A Quiet Place – Um Lugar Silencioso

a-quiet-place

Vivemos em sociedades cheias de barulho, de ruídos, de verborragia. É difícil encontrar o silêncio, muitas vezes, mesmo quando ele é tão necessário. Agora imagine uma sociedade em que o silêncio impera. E, mais que por qualquer outra razão, por uma questão de sobrevivência – e de poucos. Esse é o pano de fundo do interessante A Quiet Place. O filme assusta menos do que o esperado, mas tem alguns insights bastante interessantes. Ele também faz pensar, especialmente sobre um ou dois pontos que não ficam tão claros na história – mas estão subentendidos.

A HISTÓRIA: Dia 89. Vemos a uma cidade deserta, com ruas vazias, e dentro de uma venda, encontramos uma parede cheia de fotos de pessoas desaparecidas. Nesse local, abandonado, mas com muitos produtos – incluindo medicamentos – dentro, uma criança caminha ligeiro e na ponta dos pés. Em seguida, vemos a uma menina maior caminhando no local, e um garoto sentado no chão.

A mãe das crianças, Evelyn Abbott (Emily Blunt), surge em seguida e começa a buscar um remédio específico entre os medicamentos que estão em uma prateleira. Em seguida, ela dá o remédio para o filho maior, Marcus (Noah Jupe). Eles falam pela língua de sinais, e o garoto diz que está bem. O filho menor, Beau (Cade Woodward), desenha uma nave no chão e mostra para a irmã, Regan (Millicent Simmonds). Ele diz que é assim que eles vão fugir. A obsessão do garoto pelas espaçonaves acaba colocando a família em risco.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a A Quiet Place): Que filme interessante! Uma produção que, como tantas outras de qualidade, tem mais de uma camada de leitura e de interpretação. A Quiet Place tem uma pegada curiosa desde o princípio. Para começar, pela coragem do filme ser todo baseado no silêncio. Hoje, na sociedade em que vivemos, incluindo a cultura de filmes cheios de som e de efeitos especiais, investir em uma história com essa pegada é realmente algo corajoso.

Apenas por isso, o filme já merece os parabéns. Porque ele vai contra a corrente dos blockbusters dos anos 2000 e apresenta uma outra forma de fazer cinema tão interessante quanto – cada uma com o seu propósito, é preciso ponderar. Além disso, o diretor, roteirista e protagonista desta história, John Krasinski, acerta ao apostar em um cinema sensorial e que resgata alguns dos princípios do cinema do grande Alfred Hitchcock.

Aqui não interessa tanto as razões do que estamos assistindo. Não sabemos como tudo começou – apenas por alguma pincelada aqui e ali – ou como a família que conduz essa história sobreviveu. O que importa em A Quiet Place é o tempo atual, os desafios dos personagens e, principalmente, o perigo que eles enfrentam a todo momento. Apesar das regras do perigo serem claras – você deve evitar fazer barulho o tempo todo -, o filme ganha pontos ao mostrar que as pessoas se acostumam com tudo, até com aquele estado de atenção constante.

A Quiet Place consegue equilibrar, assim, momentos de pura tensão e adrenalina por causa do perigo que ronda os personagens com cenas de um “cotidiano” já esquecido por aquele contexto. Algumas das cenas que eu mais gostei do filme tem a ver com isso. Além do desejo de brincar do pequeno Beau, logo no início do filme, até a bela cena em que Evelyn procura o marido, Lee, para os dois dançarem juntos – ouvindo a música com fones de ouvido, é claro.

Graças a essas escolhas, o filme de Krasinski não se resume apenas a um compêndio de cenas tensas. As sequências de “vida real”, de pais tentando fazer o melhor possível para criar, educar e proteger os seus filhos em um ambiente totalmente perigoso e tenso, é o que torna essa produção interessante e passível de empatia. Não é difícil se colocar no lugar dos personagens – tanto adultos quanto das crianças. E isso é algo mágico no cinema.

A Quiet Place acerta, assim, no tom e na narrativa. Além disso, ele nos faz pensar em pontos essenciais sobre a visão de mundo das pessoas e sobre cenários “pós-apocalípticos”. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Um dos primeiros pensamentos que veio na minha mente, quando o tempo passa e o filme salta daquele começo para o dia 473, quando vemos a protagonista grávida, foi: “Claro, você vive em uma realidade em que você não pode fazer barulho, ou falar, ou gritar, e qual é a melhor alternativa nesse cenário? Engravidar e ter um filho que já vai nascer chorando”.

