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Amour – Amor

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A vida é bela, grande. Alguma vezes, longa. A vida é difícil. Algumas vezes cruel, no final. Amour trata, bem ao estilo do diretor Michael Haneke, sobre a mudança crucial que acontece na vida de um casal que compartilha a velhice. Não há espaço para floreios, mas para a observação precisa de uma rotina complicada. A intenção do diretor é compartilhar com o espectador aquela intimidade que ninguém conhece, nem é capaz de compreender em toda a sua complexidade. Como o nome da produção sugere, este filme lança um olhar atento para o mais nobre dos sentimentos, cheio de conflitos, altos e baixos, mas também de uma certeza contagiante.

A HISTÓRIA: Com a ajuda de bombeiros, a polícia abre a porta trancada. Vizinhos chegam, e o odor forte da residência cria reações esperadas de repúdio. Um ambiente da casa está, além de trancado, lacrado com fitas adesivas. O policial que lidera a operação (Laurent Capelluto) abre as janelas, para que o cheiro seja dissipado. Quando os bombeiros abrem a porta do quarto trancado, ele encontra o corpo de Anne (Emmanuelle Riva) deitado sobre a cama, com flores secas espalhadas ao redor de sua cabeça, no travesseiro. Corta. Em um teatro lotado, olhamos para uma plateia que, primeiro, se acomoda e, depois, ouve a um concerto de piano. No meio desta plateia, o casal Anne e Georges (Jean-Louis Trintignant). Acompanhamos eles cumprimentando ao pianista, Alexandre (Alexandre Tharaud), e depois voltando para casa. Em breve, a vida deste casal será modificada quando Anne começa a apresentar alguns problemas de saúde.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Amour): A vida é cheia de imprevistos. O que temos como certo hoje, pode mudar radicalmente amanhã. Quando somos crianças, ou jovens, não percebemos o quanto somos frágeis. Com o passar do tempo, e com todas as dificuldades que a vida adulta vai nos trazendo, é que percebemos esta impermanência que marca cada um de nós e a existência de tudo que um dia já existiu.

Amour é um filme rico que, entre outros temas, trata justamente desta fragilidade. A percepção de que “viver é uma questão de sorte”, como diria a letra da música de um amigo meu espanhol, vai se tornando mais clara conforme vamos enfrentando momentos difíceis. Nossos ou de pessoas próximas. Ainda não estou perto da idade dos protagonistas desta produção, mas tenho certeza que quanto mais eu me aproximar da realidade deles, e se eu tiver esta sorte de viver tanto, mais claro terei esta vulnerabilidade em mente.

Ainda assim, mesmo que a gente tenha cada vez mais consciência disto, a imprevisibilidade da vida sempre vem e nos surpreende. Não há preparo para enfrentar o que Amour nos apresenta. Por mais equilibrada que seja uma pessoa e independente da crença que ela tenha na vida, em um Deus ou nas pessoas, não há estrutura suficiente para, em todos os momentos, tratar com força e esperança a situação vivida por Anne – olhando sob a ótica de Georges.

Michael Haneke é um realizador absurdo. No sentido de brilhante. A construção que ele faz desta história, com tanta naturalidade e, ao mesmo tempo, com tanta precisão na construção de cada cena, de cada sequência, é exemplar. Há momentos arrebatadores, como aquele em que Anne “se desconecta da realidade” na cozinha, antes de ir para o hospital, mas a maestria do diretor e roteirista se revela em todo o restante da história. Especialmente nos momentos mais complicados, mas também nas cenas mais “comuns”.

Porque aquela rotina “ordinária” provoca o espectador a olhar para a sua própria rotina, olhar com atenção para o interior do seu lar, de seus sentimentos e de suas relações. Fiquei especialmente maravilhada com sequências como aquela em que o diretor mostra os quadros que o casal preserva em casa. Georges e Anne eram pessoas sensíveis, atentas aos detalhes, que gostavam de arte e cultura. Educados, civilizados, seguem a linha de tantos idosos da França e de outros países europeus. Mas quem poderia, ainda, observar aqueles quadros com a sua beleza? Eles haviam perdido totalmente o valor e o significado. Como tudo que, por mais belo e inventivo que seja, é um artigo material. Afinal, somos nós que damos valor a estas coisas. Mas o que realmente tem valor, e que transcende a nossa fragilidade e, consequentemente a vida, sempre vai sobrepujar tudo isso.

