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Elle

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Vivemos em sociedades em que a violência, os desejos e a loucura jogam papéis importantes. Talvez cada vez mais relevantes. Elle nos conta uma história interessante, destas sobre as quais precisamos pensar um bocado depois para pensar o que achamos delas. O filme aborda aquelas três questões que citei na primeira frase e tem um bocado delas na história. Mesmo que a violência seja o elemento constante, pincelado aqui e ali, talvez a sobrevivência e a “volta por cima” sejam as mensagens que ficam no final. Filme instigante, interessante, mas não é o melhor desta safra.

A HISTÓRIA: Ouvimos gemidos e um soco. Um gato olha fixo para a frente e resolve ir para outro local. Na cozinha, um homem mascarado acaba de estuprar Michèle Leblanc (Isabelle Huppert) no chão e sai tranquilamente pela porta. Michèle se levanta lentamente. Ela está em choque. Depois, limpa a bagunça deixada pela cena violenta e vai tomar um banho demorado na banheira. Ela pede comida por telefone e espera o filho, Vincent (Jonas Bloquet), que chega atrasado. Ele está em um novo emprego e ficou mais tempo nele. Os dois conversam sobre um apartamento que ele vai alugar, e a mãe oferece ajuda. Michèle segue trabalhando e tenta manter uma vida normal, mas o perigo seguirá rondando a casa dela.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Elle): Um filme que começa com um gato e um estupro já mostra a que veio. Paul Verhoeven é um diretor ousado e aqui, novamente, ele mostra isso. Elle bebe dos filmes clássicos de suspense mas também avança ao mostrar aspectos que não são muito comuns nestas produções. A protagonista não é uma simples vítima de um canalha que a estupra e que mantém ela refém do medo. Não, ela é uma personagem complexa e interessante.

Aliás, possivelmente a construção da protagonista seja a parte mais interessante de Elle. Michèle Leblanc é uma mulher que beira os 50 anos, divorciada, independente, que vive sozinha, tem a sua própria empresa em sociedade com a amiga Anna (Anne Consigny), tem uma vida sexual ativa e “sem sentimentalismos”. Ela é estuprada na cozinha de casa e não para a vida por causa disso. Neste sentido o histórico dela tem um peso muito importante. E não poderia ser de outra forma, convenhamos.

Elle é um filme feito para Isabelle Huppert, uma das grandes atrizes da França, brilhar. E ela realmente faz isso. A personagem dela e toda a sua complexidade/humanidade são, sem dúvida alguma, os pontos fortes da produção. No mais, do que trata a história? Essencialmente de dois pontos: o perigo constante que ronda Michèle que, de forma inteligente, logo percebe que foi estuprada por alguém próximo dela, e o acerto de contas que ela tenta ter com o passado. Curioso que tanto o presente quanto o passado dela são cercados de violência. Mas isso não faz com que ela fique paralisada, o que só mostra a força da mulher e da personagem – um ponto forte que é ainda mais ressaltado na cena final da produção na conversa entre ela e Anna.

O suspense de Elle é garantido pela cena inicial do estupro e que, de forma muito inteligente, é “revivida” por Michèle em duas outras ocasiões. Na primeira, ela apenas revê como tudo aconteceu para tentar compreender melhor a situação. Na segunda ela já imagina o que poderia ter feito para se defender. Interessante este recurso utilizado pelo roteirista David Birke, que trabalha o texto do filme baseado no livro de Philippe Dijan. O filme tem uma forte carga psicológica e, devo dizer, por detalhes como este de Michèle revivendo o trauma, também bem realista.

Inicialmente achamos estranho que a protagonista buscou apenas um médico e não fez queixa na polícia. Mas conforme o roteiro de Elle vai se desenvolvendo e vamos entendendo melhor a personagem, fica claro como o passado trágico da família dela influencia o presente da personagem. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). O pai dela, Georges, matou toda a vizinhança quando Michèle tinha 10 anos de idade. Ele entrou nas casas e matou 27 pessoas, incluindo crianças e adultos, além de animais de estimação. A protagonista deixa claro que lutou muito para reconstruir a vida apesar da polícia e da imprensa e, por isso mesmo, prefere lidar com o risco de continuar sendo vítima de um maníaco por sua própria conta.

Pelo desenrolar da história, especialmente pelas mensagens que Michèle recebe no celular e por um vídeo parodiando uma cena de estupro no jogo que a empresa dela está produzindo, fica claro que o algoz da protagonista é alguém próximo. Desde o início eu desconfiei de duas pessoas: Patrick (Laurent Lafitte), o vizinho da frente que teria bastante facilidade de acompanhar a rotina de Michèle (este é um elemento-chave em casos assim), e Kurt (Lucas Prisor), que parece ser o diretor técnico da emrpesa de Michèle e de Anna e que confronta a chefe com alguma regularidade. Os dois dão diversos sinais de comportamento estranho durante o filme.

(SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Mesmo aquela sequência em que Michèle chega em casa e a polícia está na rua procurando um “suspeito” que Patrick tinha identificado, não me convenceu. Achei, ali, que ele poderia estar forjando aquela situação. Por isso mesmo não foi totalmente surpresa quando em um novo ataque Michèle conseguiu reagir e desmascarou o vizinho. Mesmo não sendo muito surpreendente, este fato jogou uma luz interessante na história. Michèle estava flertando com o vizinho descaradamente. Havia interesse mútuo entre os dois. Por isso mesmo é tão difícil para ela entender porque ele, podendo ter um caso com ela sem muito esforço, preferiu o caminho da violência e do estupro.

Elle é um filme que retrata, desta forma, desvios de comportamento, obsessões e escolhas pela violência sem maiores explicações. Tanto a chacina praticada pelo pai de Michèle quanto os estupros praticados por Patrick carecem de explicação e ficam sem ela. Afinal, o que explicaria comportamentos tão fora das regras sociais e do que aceitamos como lógico? O filme de Paul Verhoeven não se arrisca a querer explicar isso, mas ele mostra uma sobrevivente de toda esta carga de violência: Michèle.

Por mais que a protagonista se sentisse atraída por Patrick – e todos os homens ao redor dela percebem isso -, ela não aceita aquele jogo maluco em que a violência tinha que ser um elemento básico da “relação” deles. Em certo momento do filme, ao conversar com o ex-marido, Richard (Charles Berling), fica claro que Michèle não gostava de violência. Ela diz que eles se separaram depois que ele bateu nela. Ainda assim, mesmo divorciados, fica claro que ela tem uma certa esperança deles retornarem – tanto que ambos tinham como regra se “aventurarem” apenas com pessoas casadas, sem o risco, assim, de terem uma relação realmente séria.

Richard quebra esta regra ao se relacionar com Hélène (Vimala Pons), o que motiva ainda mais Michèle a buscar novas relações para se distrair. Ela se cansou das aventuras com Robert (Christian Berkel), até porque se sente mal em ficar mentindo para a melhor amiga e sócia. Mas como ela gosta de ter o controle da situação e é sexualmente ativa, ela logo começa a investir em Patrick. Antes de descobrir, é claro, o “segredinho sórdido” do vizinho.

