Paterson

A beleza dos pequenos detalhes e as histórias curiosas que ouvimos apenas pela metade quando encontramos com pessoas que não conhecemos são pura poesia. Para quem está atento aos detalhes do dia a dia, há muita beleza no cotidiano. É sobre isso e sobre a poesia da vida “ordinária” que trata Paterson, um filme que é bastante lento e que pode dar sono para muita gente, mas que vale ser visto e conhecido por quem gosta de um tipo de cinema diferente. Não há efeitos especiais por aqui, apenas uma reflexão curiosa sobre vidas simples e os efeitos da arte no nosso cotidiano.

A HISTÓRIA: É segunda-feira e Paterson (Adam Driver) e Laura (Golshifteh Farahani) estão deitados na cama frente a frente. Ele acorda pouco depois das 6h10 e confere o horário no velho relógio de pulso. Beija a mulher, que fala sobre o sonho que ela teve de que os dois tinham tido dois filhos velhos e gêmeos. Eles conversam um pouco antes de Paterson levantar da cama e ir tomar café da manhã sozinho. Ele observa a caixa de fósforos na cozinha e desta observação surge um novo poema. Paterson sai de casa e vai para o trabalho, onde atua como motorista de ônibus. Esta é a história dele.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Paterson): A vida “ordinária” é a matéria prima para a poesia e para outras variações da arte que vive da observação do cotidiano. A poesia também fala do que sentimos e percebemos de forma diferenciada, assim como vários filmes e séries de TV. Paterson segue esta linha e trata sobre o relacionamento estreito entre a vida comum e o olhar cuidadoso sobre ela.

Esta leitura da produção nós temos conforme o filme avança. A produção tem uma narrativa linear e que acompanha uma semana na vida do protagonista, Paterson, que tem o mesmo nome da cidade americana em que ele nasceu e onde sempre viveu. Como a história começa na segunda-feira e mostra a rotina de Paterson desde que ele acorda e até o final do dia, o roteiro do diretor Jim Jarmusch acaba sendo bastante repetitivo.

Francamente, me deu um pouco de sono. Mas se você vence esta barreira, consegue acompanhar com o mesmo cuidado e generosidade do olhar do protagonista o cotidiano simples que lhe cerca. Há muita beleza e detalhes interessantes na cidade de Paterson, assim como em todos os lugares do mundo. Basta ter tempo e cuidado para observar. Ajuda também no processo soltar a imaginação e ver a vida com mais curiosidade e generosidade.

Por tudo isso, Paterson é um filme interessante e sensível. Vencido o sono que cotidiano sem grandes “aventuras” do protagonista desta produção nos provoca, conseguimos refletir sobre o que Jarmusch nos apresenta. A vida da maioria das pessoas no mundo é como a de Paterson, bastante comum. Mas há muita beleza e poesia em vidas como a dele. Este é, possivelmente, o grande insight desta produção.

Na reta final da produção, também somos lançados a outras duas reflexões. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Tudo parece estar bem, até que o cão do casal de protagonistas destroça o caderno com poesias de Paterson. Isso acontece na nossa vida também. Sem menos esperar, alguma “tragédia” pode acontecer e mudar definitivamente alguns planos que tínhamos – no caso de Paterson, Laura insistia há bastante tempo para ele fazer uma cópia das poesias e ele tinha prometido que faria isso. Mas não houve tempo hábil das cópias serem feitas.

Jarmusch nos mostra como a tristeza após uma adversidade é bem-vinda e faz parte do processo, mas que nunca devemos desistir. Paterson mostra resiliência, especialmente após uma conversa transformadora com um poeta japonês que está visitando a cidade (interpretado por Masatoshi Nagase). E, como tantas pessoas comuns mundo afora, Paterson também recomeça. Mais uma semana e mais um caderno de poesias.

A segunda reflexão daquele final do filme é que a arte é sempre inspiradora e vence a passagem do tempo e das vidas comuns. A pequena cidade de Paterson ficou mundialmente conhecida pelos seus artistas, assim como tantas outras cidades. O protagonista do filme é fascinado por William Carlos Williams, poeta que fez boa parte de sua obra na cidade de Paterson. O turista japonês também é levado para Paterson por causa de Williams e de outros nomes, o que nos mostra a força da poesia e da arte.