E este artigo valioso, que dá nome a este filme, não está isento de contaminações. As diferentes vertentes e variações do amor são explicadas justamente pela contaminação do amor pelas demais características humanas. Assim, há amor possessivo, altruísta, que morre em si mesmo, é doado, se multiplica, egoísta e tantas outras variações. A mesma relação pode sustentar estas e tantas outras variações. E quem poderá classificar este amor?

O filme de Haneke, aliás, mostra como somos ignorantes. Como desconhecemos, de fato, o que acontece com as outras pessoas. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Este, sem dúvida, foi um dos aspectos mais marcantes desta produção para mim. Enquanto os vizinhos de Georges e Anne, interpretados por Ramón Agirre e Rita Blanco, admiravam a dedicação de Georges para cuidar da mulher, a filha deles, Eva (Isabelle Huppert) questionava as decisões do pai. Qual leitura estaria certa? A otimista e benevolente dos vizinhos ou a extremamente crítica da filha? Eu diria que ambas estavam certas e, ao mesmo tempo, erradas.

Ninguém, e isso aprendi com a vida, mas este filme aborda muito bem, sabe de fato o que acontece na vida da outra pessoa. De fato somos pequenos universos complexos e cheios de sentimento, histórias, percepções, que seremos “tocados” e “entendidos” apenas em parte por outra pessoa. Na melhor das hipóteses. Temos sorte quando encontramos alguém que nos entende sem precisarmos falar muita coisa. E ainda assim, mesmo dando esta sorte, seremos compreendidos e conhecidos apenas em parte. Amour trata muito disto. Georges e Anne compartilharam uma vida juntos e, ainda assim, ele contava histórias que Anne nunca havia ouvido.

Não importa o tempo que passemos ao lado de alguém. Esta pessoa nunca vai nos entender plenamente. E, apesar disto, é possível amar ao outro de uma forma absurda, completa. Mesmo sem o entendimento pleno. Um ponto chave para isto, e Amour nos ensina um bocado a este respeito, é o respeito. Georges, mesmo intimamente contrariado, respeita ao máximo a vontade de sua amada. E busca, até o final, ajudá-la, e respeitar a vontade dela. E é muito difícil fazer isso porque, muitas vezes, respeitar ao máximo a vontade de quem se ama é aceitar abrir mão não apenas da tua própria vontade, mas também daquilo que você acha certo. A vontade de quem se ama pode estar totalmente equivocada, mas o esforço altruísta está, justamente, em segui-la apesar disto.

Difícil. Complicado. Amour é assim. Um filme duro que nos faz observar a vida como ela é. Porque nem sempre as histórias tem final feliz. Nem sempre a vida toma rumos que a gente gostaria. Porque um elemento fundamental da vida é o imprevisível, e todos os acidentes que podem ocorrer a partir daí. Apesar disto, nos aventuramos no percurso. Algumas vezes, temos a sorte de amar. E de fazer este sentimento transcender as dificuldades e a morte. Porque estas duas últimas são inevitáveis. Mas o amor… para existir e vencer, precisa ser buscado, conquistado, batalhado. Ele não é inevitável. Mas faz todo o resto valer a pena.

NOTA: 9,7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Possivelmente este filme mereceria uma nota 10. Eu sei disso. Admito. Mas vou explicar a razão de eu não ter conseguido dar a nota máxima pra ele: sou uma otimista inveterada. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Eu entendo, e admiro Michael Haneke pro ele fazer um filme como este, sem um final redentor. O que temos é a vida real, sem firulas. Sendo assim, muitas vezes, não há uma solução bacana para uma situação complicada como a mostrada por Amour. Paciência. É assim mesmo. Ainda assim, pelo estilo de pessoa que eu sou, me incomoda um pouco esta dureza, esta falta de compreensão final. O gesto de Georges, para mim, não foi o complicado. E sim a chegada de Eva na casa vazia. Nem Georges, após tudo que ele fez por Anne, teve uma sobrevida. Isto sim me incomodou. Esta falta de diálogo entre pai e filha que nunca será resolvido. Uma falta de esperança definitiva. Não consigo dar um 10 para este filme por isso. Por mais que eu saiba que, algumas vezes, seja isso mesmo que aconteça.

