Detroit – Detroit em Rebelião

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É impressionante quando a pressão extrapola qualquer barreira e a convulsão social acontece. Para tudo nessa vida existe limite. Ao assistir a Detroit, percebemos um exemplo contundente de reação contra décadas, séculos de abusos, preconceito racial e violência. E o que impacta tanto quanto assistir ao que aconteceu nesta cidade norte-americana há 50 anos, é pensar que hoje em dia, tanto tempo depois, muito da motivação do “levante popular” continua válido. Sim, nós avançamos alguns milímetros em algumas direções, mas em outras… parece que custamos a sair do lugar.

A HISTÓRIA: Começa com uma animação que explica parte das mudanças na sociedade americana. Eles comentam, por exemplo, como houve uma grande migração antes da 1ª Guerra Mundial, com muitos negros indo da região Sul para o Norte dos Estados Unidos. Eles acabam morando nas periferias das cidades, onde começam a dividir espaço com brancos que trabalham nas fábricas.

Nos anos 1960, a tensão racial atinge o seu auge, especialmente porque os negros percebem que a ideia de igualdade de oportunidades entre eles e os brancos não passa de ilusão. A mudança então parece ser inevitável. A única questão é quando e como ela vai acontecer. A partir daí, a história mostra como a panela de pressão estoura e o que acontece a partir de então em um Detroit convulsionada.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Detroit): Eu gosto muito da diretora Kathryn Bigelow. Ela é um (ainda) raro caso de diretora que conseguiu conquistar com muito talento e obstinação o seu espaço de respeito em Hollywood, um local dominado por homens na direção. Kathryn conhece muito bem o seu ofício, e a cada filme ela demonstra isso com suavidade e competência, sem apostar em pirotecnia ou em exibicionismos.

Desde que lançou o ótimo The Hurt Locker, filme comentado aqui e que garantiu para ela duas estatuetas do Oscar na prateleira – uma como Melhor Filme, já que ela foi uma das produtoras da produção, e outro como Melhor Diretora -, Kathryn parece ter abraçado temas importantes para os Estados Unidos e para boa parte do mundo. The Hurt Locker fala sobre os efeitos nocivos de uma guerra “contra o terror” que parecem um tanto invisíveis e menos óbvios.

Depois, ela nos apresentou o interessante e denso Zero Dark Thirty, comentado neste texto aqui no blog. Novamente o tema era importante, o combate ao terrorismo, os seus personagens e os seus efeitos. Ou seja, entre 2010 e 2012, Kathryn nos apresentou dois filmes marcantes, ambos caracterizados por um estilo um tanto “documentarista”. De 2012 e até agora, ela havia dirigido apenas a dois curtas. Até que em 2017 ela nos apresenta Detroit, um filme que curiosamente trata sobre conflitos, mas totalmente de outra espécie.

Desta vez os inimigos não estão fora dos Estados Unidos. O perigo, o medo, a repressão e a covardia não estão longe, mas “dentro de casa”. O estilo de direção, contudo, segue o mesmo. Kathryn dá mais uma demonstração de que entende muito de cinema ao transformar a reconstituição de fatos reais em uma narrativa que lembra a de um documentário. A câmera dela se movimenta com bastante frequência, buscando reproduzir a agitação daqueles dias de convulsão social.

O tema do filme é interessante, especialmente porque os Estados Unidos tem dificuldade, na maioria das vezes, em falar de seus próprios demônios. Com muita frequência vemos ao cinema de Hollywood tratando dos “inimigos estrangeiros”, dos “bárbaros” que precisam ser combatidos de forma heroica longe de casa. Também vemos a alguns filmes humanos, demasiados humanos, sobre conflitos e dramas pessoais – mas menos do que podemos conferir no cinema europeu.