Desta forma, de forma bastante cuidadosa e interessante, Jarmusch faz o seu libelo em favor da arte e da vida comum. Ele mostra como o cotidiano de qualquer pessoa simples é cheio de riqueza e de beleza, e que praticamente qualquer pessoa pode ser um poeta e muito mais do que a sua profissão regular define. Para isso, basta estar disposto a dar vasão para as suas habilidades e investir nelas.

Um belo filme, ainda que um tanto cansativo. Mas ele é cheio de boas intenções e isso é o que vale. Paterson está mais para a arte do que para uma bela obra de cinema. Mas ele também mostra como a vida é bela em sua simplicidade e quando aceitamos quem a gente ama exatamente como a pessoa é. Por esta mensagem, ele merece a nota abaixo. Ou seja, mais pelo sentido do que pela execução ou por algo novo que o filme apresente.

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O diretor Jim Jarmusch faz um belo trabalho ao acompanhar vários detalhes do cotidiano de Paterson. Acompanhamos de perto o protagonista ao mesmo tempo que mergulhamos nas belezas da cidade em que ele vive e no cotidiano das pessoas comuns que cruzam o caminho dele. Jarmusch acerta na direção detalhista e cuidadosa. O roteiro também é cuidadosamente construído para defender a proposta do diretor. Ele quer valorizar a vida comum e consegue fazer isso sem nunca abrir mão da simplicidade – francamente senti falta de um pouco mais de ousadia por parte dele, mas entendo as escolhas do realizador.

O grande nome desta produção é de Adam Driver. Ele traz muita legitimidade e coerência para o personagem que dá nome para a produção. A iraniana Golshifteh Farahani também está muito bem. Ela é a parte encantadora da produção, o estímulo que Paterson tem em enfrentar a rotina do dia a dia. Também estão bem outros atores secundários, com destaque para o veterano Barry Shabaka Henley como Doc, o dono do bar onde Paterson termina todas as noites da semana; Rizwan Manji como Donny, supervisor da empresa de ônibus onde Paterson trabalha; Chasten Harmon como Marie, amiga de Paterson e que vive dando o fora no ex-namorado Everett; e William Jackson Harper como Everett, um ator um tanto “charlatão” que não aceita a separação. Masatoshi Nagase também merece uma menção especial porque tem um papel importante no momento derradeiro da produção. Todos estão bem.

Por falar na história desta produção, ela tem outro aspecto interessante: fala sobre o cotidiano de milhões e milhões de americanos. Pessoas que tem rotinas simples, vivem de trabalhos com uma remuneração relativamente baixa, em cidades de pequeno ou médio porte, tem cotidianos bem repetitivos e terminam a maior parte do dia sendo “presenteados” com uma cerveja no bar.

Da parte técnica do filme, vale destacar a direção de fotografia de Frederick Elmes, a ótima e cuidadosa edição de Affonso Gonçalves, a trilha sonora bastante pontual e lírica de Jim Jarmusch e de Carter Logan Sqürl, os figurinos de Catherine George, o design de produção de Mark Friedberg, a direção de arte de Kim Jennings e a decoração de set de Lydia Marks.

Jarmusch dá um certo destaque para o cão Nellie que, além de aparecer como parte do elenco, ainda recebeu um agradecimento especial do diretor. De fato, o cão de estimação de Paterson acaba atuando como um “coadjuvante” de luxo da produção.

Não encontrei informações sobre os custos de Paterson, mas vi que a produção fez pouco mais de US$ 2,15 milhões nos Estados Unidos. Filme independente e com uma bilheteria bastante baixa. Realmente ele se deu melhor com a crítica do que com o público.

Esta produção foi rodada em Paterson, cidade do Estado americano de Nova Jersey, assim como nos bairros nova-iorquinos de Yonkers e do Queens.

O filme dá a entender que o poeta William Carlos Williams nasceu em Paterson. Na verdade, segundo pesquisei, ele nasceu na cidade vizinha de Paterson, Rutherford, mas escreveu parte importante de sua obra em Paterson – inclusive ele tem um poema com o nome da cidade.

De acordo com as notas de produção de Paterson, os poemas que vemos no filme são de Ron Padgett, um dos poetas contemporâneos favoritos de Jim Jarmusch. Padgett aceitou escrever poemas específicos para a produção e deu autorização para Jarmusch usar alguns de seus poemas anteriores à produção.

