Categorias
Cinema Cinema europeu Cinema norte-americano Crítica de filme Filme premiado Globo de Ouro 2020 Movie Oscar 2020

Marriage Story – História de um Casamento

O amor vira indiferença ou ódio com tanta facilidade que chega a assustar. O que uniu e fascinou pode até ser recordado, mas parece que não faz mais sentido. A vontade de cada um seguir para lado diferentes é maior. Marriage Story é um filme que conta, com muito realismo, a história triste de um casamento que chegou ao fim. Destaque para a interpretação dos protagonistas e, principalmente, para o roteiro, com cada linha escrita com esmero e muita precisão/inspiração.

Categorias
Cinema Cinema norte-americano Crítica de filme Filme premiado Globo de Ouro 2019 Movie Oscar 2019 Votações no blog

BlacKkKlansman – Infiltrado na Klan

Um filme contundente, bem ao estilo de seu realizador. Mas nós precisamos de filmes assim, ao menos enquanto restarem pessoas intolerantes e racistas, do tipo que se acha superior a outros grupos e pessoas. BlacKkKlansman mergulha na diáspora racial dos Estados Unidos. Faz isso seguindo a lógica do “teatro do absurdo” sem deixar de lado o tom crítico político – com diversas citações a um governo que dá margem para brancos supremacistas acharem que a “hora deles chegou”. Por sua temática, crítica e narrativa envolvente, merece chegar até o Oscar 2019, sem dúvidas.

A HISTÓRIA: Começa com uma sequência de …E o Vento Levou, com Scarlett (Vivien Leigh) buscando o Dr. Meade em meio a diversos feridos. Depois de perguntar pelo médico algumas vezes, ela diz: “Que Deus salve a Confederação”. A sequência fecha na bandeira dos Confederados. Em seguida, a mesma bandeira aparece nas costas do Dr. Kennebrew Beauregard (Alec Baldwin), que diz que o país está sob ataque. Ele comenta que as pessoas estão vivendo em uma época marcada pela “integração e miscigenação” e que isso precisa ser combatido. Em um mesmo vídeo de propaganda, ele ataca os negros, os judeus e a Suprema Corte que “obrigou” crianças brancas a conviverem com crianças negras na escola.

Esse é o pano de fundo desse filme, que conta a história de Ron Stallworth (John David Washington), o primeiro policial negro de Colorado Springs. Cercado de policiais brancos por todos os lados e inserido em uma sociedade com muitos rasgos racistas, Stallworth tem a ideia, após ver a um anúncio no jornal, de entrar em contato com a Ku Klux Klan local. Ele começa a investigar o grupo e tenta “entrar” nele como “policial infiltrado”. Como ele é negro, ele acaba dividindo a sua “identidade” com o colega Flip Zimmerman (Adam Driver).

VOLTANDO À CRITICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a BlacKkKlansman): Na definição/categorização deste filme, ele aparece como “Biográfico, Crime, Drama”. Spike Lee acerta em cheio ao resgatar uma história realmente impressionante, de um homem que enfrentou todos os preconceitos e barreiras sociais e discriminatórias para se tornar o primeiro policial negro da sua cidade.

Mas não apenas isso. Ele faz algo inacreditável: se voluntaria como um novo voluntário para participar da Ku Klux Klan local. Mesmo que você não saiba muito sobre esse grupo, é claro que você sabe que eles são um bando de supremacistas brancos que se acham superiores e detentores da “missão” de atacar negros e pessoas que defendem o direito de todos terem a mesmas oportunidades e conviverem nos mesmos locais. Assim, como um negro pode trabalhar como um infiltrado na KKK? Impossível, é claro.

Mas é justamente isso que o protagonista desse filme faz. Ele sabe como ninguém como pensam os brancos preconceituosos e como falar/lidar com eles. Então ele está mais que preparado para lidar com os líderes do movimento, mas sempre por telefone. Quando tem que conviver com o grupo, quem se passa por Ron Stallworth é o seu colega, um dos policiais brancos mais abertos à conviver com um negro na corporação, Flip Zimmerman.

O diretor e roteirista Spike Lee – que escreveu esse roteiro juntamente com Charlie Wachtel, David Rabinowitz e Kevin Willmott – acerta na mosca na construção interessante que ele faz sobre essa história. Ele começa com uma provocação sobre a influência cultural que reforça ou sugere uma justificativa para o preconceito racial – inclusive em clássicos como …E o Vento Levou e O Nascimento de Uma Nação, dois filmes com trechos reproduzidos em BlacKkKlansman – e prossegue com a gravação de uma propaganda criminosa que reproduz essas ideias segregacionistas.

A forma com que BlacKkKlansman é construída é muito interessante por isso. Porque o filme constrói a narrativa de forma direta, mostrando todo o absurdo daquela corrente supremacista branca que considera todos os negros “estupradores e assassinos”, como argumenta Beauregard, apenas pela cor de sua pele. Isso não tem o mínimo sentido, evidentemente, mas o filme conta sobre uma época em que isso era defendido através de vídeos, de manifestações públicas e por grupos como a KKK.

Ao mesmo tempo, temos a um negro que sonha em ser policial e que se “aventura” em meio a um grupo de brancos – com parte deles sendo racistas também. Inicialmente, ele é colocado em uma tarefa burocrática, mas ele logo manifesta o seu desejo, para o Chefe Bridges (Robert John Burke), de ser um policial infiltrado. Qual é a primeira missão que dão para ele? Dele se infiltrar em um encontro político negro para saber sobre as “intenções dos agitadores” e, ao investigá-los, evitar “distúrbios” na cidade.

Os negros tem que ser controlados e calados. No mínimo. Isso é o que a autoridade policial defende, também influenciada por uma cultura historicamente racista. Vale ponderar que Colorado Springs é uma cidade situada na região central dos Estados Unidos – ou seja, fica entre o limiar do Sul mais preconceituoso e o Norte mais “liberal”. Spike Lee explora esses conceitos e esse “pano de fundo” muito bem.

Diversos momentos do filme beiram ao absurdo. Ao menos, sob a ótica de alguém “normal” que sabe que negros e brancos são iguais, deveriam ter os mesmos direitos e oportunidades, e vêem como absurdo o discurso supremacista branco. Por isso mesmo é especialmente incrível observar aquelas linhas iniciais de Lee comentando que “essa parada é baseada em uma merda muito, muito real”. Porque sim, existiu um Ron Stallworth que vivenciou aquilo que vemos em cena e que escreveu um livro para contar a sua experiência.

A narrativa de Lee é envolvente e o roteiro explora bem a história que beira o absurdo – mas que também convence por seus contratempos e pequenos “deslizes” aqui e ali. Stallworth e Zimmerman são corajosos ao assumir aquela missão de se infiltrarem na KKK para saber o que eles estão planejando. No fim, a missão deles evita uma ou mais mortes. Mas o grupo vai continuar aterrorizando, inclusive com a conivência de autoridades locais (ou nacionais).

Nesse quesito, claro, Spike Lee não poderia se furtar de fazer uma referência clara ao “supremacista branco” que está governando o país novamente. Assim, BlacKkKlansman conta sim uma história específica, mas também não fecha os olhos para um dos maiores líderes da KKK, David Duke (Topher Grace) que é, adivinhem?, um dos mais efusivos apoiadores do atual líder máximo da nação.

É de arrepiar que essas e tantas outras pessoas defendam os “sagrados valores brancos protestantes”. Me desculpem o palavreado, mas essa é uma gente escrota e sem contato com a realidade. Sem a mínima noção do que estão falando ou defendendo. Mas é uma gente desequilibrada e perigosa, como BlacKkKlansman mostra bem. O grupo no qual Zimmerman se infiltra tem pessoas beeem desajustadas – e armadas.

O filme nos faz pensar, especialmente até quando essa queda de braços vai continuar. Enquanto houver um grupo falando em “supremacia branca”, certamente haverá um grupo pedindo por “empoderamento dos negros”. Essa é uma luta que nunca irá terminar enquanto tiver pessoas dividindo a sociedade dessa forma. Será que é tão difícil vivermos em uma sociedade em que as políticas públicas e as pessoas comuns realmente busquem por igualdade de oportunidades para todos, independente da cor da pele.

Claro que existe uma desigualdade histórica que precisa ser resolvida. Mas espero que um dia os policiais e as autoridades dos Estados Unidos parem de fechar os olhos para grupos criminosos, racistas e violentos como a KKK e os combatam de uma maneira mais efetiva. E que outras medidas sejam tomadas para educar as pessoas e buscar eliminar tanta ignorância no mundo. BlacKkKlansman trata destas questões de maneira franca e crítica. Precisamos de filmes assim, que coloquem o dedo na ferida e que não façam esquecermos dos absurdos que perduram.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Spike Lee bebe de muitas fontes para fazer este filme. Apesar do foco dele ser o primeiro negro policial em uma cidade da área central dos Estados Unidos, ele também faz alusões a várias outras fontes de referência. Além dos filmes que ele “cita” na produção literalmente, ao reproduzir trechos das produções, ele faz “colagens” de rostos, ao estilo de filmes antigos que adotavam este tipo de transição para dar dinâmica para a narrativa, e também mergulha um pouco na cultura negra do final dos anos 1970 – quando o filme é ambientado.