O final é interessantemente dúbio e permite mais de uma leitura. Michèle convida Patrick para a festa de lançamento do novo jogo da empresa dela e, na volta, ela ameaça o vizinho de escancarar o seu lado obscuro para a polícia e para a mulher dele. Eu achei a atitude muito corajosa porque, afinal, seria muito fácil para ele matá-la. A alta voltagem sexual entre os dois e a violência ganham um capítulo final. E a partir daqui há duas questões que podem ter mais de uma leitura.

Primeiro, Michèle estava mesmo falando sério no carro ou o que ela disse era apenas uma forma de provocar Patrick para eles terem mais um encontro “quente” e violento? Da minha parte, acho que ela estava falando sério. Como mulher independente que ela era e, seguindo o que eu observei antes sobre Richard, ela não ter o perfil de mulher que gostasse de ser agredida, acredito sim que ela decidia sempre o que considerava melhor para si, independente do que os outros achassem. Ela não queria seguir com aquele jogo com Patrick e ia mesmo denunciá-lo. Ele resolve se arriscar e conferir de perto se aquilo era apenas uma provocação ou algo que poderia acontecer. O desfecho daquela situação, por outro lado, foi imprevisto e acidental.

Mas na sequência dos fatos – muito acertado, aliás, o filme não terminar naquele desenlace -, há um outro ponto que pode render mais de uma leitura. Na sequência em que Michèle vai conversar com Rebecca (Virginie Efira) está controlada, aparentemente em paz. Inicialmente podemos pensar que ela, por ser muito católica, está se “agarrando na fé”, e por isso aceitou bem tudo que aconteceu.

Mas quando Rebecca fala para Michèle que ela fica feliz de que Patrick tenha encontrado nela o que ele precisava, pelo menos por um tempo, o espectador pode se perguntar se, afinal, ela sabia sobre os “desvios” do marido. Eu acredito que sim. Que ela “aproveitava” o lado bom que Patrick tinha e fechava os olhos para os crimes que ele praticava para satisfazer os seus desejos sexuais regados à violência. Ou seja, Elle inteiro trata sobre as diferentes formas de violência e sobre um bocado de psicologia.

Alguns podem pensar, especialmente sobre a forma com que Michèle reage aos estupros quanto pela maneira com que ela encara a mãe Irène (Judith Magre) e o pai preso que ela era uma psicopata. Afinal, ela não esboça grande emoção nestes diferentes fatos. Não gosto de julgar ninguém, mas para mim ela apenas aprendeu a forjar os seus sentimentos e reações frentes aos fatos após passar pela situação mais absurda que alguém pode imaginar. Ela tinha 10 anos quando o pai foi preso após matar 27 pessoas e ela foi acusada por ser cúmplice apenas por ter entrado na “brincadeira” de colocar fogo nas coisas de casa. Certamente aquilo lhe deu uma carapaça muito forte.

Ela conseguiu, da melhor forma que ela encontrou, conviver com aquele pesadelo que foi perdurado no tempo pela memória das pessoas e o resgate da história pela imprensa. Tornou-se forte, independente, dona do próprio nariz. Mas não acho que ela fosse psicopata porque, afinal de contas, ela teve raiva e ódio do pai por muito tempo. Com o aneurisma que Irène sofre na noite de Natal e por causa do último pedido que ela faz para Michèle, ela resolve encarar o pai depois de quase 30 anos de prisão dele.

Por mais que a protagonista não gostasse de mostrar nenhuma fragilidade e, consequentemente, os seus sentimentos, dá para perceber que ela sofre o baque do que acontece com a mãe e também com as agruras do filho. Vincent se casa com Josie (Alice Isaaz), uma garota que não tem nenhum apreço pela sogra e, aparentemente, nem grande respeito pelo marido. Quando a garota tem o bebê que seria deles, Michèle percebe que ela está manipulando a situação. Em resumo, ela se importa com o filho, com a amiga Anna e com os demais. Não é exatamente um comportamento de uma psicopata.

A história é interessante e envolvente. Para mim, o roteiro não foi tãoooo surpreendente na revelação do criminoso que aterroriza Michèle. Mas isso não torna o roteiro ruim. Pelo contrário. O texto de Birke é bom porque desenvolve bem os personagens, especialmente a protagonista. Contemporâneo, moderno, o filme também escancara a cultura da violência e do machismo, tendo a coragem de apresentar uma mulher que resiste à tudo isso e insiste em sobreviver. Interessante, muito interessante. Poderia ser um filme de Almodòvar, se o diretor estivesse em uma boa fase. Não é o caso, infelizmente. Mas é bom ver que outros diretores conseguem ser tão ousados quanto.

NOTA: 9,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Gostei muito do trabalho de todos os atores envolvidos nesta produção. Claro que o destaque principal é o da sempre ótima Isabelle Huppert. Há quem diga que ela pode ser indicada ao Oscar de Melhor Atriz. Realmente ela pode. Faz um grande trabalho aqui. Bastante orgânico, convincente, sem exageros ou forçando a barra. A personagem dela, que é firme, mas complexa, ganha legitimidade pelo talento da atriz. Mas é preciso assistir aos outros filmes das atrizes sempre cotadas nesta categoria para saber se ela realmente poderá chegar lá.

Para Isabelle Huppert brilhar em cena ela precisa de um ótimo elenco para atuar com ela. Paul Verhoeven foi feliz ao escolher aos demais atores da produção. Claro que o outro destaque vai para Laurent Lafitte. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Ele faz muito bem a transição do vizinho “super boa praça” e atencioso para o sujeito que tem um desvio de comportamento sério e que é violento para dar vasão para a sua tara sexual. Lafitte não perde a mão ou exagera nesta transição, tornando o personagem dele bastante crível. Fundamental para o filme.

Dos atores coadjuvantes, merecem destaque os talentosos Anne Consigny como a sócia e melhor amiga de Michèle; Charles Berling como o escritor e ex-marido da protagonista; e Virginie Efira como a religiosa e sempre simpática vizinha de Michèle. Todos tem desempenhos inspirados e bastante adequados para os seus personagens. Estão muito bem também Judith Magre como Irène, a mãe provavelmente setentona de Michèle que gosta de jovens rapazes; Christian Berkel como o marido sorrateiro de Anna; Alice Isaaz como a maluquete namorada de Vincent; e o próprio Jonas Bloquet como o um tanto tapado (ou inocente/carente) Vincent. Todos estes atores tem papéis com uma certa relevância na produção.

Além deles, vale citar os atores que tem papéis menores, mas que também se saem bem quando aparecem em cena: Vimala Pons como Hélène, a linda nova namorada de Richard; Raphaël Lenglet como Ralf, o mais novo namorado de Irène e visto como Michèle como o novo golpista do pedaço; Arthur Mazet como Kevin, o funcionário de Michèle que a admira que é contratado por ela para descobrir quem fez o vídeo paródia dela sendo estuprada no jogo que eles estão produzindo; Lucas Prisor como Kevin, um dos principais responsáveis pelo jogo que a empresa da protagonista está produzindo; e Stéphane Bak como Omar, colega de trabalho de Vincent e suspeito número 1 de ter um caso com Josie.