Mas aí você pensa: “Ok, estou em um cenário pós-matança geral das sociedades. Como eu vou continuar com a civilização se eu não tiver filhos?”. Algo estilo Noé. Por isso eu falava sobre as várias camadas dessa produção. Certamente o casal de protagonistas tinha essa convicção de que eles deveriam continuar a ter filhos para “preservar a espécie”. E, também, possivelmente, porque eles são casados e, segundo algumas crenças, são isso que os casais fazem, certo? Eles têm filhos.

Essas são as únicas justificativas para aceitarmos que um casal continue a ter filhos naquele cenário mostrado por A Quiet Place. Então, assim meio sem querer, esse filme nos coloca em questão a reflexão lógica e o sentido de sobrevivência versus a questão das crenças, da fé e afins. Porque realmente não faz o mínimo sentido os Abbott pensarem em ter um filho naquela realidade em que o silêncio é fundamental.

Por causa dessa ideia, que nos desafia a lógica e também a nossa capacidade de aceitar as escolhas diferentes dos demais, é que A Quiet Place começa a revelar os seus pequenos defeitos. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Para começar, é interessante que o casal Abbott tenha pensado em um “quarto” quase à prova de som onde, em teoria, o filho deles iria nascer. Mas as coisas saem mal – e isso sempre rende bons momentos em filmes de suspense e terror – e Evelyn acaba tendo o filho no banheiro que não é à prova de som.

Ora, eis o primeiro problema da história – talvez até tenham tido outros antes, mas esse me pareceu o mais gritante. Se alguns tiros despertam a atenção de vários “bichos estranhos” no final do filme, o nascimento de uma criança não iria fazer o mesmo? Para que aquela cena do banheiro se justifique, a criança teria que ter nascido em pleno silêncio. Alguém realmente acredita nisso? Que a mãe tenha se esforçado ao máximo e não tenha gritado de dor, tudo bem, mas a criança ter nascido sem abrir o berreiro… não é impossível, mas é extremamente improvável.

Além disso, me pareceu um tanto forçado o fim de Lee. Ok, Regan poderia não ser muito “esperta” ou ter pensamento rápido, mas realmente, além do aparelho dela a incomodar, ela não reparou que ele afastava o perigo? Na cena da caminhonete, foi a segunda vez que ela passou por aquilo. E o que ela faz? Ao invés de afastar o perigo, ela desliga o aparelho e deixa todos vulneráveis. E aí o pai das crianças, claro, assume a responsabilidade de protegê-las de qualquer forma.

Aquela sequência me pareceu um tanto forçada por causa disso. Também me pareceu um tanto forçado que a solução para aquele problema tivesse sido descoberto daquela forma, acidental, e por uma pré-adolescente, enquanto exércitos e cientistas antes forma exterminados sem terem pensado naquela mesma ideia. Para mim, esses são os problemas da produção, junto com a sequência em que Evelyn escapa com o bebê mesmo tendo ficado frente a frente com o inimigo quando a “sala segura” é inundada.

Mas descontados esses pequenos problemas do roteiro, esse filme se apresentar muito potente e interessante. Ele realmente envolve o espectador e nos faz, com bastante facilidade, nos sentirmos “na pele” dos personagens. Apesar disso, desse resgate salutar de filmes que alimentavam a nossa tensão explorando muito mais as fragilidades humanas do que os “perigos inexplicáveis” – vide Hitchcock -, eu esperava me assustar mais.

A Quiet Place é um filme muito eficaz em nos deixar tensos. Em esperarmos o pior a qualquer momento. Mas ele não nos apavora ou nos assusta como outras produções já conseguiram antes. Eu procuro não ler sobre os filmes antes de assisti-los, mas acabei vendo, aqui e ali, em portais de notícias, que alguns consideravam esse filme o mais inovador em muito tempo. Sim, A Quiet Place tem uma pegada interessante e criativa, mas não acho ele tão surpreendente quanto Get Out (comentado aqui), por exemplo.

Assim, para resumir, A Quiet Place é um filme interessante, com uma proposta diferenciada em meio a tantos filmes cheios de som e de efeitos especiais, mas que acaba caindo em alguns lugares-comum. Por exemplo, as características da ameça que a família Abbott enfrenta. Será mesmo que não vamos conseguir abandonar aquele perfil de “alien” que já conhecemos? Não fica evidente se a ameaça veio de fora da Terra ou se é produto de uma mutação, mas isso pouco importa. Impossível não lembrar dos filmes Alien ou Predator.