Há quem tenha visto “comédia” nesse filme. Honestamente? Eu não vejo comédia em BlacKkKlansman. Esse filme nos conta histórias que fazem parte da realidade dos americanos até hoje. O conflito racial por lá é muito mais claro e mais extremo do que estamos acostumados no Brasil. Mas é bom falarmos sobre aquele nível de ignorância e sobre aquele preconceito que vemos em cena para evitar que isso aconteça por estas bandas. E sempre que vejo a um filme como BlacKkKlansman me pergunto: será quem um dia os Estados Unidos vão conseguir resolver este problema? Parece algo realmente complicado, especialmente no governo atual. O que é lamentável.

Bom ver Spike Lee em grande forma novamente. Acho que ele retorna em grande estilo para a temporada de premiações. Nesta produção, ele nos apresenta uma história realmente interessante e bem conduzida. Mérito dele, dos roteiristas que fazem o roteiro com ele e dos atores – especialmente John David Washington e Adam Driver estão muito bem.

Além de Washington e de Driver, grande responsáveis pelo sucesso desta produção, vale comentar o bom trabalho de diversos coadjuvantes, a começar por Robert John Burke como o Chefe Bridges, que está no limiar do racismo; Brian Tarantina em uma super ponta como o Oficial Clay Mulaney, apoiador de Stallworth e de Zimmerman; Ken Garito como o Sargento Trapp, outro que fica mais do lado de Stallworth do que contra ele – muitas vezes ele é “a voz da razõa” de Bridges; Frederick Weller como o policial racista Andy Landers; Laura Harrier como Patrice Dumas, a líder do movimento estudantil negro por quem Stallworth se interessa; Ryan Eggold como Walter Breachway, o líder local da KKK; Jasper Pääkkönen como Felix Kendrickson, um dos mais extremistas membros da KKK local, junto com a sua mulher Connie, interpretada por Ashlie Atkinson; e Paul Walter Hauser como o “bobão” Ivanhoe, outro membro da KKK sedento por puxar o gatilho e acertar alguns “negros”.

Acho impressionante como a galera “macho branca” retratada por este filme, tempos depois do final da Segunda Guerra Mundial, continua defendendo os “sagrados valores brancos protestantes”, classificando negros como inimigos e “estupradores e assassinos” que querem atacar as “mulheres brancas virgens” e atacando o que chamam de “conspiração judaica internacional”. Como alguém pode proferir estas palavras e ideias? E mesmo acreditar nisso? Honestamente, é algo ultrajante e que não faz rir, mesmo pelo absurdo, mas apenas lamentar e nos indignar.

Impressionante como Stallworth é “ensinado” a aceitar qualquer barbaridade que ele for escutar. Afinal, ele é a “minoria” que deve se adaptar. Sério? Sério mesmo? Não importa se você está sozinho ou se você é o único em uma batalha. Se você está certo e defende os valores certos, isso é o que importa.

Entre os aspectos técnicos do filme, destaque para a edição de Barry Alexander Brown; para a trilha sonora de Terence Blanchard; para a direção de fotografia de Chayse Irvin; para o design de produção de Curt Beech; para a direção de arte de Marci Mudd; e para os figurinos de Marci Rodgers.

Antes, eu falei, essencialmente, sobre os pontos positivos de BlacKkKlansman. Mas o filme não é apenas acertos. Para mim, apesar de ser uma história interessante e bem conduzida, o filme perde um pouco de força ao querer contar uma história “semi” de amor entre o protagonista e a sua protegida, assim como em querer “abraçar” toda a cultura negra da época. Algumas festas e inserção de música pode ter sido interessante, mas fica um bocado deslocado da história. Acho que o filme perde um pouco o interesse nesses pontos.

BlacKkKlansman estreou em maio de 2018 no Festival de Cinema de Cannes. Depois, até novembro, o filme participou de outros 14 festivais e mostras em diversos países. Até o momento, BlacKkKlansman ganhou 26 prêmios e foi indicado a outros 133 prêmios – incluindo quatro indicações ao Globo de Ouro. Ou seja, apesar de ter ganho alguns prêmios, ele foi mais derrotado do que saiu vencedor das premiações. Isso, acredito, mostre uma tendência. Do Globo de Ouro, por exemplo, ele saiu de mãos vazias.

Entre os prêmios que recebeu, destaque para o Grande Prêmio do Júri para Spike Lee e para a Menção Especial do Júri Ecumênico para o diretor no Festival de Cinema de Cannes; para o Prêmio da Audiência para Spike Lee no Festival Internacional de Cinema de Locarno; para o Prêmio de Melhor Filme Drama (Independente) no Satelitte Awards; e para nove prêmios como Melhor Roteiro ou Melhor Roteiro Adaptado. BlacKkKlansman também foi eleito, junto com outros nove filmes, com um dos filmes do ano segundo o AFI Award.

Agora, vale citar algumas curiosidades sobre BlacKkKlansman. Quem apresentou a história de Ron Stallworth para Spike Lee foi o produtor Jordan Peele. Lee achou a história do “homem negro que se infiltra na KKK” absurda demais, até que Peele garantiu para ele que a história era autêntica. Foi aí que Lee embarcou no projeto, porque achou que a história era ultrajante demais para ser ignorada. As únicas condições que Lee colocou para dirigir o filme foram de que ele pudesse incluir elementos cômicos e que pudesse fazer paralelo com questões raciais contemporâneas.

John David Washington é filho de Denzel Washington, ator que contracenou em quatro produções de Spike Lee.

O diretor Spike Lee recebeu uma ovação de seis minutos depois do filme ter estreado no Festival de Cinema de Cannes.

David Duke só descobriu que Ron Stallworth era negro em 2006, quando um repórter do Miami Herald ligou para ele para ouvir o seu lado da história. Lembrando que a história original do contato entre os dois remonta à década de 1970.

BlacKkKlansman é dedicado da Heather Heyer, uma garota que foi atropelada e morta em uma manifestação contra o movimento supremacista branco em agosto de 2017. Quando ela morreu, o filme estava sendo editado. Ao saber da história, Spike Lee quis incluir a homenagem no filme, lançando-o em circuito comercial um ano apos a manifestação “Unite the Right” e a morte de Heyer.

Esta produção é baseada no livro de memórias Black Klansman, lançado em 2014 por Ron Stallworth. Segundo Stallworth, o único arrependimento dele foi não ter exposto a história mais cedo, o que poderia ter mostrado o quão “bobo” foi David Duke nessa história e, com essa exposição, talvez ele teria prejudicado a carreira política do membro da KKK.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,6 para BlacKkKlansman, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 352 críticas positivas e 17 negativas para a produção – o que lhe garante uma aprovação de 95% e uma nota média de 8,3. O site Metacritic apresenta um “metascore” 83 para esta produção – fruto de 54 críticas positivas, de uma mediana e de uma negativa -, além do selo “Metacritic Must-see”.

De acordo com o site Box Office Mojo, BlacKkKlansman teria custado cerca de US$ 15 milhões e faturado, apenas nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 48,5 milhões. Nos outros mercados em que o filme já estreou, ele fez outros US$ 40,9 milhões. Ou seja, na soma, fez pouco mais de US$ 89,4 milhões – um grande sucesso para Spike Lee e um filme com lucro para os realizadores.

BlacKkKlansman é uma produção 100% dos Estados Unidos – por isso esse filme entra na lista de produções que atendem a uma votação feita há bastante tempo aqui no blog.

Importante comentar que já faz mais de 10 dias em que eu assisti a esse filme. Estou meio “devagar” nesse início de ano, eu sei, mas é por causa da correria. Mas tentarei ver a mais filmes a partir de agora, até porque em poucos dias teremos os indicados ao Oscar. E, além deles, temos muitos bons filmes interessantes para assistir. Tentarei acelerar as publicações por aqui, prometo. 😉

CONCLUSÃO: Spike Lee sempre foi contundente em seus filmes. Em BlacKkKlansman isso não é diferente. Em certo momento, ele resume o que vemos em cena. Enquanto houverem pessoas gritando por “poder branco”, haverão pessoas gritando por “poder negro”. De forma bastante honesta, envolvente e com um discurso político acertado perpassando tudo, Lee nos apresenta um filme chocante sobre o atraso em que muitos vivem ainda. Pessoas que buscam se colocar em patamar superior e menosprezar as outras, em um país dividido e com dificuldades de superar esta questão de atraso. Bem desenvolvido, BlacKkKlansman precisa ser visto. Simples assim.

