Papillon

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A honra não tem a ver com seguir tradições ou regras. A honra tem a ver com fazer o que é certo, buscar a liberdade e a justiça e defender a vida do seu amigo mesmo quando esta defesa coloca a sua própria vida em risco. Papillon nos conta uma história incrível de busca incessante por liberdade e pelo lugar de uma pessoa no mundo. A história é tão incrível que nem parece que ela é baseada em fatos reais, mas Papillon realmente existiu. Um filme delicado, muito bonito e sensível, apesar de toda a dureza da história. Vale ser visto.

A HISTÓRIA: Começa nos contando que o que veremos é baseado em uma história real. Vemos a uma cela antiga. Do fundo da cela, caminha lentamente para a frente, Papillon (Charlie Hunnam). Ele passa a cabeça pelo buraco da porta e olha ao redor. Corta. O mesmo Papillon, mas agora bem vestido, escuta com atenção as engrenagens de um cofre. O ano é 1931, e o local, Paris. Depois de abrir o cofre, Papillon pega os diamantes e sai pelas ruas. Vai até um clube, onde encontra o chefe da quadrilha e a sua namorada, Nenette (Eve Hewson).

Ele entrega os diamantes que roubou para o chefe da quadrilha. No final da noite, do lado de fora do clube, ele presenteia a namorada com um colar e algumas pedras que pegou do roubo. Um capanga de Jean Castili (Christopher Fairbank) vê a cena. Papillon e Nenette saem dali para comemorar. Passam uma noite divertida mas, na manhã seguinte, a polícia prende Papillon sob a acusação de ter matado um desafeto do chefe. Ele é condenado à prisão perpétua e enviado para a Guinea Francesa junto com vários outros condenados. Passará por maus bocados, mas nunca desistirá de sonhar com a  liberdade.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto a seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Papillon): Assisti a esse filme há algumas semanas. Então me perdoem se eu não tenho ele tão “fresco” na memória como eu gostaria. Mas lembro do principal, disso podem ter certeza.

Fui ao cinema curiosa para ver a uma refilmagem de um clássico. Há ainda mais tempo, acredito que quando era criança ou adolescente, assisti ao Papillon original, com o grande Steve McQueen no papel principal. A história já era impressionante naquele momento. Na verdade, imagino que em qualquer época a história de Papillon e do que era feito com os presos nos anos 1930 na França impressionem.

Papillon trata de diversos pontos fundamentais sobre a busca da sociedade por regras e limites para os atos individuais e da busca incessante dos indivíduos por viver, ter liberdade e buscarem o seu lugar no mundo. Toda essa falta de compasso entre estas duas necessidades, da sociedade e do indivíduo, assistimos nessa nova versão da história que mexeu com a França e com outros países quando ela veio à tona.

Algo que chama a atenção em Papillon na versão 2017, desde o início, é a ótima fotografia da produção. O filme é lindo, com imagens incríveis e um cuidado com o visual que não pode ser negado. Além disso, logo após a introdução da cela, o mergulho na Paris de 1931 já serve como um belo cartão de visitas sobre o que veremos adiante em termos de reconstituição de época. Um trabalho primoroso também, tanto nos figurinos quanto nas locações.

Além do aspecto visual e da reconstrução de época, pontos que Papillon tem como destaque, vale comentar também o trabalho competente do elenco e falar da história, é claro. Gostei na forma com que o diretor Michael Noer tratou o roteiro de Aaron Guzikowski, que se baseou no roteiro do Papillon de 1973, escrito por Dalton Trumbo e Lorenzo Semple Jr., e no livro Papillon e Banco, escritos por Henri Charrière.

Claro que o roteiro segue aquela linha clássica. Começa com uma cena do “presente” para depois retomar o “passado” para contar como Papillon chegou naquela cela. A partir do retorno para a Paris de 1931, a narrativa passa a ser linear. O principal destaque desta narrativa, a meu ver, é que o filme é bastante econômico em momentos que não são realmente relevantes para a história, como a encrenca que leva Papillon para a prisão, ao mesmo tempo em que explora com muita calma e até uma certa “lentidão” outros momentos importantes, como as fases de solitária do protagonista.