Uma exceção é o poema lido por uma jovem estudante para Paterson durante a produção. Este poema foi escrito pelo próprio Jarmusch.

O ator Adam Driver foi para a autoescola e tirou permissão para dirigir ônibus. Ele queria conhecer sobre o ofício o suficiente para entrar no “piloto automático” como motorista de ônibus no filme. Drive aprendeu o ofício durante três meses no Queens, em Nova York.

Paterson recebeu sete prêmios e foi indicado a outros 27. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o de Melhor Filme segundo a escolha do público do Festival Internacional de Cinema FEST; para o de Melhor Ator em Filme Estrangeiro no Prêmio Sant Jordi; e para os de Melhor Ator para Adam Driver dados pela Associação de Críticos de Cinema de Los Angeles e pela Associação de Críticos de Cinema de Toronto. Um prêmio curioso foi o Palm Dog para Nellie no Festival de Cinema de Cannes.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,5 para Paterson. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram ainda mais generosos, dedicando 185 críticas positivas e nove negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 95% e uma nota média de 8,6. Especialmente a nota dada pelos críticos é ótima e bem acima do padrão do site. Interessante.

Esta é uma coprodução dos Estados Unidos, da França e da Alemanha. Por causa desta origem a produção entra para a lista de filmes que atendem a uma votação feita aqui no blog há algum tempo.

CONCLUSÃO: Este é mais um daqueles filmes que tem grande potencial de desagradar à maioria e de cair no gosto de um público bastante específico. Paterson é um filme lento e bastante repetitivo, mas estas escolhas são propositais. O filme trata sobre poesia e sobre a observação do cotidiano e demonstra como qualquer pessoa pode desenvolver a capacidade de ver a vida com poesia. Todos temos grande potencial, e por mais que a nossa vida pareça “ordinária”, ela pode ser cheia de significado. Um filme singelo, com um propósito bastante franco e que dá um pouco de sono, mas que merece ser admirado.

 

Silence – Silêncio

Até hoje impressiona como ser cristão incomoda a tanta gente. Por que tantas pessoas se sentem “ofendidas” e muitas delas inclusive perseguem quem afirma de forma convicta que acredita em Deus e em Jesus Cristo? Para mim, esse é sempre um ponto de admiração. Mas tudo isso está previsto na Bíblia. Realmente os cristãos tem a sina de “incomodarem” e serem perseguidos. Quem persegue um cristão é que deveria se pergunta o porquê. Silence é um filme magistral, forte, e que trata de forma franca justamente um de tantos casos de perseguição de cristãos. Angustiante. De arrepiar.

A HISTÓRIA: Em uma montanha cheia de piscinas termais, alguns japoneses esperam pelos seus prisioneiros. O grupo chega escoltado. Um dos padres recebe água fervendo no rosto. Como resposta, ele reza. Na sequência, os padres são castigados com conchas que espirram a água fervente em seus corpos. Assistindo a tudo isso, o padre Ferreira (Liam Neeson), considerado um dos nomes mais importantes da evangelização no Japão. Ele mesmo narra o que está acontecendo em uma carta, datada de 1633, no qual ele diz que a profissão de fé dos colegas lhe enche de força.

Quem lê a carta é o padre Valignano (Ciarán Hinds) para os ex-alunos de Ferreira, o padre Rodrigues (Andrew Garfield) e o padre Garupe (Adam Driver). Ele insiste que o comerciante holandês que lhe entregou esta carta depois de um longo período dela ter se perdido garantiu que Ferreira renunciou a sua fé. Os ex-alunos dele se recusam a acreditar nesta versão e insistem em ir para o Japão para saber o que realmente aconteceu. Esta é a história deles e das pessoas que eles encontram no caminho.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Silence): A primeira cena deste filme me fez lembrar imediatamente de Akira Kurosawa. Aqueles homens caminhando em meio à neblina e/ou fumaça resgataram na minha memória o estilo do diretor japonês. Esta produção, como tantas outras, será sentida de forma diferente dependendo do background do espectador.

Se você é cristão, como eu, e conhece bem a vida e o exemplo de Jesus Cristo, se você acredita que Ele é o caminho, a verdade e a vida, Silence terá um efeito sobre você. Se você professa outra fé ou não tem fé alguma, certamente o efeito será outro. Como cristã, achei este filme marcante. Muito duro, muito denso, sem nenhuma razão para riso ou para a “leveza” que normalmente se encontra em um entretenimento.