PALPITES PARA O OSCAR 2019: Muitos apontam BlacKkKlansman como um filme forte na corrida pelas estatuetas do Oscar. Acredito que o filme tem grandes chances de figura entre as 10 produções que vão concorrer na categoria principal, de Melhor Filme. Não seria uma surpresa também se a produção emplacasse ainda indicações de Melhor Diretor, para Spike Lee, e de Melhor Roteiro Adaptado.

No Globo de Ouro, o filme também emplacou as indicações dos atores John David Washington e Adam Driver – como Melhor Ator – Drama e Melhor Ator Coadjuvante, respectivamente. Não sei se eles terão apelo ou força para emplacar as suas indicações no Oscar também, mas é fato que ambos estão muito bem.

Agora, que chances o filme tem de ganhar nestas categorias? Difícil dizer, neste momento, porque faltam muitos filmes para serem vistos ainda. Mas acho que BlacKkKlansman, apesar de corajoso e com um tom político marcante, algo que está em voga na Academia nos últimos antes, não tem exatamente o perfil de um vencedor do Oscar de Melhor Filme. Seria uma surpresa, e bastante positiva, se a Academia tivesse a coragem de premiar a um filme crítico como este. Terei chance de opinar melhor após assistir a outras produções que estão cotadas para esta disputa.

Categorias
Cinema Cinema norte-americano Crítica de filme Filme premiado Movie Oscar 2018 Saga Star Wars Votações no blog

Star Wars: Episode VIII -The Last Jedi – Star Wars: Os Últimos Jedi

O que realmente vale a pena ser ensinado e aprendido não pode ser encontrado em um conjunto de livros. Aprendemos com o exemplo, com a experiência e a sabedoria de quem já viveu um bocado, com suas histórias de sucesso e, principalmente, de fracasso. É o mestre Yoda que nos ensina em Star Wars Episode VIII: The Last Jedi que o fracasso é o nosso grande mestre. Que belo filme esse, aliás! Bom saber que a saga Star Wars voltou a encontrar o seu bom caminho, resgatando personagens fundamentais e nos apresentando uma nova geração interessante. A essência dos filmes originais está aqui, e avançando ainda mais na explicação da Força e do equilíbrio que é preciso ter no Universo.

A HISTÓRIA: Começa com a famosa trilha sonora que arrepia qualquer fã de Star Wars. Na sequência, os também famosos letreiros que introduzem a história explicam que a Primeira Ordem está dominando o Universo. Logo depois de dizimar a pacífica República, o Líder Supremo Snoke (Andy Serkis) mandou as suas tropas para assumir o “controle militar” da Galáxia. Apenas a General Leia Organa (Carrie Fisher) e o seu grupo de combatentes da Resistência se opõem à “crescente tirania”, acreditando que o Mestre Jedi Luke Skywalker (Mark Hamill) regressará e ajudará a reacender a luz de esperança de dias mais justos. O problema é que a Resistência foi descoberta, e enquanto a Primeira Ordem se dirige para acabar com a base dos rebeldes, um grupo de heróis organiza a fuga dos sobreviventes.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Star Wars VIII): A primeira grata surpresa desse filme: o diretor Rian Johnson não começou pelo óbvio. Digo isso porque como o filme anterior terminou com o encontro da nova heroína da saga, Rey (Daisy Ridley), com o até então “sumido” Luke Skywalker (o grande Mark Hamill), a expectativa “óbvia” dos fãs era que o novo filme começasse justamente desenvolvendo este encontro com expectativa alimentada durante o filme anterior.

Mas não. Johnson começa Star Wars Episode VIII de forma diferente. A espera pela primeira troca de palavras entre Rey e Luke acaba levando mais alguns minutos no novo filme. Antes, assistimos a algumas cenas de batalha e perseguição no Espaço, algo sempre muito celebrado pelos fãs da saga criada há exatos 40 anos – o primeiro filme, que virou Star Wars Episode IV, comentei há alguns meses aqui no blog.

Então o Episode VIII começa com a tentativa de fuga dos sobreviventes da Resistência, perseguidos pela Primeira Ordem – sistema que surgiu após a queda do Império Galáctico. Como a “fórmula” Star Wars pede – e que é seguida à risca nesta nova produção com roteiro de Johnson, baseado nos personagens criados por George Lucas -, o novo episódio da saga equilibra nas doses certas o humor, a ação, a adrenalina, o drama e a emoção.

O primeiro elemento que aparece em cena é o humor, com o piloto da Resistência Poe Dameron (Oscar Isaac) enganando o General Hux (Domhnall Gleeson), que está liderando o “cerco” contra as naves que tentam fugir. Em seguida, surge a ação, a adrenalina e a emoção, com a mobilização de parte das forças da Resistência para acabar com um encouraçado da Primeira Ordem.

Nessa operação, a Resistência registra muitas baixas e surge a primeira heroína desta produção – Paige Tico (Veronica Ngo), que se sacrifica para que a tentativa do grupo tenha êxito. O protagonismo das mulheres nesta produção, tão celebrada pelo retorno do personagem Luke Skywalker, que marcou a trilogia original da saga, chama a atenção, aliás.

Os fãs da série já esperavam um certo protagonismo das personagens Rey e Leia Organa (a maravilhosa Carrie Fisher) que, no Episode VII (com crítica neste link), já tinham mostrado bastante relevância na “nova trilogia”. Mas, tudo indicava, elas teriam ainda mais importância no Episode VIII. E isso, de fato, acontece. Mas elas não são as únicas mulheres que brilham em seus papéis e que acabam sendo decisivas no filme.

A personagem de Paige Tico aparece rapidamente na produção, mas ela acaba sendo lembrada por Rose Tico (Kelly Marie Tran) durante o restante do filme. A própria Rose, assim como a Almirante Holdo (Laura Dern) e Maz Kanata (com voz de Lupita Nyong’o), além de Rey e Leia Organa, são fundamentais para os acontecimentos desta história. Então sim, o Episode VIII mostra diversas mulheres corajosas, determinadas, valentes e que são as donas de seus destinos – e que influenciam, desta forma, diversas outras pessoas.

Assim, esse novo Star Wars está afinado com o nosso tempo, uma era em que (ainda bem!) cada vez mais mulheres assumem as suas opiniões e desejos sem ter que pedir licença para ninguém. O famoso “empoderamento feminino” está presente nesta nova produção da saga Star Wars. Mas isso não é tudo que chama atenção neste filme.

Gostei muito do equilíbrio que a produção busca (e consegue alcançar) dos elementos fundamentais que comentei anteriormente, assim como apreciei muito o lado mais “filosófico” desta história – se compararmos, por exemplo, com o Episode VII – e os encontros especiais que o filme promove. A verdade é que o Episode VIII é emotivo, desde o início, por sabermos que estamos vendo, na nossa frente, ao último filme estrelado pela atriz Carrie Fisher.

Essa atriz foi – e eternamente será – importante para a saga Star Wars, e quando vemos ela em cena neste seu último filme, cada “aparição” dela se torna especial. Como no Episode VII tivemos encontros emocionantes, como o de Leia Organa com Han Solo (Harrison Ford), neste novo episódio temos o memorável encontro de Leia com o seu irmão, Luke. Pessoalmente, achei até mais marcante e tocante o encontro do Episode VIII do que o ocorrido no episódio anterior. De arrepiar, por exemplo, quando Luke diz para Leia que alguém, quando morre, realmente não desaparece – impossível não pensar na atriz nesse momento.

Aliás, algo que gostei muito nesta produção é o avanço do filme na parte “filosófica” e de princípios da saga Star Wars. Quando Rey insiste e consegue vencer a resistência de Luke em ensiná-la sobre a Força, vemos a alguns minutos preciosos sobre a interpretação do personagem sobre a essência que perpassa todas as histórias da saga. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Com uma narrativa muito bem pensada e planejada, Johnson nos mostra a essência sobre a Força que, nada mais é, que a energia que perpassa todos os seres e que busca o equilíbrio constante.

Assim, como diversas religiões – inclusive o catolicismo – ensinam, nunca teremos realmente apenas a luz e/ou o bem no Universo. Como existe a luz, existe a treva, e como existe o bem, também existe o mal. Nunca teremos apenas luz ou apenas o bem, mas o equilíbrio entre estes elementos e a escuridão e o mal. Este é o ponto. No fim das contas, Star Wars e todos os seus filmes tratam desta busca constante pelo equilíbrio e sobre os problemas que surgem quando um destes elementos – mais notadamente o mal – prevalece.

Achei muito bacana a forma com que Johnson apresenta a explicação de Luke sobre a Força e como o próprio Luke questiona a existência dos Jedi. Talvez nesta parte que alguns fãs tenham se sentido “traídos” ou tenham ficado insatisfeitos com a história. Luke diz com todas as letras que os Jedi não são os únicos detentores da Força e nem os únicos que podem utilizá-la para o bem. Ele realmente “diminui” a importância dos Jedi e questiona como a arrogância deles – ou de parte deles, para ser mais precisa – acabou provocando mais danos do que ajudando para o equilíbrio do Universo.

