Phantom Thread – Trama Fantasma

phantom-thread

O amor é um troço complicado. Especialmente quando tratamos do amor romântico, aquele que dilacera a pessoa, faz ela cometer atos até então impensados. Aquele amor que bagunça a tua vida e que muda a tua rotina. Digo que esse amor é complicado para não dizer que ele é aquela palavra que começa com F… Sim, porque ele é bem assim.

Phantom Thread, o último filme que me faltava para completar a lista dos 9 indicados na categoria Melhor Filme do Oscar 2018, me surpreendeu em alguns pontos e me tranquilizou em outros. Paul Thomas Anderson, diretor e roteirista de quem eu tanto gosto, continua mandando bem. Fiquei feliz (e tranquila) por isso.

A HISTÓRIA: Começa com um “depoimento” de Alma (Vicky Krieps), que diz que Reynolds (Daniel Day-Lewis) transformou os sonhos dela em realidade. Em troca, ela teve que entregar para ele tudo que ele desejava. Alguém lhe pergunta o que isso seria, e ela diz que cada pedaço dela. O seu interlocutor pergunta se ele é um homem exigente, e comenta que deve ser difícil estar com ele, e Alma diz que ele é, possivelmente, o mais exigente dos homens. Em seguida, vemos a Reynolds começando mais um dia, com todo o seu preparo para que ele esteja impecável.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Phantom Thread): Eu gosto de filme que parecem uma coisa e, depois, se revelam outra. Inicialmente, Phantom Thread parece uma produção sobre um sujeito que é admirado por seu talento, dedicação extrema ao trabalho e pela arte que ele produz com a ajuda de uma equipe de mulheres talentosas.

Ou seja, inicialmente esse filme parece tratar do estilista Reynolds Woodcock (Daniel Day-Lewis) e de sua arte com o design e os detalhes de cada vestido incrível que ele cria para as mulheres endinheiradas da Europa. Mas aos poucos vamos vendo que essa produção trata, em realidade, de outro tema. (SPOILER – não leia se você não assistiu a essa produção). Phantom Thread fala do encantamento, da paixão, do amor e de como tudo isso pode ser usado para a criação, para a dedicação de uma pessoa pela outra (ou por algo) ou para a destruição.

Gostei, nessa produção, especialmente, do roteiro do diretor Paul Thomas Anderson. Ele acertou tanto na apresentação dos personagens principais, adentrando na vida, em especial, do protagonista, quanto acertou em cheio na construção de alguns diálogos muito marcantes. Percebe-se que ele cuidou de cada linha da história, sem descuidar de nenhum detalhe. E o efeito disso tudo é que o seu filme é potente e, ao mesmo tempo, sutil. Curioso, não?

Não são muitos os filmes que tratam com o devido respeito e talento personagens com personalidade forte. Aqui, temos de maneira evidente, desde o princípio, o “sol” da personalidade de Reynolds Woodcock, um sujeito realmente exigente, talentoso e que não consegue mostrar fragilidade em momento algum, exceto quando está sobrecarregado pelo trabalho. Algumas vezes, todo esse nível de exigência, faz com que ele seja cruel com as pessoas – especialmente com as mulheres que, para ele, são um bocado “descartáveis”.

Mas, um belo dia, quando ele sai de Londres para “espairecer” um pouco pelo interior, ele se encontra com um mulher de sorriso fácil e encantadora, a jovem Alma. Ela vira o novo objeto de desejo dele, e o encantamento entre os dois fica evidente logo na primeira troca de olhares. O que descobrimos em Phantom Thread, e aos poucos, como deve ser, é que Reynolds encontrou em Alma uma mulher tão forte, determinada e apaixonada quanto ele. Só que de outra forma.

Eu já esperava por um belo trabalho do grande Daniel Day-Lewis, um dos meus atores preferidos. Mas, quem diria, ele tem uma atriz tão boa quanto ele com quem contracenar nessa produção. Até assistir a Phantom Thread, Vicky Krieps era uma desconhecida para mim. Mas que bela atriz, meus bons amigos e amigas do blog! Ela é encantadora, charmosa, carismática, perigosa e forte na medida certa.

Então, no fim das contas, Phantom Thread trata de tudo que eu comentei antes, mas, especialmente, sobre os ganhos, perdas e o preço alto que o amor romântico e extremo pode cobrar das pessoas. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Alma realmente ama Reynolds, e ele gosta dela. Mas para conseguir manter a relação entre os dois, Alma descobre que precisa fragilizar o ser amado quando ele não está preparado para isso – e quase até o ponto dele morrer. No fundo, ela se revela mais forte do que ele, porque ela pode viver sem Reynolds.

Esse é um ponto interessante do filme. Ambos podem viver um em o outro, mas eles decidem não fazer isso. Ela, porque está obstinada por ser a pessoa mais poderosa da relação. Ele, porque fica fascinado pelo ponto extremo em que ela chega por causa dele. Esse amor extremo que eles cultivam chega a ser doentio, além de perigoso. Mas quem somos nós, público que gosta de uma boa história, para julgá-los?

O título é algo interessante, também. Inicialmente, quando pensamos na palavra “trama”, em português, ela nos remete à ideia de “enredo”, de “história”. Mas, no caso desse filme, acho que a história tem mais a ver com a trama de tecidos, com a trama de fios que acaba sendo a base de um vestido ou de uma peça qualquer que nos veste e que ajuda a nos definir e/ou identificar os nossos gostos e escolhas para o mundo.

E o que seria o “fantasma” do título? Para mim, esse “fantasma” tem a ver com a presença da mãe na vida de Reynolds. Essa presença é marcante, não apenas quando ele se lembra e fala dela, mas, principalmente, quando o protagonista não nota que ela esteja presente. E a mãe está presente em todo o momento. Inclusive porque ele a idealiza, a coloca em um pedestal, e a torna insubstituível – por isso mesmo a sua dificuldade de aceitar qualquer mulher em sua vida por longo tempo.

Até conhecer Alma, Reynolds se considera um “solteiro convicto”. Há um diálogo precioso entre ele e Alma, quando ele fala sobre isso e sobre como “as expectativas e as suposições” sobre o outro trazem mágoas. Que frase, meus amigos! E essa é uma entre várias marcantes. Ele está certíssimo. Nos defendemos e nos isolamos justamente porque não queremos sofrer, e o sofrimento muitas vezes acontece por expectativas não atendidas e por suposições sobre o que os outros são ou fazem equivocadas.

Isso acontece com praticamente todo mundo. Em maior ou menor grau, a mãe e/ou o pai de uma pessoa marcam presença na vida dessa pessoa para sempre. Ela notando ou não. Esse “fantasma” pode ser uma presença suave, compreensiva, que apenas nos deixa menos “solitários”, ou pode ser uma presença tão grande, marcante e “pesada” que tira o espaço de outras pessoas que estão vivas e ao nosso redor. Para mim, esse é um dos pontos que essa produção trata de forma muito sutil.

Assim, essa produção trata de amor e trata também do que nos define, do que forma o nosso caráter e de elementos que ajudam a explicar o porquê de fazermos o que fazemos. É um filme bastante humanista, no final de contas. E muito belo também. Paul Thomas Anderson selecionou a sua equipe à dedo e conseguiu nos apresentar uma obra detalhista, atenciosa em cada detalhe, capaz de nos fascinar pelo visual e pelas palavras também selecionadas à dedo.

Enfim, um filme muito interessante e que nos surpreende positivamente por não ser pretensioso ou arrogante. Na verdade, Phantom Thread pode parecer mais simples do que é, para quem não estiver atento a cada detalhe. Mas ele é cheio de sutilezas e de pequenos detalhes, como os vestidos que Reynolds cria. Um filme provocante, atraente, e que faz pensar. Bem acima da média, pois, e merecedor de ter chegado ao Oscar 2018 com seis indicações, incluindo a de Melhor Filme.