A intenção do roteiro de Guzikowki e da direção de Noer é clara. Eles querem que o espectador sinta ao menos um pouquinho a angústia, o peso do tempo e da solidão que o protagonista sentiu naquelas situações de isolamento. As regras da prisão para a qual Papillon e vários outros foram mandadas eram bastante diretas e duras. Ali, uma vida valia pouco.

Como o diretor da prisão comentou, para eles um preso morto dava menos despesa e trabalho do que um preso vivo. Nesse cenário, temos a um ladrão injustamente condenado por homicídio. Sim, Papillon não era santo, mas será que ele ou qualquer outro indivíduo mereciam aquele tipo de tratamento? Frente àquela situação, o mais incrível de Papillon é que ele nunca desistiu.

Mesmo passando fome, sendo agredido, tendo que estar constantemente atento para defender a própria vida e sendo isolado para ser “quebrado” pela solidão, pela falta de comida, atividade física e contato com outras pessoas, ele nunca desistiu de enfrentar todas as perspectivas e fugir. Qual era o seu maior objetivo? Buscar a liberdade e um lugar que ele pudesse se sentir em casa.

Acho esse tipo de “sonho” e de propósito de uma potência incrível. Uma pessoa que é movida por isso, se sabe lidar com a solidão – e Papillon sabia -, não será “quebrada” ou vencida nunca. Essa é a mensagem mais incrível do filme, a meu ver. Além disso, Papillon inicialmente se aproxima do endinheirado Louis Dega (Rami Malek) por interesse, é verdade, mas depois ele vê Dega como um amigo e, aí sim, Papillon revela toda a sua grandeza.

Naquele cenário agreste de busca por sobrevivência, Papillon poderia ter sido egoísta e ter ignorado Dega em mais de uma ocasião. Teria sido mais fácil para ele. Mas não. Papillon se aproximou de Dega e o considerou o seu amigo. E aí está outra leitura fantástica desta história. A força da amizade e da honra ao defender esse princípio, assim como o da liberdade. Teria sido mais fácil para Papillon “abandonar” Dega à própria sorte em mais de uma ocasião, mas ele não fez isso.

Então esse filme, a meu ver, tem um resgate importante de valores fundamentais, apresenta um belo trabalho dos atores principais e ainda tem uma narrativa que respeita os tempos e que valoriza outros aspectos da produção, como a reconstituição de época e os locais em que os personagens passaram. Gosto da narrativa lenta da produção em alguns momentos. Acho que ela ajuda o público a entender um pouco melhor a experiência de Papillon em seus momentos de isolamento.

Para resumir, achei Papillon envolvente e bem construído. Tem muito mais qualidades do que defeitos. Talvez tenha faltado para a produção um pouco mais de contextualização sobre o que aconteceu com outros personagens importantes da história. Mas esse é apenas um detalhe.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Acho que este pode ser o ano do ator Rami Malek. Descobri ele por causa da série Mr. Robot. Já achava o seu trabalho muito bom. Mas, neste ano, ele não apenas fez esse trabalho interessante em Papillon, como, logo mais, vamos vê-lo como protagonista em Bohemian Rhapsody. Admito que estou bem curiosa para conferir como ele se saiu como Freddie Mercury – apenas pelo trailer, estou até desconfiando que ele pode receber uma indicação ao Oscar como Melhor Ator. Veremos logo mas. Mas, sem dúvida, este é um ator em ascensão.

Além de Malek, que faz um belo trabalho como Louis Dega, vale destacar o ótimo trabalho de Charlie Hunnam como Papillon. Não seria fácil, para qualquer ator, fazer o mesmo papel que, antes, foi realizado por Steve McQueen. Mas Hunnam não parece ter se intimidado com o desafio e abraçou Papillon como se este fosse o papel da sua vida. Gostei bastante da interpretação do ator. Não lembro de tê-lo visto em nenhum outro filme, mas reparei que ele também está em ascensão. Vale acompanhá-lo, pois.