Da parte técnica do filme, sem dúvida alguma o destaque é a direção de Paul Verhoeven. Ele tem um estilo muito interessante, que valoriza, claro, o trabalho dos atores e torna toda a dinâmica do filme bastante convincente. Muito bom também o roteiro de David Birke – gosto, especialmente, quando Michèle destila toda a sua personalidade. Especialmente interessante o diálogo que ela tem com Patrick após o acidente. Mas há muitos pontos altos e interessantes no filme, com destaque para os diálogos entre os atores. Sem dúvida alguma é o roteiro, com ótimos diálogos, e a interpretação diferenciada de Isabelle Huppert que faz Elle ser melhor do que um thriller regular.

Outros elementos técnicos de destaque do filme são a trilha sonora bem pontual e que ajuda a contar a história de Anne Dudley; a direção de fotografia competente mas sem estrelismos de Stéphane Fontaine; a ótima edição de Job ter Burg; o design de produção de Laurent Ott; os bem definidos e estrategicamente escolhidos figurinos de Nathalie Raoul; e a maquiagem de Sophie Farsat.

Agora, um adendo sobre o filme que eu não comentei antes. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Depois que a identidade do estuprador é descoberta, Michèle evidentemente se sente desconfortável ao encontrar o vizinho. Mas aí, porque quando ela sofre o acidente, ela liga para ele? Verdade que ela tentou Anna e o ex-marido primeiro, mas ela não teria outras alternativas, como Vincent ou mesmo Robert? Além disso, é verdade que ela não gostava da polícia e de policiais, mas ela não poderia ter chamado ao socorro, aos Bombeiros, ou na França isso não existe? Claro que existe, estou brincando. Ela chama Patrick. Se isso não é muito lógico, pelo menos rende uma conversa reveladora para a história.

Verdade que Michèle está tentando entender o que aconteceu e as motivações dele. Isso faz sentido. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Acho que no início ela fica imaginando se ele, como ela, não tinha um grande desejo mas, com medo de se declarar, preferiu o caminho da violência com “anonimato”. Mas depois ela percebe que não é nada disso.

Naquela conversa reveladora que eu comentei e em fatos que vão acontecer posteriormente Michèle percebe que Patrick não tem coragem de verbalizar os seus desejos e nem lida bem com eles. Na verdade, aquele é um lado obscuro que ele tem e sobre o qual ele não gosta de falar. Mas é um desejo que ele tem e que acredita que deve suprir, mesmo que vá totalmente contra a “versão oficial” que ele tem para a sociedade. Sinistro. E mais um exemplo de que pessoas mal resolvidas são perigosas. O final dele não é planejado, mas não deixa de ser irônico que Vincent, sem nunca ter conhecido o avô, se torne um assassino também.

Elle estreou no Festival de Cinema de Cannes em maio. Depois, o filme fez (e está fazendo) o impressionante circuito de outros 27 festivais e eventos de cinema pelo mundo. Os últimos nos quais ele vai participar são o Festival de Cinema de Toronto, que começa no dia 18, e da Semana do Festival de Cinema de Cannes, que começa no dia 30.

Nesta trajetória de festivais, Elle conquistou um prêmio e foi indicado a outros seis. Apesar de ter sido indicado à Palma de Ouro no Festival de Cannes, o filme não ganhou o prêmio. O único prêmio que ele recebeu foi o Grand Prix do ICS Cannes Award do Prêmio Internacional da Sociedade Cinéfila francesa. Não deixa de ser curioso que um filme tão bem cotado para o Oscar tenha apenas um prêmio anterior no currículo até o momento. Isso, acredito, não o ajuda muito na corrida para a estatueta dourada.

Esse filme, que é uma coprodução da França, da Alemanha e da Bélgica, tem a predominância dos recursos da França, por isso ele pode ser escolhido pelo país como o candidato francês para o Oscar 2017.

Elle foi totalmente rodado na França, em quatro cidades. Uma fica bastante evidente na história: Paris, com cenas em Port de Montebello (as do restaurante), Rue Soufflot (onde Vincent trabalha), o conhecidíssimo Cemitière du Père-Lachaise (cemitério do final da produção) e a Rue de Beaujolais (quando Michèle bate no carro de Richard); na cidade de Hauts de Seine (cena das cinzas); na cidade de Fresnes, parte de Val-der-Marne (cenas exteriores da prisão); e na cidade de Saint-Germain-en-Laye, na 11bis Rue Charles Rhôné, onde é ambientada a casa dos Leblanc.

Agora, uma curiosidade sobre este filme: Elle inicialmente foi planejado para ser rodado nos Estados Unidos. Mas o diretor Paul Verhoeven não conseguiu encontrar uma protagonista para a produção. O papel foi oferecido para Nicole Kidman, Diane Lane, Julianne Moore, Cate Blanchett, Kate Winslet, Marion Cotillard, Carice van Houten e Sharon Stone (ufa!), mas todas recusaram o papel logo depois de lerem o roteiro. Elas nem esperaram alguns dias para negar o papel, como é de praxe. Pois perderam uma boa oportunidade de brilhar. Seria interessante, agora, ver Isabelle Huppert concorrendo ao um Oscar por Michèle. Não sei se isso vai acontecer, mas seria interessante.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,3 para Elle. Uma boa avaliação, levando em conta o padrão do site, mas achei pouco para um filme que quer ganhar uma estatueta dourada. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram mais generosos, dedicando 73 críticas positivas e apenas seis negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 92% e uma nota média de 8,1. Especialmente a nota chama a atenção. Ela é bastante boa se levarmos em conta a média das críticas listadas no site. Pela crítica sim, o filme pode chegar lá.

CONCLUSÃO: Boa parte da loucura das sociedades modernas está plasmada nesta produção. A violência é um elemento muito presente, assim como as taras envolvendo o sexo, o jogo de poder entre homens e mulheres e a super exposição das pessoas na mídia. Filme bem contemporâneo e com uma história envolvente, ele tem uma grande atriz como protagonista. Mas no final, você se pergunta qual é o sentido de tudo isso. Além de refletirmos sobre o que nos rodeia, sem dúvida Elle nos faz pensar sobre a nossa capacidade de nos reinventar e de sermos verdadeiros com a gente mesmo. Uma boa produção, que terá uma vida dura para conseguir uma ou duas estatuetas douradas.

PALPITES PARA O OSCAR 2017: Elle está sendo apontado sempre como um dos favoritos a uma das cinco vagas finais da categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira do Oscar 2017. De fato, o filme tem diversas qualidades que o podem levar até lá. Mas ganha a estatueta já é outros 500.

Há muitos filmes ainda para assistir e que estão bem cotados nesta categoria. Mas do que eu vi até agora, acho que Under Sandet (comentado aqui) é a produção com maiores chances, não apenas de figurar entre os finalistas mas também de ganhar o Oscar. Depois, o venezuelano Desde Allá (com crítica neste link) é tão interessante quanto Elle, mas talvez ele tenha até mais força e seja mais surpreendente do que a produção francesa. Aí tudo vai depender do gosto dos votantes da Academia e se eles estão dispostos a apostar em uma escola menos tradicional.