Agora, não são tão frequentes, ao menos nas últimas duas décadas, os filmes que tratam sobre os próprios problemas criados nos Estados Unidos. Sem, existem exceções à regra. Mas, no geral, o cinema de Hollywood não gosta muito de olhar para dentro de suas fronteiras. Talvez Kathryn tenha percebido isso e tenha pensado e se perguntado, diante de uma nova onda de violência policial contra negros dentro do país e a consequente revolta que isso despertou, que tipo de história ela poderia contar?

Sim, ela poderia ter focado em algum caso recente de violência policial e de morte de negros inocentes. Mas mais forte do que contar uma história recente, ainda passível de discussões e de interpretações, foi a escolha dela por voltar atrás espantosos 50 anos e mostrar que pouco avançamos desde então. A narrativa é bem feita, e algumas cenas são de arrepiar. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). A primeira vítima do policial Krauss (Will Poulter), o cidadão que foi fazer compras, que corre quando vê policiais brancos armados vindo na direção dele e que é acertado pelas costas, é um grande exemplo do que acontecia na cidade convulsionada de Detroit em 1967.

Quando vemos aquela cena, maravilhosamente conduzida por Kathryn, ficamos chocados e arrepiados. E outras sequências produzem o mesmo efeito. Sim, dá para entender a revolta dos negros que vemos em cena, mas também nos perguntamos sobre como pode terminar uma situação como aquela. O caos reinante pode ter fim sem a geração de mais violência? Eu acredito que sim. Mas que nada se resolve com mais repressão e mais violência. Impressionante a cena, por exemplo, de um tanque de guerra patrulhando as ruas e disparando contra um prédio.

Detroit tem várias cenas marcantes. Estas duas que eu citei são dois bons exemplos da força a história contada pela diretora Kathryn Bigelow e com roteiro de Mark Boal. Mas… um dos problemas da produção é que ela é longa demais. Detroit tem 2h23min de duração. Hoje, mais do que antes, acho que poucos filmes merecem ter mais de 2h… a maioria poderia ter, inclusive, 1h30min de duração. Sendo assim, não. Não há necessidade de Detroit ser tão longo. Existem alguns elementos da produção que poderiam ser perfeitamente “enxugados” para tornar a narrativa mais cadenciada.

Entre várias outras sequências e fatos narrados na produção, sem dúvida o que ocupa o maior espaço no roteiro e no tempo do que vemos em tela é a sequência envolvendo o Motel Algiers em que parte dos amigos cantores do grupo The Dramatics vai se refugiar após mais uma noite tensa em Detroit. Aquele parecia ser um lugar seguro para eles ficarem até o toque de recolher passar, mas eles não sabiam que, ali, encontrariam pessoas sem noção do perigo como Carl (Jason Mitchell) que, com uma arma sem poder letal, acaba fazendo um disparo que desencadeia uma série de fatos trágicos.

Aquela sequência do motel é longa demais e parece não ter fim. A narrativa é contada em detalhes. Imagino que esta foi a intenção da diretora e do roteirista, contar os fatos minuciosamente e fazer o espectador vivenciar aquela sensação de terror sem fim. A sequência provoca angústia e indignação. Então sim, os realizadores conseguiram o efeito desejado. Mas, da minha parte, de quem gosta de uma narrativa menos redundante, eu preferia um pouco menos de repetição nesta parte do filme.

Cada um dos seis garotos e garotas que é torturado pelos policiais passa pelo mesmo “modus operandi”. Eles são questionados de forma violenta e ameaçadora quando estão em grupo e, depois, levados individualmente para um cômodo do motel para passarem por uma simulação de morte. (SPOILER – não leia se… bem, você já sabe). O problema é que um deles realmente é morto por um policial menos “ligado” na “psicologia” que está sendo usada naquela noite. Mas este não é o problema principal.