Papillon tem, assim, dois atores em ascensão em papéis centrais. Isso é algo importante para um filme. Além de Malek e de Hunnam, Papillon apresenta outros bons atores em cena. Do elenco, vale destacar o trabalho de Roland Moller como Celier, um presidiário que é bom em navegação – mas que nunca foi com a cara de Dega; Michael Socha como Julot, companheiro de Papillon e de Dega e que é o primeiro a sofrer as consequências por tentar fugir e matar um guarda no intento; Christopher Fairbank em uma super ponta como o chefe da quadrilha de assaltantes Jean Castili; Joel Basman como Maturette, um preso que ajuda na fuga do grupo e que acaba tendo o gostinho da liberdade por um tempo; e Yorick van Wageningen como Warden Barrot, o chefe da prisão na Guiana Francesa. Todos estão muito bem.

Entre os aspectos técnicos do filme, sem dúvida alguma o grande destaque vai para a direção de fotografia de Hagen Bogdanski. Um trabalho incrível e que valoriza a história. Depois da direção de fotografia de Bogdanski, vale destacar a edição de John Axelrad e Lee Haugen; o design de produção de Tom Meyer; a direção de arte de Tom Frohling e Natasha Gerasimova; a decoração de set de Jennifer M. Gentile; os figurinos de Bojana Nikitovic; e a trilha sonora de David Buckley.

Papillon estreou em setembro de 2017 no Festival Internacional de Cinema de Toronto. Depois, o filme participaria, ainda, dos festivais de cinema de Montclair, Edinburgh e o Biografilm Festival. Nesta trajetória, o filme não recebeu indicações ou foi premiado.

Esta produção é baseada, de fato, no livro escrito por Henri Charrière, o nome de batismo de Papillon, e lançado, originalmente, na França em 1969. Ou seja, a primeira adaptação para ao cinema de sua história chegou às telas apenas quatro anos depois do livro ser lançado. Uma prova de como a obra de Charrière foi impactante naquela época.

Papillon significa “borboleta”. Charrière recebeu este apelido por causa da tatuagem de borboleta que ele tinha no peito – e que, descobrimos no filme, tinha o significado, entre os criminosos, de que ele era um assaltante.

Segundo a história, Papillon foi condenado em 1933 e conseguiu escapar da prisão apenas em 1941.

Papillon não caiu no gosto dos críticos. O filme conseguiu 46 críticas positivas e 41 negativas entre os críticos linkados no site Rotten Tomatoes, o que dá para a produção uma aprovação de 53% e uma nota média 6. No site Metacritic o filme não foi muito melhor. Lá, a versão 2018 de Papillon recebeu o “metascore” de 52, fruto de 10 críticas positivas, 15 críticas medianas e de quatro críticas negativas.

Apenas os usuários do site IMDb foram um pouco mais generosos com o filme, dedicando a ele a nota 7. Para mim, é válido uma refilmagem de Papillon agora, para que as novas gerações confiram esta história. Eu não acho que toda refilmagem deve superar a anterior. Cada uma tem os seus predicados. Claro, muito difícil – ou até impossível – superar o Papillon original. Mas acho que o novo Papillon pode ser visto de forma isolada, como um belo trabalho e um esforço interessante de reapresentar uma história bacana e forte para um novo público.

De acordo com o site Box Office Mojo, Papillon arrecadou US$ 2,3 milhões nos Estados Unidos e outros US$ 2,2 milhões nos outros países em que o filme estreou. Esses números mostram que a produção foi praticamente ignorada pelo público. Uma pena, porque eu achei ela bem acabada e com uma temática que vale ser tratada e discutida. Mas a nova versão de Papillon realmente não conseguiu emplacar.

Papillon é uma coprodução da República Checa, da Espanha e dos Estados Unidos. Curiosa essa mistura. Não lembro de ter visto a outro filme da República Checa. 😉

CONCLUSÃO: Um filme com uma fotografia incrível, um roteiro bem equilibrado, bons atores e que não tem pressa de contar uma história. Muito pelo contrário. Papillon segue o seu ritmo e a visão do diretor Michael Noer do início ao fim. Gostei do resgate desta obra tão importante sobre valores fundamentais da humanidade. Toda sociedade precisa de regras, leis, controles e segurança. Mas a busca do indivíduo por liberdade e por escolher os seus caminhos ultrapassa tudo isso. Belo filme, muito bem realizado e que nos faz pensar muitos aspectos. Se você não se incomodada com uma narrativa um pouco lenta, dê uma chance para Papillon.