Sim, Silence é cinema. E, para muitos, cinema é entretenimento. Eu entendo. Muitos filmes realmente são apenas isso, uma forma de entreter as pessoas e fazerem elas saírem de seu dia a dia comum e ordinário e viver outro tipo de sensação. Mas outros filmes estão além da linha do entretenimento e figuram na lista de obras de arte. Destas que nos fazem pensar não somente sobre o que o artista quer nos dizer, mas especialmente sobre nós mesmos e os outros, o que nos cerca.

Silence está nesta categoria. Respeito, mas não entendo os risinhos que eu ouvi no cinema ao assistir ao filme – por estas e por outros que, muitas vezes, prefiro ver um filme sozinha e não no cinema. Mas ok, temos que entender o diferente e que nem todos pensam ou agem como a gente. Ir no cinema é parte deste aprendizado.

Silence me tocou fundo porque eu sei que aquela história apresentada pelo filme não é uma coisa do passado. Hoje, quatro séculos depois do que Silence nos apresenta, muitos cristãos continuam sendo mortos todos os anos em diferentes partes do mundo simplesmente porque eles professam esta fé. Mas nenhum deles morre sozinho, ou em vão. Nenhum mártir morre em vão, como bem argumentou o padre Rodrigues (o ótimo Andrew Garfield).

Claro que o entendimento disto depende de fé. E diferente do que o próprio Rodrigues questiona, não é com a compreensão falha e limitada humana que vamos entender. Ele questiona, no filme, porque Deus permite que tantos morram em nome Dele. Ora, não é Deus que está matando aquelas pessoas. Quem é cristão sabe que um dos maiores presentes que Deus nos deu foi justamente o poder da escolha. Sendo assim, na mesma medida em que um cristão escolhe acreditar, o seu algoz pode escolher matá-lo. Sempre são escolhas individuais.

Enfim, este papo é longo e o blog não se presta a discutir religião. Mas o que eu posso dizer é que este é um grande filme sobre fé e sobre escolhas. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Tentado por Ferreira (Liam Neeson), seu antigo professor e exemplo, Rodrigues acaba cedendo e “renunciando” a própria fé para, aparentemente, salvar cinco vidas. Mas o que significa salvar alguém?

Para quem tem fé e realmente é cristão a morte física não representa absolutamente nada. Ou melhor, representa o fim da vida terrena e o início da vida eterna. Então nenhum dos padres que renunciou ao cristianismo estava, na verdade, salvando ninguém. Quem realmente salva, no sentido amplo e pleno desta palavra, é apenas Deus. Este foi o maior erro de Rodrigues. Acreditar na cantilena de Ferreira de que ele estava salvando ou condenando os cristãos que não renunciavam à sua fé.

Ora, cada cristão que decidia manter a sua fé e não renunciar à Deus ou à Cristo era executado não por causa de um ou de outro padre, mas em nome da fé e da convicção que eles tinham sobre ela. Em última instância, estavam morrendo em nome de Deus. Ninguém mais. Quando as pessoas se acham mais importante do que Deus é quando elas começam a sucumbir e perdem a firmeza dos mártires.

Claro que ao afirmar isso eu não estou condenando Ferreira ou Rodrigues. Se ninguém pode ser salvo se não por Deus, ninguém também pode ser condenado se não por Ele. E Deus é tão paciente, tão amoroso, que Ele parece nunca se cansar de nos dar chances de aprender, de acertar e de melhorar. A exemplo de Kichijiro (Yôsuke Kubozuka), que repetidas vezes renunciou a Deus para salvar a própria vida, mas que depois se arrependia e pedia perdão, qualquer pessoa pode ser salva por Deus se realmente estiver arrependida. É isso o que um cristão aprende.

Uma das maiores “fraquezas” humanas é a nossa vontade de viver o máximo possível. Por isso mesmo, no diálogo entre Rodrigues e Jesus, pouco antes dele renunciar à própria fé, Rodrigues acredita que Jesus lhe absolveu porque ele entendia a fraqueza humana. Por isso Ele teria se feito homem, justamente. Então, a priori, é possível sim perdoar a quem blasfemou contra Deus e renunciou a fé Nele, porque esta pessoa não conseguiria ver além da própria vida e sacrificá-la para defender a sua fé.

