Papillon

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A honra não tem a ver com seguir tradições ou regras. A honra tem a ver com fazer o que é certo, buscar a liberdade e a justiça e defender a vida do seu amigo mesmo quando esta defesa coloca a sua própria vida em risco. Papillon nos conta uma história incrível de busca incessante por liberdade e pelo lugar de uma pessoa no mundo. A história é tão incrível que nem parece que ela é baseada em fatos reais, mas Papillon realmente existiu. Um filme delicado, muito bonito e sensível, apesar de toda a dureza da história. Vale ser visto.

A HISTÓRIA: Começa nos contando que o que veremos é baseado em uma história real. Vemos a uma cela antiga. Do fundo da cela, caminha lentamente para a frente, Papillon (Charlie Hunnam). Ele passa a cabeça pelo buraco da porta e olha ao redor. Corta. O mesmo Papillon, mas agora bem vestido, escuta com atenção as engrenagens de um cofre. O ano é 1931, e o local, Paris. Depois de abrir o cofre, Papillon pega os diamantes e sai pelas ruas. Vai até um clube, onde encontra o chefe da quadrilha e a sua namorada, Nenette (Eve Hewson).

Ele entrega os diamantes que roubou para o chefe da quadrilha. No final da noite, do lado de fora do clube, ele presenteia a namorada com um colar e algumas pedras que pegou do roubo. Um capanga de Jean Castili (Christopher Fairbank) vê a cena. Papillon e Nenette saem dali para comemorar. Passam uma noite divertida mas, na manhã seguinte, a polícia prende Papillon sob a acusação de ter matado um desafeto do chefe. Ele é condenado à prisão perpétua e enviado para a Guinea Francesa junto com vários outros condenados. Passará por maus bocados, mas nunca desistirá de sonhar com a  liberdade.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto a seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Papillon): Assisti a esse filme há algumas semanas. Então me perdoem se eu não tenho ele tão “fresco” na memória como eu gostaria. Mas lembro do principal, disso podem ter certeza.

Fui ao cinema curiosa para ver a uma refilmagem de um clássico. Há ainda mais tempo, acredito que quando era criança ou adolescente, assisti ao Papillon original, com o grande Steve McQueen no papel principal. A história já era impressionante naquele momento. Na verdade, imagino que em qualquer época a história de Papillon e do que era feito com os presos nos anos 1930 na França impressionem.

Papillon trata de diversos pontos fundamentais sobre a busca da sociedade por regras e limites para os atos individuais e da busca incessante dos indivíduos por viver, ter liberdade e buscarem o seu lugar no mundo. Toda essa falta de compasso entre estas duas necessidades, da sociedade e do indivíduo, assistimos nessa nova versão da história que mexeu com a França e com outros países quando ela veio à tona.

Algo que chama a atenção em Papillon na versão 2017, desde o início, é a ótima fotografia da produção. O filme é lindo, com imagens incríveis e um cuidado com o visual que não pode ser negado. Além disso, logo após a introdução da cela, o mergulho na Paris de 1931 já serve como um belo cartão de visitas sobre o que veremos adiante em termos de reconstituição de época. Um trabalho primoroso também, tanto nos figurinos quanto nas locações.

Além do aspecto visual e da reconstrução de época, pontos que Papillon tem como destaque, vale comentar também o trabalho competente do elenco e falar da história, é claro. Gostei na forma com que o diretor Michael Noer tratou o roteiro de Aaron Guzikowski, que se baseou no roteiro do Papillon de 1973, escrito por Dalton Trumbo e Lorenzo Semple Jr., e no livro Papillon e Banco, escritos por Henri Charrière.

Claro que o roteiro segue aquela linha clássica. Começa com uma cena do “presente” para depois retomar o “passado” para contar como Papillon chegou naquela cela. A partir do retorno para a Paris de 1931, a narrativa passa a ser linear. O principal destaque desta narrativa, a meu ver, é que o filme é bastante econômico em momentos que não são realmente relevantes para a história, como a encrenca que leva Papillon para a prisão, ao mesmo tempo em que explora com muita calma e até uma certa “lentidão” outros momentos importantes, como as fases de solitária do protagonista.

