos, mas causando também a morte acidental de uma menina, temos ainda dois criminosos interessados em dinheiro e que tem um gosto macabro por cortar pessoas que trabalhavam para o DEA (Drug Enforcement Administration ou, em uma tradução livre, Órgão para o Combate das Drogas). Ironia e autocrítica pura.

O filme vai bem, especialmente pelo trabalho de Neeson, até que o protagonista começa a negociar com os bandidos. Claro que há diálogos bons ali, mas fica especialmente estranho quando Scudder fala para Ray que conhece ele, que lembra do “maldito degenerado” que ele conheceu há 10 anos e que ele jogou por uma janela. Hein? Essa é a parte comprometedora do roteiro. Porque em nenhum momento da produção, antes, ficamos sabendo dos dois terem se esbarrado ou conhecido. Até aquela troca de diálogos, não há nenhum indício de que eles tiveram algum encontro antes.

Essa é uma lacuna importante da trama que, até então, estava bem amarrada. Ok, alguém pode argumentar que a fala de Scudder era genérica. Que ele não estava falando especificamente de Ray, mas de qualquer maluco com aquele perfil que ele tivesse encontrado 10 anos antes. Com bastante esforço de imaginação, até podemos pensar nisso. Mas francamente, da forma com que os diálogos foram escritos, não é isso que aparenta. E por mais que Scudder seja bom, fica um pouco difícil de acreditar que os bandidos jogariam o jogo dele daquela forma tão facilitada.

Se eles eram, de fato, e como nos quer fazer acreditar o roteirista e diretor, tão cruéis, dificilmente eles dariam margem para o azar para ganhar uma bolada de mais um traficante. Sendo perseguidos da forma com que eles estavam, era muito mais lógico, segundo o pensamento dos criminosos, matar a refém e partir para uma série de novos crimes longe dali. Mas bueno, o filme precisa seguir, e Scott Frank escolhe o caminho mais rápido para terminar essa história.

Na reta final da trama, gostei das perdas que ocorrem na história. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Afinal, Kenny era um traficante que vivia bem, mas não tinha vocação para ser um bandido familiarizado com o confronto. E o irmão dele, o pobre Peter, tinha deixado bem para trás a experiência com o rifle – recentemente ele estava mais alucinado com drogas e com a culpa do que afiado no gatilho. Os dois são mortos no confronto com bandidos muito mais experientes e preparados para tudo.

Esta conclusão, junto com outra lição de moral de Scudder para TJ, quando o garoto está com uma arma que pegou em um beco, reforçam as boas intenções do filme – que apesar de cruel, deixam essa mensagem de que o confronto e a busca de vingança contra bandidos nunca é a melhor saída. No fim das contas, Scudder não apenas ajudar a resolver a mais uma série de crimes, como também, através dos cuidados com TJ, ajuda a resolver o próprio passado. Uma trama interessante, bem contada, apesar de uma ou outra falha aqui e ali. E com o grande Liam Neeson.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Ajuda bastante na história e funciona muito bem a mudança de visual do personagem de Matt Scudder. Ele começa “sem limites”, com atitude típica de quem vive acima do razoável (leia-se alcoólatra) e com uma pegada de western e, passado aquele momento decisivo na vida e nas certezas do personagem, ele surge sóbrio não apenas na atitude e na forma de falar e caminhar, mas também no visual. Acerto importante auxiliado pelos profissionais responsáveis pelo figurino (Betsy Heimann) e pela maquiagem (Shellie Biviens, Maya Hardinge, Craig Lindberg, Amanda Miller, Kyra Panchenko e Kerrie Smith).

Falando na parte técnica do filme, além da direção bem afinada de Scott Frank, vale citar o ótimo trabalho do diretor de fotografia Mihai Malaimare Jr., livremente inspirado nos film noir e nos western e que, desta forma, sabe valorizar bastante o jogo entre luzes e sombras.