Então esse certo “lugar-comum” do perfil da ameaça enfrentada pelos personagens me incomodou um pouquinho. Por outro lado, achei interessante outra leitura que surge após o filme terminar. Você pararam para pensar em quem era a pessoa mais preparada para enfrentar aquele cenário? Alguém que nasceu no silêncio e que não teria dificuldade alguma em conviver com ele até o final? Sim, justamente a personagem surda-muda de Regan.

Isso me fez pensar. O que é, afinal, uma pessoa “menos preparada” para o mundo? Já tivemos imbecis na história da nossa civilização que acreditavam em desenvolver uma “super raça” de pessoas perfeitas e em eliminar todos aqueles que tinham alguma “imperfeição” – até hoje há imbecis que defendem esse equívoco. E aí vem um filme como A Quiet Place para nos mostrar, como com um tapa na cara, que talvez essas pessoas “imperfeitas” – e quem não é? – sejam just

NOTA: 8,7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Uma das qualidades de A Quiet Place é que a história é centrada em poucos personagens. Assim, fica mais fácil do público “se aproximar” deles e de desenvolver a empatia necessária para “sofrer” e sentir a tensão junto com eles. Sem dúvida alguma, uma escolha acertada para essa produção funcionar.

Fiquei especialmente feliz em ver a John Krasinski novamente. Primeiro, estrelando um filme que caiu na graça do público e da crítica. E, depois, ao saber que ele é o grande responsável por A Quiet Place. Krasinski escreveu o roteiro ao lado de Bryan Woods e Scott Beck, a dupla que teve a ideia original de A Quiet Place, e também dirigiu o filme. Eu gosto muito dele desde a época de The Office – uma grande série, aliás. Se você ainda não assistiu à versão americana da série inglesa, versão essa que conta com Krasinski, vá atrás. Vale muito a pena.

Além de Krasinski, que faz um belo trabalho como o protagonista dessa história, estão muito bem em seus papéis também as atrizes Emily Blunt e Millicent Simmonds e o jovens atores Noah Jupe e Cade Woodward. Toda a história gira em torno da família formada por eles, mas algumas outras figuras aparecem rapidamente em cena. Como o casal de idosos que aparece na floresta e que é interpretado por Leon Russom e Doris McCarthy.

Entre os elementos técnicos do filme, vale destacar a ótima fotografia de Charlotte Bruus Christensen; a trilha sonora fundamental de Marco Beltrami; a edição precisa de Christopher Tellefsen; o design de produção de Jeffrey Beecroft; a direção de arte de Sebastian Schroeder; a decoração de set de Heather Loeffler; os figurinos de Kasia Walicka-Maimone; o fundamental trabalho dos 20 profissionais envolvidos com o Departamento de Som; e o trabalho dos 42 profissionais envolvidos com os Efeitos Visuais.

Agora, estava pensando em um ponto. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Eu não li ainda vários textos sobre esse filme. Mas consigo imaginar que ele pode suscitar uma série de debates e questionamentos. Por exemplo, imagine você ficando grávida – se for mulher, claro. E se for marido dessa mulher, imagine você sabendo que a sua mulher está grávida em um cenário em que vocês não podem nem conversar. O que você faria?

Da minha parte, eu procuraria um bunker ou um lugar similar, já planejado para ter uma super proteção e que fosse à prova de som. Então porque os Abbott não procuraram um bunker? Claro, você vai dizer, porque aí esse filme não existiria. Até pode ser, ou ele existiria com um pouco mais de inteligência e outros desafios a serem vencidos. 😉 Mas que faria mais lógica uma busca dessa, certamente.

Digam o que disserem, mas em um cenário pré-apocalipse de “invasão alienígena” – ou do que for -, os jornais ainda seguiam importantes. 😉 Vide os recortes guardados por Lee e o jornal da banca que já nos falava no início do filme sobre a grande questão naquele momento. A manchete dizia, simplesmente: “É o som”. Interessante.

Achei muito interessante uma sacada dessa produção. Como em um jogo de videogame “modernete”, a história muda conforme “varia” a perspectiva dos personagens. Assim, ouvimos sons normalmente quando estamos vendo a realidade sob a ótica de Evelyn, Lee ou Marcus, mas não escutamos nada quando estamos sob a ótica de Regan. Sacada bacana essa. Funciona muito bem e dá outra perspectiva para o filme e os espectadores.

