Star Wars: Episode VIII -The Last Jedi – Star Wars: Os Últimos Jedi

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O que realmente vale a pena ser ensinado e aprendido não pode ser encontrado em um conjunto de livros. Aprendemos com o exemplo, com a experiência e a sabedoria de quem já viveu um bocado, com suas histórias de sucesso e, principalmente, de fracasso. É o mestre Yoda que nos ensina em Star Wars Episode VIII: The Last Jedi que o fracasso é o nosso grande mestre. Que belo filme esse, aliás! Bom saber que a saga Star Wars voltou a encontrar o seu bom caminho, resgatando personagens fundamentais e nos apresentando uma nova geração interessante. A essência dos filmes originais está aqui, e avançando ainda mais na explicação da Força e do equilíbrio que é preciso ter no Universo.

A HISTÓRIA: Começa com a famosa trilha sonora que arrepia qualquer fã de Star Wars. Na sequência, os também famosos letreiros que introduzem a história explicam que a Primeira Ordem está dominando o Universo. Logo depois de dizimar a pacífica República, o Líder Supremo Snoke (Andy Serkis) mandou as suas tropas para assumir o “controle militar” da Galáxia. Apenas a General Leia Organa (Carrie Fisher) e o seu grupo de combatentes da Resistência se opõem à “crescente tirania”, acreditando que o Mestre Jedi Luke Skywalker (Mark Hamill) regressará e ajudará a reacender a luz de esperança de dias mais justos. O problema é que a Resistência foi descoberta, e enquanto a Primeira Ordem se dirige para acabar com a base dos rebeldes, um grupo de heróis organiza a fuga dos sobreviventes.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Star Wars VIII): A primeira grata surpresa desse filme: o diretor Rian Johnson não começou pelo óbvio. Digo isso porque como o filme anterior terminou com o encontro da nova heroína da saga, Rey (Daisy Ridley), com o até então “sumido” Luke Skywalker (o grande Mark Hamill), a expectativa “óbvia” dos fãs era que o novo filme começasse justamente desenvolvendo este encontro com expectativa alimentada durante o filme anterior.

Mas não. Johnson começa Star Wars Episode VIII de forma diferente. A espera pela primeira troca de palavras entre Rey e Luke acaba levando mais alguns minutos no novo filme. Antes, assistimos a algumas cenas de batalha e perseguição no Espaço, algo sempre muito celebrado pelos fãs da saga criada há exatos 40 anos – o primeiro filme, que virou Star Wars Episode IV, comentei há alguns meses aqui no blog.

Então o Episode VIII começa com a tentativa de fuga dos sobreviventes da Resistência, perseguidos pela Primeira Ordem – sistema que surgiu após a queda do Império Galáctico. Como a “fórmula” Star Wars pede – e que é seguida à risca nesta nova produção com roteiro de Johnson, baseado nos personagens criados por George Lucas -, o novo episódio da saga equilibra nas doses certas o humor, a ação, a adrenalina, o drama e a emoção.

O primeiro elemento que aparece em cena é o humor, com o piloto da Resistência Poe Dameron (Oscar Isaac) enganando o General Hux (Domhnall Gleeson), que está liderando o “cerco” contra as naves que tentam fugir. Em seguida, surge a ação, a adrenalina e a emoção, com a mobilização de parte das forças da Resistência para acabar com um encouraçado da Primeira Ordem.

Nessa operação, a Resistência registra muitas baixas e surge a primeira heroína desta produção – Paige Tico (Veronica Ngo), que se sacrifica para que a tentativa do grupo tenha êxito. O protagonismo das mulheres nesta produção, tão celebrada pelo retorno do personagem Luke Skywalker, que marcou a trilogia original da saga, chama a atenção, aliás.

Os fãs da série já esperavam um certo protagonismo das personagens Rey e Leia Organa (a maravilhosa Carrie Fisher) que, no Episode VII (com crítica neste link), já tinham mostrado bastante relevância na “nova trilogia”. Mas, tudo indicava, elas teriam ainda mais importância no Episode VIII. E isso, de fato, acontece. Mas elas não são as únicas mulheres que brilham em seus papéis e que acabam sendo decisivas no filme.

A personagem de Paige Tico aparece rapidamente na produção, mas ela acaba sendo lembrada por Rose Tico (Kelly Marie Tran) durante o restante do filme. A própria Rose, assim como a Almirante Holdo (Laura Dern) e Maz Kanata (com voz de Lupita Nyong’o), além de Rey e Leia Organa, são fundamentais para os acontecimentos desta história. Então sim, o Episode VIII mostra diversas mulheres corajosas, determinadas, valentes e que são as donas de seus destinos – e que influenciam, desta forma, diversas outras pessoas.

Assim, esse novo Star Wars está afinado com o nosso tempo, uma era em que (ainda bem!) cada vez mais mulheres assumem as suas opiniões e desejos sem ter que pedir licença para ninguém. O famoso “empoderamento feminino” está presente nesta nova produção da saga Star Wars. Mas isso não é tudo que chama atenção neste filme.

Gostei muito do equilíbrio que a produção busca (e consegue alcançar) dos elementos fundamentais que comentei anteriormente, assim como apreciei muito o lado mais “filosófico” desta história – se compararmos, por exemplo, com o Episode VII – e os encontros especiais que o filme promove. A verdade é que o Episode VIII é emotivo, desde o início, por sabermos que estamos vendo, na nossa frente, ao último filme estrelado pela atriz Carrie Fisher.

Essa atriz foi – e eternamente será – importante para a saga Star Wars, e quando vemos ela em cena neste seu último filme, cada “aparição” dela se torna especial. Como no Episode VII tivemos encontros emocionantes, como o de Leia Organa com Han Solo (Harrison Ford), neste novo episódio temos o memorável encontro de Leia com o seu irmão, Luke. Pessoalmente, achei até mais marcante e tocante o encontro do Episode VIII do que o ocorrido no episódio anterior. De arrepiar, por exemplo, quando Luke diz para Leia que alguém, quando morre, realmente não desaparece – impossível não pensar na atriz nesse momento.

Aliás, algo que gostei muito nesta produção é o avanço do filme na parte “filosófica” e de princípios da saga Star Wars. Quando Rey insiste e consegue vencer a resistência de Luke em ensiná-la sobre a Força, vemos a alguns minutos preciosos sobre a interpretação do personagem sobre a essência que perpassa todas as histórias da saga. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Com uma narrativa muito bem pensada e planejada, Johnson nos mostra a essência sobre a Força que, nada mais é, que a energia que perpassa todos os seres e que busca o equilíbrio constante.

Assim, como diversas religiões – inclusive o catolicismo – ensinam, nunca teremos realmente apenas a luz e/ou o bem no Universo. Como existe a luz, existe a treva, e como existe o bem, também existe o mal. Nunca teremos apenas luz ou apenas o bem, mas o equilíbrio entre estes elementos e a escuridão e o mal. Este é o ponto. No fim das contas, Star Wars e todos os seus filmes tratam desta busca constante pelo equilíbrio e sobre os problemas que surgem quando um destes elementos – mais notadamente o mal – prevalece.

Achei muito bacana a forma com que Johnson apresenta a explicação de Luke sobre a Força e como o próprio Luke questiona a existência dos Jedi. Talvez nesta parte que alguns fãs tenham se sentido “traídos” ou tenham ficado insatisfeitos com a história. Luke diz com todas as letras que os Jedi não são os únicos detentores da Força e nem os únicos que podem utilizá-la para o bem. Ele realmente “diminui” a importância dos Jedi e questiona como a arrogância deles – ou de parte deles, para ser mais precisa – acabou provocando mais danos do que ajudando para o equilíbrio do Universo.

Os super fãs da saga podem até não ter gostado disso, mas eu achei muito positiva esta ponderação. Afinal, podemos perceber isso em várias partes… como os detentores da “verdade” acabam se perdendo na sua arrogância e, apesar de terem qualidades e muito conhecimento, acabam indo contra tudo aquilo que acreditam e provocando mais mal do que bem. Esse comentário importante de Luke, que vivenciou a Força muito bem e que viu como ela podia ser mal utilizada – como muitas religiões, diga-se de passagem -, ajuda a explicar a cena final do Episode VIII.

Na sequência final, um grupo de crianças que são escravas está animado com a passagem das pessoas da Resistência por onde elas viviam e sonham com um futuro em que elas possam ser livres. Nessa cena, fica evidente o que Luke nos disse antes. Todos têm a Força dentro de si, basta acreditarem nela e a utilizarem da melhor forma possível para atingir os seus objetivos – e, preferencialmente, causas maiores que beneficiem mais pessoas. Aquelas crianças no final simbolizam a esperança e como a Força realmente está presente em todos. O que importa é o que fazemos com ela.

Ah sim, e antes de terminar estes comentários e avaliação sobre o Episode VIII, vale citar outro encontro mais que marcante nesta produção: o que acontece entre o mestre Yoda (voz de Frank Oz) e Luke. Para mim, uma das grandes sequências do filme – assim como o encontro entre Leia e Luke e a batalha “lado a lado” de Rey e Kylo Ren (Adam Driver).

No encontro entre o mestre Yoda e Luke, o mestre mostra toda a sua sabedoria ao dizer que Luke não deve se preocupar com a destruição dos “livro sagrados” e do primeiro tempo Jedi. Porque o que importa mesmo é o que aprendemos nas nossas trajetórias e em como repassamos isso para a frente – valendo as histórias de sucesso e, especialmente, as de fracasso. Uma grande lição, e que vale para todos nós. Para mim, um dos melhores filmes da saga.