Claro que foram mais fortes todos os cristãos que aparecem no filme, assim como o padre Garupe (Adam Driver), que jamais renunciaram de sua fé. Eles tinham a convicção sobre o que lhes esperaria após a vida. Eles tinham a calma e a certeza de que ressuscitariam em Cristo. Mas não dá para condenar aos que foram fracos e que cederam a uma das maiores dificuldades do ser humano, que é a de aceitar a própria morte.

Agora, sou obrigada a dizer: quando Ferreira, parecendo o próprio Diabo que tentou Cristo, fala para Rodrigues que ele deveria agir como Jesus, e que Ele, naquela posição, também negaria a Deus para salvar um grupo de pessoas, ele estava cometendo a maior blasfêmia que eu já ouvi na vida. Evidentemente que nunca, sob circunstância alguma, Jesus negaria o próprio Pai. Ele não fez isso quando esteve aqui, não faria isso agora.

Enfim. O filme é muito interessante, faz pensar e, principalmente, mexe com o coração de quem compartilha com tantos mártires daquele tempo e de todos os tempos – inclusive hoje – a mesma fé. Acredito que seremos uma civilização razoavelmente evoluída quando respeitarmos todas as crenças e não matarmos mais ninguém porque a pessoa tem uma fé diferente da nossa – ou fé alguma.

Eu só não dei a nota máxima para esta produção porque me incomodou um pouco o argumento final de Ferreira para convencer Rodrigues, esse em que ele cita Jesus, e também porque eu esperava mais de Rodrigues. Claro que a História é a História e os fatos são os fatos, mas eu fiquei especialmente decepcionada com Ferreira. Ele poderia ter renunciado ao que ele quisesse, mas não precisava ter feito isso com Rodrigues. Ainda que, e isso fica evidente no final do filme, Rodrigues nunca renunciou a sua fé de verdade. Muitas vezes é no silêncio que manifestamos a nossa fé. Não em palavras, mas no nosso coração e no silêncio. Belo filme.

NOTA: 9,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Esta produção tem vários grandes momentos. Mas um dos melhores, para mim, foi quando Rodrigues finalmente encontra Ferreira. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). O jovem padre está cheio de razão em cada resposta e questionamento que ele faz para o ex-professor e ex-padre. Gostei, em especial, quando ele diz com todas as letras que ele, ao renunciar ao cristianismo e à Deus, não estava sendo nobre e nem salvando ninguém, mas estava apenas salvando a sim mesmo. Esta era a grande questão. Os padres que renunciaram às suas crenças estavam apenas salvando a própria pele – prova disso é que os fieis que se mantiveram firme na fé continuaram sendo mortos, ou seja, nenhum deles foi salvo por eles terem abdicado da promessa que fizeram.

Este é um filme longo, mas ele tem as suas razões para isso. O diretor Martin Scorsese, que também escreveu o roteiro junto com Jay Cocks, não teve pressa em contar essa história. Pelo contrário. Ele quis explorar cada detalhe da missão dos padres Rodrigues e Garupe desde que eles foram para o Japão em 1640. A história é linear, partindo da carta/relato de Ferreira antes dos jovens padres irem atrás dele e terminando apenas quando a história deles é concluída.

O foco do roteiro na figura de Rodrigues foi muito acertada. Ele é, praticamente, o narrador do filme. Vemos tudo sob a ótica dele, o que humaniza a história e mostra, sob a perspectiva dele, tudo o que aconteceu. É um filme lento, no melhor estilo dos clássicos do cinema japonês – não por acaso me lembrei de Akira Kurosawa no início. Assim, Scorsese respeita a cultura na qual esta história submerge. O diretor faz um grande trabalho aqui, e diferente de quase tudo que ele apresentou até então. Realmente interessante.

O roteiro de Scorsese e de Cocks é baseado no livro de Shûsaku Endô.

Todos os atores desta produção estão muito bem, mas diferente do que o cartaz da produção pode sugerir, o protagonista de Silence é Andrew Garfield e não Liam Neeson. Gosto muito de Neeson, mas neste filme não tem como não ficarmos com uma certa “raiva” do personagem dele. Claro que isso desaparece com o tempo, mas realmente o papel dele é complicado de ser “engolido”. Garfield, por outro lado, faz um grande trabalho e se consolida, com este filme e com Hacksaw Ridge (comentado aqui) como um dos grandes talentos da nova geração. Merece ser acompanhado, com certeza.