A intenção do roteiro de Guzikowki e da direção de Noer é clara. Eles querem que o espectador sinta ao menos um pouquinho a angústia, o peso do tempo e da solidão que o protagonista sentiu naquelas situações de isolamento. As regras da prisão para a qual Papillon e vários outros foram mandadas eram bastante diretas e duras. Ali, uma vida valia pouco.

Como o diretor da prisão comentou, para eles um preso morto dava menos despesa e trabalho do que um preso vivo. Nesse cenário, temos a um ladrão injustamente condenado por homicídio. Sim, Papillon não era santo, mas será que ele ou qualquer outro indivíduo mereciam aquele tipo de tratamento? Frente àquela situação, o mais incrível de Papillon é que ele nunca desistiu.

Mesmo passando fome, sendo agredido, tendo que estar constantemente atento para defender a própria vida e sendo isolado para ser “quebrado” pela solidão, pela falta de comida, atividade física e contato com outras pessoas, ele nunca desistiu de enfrentar todas as perspectivas e fugir. Qual era o seu maior objetivo? Buscar a liberdade e um lugar que ele pudesse se sentir em casa.

Acho esse tipo de “sonho” e de propósito de uma potência incrível. Uma pessoa que é movida por isso, se sabe lidar com a solidão – e Papillon sabia -, não será “quebrada” ou vencida nunca. Essa é a mensagem mais incrível do filme, a meu ver. Além disso, Papillon inicialmente se aproxima do endinheirado Louis Dega (Rami Malek) por interesse, é verdade, mas depois ele vê Dega como um amigo e, aí sim, Papillon revela toda a sua grandeza.

Naquele cenário agreste de busca por sobrevivência, Papillon poderia ter sido egoísta e ter ignorado Dega em mais de uma ocasião. Teria sido mais fácil para ele. Mas não. Papillon se aproximou de Dega e o considerou o seu amigo. E aí está outra leitura fantástica desta história. A força da amizade e da honra ao defender esse princípio, assim como o da liberdade. Teria sido mais fácil para Papillon “abandonar” Dega à própria sorte em mais de uma ocasião, mas ele não fez isso.

Então esse filme, a meu ver, tem um resgate importante de valores fundamentais, apresenta um belo trabalho dos atores principais e ainda tem uma narrativa que respeita os tempos e que valoriza outros aspectos da produção, como a reconstituição de época e os locais em que os personagens passaram. Gosto da narrativa lenta da produção em alguns momentos. Acho que ela ajuda o público a entender um pouco melhor a experiência de Papillon em seus momentos de isolamento.

Para resumir, achei Papillon envolvente e bem construído. Tem muito mais qualidades do que defeitos. Talvez tenha faltado para a produção um pouco mais de contextualização sobre o que aconteceu com outros personagens importantes da história. Mas esse é apenas um detalhe.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Acho que este pode ser o ano do ator Rami Malek. Descobri ele por causa da série Mr. Robot. Já achava o seu trabalho muito bom. Mas, neste ano, ele não apenas fez esse trabalho interessante em Papillon, como, logo mais, vamos vê-lo como protagonista em Bohemian Rhapsody. Admito que estou bem curiosa para conferir como ele se saiu como Freddie Mercury – apenas pelo trailer, estou até desconfiando que ele pode receber uma indicação ao Oscar como Melhor Ator. Veremos logo mas. Mas, sem dúvida, este é um ator em ascensão.

Além de Malek, que faz um belo trabalho como Louis Dega, vale destacar o ótimo trabalho de Charlie Hunnam como Papillon. Não seria fácil, para qualquer ator, fazer o mesmo papel que, antes, foi realizado por Steve McQueen. Mas Hunnam não parece ter se intimidado com o desafio e abraçou Papillon como se este fosse o papel da sua vida. Gostei bastante da interpretação do ator. Não lembro de tê-lo visto em nenhum outro filme, mas reparei que ele também está em ascensão. Vale acompanhá-lo, pois.