A trilha sonora de Carlos Rafael Rivera aparece em momentos pontuais e ajuda a colocar a trama no compasso adequado, que faz o espectador relembrar de filmes de crime de algumas décadas atrás. Outro nome importante para a produção é o de Jill Savitt, responsável pela edição do filme.

A Walk Among the Tombstones estrou no dia 18 de setembro em 13 países, incluindo Dinamarca, Israel, Itália e México. No dia seguinte, o filme estreou em outros nove países, incluindo Canadá, Reino Unido e Estados Unidos.

A produção, que teria custado cerca de US$ 28 milhões, conseguiu nas bilheterias, apenas dos Estados Unidos, pouco mais de US$ 26,3 milhões até o dia 19 de setembro, de acordo com o site Box Office Mojo. No restante dos países do mundo onde já estreou, a produção conseguiu quase US$ 26,9 milhões. Ou seja: a produção conseguiu se pagar e, agora, busca lucrar. Deve conseguir isso.

A Walk Among the Tombstones foi totalmente rodado em Nova York, nos Estados Unidos. A cidade, querendo ou não, acaba sendo uma personagem adicional da trama.

Agora, algumas curiosidades sobre a produção: a atriz Ruth Wilson filmou diversas cenas como Joe Durkin, personagem que na obra original é feita por um homem. Ela deveria atuar como parceria do protagonista, mas acabou tendo todas as cenas deletadas na versão final do filme porque o diretor achou que a história funcionaria com o protagonista em uma cruzada solitária. Cá entre nós, acho que ele teve razão.

De acordo com o site IMDb, graças à popularidade do ator Liam Neeson em outros filmes de ação, A Walk Among the Tombstones já estava no lucro antes mesmo de ser lançado por causa das vendas robustas que a produção conseguiu nos diferentes mercados mundo afora. Interessante. Liam Neeson, de fato, virou uma grife.

Esta é a segunda vez que o personagem de Matt Scudder aparece em um filme. A aparição anterior foi na produção 8 Million Ways to Die, quando o personagem foi vivido por Jeff Bridges.

O personagem de Matt Scudder aparece em uma série de 17 obras do escritor Lawrence Block. Ou seja, há bastante trama ainda para ser explorada no cinema – espero que com Liam Neeson ou atores deste calibre.

Há alguns personagens secundários da produção que ganham certa relevância. Do time de mulheres, geralmente vítimas, estão Laura Birn como Leila Alvarez; Razane Jammal como Carrie Kristo; Marielle Heller como Marie Gotteskind; Liana De Laurent como a mulher do traficante Yuri Landau (Sebastian Roché), e Danielle Rose Russell como Lucia, filha do traficante. Por falar no personagem de Roché, interessante ver a esse ator veterano em ação novamente, ainda que em um papel tão secundário.

Esta é uma produção 100% dos Estados Unidos.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,7 para esta produção. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 84 avaliações positivas e 43 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 66% e uma nota média de 6,1. De fato, o filme deve merecer uma nota nesta média, talvez próximo de 7… dei uma avaliação muito melhor, admito, porque sou fã de Neeson. 😉

CONCLUSÃO: Produção dura, com uma pegada obscura e algumas vezes pesada, A Walk Among the Tombstones só é tão bom porque tem Liam Neeson como protagonista. Este ator, a exemplo de Clint Eastwood, se especializou de uma maneira tão profunda que virou grife de certos filmes: os de ação. Ele está perfeito como o protagonista em busca de redenção que ajuda um traficante a buscar vingança. A dupla inusitada acaba se justificando conforme vamos conhecendo mais sobre cada personagem. O desenrolar da história é bom, apesar de uma pequena falha no caminho. Mas nada que comprometa muito a mensagem que o filme quer passar. Envolvente, apesar de alguns atores fracos, esta produção vale o ingresso. Ainda que apenas requente várias premissas já trabalhadas antes em outros filmes do gênero. Só que Liam Neeson está lá para salvar esta e qualquer outra produção.