A Quiet Place estreou no dia 9 de março no Festival de Cinema South by Southwest. Depois, o filme participou de apenas mais um festival de cinema, o Blood Window Fest. No Brasil, o filme estreou no dia 5 de abril. Assisti ele há uma semana e gostei do que eu vi – apesar das considerações que eu fiz acima.

Agora, algumas curiosidades sobre essa produção. A atriz Millicent Simmonds é surda desde a infância por causa de uma overdose de medicamentos. A Quiet Place foi o segundo filme que ela fez. Achei a atriz muito talentosa e com grande expressividade. Torço para que ela tenha outros filmes interessantes para fazer.

O roteiro original de Bryan Woods e de Scott Beck tinha apenas uma linha de diálogo. Curioso. O roteiro deles foi eleito um dos 10 melhores do ano segundo o Tracking Board, uma eleição anual feita por profissionais da indústria do cinema nos Estados Unidos.

Os atores John Krasinski e Emily Blunt são casados na vida real. Inicialmente, Woods e Beck escreveram o roteiro para a Paramont, que enviou o material para Krasinski, que já tinha sido escolhido para estrelar o filme. Quando a esposa dele leu o roteiro, ela também quis participar. E foi assim que os dois estrelaram essa produção. E, cá entre nós, eles SÃO o filme. Estão ótimos e muito, muito convincentes.

Por pouco a Paramount não colocou A Quiet Place como um filme da franquia Cloverfield. Mas os realizadores – especialmente os roteiristas – ficaram aliviados por conseguirem fazer um filme independente. Honestamente, não assisti aos filmes Cloverfield. Por isso, pergunto para quem já os viu: faria sentido A Quiet Place entrar nessa franquia? Mesmo sem esse conhecimento de causa, essa ideia me pareceu um tanto estranha.

Algo importante para a história – e algo que me fez pensar enquanto eu assistia ao filme: o dispositivo que Reagan utiliza é um implante coclear e não um aparelho auditivo simples. E a explicação para isso: “A deficiência auditiva geralmente envolve danos ou subdesenvolvimento da cóclea, que traduz vibrações no ar para impulsos nervosos que o cérebro percebe como som”. Ou seja, a personagem não tinha apenas um aparelhinho colocado no ouvido, mas um implante que provavelmente lhe causava uma dor muito maior quando entrava em “conflito” com a “sintonia” das criaturas.

A Quiet Place foi filmado em 36 dias. Essa produção, segundo o site Box Office Mojo, teria custado cerca de US$ 17 milhões e faturado, apenas nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 67 milhões. Nos outros mercados em que o filme já estreou, ele fez quase US$ 25,7 milhões. Ou seja, no total, até o dia 12 de abril, A Quiet Place tinha faturado US$ 92,7 milhões. Alguma dúvida que ele está rendendo um belo lucro para os produtores e o estúdio? Fico feliz por esse resultado, porque ele pode incentivar os estúdios a apostarem cada vez mais em produção não muito óbvias. E nós, que amamos cinema, ganhamos com isso.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,3 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 222 críticas positivas e 11 negativas para esse filme, o que garante para A Quiet Place um nível de aprovação de 95% e uma nota média de 8,2.

Por sua vez, o site Metacritic registra um metascore de 82 para essa produção, com um raro registro de 54 críticas positivas para o filme (e nenhuma negativa ou mediana). Essas notas, altas para os padrões dos sites, e o nível de críticas positivas demonstra como esse filme caiu no gosto do público e da crítica de uma maneira especial.

Esse é um filme 100% dos Estados Unidos. Por isso, ele entra na lista de produções que atendem a uma votação feita aqui no blog há algum tempo.

CONCLUSÃO: Um filme interessante, com algumas ideias bacanas e bem desenvolvido. Mas sou franca em dizer que eu esperava mais, até porque A Quiet Place recebeu muitos elogios – que eu vi bem por cima, mas que foram suficientes para aumentar a minha expectativa. Essa produção se destaca pelo trabalho dos atores, pela angústia e pelo suspense bem construídos, mas se torna um pouco óbvia e previsível em algumas partes. Não é tão surpreendente quanto Get Out, por exemplo. Mas vale ser visto, especialmente pelo que nos faz refletir depois que a projeção termina e que passamos a refletir sobre detalhes da história.