Papillon tem, assim, dois atores em ascensão em papéis centrais. Isso é algo importante para um filme. Além de Malek e de Hunnam, Papillon apresenta outros bons atores em cena. Do elenco, vale destacar o trabalho de Roland Moller como Celier, um presidiário que é bom em navegação – mas que nunca foi com a cara de Dega; Michael Socha como Julot, companheiro de Papillon e de Dega e que é o primeiro a sofrer as consequências por tentar fugir e matar um guarda no intento; Christopher Fairbank em uma super ponta como o chefe da quadrilha de assaltantes Jean Castili; Joel Basman como Maturette, um preso que ajuda na fuga do grupo e que acaba tendo o gostinho da liberdade por um tempo; e Yorick van Wageningen como Warden Barrot, o chefe da prisão na Guiana Francesa. Todos estão muito bem.

Entre os aspectos técnicos do filme, sem dúvida alguma o grande destaque vai para a direção de fotografia de Hagen Bogdanski. Um trabalho incrível e que valoriza a história. Depois da direção de fotografia de Bogdanski, vale destacar a edição de John Axelrad e Lee Haugen; o design de produção de Tom Meyer; a direção de arte de Tom Frohling e Natasha Gerasimova; a decoração de set de Jennifer M. Gentile; os figurinos de Bojana Nikitovic; e a trilha sonora de David Buckley.

Papillon estreou em setembro de 2017 no Festival Internacional de Cinema de Toronto. Depois, o filme participaria, ainda, dos festivais de cinema de Montclair, Edinburgh e o Biografilm Festival. Nesta trajetória, o filme não recebeu indicações ou foi premiado.

Esta produção é baseada, de fato, no livro escrito por Henri Charrière, o nome de batismo de Papillon, e lançado, originalmente, na França em 1969. Ou seja, a primeira adaptação para ao cinema de sua história chegou às telas apenas quatro anos depois do livro ser lançado. Uma prova de como a obra de Charrière foi impactante naquela época.

Papillon significa “borboleta”. Charrière recebeu este apelido por causa da tatuagem de borboleta que ele tinha no peito – e que, descobrimos no filme, tinha o significado, entre os criminosos, de que ele era um assaltante.

Segundo a história, Papillon foi condenado em 1933 e conseguiu escapar da prisão apenas em 1941.

Papillon não caiu no gosto dos críticos. O filme conseguiu 46 críticas positivas e 41 negativas entre os críticos linkados no site Rotten Tomatoes, o que dá para a produção uma aprovação de 53% e uma nota média 6. No site Metacritic o filme não foi muito melhor. Lá, a versão 2018 de Papillon recebeu o “metascore” de 52, fruto de 10 críticas positivas, 15 críticas medianas e de quatro críticas negativas.

Apenas os usuários do site IMDb foram um pouco mais generosos com o filme, dedicando a ele a nota 7. Para mim, é válido uma refilmagem de Papillon agora, para que as novas gerações confiram esta história. Eu não acho que toda refilmagem deve superar a anterior. Cada uma tem os seus predicados. Claro, muito difícil – ou até impossível – superar o Papillon original. Mas acho que o novo Papillon pode ser visto de forma isolada, como um belo trabalho e um esforço interessante de reapresentar uma história bacana e forte para um novo público.

De acordo com o site Box Office Mojo, Papillon arrecadou US$ 2,3 milhões nos Estados Unidos e outros US$ 2,2 milhões nos outros países em que o filme estreou. Esses números mostram que a produção foi praticamente ignorada pelo público. Uma pena, porque eu achei ela bem acabada e com uma temática que vale ser tratada e discutida. Mas a nova versão de Papillon realmente não conseguiu emplacar.

Papillon é uma coprodução da República Checa, da Espanha e dos Estados Unidos. Curiosa essa mistura. Não lembro de ter visto a outro filme da República Checa. 😉

CONCLUSÃO: Um filme com uma fotografia incrível, um roteiro bem equilibrado, bons atores e que não tem pressa de contar uma história. Muito pelo contrário. Papillon segue o seu ritmo e a visão do diretor Michael Noer do início ao fim. Gostei do resgate desta obra tão importante sobre valores fundamentais da humanidade. Toda sociedade precisa de regras, leis, controles e segurança. Mas a busca do indivíduo por liberdade e por escolher os seus caminhos ultrapassa tudo isso. Belo filme, muito bem realizado e que nos faz pensar muitos aspectos. Se você não se incomodada com uma narrativa um pouco lenta, dê uma chance para Papillon.