Gostei de todos os detalhes técnicos deste filme. Martin Scorsese faz uma grande direção, seguindo um bocado a escola japonesa, mostrando tanto os locais e as suas particularidades quanto a interpretação dos atores. O roteiro também é competente, sem nenhuma linha sobrar na história. Cada palavra, cada linha, cântico, grito, gemido e cada silêncio tem o seu propósito. Outros destaques são a direção de fotografia de Rodrigo Prieto; a edição de Thelma Schoonmaker; e o design de produção de Dante Ferretti.

Algo que Silence nos mostra também é a humanidade dos padres, freis e sacerdotes. Sim, eles são humanos, suscetíveis a erros, tentações, dúvidas, questionamentos e desespero. Alguns, como Garupe, parecem ter mais convicção e a fé mais clara, enquanto outros, como Rodrigues, estão mais suscetíveis às fraquezas humanas. Isso acontece em todas as partes. Sem dúvida há padres e fieis que tem a sua fé muito clara, são mais firmes nela do que outros. Faz parte. Precisamos entender e deixar que Deus exerça a Sua Misericórdia em relação a quem fraqueja e em relação a nós.

Além dos atores já citados, vale comentar o trabalho de Tadanobu Asano como o intérprete que acompanha Rodrigues por bastante tempo; Issei Ogata como o inquisidor Inoue; Shin’ya Tsukamoto simplesmente ótimo como Mokichi, um dos fieis que recebe os jovens padres e que é o braço direito da liderança local; Yoshi Oida também maravilhoso como Ichizo, o líder da comunidade cristã que os padres encontram logo que chegam; Shi Liang como o comerciante chinês que apresenta os padres para Kichijiro; Miho Harita como Tomi, mulher de Ichizo; Nana Komatsu como Monica/Haru, uma das cristãs que Rodrigues encontra quando está como prisioneiro; Ryo Kase como John/Chokichi, outro fiel desta fase; e Asuka Kurosawa como a “mulher” de Rodrigues. Há muitos outros atores que fazem papéis secundários. Todos estão muito bem e convincentes.

Ainda que a história se passe inteira no Japão, este filme foi praticamente todo rodado em Taiwan. Apenas uma pequena parte foi rodada em Macau, na China – são as imagens do início do filme, em que os jovens padres jesuítas falam com o padre Valignano.

Silence teria custado uma pequena fortuna, cerca de US$ 46,5 milhões. Como a produção não tem, digamos assim, um tema realmente popular, e imagino que também por ela ser “lenta” e um bocado longa, ela conseguiu pouco nas bilheterias. Nos Estados Unidos o filme fez pouco mais de Us$ 7,1 milhões. Pelo andar da carruagem, tem tudo para ser um fracasso nas bilheterias.

Esta produção ganhou seis prêmios e foi indicado a outros 40. Entre os prêmios que recebeu, destaque pelo filme ter sido listado como um dos melhores do ano segundo o AFI Awards e por ter vencido como Melhor Roteiro Adaptado no National Board of Review. Foi indicado ao Oscar de Melhor Fotografia, mas perdeu a estatueta para La La Land.

Silence é uma coprodução dos Estados Unidos, de Taiwan e do México.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,5 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 178 críticas positivas e 33 negativas para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 84% e uma nota média 7,5. Os dois níveis de aprovação estão bons para os padrões dos sites.

Como eu comentei antes, até hoje milhares de cristãos são mortos todos os anos por causa da fé que eles professam. Segundo esta matéria da Rádio Vaticano, as estimativas apontam que pelo menos 90 mil cristãos foram mortos pelo mundo em 2016 por causa de sua fé.

CONCLUSÃO: Este filme está para a perseguição de padres e de fiéis que acreditam em Cristo como The Passion of the Christ está para o sofrimento de Jesus. Silence vai fundo na questão da fé, da busca pela verdade e por respostas. Independente do tempo ou do local, sempre existe em maior ou menor medida a perseguição a quem acredita em Cristo. Seja de forma franca, seja de forma velada. Este importante tema é tratado de forma muito interessante pelo diretor Martin Scorsese. Um filme denso, longo, duro, mas que mostra que ninguém pode quebrar a fé de outra pessoa. Mesmo que ela seja obrigada a renunciar sobre o que acredita, é no silêncio que esta fé segue vivendo. Como uma chama bem guardada. Grande filme.