Anúncios

Detroit – Detroit em Rebelião

detroit

É impressionante quando a pressão extrapola qualquer barreira e a convulsão social acontece. Para tudo nessa vida existe limite. Ao assistir a Detroit, percebemos um exemplo contundente de reação contra décadas, séculos de abusos, preconceito racial e violência. E o que impacta tanto quanto assistir ao que aconteceu nesta cidade norte-americana há 50 anos, é pensar que hoje em dia, tanto tempo depois, muito da motivação do “levante popular” continua válido. Sim, nós avançamos alguns milímetros em algumas direções, mas em outras… parece que custamos a sair do lugar.

A HISTÓRIA: Começa com uma animação que explica parte das mudanças na sociedade americana. Eles comentam, por exemplo, como houve uma grande migração antes da 1ª Guerra Mundial, com muitos negros indo da região Sul para o Norte dos Estados Unidos. Eles acabam morando nas periferias das cidades, onde começam a dividir espaço com brancos que trabalham nas fábricas.

Nos anos 1960, a tensão racial atinge o seu auge, especialmente porque os negros percebem que a ideia de igualdade de oportunidades entre eles e os brancos não passa de ilusão. A mudança então parece ser inevitável. A única questão é quando e como ela vai acontecer. A partir daí, a história mostra como a panela de pressão estoura e o que acontece a partir de então em um Detroit convulsionada.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Detroit): Eu gosto muito da diretora Kathryn Bigelow. Ela é um (ainda) raro caso de diretora que conseguiu conquistar com muito talento e obstinação o seu espaço de respeito em Hollywood, um local dominado por homens na direção. Kathryn conhece muito bem o seu ofício, e a cada filme ela demonstra isso com suavidade e competência, sem apostar em pirotecnia ou em exibicionismos.

Desde que lançou o ótimo The Hurt Locker, filme comentado aqui e que garantiu para ela duas estatuetas do Oscar na prateleira – uma como Melhor Filme, já que ela foi uma das produtoras da produção, e outro como Melhor Diretora -, Kathryn parece ter abraçado temas importantes para os Estados Unidos e para boa parte do mundo. The Hurt Locker fala sobre os efeitos nocivos de uma guerra “contra o terror” que parecem um tanto invisíveis e menos óbvios.

Depois, ela nos apresentou o interessante e denso Zero Dark Thirty, comentado neste texto aqui no blog. Novamente o tema era importante, o combate ao terrorismo, os seus personagens e os seus efeitos. Ou seja, entre 2010 e 2012, Kathryn nos apresentou dois filmes marcantes, ambos caracterizados por um estilo um tanto “documentarista”. De 2012 e até agora, ela havia dirigido apenas a dois curtas. Até que em 2017 ela nos apresenta Detroit, um filme que curiosamente trata sobre conflitos, mas totalmente de outra espécie.

Desta vez os inimigos não estão fora dos Estados Unidos. O perigo, o medo, a repressão e a covardia não estão longe, mas “dentro de casa”. O estilo de direção, contudo, segue o mesmo. Kathryn dá mais uma demonstração de que entende muito de cinema ao transformar a reconstituição de fatos reais em uma narrativa que lembra a de um documentário. A câmera dela se movimenta com bastante frequência, buscando reproduzir a agitação daqueles dias de convulsão social.

O tema do filme é interessante, especialmente porque os Estados Unidos tem dificuldade, na maioria das vezes, em falar de seus próprios demônios. Com muita frequência vemos ao cinema de Hollywood tratando dos “inimigos estrangeiros”, dos “bárbaros” que precisam ser combatidos de forma heroica longe de casa. Também vemos a alguns filmes humanos, demasiados humanos, sobre conflitos e dramas pessoais – mas menos do que podemos conferir no cinema europeu.

Agora, não são tão frequentes, ao menos nas últimas duas décadas, os filmes que tratam sobre os próprios problemas criados nos Estados Unidos. Sem, existem exceções à regra. Mas, no geral, o cinema de Hollywood não gosta muito de olhar para dentro de suas fronteiras. Talvez Kathryn tenha percebido isso e tenha pensado e se perguntado, diante de uma nova onda de violência policial contra negros dentro do país e a consequente revolta que isso despertou, que tipo de história ela poderia contar?

Sim, ela poderia ter focado em algum caso recente de violência policial e de morte de negros inocentes. Mas mais forte do que contar uma história recente, ainda passível de discussões e de interpretações, foi a escolha dela por voltar atrás espantosos 50 anos e mostrar que pouco avançamos desde então. A narrativa é bem feita, e algumas cenas são de arrepiar. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). A primeira vítima do policial Krauss (Will Poulter), o cidadão que foi fazer compras, que corre quando vê policiais brancos armados vindo na direção dele e que é acertado pelas costas, é um grande exemplo do que acontecia na cidade convulsionada de Detroit em 1967.