Os super fãs da saga podem até não ter gostado disso, mas eu achei muito positiva esta ponderação. Afinal, podemos perceber isso em várias partes… como os detentores da “verdade” acabam se perdendo na sua arrogância e, apesar de terem qualidades e muito conhecimento, acabam indo contra tudo aquilo que acreditam e provocando mais mal do que bem. Esse comentário importante de Luke, que vivenciou a Força muito bem e que viu como ela podia ser mal utilizada – como muitas religiões, diga-se de passagem -, ajuda a explicar a cena final do Episode VIII.

Na sequência final, um grupo de crianças que são escravas está animado com a passagem das pessoas da Resistência por onde elas viviam e sonham com um futuro em que elas possam ser livres. Nessa cena, fica evidente o que Luke nos disse antes. Todos têm a Força dentro de si, basta acreditarem nela e a utilizarem da melhor forma possível para atingir os seus objetivos – e, preferencialmente, causas maiores que beneficiem mais pessoas. Aquelas crianças no final simbolizam a esperança e como a Força realmente está presente em todos. O que importa é o que fazemos com ela.

Ah sim, e antes de terminar estes comentários e avaliação sobre o Episode VIII, vale citar outro encontro mais que marcante nesta produção: o que acontece entre o mestre Yoda (voz de Frank Oz) e Luke. Para mim, uma das grandes sequências do filme – assim como o encontro entre Leia e Luke e a batalha “lado a lado” de Rey e Kylo Ren (Adam Driver).

No encontro entre o mestre Yoda e Luke, o mestre mostra toda a sua sabedoria ao dizer que Luke não deve se preocupar com a destruição dos “livro sagrados” e do primeiro tempo Jedi. Porque o que importa mesmo é o que aprendemos nas nossas trajetórias e em como repassamos isso para a frente – valendo as histórias de sucesso e, especialmente, as de fracasso. Uma grande lição, e que vale para todos nós. Para mim, um dos melhores filmes da saga.

NOTA: 9,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Eu assisti a esse filme em sua versão 3D. A exemplo do Episode VII, achei que este novo filme da saga merece ser visto na versão 3D, ainda que ele não tenha realmente um grande ganho, digamos assim, nesta versão. Mas a qualidade do 3D, especialmente na profundidade de cada plano e nos detalhes de alguma cena, tornam a experiência do filme ainda mais interessante. Recomendo.

Três personagens dos filmes originais voltam com tudo nesta nova produção. Dois deles, claro, com um protagonismo maior, e o terceiro em apenas uma sequência muito marcante. Me refiro aos personagens de Luke Skywalker, Leia Organa e Mestre Yoda, nesta ordem de importância para o Episode VIII. Luke aparece um bocado, e sempre com uma interpretação marcante de Mark Hamill. O ator mostra, agora de forma amadurecida, porque gostamos tanto dele no passado. Ele está ótimo. Carrie Fisher arrepia em cada cena em que aparece pela presença marcante e pelo talento da atriz e também por aquela questão “nostálgica” e de despedida que eu comentei anteriormente. E o Mestre Yoda tem algumas das falas mais importantes da história. Então estes três personagens “clássicos” retornando neste filme fazem qualquer fã arrepiar e delirar – ao menos isso aconteceu comigo.

Outros personagens da “velha guarda” aparecem nesta produção, mas com uma presença menos importante. Vale citar o C-3PO de Anthony Daniels; o maravilhoso Chewbacca de Joonas Suotamo – eu admito que quase tive um “ataque”, no bom sentido, cada vez que o Chewbacca apareceu em cena nesse novo filme; e o R2-D2 de Jimmy Vee. Bacana ver esses personagens marcantes novamente no cinema – mesmo que em participações menores, como é o caso do C-3PO e do R2-D2.

Algo bacana nesta nova trilogia que dá sequência para a saga Star Wars é encontrar novos personagens que seguem a essência dos personagens que deram início à série nos anos 1970 e 1980. Então é bacana “reencontrar” os personagens apresentados no Episode VII e se aprofundar um pouco mais nas suas histórias e, principalmente, personalidades. Dos novos personagens, o destaque vai, sem dúvida, para a Rey interpretada por Daisy Ridley; para o Finn do ótimo John Boyega – muito bons o ator e o personagem, aliás; e para o Kylo Ren de Adam Driver. Como na trilogia original existia o duelo entre o bem e o mal entre Luke e Darth Vader, agora o mesmo duelo é vivenciado por Rey e Kylo Ren.

Além destes três personagens centrais da nova trilogia, vale destacar o bom trabalho de Oscar Isaac como Poe Dameron e de Andy Serkis como Snoke. Outros personagens relevantes neste novo episódio e que foram bem interpretados por seus atores são a Maz Kanata de Lupita Nyong’o; o General Hux de Domhnall Gleeson; a Rose Tico de Kelly Marie Tran; e a Almirante Holdo de Laura Dern. O personagem DJ, interpretado por Benicio Del Toro, também tem relevância na história, mas achei ele o mais forçado de todos e o menos interessante da turma.

Entre os coadjuvantes do Episode VIII, vale ainda comentar o bom trabalho de Gwendoline Christie como a Capitã Phasma; de Billie Lourd como a Tenente Connix; de Amanda Lawrence como a Comandante D’Acy; e de Brian Herring e Dave Chapman como BB-8 (a nova “mascote” da trilogia).

Gostei tanto da direção quanto do roteiro de Rian Johnson. Acho que o diretor americano, que tinha pouco mais de três anos de idade quando o primeiro Star Wars estreou em 1977, encarnou bem o espírito dos filmes criados por George Lucas e soube resgatar a essência da saga no Episode VIII. Antes de fazer este filme, Johnson dirigiu a outras nove produções, incluindo quatro curtas, três longas e duas séries – 1 episódio de Terriers e 3 episódios da ótima Breaking Bad. A estreia dele em longas foi com Brick, em 2005. Depois viriam os longas The Brothers Bloom (2008) e Looper (2012) – esse último comentado aqui no blog.

Claro que um filme de ficção científica tem em seus aspectos técnicos alguns de seus principais trunfos. Isso sempre foi uma característica de Star Wars e continua sendo neste novo filme da saga. Entre os aspectos técnicos desta produção, destaque para a sempre marcante trilha sonora do mestre John Williams; para a direção de fotografia de Steve Yedlin; para a edição de Bob Ducsay; para o design de produção de Rick Heinrichs; para a direção de arte que envolveu 10 profissionais; para a decoração de set de Richard Roberts; para os figurinos de Michael Kaplan; para o Departamento de Maquiagem com 36 profissionais; para o Departamento de Arte com 180 profissionais – incluindo artistas conceituais e construtores de maquetes e afins; para os Efeitos Especiais criados por 63 profissionais; e para os Efeitos Visuais criados por cerca de 600 profissionais – admito que eu me cansei de contar e parei perto dos 300 artistas, mas a lista deve ser quase o dobro disso. Números impressionantes e que mostram o tamanho gigantesco desta produção. Sem essa turma, que não ganha os holofotes de outros nomes, o Episode VIII não existiria.

Star Wars Episode VIII estreou em première em Los Angeles no dia 9 de dezembro. Depois, no dia 12, ele fez première em Londres e, no dia seguinte, estreou no Festival Internacional de Cinema de Dubai e em 17 países – incluindo o Brasil.

De acordo com o site Box Office Mojo, Star Wars: The Last Jedi já figurava, no dia 27 de dezembro, como o segundo filme com a maior bilheteria de 2017, somando US$ 445,2 milhões apenas nos Estados Unidos – ficando atrás, apenas, de Beauty and the Beast. Olhando para os restante do mundo, no acumulado do ano, Star Wars já figurava em quarto lugar no ranking de 2017, com US$ 892,1 milhões até o dia 27 – atrás de Beauty and the Beast, Fate of the Furious e Despicable Me 3. Certamente o filme vai passar a marca de US$ 1 bilhão em breve.

Star Wars Episode VIII foi filmado em quatro países: Croácia, Irlanda, Bolívia e Reino Unido. Entre as cidades em que a produção passou, vale citar Dubrovnik, na Croácia, que fez as vezes de Cidade do Canto Bright; Skellig Michael e Brow Head, na Irlanda, que fez as vezes do Planeta Ahch-To; Salar de Uyuni, na Bolívia, cenário das cenas da batalha final; e muitas e muitas cenas rodadas no Pinewood Studios, em Iver Hearth, Reino Unido.

Eu vou abrir mão, dessa vez, de citar curiosidades sobre a produção, beleza? É que apenas o site IMDb traz nada menos que 129 tópicos sobre o filme… quem estiver muito curioso(a) em fazer essa imersão nas curiosidades de Star Wars Episode VII, sugiro visitar a página específica do IMDb.