O policial Krauss, que realmente não se acha racista e acredita que apenas está “fazendo o seu trabalho”, não pensa duas vezes em matar duas pessoas desarmadas naquela noite. Logo na chegada dos policiais, ele atira para matar – e mais uma vez pelas costas – Carl. Depois, e esta é a uma das sequências mais cruéis do filme, ele mata o jovem Fred (Jacob Latimore), o último a ser solto e o único que não concorda em ficar quieto frente ao absurdo que ele presenciou. Krauss mata ele como se eliminasse a um inseto. É de arrepiar.

Então sim, Detroit tem ótimas sequências e uma narrativa franca que faz qualquer um ficar perplexo com a força que um absurdo como o racismo pode tomar tendo as condições certas para existir e se proliferar. Por outro lado, o filme tem algumas sequências repetitivas e outras que não agregam grande valor para a história – como o “chá de cadeira” que Krauss leva após fazer a sua primeira vítima, algumas sequências dele com outros policiais e, principalmente, grandes sequências que mostram The Dramatics e aquela cena musical da época.

Para mim, as melhores sequências do filme são aquelas que mostram a cidade de Detroit convulsionada, assim como a impactante ação da polícia e do Exército para reprimir o que está acontecendo. Também são marcantes as cenas dos crimes cometidos pelos policiais – representados, neste filme, pela figura de Krauss. Mas esta produção tem alguns pequenos defeitos que incomodam um pouco.

Para começar, não achei positivo o filme mostrar apenas um grande “vilão”. Até parece que apenas um sujeito “fora da curva” como Krauss é que foi responsável por grande parte do drama que vemos em cena. Sabemos que não foi assim. Vários policiais em 1967 e vários policiais hoje em dia nos Estados Unidos seguem tratando negros de forma diferente do que tratam os brancos como eles. Então não acho que ajuda a narrativa “resumir” boa parte destas figuras em apenas um personagem.

Depois, como eu disse antes, acho que o filme dedica tempo demais para questões secundárias daquela época, como o cenário musical e o grupo The Dramatics. Ok mostrar um pouco disso para apresentar um quadro mais completo da época, mas acho que a narrativa gasta tempo demais nestas partes. Também acho que o filme poderia ter condensado algumas narrativas paralelas, como os “bastidores” da polícia e até mesmo a repetição de fatos que acontecem no hotel.

Detroit é um filme importante e necessário. Toca em um tema que vale ser mostrado e debatido. A direção é bem feita, mas o roteiro podia ser um pouco mais objetivo e envolvente. No fim das contas, apesar de nos apresentar alguns personagens interessantes, não nos aprofundamos na vida de nenhum deles, além da história se distrair com pontos que não são muito relevantes para a história. Um bom filme, mas abaixo dos últimos que vimos da diretora.

NOTA: 8,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Eu já estou de olho no Oscar 2018, meus bons amigos e amigas do blog. Vocês que me acompanham há mais tempo, sabem que eu não acho o Oscar algo fundamental ou realmente o melhor critério para definir um filme que seja bom. Sabemos que tem um peso muito grande no Oscar o lobby e os interesses da indústria cinematográfica de Hollywood – que, afinal, promove esta “festa” e premiação. Mas o que eu acho importante no Oscar é a seleção que esta premiação nos apresenta – especialmente na fase atual, em que são divulgadas listas enormes de produções que estão “habilitadas” para chegar até a premiação.

Digo isso porque vocês vão ver, pouco a pouco, eu comentando bastante sobre produções que eu acho que tem ou não chance de serem indicados ao Oscar. Detroit é um filme que teria predicados para chegar lá – uma diretora que já ganhou uma estatueta, um roteirista que também já foi premiado -, mas que, francamente, acho que não terá fôlego para tanto. Quer dizer, tudo depende da qualidade dos concorrentes deste ano. Mas olhando de “longe” para a premiação, acho que Detroit não conseguirá ser indicado. Talvez consiga emplacar a indicação a alguma categoria técnica, como Melhor Design de Produção ou Melhor Edição. Veremos.