Desta lista inicial, sem dúvida alguma Julieta (comentado por aqui) corre por fora. O filme emplacaria mais pela força do diretor Pedro Almodóvar do que por sua proposta, qualidade ou inovação. O brasileiro Pequeno Segredo, então, corre totalmente por fora, bem distante da história mais impactante destas produções. Novamente, comento, ele tem poucas chances de chegar entre os finalistas. Interessante também observar que Elle e Desde Allá tratam de alguns temas em comum, como desejos, sexo, manipulação e histórias mal resolvidas dos protagonistas com os seus pais.

Os dois roteiros são bem feitos, com uma narrativa interessante, tendo como principal diferença o contexto social e os protagonistas – no filme francês temos uma mulher dando as cartas, enquanto no filme venezuelano é um homem de meia idade. Aí tudo vai depender do gosto dos votantes, sem dúvida. Para mim, qualquer um dos dois poderia chegar lá, mas faz mais sentido que apenas um deles consiga uma vaga – até para não termos dois filmes “parecidos” entre os cinco finalistas. Agora, para mim, Under Sandet é o filme que realmente precisa chegar lá. Ele merece.

Da minha parte, até prefiro a história de Desde Allá do que a de Elle. Certo que a produção francesa tem a ótima Isabelle Huppert como um dos destaques, além de ter uma pegada mais “grandes centros” e tecnologia/mídia, elementos que me interessam, mas prefiro a questão social levantada por Desde Allá. Querendo ou não, no filme venezuelano as pessoas não estão no mesmo patamar de situação e de conhecimento, diferente do que vemos em Elle. Acho que as reflexões levantadas por Desde Allá são um pouco mais interessantes do que as de Elle. Mas essa, claro, é a minha opinião. Logo mais veremos o que os votantes da Academia vão achar disso tudo.

ATUALIZAÇÃO (18/12): Foi um bocado surpreendente Elle ficar de fora dos filmes pré-indicados ao Oscar 2017 na categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira e que foi divulgada no final da noite desta última quinta-feira. Digo isso porque o filme vinha sendo apontado sempre na lista dos filmes prováveis nesta categoria pelas bolsas de aposta. Mas ele ficou de fora. Ainda não o tirei da lista do Oscar 2017 porque a atriz Isabelle Huppert ainda tem uma chance de ser indicada, ainda que isso ficou mais difícil agora.

Vale citar também que o filme foi indicado na categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira do Globo de Ouro 2017. Aliás, dois filmes franceses estão disputando nesta categoria da premiação. Além de Elle, aparece na disputa o francês Divines. Os outros concorrentes no Globo de Ouro 2017 são Neruda, The Salesman e Toni Erdamnn – estes dois últimos são os favoritos do Oscar 2017 também. No Globo de Ouro Isabelle Huppert concorre também na categoria Melhor Atriz – Drama.

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Amour – Amor

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A vida é bela, grande. Alguma vezes, longa. A vida é difícil. Algumas vezes cruel, no final. Amour trata, bem ao estilo do diretor Michael Haneke, sobre a mudança crucial que acontece na vida de um casal que compartilha a velhice. Não há espaço para floreios, mas para a observação precisa de uma rotina complicada. A intenção do diretor é compartilhar com o espectador aquela intimidade que ninguém conhece, nem é capaz de compreender em toda a sua complexidade. Como o nome da produção sugere, este filme lança um olhar atento para o mais nobre dos sentimentos, cheio de conflitos, altos e baixos, mas também de uma certeza contagiante.

A HISTÓRIA: Com a ajuda de bombeiros, a polícia abre a porta trancada. Vizinhos chegam, e o odor forte da residência cria reações esperadas de repúdio. Um ambiente da casa está, além de trancado, lacrado com fitas adesivas. O policial que lidera a operação (Laurent Capelluto) abre as janelas, para que o cheiro seja dissipado. Quando os bombeiros abrem a porta do quarto trancado, ele encontra o corpo de Anne (Emmanuelle Riva) deitado sobre a cama, com flores secas espalhadas ao redor de sua cabeça, no travesseiro. Corta. Em um teatro lotado, olhamos para uma plateia que, primeiro, se acomoda e, depois, ouve a um concerto de piano. No meio desta plateia, o casal Anne e Georges (Jean-Louis Trintignant). Acompanhamos eles cumprimentando ao pianista, Alexandre (Alexandre Tharaud), e depois voltando para casa. Em breve, a vida deste casal será modificada quando Anne começa a apresentar alguns problemas de saúde.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Amour): A vida é cheia de imprevistos. O que temos como certo hoje, pode mudar radicalmente amanhã. Quando somos crianças, ou jovens, não percebemos o quanto somos frágeis. Com o passar do tempo, e com todas as dificuldades que a vida adulta vai nos trazendo, é que percebemos esta impermanência que marca cada um de nós e a existência de tudo que um dia já existiu.

Amour é um filme rico que, entre outros temas, trata justamente desta fragilidade. A percepção de que “viver é uma questão de sorte”, como diria a letra da música de um amigo meu espanhol, vai se tornando mais clara conforme vamos enfrentando momentos difíceis. Nossos ou de pessoas próximas. Ainda não estou perto da idade dos protagonistas desta produção, mas tenho certeza que quanto mais eu me aproximar da realidade deles, e se eu tiver esta sorte de viver tanto, mais claro terei esta vulnerabilidade em mente.

Ainda assim, mesmo que a gente tenha cada vez mais consciência disto, a imprevisibilidade da vida sempre vem e nos surpreende. Não há preparo para enfrentar o que Amour nos apresenta. Por mais equilibrada que seja uma pessoa e independente da crença que ela tenha na vida, em um Deus ou nas pessoas, não há estrutura suficiente para, em todos os momentos, tratar com força e esperança a situação vivida por Anne – olhando sob a ótica de Georges.

Michael Haneke é um realizador absurdo. No sentido de brilhante. A construção que ele faz desta história, com tanta naturalidade e, ao mesmo tempo, com tanta precisão na construção de cada cena, de cada sequência, é exemplar. Há momentos arrebatadores, como aquele em que Anne “se desconecta da realidade” na cozinha, antes de ir para o hospital, mas a maestria do diretor e roteirista se revela em todo o restante da história. Especialmente nos momentos mais complicados, mas também nas cenas mais “comuns”.

Porque aquela rotina “ordinária” provoca o espectador a olhar para a sua própria rotina, olhar com atenção para o interior do seu lar, de seus sentimentos e de suas relações. Fiquei especialmente maravilhada com sequências como aquela em que o diretor mostra os quadros que o casal preserva em casa. Georges e Anne eram pessoas sensíveis, atentas aos detalhes, que gostavam de arte e cultura. Educados, civilizados, seguem a linha de tantos idosos da França e de outros países europeus. Mas quem poderia, ainda, observar aqueles quadros com a sua beleza? Eles haviam perdido totalmente o valor e o significado. Como tudo que, por mais belo e inventivo que seja, é um artigo material. Afinal, somos nós que damos valor a estas coisas. Mas o que realmente tem valor, e que transcende a nossa fragilidade e, consequentemente a vida, sempre vai sobrepujar tudo isso.