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The Master – O Mestre

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Todos servem a algo ou a alguém. Essa afirmação foi cantada por Bob Dylan em 1979 na música Gotta Serve Somebody. E eu sempre lembro dela, nos momentos mais diferentes. Afinal, por mais independente e esperto que alguém se imagine, uma hora ou outra ele vai servir a alguém. The Master trata um pouco sobre isto. De como as pessoas precisam de lideranças e de crenças. Elas vão seguir e servir a alguém. E elas tem o poder de escolher a quem.

A HISTÓRIA: O mar. Águas azuis. Um marinheiro olha para o horizonte e sente o sol. Depois, em um coqueiro, ele retira alguns cocos com um machado, e bebe aquela água com um aditivo. Este cidadão é Freddie Quell (Joaquin Phoenix), que faz parte de um grupo de marinheiros em tempo de guerra que encontra tempo para lutar como “gladiadores” na areia e para fazer imagens de mulheres nuas na praia. Com o fim do conflito, Quell volta para os Estados Unidos, onde passa por um tratamento psiquiátrico. Liberado, ele vai trabalhar como fotógrafo, na colheita de verduras, mas sempre se envolve em algum conflito. Até que entra no barco de Lancaster Dodd (Philip Seymour Hoffman), conhecido como Mestre, e fazer parte do grupo de seguidores de sua filosofia chamada A Causa.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a The Master): A música no início do filme fala muito a respeito do que vamos assistir a seguir. Porque ela é estimulante e ajuda a estarmos, ao mesmo tempo, atentos e inquietos. E este é apenas o começo. Outro elemento também logo fica evidente: que Joaquin Phoenix carrega o filme sozinho. Ele é a parte mais perturbadora da história, porque tem um desempenho visceral que impressiona.

The Master é um destes filmes curiosos do senhor Paul Thomas Anderson. O diretor assina também o roteiro da produção, que mergulha em elementos conhecidos do público estadunidense, como os traumas de um pós-guerra e a difícil experiência de integração dos ex-soldados a uma sociedade que não viu ou sentiu o que eles passaram em ambientes de batalha, tédio, espera e tensão. Mas o filme também inova ao mostrar uma seita, baseada em “ciência”, mas que trata de questões quase (ou que podem ser consideradas) religiosas.

Por todas as partes, os elementos dominantes deste filme são a dominação e a submissão. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Não percebemos no início, mas teremos certeza apenas no final, que Freddie Quell e Lancaster Dodd estão em uma permanente queda de braços. Para Dodd, líder de uma seita que busca consolidar-se e crescer, Quell é um belo experimento. Um desafio que, se superado, vai ajudar-lhe a ganhar ainda mais fama. Quell, por sua vez, perdido e solitário, sem amigos ou o amor verdadeiro, fica fascinado com a persuasão de Dodd, com o grupo que circula ao redor dele, e com a aparente confiança que o “guru” deposita nele, um pária social.

A todo o momento, esperamos que alguma catástrofe aconteça. Não sei vocês, mas eu aguardava a hora em que Quell pegaria uma mulher contra a sua vontade, talvez até a “bastante acessível” Peggy Dodd (Amy Adams). Isso porque ele é inconstante e imprevisível. Ainda que, conforme o filme passa, começamos a ter um quadro um pouco mais aprofundado do personagem, o opositor perfeito para o equilibrado e calculista Lancaster Dodd.

A grande questão levantada por The Master é de quem, afinal, acaba tendo mais poder? O sujeito inteligente, determinado, manipulador e cheio de seguidores, que tenta convencer as pessoas com sua doutrina e lógica, ou a força destrutiva, independente, anárquica e fora dos padrões do sujeito que flerta com a loucura e brinca com os padrões sociais? (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Por boa parte do filme, o primeiro tenta domar, compreender e subjugar o segundo. Acreditando que ele precisa ser “salvo” e domesticado. O segundo joga este jogo do subjugado por um tempo, mas resiste. E surpreende. A cena final entre os gigantes Phoenix e Hoffmann é de arrepiar, e só revela, mais uma vez, como este é o trabalho da vida de Joaquin.