NOTA: 9,4.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Uma obra de cinema pode ser chamada dessa forma quando percebemos que cada detalhe da produção foi cuidado com esmero. E isso acontece com esse Phantom Thread. Todos os elementos dessa produção são perfeitos. Nenhum precisa de ajustes. Isso começa com a trilha sonora marcante e inspirada de Johny Greenwood, segue com as linhas do roteiro minuciosamente escritas por Paul Thomas Anderson, segue com o trabalho dedicado e inspirador dos atores e segue até os figurinos maravilhosos de Mark Bridges.

Isso apenas para falar dos elementos mais marcantes dessa produção. Mas todos os detalhes estão perfeitos e ajudam a contar essa história. Entre os aspectos técnicos, sem dúvida alguma os figurinos e a trilha sonora se destacam. Mas é possível destacar também a direção de fotografia maravilhosa de Paul Thomas Anderson; a edição de Dylan Tichenor; o design de produção de Mark Tildesley; a direção de arte de Chris Peters, Denis Schnegg e Adam Squires; a decoração de set de Véronique Melery; e a maquiagem feita por 19 profissionais competentes.

Entre outros elementos, Phantom Thread nos faz pensar sobre as nossas próprias manias, hábitos, e sobre o quanto estamos ou não abertos a abrir mão deles ou ceder para que outras pessoas façam parte da nossa vida. É especialmente interessante, por exemplo, como o protagonista tem hábitos bastante “marcados”. Como o café da manhã, que se não for silencioso e pacífico, pode “acabar” com todo o seu dia. Alma acaba se adaptando à rotina dele, mas ela também acaba alterando essa rotina aqui e ali, de forma sutil. E é isso, essa presença marcante de Alma, que não está ali para agradá-lo apenas, mas também para confrontá-lo, que acaba fascinando Reynolds.

Não sei vocês, mas acredito que isso seja verdadeiro em diversos aspectos da nossa vida. As pessoas mais marcantes não são aquelas que nos agradam, que estão tentando nos fazer “felizes” o tempo todo, mas aquela que nos fazem crescer, que nos questionam, que nos “confrontam”, mas que mostram que tem opinião e que tem talentos próprios. Pessoas que não são capazes de viver sob a sombra de ninguém, porque tem luz própria. Essas são as mais interessantes, não há dúvidas.

E o que dizer dos atores? Paul Thomas Anderson fez a escolha certa ao dar destaque, essencialmente, para o trabalho de três atores. Todos esperavam um belo trabalho de Daniel Day-Lewis. Ele realmente faz mais um trabalho primoroso, detalhista e marcante. Como lhe é típico. Mas outros dois nomes, de mulheres, acabam se destacando na produção: Vicky Krieps como Alma e Lesley Manville como Cyril, irmã do protagonista. Interessante como elas, de forma sutil algumas vezes, outras vezes de forma bastante explícita, marcam presença e fazem duetos entre si. Esse trio de atores vale cada minuto em que eles aparecem em cena.

Além dos protagonistas e de Lesley Manville, Phantom Thread tem apenas alguns personagens coadjuvantes que ganham um certo destaque. Nesse sentido, vale comentar o trabalho de Camilla Rutherford como Johanna, a mulher que está com Reynolds no início da produção – mas que logo será despachada por Cyril a pedido de Reynolds; Gina McKee como Henrietta Harding, uma das clientes fiéis de Reynolds; Brian Gleeson como o Dr. Robert Hardy, que tenta atender Reynolds e que “entrevista” Alma naquela sequência inicial da produção; Lujza Richter como a Princesa Mona Braganza; Emma Clandon como a mãe de Reynolds e Harriet Sansom Harris como Barbara Rose, a socialite um tanto sem limites que “não merecia” ficar com um vestido de Reynolds.

Phantom Thread estreou em première em Beverly Hills no dia 24 de novembro de 2017. Depois, o filme fez uma trajetória em que passou por cinco festivais de cinema. Até o momento, ele ganhou 45 prêmios e foi indicado a outros 93 – incluindo a indicação em seis categorias do Oscar, sendo que o filme saiu vencedor de uma delas.

Entre os prêmios que recebeu, destaque para o Oscar de Melhor Figurino; para o BAFTA de Melhor Figurino; para outros oito prêmios de Melhor Figurino; para sete prêmios de Melhor Diretor para Paul Thomas Anderson; para 12 prêmios de Melhor Trilha Sonora; para dois prêmios de Melhor Filme; para um prêmio de Melhor Atriz para Vicky Krieps; para dois prêmios de Melhor Atriz Coadjuvante para Lesley Manville; para três prêmios de Melhor Roteiro Original e para quatro prêmios de Melhor Ator para Daniel Day-Lewis.

Agora, algumas curiosidades sobre essa produção. O diretor Paul Thomas Anderson teve a ideia de fazer esse roteiro em um dia em que estava doente e de cama por causa disso. A esposa dele, Maya Rudolph, estava cuidando do diretor quando ele percebeu que ela lhe lançou um olhar tão cheio de ternura e de amor como há muito tempo ele não notava. Daí surgiu a ideia de Phantom Thread. Interessante.

Paul Thomas Anderson disse que a linha preferida dele do roteiro é aquela dita por Daniel Day-Lewis: “O chá está saindo, mas a interrupção permanecerá aqui comigo”. Hahahaha. Realmente a linha é ótima. E arrancou algumas risadas da plateia no cinema em que eu fui conferir essa produção.

Para se preparar para o filme, Daniel Day-Lewis assistiu a gravações de desfiles de moda dos anos 1940 e 1950, estudou designers famosos, consultou com um curador de moda e de têxteis no Museu Victoria e Albert em Londres e aprendeu sobre Marc Happel, chefe do Departamento de Vestuário do New York City Ballet. O ator também aprendeu a costurar e tentou costurar um vestido de bainha “Balenciaga” para a esposa Rebecca Miller. Não por acaso esse ator é tão bom em seu ofício. Ele realmente mergulha no personagem, vive por ele, e isso se nota na telona.

A atriz Vicky Krieps não se encontrou com o ator Daniel Day-Lewis até o primeiro dia de filmagens. Ela também foi orientada a sempre referir-se a ele como Reynolds, durante as filmagens, para que ela nunca perdesse da mente o personagem. Curioso que mesmo na fase de divulgação do filme, muitas vezes a atriz se referiu a Day-Lewis como Reynolds.

O ator Daniel Day-Lewis disse que Phantom Thread é o seu último filme. No dia 20 de junho de 2017 ele anunciou a sua aposentadoria. O cinema perde um grande ator, sem dúvidas.

A história do designer de moda espanhol Cristóbal Balenciaga, incluindo a sua dedicação ao trabalho e a sua vida um tanto “monástica” inspirou o diretor e roteirista Paul Thomas Anderson na construção do protagonista desta história.

As filmagens de Phantom Thread terminaram no dia 26 de abril de 2017, mesmo dia em que o amigo e mentor de Paul Thomas Anderson, o diretor Jonathan Demme, faleceu de câncer. Phantom Thread é dedicado para Demme. Outro grande diretor, diga-se de passagem.

De acordo com as notas de produção, o roteiro de Paul Thomas Anderson teve uma grande participação do ator Daniel Day-Lewis. Tanto que o diretor disse que, provavelmente, o mais correto é que o ator tivesse recebido algum crédito por isso.

O diretor italiano Luca Guadagnino, de Call Me By Your Name (com crítica nesse link), considerou Phantom Thread o melhor filme de 2017. Enquanto isso, Paul Thomas Anderson disse, no Reddit, que o seu filme favorito no ano foi Call Me By Your Name. Sim, os dois filmes estão acima da média e estão entre as boas pedidas do ano, mas eu tive outros que me chamaram mais a atenção em 2017. Ainda assim, considero que ambos mereceram chegar bem no Oscar, por exemplo.

Seguindo uma tradição que Paul Thomas Anderson lançou e seguiu nos seus três filmes anteriores, os materiais publicitários de Phantom Thread apresentam cenas que não vemos na versão final da produção. Achei essa ideia ótima, afinal, muitas vezes os trailers estragam a nossa experiência dos filmes aos nos apresentarem cenas que não deveríamos ver fora de contexto.