Fiquei extremamente fascinada pelo trabalho destes dois gigantes chamados Jean-Louis Trintignant e Emmanuelle Riva. Acredito que sempre que se fale de grandes atuações, a partir de agora, deveriam citar estes atores fenomenais. Não entendo, por exemplo, porque ela foi indicada ao Oscar e ele não. Para mim, é evidente que ambos fazem um trabalho soberbo. E imagino que Hollywood não fará o certo, em premiar a Emmanuelle Riva. Não será totalmente uma injustiça dar a estatueta para Jessica Chastain, que isso fique claro. Mas sem dúvida Emmnauelle dá um banho. Para mim, se ela realmente não ganhar, será como o Oscar 1999, quando Fernanda Montenegro deveria ter levado a estatueta. Paciência, pois.

Sobre a história, há outro aspecto que me chamou a atenção, além da dificuldade de entendimento da filha sobre a realidade dos pais. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). O abismo das nossas relações atuais entre a vontade de fazer boas ações e a prática deste altruísmo. Eva tem uma vida complicada, é verdade. Está cheia de razão quando tenta ver uma alternativa para a mãe que, evidentemente, ela ama. Mas não consegue sair desta posição de “voz crítica” e, de fato, fazer algo prático a respeito. Claro que aí também entra o respeito do qual eu falava acima. Ela não quer invadir a vida dos pais, e obrigar Georges ou Anne a fazerem o que eles não querem. Esta complexidade do amor é o que parece impossível de conciliar. Onde está o limite para a ação? Sabendo que cada indivíduo sabe, com exatidão, o que pensa e o que sente, como não impor a sua vontade, por mais bem intencionada que ela seja? E ao não fazer isso, como não ser visto como egoísta ou displicente? Como eu disse, é complexo.

Michael Haneke é um diretor interessante. Em muitas sequências deste filme ele não nos mostra o ângulo que seria “esperado”. Desde a cena no teatro, em que não assistimos ao artista, e sim à plateia, até o momento em que Alexandre visita a antiga professora e, enquanto espera por Georges, não acompanhamos a ação propriamente, de Georges buscando a Anne, e sim a espera de Alexandre. É como se a todo momento Haneke nos lembrasse que aquele filme não era para satisfazer as nossas vontades. Porque o amor não pode ser assim. Mas que deveríamos seguir observando e captando os detalhes do que ele, mestre do artifício, queria nos mostrar. Observar o que não é o foco evidente das atenções sempre nos traz elementos interessantes. Haneke acerta também nisto.

Além do fantástico trabalho do diretor e roteirista Michael Haneke e da sua estupenda dupla de protagonistas, Amour tem uma direção de fotografia impecável. Mérito de Darius Khondji. Muito bom, e merece ser citado também, o trabalho dos editores Nadine Muse e Monika Willi.

Uma curiosidade sobre esta produção: a cena do pombo foi rodada 12 vezes. Diferente de cães e cavalos, certamente os pombos são mais difíceis de “dirigir”. 🙂

Outra curiosidade: esta produção teve uma certa inspiração em uma experiência pessoal de Haneke. Uma tia dele sofria de uma doença degenerativa, e as pinturas vistas na produção são da coleção particular dos pais do diretor.

Michael Haneke escreveu este roteiro pensando em Jean-Louis Trintignant que, segundo o IMDb, estava há sete anos sem atuar. Que bom que ele voltou, para nos brindar com uma interpretação tão marcante.

Indicada ao Oscar deste ano, Emanuelle Riva se tornou a atriz com maior idade da história a concorrer a uma estatueta. Ela chega à disputa com 84 anos, batendo o recorde anterior, de Jessica Tandy, que foi indicada e saiu vencedora do Oscar aos 80 anos de idade. A premiação deste ano também tem outro recorde na mesma categoria: Quvenzhané Wallis se tornou a atriz mais jovem indicada a um Oscar, aos nove anos de idade.