Por falar em site IMDb, vale comentar que Star Wars Episode VIII registra a nota 7,6 no site que registra a opinião do público – menos que o seu antecessor, que registra a nota 8,0. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 314 textos positivos e apenas 31 negativos para o Episode VIII, o que garante para o filme uma aprovação de 91% e uma nota média de 8,1. O nível de aprovação e a nota do Episode VIII também estão ligeiramente menores que o do Episode VII no Rotten Tomatoes. Gostei mais do Episode VIII, pelas razões que comentei, e acho que estou mais próxima dos críticos, em relação a este filme, do que do público em geral.

Até o momento, Star Wars: The Last Jedi ganhou um prêmio e foi indicado a outros três – acredito que o filme será indicado em uma ou mais categorias técnicas do Oscar 2018. O único prêmio que o filme recebeu, até o momento, foi o Golden Trailer de Melhor Poster Fantasia/Aventura no Golden Trailer Awards.

Este filme é uma produção 100% dos Estados Unidos. Por isso, ele entra na lista de filmes que atendem a uma votação feita há algum tempo aqui no blog.

CONCLUSÃO: Eis um filme com o coração e o espírito nos lugares certos. Muito bom ver a saga Star Wars voltando aos seus grandes momentos. Este filme, mais até que o anterior da grife, nos apresenta a alguns dos elementos que fazem os fãs delirarem. Muitas batalhas no ar e algumas bem marcantes sobre a terra. Grandes personagens que voltam a se encontrar e uma nova geração que volta a formar a disputa clássica entre o Bem e o Mal, naquele jogo constante entre as forças contrárias em busca do equilíbrio. Aliás, Star Wars VIII avança um bocado sobre a explicação da Força e de como a lógica por trás da saga funciona. Além de todas as suas qualidades técnicas, que são variadas, este filme vale por alguns reencontros realmente marcantes e especiais. Para quem gosta de Star Wars, não dá para perder.

PALPITES PARA O OSCAR 2018: Star Wars Episode VIII tem grandes chances de fechar o ano como a maior bilheteria dos cinemas americanos. E isso com menos de um mês de tempo nos cinemas. Esse é um elemento importante que pode ajudar o filme a ser indicado a alguns Oscar’s. Acredito na indicação do filme em algumas categorias técnicas.

A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood inovou ao divulgar, no final de 2017, mais notícias sobre os filmes que foram, pouco a pouco, avançando na disputa por uma indicação. Até o final do ano, Star Wars seguia na disputa por uma vaga na categoria de Melhores Efeitos Visuais com outros nove títulos. Acho que o filme deve chegar na lista dos cinco indicados nessa categoria, assim como vejo chances dele ser indicado nas categorias Melhor Edição de Som e Melhor Mixagem de Som.

Talvez o filme até possa emplacar indicações nas categorias Melhor Trilha Sonora e Melhor Design de Produção, mas com chances menores de emplacar indicação e de ganhar uma estatueta. Na categoria Melhor Maquiagem e Cabelo o filme já ficou de fora da disputa – a Academia divulgou sete produções que seguem na disputa por uma das vagas de finalistas, e Star Wars não está no meio. Resumindo, esse filme pode até conseguir algumas indicações, mas possivelmente sairá de mãos vazias do Oscar – talvez vencendo apenas como Melhores Efeitos Visuais, e olha lá.

Categorias
Cinema Cinema norte-americano Crítica de filme Filme premiado Movie Oscar 2016 Saga Star Wars Votações no blog

Star Wars: Episode VII – The Force Awakens – Star Wars: O Despertar da Força

O que é bom, o que nos traz ótimas lembranças, deveria ser sempre revisitado. Assim como é bom, depois de quatro décadas do início de uma das grifes mais famosas do cinema, retomar alguns personagens que foram lançados há tanto tempo. E é exatamente isso que Star Wars Episode VII: The Force Awakens faz. Alguns de vocês podem estar achando estranho eu comentar este filme agora, mas é que eu perdi de assisti-lo quando ele estreou nos cinemas. E como eu quis assistir, nesse final de ano, ao segundo filme da nova trilogia da saga, segui o conselho de um amigo e vi a este filme primeiro. Star Wars VII é realmente um deleite, especialmente para quem ainda tem a saga original (relativamente) fresca na memória.

A HISTÓRIA: Inicia com a frase clássica “Há muito tempo em uma galáxia muito, muito distante…” e a música de início da saga que marcou o cinema há exatos 40 anos. Episode VII inicia comentando que Luke Skywalker (Mark Hamill) desapareceu, e que na ausência dele, a sinistra Primeira Ordem surgiu das cinzas do Império. Esse grupo procura por Skywalker e não descansará até que o “último Jedi” seja destruído. Com o apoio da República, a General Leia Organa (Carrie Fisher) lidera a Resistência que, por sua vez, também procura por Luke. Na missão de encontrar o seu irmão, Leia envia para uma missão secreta o piloto Poe Dameron (Oscar Isaac), que busca no planeta Jakku informações sobre o paradeiro de Luke.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Star Wars VII): O meu amigo, o Félix, estava certo. Eu realmente precisava assistir a esse Episode VII antes de conferir, nos cinemas, ao novo Episode VIII. Desta vez, aqui no blog, eu também fiz diferente. Assisti a este filme, comecei a escrever sobre ele, mas só terminei o texto cerca de duas semanas depois… nesse meio tempo, conferi ao Episode VIII nos cinemas e também escrevi sobre ele, começando o texto sobre o novo filme logo depois de assisti-lo e terminando o seu conteúdo apenas hoje.

Ou seja, pela primeira vez na história desse blog – ao menos pelo que eu tenho lembrança -, eu termino agora de escrever sobre um filme que foi o penúltimo que eu assisti e com uma crítica escrita posteriormente ao do blog post que eu ainda vou publicar. Eita! Espero não ter dado um nó na cabeça de alguém, mas tenho que ser sincera sobre a ordem dos fatos. Assim, assisti ao Episode VII um dia antes de ver nos cinemas ao Episode VIII, mas finalizei o texto do Episode VIII antes de terminar este texto aqui do Episode VII.

A escolha pela ordem dos fatos tem a ver com o “frescor” das lembranças na minha mente. Em casa, estou escrevendo este texto e vendo novamente ao Episode VII, enquanto que para escrever a crítica do Episode VIII eu contei apenas com as lembranças do que eu vi no cinema. Comentado isso, vamos ao que realmente interessa: as minhas impressões sobre este primeiro filme da nova trilogia da saga Star Wars.

Eu gostei do início do filme, com aquela alusão clara da nave gigante de outras naves menores saindo dela relacionadas com o filme que inaugurou a saga e que foi lançado em 1977 – revisto por mim este ano e comentado neste texto. Mas admito que algo me incomodou um pouco. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Na parte inicial do Episode VII, fiquei me perguntando: o que separa uma história que faz diversas homenagens para o filme original daquela história que parece carecer de imaginação?

Acredito que boa parte dos fãs curtiu as várias “homenagens” feitas pelo roteiro de Lawrence Kasdan, J.J. Abrams e Michael Arndt, inspirados nos personagens de George Lucas, à história original que apresentou a saga para o mundo em 1977. Digo isso pelas ótimas avaliações que esse filme recebeu e por verificar que, apesar do Episode VIII ter me parecido mais criativo e interessante, ele ter uma avaliação menos positiva que esse Episode VII. Entendo os fãs, mas eu fiquei um pouco incomodada com toda aquela “repetição” de padrões.

Nesse Episode VII temos, novamente, uma mensagem importante sendo escondida em um pequeno robô que, de forma leal, passa por diversos mal bocados até chegar a alguém de confiança que possa ajudá-lo. Mais uma vez, o vilão da história captura a um dos personagens importantes para tentar arrancar informações dele. No lugar do R2-D2, o robô da vez é o ágil BB-8 (interpretado por Brian Herring e Dave Chapman), e ao invés de um Darth Vader torturando uma Princesa Leia, temos Kylo Ren (Adam Driver) interrogando e torturando Poe Dameron.

A exemplo de Luke Skywalker, que contemplava os dois sóis no Star Wars Episode III, temos agora a nova heroína da saga, Rey (Daisy Ridley), também observando o anoitecer em sua cidade natal. Os dois personagens não foram criados por seus pais e tem curiosidade sobre as suas origens. Diversas semelhanças para um começo de história, não? Ao menos para o meu gosto, esse excesso de referências incomodou um pouco.

Mas descontado isso, devo dizer que esta história dirigida com esmero por J.J. Abrams cumpre totalmente o seu papel. Com um bom ritmo e resgatando a essência da trilogia original de George Lucas – aquela que encantou o público mundo afora nos anos 1970 e 1980 -, esse Episode VII volta a colocar a série de filmes com o selo Star Wars no caminho certo. Temos nesse Episode VII todos os elementos que encantaram as pessoas há algumas décadas.