Gostei, em especial, dos cartazes de Detroit. Neles a gente lê “Detroit. This is America”. Soco no estômago. Importante e necessário. E que este filme sirva de tema de debate dentro e fora dos Estados Unidos. Já passou da hora. E serve para nós, no Brasil, que precisaríamos discutir o preconceito racial, contra as mulheres e tantas outras formas de abuso e violência cotidiana.

Da parte técnica do filme, sem dúvida alguma a direção de Kathryn Bigelow e a reconstrução dos detalhes da época feito pela equipe que a diretora escolheu são os pontos fortes de Detroit. Merecem elogios o diretor de fotografia Barry Ackroyd; a edição de William Goldenberg e de Harry Yoon; o design de produção de Jeremy Hindle; a equipe de 63 profissionais envolvidos com o departamento de arte, responsáveis por reconstruir a Detroit de 1967; os 22 profissionais envolvidos com o Departamento de Som; e os 43 profissionais responsáveis pelos Efeitos Visuais do filme.

Do elenco, poucos nomes acabam tendo destaque porque Detroit tem, na verdade, uma profusão de personagens. O roteiro de Mark Boal realmente não se aprofunda na história de nenhum deles. Como não temos o contexto das vidas dos personagens, poucos realmente chamam a atenção. Assim, do elenco, chamam mais a atenção por terem mais espaço em cena para demonstrar o seu trabalho os atores John Boyega, que interpreta a Dismukes, um segurança negro que se vê envolvido na situação dos crimes no motel; Will Poulter como o policial branco racista e assassino Krauss; Algee Smith como Larry, uma das lideranças da banda The Dramatics e que muda radicalmente de vida após a noite no motel; e Jacob Latimore como Fred, uma das vítimas daquela noite no motel e que se destaca, realmente, ao confrontar ao personagem de Krauss.

Além deles, vários outros atores fazem parte deste filme, mas em papéis menos expressivos. Ainda assim, vale citá-los. Até porque cada um deles tem algum momento de destaque na narrativa: Jason Mitchell como Carl; Hannah Murray como Julie; Jack Reynor como o policial Demens; Ben O’Toole como o policial Flynn; Kaitlyn Dever como Karen; John Krasinski como o advogado que defende os policiais Auerbach; Anthony Mackie como Greene; Nathan Davis Jr. como Aubrey; Gbenga Akinnagbe como Aubrey Pollard Sr.; Tyler James Williams como Leon; e Austin Hébert como o oficial Roberts.

Detroit estreou em première no dia 25 de julho na cidade que dá nome ao filme. Três dias depois o filme entrou em cartaz nos Estados Unidos, mas ainda em poucas cópias – um dia após o “aniversário” de 50 anos do início da revolta em Detroit -, estreando para valer no país e no Canadá no dia 4 de agosto. No Brasil, ele estreou no dia 6 de outubro no Festival Internacional de Cinema do Rio de Janeiro, chegando ao circuito comercial apenas no dia 12 de agosto. Eu assisti ao filme há umas duas semanas, por isso não lembro de todos os detalhes dele. 😉 Mas do essencial eu me lembrei.

Esta produção custou uma pequena fortuna: US$ 34 milhões. Nos Estados Unidos, o filme fez pouco quase US$ 16,8 milhões até o dia 28 de julho. Pouco, hein? Ainda que a produção consiga uma bilheteria boa fora dos Estados Unidos, dificilmente o filme vai conseguir se pagar.

Agora, algumas curiosidades sobre esta produção. Detroit foi filmado seguindo o estilo que Kathryn Bigelow adotou em The Hurt Locker. Ou seja, diversas sequências da produção tinham três ou quatro câmeras rodando ao mesmo tempo, e próximas dos atores, para dar aquela sensação de “história acontecendo sob nossos olhos”. A diretora gosta de trabalhar com atores que podem improvisar e não faz ensaios em que eles tenham pouca possibilidade de movimentação. Pelo contrário. Ela também prefere acompanhar os atores de perto, mas sem bloquear as suas possibilidades de movimento. E isso nós vemos bem em Detroit.