E este artigo valioso, que dá nome a este filme, não está isento de contaminações. As diferentes vertentes e variações do amor são explicadas justamente pela contaminação do amor pelas demais características humanas. Assim, há amor possessivo, altruísta, que morre em si mesmo, é doado, se multiplica, egoísta e tantas outras variações. A mesma relação pode sustentar estas e tantas outras variações. E quem poderá classificar este amor?

O filme de Haneke, aliás, mostra como somos ignorantes. Como desconhecemos, de fato, o que acontece com as outras pessoas. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Este, sem dúvida, foi um dos aspectos mais marcantes desta produção para mim. Enquanto os vizinhos de Georges e Anne, interpretados por Ramón Agirre e Rita Blanco, admiravam a dedicação de Georges para cuidar da mulher, a filha deles, Eva (Isabelle Huppert) questionava as decisões do pai. Qual leitura estaria certa? A otimista e benevolente dos vizinhos ou a extremamente crítica da filha? Eu diria que ambas estavam certas e, ao mesmo tempo, erradas.

Ninguém, e isso aprendi com a vida, mas este filme aborda muito bem, sabe de fato o que acontece na vida da outra pessoa. De fato somos pequenos universos complexos e cheios de sentimento, histórias, percepções, que seremos “tocados” e “entendidos” apenas em parte por outra pessoa. Na melhor das hipóteses. Temos sorte quando encontramos alguém que nos entende sem precisarmos falar muita coisa. E ainda assim, mesmo dando esta sorte, seremos compreendidos e conhecidos apenas em parte. Amour trata muito disto. Georges e Anne compartilharam uma vida juntos e, ainda assim, ele contava histórias que Anne nunca havia ouvido.

Não importa o tempo que passemos ao lado de alguém. Esta pessoa nunca vai nos entender plenamente. E, apesar disto, é possível amar ao outro de uma forma absurda, completa. Mesmo sem o entendimento pleno. Um ponto chave para isto, e Amour nos ensina um bocado a este respeito, é o respeito. Georges, mesmo intimamente contrariado, respeita ao máximo a vontade de sua amada. E busca, até o final, ajudá-la, e respeitar a vontade dela. E é muito difícil fazer isso porque, muitas vezes, respeitar ao máximo a vontade de quem se ama é aceitar abrir mão não apenas da tua própria vontade, mas também daquilo que você acha certo. A vontade de quem se ama pode estar totalmente equivocada, mas o esforço altruísta está, justamente, em segui-la apesar disto.

Difícil. Complicado. Amour é assim. Um filme duro que nos faz observar a vida como ela é. Porque nem sempre as histórias tem final feliz. Nem sempre a vida toma rumos que a gente gostaria. Porque um elemento fundamental da vida é o imprevisível, e todos os acidentes que podem ocorrer a partir daí. Apesar disto, nos aventuramos no percurso. Algumas vezes, temos a sorte de amar. E de fazer este sentimento transcender as dificuldades e a morte. Porque estas duas últimas são inevitáveis. Mas o amor… para existir e vencer, precisa ser buscado, conquistado, batalhado. Ele não é inevitável. Mas faz todo o resto valer a pena.

NOTA: 9,7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Possivelmente este filme mereceria uma nota 10. Eu sei disso. Admito. Mas vou explicar a razão de eu não ter conseguido dar a nota máxima pra ele: sou uma otimista inveterada. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Eu entendo, e admiro Michael Haneke pro ele fazer um filme como este, sem um final redentor. O que temos é a vida real, sem firulas. Sendo assim, muitas vezes, não há uma solução bacana para uma situação complicada como a mostrada por Amour. Paciência. É assim mesmo. Ainda assim, pelo estilo de pessoa que eu sou, me incomoda um pouco esta dureza, esta falta de compreensão final. O gesto de Georges, para mim, não foi o complicado. E sim a chegada de Eva na casa vazia. Nem Georges, após tudo que ele fez por Anne, teve uma sobrevida. Isto sim me incomodou. Esta falta de diálogo entre pai e filha que nunca será resolvido. Uma falta de esperança definitiva. Não consigo dar um 10 para este filme por isso. Por mais que eu saiba que, algumas vezes, seja isso mesmo que aconteça.

Fiquei extremamente fascinada pelo trabalho destes dois gigantes chamados Jean-Louis Trintignant e Emmanuelle Riva. Acredito que sempre que se fale de grandes atuações, a partir de agora, deveriam citar estes atores fenomenais. Não entendo, por exemplo, porque ela foi indicada ao Oscar e ele não. Para mim, é evidente que ambos fazem um trabalho soberbo. E imagino que Hollywood não fará o certo, em premiar a Emmanuelle Riva. Não será totalmente uma injustiça dar a estatueta para Jessica Chastain, que isso fique claro. Mas sem dúvida Emmnauelle dá um banho. Para mim, se ela realmente não ganhar, será como o Oscar 1999, quando Fernanda Montenegro deveria ter levado a estatueta. Paciência, pois.

Sobre a história, há outro aspecto que me chamou a atenção, além da dificuldade de entendimento da filha sobre a realidade dos pais. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). O abismo das nossas relações atuais entre a vontade de fazer boas ações e a prática deste altruísmo. Eva tem uma vida complicada, é verdade. Está cheia de razão quando tenta ver uma alternativa para a mãe que, evidentemente, ela ama. Mas não consegue sair desta posição de “voz crítica” e, de fato, fazer algo prático a respeito. Claro que aí também entra o respeito do qual eu falava acima. Ela não quer invadir a vida dos pais, e obrigar Georges ou Anne a fazerem o que eles não querem. Esta complexidade do amor é o que parece impossível de conciliar. Onde está o limite para a ação? Sabendo que cada indivíduo sabe, com exatidão, o que pensa e o que sente, como não impor a sua vontade, por mais bem intencionada que ela seja? E ao não fazer isso, como não ser visto como egoísta ou displicente? Como eu disse, é complexo.

Michael Haneke é um diretor interessante. Em muitas sequências deste filme ele não nos mostra o ângulo que seria “esperado”. Desde a cena no teatro, em que não assistimos ao artista, e sim à plateia, até o momento em que Alexandre visita a antiga professora e, enquanto espera por Georges, não acompanhamos a ação propriamente, de Georges buscando a Anne, e sim a espera de Alexandre. É como se a todo momento Haneke nos lembrasse que aquele filme não era para satisfazer as nossas vontades. Porque o amor não pode ser assim. Mas que deveríamos seguir observando e captando os detalhes do que ele, mestre do artifício, queria nos mostrar. Observar o que não é o foco evidente das atenções sempre nos traz elementos interessantes. Haneke acerta também nisto.

Além do fantástico trabalho do diretor e roteirista Michael Haneke e da sua estupenda dupla de protagonistas, Amour tem uma direção de fotografia impecável. Mérito de Darius Khondji. Muito bom, e merece ser citado também, o trabalho dos editores Nadine Muse e Monika Willi.

Uma curiosidade sobre esta produção: a cena do pombo foi rodada 12 vezes. Diferente de cães e cavalos, certamente os pombos são mais difíceis de “dirigir”. 🙂

Outra curiosidade: esta produção teve uma certa inspiração em uma experiência pessoal de Haneke. Uma tia dele sofria de uma doença degenerativa, e as pinturas vistas na produção são da coleção particular dos pais do diretor.