Phantom Thread não cita nenhuma data, mas há algumas indicações na história que apontam que ela teria ocorrido entre maio de 1953, quando um cliente compra um vestido de gala para uma Coroação e outubro de 1954, data de uma revista UK Vogue que aparece na reta final da produção. Interessante pensar que essa história se passa nos anos 1950, especialmente pelo que acontece com os atores – e pela força da personagem feminina Alma.

Algumas sequências desse filme foram rodadas nas aldeias de Lythe e de Staithes, que estão próximas de Whitby, na costa leste da Inglaterra.

Esse filme é uma coprodução do Reino Unido com os Estados Unidos.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,8 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 246 críticas positivas e 23 negativas para esta produção, o que garante para Phantom Thread uma aprovação de 91% e uma nota média de 8,5. Especialmente as notas dos dois sites chamam a atenção – elas estão bem acima da média.

De acordo com o site Box Office Mojo, Phantom Thread fez pouco mais de US$ 20,7 milhões nas bilheterias dos Estados Unidos e cerca de US$ 20,7 milhões nas bilheterias dos outros países em que estreou até 11 de março. No total, portanto, essa produção acumula pouco mais de US$ 41,4 milhões. Um dos melhores resultados já obtidos por um filme de Paul Thomas Anderson. Fico feliz pelo diretor. E também porque o filme merece ser visto.

CONCLUSÃO: Um filme sobre um tipo de amor sobre o qual parte da Humanidade nunca vai vivenciar. Ou conhecer. Ou mesmo “roçar”. Phantom Thread trata de um desses amores descabidos, que começam com uma grande admiração, flerte, e que avançam para um desejo que não tem muitas barreiras. Um filme bem narrado, com uma condução bem cadenciada, ótimas interpretações e, principalmente, alguns diálogos preciosos.

Fico feliz em ver que o diretor Paul Thomas Anderson continua centrado, escrevendo bem, e nos lançando algumas ideias interessantes. A provocação dele é sempre bem-vinda. Um belo filme. Um dos mais contundentes sobre a “loucura” do amor que tivemos a possibilidade de ver nos últimos tempos.

Anúncios

Logan Lucky – Logan Lucky, Roubo em Família

logan-lucky-critica-do-filme

O diretor Steven Soderbergh tem uma fixação: filmes sobre roubos. Mais uma vez ele nos apresenta uma história destas em Logan Lucky. Só que, desta vez, ele resolve focar na “América profunda”, em um estilo de produção que estamos acostumados a ver com os irmãos Coen. Mais uma vez, Soderbergh se esforça. Mas já vimos a tantas histórias parecidas… no final, ficamos com aquela sensação de “eu já vi isso antes”. Ainda assim, claro, o roteiro é bacaninha, com alguns diálogos e sacadas bacanas, apesar de ser bem previsível. E os atores são a melhor parte do filme.

A HISTÓRIA: Enquanto conserta o carro, Jimmy Logan (Channing Tatum) fala de forma frenética. Ele conta para a filha, Sadie (Farrah Mackenzie), que o está ajudando na tarefa do conserto, uma história sobre um de seus ídolos, o cantor e compositor John Denver. A menina escuta tudo atentamente e descobre que o pai gosta de músicas “que tenham história”. Sadie diz que a mãe dela pensou em pagar a conta do celular dele, porque volta e meia ele está com a conta atrasada e, consequentemente, não consegue receber chamadas. Jimmy diz que tem o celular apenas para fazer fotos da filha. Em breve, ele vai ficar desempregado e acaba acionando um plano ousado de roubo que envolve os seus dois irmãos e alguns conhecidos.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Logan Lucky): A melhor qualidade desta produção, de longe, é o seu elenco. Ótimos atores e desempenhando papéis bem diferentes – no geral – do que estamos acostumados a vê-los. Daniel Craig, em especial, está ótimo. Como um presidiário bem tatuado e com todas as características que esperamos de um presidiário americano, Craig parece tirar sarro de seu papel de James Bond.

Ao menos eu não consegui olhar para ele em Logan Lucky e não pensar nisso, em como o seu papel como Joe Bang é o oposto do personagem clássico do cinema que ele interpreta desde 2006. Então sim, os ótimos atores em cena é o que fazem Logan Lucky ser um pouco interessante. O roteiro de Rebecca Blunt também começa bem. Parece que ela fez várias aulas com os irmãos Joel e Ethan Coen – eles sim especializados em tratar da “América profunda” e de seus “bandidos e mocinhos” caipiras.

Então, rapidamente percebemos que Logan Lucky segue um pouco a linha de filmes dos Coen como Fargo – mas sem tanto refinamento e inteligência, é bom dizer. Logan Lucky logo demonstra que o roteiro de Rebecca Blunt vai desbravar a seara da verborragia do interior dos Estados Unidos, com todos os seus sotaques e “conversa jogada fora” que, volta e meia, algum roteirista/cineasta norte-americano gosta de apresentar. Mas em uma época como esta, em que temos um presidente como Donald Trump no poder, não deixa de ser curioso voltarmos para este tipo de filme.

Afinal, reza a lenda que figuras como o protagonista Jimmy Logan é que teriam eleito Donald Trump. Ou seja, homens brancos, desempregados e desiludidos com a “falta de protagonismo” dos Estados Unidos. Pessoas mais preocupadas em voltar a ter emprego e dinheiro na conta do que em política externa, discutir as armas sendo vendidas livremente no país ou planos de saúde. Bem, o foco deste filme é justamente esse perfil de americanos. Pessoas que vivem as suas vidas da melhor forma possível, muito patriotas, mas nem sempre corretos.

A impressão que Logan Lucky nos dá, conforme a história vai avançando, é que não apenas o brasileiro é chegado em um “jeitinho” para resolver os seus próprios problemas. Mas, claro, nesta versão americana de “jeitinho”, o “herói” da história até tenta ser correto. Procura trabalhar, se esforça em manter as contas em dia, mas o “sistema” não lhe deixa ser um cara correto. Então a lei e a noção do que é certo e correto são facilmente ignorados quando o protagonista desta história fica desempregado e vê a ex-mulher Bobbie Jo Champman (a assustadoramente apagada Katie Holmes) ameaçar levar a filha do casal para um Estado vizinho.

Ex-promessa/astro juvenil do futebol americano, Jimmy Logan procura se sustentar com trabalhos dignos mas que pagam pouco. Ele faz parte de uma família sobre a qual, segundo o irmão de Jimmy, Clyde (o sempre competente Adam Driver), pesa uma maldição. Ao menos esta é a teoria de Clyde, um barman que perdeu parte do braço e a mão em uma de suas incursões no Iraque.

Aliás, o roteiro de Rebecca Blunt poderia ser menos descaradamente americano? Ela pega um ex-jogador de futebol americano que fazia sucesso quando era jovem mas que, hoje, não tem mais o brilho de antigamente, e coloca ele como irmão de um ex-veterano ferido no Iraque. Para completar a família Logan, temos a irmão de Jimmy e de Clyde, a cabeleireira Mellie (a interessante Riley Keough). Ou seja, toda a família é classe média média americana, todos com perfil perfeito para cair nas “graças” dos eleitores de Donald Trump – digo tudo isso generalizando, é claro.

Bem, os personagens até são interessantes. Os atores, em especial, fazem um grande trabalho. Todos os que eu citei até agora – menos Katie Holmes -, incluindo Channing Tatum, estão muito bem em seus papéis. Mas o problema é mesmo o roteiro previsível e cheio de lugares-comum de Rebecca Blunt e a direção preguiçosa de Steven Soderbergh – este é o ano, parece, de bons diretores fazerem trabalhos apenas medianos, vide Darren Aronofsky com o divisor de opiniões do ano Mother! – que eu comentei por aqui.

Ainda que o começo do filme seja interessante e que sempre pode valer a pena assistir a um filme que trata da “América profunda”, conforme a história avança nós vemos a mais um filme de roubo do Sr. Soderbergh. A ação propriamente dita não apresenta nada de novo – ok, o diretor sabe fazer cenas de ação e valorizar os atores, mas não apresenta nada de realmente interessante. E o roteiro vai por caminhos esperados, praticamente sem surpresa alguma – ok, existe uma “reviravolta” na história, que sugere algo inicialmente e depois mostra a “virada”… mas até isso acaba sendo previsível.