O final deste filme pode levantar muitos debates – como a produção inteira, inclusive. O que eu achei dele? Bueno, primeiro, que os métodos de Dodd não eram tão eficazes assim – o que acaba sendo uma ironia interessante sobre qualquer figura que, como ele, tenta ser um messias misturando religião com ciência. Depois, que há casos de psoturas anarquistas e que fogem da lógica predominante que vencem qualquer tentativa de “conversão”. E terceiro que, mesmo que o objetivo “total” de Dodd não tenha sido realizado, de subjugar Quell, ele serviu como inspiração para o ex-militar, que seguiu adotando algumas das técnicas de Dodd a sua própria maneira.

E eis a ironia final de The Master. Porque por mais que algumas pessoas resistam a certa dominação, elas acabam cedendo a parte delas e/ou a suas influências mesmo sem querer. No fim, sempre que duas pessoas se encontram e se relacionam pra valer, elas se modificam mutuamente. Seguem suas trajetórias, após este encontro, tendo algum hábito ou forma de atuar diferente, influenciada pela pessoa que encontraram.

The Master trata desta história. Com interpretações dedicadas, especialmente de Joaquin Phoenix, e uma direção que valoriza estas interpretações, este é um filme de atores. E que ironiza sobre alguns mestres e seus seguidores, e sobre a validade e eficácia de suas doutrinas. Esta produção segue a lógica de uma extensa sessão de psicanálise. Por isso, tem momentos angustiantes, de puro desabafo e de alguma chatice. A parte que pode render algum bocejo envolve os “exercícios” e “provações” que Quell passa sob a batuta de Dodd. Mas nada que torne a aventura insuportável. Até porque Paul Thomas Anderson sabe o momento de virar o disco. E faz isso sempre no momento certo.

NOTA: 9,2.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Difícil terminar de escrever este texto. Por uma razão bem simples: assisti a este filme, acredito, ainda em fevereiro. Após o Oscar. Na sequência, comecei a escrever este texto. Mas pela correria que tive no meu trabalho, salvei ele nos rascunhos e só voltei a completá-lo hoje. Final de abril, mais ou menos dois meses depois. Então ficou difícil de relembrar de todas as minhas impressões sobre o filme. Por isso, peço desculpas para vocês. Esta crítica ficou mais “fria” do que eu gostaria.

Muito se falou que The Master seria “livremente” inspirado na história de L. Ron Hubbard, o polêmico, admirado e criticado “mestre” da cientologia. Honestamente? Vejo muitos pontos em comum e acredito, francamente, que Paul Thomas Anderson quis dar uma cutucada na cientologia sim. Para os curiosos sobre este assunto, eis aqui um texto, em inglês, assinado por Marc Headley que faz uma comparação interessante entre o filme, Lancaster Dodd, L. Ron Hubbard e a cientologia.

Paul Thomas Anderson faz mais um belo trabalho aqui, mas não considero este o seu melhor filme. Ainda prefiro Magnolia e There Will Be Blood. Neste momento, o diretor está trabalhando em seu décimo sexto título, Inheret Vice, ambientado na Los Angeles dos anos 1960 e protagonizado, mais uma vez, por Joaquin Phoenix.

Para mim, e volto a repetir isto, este é o trabalho mais impressionante de Phoenix. Ele domina e carrega o filme. E olha que ele tem, ao seu lado, o ótimo Philip Seymour Hoffmann e a sempre competente Amy Adams. Ainda assim, eles ficam eclipsados por Phoenix.

Além dos atores já citados, vale comentar o trabalho de Jesse Plemons como Val Dodd, filho do Mestre; Ambyr Childers como Elizabeth, a filha de Dodd; Rami Malek como o marido dela, Clark, que acaba desafiando o protagonista em diversos momentos; e Laura Dern como Helen Sullivan, uma das “crentes” da doutrina de Dodd.

Da parte técnica do filme, vale comentar sobre a trilha sonora fundamental, e algumas vezes irritante, de Jonny Greenwood; e a direção de fotografia de Mihai Malaimare Jr., que valoriza a luz, algumas vezes parece “superexposta” e, consequentemente, nos ajuda a nos transportar para os Estados Unidos do período pós-Segunda Guerra Mundial.

Este foi o primeiro filme de Anderson sem o diretor de fotografia Robert Elswit – que tinha se comprometido a filmar The Bourne Legacy.

E uma curiosidade sobre The Master: ele tem uma forte influência estilística do documentário Let There Be Light, de John Huston, lançado em 1946.