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Under Sandet – Land of Mine – Terra de Minas

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Se há um capítulo da história da Humanidade que foi muito e bem retratado pelo cinema é o da Segunda Guerra Mundial. Nós já vimos dezenas de filmes sobre o assunto, e quase todos com abordagens muito diferentes entre si. Mas aquele período parece não ter fim, rendendo até hoje novas produções a cada ano. Novamente temos com este Under Sandet um filme impactante sobre aquele período. E eu diria mais que impactante: angustiante. Diferente de tantas outras produções que são ambientadas no “calor” da guerra, este filme tem uma abordagem interessante de um episódio pós-guerra. Impossível ficar impassível com esta produção.

A HISTÓRIA: Começa na Dinamarca, em maio de 1945. Após o fim dos cinco anos de ocupação nazista no país. Sentado em um jipe, o sargento Carl Rasmussen (Roland Moller) observa a marcha de soldados derrotados. Ele acelera o veículos e examina a fila até que, depois de um bom tempo, freia e retorna até encarar um soldado e pedir para que ele pare. Ele fica indignado porque o alemã está levando uma bandeira da Dinamarca com ele. Rasmussen agride o soldado e um outro alemão que vai tentar ajudá-lo e manda eles irem embora porque aquele país é dele. Depois, ele segue para uma praia onde delimita um espaço. É ali que ele vai trabalhar com um grupo de alemães para limpar o local de bombas enterradas.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Under Sandet): Achei esse filme impressionante. Pela crueza da história e pela sinceridade na abordagem. O Brasil não viveu uma invasão como a nazista por cinco anos. Tivemos outro tipo de invasões, é verdade. Mas nada naquele nível de crueldade. Então dá para entender, logo no início do filme, a reação do protagonista. Ele certamente, por ter se tornado um sargento, deve ter visto muita barbárie e ter ele mesmo protagonizado muitas cenas complicadas durante a guerra.

Agora, após a vitória dos aliados contra os nazistas, todos estão aliviados e felizes por terem o seu país de volta. O filme começa com parte dos alemães sendo enviados de volta para casa. Mas uma outra parte dos derrotados vai ficar na Dinamarca. A missão deles é uma das mais arriscadas e angustiantes que alguém poderia imaginar: limpar a costa da Dinamarca das 2,2 milhões de minas que foram colocadas pelos nazistas.

O roteiro do diretor Martin Zandvliet é uma aula de como planejar um filme. Cada minuto é pensado com inteligência e sem economizar a tensão ou a emoção. E sem cair no lugar-comum ou nos recursos simplistas de outros filmes. Depois daquela cena forte do início, vemos um grupo de jovens em um jipe. Alguns parecem serenos, outros estão visivelmente com medo do que pode acontecer na sequência. Mas eles se apoiam, e esta é uma característica que aparece entre colegas de armas no filme inteiro.

Depois do início com o protagonista, quando vemos plasmado o desejo dos dinamarqueses de verem pelas costas os inimigos recentemente vencidos, e de termos um primeiro olhar para o grupo que dividirá a parte central da produção com o sargento Carl Rasmussen, entramos na questão crucial da história. O tenente Ebbe Jensen (Mikkel Boe Folsgaard) explica para um grupo grande de jovens alemães que eles não vão encontrar simpatia alguma na Dinamarca, mas que eles estão ali com um único propósito: limpar a costa do país desarmando 2,2 milhões de minas deixadas pelos nazistas.

Segundo o próprio Jensen, essa concentração de minas é maior do que a deixada em todos os outros países da Europa. Alguém, segundo ele, imaginou a invasão dos aliados contra os nazistas naquele litoral – e errou, evidentemente. O treinamento dado por Jensen para aquele grupo, com poucos alemães tendo conhecimento sobre uma mina ou como desarmá-la, já é uma prévia da angústia que teremos durante o filme. O trabalho deles é altamente arriscado, com risco de explosão iminente, e o desprezo com que eles são tratados só aumenta ainda mais a crueldade da situação.

Uma parte daquele grupo – 14 jovens soldados alemães, para ser exata – acaba sendo enviada para o sargento Carl Rasmussen. A rotina deles é de passar grande parte do dia se arrastando na areia, cavucando ela até encontrar uma bomba e cuidar ao máximo para não acioná-la e ir para os ares com o aparato. As bombas perto da água são mais fáceis de desarmar, mas as que estão enterradas são bem mais complicadas – especialmente quando tem alguma “armadilha” prevista.