Então, e eu acho que ninguém falou isso para o Soderbergh, mas esta fórmula dele está desgastada. Tanto que o roteiro até tira um “sarro” da trajetória do diretor… (SPOILER – não leia se você ainda não viu ao filme). Lá pelas tantas, uma mulher comenta, ao ser entrevistada em um noticiário que aparece no filme, que o roubo do autódromo em que ocorreu uma das provas mais importantes do Nascar está sendo chamado de “Ocean’s Seven Eleven” porque a grana do crime foi deixada em um posto da rede 7-Eleven. Ah, sério? Sério mesmo? Soderbergh precisa encontrar o próprio rumo e deixar de fazer filmes que são mais do mesmo e pura autorreferência para o que ele já fez antes.

Francamente, com tanta obviedade, eu só não dou uma nota menor do que a que eu estou dando aqui porque eu realmente gostei do trabalho dos atores. Especialmente Daniel Craig está ótimo no papel do especialista em abrir cofres Joe Bang. Também gostei muito do trabalho dos “irmãos Logan”, com Channing Tatum e Adam Driver fazendo papéis interessantes e que tiram eles um pouco da “zona de conforto”. Outras atrizes que aparecem bem, como Farrah Mackenzie e Riley Keough completam bem o time principal, e grande parte do elenco de apoio faz um bom trabalho.

Pensando nesta “América profunda” que elegeu Donald Trump, até que achei o filme interessante. A parte que fala sobre estas pessoas, como elas vivem e o que elas pensam. Agora, o enredo do roubo e a ação como ela acontece – incluindo a “rebelião” com referência forçada a Game of Thrones no presídio -, achei de uma obviedade desconcertante. Enfim, mais um filme de Soderbergh repetindo a sua fórmula que um dia já foi sucesso. Até diverte, mas não é nada além de mediano. E ainda sendo boazinha. 😉

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Como eu comentei antes, ainda que Logan Lucky seja bastante previsível, ele tem uma grande “virada” em sua história. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Inicialmente, o roteiro de Rebecca Blunt nos faz acreditar que, após Jimmy assistir à apresentação da filha Sadie, que abre mão de cantar uma música de Rihanna para cantar a música preferida do pai, que fala do Estado da Virgínia, ele teria se arrependido do crime e decidido abandonar o dinheiro em um posto com uma rede de 7-Eleven. Mas aquilo parece um bocado estranho e apesar dos outros personagens ficarem “indignados” com Jimmy e o abandono do dinheiro ser noticiado por todos os lados, não chega a ser realmente surpreendente quando o dinheiro começa a ser distribuído e percebemos que eles deram o “golpe” no golpe.

Ou seja, como já aconteceu em outros filmes, eles souberam disfarçar o próprio crime. Mas como eles fizeram isso? (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). A explicação, um tanto mal realizada em Logan Lucky, é a seguinte: eles roubaram muito mais do que o que “devolveram”. Como o autódromo não tinha uma “conta exata” do quanto tinha sido roubado – uma desculpa volta e meia dada por empresas e instituições que são roubadas, mas um tanto difícil de acreditar, não é mesmo? -, e como eles tinham recebido também o dinheiro do seguro (algo estranho já que, em teoria, o dinheiro do crime foi devolvido), ninguém soube afirmar se realmente todo o dinheiro do roubo tinha sido abandonado no posto.

Com razão os agentes especiais Sarah Grayson (Hilary Swank em uma aparição surpreendente na reta final do filme) e Brad Noonan (Macon Blair) desconfiam um pouco de toda aquela história envolvendo o dinheiro. Afinal, o quanto tinha sido roubado? Tudo tinha sido devolvido? Por que o autódromo tinha também ganho o dinheiro do seguro? Aliás, uma outra pergunta que eu faria, se fosse eles: pelo fato do autódromo ter “ganho” duas vezes, alguém da administração do local não poderia ter orquestrado todo o crime?

No fim das contas, Jimmy Logan, que era o “cérebro” de todo o golpe, conta apenas parte do plano para Joe Bang e seus dois irmãos atrapalhados. Os irmãos de Jimmy fazem um bom teatro para dissimular o “golpe do golpe”. E, assim, eles roubam parte do dinheiro e devolvem ele naquela história do carro abandonado no posto, enquanto uma outra parte considerável do dinheiro é “enterrada” no aterro sanitária e, na hora certa, quando Jimmy não está mais sendo grampeado e investigado, retirada daquele local e distribuída. Mas, claro, eles são muito bobos em deixarem tantos rastros e, depois do dinheiro resgatado, aparecem todos no bar onde Clyde trabalha para “comemorar”. Sinal de que os espertos não são tão espertos assim.

O elenco de Logan Lucky surpreende. Grandes nomes envolvidos em um projeto mediano de Steven Soderbergh. O diretor é bom, e certamente isso atraiu os astros e estrelas a fazerem parte deste novo filme. Entre os nomes estrelados e bem pagos por Hollywood, como eu comentei antes, os destaques para mim foram Daniel Craig ótimo, com um olhar um tanto de psicopata, com o seu Joe Bang; seguido de Channing Tatum bem como um ex-jogador de futebol americano que luta para ser um bom pai, apesar das dificuldades em conseguir um emprego; Adam Driver como Clyde Logan, o irmão mais correto da família e que busca sempre seguir os passos de Jimmy; e Riley Keough como uma grata surpresa nesta produção como a irmã cabeleireira e um ás do volante da dupla Jimmy e Clyde.

Além destes quatro atores, que são o destaque nesta produção, vale comentar o bom trabalho de Farrah Mackenzie como Sadie Logan – como não lembrar de Abigail Breslin e a sua Olive Hoover no genial Little Miss Sunshine?; David Denman como um americano típico boçal e, neste filme, vendedor de carros chamado Moody Champman; Seth MacFarlane como outro boçal, o dono de uma marca de energético, chamado Max Chilblain; Jack Quaid e Brian Gleeson como os irmãos de Joe Bang, respectivamente Fish e Sam; Katherine Waterston perfeita como Sylvia Harrison, uma garota mais nova que Jimmy e que era fascinada por ele no colégio e que volta a encontrá-lo nesta nova fase “decadente”; Lauren Revard em uma ponta como a colega de Sylvia; Jon Eyez como Naaman, o parceiro de Joe Bang nos planos para a fuga e retorno para o presídio; Deneen Tyler como a enfermeira do presídio que atende Joe Bang; e Dwight Yoakam em um papel especialmente engraçado (e cheio de estereótipos) como o diretor do presídio que não admite nenhum problema ou erro.

Outros atores com papéis menores estão ok, preenchem a tela nos momentos devidos. Mas alguém que tem uma certa relevância na história e que não convence em seu papel em momento algum, muito pelo contrário, é a atriz Katie Holmes. Chega a ser um pouco angustiante o desempenho dela. Achei muito fraco, muito distante de outros papéis que ela já fez.

Entre as qualidades técnicas do filme, o principal aplauso vai para a trilha sonora de David Holmes. O que ouvimos na telona é o ponto alto da produção – assim como o elenco. Depois, vale comentar a edição de Steven Soderbergh (que assina como Mary Ann Bernard); o design de produção de Howard Cummings; a direção de fotografia de Soderbergh (que assina como Peter Andrews); a direção de arte de Eric R. Johnson e de Rob Simons; e os figurinos de Ellen Mirojnick.

Logan Lucky estreou em uma première em Tel Aviv no dia 7 de agosto. Depois, no dia 17 de agosto, o filme estreou na Austrália, em Israel e na Nova Zelândia. Nos Estados Unidos ele estreou no dia seguinte e, no Brasil, apenas no dia 6 de outubro no Festival Internacional de Cinema do Rio de Janeiro. Em circuito comercial no Brasil ele entrou em cartaz apenas no dia 12 de outubro.