NOTA: 9,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Eu assisti a esse filme em sua versão 3D. A exemplo do Episode VII, achei que este novo filme da saga merece ser visto na versão 3D, ainda que ele não tenha realmente um grande ganho, digamos assim, nesta versão. Mas a qualidade do 3D, especialmente na profundidade de cada plano e nos detalhes de alguma cena, tornam a experiência do filme ainda mais interessante. Recomendo.

Três personagens dos filmes originais voltam com tudo nesta nova produção. Dois deles, claro, com um protagonismo maior, e o terceiro em apenas uma sequência muito marcante. Me refiro aos personagens de Luke Skywalker, Leia Organa e Mestre Yoda, nesta ordem de importância para o Episode VIII. Luke aparece um bocado, e sempre com uma interpretação marcante de Mark Hamill. O ator mostra, agora de forma amadurecida, porque gostamos tanto dele no passado. Ele está ótimo. Carrie Fisher arrepia em cada cena em que aparece pela presença marcante e pelo talento da atriz e também por aquela questão “nostálgica” e de despedida que eu comentei anteriormente. E o Mestre Yoda tem algumas das falas mais importantes da história. Então estes três personagens “clássicos” retornando neste filme fazem qualquer fã arrepiar e delirar – ao menos isso aconteceu comigo.

Outros personagens da “velha guarda” aparecem nesta produção, mas com uma presença menos importante. Vale citar o C-3PO de Anthony Daniels; o maravilhoso Chewbacca de Joonas Suotamo – eu admito que quase tive um “ataque”, no bom sentido, cada vez que o Chewbacca apareceu em cena nesse novo filme; e o R2-D2 de Jimmy Vee. Bacana ver esses personagens marcantes novamente no cinema – mesmo que em participações menores, como é o caso do C-3PO e do R2-D2.

Algo bacana nesta nova trilogia que dá sequência para a saga Star Wars é encontrar novos personagens que seguem a essência dos personagens que deram início à série nos anos 1970 e 1980. Então é bacana “reencontrar” os personagens apresentados no Episode VII e se aprofundar um pouco mais nas suas histórias e, principalmente, personalidades. Dos novos personagens, o destaque vai, sem dúvida, para a Rey interpretada por Daisy Ridley; para o Finn do ótimo John Boyega – muito bons o ator e o personagem, aliás; e para o Kylo Ren de Adam Driver. Como na trilogia original existia o duelo entre o bem e o mal entre Luke e Darth Vader, agora o mesmo duelo é vivenciado por Rey e Kylo Ren.

Além destes três personagens centrais da nova trilogia, vale destacar o bom trabalho de Oscar Isaac como Poe Dameron e de Andy Serkis como Snoke. Outros personagens relevantes neste novo episódio e que foram bem interpretados por seus atores são a Maz Kanata de Lupita Nyong’o; o General Hux de Domhnall Gleeson; a Rose Tico de Kelly Marie Tran; e a Almirante Holdo de Laura Dern. O personagem DJ, interpretado por Benicio Del Toro, também tem relevância na história, mas achei ele o mais forçado de todos e o menos interessante da turma.

Entre os coadjuvantes do Episode VIII, vale ainda comentar o bom trabalho de Gwendoline Christie como a Capitã Phasma; de Billie Lourd como a Tenente Connix; de Amanda Lawrence como a Comandante D’Acy; e de Brian Herring e Dave Chapman como BB-8 (a nova “mascote” da trilogia).

Gostei tanto da direção quanto do roteiro de Rian Johnson. Acho que o diretor americano, que tinha pouco mais de três anos de idade quando o primeiro Star Wars estreou em 1977, encarnou bem o espírito dos filmes criados por George Lucas e soube resgatar a essência da saga no Episode VIII. Antes de fazer este filme, Johnson dirigiu a outras nove produções, incluindo quatro curtas, três longas e duas séries – 1 episódio de Terriers e 3 episódios da ótima Breaking Bad. A estreia dele em longas foi com Brick, em 2005. Depois viriam os longas The Brothers Bloom (2008) e Looper (2012) – esse último comentado aqui no blog.

Claro que um filme de ficção científica tem em seus aspectos técnicos alguns de seus principais trunfos. Isso sempre foi uma característica de Star Wars e continua sendo neste novo filme da saga. Entre os aspectos técnicos desta produção, destaque para a sempre marcante trilha sonora do mestre John Williams; para a direção de fotografia de Steve Yedlin; para a edição de Bob Ducsay; para o design de produção de Rick Heinrichs; para a direção de arte que envolveu 10 profissionais; para a decoração de set de Richard Roberts; para os figurinos de Michael Kaplan; para o Departamento de Maquiagem com 36 profissionais; para o Departamento de Arte com 180 profissionais – incluindo artistas conceituais e construtores de maquetes e afins; para os Efeitos Especiais criados por 63 profissionais; e para os Efeitos Visuais criados por cerca de 600 profissionais – admito que eu me cansei de contar e parei perto dos 300 artistas, mas a lista deve ser quase o dobro disso. Números impressionantes e que mostram o tamanho gigantesco desta produção. Sem essa turma, que não ganha os holofotes de outros nomes, o Episode VIII não existiria.

Star Wars Episode VIII estreou em première em Los Angeles no dia 9 de dezembro. Depois, no dia 12, ele fez première em Londres e, no dia seguinte, estreou no Festival Internacional de Cinema de Dubai e em 17 países – incluindo o Brasil.

De acordo com o site Box Office Mojo, Star Wars: The Last Jedi já figurava, no dia 27 de dezembro, como o segundo filme com a maior bilheteria de 2017, somando US$ 445,2 milhões apenas nos Estados Unidos – ficando atrás, apenas, de Beauty and the Beast. Olhando para os restante do mundo, no acumulado do ano, Star Wars já figurava em quarto lugar no ranking de 2017, com US$ 892,1 milhões até o dia 27 – atrás de Beauty and the Beast, Fate of the Furious e Despicable Me 3. Certamente o filme vai passar a marca de US$ 1 bilhão em breve.

Star Wars Episode VIII foi filmado em quatro países: Croácia, Irlanda, Bolívia e Reino Unido. Entre as cidades em que a produção passou, vale citar Dubrovnik, na Croácia, que fez as vezes de Cidade do Canto Bright; Skellig Michael e Brow Head, na Irlanda, que fez as vezes do Planeta Ahch-To; Salar de Uyuni, na Bolívia, cenário das cenas da batalha final; e muitas e muitas cenas rodadas no Pinewood Studios, em Iver Hearth, Reino Unido.

Eu vou abrir mão, dessa vez, de citar curiosidades sobre a produção, beleza? É que apenas o site IMDb traz nada menos que 129 tópicos sobre o filme… quem estiver muito curioso(a) em fazer essa imersão nas curiosidades de Star Wars Episode VII, sugiro visitar a página específica do IMDb.

Por falar em site IMDb, vale comentar que Star Wars Episode VIII registra a nota 7,6 no site que registra a opinião do público – menos que o seu antecessor, que registra a nota 8,0. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 314 textos positivos e apenas 31 negativos para o Episode VIII, o que garante para o filme uma aprovação de 91% e uma nota média de 8,1. O nível de aprovação e a nota do Episode VIII também estão ligeiramente menores que o do Episode VII no Rotten Tomatoes. Gostei mais do Episode VIII, pelas razões que comentei, e acho que estou mais próxima dos críticos, em relação a este filme, do que do público em geral.

Até o momento, Star Wars: The Last Jedi ganhou um prêmio e foi indicado a outros três – acredito que o filme será indicado em uma ou mais categorias técnicas do Oscar 2018. O único prêmio que o filme recebeu, até o momento, foi o Golden Trailer de Melhor Poster Fantasia/Aventura no Golden Trailer Awards.

Este filme é uma produção 100% dos Estados Unidos. Por isso, ele entra na lista de filmes que atendem a uma votação feita há algum tempo aqui no blog.

CONCLUSÃO: Eis um filme com o coração e o espírito nos lugares certos. Muito bom ver a saga Star Wars voltando aos seus grandes momentos. Este filme, mais até que o anterior da grife, nos apresenta a alguns dos elementos que fazem os fãs delirarem. Muitas batalhas no ar e algumas bem marcantes sobre a terra. Grandes personagens que voltam a se encontrar e uma nova geração que volta a formar a disputa clássica entre o Bem e o Mal, naquele jogo constante entre as forças contrárias em busca do equilíbrio. Aliás, Star Wars VIII avança um bocado sobre a explicação da Força e de como a lógica por trás da saga funciona. Além de todas as suas qualidades técnicas, que são variadas, este filme vale por alguns reencontros realmente marcantes e especiais. Para quem gosta de Star Wars, não dá para perder.

PALPITES PARA O OSCAR 2018: Star Wars Episode VIII tem grandes chances de fechar o ano como a maior bilheteria dos cinemas americanos. E isso com menos de um mês de tempo nos cinemas. Esse é um elemento importante que pode ajudar o filme a ser indicado a alguns Oscar’s. Acredito na indicação do filme em algumas categorias técnicas.

A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood inovou ao divulgar, no final de 2017, mais notícias sobre os filmes que foram, pouco a pouco, avançando na disputa por uma indicação. Até o final do ano, Star Wars seguia na disputa por uma vaga na categoria de Melhores Efeitos Visuais com outros nove títulos. Acho que o filme deve chegar na lista dos cinco indicados nessa categoria, assim como vejo chances dele ser indicado nas categorias Melhor Edição de Som e Melhor Mixagem de Som.