Quando vemos aquela cena, maravilhosamente conduzida por Kathryn, ficamos chocados e arrepiados. E outras sequências produzem o mesmo efeito. Sim, dá para entender a revolta dos negros que vemos em cena, mas também nos perguntamos sobre como pode terminar uma situação como aquela. O caos reinante pode ter fim sem a geração de mais violência? Eu acredito que sim. Mas que nada se resolve com mais repressão e mais violência. Impressionante a cena, por exemplo, de um tanque de guerra patrulhando as ruas e disparando contra um prédio.

Detroit tem várias cenas marcantes. Estas duas que eu citei são dois bons exemplos da força a história contada pela diretora Kathryn Bigelow e com roteiro de Mark Boal. Mas… um dos problemas da produção é que ela é longa demais. Detroit tem 2h23min de duração. Hoje, mais do que antes, acho que poucos filmes merecem ter mais de 2h… a maioria poderia ter, inclusive, 1h30min de duração. Sendo assim, não. Não há necessidade de Detroit ser tão longo. Existem alguns elementos da produção que poderiam ser perfeitamente “enxugados” para tornar a narrativa mais cadenciada.

Entre várias outras sequências e fatos narrados na produção, sem dúvida o que ocupa o maior espaço no roteiro e no tempo do que vemos em tela é a sequência envolvendo o Motel Algiers em que parte dos amigos cantores do grupo The Dramatics vai se refugiar após mais uma noite tensa em Detroit. Aquele parecia ser um lugar seguro para eles ficarem até o toque de recolher passar, mas eles não sabiam que, ali, encontrariam pessoas sem noção do perigo como Carl (Jason Mitchell) que, com uma arma sem poder letal, acaba fazendo um disparo que desencadeia uma série de fatos trágicos.

Aquela sequência do motel é longa demais e parece não ter fim. A narrativa é contada em detalhes. Imagino que esta foi a intenção da diretora e do roteirista, contar os fatos minuciosamente e fazer o espectador vivenciar aquela sensação de terror sem fim. A sequência provoca angústia e indignação. Então sim, os realizadores conseguiram o efeito desejado. Mas, da minha parte, de quem gosta de uma narrativa menos redundante, eu preferia um pouco menos de repetição nesta parte do filme.

Cada um dos seis garotos e garotas que é torturado pelos policiais passa pelo mesmo “modus operandi”. Eles são questionados de forma violenta e ameaçadora quando estão em grupo e, depois, levados individualmente para um cômodo do motel para passarem por uma simulação de morte. (SPOILER – não leia se… bem, você já sabe). O problema é que um deles realmente é morto por um policial menos “ligado” na “psicologia” que está sendo usada naquela noite. Mas este não é o problema principal.

O policial Krauss, que realmente não se acha racista e acredita que apenas está “fazendo o seu trabalho”, não pensa duas vezes em matar duas pessoas desarmadas naquela noite. Logo na chegada dos policiais, ele atira para matar – e mais uma vez pelas costas – Carl. Depois, e esta é a uma das sequências mais cruéis do filme, ele mata o jovem Fred (Jacob Latimore), o último a ser solto e o único que não concorda em ficar quieto frente ao absurdo que ele presenciou. Krauss mata ele como se eliminasse a um inseto. É de arrepiar.

Então sim, Detroit tem ótimas sequências e uma narrativa franca que faz qualquer um ficar perplexo com a força que um absurdo como o racismo pode tomar tendo as condições certas para existir e se proliferar. Por outro lado, o filme tem algumas sequências repetitivas e outras que não agregam grande valor para a história – como o “chá de cadeira” que Krauss leva após fazer a sua primeira vítima, algumas sequências dele com outros policiais e, principalmente, grandes sequências que mostram The Dramatics e aquela cena musical da época.

Para mim, as melhores sequências do filme são aquelas que mostram a cidade de Detroit convulsionada, assim como a impactante ação da polícia e do Exército para reprimir o que está acontecendo. Também são marcantes as cenas dos crimes cometidos pelos policiais – representados, neste filme, pela figura de Krauss. Mas esta produção tem alguns pequenos defeitos que incomodam um pouco.