Esta produção teria custado US$ 29 milhões e faturado, apenas nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 27,7 milhões. Nos outros países em que o filme já estreou ele fez outros US$ 15,1 milhões. Ou seja, somando estes dois mercados, o filme fez cerca de US$ 42,9 milhões. Como sempre calculamos o dobro do custo inicial para verificar o quanto um filme gastou – e aí sim incluindo cópias, distribuição, publicidade, etc. -, dá para perceber que Logan Lucky ainda não conseguiu dar lucro.

Ah, antes eu falei da Virgínia, certo? Estado que é “homenageado” por esta produção. Pois bem, vale dar uma lida nesta matéria do site português Publico. Nele eles comentam como a Virgínia é reduto da extrema-direita americana. Ou seja, nem preciso dizer que o filme toca em alguns pontos interessantes, ainda que de forma suave, certo? Acho que ele poderia ter sido bem mais contundente sobre a imbecilidade de alguns humanos que fazem parte daquele Estado…

Vale comentar, aliás, que Logan Lucky fala da Virginia mas não foi rodado lá. Esta produção foi rodada na Carolina do Norte e na Geórgia, em cidades como Clayton County, Douglasville e Charlotte – esta última sim, citada na produção.

Agora, algumas curiosidades sobre esta produção. Logan Lucky é o primeiro filme dirigido por Steven Soderbergh desde que ele anunciou a sua “aposentadoria” como diretor. A produção anterior que ele havia dirigido foi Behind the Candelabra. Para o próximo ano é esperado um novo filme dirigido por ele e estrelado por Juno Temple, Claire Foy, Aimee Mullins, entre outros. O filme no estilo “drama/horror” tem o título provisório de Unsane. Esperamos que ele traga alguma ideia nova, para variar…

Falando no filme dar ou não lucro, Soderbergh optou por uma forma diferente de distribuição do que a que Hollywood está acostumada. Para se livrar dos estúdios e ter “liberdade criativa” nesta produção, Soderbergh vendeu diretamente os direitos para distribuição estrangeira de Logan Lucky, assim como os direitos do filme ser exibido por HBO, Netflix e demais serviços do gênero. Com isso, o diretor e produtor garante que reduziu os custos com distribuição e que tornou mais fácil para o filme obter lucro.

Vários pilotos da Nascar aparecem nesta produção. Vale citar a aparição de nomes como Ryan Blaney, Kyle Larson, Carl Edwards, Kyle Busch, Brad Keselowski,Joey Lagano, Jeff Gordon e Darrell Waltrip – comento a lista aqui acaso tenha algum(a) fã de Nascar por aí. 😉

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,3 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 202 críticas positivas e apenas 15 negativas para o filme, o que garante para Lucky Logan uma aprovação de 93% e uma nota média de 7,3. Achei as duas notas boas e o nível de aprovação dos críticos especialmente generoso.

Logan Lucky é uma produção 100% dos Estados Unidos. Por isso esse filme entra na lista de críticas que atendem a uma votação feita aqui no blog há algum tempo.

CONCLUSÃO: Se você já viu aos filmes anteriores do diretor Steven Soderbergh, especialmente a Ocean’s Eleven, tenha certeza que você não vai ver nada de muito novo neste Logan Lucky. Sim, é verdade que o diretor resolveu fazer uma produção mais “realidade americana” desta vez. Então temos os vários sotaques do interior, aquele orgulho e estupidez inerente de muitos americanos – algo já bem explorado (e inclusive com maior qualidade) pelos irmãos Coen. O filme é engraçadinho e tem no ótimo elenco o seu principal trunfo. Mas o roteiro… infelizmente, é mais do mesmo. Nada de novo sob o sol, muito pelo contrário. Veja apenas se você gosta muito de algum dos atores em cena ou se não tiver nada melhor para fazer.

Mother! – Mãe!

mother-movie

Um dos filmes mais “malucos” e controversos que eu assisti em um longo tempo. Na verdade, se eu fosse fazer uma lista com estes predicados, provavelmente Mother! estaria no Top 5 avaliando todas as produções que eu vi até hoje na vida. Darren Aronofsky, de quem eu gosto tanto, desta vez foi um pouco longe demais. Claro que o diretor dá um show na condução da trama mas, no final, nos perguntamos para que tanto esforço. Dele e de quem assiste a este filme. Sim, há um objetivo claro nesta produção. Aronofsky, mais uma vez, alcança o seu objetivo. Mas isso não significa, exatamente, uma grande experiência para quem se lança no cinema para assistir à sua mais nova “peça de arte”.

A HISTÓRIA: Uma pessoa está pegando fogo. Enquanto as chamas queimam, uma lágrima cai pelo seu rosto. Um homem (Javier Bardem) coloca uma grande pedra transparente – que se assemelha à uma pedra preciosa – sobre um pedestal. Logo após ele fazer isso, tudo que estava queimado e que foi destruído pelas chamas volta a se regenerar e a voltar ao ponto anterior ao da destruição. A casa volta ao normal, cada detalhe, inclusive a mulher que está sobre a cama (Jennifer Lawrence). Ela acorda e caminha pela casa procurando por algo. Logo chama por “amor”, e descobrimos que ela é casada com o homem que conseguiu regenerar tudo.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Mother): Eu gosto muito do diretor Darren Aronofsky, como eu comentei antes. Ele é um dos diretores que eu gosto de acompanhar. Destes raros que eu procuro assistir a todos os filmes que ele já fez. Algumas das produções criadas por ele estão entre as minha preferidas de todos os tempos – com destaque para Requiem for a Dream.

Depois de falar sobre este contexto pessoal, como fã de cinema e de Aronofsky, devo dizer que fiquei chocada com Mother!. Mais que nada, porque achei este filme como um dos piores – se não o pior – da filmografia do diretor. E digo isso por várias razões. Mother! é pretensioso, é cansativo, e por mais que ele faça sentido se pensarmos na história dele de trás para a frente, ele me pareceu mais “sem pé e nem cabeça” do que o desejado. Desta vez, como falei lá no início, parece que Aronofsky quis dar vasão para a sua criatividade de uma forma mais visceral e “maluca” e acabou passando um pouco do limite.

Sei bem, assim como vocês, que cinema – e qualquer outro consumo artístico e cultural – é uma questão muito pessoal. O entendimento sobre cada filme e cada obra depende muito da nossa ótica, nossas experiências, crenças, valores e um longo etc. Mas, como sempre – e isso é chover no molhado -, falo por aqui sobre os filmes sob a minha ótica. Respeito as diferenças, as outras visões além da minha, mas meu papel aqui é falar sobre o que eu vi tendo como base o meu arcabouço de conhecimento e a minha ótica.

Pois bem, afinal de contas, sobre o que fala Mother!? (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). No início do filme e por um bom período dele, pensamos que esta produção trata de um casal que passa por uma certa crise e/ou que tem buscado coisas diferentes. Ainda que esta seja a aparência, alguns elementos – especialmente a direção muito bem feita de Aronofsky – nos fazem ter, permanentemente, uma certa sensação de estranheza e até de mal estar. Algo parece estar muito errado, apesar de toda a beleza que vemos na nossa frente – não apenas da protagonista, mas da casa e do cenário em que ela se move.

Então, evidentemente, aqui – e na vida mesmo -, as aparências enganam. Sim, sabemos que há algo de “muito podre no Reino da Inglaterra”. E aí passamos por um longo período de certa estranheza e angústia e, perto do fim, por uma viagem louca e frenética de cenas diversas de destruição e violência para, no fim das contas, entender o que? No final, finalmente, chegamos ao cerne da questão. Entendemos a razão deste filme existir. Ou seja, como eu disse antes, o estranhíssimo e um tanto pretensioso novo filme de Aronofsky tem sim um significado.

(SPOILER – não leia… bem, você já sabe). No final, bem no final, entendemos que a protagonista é a “musa inspiradora”, literalmente as lembranças de casa/das origens do poeta – e, claro, entendemos quem é aquele sujeito que está no comando de tudo o tempo todo. Assim, a personagem de Jennifer Lawrence, que nos créditos do filme recebe o nome de “Mother” – mas que durante o desenrolar da história é chamada de “meu amor”, “musa”, entre outros nomes – é, no fim das contas, as memórias que o protagonista tem da sua própria casa, do seu lar, de um lugar que não existe mais mas que o inspira para escrever a sua obra.