Talvez o filme até possa emplacar indicações nas categorias Melhor Trilha Sonora e Melhor Design de Produção, mas com chances menores de emplacar indicação e de ganhar uma estatueta. Na categoria Melhor Maquiagem e Cabelo o filme já ficou de fora da disputa – a Academia divulgou sete produções que seguem na disputa por uma das vagas de finalistas, e Star Wars não está no meio. Resumindo, esse filme pode até conseguir algumas indicações, mas possivelmente sairá de mãos vazias do Oscar – talvez vencendo apenas como Melhores Efeitos Visuais, e olha lá.

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Star Wars: Episode VII – The Force Awakens – Star Wars: O Despertar da Força

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O que é bom, o que nos traz ótimas lembranças, deveria ser sempre revisitado. Assim como é bom, depois de quatro décadas do início de uma das grifes mais famosas do cinema, retomar alguns personagens que foram lançados há tanto tempo. E é exatamente isso que Star Wars Episode VII: The Force Awakens faz. Alguns de vocês podem estar achando estranho eu comentar este filme agora, mas é que eu perdi de assisti-lo quando ele estreou nos cinemas. E como eu quis assistir, nesse final de ano, ao segundo filme da nova trilogia da saga, segui o conselho de um amigo e vi a este filme primeiro. Star Wars VII é realmente um deleite, especialmente para quem ainda tem a saga original (relativamente) fresca na memória.

A HISTÓRIA: Inicia com a frase clássica “Há muito tempo em uma galáxia muito, muito distante…” e a música de início da saga que marcou o cinema há exatos 40 anos. Episode VII inicia comentando que Luke Skywalker (Mark Hamill) desapareceu, e que na ausência dele, a sinistra Primeira Ordem surgiu das cinzas do Império. Esse grupo procura por Skywalker e não descansará até que o “último Jedi” seja destruído. Com o apoio da República, a General Leia Organa (Carrie Fisher) lidera a Resistência que, por sua vez, também procura por Luke. Na missão de encontrar o seu irmão, Leia envia para uma missão secreta o piloto Poe Dameron (Oscar Isaac), que busca no planeta Jakku informações sobre o paradeiro de Luke.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Star Wars VII): O meu amigo, o Félix, estava certo. Eu realmente precisava assistir a esse Episode VII antes de conferir, nos cinemas, ao novo Episode VIII. Desta vez, aqui no blog, eu também fiz diferente. Assisti a este filme, comecei a escrever sobre ele, mas só terminei o texto cerca de duas semanas depois… nesse meio tempo, conferi ao Episode VIII nos cinemas e também escrevi sobre ele, começando o texto sobre o novo filme logo depois de assisti-lo e terminando o seu conteúdo apenas hoje.

Ou seja, pela primeira vez na história desse blog – ao menos pelo que eu tenho lembrança -, eu termino agora de escrever sobre um filme que foi o penúltimo que eu assisti e com uma crítica escrita posteriormente ao do blog post que eu ainda vou publicar. Eita! Espero não ter dado um nó na cabeça de alguém, mas tenho que ser sincera sobre a ordem dos fatos. Assim, assisti ao Episode VII um dia antes de ver nos cinemas ao Episode VIII, mas finalizei o texto do Episode VIII antes de terminar este texto aqui do Episode VII.

A escolha pela ordem dos fatos tem a ver com o “frescor” das lembranças na minha mente. Em casa, estou escrevendo este texto e vendo novamente ao Episode VII, enquanto que para escrever a crítica do Episode VIII eu contei apenas com as lembranças do que eu vi no cinema. Comentado isso, vamos ao que realmente interessa: as minhas impressões sobre este primeiro filme da nova trilogia da saga Star Wars.

Eu gostei do início do filme, com aquela alusão clara da nave gigante de outras naves menores saindo dela relacionadas com o filme que inaugurou a saga e que foi lançado em 1977 – revisto por mim este ano e comentado neste texto. Mas admito que algo me incomodou um pouco. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Na parte inicial do Episode VII, fiquei me perguntando: o que separa uma história que faz diversas homenagens para o filme original daquela história que parece carecer de imaginação?

Acredito que boa parte dos fãs curtiu as várias “homenagens” feitas pelo roteiro de Lawrence Kasdan, J.J. Abrams e Michael Arndt, inspirados nos personagens de George Lucas, à história original que apresentou a saga para o mundo em 1977. Digo isso pelas ótimas avaliações que esse filme recebeu e por verificar que, apesar do Episode VIII ter me parecido mais criativo e interessante, ele ter uma avaliação menos positiva que esse Episode VII. Entendo os fãs, mas eu fiquei um pouco incomodada com toda aquela “repetição” de padrões.

Nesse Episode VII temos, novamente, uma mensagem importante sendo escondida em um pequeno robô que, de forma leal, passa por diversos mal bocados até chegar a alguém de confiança que possa ajudá-lo. Mais uma vez, o vilão da história captura a um dos personagens importantes para tentar arrancar informações dele. No lugar do R2-D2, o robô da vez é o ágil BB-8 (interpretado por Brian Herring e Dave Chapman), e ao invés de um Darth Vader torturando uma Princesa Leia, temos Kylo Ren (Adam Driver) interrogando e torturando Poe Dameron.

A exemplo de Luke Skywalker, que contemplava os dois sóis no Star Wars Episode III, temos agora a nova heroína da saga, Rey (Daisy Ridley), também observando o anoitecer em sua cidade natal. Os dois personagens não foram criados por seus pais e tem curiosidade sobre as suas origens. Diversas semelhanças para um começo de história, não? Ao menos para o meu gosto, esse excesso de referências incomodou um pouco.

Mas descontado isso, devo dizer que esta história dirigida com esmero por J.J. Abrams cumpre totalmente o seu papel. Com um bom ritmo e resgatando a essência da trilogia original de George Lucas – aquela que encantou o público mundo afora nos anos 1970 e 1980 -, esse Episode VII volta a colocar a série de filmes com o selo Star Wars no caminho certo. Temos nesse Episode VII todos os elementos que encantaram as pessoas há algumas décadas.

O principal trunfo, possivelmente, destes filmes – e desse Episode VII – seja equilibrar os diversos elementos que fazem parte da vida de qualquer um de nós. Assim, nós temos drama, humor, ação, romance – ao menos sugerido – e suspense em um mesmo pacote. Um destaque deste filme, assim como do original de 1977, é a presença maior do humor e da ação na história. Esses elementos fazem com que esse Episode VII seja puro entretenimento. Um filme bem conduzido, com ritmo e que prende a atenção do público a cada segundo.

O interessante é que, ao mesmo tempo em que temos o resgate do “espírito” Star Wars nesse Episode VII e que vemos, literalmente, a personagens importantes da trilogia original voltando à tela, conferimos o protagonismo de novos personagens. São eles que trazem os elementos novos para a saga e que ajudam a renová-la, projetando um futuro interessante para Star Wars.

Os novos personagens apresentam várias semelhanças com os heróis que fizeram história na trilogia original ao mesmo tempo em que avançam na compreensão dos fãs sobre o significado da Força, dos Jedi e de tudo o mais que faz parte do universo de George Lucas. Rey resgata algumas características e valores da Princesa Leia, ao mesmo tempo em que ela se parece mais com o exemplo de mulher “empoderada” da atualidade.

O mesmo pode ser dito sobre Finn (John Boyega), personagem interessantíssimo que lembra um pouco o relutante e corajoso Han Solo da trilogia original. Poe Dameron recorda um pouco a Luke, mas apenas na parte da destreza como piloto – está claro que Poe não terá a importância de Luke para a história, não apenas pelo que vemos no Episode VII, mas especialmente pelo Episode VIII. E assim, de forma muito sutil, J.J. Abrams, George Lucas e companhia demonstram como a saga Star Wars tem muito para nos contar ainda e pode ser renovada com talento por muito tempo ainda.

As cenas de batalha aérea são o principal do filme em termos de sequências de ação neste Episode VII. Da minha parte, senti falta de mais disputas em solo, seja com sabres de luz ou não – isso eu fui ver mais apenas no Episode VIII. Os efeitos visuais e especiais, assim como o ritmo do filme, são impecáveis. Em relação à história, descontada a parte que comentei antes de um certo “excesso” de referências ao filme de 1977, gostei da forma com que o roteiro apresentou os novos personagens, resgatou o espírito dos filmes originais e promoveu reencontros importantes e emocionantes.

É muito marcante cada momento em que vemos em cena, novamente, personagens tão marcantes como Han Solo (Harrison Ford), Leia Organa (Carrie Fisher), Chewbacca (Peter Mayhew e Joonas Suotamo) e C-3PO (Anthony Daniels). Especialmente emocionante os momentos entre Han Solo e Leia Organa. O quanto não aconteceu entre os dois entre os episódios VI e VII? Espero que um dia esta história ainda seja contada. 😉

Este filme é mais concentrado na apresentação dos novos personagens e no início do embate entre a Primeira Ordem e a Resistência. É um filme também sobre a busca do herói – ou a ideia que temos dele – e sobre a busca particular de cada um sobre a sua essência e sobre o que lhe faz sentido. Alguns dos elementos fundamentais da saga original, pois, voltam à cena, mas de forma renovada e inteligente. Um filme divertido e que mostra, ao mesmo tempo, como sempre podemos escolher entre o bem e o mal. Ninguém nos leva por um caminho se não quisermos seguir aquela direção.

O novo vilão, neto de Darth Vader e filho de Han Solo e de Leia Organa, tem muitos elementos interessantes para tornar este um personagem forte na saga Star Wars. E para equilibrar com ele, que é um dos personagens centrais do “lado negro” da Força, temos personagens da estirpe de Rey, uma garota que percebe o “lado claro” da Força despertando em si neste Episode VII. Outros personagens como ela devem surgir, é claro, especialmente após o Episode VIII. Bom ver, neste dois novos episódios, como a saga Star Wars tem ainda muito gás para dar.