O principal trunfo, possivelmente, destes filmes – e desse Episode VII – seja equilibrar os diversos elementos que fazem parte da vida de qualquer um de nós. Assim, nós temos drama, humor, ação, romance – ao menos sugerido – e suspense em um mesmo pacote. Um destaque deste filme, assim como do original de 1977, é a presença maior do humor e da ação na história. Esses elementos fazem com que esse Episode VII seja puro entretenimento. Um filme bem conduzido, com ritmo e que prende a atenção do público a cada segundo.

O interessante é que, ao mesmo tempo em que temos o resgate do “espírito” Star Wars nesse Episode VII e que vemos, literalmente, a personagens importantes da trilogia original voltando à tela, conferimos o protagonismo de novos personagens. São eles que trazem os elementos novos para a saga e que ajudam a renová-la, projetando um futuro interessante para Star Wars.

Os novos personagens apresentam várias semelhanças com os heróis que fizeram história na trilogia original ao mesmo tempo em que avançam na compreensão dos fãs sobre o significado da Força, dos Jedi e de tudo o mais que faz parte do universo de George Lucas. Rey resgata algumas características e valores da Princesa Leia, ao mesmo tempo em que ela se parece mais com o exemplo de mulher “empoderada” da atualidade.

O mesmo pode ser dito sobre Finn (John Boyega), personagem interessantíssimo que lembra um pouco o relutante e corajoso Han Solo da trilogia original. Poe Dameron recorda um pouco a Luke, mas apenas na parte da destreza como piloto – está claro que Poe não terá a importância de Luke para a história, não apenas pelo que vemos no Episode VII, mas especialmente pelo Episode VIII. E assim, de forma muito sutil, J.J. Abrams, George Lucas e companhia demonstram como a saga Star Wars tem muito para nos contar ainda e pode ser renovada com talento por muito tempo ainda.

As cenas de batalha aérea são o principal do filme em termos de sequências de ação neste Episode VII. Da minha parte, senti falta de mais disputas em solo, seja com sabres de luz ou não – isso eu fui ver mais apenas no Episode VIII. Os efeitos visuais e especiais, assim como o ritmo do filme, são impecáveis. Em relação à história, descontada a parte que comentei antes de um certo “excesso” de referências ao filme de 1977, gostei da forma com que o roteiro apresentou os novos personagens, resgatou o espírito dos filmes originais e promoveu reencontros importantes e emocionantes.

É muito marcante cada momento em que vemos em cena, novamente, personagens tão marcantes como Han Solo (Harrison Ford), Leia Organa (Carrie Fisher), Chewbacca (Peter Mayhew e Joonas Suotamo) e C-3PO (Anthony Daniels). Especialmente emocionante os momentos entre Han Solo e Leia Organa. O quanto não aconteceu entre os dois entre os episódios VI e VII? Espero que um dia esta história ainda seja contada. 😉

Este filme é mais concentrado na apresentação dos novos personagens e no início do embate entre a Primeira Ordem e a Resistência. É um filme também sobre a busca do herói – ou a ideia que temos dele – e sobre a busca particular de cada um sobre a sua essência e sobre o que lhe faz sentido. Alguns dos elementos fundamentais da saga original, pois, voltam à cena, mas de forma renovada e inteligente. Um filme divertido e que mostra, ao mesmo tempo, como sempre podemos escolher entre o bem e o mal. Ninguém nos leva por um caminho se não quisermos seguir aquela direção.

O novo vilão, neto de Darth Vader e filho de Han Solo e de Leia Organa, tem muitos elementos interessantes para tornar este um personagem forte na saga Star Wars. E para equilibrar com ele, que é um dos personagens centrais do “lado negro” da Força, temos personagens da estirpe de Rey, uma garota que percebe o “lado claro” da Força despertando em si neste Episode VII. Outros personagens como ela devem surgir, é claro, especialmente após o Episode VIII. Bom ver, neste dois novos episódios, como a saga Star Wars tem ainda muito gás para dar.

NOTA: 9,6.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Como eu disse antes, perdi esse filme quando ele passou nos cinemas. Mas, agora, prestes a ver ao Episode VIII, consegui uma versão em 3D do Episode VII para ver em casa. Realmente é um filme fascinante, muito bonito e que utiliza bem a tecnologia 3D a seu favor.

Han Solo e Leia Organa são os dois grandes retornos/presentes desse filme. Como é bom rever personagens tão “clássicos” e carismáticos novamente em cena! Os atores Harrison Ford e Carrie Fisher estão ótimos, tão bons e carismáticos como nos filmes originais – ou até melhores, após algumas décadas de experiência. Além deles, os destaques desta produção são os atores Daisy Ridley, John Boyega, Adam Driver e Oscar Isaac, as novas estrelas que apresentam os personagens da nova trilogia Star Wars. Todos estão muito bem, com protagonismo de Daisy Ridley e John Boyega.

Entre os atores coadjuvantes, vale citar o bom trabalho de Lupita Nyong’o como Maz Kanata; de Andy Serkis como o Supremo Líder Snoke; o de Domhnall Gleeson como General Hux; o de Gwendoline Christie como Capitã Phasma; e o de Ken Leung como Almirante Statura. Além deles, vale citar as participações pequenas, mas muito marcantes, de Max von Sydow como Lor San Tekka e de Mark Hamill como Luke Skywalker. J.J. Abrams sabe alimentar muito bem, aliás, a expectativa até revermos ao grande Mark Hamill em cena. A sequência final é muito marcante.

O diretor J.J. Abrams faz um belo trabalho na direção. Nada realmente inovador, mas ele segue bem a cartilha de George Lucas, de Irvin Keshner e de Richard Marquand, os diretores da trilogia original. Além do belo trabalho na direção, Episode VII se destaca, entre os aspectos técnicos, pela marcante e inesquecível trilha sonora de John Williams; pela direção de fotografia de Dan Mindel; pela edição de Maryann Brandon e de Mary Jo Markey; pelo design de produção de Rick Carter e de Darren Gilford; pela decoração de set de Lee Sandales; pelos figurinos de Michael Kaplan; e pelo trabalho decisivo e coletivo da equipe de 16 artistas responsáveis pela Direção de Arte; dos cerca de 170 profissionais envolvidos com o Departamento de Arte; dos cerca de 100 profissionais responsáveis pelos Efeitos Especiais e pelo trabalho do espantoso contingente de cerca de 1.250 profissionais envolvidos com os Efeitos Visuais desta produção.

Star Wars Episode VII estreou no dia 14 de dezembro de 2015 em uma première em Los Angeles. No dia seguinte, o filme teve première em Jakarta e, no dia 16 de dezembro, em Sydney. No Brasil, o Episode VII estreou no dia 17 de dezembro de 2015.

Vocês vão me perdoar, mas desta vez eu não vou citar curiosidades sobre esta produção. Até porque a lista é beeeeem grande. Quem quiser conferir curiosidades sobre o Episode VII, pode dar uma conferir em alguns (ou todos) dos 380 tópicos listados por aqui pelo site IMDb.

Star Wars Episode VII foi indicado em cinco categorias do Oscar, ganhou 57 prêmios e foi indicado a outros 123. O filme não ganhou nenhum Oscar, mas entre as premiações que levou para casa, destaque para a de Melhores Efeitos Visuais no Prêmio Bafta; o de Melhor Trilha Sonora para Mídia Visual para John Williams no Grammy; e o Trailer de Filme Mais Visto no YouTube em 24 horas no Guinness World Record Award.

Episode VII foi rodado na Irlanda, na Islândia, no Reino Unido, nos Emirados Árabes e nos Estados Unidos. Apesar de ser rodado em todos esses países, Star Wars The Force Awakens é uma produção 100% dos Estados Unidos – por isso o filme entra na lista de produções que atendem a uma votação feita há tempos aqui no blog.

De acordo com o site Box Office Mojo, Star Wars Episode VII faturou quase US$ 936,7 milhões nos Estados Unidos e pouco mais de US$ 1,13 bilhão nos outros países em que o filme estreou. Ou seja, no total, superou a marca de US$ 2 bilhões.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,0 para Star Wars Episode VII, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 350 textos positivos e apenas 28 negativos para esse filme, o que lhe garante uma aprovação de 93% e uma nota média de 8,2. Especialmente o patamar das notas chama a atenção – bem acima da média para os dois sites.

CONCLUSÃO: Um filme que coloca lado a lado ótimos personagens da trilogia anterior da saga e novos nomes que vão renovar Star Wars nesta nova fase de filmes. Como manda o figurino dos filmes Star Wars, este Episode VII tem muitas batalhas no ar e na terra, confrontos marcantes, equilíbrio entre ação, emoção e comédia e, claro, personagens interessantes. Novamente a disputa entre as forças do bem e do mal está no centro na narrativa, assim como o esperado reencontro de alguns personagens. Para os fãs, não há como não se arrepiar com algumas cenas. Para os demais mortais, este filme será, pelo menos, puro entretenimento. Sob uma ótica ou sob a outra, ele funciona muito bem. Um belo retorno da saga.