Em outras palavras, a personagem de Jennifer Lawrence é a “musa inspiradora” do poeta. Por isso mesmo que ela, após uma noite de paixão com o protagonista, consegue engravidar e, depois, dá a luz à “obra-prima” do protagonista. O personagem central de tudo isso, contudo, é o escritor/poeta interpretado por Javier Bardem. Ainda que a câmera de Aronofsky esteja permanentemente “colada” em Lawrence, acompanhando cada passo dela, toda aquela realidade e tudo que acontece com o “casal” só existe porque o personagem de Bardem existe.

No final das contas, parece que Aronofsky também brinca de ter em Lawrence a sua musa inspiradora. Afinal, é nela que a câmera dele está sempre focada ou próxima. Ela dita os movimentos do diretor. É como se ele não pudesse nunca perder de vista a sua inspiração – diferente do protagonista, que se encanta com vários outros elementos além da sua noção de “lar”. Encantado com o sucesso, muitas vezes ele se esquece da sua fonte de inspiração e dá as costas para ela.

Por sua parte, como a câmera está sempre acompanhando Lawrence, percebemos sob a ótica da inspiração os efeitos do desamor, do abandono e do esquecimento. Aquele sensação de estranheza e de certa angústia é provocada justamente pela falta de sintonia entre o que a inspiração do poeta deseja – apenas ele – e o que o próprio escritor lhe apresenta como resposta para os seus apelos.

Ou seja, para resumir, ao contrário do que pode parecer no início, este filme é uma grande reflexão sobre como as lembranças de um lar, as recordações da origem (e do amor) servem de inspiração fundamental para um artista/poeta e para a sua obra. E como este escritor/poeta/artista pode ser cruel, infiel ou inconstante em relação à sua fonte de inspiração quando começa a fazer sucesso e/ou volta a ser endeusado.

Mother!, no fim das contas, é uma viagem pessoal de Aronofsky sobre a fonte de inspiração de todo artista e de como esta fonte pode incomodar ou ser violentada/atacada de formas muito diversas em regimes totalitários, durante guerras, perseguições e uma bela variedade de conflitos. A inspiração e a arte estão sendo atacadas e sempre foram atacadas em diferentes lugares durante muitos períodos da História. E Aronofsky parece ter resolvido falar disso de uma forma bastante inusitada. Com Mother! o próprio diretor resolve fazer um trabalho mais “artístico”, mas será mesmo que ele conseguiu fazer esta entrega de forma perfeita?

Vou dividir esta resposta em duas partes. Em relação à direção, sem dúvidas Aronofsky faz mais uma entrega exemplar. Ele tem uma dinâmica interessante de câmera, cuidando de valorizar sempre a personagem de Jennifer Lawrence. Toda a narrativa está sob a ótica dela. Afinal, ela é a protagonista, a peça-chave de toda a produção. Ela inspira o artista, o poeta, e sem ela nada existiria. A musa inspiradora do protagonista e deste filme fica realmente no centro do “tablado” o tempo inteiro, e o esforço da direção de Aronofsky não é apenas de seguirmos de perto o que ela faz, mas também de sentir o mesmo que ela – incluindo bastante estranheza, confusão e mal estar.

Neste sentido, tanto a direção quanto boa parte do roteiro de Aronofsky fazem sentido e são coerentes – especialmente se pensamos no filme do final para o início. Porque, desta forma, tudo faz um pouco mais de sentido. Mas e o roteiro? Aronofsky também acerta no roteiro? É nesta parte fundamental de qualquer filme – para mim, sempre a parte central de uma produção – que o diretor/roteirista derrapa. É justamente em várias escolhas do roteiro que ele sugere ter uma obra pretensiosa demais. Vejamos.

Se a intenção do diretor era mostrar o quanto uma “musa inspiradora” é fundamental para um artista e o quanto ele pode se deixar levar pela fama, pelos fãs, pelo “circo” todo que envolve uma obra aclamada e, ao fazer isso, esquecer a sua musa e maltratá-la com esta indiferença, era preciso mesmo tanto ir-e-vir de personagens estranhos na história? O fã que chega sozinho e depois é seguido pela mulher e pelos filhos… eles realmente precisavam ocupar tanto tempo da história?

E, depois, quando o diretor vai inserindo outras pessoas em cena que “invadem” o espaço da “musa inspiradora” e que tornam a angústia dela cada vez maior, até que somos arrebatados por uma sequência maluca de diversos episódios da História em que a arte/a musa inspiradora foram atacadas, nos perguntamos: toda aquela “verborragia” cênica era realmente necessária? Ou foi apenas uma forma do diretor mostrar a sua capacidade? Da minha parte, tudo isso me pareceu o esforço de um artista de mostrar que ele sabe pintar com cores fortes e de forma “mais livre”. Mas isso nem sempre resulta em uma obra de arte como ele gostaria.

Sim, Aronofsky é um grande diretor. Ele sabe conduzir bem uma trama e os atores envolvidos neste projeto fazem um belo trabalho. Mas no final das contas Mother! se apresenta um filme longo demais, um bocado repetitivo e arrastado. E tudo para nos contar uma história sobre um artista e a sua musa inspiradora, e sobre como o mundo e os seus exageros corrompem esta relação que poderia ser perfeita. Enfim, lembrando uma obra de William Shakespeare, achei este filme “muito barulho por nada”. Ou quase isso.

Quando sai do cinema, fiquei um bom tempo pensando sobre a nota que eu daria para esta produção. Admito que, por gostar tanto de Aronofsky, eu comecei dando uma nota mais alta do que esta que vocês podem conferir abaixo. Se compararmos este filme com outros muito medianos que eu comentei aqui no blog e que, por alguma razão ou outra, acabaram recebendo um 8 ou um 8,5, provavelmente concordaríamos que estes outros filmes medianos são “menores” do que Mother!. Mas a nota abaixo foi dada apenas na perspectiva deste filme, sem tentar compará-lo muito com outros.

Pensei, na verdade, mais na obra de Aronofsky e no que eu acho que ele poderia ter apresentado em uma nova produção. E tendo isto como critério, mais do que o que eu tenho visto de outros diretores, é que eu resolvi dar uma nota mais baixo. Admito, sim, que eu esperava mais de Aronofsky. Até pelo que ele já nos apresentou. E se você começou a ver este diretor com Mother!, saiba que ele é muito melhor. Da minha parte, gosto muito de Requiem for a Dream, Pi e Black Swan (comentado aqui). Procure assisti-los, caso ainda não o tenha feito.

NOTA: 7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Eu assisti este filme no cinema. E achei interessante a reação das pessoas. Algumas desistiram do filme antes mesmo dele acabar. Notei isso, primeiro, com algumas pessoas abaixo de mim na sala acessando o tempo todo o smartphone, pouco interessadas naquela trama “circular” e repetitiva que estava passando na telona. Depois, algumas pessoas simplesmente saíram do cinema antes do final da trama. Respeito todas as opiniões, sempre, mas isso é algo que eu me recuso a fazer. Não importa o quanto o filme seja ruim ou me desagrade. Eu fico até o final.

Outras reações foram interessantes quando eu sai da sala de cinema. Na minha sessão haviam muitos jovens. Possivelmente pessoas que conheceram Aronofsky com o seu maravilhoso Black Swan, lançado em 2010. Estas pessoas saíram insatisfeitas do cinema. Algumas não entenderam a “moral da história”, o que o filme quis dizer. Outras – e dou razão para estas pessoas -, reclamaram do filme ser classificado como “horror” e “mistério”. Realmente, nada a ver ele estar na categoria “horror”. No fundo, Mother! é um drama sobre um artista e a sua busca incansável pela “fonte” de sua inspiração – a sua própria noção/lembrança de lar. Então, meus caros, é essencialmente um drama. Entendo a frustração de parte do público.