O risco de explosões e de morrer a qualquer momento não é o único problema daquele grupo de prisioneiros. Em pouco tempo eles deixam de receber as rações de comida e o risco de sofrerem um acidente se torna ainda maior. Martin Zandvliet conta essa história muito bem, com muito realismo e sem aliviar na dureza dos acontecimentos até perto do final.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). A câmera está sempre próxima do elenco, mostrando em detalhes não apenas as reações dos atores mas também a ação perigosa em que eles estão envolvidos. Ainda que tenhamos um jovem explodindo na parte de treinamento, sem dúvida alguma tem um impacto muito maior quando vemos o primeiro dos 14 jovens sendo vítima de uma explosão na praia. Não apenas porque vimos que Wilhem Hahn (Leon Seidel) é um dos mais sensíveis do grupo, mas também porque ele sofre o acidente após passar por muita fome. Diferente de outros, que vão “desaparecer” com a explosão, ele também sobrevive, em um primeiro momento. O que torna a angústia de quem assiste ainda maior.

Enfim, não há momento fácil nesta produção. A expectativa da morte é uma constante. Ainda assim, muitos daqueles jovens alemães tentam se manter e segurar com a esperança de, após o trabalho feito, eles conseguirem voltar para casa. Entendemos a ótica dos dinamarqueses, mas o protagonista também mostra como, passada a resistência ao “inimigo”, o olhar começa a mudar para enxergá-los como humanos, como garotos que eles são.

A responsabilidade de Rasmussen é fazer com que aquele grupo de jovens alemães desarme 45 mil minas de uma praia na qual ele esteve antes delimitando zonas com tipos de bombas devidamente identificadas. Não é difícil o espectador colocar-se no lugar daqueles jovens que, se tudo der certo, vão trabalhar dia após dia e acabar a tarefa perigosa após três meses. Quando a comida para de ser enviada para o grupo, inicialmente Rasmussen diz para Sebastian Schumann (Louis Hofmann), prisioneiro que acaba mantendo mais contato com o sargento, que os alemães não são prioridade para receber comida.

Mas quando o primeiro garoto explode, o próprio Rasmussen cuida de pegar alimentos na base mais próxima. Esta é a primeira ação dele com duplo sentido: primeiro, claro, ele está preocupado em cumprir a sua missão e, para isso, ele sabe, aquele grupo não pode morrer de fome ou, sem comida, em explosões; depois, ali ele começa a ter uma visão diferente dos “inimigos”. Como eu disse antes, pouco a pouco, no convívio com aqueles jovens, especialmente nas conversas com Schumann, ele percebe como são todos iguais.

Para mim, é realmente a aproximação com Schumann que faz Rasmussen dar uma certa “amolecida”. Relativa porque, e isso é um acerto do diretor, ele não passa a ver os jovens como amigos, ou como filhos, mas apenas começa a ser um pouco menos cruel com eles. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Ainda assim, e isso eu achei um acerto do diretor e roteirista, ele reage muito mal quando o cachorro dele é morto por uma mina que foi esquecida. Mas ao se aproximar de Schumann, Rasmussen parece ver nele – e nos outros garotos por tabela – um possível filho. Tipo um filho que ele não teve – ou que perdeu, já que não sabemos nada sobre a sua vida.

Aliás, essa é uma escolha interessante de Zandvliet. Com pinceladas aqui e ali, ele acaba contando um pouco da história de parte dos jovens alemães prisioneiros, mas o mesmo não pode ser dito sobre os militares dinamarqueses. Observamos como eles agem e que atitude eles tem frente aos inimigos, mas não sabemos nada sobre as suas vidas. Ainda que o grupo de alemães se apresente para Rasmussen, poucos acabam tendo uma relevância maior na história. Essa também é uma escolha acertada. Porque ao focar em uma pequena parte daquele grupo, o diretor e roteirista consegue explorar melhor as relações entre eles.