Categorias
Cinema Cinema norte-americano Crítica de filme Movie Votações no blog

Logan Lucky – Logan Lucky, Roubo em Família

O diretor Steven Soderbergh tem uma fixação: filmes sobre roubos. Mais uma vez ele nos apresenta uma história destas em Logan Lucky. Só que, desta vez, ele resolve focar na “América profunda”, em um estilo de produção que estamos acostumados a ver com os irmãos Coen. Mais uma vez, Soderbergh se esforça. Mas já vimos a tantas histórias parecidas… no final, ficamos com aquela sensação de “eu já vi isso antes”. Ainda assim, claro, o roteiro é bacaninha, com alguns diálogos e sacadas bacanas, apesar de ser bem previsível. E os atores são a melhor parte do filme.

A HISTÓRIA: Enquanto conserta o carro, Jimmy Logan (Channing Tatum) fala de forma frenética. Ele conta para a filha, Sadie (Farrah Mackenzie), que o está ajudando na tarefa do conserto, uma história sobre um de seus ídolos, o cantor e compositor John Denver. A menina escuta tudo atentamente e descobre que o pai gosta de músicas “que tenham história”. Sadie diz que a mãe dela pensou em pagar a conta do celular dele, porque volta e meia ele está com a conta atrasada e, consequentemente, não consegue receber chamadas. Jimmy diz que tem o celular apenas para fazer fotos da filha. Em breve, ele vai ficar desempregado e acaba acionando um plano ousado de roubo que envolve os seus dois irmãos e alguns conhecidos.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Logan Lucky): A melhor qualidade desta produção, de longe, é o seu elenco. Ótimos atores e desempenhando papéis bem diferentes – no geral – do que estamos acostumados a vê-los. Daniel Craig, em especial, está ótimo. Como um presidiário bem tatuado e com todas as características que esperamos de um presidiário americano, Craig parece tirar sarro de seu papel de James Bond.

Ao menos eu não consegui olhar para ele em Logan Lucky e não pensar nisso, em como o seu papel como Joe Bang é o oposto do personagem clássico do cinema que ele interpreta desde 2006. Então sim, os ótimos atores em cena é o que fazem Logan Lucky ser um pouco interessante. O roteiro de Rebecca Blunt também começa bem. Parece que ela fez várias aulas com os irmãos Joel e Ethan Coen – eles sim especializados em tratar da “América profunda” e de seus “bandidos e mocinhos” caipiras.

Então, rapidamente percebemos que Logan Lucky segue um pouco a linha de filmes dos Coen como Fargo – mas sem tanto refinamento e inteligência, é bom dizer. Logan Lucky logo demonstra que o roteiro de Rebecca Blunt vai desbravar a seara da verborragia do interior dos Estados Unidos, com todos os seus sotaques e “conversa jogada fora” que, volta e meia, algum roteirista/cineasta norte-americano gosta de apresentar. Mas em uma época como esta, em que temos um presidente como Donald Trump no poder, não deixa de ser curioso voltarmos para este tipo de filme.

Afinal, reza a lenda que figuras como o protagonista Jimmy Logan é que teriam eleito Donald Trump. Ou seja, homens brancos, desempregados e desiludidos com a “falta de protagonismo” dos Estados Unidos. Pessoas mais preocupadas em voltar a ter emprego e dinheiro na conta do que em política externa, discutir as armas sendo vendidas livremente no país ou planos de saúde. Bem, o foco deste filme é justamente esse perfil de americanos. Pessoas que vivem as suas vidas da melhor forma possível, muito patriotas, mas nem sempre corretos.

A impressão que Logan Lucky nos dá, conforme a história vai avançando, é que não apenas o brasileiro é chegado em um “jeitinho” para resolver os seus próprios problemas. Mas, claro, nesta versão americana de “jeitinho”, o “herói” da história até tenta ser correto. Procura trabalhar, se esforça em manter as contas em dia, mas o “sistema” não lhe deixa ser um cara correto. Então a lei e a noção do que é certo e correto são facilmente ignorados quando o protagonista desta história fica desempregado e vê a ex-mulher Bobbie Jo Champman (a assustadoramente apagada Katie Holmes) ameaçar levar a filha do casal para um Estado vizinho.

Ex-promessa/astro juvenil do futebol americano, Jimmy Logan procura se sustentar com trabalhos dignos mas que pagam pouco. Ele faz parte de uma família sobre a qual, segundo o irmão de Jimmy, Clyde (o sempre competente Adam Driver), pesa uma maldição. Ao menos esta é a teoria de Clyde, um barman que perdeu parte do braço e a mão em uma de suas incursões no Iraque.

Aliás, o roteiro de Rebecca Blunt poderia ser menos descaradamente americano? Ela pega um ex-jogador de futebol americano que fazia sucesso quando era jovem mas que, hoje, não tem mais o brilho de antigamente, e coloca ele como irmão de um ex-veterano ferido no Iraque. Para completar a família Logan, temos a irmão de Jimmy e de Clyde, a cabeleireira Mellie (a interessante Riley Keough). Ou seja, toda a família é classe média média americana, todos com perfil perfeito para cair nas “graças” dos eleitores de Donald Trump – digo tudo isso generalizando, é claro.

Bem, os personagens até são interessantes. Os atores, em especial, fazem um grande trabalho. Todos os que eu citei até agora – menos Katie Holmes -, incluindo Channing Tatum, estão muito bem em seus papéis. Mas o problema é mesmo o roteiro previsível e cheio de lugares-comum de Rebecca Blunt e a direção preguiçosa de Steven Soderbergh – este é o ano, parece, de bons diretores fazerem trabalhos apenas medianos, vide Darren Aronofsky com o divisor de opiniões do ano Mother! – que eu comentei por aqui.

Ainda que o começo do filme seja interessante e que sempre pode valer a pena assistir a um filme que trata da “América profunda”, conforme a história avança nós vemos a mais um filme de roubo do Sr. Soderbergh. A ação propriamente dita não apresenta nada de novo – ok, o diretor sabe fazer cenas de ação e valorizar os atores, mas não apresenta nada de realmente interessante. E o roteiro vai por caminhos esperados, praticamente sem surpresa alguma – ok, existe uma “reviravolta” na história, que sugere algo inicialmente e depois mostra a “virada”… mas até isso acaba sendo previsível.

Então, e eu acho que ninguém falou isso para o Soderbergh, mas esta fórmula dele está desgastada. Tanto que o roteiro até tira um “sarro” da trajetória do diretor… (SPOILER – não leia se você ainda não viu ao filme). Lá pelas tantas, uma mulher comenta, ao ser entrevistada em um noticiário que aparece no filme, que o roubo do autódromo em que ocorreu uma das provas mais importantes do Nascar está sendo chamado de “Ocean’s Seven Eleven” porque a grana do crime foi deixada em um posto da rede 7-Eleven. Ah, sério? Sério mesmo? Soderbergh precisa encontrar o próprio rumo e deixar de fazer filmes que são mais do mesmo e pura autorreferência para o que ele já fez antes.

Francamente, com tanta obviedade, eu só não dou uma nota menor do que a que eu estou dando aqui porque eu realmente gostei do trabalho dos atores. Especialmente Daniel Craig está ótimo no papel do especialista em abrir cofres Joe Bang. Também gostei muito do trabalho dos “irmãos Logan”, com Channing Tatum e Adam Driver fazendo papéis interessantes e que tiram eles um pouco da “zona de conforto”. Outras atrizes que aparecem bem, como Farrah Mackenzie e Riley Keough completam bem o time principal, e grande parte do elenco de apoio faz um bom trabalho.

Pensando nesta “América profunda” que elegeu Donald Trump, até que achei o filme interessante. A parte que fala sobre estas pessoas, como elas vivem e o que elas pensam. Agora, o enredo do roubo e a ação como ela acontece – incluindo a “rebelião” com referência forçada a Game of Thrones no presídio -, achei de uma obviedade desconcertante. Enfim, mais um filme de Soderbergh repetindo a sua fórmula que um dia já foi sucesso. Até diverte, mas não é nada além de mediano. E ainda sendo boazinha. 😉

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Como eu comentei antes, ainda que Logan Lucky seja bastante previsível, ele tem uma grande “virada” em sua história. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Inicialmente, o roteiro de Rebecca Blunt nos faz acreditar que, após Jimmy assistir à apresentação da filha Sadie, que abre mão de cantar uma música de Rihanna para cantar a música preferida do pai, que fala do Estado da Virgínia, ele teria se arrependido do crime e decidido abandonar o dinheiro em um posto com uma rede de 7-Eleven. Mas aquilo parece um bocado estranho e apesar dos outros personagens ficarem “indignados” com Jimmy e o abandono do dinheiro ser noticiado por todos os lados, não chega a ser realmente surpreendente quando o dinheiro começa a ser distribuído e percebemos que eles deram o “golpe” no golpe.