O ator John Boyega teve a oportunidade de conhecer pessoalmente a um dos sobreviventes daquela cena do motel, Melvin Dismukes, que ele retrata nesta produção. Outro ator que está nesta produção, Algee Smith, que interpreta a Larry, da banda The Dramatics, compôs a canção Grow, que ouvimos no filme, e que é interpretada por Smith e Reed.

Grande parte da produção e toda a sequência de Argel foram rodadas em ordem cronológica.

Detroit foi rodado nas cidades de Mason, Detroit, ambas no Michigan; em Brockton, Lawrence, Boston e Lynn, todas em Massachusetts.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,6 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 178 críticas positivas e 38 negativas para o filme, o que garante para Detroit uma aprovação de 82% e uma nota média de 7,5. A nota dos dois sites é muito boa, levando em conta os padrões dos dois lugares que reúnem críticas do público e da crítica. Ou seja, Kathryn Bigelow agradou a ambos. Da minha parte, como disse antes, eu gostei, mas não tanto quanto eu achei que gostaria.

Esta é uma produção 100% dos Estados Unidos. Por isso, o filme passa a integrar a lista de produções que atendem a uma votação feita há tempos aqui no blog. Até o momento Detroit não recebeu nenhum prêmio.

Achei algumas reportagens interessantes que mostram o quanto o filme Detroit é ou não fiel ao que realmente aconteceu na cidade de Detroit em 1967. Entre outros artigos que vale conferir, destaco este do site History vs Hollywood; este outro da revista Time; mais este texto do site The Wrap e esta outra reportagem do The Detroit News. No fim das contas, o filme de Kathryn Bigelow adotou uma série de “licenças poéticas”, como se pode notar por estas reportagens. Mais um fator que deve tornar as chances desta produção no Oscar pequenas.

CONCLUSÃO: Eu gosto da diretora Kathryn Bigelow. Ela tem estilo, tem assinatura, e gosta de temas importantes/relevantes. Não é diferente com este Detroit. Novamente ela assume o seu estilo de direção um tanto “documentarista” para nos contar uma história importante para os americanos, em especial. O filme é bem feito, tecnicamente falando, e toca em temas importantes. Mas achei o desenvolvimento da história um tanto lento, em algumas partes, e a produção longa demais. Sim, a longa sequência no hotel, que parece não ter fim, é para nos causar angústia. Algo que a diretora consegue. Kathryn Bigelow entrega mais um bom filme, mas nada além do mediano. Não é o seu melhor trabalho, mas vale conferir.

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Cartel Land

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É sempre perigoso quando a sociedade se cansa da ineficiência governamental e resolve, por sua própria conta, tomar as armas. A justiça feita pelas próprias mãos é perigosa, não apenas porque ela pode fugir do controle, mas também porque ela pode se tornar injustiça. Cartel Land trata de dois movimentos civis de tomada de armas para tentar resolver uma questão cada vez mais complicada na relação México e Estados Unidos: a força dos cartéis de drogas. Um tema importante, muito atual e assustador.

A HISTÓRIA: Durante a noite, um veículo se aproxima em meio ao breu. Dois homens abrem a parte de trás da caminhonete e retiram tonéis de um dos ingredientes utilizados para fazer metanfetamina. O líder do grupo fala que eles são os maiores e melhores produtores da droga em Mochoacán, no México, e que a maior parte da mercadoria vai para os Estados Unidos. Ele diz que sabe o mal que a droga fará nos Estados Unidos, mas que eles são pobres e que devem fazer um bom serviço para que, como a equipe de filmagem, eles possam viajar o mundo. Eles preparam a droga para as câmeras.