Para começar, não achei positivo o filme mostrar apenas um grande “vilão”. Até parece que apenas um sujeito “fora da curva” como Krauss é que foi responsável por grande parte do drama que vemos em cena. Sabemos que não foi assim. Vários policiais em 1967 e vários policiais hoje em dia nos Estados Unidos seguem tratando negros de forma diferente do que tratam os brancos como eles. Então não acho que ajuda a narrativa “resumir” boa parte destas figuras em apenas um personagem.

Depois, como eu disse antes, acho que o filme dedica tempo demais para questões secundárias daquela época, como o cenário musical e o grupo The Dramatics. Ok mostrar um pouco disso para apresentar um quadro mais completo da época, mas acho que a narrativa gasta tempo demais nestas partes. Também acho que o filme poderia ter condensado algumas narrativas paralelas, como os “bastidores” da polícia e até mesmo a repetição de fatos que acontecem no hotel.

Detroit é um filme importante e necessário. Toca em um tema que vale ser mostrado e debatido. A direção é bem feita, mas o roteiro podia ser um pouco mais objetivo e envolvente. No fim das contas, apesar de nos apresentar alguns personagens interessantes, não nos aprofundamos na vida de nenhum deles, além da história se distrair com pontos que não são muito relevantes para a história. Um bom filme, mas abaixo dos últimos que vimos da diretora.

NOTA: 8,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Eu já estou de olho no Oscar 2018, meus bons amigos e amigas do blog. Vocês que me acompanham há mais tempo, sabem que eu não acho o Oscar algo fundamental ou realmente o melhor critério para definir um filme que seja bom. Sabemos que tem um peso muito grande no Oscar o lobby e os interesses da indústria cinematográfica de Hollywood – que, afinal, promove esta “festa” e premiação. Mas o que eu acho importante no Oscar é a seleção que esta premiação nos apresenta – especialmente na fase atual, em que são divulgadas listas enormes de produções que estão “habilitadas” para chegar até a premiação.

Digo isso porque vocês vão ver, pouco a pouco, eu comentando bastante sobre produções que eu acho que tem ou não chance de serem indicados ao Oscar. Detroit é um filme que teria predicados para chegar lá – uma diretora que já ganhou uma estatueta, um roteirista que também já foi premiado -, mas que, francamente, acho que não terá fôlego para tanto. Quer dizer, tudo depende da qualidade dos concorrentes deste ano. Mas olhando de “longe” para a premiação, acho que Detroit não conseguirá ser indicado. Talvez consiga emplacar a indicação a alguma categoria técnica, como Melhor Design de Produção ou Melhor Edição. Veremos.

Gostei, em especial, dos cartazes de Detroit. Neles a gente lê “Detroit. This is America”. Soco no estômago. Importante e necessário. E que este filme sirva de tema de debate dentro e fora dos Estados Unidos. Já passou da hora. E serve para nós, no Brasil, que precisaríamos discutir o preconceito racial, contra as mulheres e tantas outras formas de abuso e violência cotidiana.

Da parte técnica do filme, sem dúvida alguma a direção de Kathryn Bigelow e a reconstrução dos detalhes da época feito pela equipe que a diretora escolheu são os pontos fortes de Detroit. Merecem elogios o diretor de fotografia Barry Ackroyd; a edição de William Goldenberg e de Harry Yoon; o design de produção de Jeremy Hindle; a equipe de 63 profissionais envolvidos com o departamento de arte, responsáveis por reconstruir a Detroit de 1967; os 22 profissionais envolvidos com o Departamento de Som; e os 43 profissionais responsáveis pelos Efeitos Visuais do filme.

Do elenco, poucos nomes acabam tendo destaque porque Detroit tem, na verdade, uma profusão de personagens. O roteiro de Mark Boal realmente não se aprofunda na história de nenhum deles. Como não temos o contexto das vidas dos personagens, poucos realmente chamam a atenção. Assim, do elenco, chamam mais a atenção por terem mais espaço em cena para demonstrar o seu trabalho os atores John Boyega, que interpreta a Dismukes, um segurança negro que se vê envolvido na situação dos crimes no motel; Will Poulter como o policial branco racista e assassino Krauss; Algee Smith como Larry, uma das lideranças da banda The Dramatics e que muda radicalmente de vida após a noite no motel; e Jacob Latimore como Fred, uma das vítimas daquela noite no motel e que se destaca, realmente, ao confrontar ao personagem de Krauss.