NOTA: 9,6.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Como eu disse antes, perdi esse filme quando ele passou nos cinemas. Mas, agora, prestes a ver ao Episode VIII, consegui uma versão em 3D do Episode VII para ver em casa. Realmente é um filme fascinante, muito bonito e que utiliza bem a tecnologia 3D a seu favor.

Han Solo e Leia Organa são os dois grandes retornos/presentes desse filme. Como é bom rever personagens tão “clássicos” e carismáticos novamente em cena! Os atores Harrison Ford e Carrie Fisher estão ótimos, tão bons e carismáticos como nos filmes originais – ou até melhores, após algumas décadas de experiência. Além deles, os destaques desta produção são os atores Daisy Ridley, John Boyega, Adam Driver e Oscar Isaac, as novas estrelas que apresentam os personagens da nova trilogia Star Wars. Todos estão muito bem, com protagonismo de Daisy Ridley e John Boyega.

Entre os atores coadjuvantes, vale citar o bom trabalho de Lupita Nyong’o como Maz Kanata; de Andy Serkis como o Supremo Líder Snoke; o de Domhnall Gleeson como General Hux; o de Gwendoline Christie como Capitã Phasma; e o de Ken Leung como Almirante Statura. Além deles, vale citar as participações pequenas, mas muito marcantes, de Max von Sydow como Lor San Tekka e de Mark Hamill como Luke Skywalker. J.J. Abrams sabe alimentar muito bem, aliás, a expectativa até revermos ao grande Mark Hamill em cena. A sequência final é muito marcante.

O diretor J.J. Abrams faz um belo trabalho na direção. Nada realmente inovador, mas ele segue bem a cartilha de George Lucas, de Irvin Keshner e de Richard Marquand, os diretores da trilogia original. Além do belo trabalho na direção, Episode VII se destaca, entre os aspectos técnicos, pela marcante e inesquecível trilha sonora de John Williams; pela direção de fotografia de Dan Mindel; pela edição de Maryann Brandon e de Mary Jo Markey; pelo design de produção de Rick Carter e de Darren Gilford; pela decoração de set de Lee Sandales; pelos figurinos de Michael Kaplan; e pelo trabalho decisivo e coletivo da equipe de 16 artistas responsáveis pela Direção de Arte; dos cerca de 170 profissionais envolvidos com o Departamento de Arte; dos cerca de 100 profissionais responsáveis pelos Efeitos Especiais e pelo trabalho do espantoso contingente de cerca de 1.250 profissionais envolvidos com os Efeitos Visuais desta produção.

Star Wars Episode VII estreou no dia 14 de dezembro de 2015 em uma première em Los Angeles. No dia seguinte, o filme teve première em Jakarta e, no dia 16 de dezembro, em Sydney. No Brasil, o Episode VII estreou no dia 17 de dezembro de 2015.

Vocês vão me perdoar, mas desta vez eu não vou citar curiosidades sobre esta produção. Até porque a lista é beeeeem grande. Quem quiser conferir curiosidades sobre o Episode VII, pode dar uma conferir em alguns (ou todos) dos 380 tópicos listados por aqui pelo site IMDb.

Star Wars Episode VII foi indicado em cinco categorias do Oscar, ganhou 57 prêmios e foi indicado a outros 123. O filme não ganhou nenhum Oscar, mas entre as premiações que levou para casa, destaque para a de Melhores Efeitos Visuais no Prêmio Bafta; o de Melhor Trilha Sonora para Mídia Visual para John Williams no Grammy; e o Trailer de Filme Mais Visto no YouTube em 24 horas no Guinness World Record Award.

Episode VII foi rodado na Irlanda, na Islândia, no Reino Unido, nos Emirados Árabes e nos Estados Unidos. Apesar de ser rodado em todos esses países, Star Wars The Force Awakens é uma produção 100% dos Estados Unidos – por isso o filme entra na lista de produções que atendem a uma votação feita há tempos aqui no blog.

De acordo com o site Box Office Mojo, Star Wars Episode VII faturou quase US$ 936,7 milhões nos Estados Unidos e pouco mais de US$ 1,13 bilhão nos outros países em que o filme estreou. Ou seja, no total, superou a marca de US$ 2 bilhões.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,0 para Star Wars Episode VII, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 350 textos positivos e apenas 28 negativos para esse filme, o que lhe garante uma aprovação de 93% e uma nota média de 8,2. Especialmente o patamar das notas chama a atenção – bem acima da média para os dois sites.

CONCLUSÃO: Um filme que coloca lado a lado ótimos personagens da trilogia anterior da saga e novos nomes que vão renovar Star Wars nesta nova fase de filmes. Como manda o figurino dos filmes Star Wars, este Episode VII tem muitas batalhas no ar e na terra, confrontos marcantes, equilíbrio entre ação, emoção e comédia e, claro, personagens interessantes. Novamente a disputa entre as forças do bem e do mal está no centro na narrativa, assim como o esperado reencontro de alguns personagens. Para os fãs, não há como não se arrepiar com algumas cenas. Para os demais mortais, este filme será, pelo menos, puro entretenimento. Sob uma ótica ou sob a outra, ele funciona muito bem. Um belo retorno da saga.

Logan Lucky – Logan Lucky, Roubo em Família

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O diretor Steven Soderbergh tem uma fixação: filmes sobre roubos. Mais uma vez ele nos apresenta uma história destas em Logan Lucky. Só que, desta vez, ele resolve focar na “América profunda”, em um estilo de produção que estamos acostumados a ver com os irmãos Coen. Mais uma vez, Soderbergh se esforça. Mas já vimos a tantas histórias parecidas… no final, ficamos com aquela sensação de “eu já vi isso antes”. Ainda assim, claro, o roteiro é bacaninha, com alguns diálogos e sacadas bacanas, apesar de ser bem previsível. E os atores são a melhor parte do filme.

A HISTÓRIA: Enquanto conserta o carro, Jimmy Logan (Channing Tatum) fala de forma frenética. Ele conta para a filha, Sadie (Farrah Mackenzie), que o está ajudando na tarefa do conserto, uma história sobre um de seus ídolos, o cantor e compositor John Denver. A menina escuta tudo atentamente e descobre que o pai gosta de músicas “que tenham história”. Sadie diz que a mãe dela pensou em pagar a conta do celular dele, porque volta e meia ele está com a conta atrasada e, consequentemente, não consegue receber chamadas. Jimmy diz que tem o celular apenas para fazer fotos da filha. Em breve, ele vai ficar desempregado e acaba acionando um plano ousado de roubo que envolve os seus dois irmãos e alguns conhecidos.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Logan Lucky): A melhor qualidade desta produção, de longe, é o seu elenco. Ótimos atores e desempenhando papéis bem diferentes – no geral – do que estamos acostumados a vê-los. Daniel Craig, em especial, está ótimo. Como um presidiário bem tatuado e com todas as características que esperamos de um presidiário americano, Craig parece tirar sarro de seu papel de James Bond.

Ao menos eu não consegui olhar para ele em Logan Lucky e não pensar nisso, em como o seu papel como Joe Bang é o oposto do personagem clássico do cinema que ele interpreta desde 2006. Então sim, os ótimos atores em cena é o que fazem Logan Lucky ser um pouco interessante. O roteiro de Rebecca Blunt também começa bem. Parece que ela fez várias aulas com os irmãos Joel e Ethan Coen – eles sim especializados em tratar da “América profunda” e de seus “bandidos e mocinhos” caipiras.

Então, rapidamente percebemos que Logan Lucky segue um pouco a linha de filmes dos Coen como Fargo – mas sem tanto refinamento e inteligência, é bom dizer. Logan Lucky logo demonstra que o roteiro de Rebecca Blunt vai desbravar a seara da verborragia do interior dos Estados Unidos, com todos os seus sotaques e “conversa jogada fora” que, volta e meia, algum roteirista/cineasta norte-americano gosta de apresentar. Mas em uma época como esta, em que temos um presidente como Donald Trump no poder, não deixa de ser curioso voltarmos para este tipo de filme.

Afinal, reza a lenda que figuras como o protagonista Jimmy Logan é que teriam eleito Donald Trump. Ou seja, homens brancos, desempregados e desiludidos com a “falta de protagonismo” dos Estados Unidos. Pessoas mais preocupadas em voltar a ter emprego e dinheiro na conta do que em política externa, discutir as armas sendo vendidas livremente no país ou planos de saúde. Bem, o foco deste filme é justamente esse perfil de americanos. Pessoas que vivem as suas vidas da melhor forma possível, muito patriotas, mas nem sempre corretos.

A impressão que Logan Lucky nos dá, conforme a história vai avançando, é que não apenas o brasileiro é chegado em um “jeitinho” para resolver os seus próprios problemas. Mas, claro, nesta versão americana de “jeitinho”, o “herói” da história até tenta ser correto. Procura trabalhar, se esforça em manter as contas em dia, mas o “sistema” não lhe deixa ser um cara correto. Então a lei e a noção do que é certo e correto são facilmente ignorados quando o protagonista desta história fica desempregado e vê a ex-mulher Bobbie Jo Champman (a assustadoramente apagada Katie Holmes) ameaçar levar a filha do casal para um Estado vizinho.

Ex-promessa/astro juvenil do futebol americano, Jimmy Logan procura se sustentar com trabalhos dignos mas que pagam pouco. Ele faz parte de uma família sobre a qual, segundo o irmão de Jimmy, Clyde (o sempre competente Adam Driver), pesa uma maldição. Ao menos esta é a teoria de Clyde, um barman que perdeu parte do braço e a mão em uma de suas incursões no Iraque.