Ao fazer Mother!, Darren Aronofsky saiu muito da curva de tudo que um fã dele poderia esperar do diretor. Sim, ele é um sujeito criativo. Grande diretor, que domina muito bem os recursos e as técnicas do cinema. Mas com este filme ele caminhou em uma direção “artística” (entre aspas mesmo) muito diferente do que tínhamos assistido até então. Para mim, Mother! se assemelha muito a The Tree of Life (com crítica neste link), de Terrence Malick. Os dois filmes são controversos e dividem opiniões. São, ambos, do estilo “ame ou odeie”. E os dois sofrem do mesmo mal: tentam ser melhores do que realmente são.

Mas, admito, ainda que Mother! se assemelhe a The Tree of Life, eu ainda prefiro o primeiro. E isso tem tudo a ver com a minha admiração muito maior para Aronofsky do que para com Malick. Agora, como fã do diretor, o que eu espero é que ele nos apresente algo melhor na próxima vez.

Durante grande parte do filme, Mother! tem um grupo pequeno de atores em cena. Depois, o diretor descamba para uma “enxurrada” de pessoas que aparecem em cena como uma “invasão bárbara”. Muitos nomes, assim, aparecem quase como figurantes. De todos os atores envolvidos no projeto, sem dúvida o destaque principal vai para Jennifer Lawrence, que está linda e que faz um grande trabalho, repassando todo o desconforto e a paixão que a sua personagem pede. Em seguida, vale destacar o bom trabalho – ainda que não excepcional – de Javier Bardem como o escritor/poeta que tem uma relação profunda de amor com a sua musa inspiradora – mas que não cuida dela como deveria.

Além dos protagonistas, vale citar o bom trabalho de Ed Harris como o fã do poeta que procura o seu ídolo antes de morrer; Michelle Pfeiffer como a mulher dele; Brian Gleeson como o filho mais novo do casal e Domhnall Gleeson como o filho mais velho.

Lá pelas tantas Mother! descamba para uma violência considerável. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Esta acaba sendo a parte mais “louca” e criativa da produção – e que contrasta tanto com aquele “bucolismo” um tanto irreal anterior e que preenche boa parte do filme. Não é fácil ver a “musa” do poeta sendo agredida ferozmente. Também chega a dar um bocado de arrepios o fim que o “filho” do casal acaba tendo – mas devemos lembrar, nesta parte, que a criança era a nova obra do poeta, gerada pela união dele com a sua “musa inspiradora”. Ou seja, não era uma criança de verdade, e sim uma obra que acabou sendo vilipendiada e “devorada” pelos fãs do artista. Nesta parte, Aronofsky quer nos dizer que todos somos canibais quando se trata de uma obra. Queremos devorá-la e acabar com ela para satisfazer a nossa fome “por algo belo”. O diretor/roteirista está fazendo uma crítica mordaz sobre o consumo cultural e sobre o público que quer ter as suas vontades sempre satisfeitas, não importa como.

Comentei rapidamente, durante a semana, logo após assistir ao filme, que este não era o melhor trabalho de Aronofsky. Algumas pessoas se manifestaram com comentários lá. Agradeço à participação de Thales Salgado, Andressa Barroso Vieira e Enzo Santos. 😉 Por lá, o Thales perguntou o que eu tinha entendido sobre aquele líquido que a personagem de Jennifer Lawrence tomava de tempos em tempos. Respeito outras opiniões e formas de entender aquele trecho do filme, mas vou dizer aqui o que eu achei, beleza?

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Vamos olhar a questão de forma um pouco mais ampla. Quando tudo é destruído e volta a se regenerar, a “musa inspiradora” acorda e busca o seu amor, o poeta, correto? Neste começo, e por uma parte do tempo – até as “invasões bárbaras” começarem a acontecer -, a “musa” está sempre buscando o amor do poeta e vive uma certa “tranquilidade” em uma reforma do “lar” que parece ser sem fim. Neste começo pacífico, a musa literalmente sente o lar como um organismo vivo. Mas, conforme a história vai avançando e o poeta vai se distanciando da sua musa, a personagem de Lawrence vai se sentindo cada vez mais e sente que o “organismo vivo” do lar está se deteriorando, como que passando por um tipo de câncer – ou, se olharmos por outra ótica, voltando para o estágio de destruição/carvão após o fogo. A deterioração do sentido de lar – que, no fim das contas, é o que representa a musa do poeta – vai ocorrendo aos poucos e vai se manifestando de diferentes formas.

Cada ameaça para a tranquilidade e a idealização da relação entre a musa e o poeta parece provocar dor e início de perda de sentido para a musa. Sim, ela está sendo ameaçada. Os elementos externos simbolizados pelos fãs do poeta – mas que significam também dinheiro, fama, holofotes e, depois, guerra, perseguição, ditaduras, conflitos variados – representam perigo para a musa. Inicialmente este risco era enfrentado por ela com o tal líquido dourado. O que ele representa? Para mim, qualquer dose de algo que possa tranquilizar a inspiração de um artista. Aquele líquido serve como um “elixir” de inspiração. Alguns se inspiram e/ou se conectam com a sua fonte de inspiração bebendo, enquanto outros conseguem isso com drogas ou outras formas de “religar-se” com o que lhe inspira – no caso do protagonista, com a ideia de “lar” original. Então eu não acho que exista apenas uma resposta para a pergunta. Mas acho que o líquido representava uma forma da inspiração manter-se sólida apesar das ameaças externas.

Da parte técnica do filme, sem dúvida alguma o destaque vai para a direção de Aronfosky. Ele faz um belo trabalho, especialmente ao decidir sempre ter a câmera perto da protagonista Jennifer Lawrence. Claramente também ele opta por uma direção “fluída”, que faz com que o nosso olhar esteja sempre deslizando pelo espaço daquela casa que é tão protagonista quanto a musa e o poeta. Além disso, o diretor sabe valorizar bem o trabalho dos atores em cena.

Para que o filme tenha a entrega competente que ele tem – pena que o roteiro seja o ponto falho -, foi necessário o bom trabalho de outras pessoas. Destaco, neste sentido, o trabalho de Matthew Libatique na direção de fotografia; de Andrew Weisblum, com um trabalho excepcional na edição; de Philip Messina no design de produção; de Isabelle Guay e de Deborah Jensen na direção de arte; de Danny Glicker nos figurinos; de Larry Dias e Martine Kazemirchuk na decoração de set; assim como o ótimo trabalho dos 14 profissionais envolvidos com a maquiagem; dos 17 profissionais que fazem um trabalho excepcional com um elemento fundamental para a história, que é o som; e o impressionante número de 173 profissionais envolvidos nos efeitos visuais desta produção – que, ok, é um elemento importante no filme, mas que convenhamos… não o torna melhor. Para verem como o roteiro realmente é uma parte fundamental. Mother! é bem acabado, tecnicamente falando, mas não é brilhante ou inesquecível.

Estava pensando agora… alguns podem ter pensado sobre a razão do título deste filme ser “Mother!”. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Para mim, este título faz referência à “mãe” de todas as artes: a inspiração que move o artista. Seja ele poeta, escritor, artista plástico, músico ou cineasta. E a “mãe” de toda a arte, segundo Aronofsky, seria a lembrança de lar que o artista tem. E isso é fato. Várias e várias obras singulares na História da humanidade, se pararmos para pensar, tem a ver com as lembranças que o artista tem e/ou a noção que ele próprio apresenta de lar, daquilo que ele entende como as suas origens e o seu amor mais duradouro.

Mother! estreou no dia 5 de setembro no Festival de Cinema de Veneza. Até outubro, ele terá participado de outros sete festivais. Como estamos partindo já para o final de 2017, impossível não pensar se este filme chegará com fôlego no próximo Oscar. Da minha parte, acho que não. Mas veremos se estou certa ou errada logo mais. 😉

Esta produção teria custado cerca de US$ 33 milhões. Grande parte do recurso gasto, imagino, nos cachês dos protagonistas/elenco e com os efeitos especiais. De acordo com o site Box Office Mojo, Mother! fez cerca de US$ 15,3 milhões nos Estados Unidos e pouco mais de US$ 13 milhões nos outros países em que ele já estreou. Ou seja, até o momento, teria feito cerca de US$ 28,3 milhões. Verdade que esta produção tem uma história recente. Ainda assim, me parece, vai fechar no vermelho. E, francamente, isso não me surpreende.