Todos os homens estão armados, e o líder diz que eles vão continuar fabricando drogas, e cada vez mais, até quando Deus permitir. Corta. De dia, a Polícia Federal apreende drogas. Depois, vemos a cerca montada na fronteira do México com os Estados Unidos. Do lado do Altar Valley, no Arizona, Tim “Nailer” Foley fala sobre o trabalho que ele e outras pessoas estão fazendo de combater os cartéis mexicanos na fronteira com os Estados Unidos. Depois, vamos ver os mesmos grupos de civis se insurgindo contra os cartéis no México.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Cartel Land): O tema levantado por este filme é muito importante. Especialmente porque a essência da discussão serve para diferentes realidades. Tudo bem que um tema central da história são os cartéis mexicanos, produtores e abastecedores de drogas para o grande mercado consumidor dos Estados Unidos. Mas, para mim, um tema fundamental nesta história é a tomada em armas da população. Cansada de esperar por medidas dos governos, essa população resolve fazer justiça por conta própria.

Francamente, vejo cada vez mais este movimento na sociedade. Volta e meia sabemos de pessoas que resolvem fazer justiça pelas próprias mãos, agredindo, combatendo e muitas vezes matando os criminosos nas cidades. A questão é complicada e não resulta em uma resposta simples. Francamente eu entendo as pessoas que estão fartas de injustiça e resolvem se organizar para combater a violência. Não dá para aceitar 13 pessoas de uma mesma família, incluindo trabalhadores e crianças, serem mortas por um cartel porque eles não receberam o dinheiro que eles tinham exigido do empregador daquelas famílias.

Mas o problema é que quando as pessoas se unem para fazer justiça pela sua conta, nunca sabemos aonde o espiral da violência vai parar. Cartel Land é até singelo ao tratar deste assunto. Afinal, depois que a população expulsava e/ou capturava as pessoas dos cartéis, o que se fazia com elas? Algumas cenas mostram a polícia federal ou local intervindo e levando os criminosos presos. Mas e nas outras situações? A população prendia ou matava os traficantes? Isso não fica claro no filme, o que é uma das deficiências da produção.

Aonde eu quero chegar é que sempre que você combate alguma realidade absurda, sempre que você enfrenta um criminoso, você deve saber o que fará com ele depois. Se for para prendê-lo, é preciso estrutura para isso e recursos para mantê-lo encarcerado. Se for para matá-lo, a questão é mais complicada. Afinal, quem te deu o direito de tirar uma vida? E mesmo que a pessoa seja culpada por outras mortes e você aplique o “olho por olho”, é bem provável que a violência não termine ali. Afinal, estamos falando de cartéis, ou seja, de grupos organizados de pessoas violentas e capazes de tudo. A chance será grande da represália ser pior e da disputa virar quase uma guerra civil.

Quando se começa um movimento como esse, é difícil saber aonde a história pode parar. Ainda assim, admito, dá para entender as razões que fazem as pessoas perderem a paciência. Todos sabemos, e isso é um fato conhecido, que boa parte da polícia – afinal, não vamos generalizar – mexicana é corrupta. O mesmo acontece com o Exército. E há corrupção também na fronteira dos Estados Unidos. Então as “autoridades” fecham os olhos para os traficantes e/ou são compradas por eles. Não dá para esperar que eles façam o trabalho de combater realmente os cartéis.

Então o que fazer neste cenário, com cada vez mais notícias de mortes nas famílias e na vizinhança? O médico José Manuel “El Doctor” Mireles responde a questão em Cartel Land. O filme dirigido com muito talento e cuidado por Matthew Heineman mostra como Mireles e outras pessoas se reuniram na comunidade para começar o levante popular que criou uma força de segurança cidadã. As pessoas, na prática, pegaram armas, colocaram camisetas identificando o grupo e partiram para cima dos traficantes, expulsando eles dos povoados e das cidades.