Michael Haneke escreveu este roteiro pensando em Jean-Louis Trintignant que, segundo o IMDb, estava há sete anos sem atuar. Que bom que ele voltou, para nos brindar com uma interpretação tão marcante.

Indicada ao Oscar deste ano, Emanuelle Riva se tornou a atriz com maior idade da história a concorrer a uma estatueta. Ela chega à disputa com 84 anos, batendo o recorde anterior, de Jessica Tandy, que foi indicada e saiu vencedora do Oscar aos 80 anos de idade. A premiação deste ano também tem outro recorde na mesma categoria: Quvenzhané Wallis se tornou a atriz mais jovem indicada a um Oscar, aos nove anos de idade.

Vejam como um ótimo filme não precisa consumir um absurdo de dólares ou euros. Amour teria custado cerca de 7,29 milhões de euros. Até o momento, ele teria arrecadado pouco mais de US$ 1,33 milhões nos Estados Unidos e US$ 13,1 milhões no restante do mundo. Honestamente, espero que ele ganhe algumas estatuetas no Oscar para conseguir um lucro muito maior. Merece.

Amour estreou em maio de 2012 no Festival de Cannes. Depois, o filme passou por outros 22 festivais. Belo número. Nesta trajetória, a produção conquistou 28 prêmios e foi indicada a outros 30, além de ter sido indicada para cinco Oscar’s. Entre os prêmios que recebeu, absoluto destaque para a Palma de Ouro como melhor filme no Festival de Cannes. Também merecem menção os prêmios de Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator e Melhor Atriz no Festival de Cinema Europeu; Melhor Filme em Língua Estrangeira no Globo de Ouro; e Melhor Filme em Língua Estrangeira no National Board of Review.

Esta produção foi totalmente rodada em Paris.

Amour é uma coprodução da França, Alemanha e Áustria. Mas na indicação ao Oscar, apareceu como uma indicação austríaca.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8 para esta produção. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 127 críticas positivas e 11 negativas para Amour, o que rendeu uma aprovação de 92% e uma nota média de 8,6. Para os padrões do site, esta nota é muito, muito boa.

CONCLUSÃO: O diretor Michael Haneke é um especialista em desconcertar o espectador e fazê-lo pensar nos seus sentimentos mais profundos. E também em fazer ele pensar sobre a razão de atos extremos que, anteriormente, ele não compreendia. Amour é um filme duro, pesado. Ao mesmo tempo, um libelo impressionante sobre o amor, a doação, o altruísmo e, porque não dizer, o egoísmo. Esta produção abre mão de uma mensagem redentora, que seria tão natural em filmes de Hollywood, para explorar uma de tantas histórias difíceis da vida pela ótica da falta de esperança. Mais uma vez, a dificuldade que as pessoas tem de se comunicarem e se compreenderem entra no foco, na relação da filha e do genro e dos demais “estranhos” com o casal de idosos. E a dificuldade que, muitas vezes, os próprios protagonistas têm de dialogar. Haneke não cede aos finais redentores e, desta forma, mais uma vez, trilha o caminho de um cinema provocador. Sorte da gente ter uma figura como ele para acompanhar.

PALPITE PARA O OSCAR 2013: Amour foi indicado para cinco estatuetas: Melhor Filme, Melhor Filme em Língua Estrangeira, Melhor Diretor, Melhor Roteiro Original e Melhor Atriz. Exceto pela indicação dupla como melhor filme, francamente, ele tem potencial para ganhar todos os demais prêmios. Ou seja: pode receber até quatro estatuetas neste Oscar.

E seria justo. Mas acho difícil que isso aconteça. Primeiro porque não vejo Hollywood deixando de “lado” produções com forte lobby para trás, como Lincoln e Argo. Depois, que a mesma regra vale para Melhor Diretor. Dificilmente vão premiar Michael Haneke no lugar de Steven Spielberg ou David O. Russell. Mas surpresas, especialmente na categoria, diretor, sempre podem ocorrer.

Vejo mais chances desta produção vencer nas demais categorias. Amour tem boas chances contra Moonrise Kingdom, Zero Dark Thirty, Flight e Django Unchained. Não assisti, ainda, aos últimos dois. Mas posso dizer que acho justo se ele vencer nesta categoria. E olha que eu gostei muito dos roteiros de Moonrise Kingdom e Zero Dark Thirty. Bem diferentes uns dos outros.

Do que assisti até agora do trabalho das concorrentes à Melhor Atriz, sem dúvida o meu voto iria para Emmanuelle Riva. Ela destrói qualquer concorrência com o seu trabalho soberbo. E em Melhor Filme em Língua Estrangeira, ainda que eu não tenha assistido aos outros quatro concorrentes, me arrisco a dizer que Amour é o franco favorito. Quase uma barbada.

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Home – Lar Doce Lar

Uma casa não é só uma casa. Ela pode ser a história de uma vida, ou de muitas gerações. Abrigar tradições de antepassados remotos, resumir um estilo de vida, servir de porto seguro para quem se assusta com a ventania. E mesmo que uma certa família francesa more em determinada casa há “apenas” 10 anos, este local tem o apelo suficiente para transformá-los radicalmente quando a loucura vem bater à porta. Carregado de humor, de profundidade e de questionamentos que roçam distintas áreas do conhecimento, Home, dirigido por Ursula Meier, ressalta mais uma vez a qualidade do cinema francês. Com um trabalho excepcional de seu elenco, este filme não precisa ir muito além de uma casa para falar sobre questões como liberdade, felicidade, família, loucura, “embrutecimento”, as “invasões bárbaras”, a utilidade e o impacto de “obras relevantes”, o contraste entre distintos modos de vida, entre outros assuntos.

A HISTÓRIA: Uma família, vestida de forma muito peculiar, diverte-se jogando uma espécie de hóquei sobre patins e um asfalto. Em casa, Marthe (Isabelle Huppert) acompanha o filho mais novo, Julien (Kacey Mottet Klein), no banheiro. O garoto vai para a banheira, tomar seu banho, sob a supervisão da irmã mais velha, Judith (Adélaïde Leroux). Em pouco tempo, os irmãos e seus pais, Marthe e Michel (Olivier Gourmet) estão envolvidos em diferentes brincadeiras e jogos. A família parece viver em harmonia e em uma situação idílica até que um par de máquinas e dezenas de homens começam a trabalhar na finalização de uma rodovia que parecia nunca ter perspectivas de ser terminada, perto da casa deles. A partir deste momento, pequenas mudanças vão alterando a rotina da família em um verão escaldante, elevando os ânimos e fazendo com que eles questionem a sua permanência no local, assim como a unidade familiar e a capacidade que cada um tem em preservar a sua própria sanidade.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Home): Os franceses têm uma percepção sobre a liberdade verdadeiramente potente. Esta palavra, para eles, não se resume apenas a uma das três que fazem parte do conhecido lema da Revolução Francesa e que, posteriormente, passou a integrar a Constituição do país e, atualmente, o patrimônio nacional francês. Filmes como Home e os anteriormentes comentados por aqui Welcome e Séraphine – entre tantos outros – apresentam uma reflexão e um questionamento sobre as noções de liberdade que poucas outros cinemas pelo mundo são capazes de fazer.