Vejam como um ótimo filme não precisa consumir um absurdo de dólares ou euros. Amour teria custado cerca de 7,29 milhões de euros. Até o momento, ele teria arrecadado pouco mais de US$ 1,33 milhões nos Estados Unidos e US$ 13,1 milhões no restante do mundo. Honestamente, espero que ele ganhe algumas estatuetas no Oscar para conseguir um lucro muito maior. Merece.

Amour estreou em maio de 2012 no Festival de Cannes. Depois, o filme passou por outros 22 festivais. Belo número. Nesta trajetória, a produção conquistou 28 prêmios e foi indicada a outros 30, além de ter sido indicada para cinco Oscar’s. Entre os prêmios que recebeu, absoluto destaque para a Palma de Ouro como melhor filme no Festival de Cannes. Também merecem menção os prêmios de Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator e Melhor Atriz no Festival de Cinema Europeu; Melhor Filme em Língua Estrangeira no Globo de Ouro; e Melhor Filme em Língua Estrangeira no National Board of Review.

Esta produção foi totalmente rodada em Paris.

Amour é uma coprodução da França, Alemanha e Áustria. Mas na indicação ao Oscar, apareceu como uma indicação austríaca.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8 para esta produção. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 127 críticas positivas e 11 negativas para Amour, o que rendeu uma aprovação de 92% e uma nota média de 8,6. Para os padrões do site, esta nota é muito, muito boa.

CONCLUSÃO: O diretor Michael Haneke é um especialista em desconcertar o espectador e fazê-lo pensar nos seus sentimentos mais profundos. E também em fazer ele pensar sobre a razão de atos extremos que, anteriormente, ele não compreendia. Amour é um filme duro, pesado. Ao mesmo tempo, um libelo impressionante sobre o amor, a doação, o altruísmo e, porque não dizer, o egoísmo. Esta produção abre mão de uma mensagem redentora, que seria tão natural em filmes de Hollywood, para explorar uma de tantas histórias difíceis da vida pela ótica da falta de esperança. Mais uma vez, a dificuldade que as pessoas tem de se comunicarem e se compreenderem entra no foco, na relação da filha e do genro e dos demais “estranhos” com o casal de idosos. E a dificuldade que, muitas vezes, os próprios protagonistas têm de dialogar. Haneke não cede aos finais redentores e, desta forma, mais uma vez, trilha o caminho de um cinema provocador. Sorte da gente ter uma figura como ele para acompanhar.

PALPITE PARA O OSCAR 2013: Amour foi indicado para cinco estatuetas: Melhor Filme, Melhor Filme em Língua Estrangeira, Melhor Diretor, Melhor Roteiro Original e Melhor Atriz. Exceto pela indicação dupla como melhor filme, francamente, ele tem potencial para ganhar todos os demais prêmios. Ou seja: pode receber até quatro estatuetas neste Oscar.

E seria justo. Mas acho difícil que isso aconteça. Primeiro porque não vejo Hollywood deixando de “lado” produções com forte lobby para trás, como Lincoln e Argo. Depois, que a mesma regra vale para Melhor Diretor. Dificilmente vão premiar Michael Haneke no lugar de Steven Spielberg ou David O. Russell. Mas surpresas, especialmente na categoria, diretor, sempre podem ocorrer.

Vejo mais chances desta produção vencer nas demais categorias. Amour tem boas chances contra Moonrise Kingdom, Zero Dark Thirty, Flight e Django Unchained. Não assisti, ainda, aos últimos dois. Mas posso dizer que acho justo se ele vencer nesta categoria. E olha que eu gostei muito dos roteiros de Moonrise Kingdom e Zero Dark Thirty. Bem diferentes uns dos outros.

Do que assisti até agora do trabalho das concorrentes à Melhor Atriz, sem dúvida o meu voto iria para Emmanuelle Riva. Ela destrói qualquer concorrência com o seu trabalho soberbo. E em Melhor Filme em Língua Estrangeira, ainda que eu não tenha assistido aos outros quatro concorrentes, me arrisco a dizer que Amour é o franco favorito. Quase uma barbada.