Ou seja, como já aconteceu em outros filmes, eles souberam disfarçar o próprio crime. Mas como eles fizeram isso? (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). A explicação, um tanto mal realizada em Logan Lucky, é a seguinte: eles roubaram muito mais do que o que “devolveram”. Como o autódromo não tinha uma “conta exata” do quanto tinha sido roubado – uma desculpa volta e meia dada por empresas e instituições que são roubadas, mas um tanto difícil de acreditar, não é mesmo? -, e como eles tinham recebido também o dinheiro do seguro (algo estranho já que, em teoria, o dinheiro do crime foi devolvido), ninguém soube afirmar se realmente todo o dinheiro do roubo tinha sido abandonado no posto.

Com razão os agentes especiais Sarah Grayson (Hilary Swank em uma aparição surpreendente na reta final do filme) e Brad Noonan (Macon Blair) desconfiam um pouco de toda aquela história envolvendo o dinheiro. Afinal, o quanto tinha sido roubado? Tudo tinha sido devolvido? Por que o autódromo tinha também ganho o dinheiro do seguro? Aliás, uma outra pergunta que eu faria, se fosse eles: pelo fato do autódromo ter “ganho” duas vezes, alguém da administração do local não poderia ter orquestrado todo o crime?

No fim das contas, Jimmy Logan, que era o “cérebro” de todo o golpe, conta apenas parte do plano para Joe Bang e seus dois irmãos atrapalhados. Os irmãos de Jimmy fazem um bom teatro para dissimular o “golpe do golpe”. E, assim, eles roubam parte do dinheiro e devolvem ele naquela história do carro abandonado no posto, enquanto uma outra parte considerável do dinheiro é “enterrada” no aterro sanitária e, na hora certa, quando Jimmy não está mais sendo grampeado e investigado, retirada daquele local e distribuída. Mas, claro, eles são muito bobos em deixarem tantos rastros e, depois do dinheiro resgatado, aparecem todos no bar onde Clyde trabalha para “comemorar”. Sinal de que os espertos não são tão espertos assim.

O elenco de Logan Lucky surpreende. Grandes nomes envolvidos em um projeto mediano de Steven Soderbergh. O diretor é bom, e certamente isso atraiu os astros e estrelas a fazerem parte deste novo filme. Entre os nomes estrelados e bem pagos por Hollywood, como eu comentei antes, os destaques para mim foram Daniel Craig ótimo, com um olhar um tanto de psicopata, com o seu Joe Bang; seguido de Channing Tatum bem como um ex-jogador de futebol americano que luta para ser um bom pai, apesar das dificuldades em conseguir um emprego; Adam Driver como Clyde Logan, o irmão mais correto da família e que busca sempre seguir os passos de Jimmy; e Riley Keough como uma grata surpresa nesta produção como a irmã cabeleireira e um ás do volante da dupla Jimmy e Clyde.

Além destes quatro atores, que são o destaque nesta produção, vale comentar o bom trabalho de Farrah Mackenzie como Sadie Logan – como não lembrar de Abigail Breslin e a sua Olive Hoover no genial Little Miss Sunshine?; David Denman como um americano típico boçal e, neste filme, vendedor de carros chamado Moody Champman; Seth MacFarlane como outro boçal, o dono de uma marca de energético, chamado Max Chilblain; Jack Quaid e Brian Gleeson como os irmãos de Joe Bang, respectivamente Fish e Sam; Katherine Waterston perfeita como Sylvia Harrison, uma garota mais nova que Jimmy e que era fascinada por ele no colégio e que volta a encontrá-lo nesta nova fase “decadente”; Lauren Revard em uma ponta como a colega de Sylvia; Jon Eyez como Naaman, o parceiro de Joe Bang nos planos para a fuga e retorno para o presídio; Deneen Tyler como a enfermeira do presídio que atende Joe Bang; e Dwight Yoakam em um papel especialmente engraçado (e cheio de estereótipos) como o diretor do presídio que não admite nenhum problema ou erro.

Outros atores com papéis menores estão ok, preenchem a tela nos momentos devidos. Mas alguém que tem uma certa relevância na história e que não convence em seu papel em momento algum, muito pelo contrário, é a atriz Katie Holmes. Chega a ser um pouco angustiante o desempenho dela. Achei muito fraco, muito distante de outros papéis que ela já fez.

Entre as qualidades técnicas do filme, o principal aplauso vai para a trilha sonora de David Holmes. O que ouvimos na telona é o ponto alto da produção – assim como o elenco. Depois, vale comentar a edição de Steven Soderbergh (que assina como Mary Ann Bernard); o design de produção de Howard Cummings; a direção de fotografia de Soderbergh (que assina como Peter Andrews); a direção de arte de Eric R. Johnson e de Rob Simons; e os figurinos de Ellen Mirojnick.

Logan Lucky estreou em uma première em Tel Aviv no dia 7 de agosto. Depois, no dia 17 de agosto, o filme estreou na Austrália, em Israel e na Nova Zelândia. Nos Estados Unidos ele estreou no dia seguinte e, no Brasil, apenas no dia 6 de outubro no Festival Internacional de Cinema do Rio de Janeiro. Em circuito comercial no Brasil ele entrou em cartaz apenas no dia 12 de outubro.

Esta produção teria custado US$ 29 milhões e faturado, apenas nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 27,7 milhões. Nos outros países em que o filme já estreou ele fez outros US$ 15,1 milhões. Ou seja, somando estes dois mercados, o filme fez cerca de US$ 42,9 milhões. Como sempre calculamos o dobro do custo inicial para verificar o quanto um filme gastou – e aí sim incluindo cópias, distribuição, publicidade, etc. -, dá para perceber que Logan Lucky ainda não conseguiu dar lucro.

Ah, antes eu falei da Virgínia, certo? Estado que é “homenageado” por esta produção. Pois bem, vale dar uma lida nesta matéria do site português Publico. Nele eles comentam como a Virgínia é reduto da extrema-direita americana. Ou seja, nem preciso dizer que o filme toca em alguns pontos interessantes, ainda que de forma suave, certo? Acho que ele poderia ter sido bem mais contundente sobre a imbecilidade de alguns humanos que fazem parte daquele Estado…

Vale comentar, aliás, que Logan Lucky fala da Virginia mas não foi rodado lá. Esta produção foi rodada na Carolina do Norte e na Geórgia, em cidades como Clayton County, Douglasville e Charlotte – esta última sim, citada na produção.

Agora, algumas curiosidades sobre esta produção. Logan Lucky é o primeiro filme dirigido por Steven Soderbergh desde que ele anunciou a sua “aposentadoria” como diretor. A produção anterior que ele havia dirigido foi Behind the Candelabra. Para o próximo ano é esperado um novo filme dirigido por ele e estrelado por Juno Temple, Claire Foy, Aimee Mullins, entre outros. O filme no estilo “drama/horror” tem o título provisório de Unsane. Esperamos que ele traga alguma ideia nova, para variar…

Falando no filme dar ou não lucro, Soderbergh optou por uma forma diferente de distribuição do que a que Hollywood está acostumada. Para se livrar dos estúdios e ter “liberdade criativa” nesta produção, Soderbergh vendeu diretamente os direitos para distribuição estrangeira de Logan Lucky, assim como os direitos do filme ser exibido por HBO, Netflix e demais serviços do gênero. Com isso, o diretor e produtor garante que reduziu os custos com distribuição e que tornou mais fácil para o filme obter lucro.

Vários pilotos da Nascar aparecem nesta produção. Vale citar a aparição de nomes como Ryan Blaney, Kyle Larson, Carl Edwards, Kyle Busch, Brad Keselowski,Joey Lagano, Jeff Gordon e Darrell Waltrip – comento a lista aqui acaso tenha algum(a) fã de Nascar por aí. 😉

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,3 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 202 críticas positivas e apenas 15 negativas para o filme, o que garante para Lucky Logan uma aprovação de 93% e uma nota média de 7,3. Achei as duas notas boas e o nível de aprovação dos críticos especialmente generoso.

Logan Lucky é uma produção 100% dos Estados Unidos. Por isso esse filme entra na lista de críticas que atendem a uma votação feita aqui no blog há algum tempo.

CONCLUSÃO: Se você já viu aos filmes anteriores do diretor Steven Soderbergh, especialmente a Ocean’s Eleven, tenha certeza que você não vai ver nada de muito novo neste Logan Lucky. Sim, é verdade que o diretor resolveu fazer uma produção mais “realidade americana” desta vez. Então temos os vários sotaques do interior, aquele orgulho e estupidez inerente de muitos americanos – algo já bem explorado (e inclusive com maior qualidade) pelos irmãos Coen. O filme é engraçadinho e tem no ótimo elenco o seu principal trunfo. Mas o roteiro… infelizmente, é mais do mesmo. Nada de novo sob o sol, muito pelo contrário. Veja apenas se você gosta muito de algum dos atores em cena ou se não tiver nada melhor para fazer.