Aliás, o roteiro de Rebecca Blunt poderia ser menos descaradamente americano? Ela pega um ex-jogador de futebol americano que fazia sucesso quando era jovem mas que, hoje, não tem mais o brilho de antigamente, e coloca ele como irmão de um ex-veterano ferido no Iraque. Para completar a família Logan, temos a irmão de Jimmy e de Clyde, a cabeleireira Mellie (a interessante Riley Keough). Ou seja, toda a família é classe média média americana, todos com perfil perfeito para cair nas “graças” dos eleitores de Donald Trump – digo tudo isso generalizando, é claro.

Bem, os personagens até são interessantes. Os atores, em especial, fazem um grande trabalho. Todos os que eu citei até agora – menos Katie Holmes -, incluindo Channing Tatum, estão muito bem em seus papéis. Mas o problema é mesmo o roteiro previsível e cheio de lugares-comum de Rebecca Blunt e a direção preguiçosa de Steven Soderbergh – este é o ano, parece, de bons diretores fazerem trabalhos apenas medianos, vide Darren Aronofsky com o divisor de opiniões do ano Mother! – que eu comentei por aqui.

Ainda que o começo do filme seja interessante e que sempre pode valer a pena assistir a um filme que trata da “América profunda”, conforme a história avança nós vemos a mais um filme de roubo do Sr. Soderbergh. A ação propriamente dita não apresenta nada de novo – ok, o diretor sabe fazer cenas de ação e valorizar os atores, mas não apresenta nada de realmente interessante. E o roteiro vai por caminhos esperados, praticamente sem surpresa alguma – ok, existe uma “reviravolta” na história, que sugere algo inicialmente e depois mostra a “virada”… mas até isso acaba sendo previsível.

Então, e eu acho que ninguém falou isso para o Soderbergh, mas esta fórmula dele está desgastada. Tanto que o roteiro até tira um “sarro” da trajetória do diretor… (SPOILER – não leia se você ainda não viu ao filme). Lá pelas tantas, uma mulher comenta, ao ser entrevistada em um noticiário que aparece no filme, que o roubo do autódromo em que ocorreu uma das provas mais importantes do Nascar está sendo chamado de “Ocean’s Seven Eleven” porque a grana do crime foi deixada em um posto da rede 7-Eleven. Ah, sério? Sério mesmo? Soderbergh precisa encontrar o próprio rumo e deixar de fazer filmes que são mais do mesmo e pura autorreferência para o que ele já fez antes.

Francamente, com tanta obviedade, eu só não dou uma nota menor do que a que eu estou dando aqui porque eu realmente gostei do trabalho dos atores. Especialmente Daniel Craig está ótimo no papel do especialista em abrir cofres Joe Bang. Também gostei muito do trabalho dos “irmãos Logan”, com Channing Tatum e Adam Driver fazendo papéis interessantes e que tiram eles um pouco da “zona de conforto”. Outras atrizes que aparecem bem, como Farrah Mackenzie e Riley Keough completam bem o time principal, e grande parte do elenco de apoio faz um bom trabalho.

Pensando nesta “América profunda” que elegeu Donald Trump, até que achei o filme interessante. A parte que fala sobre estas pessoas, como elas vivem e o que elas pensam. Agora, o enredo do roubo e a ação como ela acontece – incluindo a “rebelião” com referência forçada a Game of Thrones no presídio -, achei de uma obviedade desconcertante. Enfim, mais um filme de Soderbergh repetindo a sua fórmula que um dia já foi sucesso. Até diverte, mas não é nada além de mediano. E ainda sendo boazinha. 😉

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Como eu comentei antes, ainda que Logan Lucky seja bastante previsível, ele tem uma grande “virada” em sua história. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Inicialmente, o roteiro de Rebecca Blunt nos faz acreditar que, após Jimmy assistir à apresentação da filha Sadie, que abre mão de cantar uma música de Rihanna para cantar a música preferida do pai, que fala do Estado da Virgínia, ele teria se arrependido do crime e decidido abandonar o dinheiro em um posto com uma rede de 7-Eleven. Mas aquilo parece um bocado estranho e apesar dos outros personagens ficarem “indignados” com Jimmy e o abandono do dinheiro ser noticiado por todos os lados, não chega a ser realmente surpreendente quando o dinheiro começa a ser distribuído e percebemos que eles deram o “golpe” no golpe.

Ou seja, como já aconteceu em outros filmes, eles souberam disfarçar o próprio crime. Mas como eles fizeram isso? (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). A explicação, um tanto mal realizada em Logan Lucky, é a seguinte: eles roubaram muito mais do que o que “devolveram”. Como o autódromo não tinha uma “conta exata” do quanto tinha sido roubado – uma desculpa volta e meia dada por empresas e instituições que são roubadas, mas um tanto difícil de acreditar, não é mesmo? -, e como eles tinham recebido também o dinheiro do seguro (algo estranho já que, em teoria, o dinheiro do crime foi devolvido), ninguém soube afirmar se realmente todo o dinheiro do roubo tinha sido abandonado no posto.

Com razão os agentes especiais Sarah Grayson (Hilary Swank em uma aparição surpreendente na reta final do filme) e Brad Noonan (Macon Blair) desconfiam um pouco de toda aquela história envolvendo o dinheiro. Afinal, o quanto tinha sido roubado? Tudo tinha sido devolvido? Por que o autódromo tinha também ganho o dinheiro do seguro? Aliás, uma outra pergunta que eu faria, se fosse eles: pelo fato do autódromo ter “ganho” duas vezes, alguém da administração do local não poderia ter orquestrado todo o crime?

No fim das contas, Jimmy Logan, que era o “cérebro” de todo o golpe, conta apenas parte do plano para Joe Bang e seus dois irmãos atrapalhados. Os irmãos de Jimmy fazem um bom teatro para dissimular o “golpe do golpe”. E, assim, eles roubam parte do dinheiro e devolvem ele naquela história do carro abandonado no posto, enquanto uma outra parte considerável do dinheiro é “enterrada” no aterro sanitária e, na hora certa, quando Jimmy não está mais sendo grampeado e investigado, retirada daquele local e distribuída. Mas, claro, eles são muito bobos em deixarem tantos rastros e, depois do dinheiro resgatado, aparecem todos no bar onde Clyde trabalha para “comemorar”. Sinal de que os espertos não são tão espertos assim.

O elenco de Logan Lucky surpreende. Grandes nomes envolvidos em um projeto mediano de Steven Soderbergh. O diretor é bom, e certamente isso atraiu os astros e estrelas a fazerem parte deste novo filme. Entre os nomes estrelados e bem pagos por Hollywood, como eu comentei antes, os destaques para mim foram Daniel Craig ótimo, com um olhar um tanto de psicopata, com o seu Joe Bang; seguido de Channing Tatum bem como um ex-jogador de futebol americano que luta para ser um bom pai, apesar das dificuldades em conseguir um emprego; Adam Driver como Clyde Logan, o irmão mais correto da família e que busca sempre seguir os passos de Jimmy; e Riley Keough como uma grata surpresa nesta produção como a irmã cabeleireira e um ás do volante da dupla Jimmy e Clyde.

Além destes quatro atores, que são o destaque nesta produção, vale comentar o bom trabalho de Farrah Mackenzie como Sadie Logan – como não lembrar de Abigail Breslin e a sua Olive Hoover no genial Little Miss Sunshine?; David Denman como um americano típico boçal e, neste filme, vendedor de carros chamado Moody Champman; Seth MacFarlane como outro boçal, o dono de uma marca de energético, chamado Max Chilblain; Jack Quaid e Brian Gleeson como os irmãos de Joe Bang, respectivamente Fish e Sam; Katherine Waterston perfeita como Sylvia Harrison, uma garota mais nova que Jimmy e que era fascinada por ele no colégio e que volta a encontrá-lo nesta nova fase “decadente”; Lauren Revard em uma ponta como a colega de Sylvia; Jon Eyez como Naaman, o parceiro de Joe Bang nos planos para a fuga e retorno para o presídio; Deneen Tyler como a enfermeira do presídio que atende Joe Bang; e Dwight Yoakam em um papel especialmente engraçado (e cheio de estereótipos) como o diretor do presídio que não admite nenhum problema ou erro.

Outros atores com papéis menores estão ok, preenchem a tela nos momentos devidos. Mas alguém que tem uma certa relevância na história e que não convence em seu papel em momento algum, muito pelo contrário, é a atriz Katie Holmes. Chega a ser um pouco angustiante o desempenho dela. Achei muito fraco, muito distante de outros papéis que ela já fez.

Entre as qualidades técnicas do filme, o principal aplauso vai para a trilha sonora de David Holmes. O que ouvimos na telona é o ponto alto da produção – assim como o elenco. Depois, vale comentar a edição de Steven Soderbergh (que assina como Mary Ann Bernard); o design de produção de Howard Cummings; a direção de fotografia de Soderbergh (que assina como Peter Andrews); a direção de arte de Eric R. Johnson e de Rob Simons; e os figurinos de Ellen Mirojnick.

Logan Lucky estreou em uma première em Tel Aviv no dia 7 de agosto. Depois, no dia 17 de agosto, o filme estreou na Austrália, em Israel e na Nova Zelândia. Nos Estados Unidos ele estreou no dia seguinte e, no Brasil, apenas no dia 6 de outubro no Festival Internacional de Cinema do Rio de Janeiro. Em circuito comercial no Brasil ele entrou em cartaz apenas no dia 12 de outubro.

Esta produção teria custado US$ 29 milhões e faturado, apenas nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 27,7 milhões. Nos outros países em que o filme já estreou ele fez outros US$ 15,1 milhões. Ou seja, somando estes dois mercados, o filme fez cerca de US$ 42,9 milhões. Como sempre calculamos o dobro do custo inicial para verificar o quanto um filme gastou – e aí sim incluindo cópias, distribuição, publicidade, etc. -, dá para perceber que Logan Lucky ainda não conseguiu dar lucro.