A cena em que Freddie retira etanol de um torpedo para “envenenar” uma de suas bebidas foi baseada em fatos reais contados por Jason Robards para o diretor.

Na cena da destruição da cela na prisão, Phoenix realmente quebra o vaso sanitário. Ele fez isso no improviso. Outra sequência de improviso é aquela que abre o filme, com Freddie falando na praia.

The Master foi indicado a três Oscar‘s, mas não levou nenhuma estatueta para casa. Mesmo saindo de mãos vazias da premiação máxima de Hollywood, ele foi bem reconhecido em outras partes. No total, até o momento, ele recebeu 60 prêmios, a maioria deles entregue por associações de críticos. Preciso destacar, entre este total, os prêmios de melhor Diretor e melhores Atores para Joaquin Phoenix e Philip Seymour Hoffman no Festival de Veneza.

Esta produção recebeu a nota 7,2 pelos usuários do site IMDb. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram mais generosos, dedicando 189 críticas positivas e 31 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 86% e uma nota média de 8,1. Especialmente a nota é muito boa, levando em conta a média do site.

Meus bons leitores/seguidores deste site, peço desculpas pela ausência desde o último Oscar. Mas é que vivi meses complicados, de muito trabalho fora do blog. Mas prometo que a partir desta semana eu voltarei a publicar com mais frequência, combinado? Obrigada a quem seguiu visitando este espaço e para quem fez comentários por aqui no período.

Em breve, começo a cumprir a promessa da última enquete neste site. A maioria de vocês pediu para que eu comece a falar de filmes nacionais. Muito bem, vou começar a fazer isto. Amanhã, vou assistir ao filme Somos Tão Jovens, um belo recomeço para as críticas de filmes nacionais aqui no blog. Sou convidada do Cinemark do Floripa Shopping. E na sequência, falo tudo sobre esta produção, que certamente vai mexer comigo – depois conto as razões -, para vocês. Inté breve!

CONCLUSÃO: Paul Thomas Anderson é um diretor diferenciado. E isso é o que eu mais gosto nele. Anderson fez um dos meus filmes preferidos de todos os tempos, Magnolia. E em todas as suas produções, ele apresenta esta forma de fazer cinema que não se parece com a de nenhum outro diretor de sua geração. The Master é mais um filme potente de sua filmografia, que flerta com questões importantes para a psicologia, mas que vai além. Trata de seitas, religiões e da ciência – cada uma com muitas aspas. Aborda os desejos reprimidos, a parte racional e animal de cada indivíduo e, principalmente, a nossa necessidade de acreditar e seguir certas ideias e pessoas. Um filme tão interessante que, certamente, pode render horas de debates. Por tratar de certas datas e locais, The Master foi apontado como uma produção que trata da cientologia e de seu fundador. De fato, há muitas semelhanças entre o roteiro e a história real, o que alimenta, ainda mais, os debates e a polêmica. Um filme perturbador, em vários sentidos, mas muito bom.

OSCAR 2013: The Master foi indicado a três estatuetas do Oscar deste ano. E não levou nenhuma. O que não é surpreendente, porque este não é um filme fácil para Hollywood.

As indicações foram para três atores. Algo justo, porque esta é uma produção que destaca o trabalho do ator. Assim, Joaquin Phoenix foi indicado como Melhor Ator; Philip Seymour Hoffman foi indicado como Melhor Ator Coadjuvante; e Amy Adams foi indicada como Melhor Atriz Coadjuvante.

De fato, acho que Christoph Waltz e Anne Hathaway tiveram interpretações mais impactantes em seus respectivos filmes do que os sempre competentes Hoffman e Adams. Agora, Phoenix… ele está tão entregue a seu papel e faz uma interpretação tão impactante e alucinante, que ouso dizer que ele merecia mais a estatueta que Daniel Day-Lewis.

Claro que ninguém duvida que Day-Lewis merecia ser o primeiro ator a receber três estatuetas pela categoria principal para homens do Oscar. Mas, desta vez, Phoenix fez um trabalho superior. Mas para quem acompanha a Academia, faz parte também saber que ela é política, e gosta de criar os seus mitos. Day-Lewis foi alçado a esta posição. Com méritos.