Francamente, isso pode até funcionar por um tempo em cidades com poucos habitantes. Mas você já imaginou isso funcionando nos grandes centros urbanos? (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Além disso, e neste ponto Cartel Land acerta na mosca, é uma questão de tempo para as boas intenções serem desviadas. Afinal, estamos falando de pessoas, e a sociedade, todos sabemos, é corrupta. Em algum momento alguém vai pensar mais em si mesmo do que no coletivo e isso é o suficiente para tudo ser desviado do caminho. E é exatamente isso que acontece.

Além disso, claro, há o contramovimento do governo mexicano. Afinal, um país jamais vai admitir que a população tome conta do sistema. Os cidadãos estão aí para votar nos políticos, mas não para se organizarem por conta própria e resolverem os seus problemas diretamente. Porque se isso acontecesse, não precisaríamos de governo, não é mesmo? Então a autoridade central sempre vai usar do argumento de manter a lei e a ordem para controlar movimentos autônomos locais. E isso acontece no caso dos grupos organizados no México.

Depois de criticar em diferentes ocasiões os grupos formados para combater os cartéis, porque eles estariam tentando substituir as forças de segurança estabelecidas, o presidente mexicano Enrique Peña Nieto tem a grande ideia de cooptar aquelas pessoas. Elas deixaram de ser independentes para fazerem parte das forças dos governos. Aí foi ampliada, mais uma vez, a chance deles serem contaminados pela corrupção. Alguns passaram a agir como os próprios cartéis, enquanto outros simplesmente aderiram aos cartéis que eles originalmente estavam combatendo.

Os grupos de cidadãos organizados do lado dos Estados Unidos é menos mostrado em Cartel Land. Acabamos sabendo mais da história de um deles, de Tim “Nailer” Foley. Os demais aparecem e falam pouco. O que há de comum entre os dois lados são pessoas comuns armadas por sua própria conta e risco e a crítica dos governos e da imprensa para estes movimentos de resistência. O diretor Matthew Heineman faz um trabalho corajoso, acompanhando, em muitos momentos, ataques das forças de autodefesa mexicana e tiroteios entre eles e os traficantes. Mas diversas questões ficam em aberto e não são respondidas pelo filme.

Por exemplo, me chamou a atenção, em especial, a ausência de respostas sobre o que era feito com os membros dos cartéis. Depois que eles eram pegos, o que acontecia com eles? E neste tempo todo de difusão das forças de autodefesa mexicanas não houve confrontos mais pesados entre forças de segurança do país, cidadãos e cartéis? Tudo bem que o diretor pode não ter presenciado nenhum grande confronto, mas não existiram notícias a respeito disso na época? Também senti falta de saber o que aqueles grupos faziam com os traficantes.

Um ponto que é levantado, mas acaba não ficando esclarecido, é sobre o acidente de José Manuel “El Doctor” Mireles. Afinal, ele foi vítima de um atentado ou não? Essa questão não fica totalmente clara. Não é bem explorado também de que forma ele se distancia da família – afinal, por boa parte do filme ele parecia ter uma relação muito próxima e bem resolvida com a mulher e os filhos e, na reta final da produção, “do nada”, ele está dando em cima de uma outra garota e deixou a família para trás. O que aconteceu entre um ponto e outro?

Nem sempre um documentarista consegue todas estas respostas diretamente, flagrando as situações. Mas ele tem a capacidade de perguntar. Deveria sempre se colocar no lugar do espectador e fazer as perguntas necessárias para responder as perguntas que ficaram no ar. Ainda que faça um bom trabalho na gravação de várias cenas difíceis, Matthew Heineman parece perguntar pouco. Ele gosta de acompanhar a ação, mas não aprofunda na contextualização. Senti falta disso. Acho que Heineman poderia ter feito mais perguntas, especialmente para os personagens centrais que ele resolve colocar em destaque.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Em certo momento, meio que no meio do filme, El Doctor está em uma operação noturna e quase responde parte destas dúvidas. Ele comenta que, até então, todas as vezes que eles capturavam um traficante, eles entregavam para a polícia federal mas que, depois, eles eram soltos e voltavam a aterrorizar as comunidades. Nestas cenas ele sugere que eles passem a fazer diferente. Fica subentendido que depois de torturar o traficante detido, ele fosse morte. Mas Heineman para de gravar e não termina de mostrar o que acontece. E nem questiona El Doctor sobre isso depois.