Ah, antes eu falei da Virgínia, certo? Estado que é “homenageado” por esta produção. Pois bem, vale dar uma lida nesta matéria do site português Publico. Nele eles comentam como a Virgínia é reduto da extrema-direita americana. Ou seja, nem preciso dizer que o filme toca em alguns pontos interessantes, ainda que de forma suave, certo? Acho que ele poderia ter sido bem mais contundente sobre a imbecilidade de alguns humanos que fazem parte daquele Estado…

Vale comentar, aliás, que Logan Lucky fala da Virginia mas não foi rodado lá. Esta produção foi rodada na Carolina do Norte e na Geórgia, em cidades como Clayton County, Douglasville e Charlotte – esta última sim, citada na produção.

Agora, algumas curiosidades sobre esta produção. Logan Lucky é o primeiro filme dirigido por Steven Soderbergh desde que ele anunciou a sua “aposentadoria” como diretor. A produção anterior que ele havia dirigido foi Behind the Candelabra. Para o próximo ano é esperado um novo filme dirigido por ele e estrelado por Juno Temple, Claire Foy, Aimee Mullins, entre outros. O filme no estilo “drama/horror” tem o título provisório de Unsane. Esperamos que ele traga alguma ideia nova, para variar…

Falando no filme dar ou não lucro, Soderbergh optou por uma forma diferente de distribuição do que a que Hollywood está acostumada. Para se livrar dos estúdios e ter “liberdade criativa” nesta produção, Soderbergh vendeu diretamente os direitos para distribuição estrangeira de Logan Lucky, assim como os direitos do filme ser exibido por HBO, Netflix e demais serviços do gênero. Com isso, o diretor e produtor garante que reduziu os custos com distribuição e que tornou mais fácil para o filme obter lucro.

Vários pilotos da Nascar aparecem nesta produção. Vale citar a aparição de nomes como Ryan Blaney, Kyle Larson, Carl Edwards, Kyle Busch, Brad Keselowski,Joey Lagano, Jeff Gordon e Darrell Waltrip – comento a lista aqui acaso tenha algum(a) fã de Nascar por aí. 😉

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,3 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 202 críticas positivas e apenas 15 negativas para o filme, o que garante para Lucky Logan uma aprovação de 93% e uma nota média de 7,3. Achei as duas notas boas e o nível de aprovação dos críticos especialmente generoso.

Logan Lucky é uma produção 100% dos Estados Unidos. Por isso esse filme entra na lista de críticas que atendem a uma votação feita aqui no blog há algum tempo.

CONCLUSÃO: Se você já viu aos filmes anteriores do diretor Steven Soderbergh, especialmente a Ocean’s Eleven, tenha certeza que você não vai ver nada de muito novo neste Logan Lucky. Sim, é verdade que o diretor resolveu fazer uma produção mais “realidade americana” desta vez. Então temos os vários sotaques do interior, aquele orgulho e estupidez inerente de muitos americanos – algo já bem explorado (e inclusive com maior qualidade) pelos irmãos Coen. O filme é engraçadinho e tem no ótimo elenco o seu principal trunfo. Mas o roteiro… infelizmente, é mais do mesmo. Nada de novo sob o sol, muito pelo contrário. Veja apenas se você gosta muito de algum dos atores em cena ou se não tiver nada melhor para fazer.

Paterson

A beleza dos pequenos detalhes e as histórias curiosas que ouvimos apenas pela metade quando encontramos com pessoas que não conhecemos são pura poesia. Para quem está atento aos detalhes do dia a dia, há muita beleza no cotidiano. É sobre isso e sobre a poesia da vida “ordinária” que trata Paterson, um filme que é bastante lento e que pode dar sono para muita gente, mas que vale ser visto e conhecido por quem gosta de um tipo de cinema diferente. Não há efeitos especiais por aqui, apenas uma reflexão curiosa sobre vidas simples e os efeitos da arte no nosso cotidiano.

A HISTÓRIA: É segunda-feira e Paterson (Adam Driver) e Laura (Golshifteh Farahani) estão deitados na cama frente a frente. Ele acorda pouco depois das 6h10 e confere o horário no velho relógio de pulso. Beija a mulher, que fala sobre o sonho que ela teve de que os dois tinham tido dois filhos velhos e gêmeos. Eles conversam um pouco antes de Paterson levantar da cama e ir tomar café da manhã sozinho. Ele observa a caixa de fósforos na cozinha e desta observação surge um novo poema. Paterson sai de casa e vai para o trabalho, onde atua como motorista de ônibus. Esta é a história dele.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Paterson): A vida “ordinária” é a matéria prima para a poesia e para outras variações da arte que vive da observação do cotidiano. A poesia também fala do que sentimos e percebemos de forma diferenciada, assim como vários filmes e séries de TV. Paterson segue esta linha e trata sobre o relacionamento estreito entre a vida comum e o olhar cuidadoso sobre ela.

Esta leitura da produção nós temos conforme o filme avança. A produção tem uma narrativa linear e que acompanha uma semana na vida do protagonista, Paterson, que tem o mesmo nome da cidade americana em que ele nasceu e onde sempre viveu. Como a história começa na segunda-feira e mostra a rotina de Paterson desde que ele acorda e até o final do dia, o roteiro do diretor Jim Jarmusch acaba sendo bastante repetitivo.

Francamente, me deu um pouco de sono. Mas se você vence esta barreira, consegue acompanhar com o mesmo cuidado e generosidade do olhar do protagonista o cotidiano simples que lhe cerca. Há muita beleza e detalhes interessantes na cidade de Paterson, assim como em todos os lugares do mundo. Basta ter tempo e cuidado para observar. Ajuda também no processo soltar a imaginação e ver a vida com mais curiosidade e generosidade.

Por tudo isso, Paterson é um filme interessante e sensível. Vencido o sono que cotidiano sem grandes “aventuras” do protagonista desta produção nos provoca, conseguimos refletir sobre o que Jarmusch nos apresenta. A vida da maioria das pessoas no mundo é como a de Paterson, bastante comum. Mas há muita beleza e poesia em vidas como a dele. Este é, possivelmente, o grande insight desta produção.

Na reta final da produção, também somos lançados a outras duas reflexões. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Tudo parece estar bem, até que o cão do casal de protagonistas destroça o caderno com poesias de Paterson. Isso acontece na nossa vida também. Sem menos esperar, alguma “tragédia” pode acontecer e mudar definitivamente alguns planos que tínhamos – no caso de Paterson, Laura insistia há bastante tempo para ele fazer uma cópia das poesias e ele tinha prometido que faria isso. Mas não houve tempo hábil das cópias serem feitas.

Jarmusch nos mostra como a tristeza após uma adversidade é bem-vinda e faz parte do processo, mas que nunca devemos desistir. Paterson mostra resiliência, especialmente após uma conversa transformadora com um poeta japonês que está visitando a cidade (interpretado por Masatoshi Nagase). E, como tantas pessoas comuns mundo afora, Paterson também recomeça. Mais uma semana e mais um caderno de poesias.

A segunda reflexão daquele final do filme é que a arte é sempre inspiradora e vence a passagem do tempo e das vidas comuns. A pequena cidade de Paterson ficou mundialmente conhecida pelos seus artistas, assim como tantas outras cidades. O protagonista do filme é fascinado por William Carlos Williams, poeta que fez boa parte de sua obra na cidade de Paterson. O turista japonês também é levado para Paterson por causa de Williams e de outros nomes, o que nos mostra a força da poesia e da arte.

Desta forma, de forma bastante cuidadosa e interessante, Jarmusch faz o seu libelo em favor da arte e da vida comum. Ele mostra como o cotidiano de qualquer pessoa simples é cheio de riqueza e de beleza, e que praticamente qualquer pessoa pode ser um poeta e muito mais do que a sua profissão regular define. Para isso, basta estar disposto a dar vasão para as suas habilidades e investir nelas.

Um belo filme, ainda que um tanto cansativo. Mas ele é cheio de boas intenções e isso é o que vale. Paterson está mais para a arte do que para uma bela obra de cinema. Mas ele também mostra como a vida é bela em sua simplicidade e quando aceitamos quem a gente ama exatamente como a pessoa é. Por esta mensagem, ele merece a nota abaixo. Ou seja, mais pelo sentido do que pela execução ou por algo novo que o filme apresente.

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O diretor Jim Jarmusch faz um belo trabalho ao acompanhar vários detalhes do cotidiano de Paterson. Acompanhamos de perto o protagonista ao mesmo tempo que mergulhamos nas belezas da cidade em que ele vive e no cotidiano das pessoas comuns que cruzam o caminho dele. Jarmusch acerta na direção detalhista e cuidadosa. O roteiro também é cuidadosamente construído para defender a proposta do diretor. Ele quer valorizar a vida comum e consegue fazer isso sem nunca abrir mão da simplicidade – francamente senti falta de um pouco mais de ousadia por parte dele, mas entendo as escolhas do realizador.

O grande nome desta produção é de Adam Driver. Ele traz muita legitimidade e coerência para o personagem que dá nome para a produção. A iraniana Golshifteh Farahani também está muito bem. Ela é a parte encantadora da produção, o estímulo que Paterson tem em enfrentar a rotina do dia a dia. Também estão bem outros atores secundários, com destaque para o veterano Barry Shabaka Henley como Doc, o dono do bar onde Paterson termina todas as noites da semana; Rizwan Manji como Donny, supervisor da empresa de ônibus onde Paterson trabalha; Chasten Harmon como Marie, amiga de Paterson e que vive dando o fora no ex-namorado Everett; e William Jackson Harper como Everett, um ator um tanto “charlatão” que não aceita a separação. Masatoshi Nagase também merece uma menção especial porque tem um papel importante no momento derradeiro da produção. Todos estão bem.