Como comentei antes, Zandvliet tem uma direção precisa. Ele sabe equilibrar o foco na atuação dos personagens ao mesmo tempo que valoriza os detalhes das cenas quando elas pedem este detalhamento, abrir o foco quando a intenção é valorizar a passagem e, na cena do desespero de Ernst Lessner (Emil Belton) na praia, ele deixa a segurança de uma câmera estática para adotar uma câmera na mão que mostra correria e confusão, ajudando a transportar o espectador para o estado emocional do garoto em procura do irmão Werner (Oskar Belton).

Under Sandet se destaca, desta forma, pela excelente direção e pelo roteiro inteligente de Martin Zandvliet. Ele sabe usar todos os recursos a seu favor. Também são pontos fortes da produção o ótimo elenco, escolhido à dedo e com atuações que ganham o espectador pelo olhar e pelos detalhes, em muitos momentos. Há pontos altos da história, como a emocionante cena entre Rasmussen e Schumann após a morte de Werner. Sem dúvida alguma, um dos grandes momentos do filme. Também é impactante a cena do resgate de Elisabeth (Zoe Zandvliet) na praia.

Com belíssimas imagens e uma trilha sonora perfeita, Under Sandet tem na história, na direção, na atuação do elenco e nos detalhes técnicos alguns de seus pontos fortes. Mas para não dizer que o filme é perfeito, teve um pequeno detalhe que me incomodou um pouco porque me pareceu exagerado.

(SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Após a morte de Werner e da conversa com Schumann, Rasmussen não apenas vai pegar mais comida para o grupo às escondidas, mas também libera os rapazes para um dia de “lazer”. Até aí, tudo bem. Não chega a ser absurdo Rasmussen pensar em um dia de “folga” para aliviar um pouco a tensão do grupo. Afinal, ele precisava deles. O que me incomodou não foi o “dia de folga”, e sim o sargento se juntar ao grupo na diversão. Naquele momento eu acho que ele foi de 0 a 100 sem nos convencer exatamente que ele seria capaz disso. Uma coisa é pensar no que seria necessário para o grupo continuar trabalhando, outra muito diferente seria sair do estágio anterior em que ele estava e, de um dia para o outro, se tornar amigo dos prisioneiros.

Estrategicamente falando, tal atitude do sargento era, inclusive, perigosa. Afinal, como “amigo” do grupo ele poderia se tornar displicente com alguma fuga ou com alguma rebelião. E, certamente, seria penalizado por isso. Difícil acreitar que um militar que ascendeu até o posto de sargento teria tal atitude. Esse seria o único “porém” da produção. O único ponto da história que não me convenceu. Por isso mesmo o filme, apesar de ser muito bem construído e realizado, não tira a nota máxima.

Quanto ao final propriamente dito, achei muito coerente. Tem a ver tanto com o desenrolar da história quanto com o caráter do protagonista. Acima de tudo, Rasmussen era um sujeito honrado, alguém que acreditava na força da palavra, do que foi prometido. Apesar daquele pequeno deslize no roteiro que eu comentei, este filme merece, sem dúvida, ser assistido e ter uma trajetória de ainda mais êxito.

Ele mostra com muita propriedade como a “razão” pode ceder espaço para a compaixão, e que há esperança quando isso acontece. Uma mensagem importante em um momento como este, quando começa a crescer, pelo mundo, novamente a lógica de “nós” contra “eles”. Também achei importante ele mostrar que não apenas os alemães foram os “vilões” da Segunda Guerra Mundial. Eles também foram tratados com crueldade. Em um filme de pós-guerra, interessante mostrar como as vítimas anteriores deles também não pensaram duas vezes em “dar o troco”. Quando agimos da mesma forma, será que somos realmente melhores do que aqueles que nos fizeram mal?

Esse filme levanta diversas reflexões e mostra um lado da história pouco difundido. É corajoso ao fazer esta escolha. A lógica dos dinamarqueses é “melhor eles morrerem do que a gente”. Mas realmente aquela era a única saída para o problema? Certamente que não. Sempre há outra saída que não a de exterminar pessoas. Sejam elas consideradas “inimigas” ou não. Por tudo isso, não é por acaso que este filme está sendo apontado como um dos favoritos para o próximo Oscar.