Além deles, vários outros atores fazem parte deste filme, mas em papéis menos expressivos. Ainda assim, vale citá-los. Até porque cada um deles tem algum momento de destaque na narrativa: Jason Mitchell como Carl; Hannah Murray como Julie; Jack Reynor como o policial Demens; Ben O’Toole como o policial Flynn; Kaitlyn Dever como Karen; John Krasinski como o advogado que defende os policiais Auerbach; Anthony Mackie como Greene; Nathan Davis Jr. como Aubrey; Gbenga Akinnagbe como Aubrey Pollard Sr.; Tyler James Williams como Leon; e Austin Hébert como o oficial Roberts.

Detroit estreou em première no dia 25 de julho na cidade que dá nome ao filme. Três dias depois o filme entrou em cartaz nos Estados Unidos, mas ainda em poucas cópias – um dia após o “aniversário” de 50 anos do início da revolta em Detroit -, estreando para valer no país e no Canadá no dia 4 de agosto. No Brasil, ele estreou no dia 6 de outubro no Festival Internacional de Cinema do Rio de Janeiro, chegando ao circuito comercial apenas no dia 12 de agosto. Eu assisti ao filme há umas duas semanas, por isso não lembro de todos os detalhes dele. 😉 Mas do essencial eu me lembrei.

Esta produção custou uma pequena fortuna: US$ 34 milhões. Nos Estados Unidos, o filme fez pouco quase US$ 16,8 milhões até o dia 28 de julho. Pouco, hein? Ainda que a produção consiga uma bilheteria boa fora dos Estados Unidos, dificilmente o filme vai conseguir se pagar.

Agora, algumas curiosidades sobre esta produção. Detroit foi filmado seguindo o estilo que Kathryn Bigelow adotou em The Hurt Locker. Ou seja, diversas sequências da produção tinham três ou quatro câmeras rodando ao mesmo tempo, e próximas dos atores, para dar aquela sensação de “história acontecendo sob nossos olhos”. A diretora gosta de trabalhar com atores que podem improvisar e não faz ensaios em que eles tenham pouca possibilidade de movimentação. Pelo contrário. Ela também prefere acompanhar os atores de perto, mas sem bloquear as suas possibilidades de movimento. E isso nós vemos bem em Detroit.

O ator John Boyega teve a oportunidade de conhecer pessoalmente a um dos sobreviventes daquela cena do motel, Melvin Dismukes, que ele retrata nesta produção. Outro ator que está nesta produção, Algee Smith, que interpreta a Larry, da banda The Dramatics, compôs a canção Grow, que ouvimos no filme, e que é interpretada por Smith e Reed.

Grande parte da produção e toda a sequência de Argel foram rodadas em ordem cronológica.

Detroit foi rodado nas cidades de Mason, Detroit, ambas no Michigan; em Brockton, Lawrence, Boston e Lynn, todas em Massachusetts.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,6 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 178 críticas positivas e 38 negativas para o filme, o que garante para Detroit uma aprovação de 82% e uma nota média de 7,5. A nota dos dois sites é muito boa, levando em conta os padrões dos dois lugares que reúnem críticas do público e da crítica. Ou seja, Kathryn Bigelow agradou a ambos. Da minha parte, como disse antes, eu gostei, mas não tanto quanto eu achei que gostaria.

Esta é uma produção 100% dos Estados Unidos. Por isso, o filme passa a integrar a lista de produções que atendem a uma votação feita há tempos aqui no blog. Até o momento Detroit não recebeu nenhum prêmio.

Achei algumas reportagens interessantes que mostram o quanto o filme Detroit é ou não fiel ao que realmente aconteceu na cidade de Detroit em 1967. Entre outros artigos que vale conferir, destaco este do site History vs Hollywood; este outro da revista Time; mais este texto do site The Wrap e esta outra reportagem do The Detroit News. No fim das contas, o filme de Kathryn Bigelow adotou uma série de “licenças poéticas”, como se pode notar por estas reportagens. Mais um fator que deve tornar as chances desta produção no Oscar pequenas.

CONCLUSÃO: Eu gosto da diretora Kathryn Bigelow. Ela tem estilo, tem assinatura, e gosta de temas importantes/relevantes. Não é diferente com este Detroit. Novamente ela assume o seu estilo de direção um tanto “documentarista” para nos contar uma história importante para os americanos, em especial. O filme é bem feito, tecnicamente falando, e toca em temas importantes. Mas achei o desenvolvimento da história um tanto lento, em algumas partes, e a produção longa demais. Sim, a longa sequência no hotel, que parece não ter fim, é para nos causar angústia. Algo que a diretora consegue. Kathryn Bigelow entrega mais um bom filme, mas nada além do mediano. Não é o seu melhor trabalho, mas vale conferir.