Por falar na história desta produção, ela tem outro aspecto interessante: fala sobre o cotidiano de milhões e milhões de americanos. Pessoas que tem rotinas simples, vivem de trabalhos com uma remuneração relativamente baixa, em cidades de pequeno ou médio porte, tem cotidianos bem repetitivos e terminam a maior parte do dia sendo “presenteados” com uma cerveja no bar.

Da parte técnica do filme, vale destacar a direção de fotografia de Frederick Elmes, a ótima e cuidadosa edição de Affonso Gonçalves, a trilha sonora bastante pontual e lírica de Jim Jarmusch e de Carter Logan Sqürl, os figurinos de Catherine George, o design de produção de Mark Friedberg, a direção de arte de Kim Jennings e a decoração de set de Lydia Marks.

Jarmusch dá um certo destaque para o cão Nellie que, além de aparecer como parte do elenco, ainda recebeu um agradecimento especial do diretor. De fato, o cão de estimação de Paterson acaba atuando como um “coadjuvante” de luxo da produção.

Não encontrei informações sobre os custos de Paterson, mas vi que a produção fez pouco mais de US$ 2,15 milhões nos Estados Unidos. Filme independente e com uma bilheteria bastante baixa. Realmente ele se deu melhor com a crítica do que com o público.

Esta produção foi rodada em Paterson, cidade do Estado americano de Nova Jersey, assim como nos bairros nova-iorquinos de Yonkers e do Queens.

O filme dá a entender que o poeta William Carlos Williams nasceu em Paterson. Na verdade, segundo pesquisei, ele nasceu na cidade vizinha de Paterson, Rutherford, mas escreveu parte importante de sua obra em Paterson – inclusive ele tem um poema com o nome da cidade.

De acordo com as notas de produção de Paterson, os poemas que vemos no filme são de Ron Padgett, um dos poetas contemporâneos favoritos de Jim Jarmusch. Padgett aceitou escrever poemas específicos para a produção e deu autorização para Jarmusch usar alguns de seus poemas anteriores à produção.

Uma exceção é o poema lido por uma jovem estudante para Paterson durante a produção. Este poema foi escrito pelo próprio Jarmusch.

O ator Adam Driver foi para a autoescola e tirou permissão para dirigir ônibus. Ele queria conhecer sobre o ofício o suficiente para entrar no “piloto automático” como motorista de ônibus no filme. Drive aprendeu o ofício durante três meses no Queens, em Nova York.

Paterson recebeu sete prêmios e foi indicado a outros 27. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o de Melhor Filme segundo a escolha do público do Festival Internacional de Cinema FEST; para o de Melhor Ator em Filme Estrangeiro no Prêmio Sant Jordi; e para os de Melhor Ator para Adam Driver dados pela Associação de Críticos de Cinema de Los Angeles e pela Associação de Críticos de Cinema de Toronto. Um prêmio curioso foi o Palm Dog para Nellie no Festival de Cinema de Cannes.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,5 para Paterson. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram ainda mais generosos, dedicando 185 críticas positivas e nove negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 95% e uma nota média de 8,6. Especialmente a nota dada pelos críticos é ótima e bem acima do padrão do site. Interessante.

Esta é uma coprodução dos Estados Unidos, da França e da Alemanha. Por causa desta origem a produção entra para a lista de filmes que atendem a uma votação feita aqui no blog há algum tempo.

CONCLUSÃO: Este é mais um daqueles filmes que tem grande potencial de desagradar à maioria e de cair no gosto de um público bastante específico. Paterson é um filme lento e bastante repetitivo, mas estas escolhas são propositais. O filme trata sobre poesia e sobre a observação do cotidiano e demonstra como qualquer pessoa pode desenvolver a capacidade de ver a vida com poesia. Todos temos grande potencial, e por mais que a nossa vida pareça “ordinária”, ela pode ser cheia de significado. Um filme singelo, com um propósito bastante franco e que dá um pouco de sono, mas que merece ser admirado.

 

Silence – Silêncio

Até hoje impressiona como ser cristão incomoda a tanta gente. Por que tantas pessoas se sentem “ofendidas” e muitas delas inclusive perseguem quem afirma de forma convicta que acredita em Deus e em Jesus Cristo? Para mim, esse é sempre um ponto de admiração. Mas tudo isso está previsto na Bíblia. Realmente os cristãos tem a sina de “incomodarem” e serem perseguidos. Quem persegue um cristão é que deveria se pergunta o porquê. Silence é um filme magistral, forte, e que trata de forma franca justamente um de tantos casos de perseguição de cristãos. Angustiante. De arrepiar.

A HISTÓRIA: Em uma montanha cheia de piscinas termais, alguns japoneses esperam pelos seus prisioneiros. O grupo chega escoltado. Um dos padres recebe água fervendo no rosto. Como resposta, ele reza. Na sequência, os padres são castigados com conchas que espirram a água fervente em seus corpos. Assistindo a tudo isso, o padre Ferreira (Liam Neeson), considerado um dos nomes mais importantes da evangelização no Japão. Ele mesmo narra o que está acontecendo em uma carta, datada de 1633, no qual ele diz que a profissão de fé dos colegas lhe enche de força.

Quem lê a carta é o padre Valignano (Ciarán Hinds) para os ex-alunos de Ferreira, o padre Rodrigues (Andrew Garfield) e o padre Garupe (Adam Driver). Ele insiste que o comerciante holandês que lhe entregou esta carta depois de um longo período dela ter se perdido garantiu que Ferreira renunciou a sua fé. Os ex-alunos dele se recusam a acreditar nesta versão e insistem em ir para o Japão para saber o que realmente aconteceu. Esta é a história deles e das pessoas que eles encontram no caminho.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Silence): A primeira cena deste filme me fez lembrar imediatamente de Akira Kurosawa. Aqueles homens caminhando em meio à neblina e/ou fumaça resgataram na minha memória o estilo do diretor japonês. Esta produção, como tantas outras, será sentida de forma diferente dependendo do background do espectador.

Se você é cristão, como eu, e conhece bem a vida e o exemplo de Jesus Cristo, se você acredita que Ele é o caminho, a verdade e a vida, Silence terá um efeito sobre você. Se você professa outra fé ou não tem fé alguma, certamente o efeito será outro. Como cristã, achei este filme marcante. Muito duro, muito denso, sem nenhuma razão para riso ou para a “leveza” que normalmente se encontra em um entretenimento.

Sim, Silence é cinema. E, para muitos, cinema é entretenimento. Eu entendo. Muitos filmes realmente são apenas isso, uma forma de entreter as pessoas e fazerem elas saírem de seu dia a dia comum e ordinário e viver outro tipo de sensação. Mas outros filmes estão além da linha do entretenimento e figuram na lista de obras de arte. Destas que nos fazem pensar não somente sobre o que o artista quer nos dizer, mas especialmente sobre nós mesmos e os outros, o que nos cerca.

Silence está nesta categoria. Respeito, mas não entendo os risinhos que eu ouvi no cinema ao assistir ao filme – por estas e por outros que, muitas vezes, prefiro ver um filme sozinha e não no cinema. Mas ok, temos que entender o diferente e que nem todos pensam ou agem como a gente. Ir no cinema é parte deste aprendizado.

Silence me tocou fundo porque eu sei que aquela história apresentada pelo filme não é uma coisa do passado. Hoje, quatro séculos depois do que Silence nos apresenta, muitos cristãos continuam sendo mortos todos os anos em diferentes partes do mundo simplesmente porque eles professam esta fé. Mas nenhum deles morre sozinho, ou em vão. Nenhum mártir morre em vão, como bem argumentou o padre Rodrigues (o ótimo Andrew Garfield).

Claro que o entendimento disto depende de fé. E diferente do que o próprio Rodrigues questiona, não é com a compreensão falha e limitada humana que vamos entender. Ele questiona, no filme, porque Deus permite que tantos morram em nome Dele. Ora, não é Deus que está matando aquelas pessoas. Quem é cristão sabe que um dos maiores presentes que Deus nos deu foi justamente o poder da escolha. Sendo assim, na mesma medida em que um cristão escolhe acreditar, o seu algoz pode escolher matá-lo. Sempre são escolhas individuais.

Enfim, este papo é longo e o blog não se presta a discutir religião. Mas o que eu posso dizer é que este é um grande filme sobre fé e sobre escolhas. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Tentado por Ferreira (Liam Neeson), seu antigo professor e exemplo, Rodrigues acaba cedendo e “renunciando” a própria fé para, aparentemente, salvar cinco vidas. Mas o que significa salvar alguém?

Para quem tem fé e realmente é cristão a morte física não representa absolutamente nada. Ou melhor, representa o fim da vida terrena e o início da vida eterna. Então nenhum dos padres que renunciou ao cristianismo estava, na verdade, salvando ninguém. Quem realmente salva, no sentido amplo e pleno desta palavra, é apenas Deus. Este foi o maior erro de Rodrigues. Acreditar na cantilena de Ferreira de que ele estava salvando ou condenando os cristãos que não renunciavam à sua fé.

Ora, cada cristão que decidia manter a sua fé e não renunciar à Deus ou à Cristo era executado não por causa de um ou de outro padre, mas em nome da fé e da convicção que eles tinham sobre ela. Em última instância, estavam morrendo em nome de Deus. Ninguém mais. Quando as pessoas se acham mais importante do que Deus é quando elas começam a sucumbir e perdem a firmeza dos mártires.