O que é possível fazer quando o seu Paraíso particular é invadido pelo que alguns chamam de progresso ou “modernidade”? Este é um dos grandes pontos de interrogação levantados por Home. A mesma pergunta poderia ser feita em outros tempos, em outras partes – como em regiões invadidas e colonizadas da América do Sul. Algumas pessoas parecem ter uma resposta na ponta da língua: deixar para trás o local degradado e simplesmente mudar-se para um outro lugar em que as pessoas possam voltar a ser felizes. Mas isto, realmente, é possível? Ainda que a família de Marthe e Michel estivesse há uma década naquela casa com regras muito próprias – o que pode ser considerado pouco tempo por muita gente -, não era apenas a questão da logística de uma mudança que tornava a saída deles de lá tão complicada.

Há quem goste de mudar-se constantemente. Outros, querem viver a vida inteira no mesmo lugar – sem nunca ter saído de “su pueblocito” (povoado). Independente dos gostos pessoais, da dificuldade ou facilidade que uns e outros tem para se adaptar ou criar laços duradouros com pessoas e realidades, o que incomoda e torna a história de Marthe, Michel e seus filhos dramática é o  fator da “obrigação”. A mudança radical que ocorre no entorno daquela casa faz com que a vida, para eles, se torne insuportável. Mas eles resistem, ainda assim. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). E a resistência deles, cada vez mais neurótica, mais problemática, vai minando as relações entre eles e, especialmente, a capacidade de cada um em distinguir o que era aceitável fazer daquilo que era inaceitável e prejudicial.

Fiquei impressionada com a sutileza do roteiro e, especialmente, da direção de Ursula Meier. Seguindo um tom profundamente “naturalista”, a diretora marca a sua estréia em longas-metragens de forma irretocável. Ao seu lado, na confecção do texto brilhante de Home, estiveram Antoine Jaccoud, Raphaëlle Valbrune, Gilles Taurand, Olivier Lorelle e, como colaboradora, Alice Winocour. Do que tenho lembrança, trata-se de um raro exemplo de um trabalho envolvendo mais de dois roteiristas que consegue, ao mesmo tempo, unidade e força narrativa.

Equilibrando com colherzinhas de medida a comédia e o drama, Home é uma viagem ao interior de uma família, de cada um de seus integrantes e, por meio desta caminhada, também de algumas das características essenciais do ser humano e da sociedade na qual ele “escolheu” (realmente?) viver. Não irei iludir a ninguém que ainda não assistiu a Home: ele realmente vai adentrando, pouco a pouco e de forma suave, cada vez mais ao drama. Há cenas potentes, marcantes, de arrepiar nesta história sobre escolhas, obrigações, privação de liberdade e quebra de sonhos em nome de uma realidade nada bonita.

Difícil destacar apenas uma sequência ou apenas alguns dos questionamentos de Home. Mas algumas cenas que me deixaram estupefatas envolvem a introspectiva e “intelectual” Marion (Madeleine Budd) e seu irmão mais novo, Julien. Inicialmente, o espectador pode achar engraçado – eu achei, pelo menos – os cálculos e as preocupações de Marion. Mas depois, como todas as outras reações dos personagens em cena, a atitude dela vai ganhando contornos exagerados e de loucura. Respostas um tanto que naturais a um nível de estresse tão alto como aquele ao qual a família acabou sendo submetida.

Um fator curioso de Home é que ele não deixa claro, em momento algum, se aquela propriedade era realmente da família de Marthe e Michel ou se eles apenas “ocuparam” aquela casa há uma década. Esta falta de clareza merece um destaque especial porque, afinal, as questões levantadas pelo filme não passam por noções de propriedade. Não é a perda de dinheiro que conta. O que interessa é o sentimento que alguns tens de lar, de sentirem-se bem em uma parte mais do que em qualquer outra. Conta, nesta equação, o fato de que Marthe está farta de mudar-se, de viver uma vida de nômade com a sua família. Querendo ou não, Julien, por exemplo, nasceu e sempre viveu naquela casa, caracterizada por jogos, liberdade e alegria. Para Marthe, em especial, parece inconcebível que aquela vida deles simplesmente deixe de existir, de um dia para o outro, simplesmente porque existe uma obra de “interesse público” que deve passar em seu quintal.

Sem preocupar-se em trazer respostas, aliás, Home deixa no ar a questão do que pode ser considerado “interesse público”. Verdadeiramente uma rodovia cheia de carros, poluição e engarrafamentos pode ser entendida como um bem para a sociedade? Sem partir para um discurso “ecochato”, acho sempre válido nos questionarmos que tipo de sociedade escolheram e nós mesmo, agora, estamos escolhendo para vivermos. Especialmente interessante, eu diria fantástica, a cena em que Marthe, Marion e Julien decidem fazer um piquenique e, para isso, devem atravessar um engarrafamento cheio de pessoas sedentas para usufruir de uma tranquilidade que eles, há pouco, acabaram de perder. Não deixa de ser irônico que tantas pessoas, cotidianamente, sonham com suas férias para, finalmente, “viverem plenamente a suas vidas”, com prazer, com a paz sempre desejada – e, aparentemente, impossível de conquistar no dia a dia. Por que não viver desta forma sempre, incluindo o trabalho que paga as suas contas no meio?

Mas se a questão de Home não passa pela propriedade e sim pelo sentimento que uma pessoa adquire de “sentir-se em casa”, por que parece ser tão difícil para Marthe deixar para trás uma casa que, sem sombra de dúvidas, deixou de parecer-se com o seu “idílico” lar? A resposta, para mim, roça a questão da liberdade, da capacidade que homens, mulheres, jovens e crianças deveriam, sempre, ter de fazer as suas próprias escolhas. O inconcebível, para Marthe, tudo indica, é que sua família seja obrigada a deixar um local – ainda que ele tenha perdido todas as características que possuía anteriormente, e que os atraía/unia tanto. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Mas depois de lutar quase até o último suspiro – literalmente – contra a força da realidade, Marthe tem o gesto corajoso de romper com as suas próprias crenças e vontades. Como ocorre muitas vezes na vida, em diferentes situações, acaba falando mais alto a vontade de viver. E se preciso for deixar para trás tudo o que se entendia como seu – ou quase tudo -, isso será feito.

Home, como um grande filme humanista ao melhor estilo francês, acaba colocando em primeiro plano, constantemente, as pessoas e seus dilemas, vontades, necessidades e dramas. Aprendemos, com ele, sobre o valor da liberdade, da fraternidade e da união. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Uma produção que trata não apenas da capacidade individual de resistência (ou a incapacidade, em alguns sentidos), mas especialmente da escolha pela vida e pela família muito mais do que a escolha por convicções ou “raízes”. Talvez apareçam pessoas que considerem o filme “derrotista” ou pouco “esperançoso”, mas contra a realidade que invade “paraísos” como aquele desenhado por Home, só nos resta a ideia de resistir e lutar, mesmo que em outra parte, por uma realidade em que ninguém seja obrigado a se sacrificar por um “bem maior”. Afinal, toda vida é preciosa e precisa ser compreendida e escutada. Sempre há diálogos possíveis, mesmo que muitos insistam em pregar o contrário.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: A personagem da sempre fantástica Isabelle Huppert parece manter uma certa tranquilidade enquanto o mundo muda ao seu redor e as demais pessoas de sua família vão reagindo a isto de maneiras muito diferenciadas. Mas em seu interior, Marthe está em crise, em ebulição. Huppert, ainda bela aos 57 anos, tenta ser a fortaleza e a mãe de família carinhosa, sorridente e pacífica de sempre. Marion, sua filha do meio, contudo, é a primeira a perceber que a mãe não está bem. Pelo contrário.