NOTA: 9,7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Achei interessante como cada personagem com relevância neste filme foi bem pensado. Do protagonista, que mostra autoridade e clareza de seus objetivos, até cada um dos prisioneiros alemães que ele tem sob a sua responsabilidade. Como eu disse antes, apenas uma pequena parte do grupo ganha uma relevância maior. Gostei, em especial, do trabalho sensível de Louis Hofmann como Sebastian Schumann. Mas também se destacam Oskar Bökelmann como Ludwig Haffke; Emil Belton e Oskar Belton como os irmãos Ernst e Werner Lessner; e Joel Basman como Helmut Morbach, prisioneiro que lutou na guerra e que, algumas vezes, parece o mais inconstante psicologicamente do grupo, com muitos altos e baixos.

Ainda que em papéis menores, outros atores merecem ser citados porque tem um trabalho interessante. A pessoa mais fácil de identificar neste sentido é Laura Bro, atriz que interpreta Karin, uma dinamarquesa que mora perto da praia e que tem como principal preocupação manter a filha Elisabeth em segurança. Os outros atores que interpretam os alemães estão bem, mas nenhum com grande destaque na interpretação.

Da parte técnica do filme, vale citar o excelente trabalho da diretora de fotografia Camilla Hjelm; a edição precisa e muito bem feita de Per Sandholt e Molly Marlene Stensgaard; a trilha sonora colocada nos momentos adequados e sem exageros de Sune Martin; o design de produção de Gitte Malling; o excelente trabalho dos 15 profissionais do departamento de som (um dos pontos fortes da produção); o trabalho preciso e convincente dos 10 profissionais envolvidos com os efeitos visuais e os quatro responsáveis pelos efeitos especiais.

Lembrei, agora, de um detalhe importante do filme. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Em certo momento da história, um dos irmãos gêmeos encontra um rato. E começa a cuidar dele. Isso me fez lembrar daquela frase: “afinal, estamos falando de homens ou de ratos?”. Pois bem, este filme trata de homens ou de ratos? Acho que esta é uma questão subliminar da história. Para mim, quando as pessoas perdem a noção de humanidade, perdem o valor do outro como ser humano, elas deixam de ser “homens” e “mulheres” e passam a ser ratos. Sem mais.

Under Sandet estreou no Festival Internacional de Cinema de Toronto em setembro de 2015. De lá para cá, o filme participou ainda de outros 14 festivais pelo mundo, incluindo os importantes festivais de Londres, Tóquio, Thessaloniki e Sundance (este último em janeiro deste ano). Nesta trajetória, ele recebeu nada menos que 21 prêmios e foi indicado a outros 17. Números importantes para um filme que quer aparecer na lista dos finalistas ao Oscar.

Entre os prêmios que recebeu, destaque para o de Melhor Ator para Louis Hofmann no Festival Internacional de Cinema de Beijing; o prêmio da audiência para Martin Zandvliet dado no Festival Internacional de Cinema de Gijón; o prêmio SIGNIS no Festival Internacional de Cinema de Hong Kong para Martin Zandvliet; e o de Melhor Ator para Roland Moller e Louis Hofmann no Festival Internacional de Cinema de Tóquio.

Uma lógica recorrente neste filme é utilizada hoje também nos nossos centros urbanos. (SPOILER – não leia se você não tiver assistido ao filme). A ideia de que “se eles tem idade para lutar na guerra eles tem idade também para morrer” hoje foi adaptada para “se eles tem idade para roubar, eles tem idade também para morrer”. É ou não é assim? Já ouvi muito isso. E claro que discordo. Não devemos assumir a postura de justiceiros ou de “pessoas acima de qualquer suspeita”. Não devemos julgar e sim dar oportunidades e alternativas para pessoas que talvez não tiveram isso antes. Ninguém, se tivesse sã consciência do que uma guerra representa e se tivesse outras possibilidades escolheria ir para a guerra. O mesmo vale para quem comete crimes. Vale refletir sobre isso.

Agora, algumas curiosidades sobre o filme. De acordo com as notas de produção de Under Sandet, o uso de crianças alemãs para o desarmamento de minas após o fim da Segunda Guerra Mundial foi considerado por muitos historiadores como o pior crime de guerra já praticado pelo Estado dinamarquês.

No filme um sargento dinamarquês está no comando do grupo de desarme de minas na praia. Mas na vida real estas missões eram controladas pelas forças britânicas que colocavam oficiais alemães no comando de cada equipe.