Agora, algumas curiosidades sobre esta produção. De acordo com as notas de produção de Mother!, este filme tem como as suas inspirações evidentes filmes como Rosemary’s Baby, dirigido por Roman Polanski e lançado em 1968, e Collective Unconscious, dirigido por Dylon Matthews e lançado em 2004. Me chamou a atenção a nota alta deste segundo filme, com nota 9,9 no IMDb.

A atriz Jennifer Lawrence e o diretor Darren Aronofsky começaram a namorar durante as filmes de Mother!. Realmente ele parece ter achado a sua musa inspiradora. 😉 Espero que ela lhe inspire a apresentar algo melhor da próxima vez.

Para explicar um pouco a “confusão” artística de Mother!, acho interessante citar parte de algumas declarações de Aronofsky sobre o filme. Ele começa comentando que acha incrível como muitas pessoas ainda neguem a destruição do planeta que a humanidade está causando com a sua “pegada” no mundo. E que foi a angústia e o “desamparo” provocado por esta reflexão que fizeram, um certo dia, o diretor acordar de manhã com a ideia de Mother! surgida como um “sonho febril”. Enquanto os filmes anteriores do diretor surgiram após o trabalho dele no roteiro desenvolvido durante alguns anos, a primeira versão de Mother! surgiu em apenas cinco dias – isso explica o porquê deste ser o seu pior roteiro, acredito.

Um ano depois do diretor ter escrito a primeira versão do roteiro de Mother! ele já estava filmando a produção. E, dois anos depois, tinha ela pronta para apresentar para o público. Da minha parte, sempre fui da opinião que o quanto mais você trabalha e se dedica para uma história, melhor ela sai. Mother!, para mim, é o sonho filosófico de um diretor que quer denunciar algo e que apresenta isso de forma visceral. Nem sempre isso quer dizer bom.

De acordo com Aronofsky, Mother! começa como uma história sobre um casamento. No centro desta história está uma mulher que é estimulada a dar, dar, dar até não poder dar mais nada. Eventualmente, comentou o diretor, a câmera que foca esta história não consegue conter a pressão que está “fervendo” dentro desta visão. E daí a história se torna, segundo o próprio Aronofsky, “outra coisa que é difícil explicar ou descrever”. Percebemos. hehehehehe. Aronofsky também diz que não sabe identificar, exatamente, de onde tudo que ele nos apresenta neste filme veio.

Parte teve origem nas “manchetes dos jornais” de cada dia (com as suas notícias ruins), parte veio do “zumbido interminável de notificações dos nossos smartphones”, outra parte veio do apagão provocado pelo furação Sandy no Centro de Manhattan, e outras partes vieram do “coração e do instinto” do diretor. Aronofsky diz que o resultado de tudo isso é algo que ele nunca será capaz de reproduzir novamente, e que tudo acabou sendo “servido” como um bêbado que toma a sua melhor dose em um único “shot” de bebida. E que esta bebida bate no bêbado de volta. Bem, talvez essa seja a explicação, afinal, daquele líquido que a “musa” do filme toma. 😉

A atriz Jennifer Lawrence mergulhou tanto em sua personagem que, na cena do clímax da produção, a atriz começou a hiperventilar e até quebrou uma costela – certamente naquela sequência maluca de agressões que ela passa.

Mother! recebeu uma classificação “F” do CinemaScore. Este é o pior resultado que um filme pode obter. Por isso mesmo, é uma classificação rara. Apenas 19 filmes receberam, antes, a classificação “F”.

Esta produção recebeu tanto vaias quanto aplausos na sua estreia no Festival de Cinema de Veneza. Eu entendo. Como eu disse antes, é um filme controverso. Bem ao estilo “ame” ou “odeie”. Da minha parte, não achei ele tãooooo ruim assim. Mas também não achei ele ótimo. Acho que fico mais sobre o muro – e sim, ele seria melhor com meia hora a menos.

O ponto de exclamação no título do filme, segundo Aronofsky, faz alusão aos últimos 30 minutos “efusivos” da produção.

Esta produção obteve apenas US$ 7,5 milhões de resultado nas bilheterias em seu final de semana de estreia nos Estados Unidos. Este resultado torna Mother! como o pior resultado nas bilheterias para um filme estrelado por Jennifer Lawrence.

Antes de Mother! começar a ser filmado, o elenco ensaiou a produção durante três meses em um armazém para que o diretor pudesse testar os movimentos de câmera e aprender com eles para que, quando as filmagens começassem para valer, tudo estivesse fluindo como ele desejava. Deu certo. O filme realmente tem uma direção incrível.

Hummm… e agora alguns comentários do diretor que desmontam totalmente o que eu tinha entendido do filme. hahahahahaha. Mas faz parte, né? Filmes “artísticos” tem muito isso. Cada um entende de uma forma e todos estão certos sobre as suas compreensões. Mas, vejam bem… Aronofsky acabou falando sobre as intenções dele com esta produção. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Segundo o diretor, o título Mother! realmente faz alusão à Mãe Natureza. Jennifer Lawrence interpretaria essa Mãe Natureza, e os demais personagens todos fariam alusão à personagens bíblicos. Por exemplo, Javier Bardem está apenas identificado como Ele e, por isso, ele seria Deus. Ed Harris seria Adão, e Michelle Pfeiffer seria Eva. Os filhos do casal seriam Caim e Abel.

Hummmm… Posso falar e ser franca? Agora sim eu acho que ele pirou. Com todo o respeito. hahahahahaha. Sob esta ótica, a Mãe Natureza só quer saber de Deus, e Este acaba ignorando ela e deixando ela sozinha muitas vezes porque está mais fascinado com a Humanidade e a adulação que as pessoas fazem Dele? Olha, ainda prefiro a minha interpretação do filme. Me parece menos absurda. 😉 E fiquei pensando… sob esta ótica “bíblica” do diretor, quem seria o bebê devorado pelo coletivo? O nosso futuro? Ok, até faz sentido, mas acho ainda mais loucura do que a visão “artística” que eu citei acima.

Até porque, sob esta ótica “bíblica” do diretor, o Deus apresentado por ele seria egoísta, suscetível a ter o ego inflado pela Humanidade e pouco amoroso com grande parte da sua criação, representada pela Mãe Natureza, não? Beleza. Entendo que o diretor esteja bravo e que vá “contra Deus”, mas esta visão é totalmente contra a visão dos cristãos, correto? Enfim, achei, sob esta ótica, a obra ainda mais desnecessária. Mas respeito o diretor. Só acho que ele perdeu uma boa oportunidade de não entrar na seara da fé e de apresentar algo melhor…

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,0 para esta produção. Achei ela muito boa, levando em conta o padrão do site. Por sua vez, os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 173 críticas positivas e 84 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 67% e uma nota média de 6,7.

Para quem, como eu, gosta de saber onde os filmes foram rodados, Mother! foi totalmente filmado na cidade de Montreal, no Canadá. Ainda assim, esta é uma produção 100% dos Estados Unidos – e, por causa disso, ela atende a uma votação feita há algum tempo aqui no blog.

Honestamente? O filme merecia até menos que um 7. Mas como eu gosto do diretor… não consegui abaixar a nota menos que isso. Espero que me perdoem. 😉

CONCLUSÃO: Este é o filme mais ousado, experimental e artístico do interessante diretor Darren Aronofsky. Mas nem por isso, ou por causa de tudo isso, este não é o seu melhor filme. Está bem longe disso, na verdade. Desta vez Aronofsky abriu todas as comportas da sua imaginação para nos apresentar um filme que é um grande libelo sobre a criação artística. Ok, a obra é interessante se entendida do final para o começo. Mas e tudo que passamos até chegar ao momento da “eureca”? Achei esta produção longa demais e com tintas um tanto forçadas para apresentar o conceito que ela apresenta. Não apenas este não é o melhor filme do diretor como ela também não é tão “obra de arte” quanto o diretor gostaria. Deixa o público perplexo, mas não imprimi realmente uma marca na lembrança do cinéfilo. Será esquecido com uma certa facilidade. Uma pena.