Claro que ao afirmar isso eu não estou condenando Ferreira ou Rodrigues. Se ninguém pode ser salvo se não por Deus, ninguém também pode ser condenado se não por Ele. E Deus é tão paciente, tão amoroso, que Ele parece nunca se cansar de nos dar chances de aprender, de acertar e de melhorar. A exemplo de Kichijiro (Yôsuke Kubozuka), que repetidas vezes renunciou a Deus para salvar a própria vida, mas que depois se arrependia e pedia perdão, qualquer pessoa pode ser salva por Deus se realmente estiver arrependida. É isso o que um cristão aprende.

Uma das maiores “fraquezas” humanas é a nossa vontade de viver o máximo possível. Por isso mesmo, no diálogo entre Rodrigues e Jesus, pouco antes dele renunciar à própria fé, Rodrigues acredita que Jesus lhe absolveu porque ele entendia a fraqueza humana. Por isso Ele teria se feito homem, justamente. Então, a priori, é possível sim perdoar a quem blasfemou contra Deus e renunciou a fé Nele, porque esta pessoa não conseguiria ver além da própria vida e sacrificá-la para defender a sua fé.

Claro que foram mais fortes todos os cristãos que aparecem no filme, assim como o padre Garupe (Adam Driver), que jamais renunciaram de sua fé. Eles tinham a convicção sobre o que lhes esperaria após a vida. Eles tinham a calma e a certeza de que ressuscitariam em Cristo. Mas não dá para condenar aos que foram fracos e que cederam a uma das maiores dificuldades do ser humano, que é a de aceitar a própria morte.

Agora, sou obrigada a dizer: quando Ferreira, parecendo o próprio Diabo que tentou Cristo, fala para Rodrigues que ele deveria agir como Jesus, e que Ele, naquela posição, também negaria a Deus para salvar um grupo de pessoas, ele estava cometendo a maior blasfêmia que eu já ouvi na vida. Evidentemente que nunca, sob circunstância alguma, Jesus negaria o próprio Pai. Ele não fez isso quando esteve aqui, não faria isso agora.

Enfim. O filme é muito interessante, faz pensar e, principalmente, mexe com o coração de quem compartilha com tantos mártires daquele tempo e de todos os tempos – inclusive hoje – a mesma fé. Acredito que seremos uma civilização razoavelmente evoluída quando respeitarmos todas as crenças e não matarmos mais ninguém porque a pessoa tem uma fé diferente da nossa – ou fé alguma.

Eu só não dei a nota máxima para esta produção porque me incomodou um pouco o argumento final de Ferreira para convencer Rodrigues, esse em que ele cita Jesus, e também porque eu esperava mais de Rodrigues. Claro que a História é a História e os fatos são os fatos, mas eu fiquei especialmente decepcionada com Ferreira. Ele poderia ter renunciado ao que ele quisesse, mas não precisava ter feito isso com Rodrigues. Ainda que, e isso fica evidente no final do filme, Rodrigues nunca renunciou a sua fé de verdade. Muitas vezes é no silêncio que manifestamos a nossa fé. Não em palavras, mas no nosso coração e no silêncio. Belo filme.

NOTA: 9,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Esta produção tem vários grandes momentos. Mas um dos melhores, para mim, foi quando Rodrigues finalmente encontra Ferreira. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). O jovem padre está cheio de razão em cada resposta e questionamento que ele faz para o ex-professor e ex-padre. Gostei, em especial, quando ele diz com todas as letras que ele, ao renunciar ao cristianismo e à Deus, não estava sendo nobre e nem salvando ninguém, mas estava apenas salvando a sim mesmo. Esta era a grande questão. Os padres que renunciaram às suas crenças estavam apenas salvando a própria pele – prova disso é que os fieis que se mantiveram firme na fé continuaram sendo mortos, ou seja, nenhum deles foi salvo por eles terem abdicado da promessa que fizeram.

Este é um filme longo, mas ele tem as suas razões para isso. O diretor Martin Scorsese, que também escreveu o roteiro junto com Jay Cocks, não teve pressa em contar essa história. Pelo contrário. Ele quis explorar cada detalhe da missão dos padres Rodrigues e Garupe desde que eles foram para o Japão em 1640. A história é linear, partindo da carta/relato de Ferreira antes dos jovens padres irem atrás dele e terminando apenas quando a história deles é concluída.

O foco do roteiro na figura de Rodrigues foi muito acertada. Ele é, praticamente, o narrador do filme. Vemos tudo sob a ótica dele, o que humaniza a história e mostra, sob a perspectiva dele, tudo o que aconteceu. É um filme lento, no melhor estilo dos clássicos do cinema japonês – não por acaso me lembrei de Akira Kurosawa no início. Assim, Scorsese respeita a cultura na qual esta história submerge. O diretor faz um grande trabalho aqui, e diferente de quase tudo que ele apresentou até então. Realmente interessante.

O roteiro de Scorsese e de Cocks é baseado no livro de Shûsaku Endô.

Todos os atores desta produção estão muito bem, mas diferente do que o cartaz da produção pode sugerir, o protagonista de Silence é Andrew Garfield e não Liam Neeson. Gosto muito de Neeson, mas neste filme não tem como não ficarmos com uma certa “raiva” do personagem dele. Claro que isso desaparece com o tempo, mas realmente o papel dele é complicado de ser “engolido”. Garfield, por outro lado, faz um grande trabalho e se consolida, com este filme e com Hacksaw Ridge (comentado aqui) como um dos grandes talentos da nova geração. Merece ser acompanhado, com certeza.

Gostei de todos os detalhes técnicos deste filme. Martin Scorsese faz uma grande direção, seguindo um bocado a escola japonesa, mostrando tanto os locais e as suas particularidades quanto a interpretação dos atores. O roteiro também é competente, sem nenhuma linha sobrar na história. Cada palavra, cada linha, cântico, grito, gemido e cada silêncio tem o seu propósito. Outros destaques são a direção de fotografia de Rodrigo Prieto; a edição de Thelma Schoonmaker; e o design de produção de Dante Ferretti.

Algo que Silence nos mostra também é a humanidade dos padres, freis e sacerdotes. Sim, eles são humanos, suscetíveis a erros, tentações, dúvidas, questionamentos e desespero. Alguns, como Garupe, parecem ter mais convicção e a fé mais clara, enquanto outros, como Rodrigues, estão mais suscetíveis às fraquezas humanas. Isso acontece em todas as partes. Sem dúvida há padres e fieis que tem a sua fé muito clara, são mais firmes nela do que outros. Faz parte. Precisamos entender e deixar que Deus exerça a Sua Misericórdia em relação a quem fraqueja e em relação a nós.

Além dos atores já citados, vale comentar o trabalho de Tadanobu Asano como o intérprete que acompanha Rodrigues por bastante tempo; Issei Ogata como o inquisidor Inoue; Shin’ya Tsukamoto simplesmente ótimo como Mokichi, um dos fieis que recebe os jovens padres e que é o braço direito da liderança local; Yoshi Oida também maravilhoso como Ichizo, o líder da comunidade cristã que os padres encontram logo que chegam; Shi Liang como o comerciante chinês que apresenta os padres para Kichijiro; Miho Harita como Tomi, mulher de Ichizo; Nana Komatsu como Monica/Haru, uma das cristãs que Rodrigues encontra quando está como prisioneiro; Ryo Kase como John/Chokichi, outro fiel desta fase; e Asuka Kurosawa como a “mulher” de Rodrigues. Há muitos outros atores que fazem papéis secundários. Todos estão muito bem e convincentes.

Ainda que a história se passe inteira no Japão, este filme foi praticamente todo rodado em Taiwan. Apenas uma pequena parte foi rodada em Macau, na China – são as imagens do início do filme, em que os jovens padres jesuítas falam com o padre Valignano.

Silence teria custado uma pequena fortuna, cerca de US$ 46,5 milhões. Como a produção não tem, digamos assim, um tema realmente popular, e imagino que também por ela ser “lenta” e um bocado longa, ela conseguiu pouco nas bilheterias. Nos Estados Unidos o filme fez pouco mais de Us$ 7,1 milhões. Pelo andar da carruagem, tem tudo para ser um fracasso nas bilheterias.

Esta produção ganhou seis prêmios e foi indicado a outros 40. Entre os prêmios que recebeu, destaque pelo filme ter sido listado como um dos melhores do ano segundo o AFI Awards e por ter vencido como Melhor Roteiro Adaptado no National Board of Review. Foi indicado ao Oscar de Melhor Fotografia, mas perdeu a estatueta para La La Land.

Silence é uma coprodução dos Estados Unidos, de Taiwan e do México.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,5 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 178 críticas positivas e 33 negativas para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 84% e uma nota média 7,5. Os dois níveis de aprovação estão bons para os padrões dos sites.

Como eu comentei antes, até hoje milhares de cristãos são mortos todos os anos por causa da fé que eles professam. Segundo esta matéria da Rádio Vaticano, as estimativas apontam que pelo menos 90 mil cristãos foram mortos pelo mundo em 2016 por causa de sua fé.

CONCLUSÃO: Este filme está para a perseguição de padres e de fiéis que acreditam em Cristo como The Passion of the Christ está para o sofrimento de Jesus. Silence vai fundo na questão da fé, da busca pela verdade e por respostas. Independente do tempo ou do local, sempre existe em maior ou menor medida a perseguição a quem acredita em Cristo. Seja de forma franca, seja de forma velada. Este importante tema é tratado de forma muito interessante pelo diretor Martin Scorsese. Um filme denso, longo, duro, mas que mostra que ninguém pode quebrar a fé de outra pessoa. Mesmo que ela seja obrigada a renunciar sobre o que acredita, é no silêncio que esta fé segue vivendo. Como uma chama bem guardada. Grande filme.