A estimativa é que pouco mais de 2 mil soldados alemães foram forçados a fazer o desarme das minas terrestres e que cerca de metade deles morreram na tarefa ou perderam braços e pernas neste intento.

A produção foi filmada em locais em que os fatos narrados na história realmente aconteceram, inclusive no campo militar de Oksbollejren e em áreas de Varde, litoral na Dinamarca.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,8 para a produção. Uma avaliação muito boa se levarmos em conta o padrão do site. Curioso, no entanto, que apesar de ser apontado como um dos favoritos ao Oscar, Under Sandet tenha apenas três críticas no Rotten Tomatoes – o número é tão baixo que o site ainda não dá uma média de nota ou de avaliações. Destas três críticas, duas são positivas e uma negativa. Digo que é curioso tão pouco interesse porque o filme deveria ser um pouco mais conhecido, especialmente por ter passado por tantos festivais. Para chegar a uma das vagas decisivas do Oscar, certamente, os produtores do filme vão precisar torná-lo mais conhecido nos Estados Unidos.

Este filme é uma coprodução da Dinamarca e da Alemanha. Ainda assim, vale lembrar, predominam os recursos da Dinamarca, tanto que o filme foi escolhido pelo país para representá-lo no Oscar 2017, buscando uma vaga entre os finalistas na categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira.

Com uma carreira mais extensa como editor, Martin Zandvliet tem neste filme apenas o seu terceiro longa de ficção. Ele estreou como diretor em 2002 com o documentário Angels of Brooklyn e, depois, fez dois curtas (Jeg Somregel e Mon Petit-Enfant) antes de fazer o primeiro longa sem ser documentário em 2009, Applaus e, em 2011, Dirch. Mas ele parece ter engrenado. Tanto que agora está rodando The Outsider, um filme que se passa também após a Segunda Guerra Mundial, mas desta vez no Japão. No elenco, entre outros nomes, ele tem Jared Leto.

CONCLUSÃO: A premissa deste filme é um soco no estômago desde o princípio. A essência da história faz com que esperemos sempre o pior em Under Sandet. E não são poucas as vezes em que isso acontece. De forma muito sensível e ao mesmo tempo angustiante este filme nos mostra mais uma das várias faces desumanas da guerra. Quando as vidas dos inimigos, suas histórias, famílias e sonhos não tem importância alguma. Pelo olhar do protagonista, acompanhamos a lógica de limpeza das praias sendo alterada aos poucos para a compreensão de que todos somos iguais. Qualquer um poderia estar naquele lugar. Um filme tenso, cheio de mortes e de lições. Corajoso, Under Sandet consegue surpreender ao contar uma história pouco conhecida da guerra tão falada e filmada. Um dos achados da temporada pré-Oscar, sem dúvidas.

PALPITES PARA O OSCAR 2017: É verdade que a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood gosta de um filme sobre o Holocausto. Mas esta produção, apesar de tratar de fatos relacionados à Segunda Guerra Mundial, passa longe do extermínio de judeus e de outros grupos perseguidos pelos nazistas. Muito pelo contrário. O filme tem a coragem de mostrar que os alemães também sofreram na pele, e não foi pouco, após perderem a guerra.

Para mim, seria uma grande injustiça Under Sandet não avançar para a lista dos finalistas na categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira do Oscar 2017. Claro, eu admito, tenho muitos filmes para ver ainda. Mas ao assistir Under Sandet eu entendi porque ele é apontado por muitas listas pré-Oscar como um forte candidato para uma das cinco vagas nesta categoria. Para mim, desde já, ele deve estar lá. Pela qualidade técnica do filme e pelo inusitado da história, não seria difícil para esta produção também levar a estatueta para casa.

Sem dúvida alguma que das produções que estão na lista dos 85 filmes habilitados que eu já assisti, até o momento, Under Sandet é a melhor delas. Mas tenho muitos filmes para assistir ainda antes de cravar um palpite. Mas algo é certo: Under Sandet merece estar entre os finalistas e pode sim ganhar o Oscar no final. O jeito agora é conferir os outros favoritos e, depois, dar o palpite final. De qualquer forma, vale assistir a este filme. Isso se você não tiver problemas com crueldade, sangue, mortes e explosões, é claro.