Além da perfeita Isabelle Huppert, Home tem a sorte de contar com um elenco de atores muito, muito talentosos. Eu diria que eles estão bem acima da média. Madeleine Budd como Marion, Olivier Gourmet como Michel e Kacey Mottet Klein como Julien, em especial, me impressionaram muito. E a direção de Ursula Meier tem o cuidado de registrar cada nuance das interpretações de entrega destes grandes atores.

Na parte técnica, é preciso ressaltar o trabalho luminoso, realista e preciso da diretora de fotografia Agnès Godard. Uma delícia, ainda, a trilha sonora – que contou com a consultoria de Frank Beauvais e Edouard Dubois. O desfecho, com Nina Simone cantando Wild is the Wind, não poderia ter sido mais delicado e perfeito – casando com o restante da “alma” do filme.

Antes de estrear nos longas com Home, Ursula Meier havia dirigido cinco curtas e médias metragens – incluindo uma produção feita para a TV. Sua trajetória no cinema começou em 1994 com o curta À Corps Perdu. Vale a pena ficar de olho nesta diretora e seguir seus próximos trabalhos.

Home estreou no Festival de Cannes em maio de 2008. Depois, veio até o Festival Internacional de Cinema do Rio de Janeiro, ainda em 2008, mais precisamente em setembro. Trilhou o caminho de outros nove festivais, terminando a sua trajetória nestes cenários em janeiro deste ano no evento internacional de Palm Springs, nos Estados Unidos.

Nos distintos festivais, Home abocanhou seis prêmios e foi indicado ainda a outros cinco. A diretora de fotografia Agnès Godard venceu em duas ocasiões: no Lumiere Awards, um dos principais prêmios do cinema francês, e no Festival de Mar del Plata. Neste último, Isabelle Huppert foi reconhecida como a melhor atriz. No Swiss Film Prize, Home saiu vencedor como Melhor Filme, Melhor Ator ou Atriz Revelação (para Kacey Mottet Klein) e Melhor Roteiro.

Os usuários do site IMDb deram uma nota bastante baixa para o filme – pelo menos para a minha medida: 6,8. Os críticos que tem seus textos linkados no Rotten Tomatoes, por sua vez, foram mais generosos para a produção: publicaram 31 textos positivos e apenas dois negativos – o que garante para Home uma aprovação de 94%.

O filme de Ursula Meier é uma co-produção da Suíça, da França e da Holanda. Infelizmente não consegui dados sobre o quanto o filme teria custado e nem mesmo sobre o seu desempenho nas bilheterias.

Desculpem os sensíveis, mas vou me repetir na crítica… péssimo o título que Home recebeu em solo brasilis. Lar Doce Lar???? Como assim?? Horrível. Melhor seria ter deixado o título original, Home ou, na pior das hipóteses, dar-lhe o nome de Lar. Mas o título que acabou ficando é tenebroso.

De todos os críticos linkados no Rotten Tomatoes, destaco esta crítica do “mestre” Roger Ebert, da Chicago Sun-Times. Em seu texto (em inglês), Ebert comenta que há duas questões que o filme não responde: como aquela família foi parar ali e porque Marthe se recusa a sair daquela casa mesmo quando uma rodovia de quatro pistas passa a cruzar a frente da sua casa. Para o crítico, a família retratada parece ser “normal o suficiente, para não dizer completamente convencional”. E a verdade é que eles seguem, até certo ponto, uns papéis bastante previsíveis. Concordo com ele. Mas o interessante é que estes papéis seguem assim até certo ponto, apenas. Porque certas reações dos personagens não podem ser chamadas, em determinado momento, exatamente como “convencionais”. Ebert segue comentando que o filme vai caminhando, pouco a pouco, para um lado mais obscuro.

Interessante quando o crítico comenta que o talento de Ursula Meier, como diretora e roteirista, acaba nos convencendo de maneira bastante racional sobre atitudes que pareceriam totalmente sem sentido em muitas famílias. Ebert está certo quando afirma que os atos deles seguem uma certa continuidade e acaba por confirmar, quanto mais avança, “correntes” que pressentíamos desde o princípio. Para o crítico, Olivier Gourmet se mostra ágil na interpretação, enquanto que Isabelle Huppert “faz o mesmo de sempre”, ou seja, constrói a sua personagem “de dentro para fora”, intrigando os espectadores.

Neste outro texto, bem mais curto, o crítico Rob Nelson, da Variety, comenta que Home é um road movie que não sai do lugar. Para ele, a história revela uma família modesta de um cenário rural francês que se recusa a aderir ao estilo de vida em “alta velocidade”, tentando resistir a um deslocamento que parece inevitável. Nelson destaca o trabalho da diretora de fotografia Angès Godard e da protagonista Isabelle Huppert, comentando que elas lideram o trabalho que reflete sobre como a modernidade poderia limitar a migração para as fronteiras da zona do Euro. Gostei, especialmente, quando o crítico comenta que cada personagem lida com a idéia do “paraíso perdido” conforme o seu gênero e idade. Nunca melhor resumido. 🙂 Ele ressalta ainda o cuidado de Meier em não transformar o seu filme em um melodrama ou em uma farsa – algo que, convenhamos, seria bem fácil de acontecer. Nelson destaca, assim como Ebert, a forma com que as lentes de Godard vão registrando, gradualmente, cada vez menos a luz natural, até chegar ao ponto de apresentarem um adequado “escurecimento da visão do progresso”.

CONCLUSÃO: Um filme potente, humanista e questionador. Primeiro longa-metragem da diretora Ursula Meier, Home se apresenta como um ponto de reflexão sobre os modelos de sociedade predominantes nos ditos países “civilizados”. Orbitando ao redor de uma família alternativa da França, este filme reinventa a noção de “invasões bárbaras”, aquelas que ignoram a realidade, os desejos e os direitos de quem passa em frente para buscar apenas o seu próprio benefício. Abordando temas como a liberdade, a convivência familiar, o choque de valores e a loucura, Home revela uma narrativa que migra da comédia para o drama claustrofóbico. Com um trabalho de atores impressionante e uma direção que prima pelos detalhes e pelo realismo, esta produção entra para a lista de filmes imperdíveis. Especialmente se você se sente atraído(a) por temas como o sentimento de pertenência que as pessoas desenvolvem em determinados lugares; os jogos de poder estabelecidos na sociedade e a difícil busca de um equilíbrio entre sanidade e loucura em contextos de grande estresse e ruptura com os parâmetros de vida anteriormente estabelecidos. Por mais que estes temas pareçam complicados (e, na verdade, o são), em Home eles ganham uma “simplicidade” impressionante. O que torna o filme, ainda mais, admirável.