Senti falta dele fazer isso. Assuntos podem ficar subentendidos, mas isso não ajuda em um documentário. Afinal, quando não deixas uma situação muito clara, especialmente em um filme como esse, a interpretação pode variar. E isso não é bom. Eu posso entender que as pessoas começaram a matar os criminosos, e isso leva quase a uma guerra civil. Em proporção menor, é verdade, mas nos leva quase a isso. A uma terra sem lei em que quase qualquer um pode ser morto. E alguém tem dúvida que inocentes vão morrer neste processo?

Apesar de ter estas pequenas falhas, especialmente de perguntar pouco, Cartel Land é um filme extremamente necessário. Ele trata de um assunto quente não apenas no México e para os Estados Unidos, mas para outros países que tem o tráfico de drogas como um dos elementos principais de sua realidade cotidiana. A verdade é que aonde há tráfico, há violência e morte. Infelizmente os consumidores, normalmente muito longe do cerne da violência alimentada pelo consumo deles, não percebem a responsabilidade direta que eles tem neste cenário.

Cartel Land nos conta a evolução e os efeitos dos levantes populares contra os cartéis de drogas, mas não se aprofunda na complexidade do tema – até porque seria difícil fazer isso em um filme só. Por isso mesmo devemos encarar este documentário como uma contribuição a mais para o tema, com a necessidade de outros filmes serem feitos para ajudar a costurar a colcha de retalhos sobre o assunto. Produção importante e bem feita.

Só senti falta de saber um pouco mais sobre o movimento de resistência nos Estados Unidos e de saber, por exemplo, que opinião as forças de segurança do México e dos Estados Unidos tem destes grupos populares. Apesar das lacunas deixadas pelo filme, ele é importante por levantar essas questões e por fazer qualquer espectador querer ir atrás de mais informações. Apenas por isso este documentário já merece aplausos.

NOTA: 9,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Para mim a discussão sobre o combate ao tráfico de drogas é muito simples. Não existe fim para a repressão. Seja a polícia, o Exército ou milícias criadas pelas comunidades, qualquer agente deste vai tirar certas figuras de cena para outras entrarem no lugar. Para realmente combater a violência gerada pelo tráfico a única forma para mim é atacar a ponta. Afinal, enquanto houver alguém que queira consumir e comprar a droga que for, haverá alguém vendendo. No mundo ideal ninguém precisaria comprar drogas para fugir da realidade. Mas como vivemos em um mundo caótico e muitas pessoas vão continuar se entorpecendo, talvez a maneira de realmente combater o problema seria legalizar esse consumo. Compra quem quer, e de forma legal.

Outra forma de encarar o problema é a atual, da repressão. Para mim, Cartel Land apenas demonstra que este caminho não tem saída. Teremos sempre uma realidade cíclica feita de corrupção, violência e mortes. E não adianta substituir quem está segurando as armas, colocando a população comum com o dedo no gatilho. Mais cedo ou mais tarde as pessoas vão dar mais espaço para os seus próprios interesses e esquecer o interesse coletivo, alimentando novamente o ciclo da corrupção e da violência.

Por falar nisso, Cartel Land apenas reforça outra opinião que eu tenho há tempos: se você quer mesmo mudar a  realidade em que você vive o melhor caminho não é tentar uma organização paralela ou alternativa, e sim mudar desde “dentro”. A mudança para valer só vai acontecer desta forma, “de dentro”, e não “de fora”. Ou seja, El Doctor, por exemplo, não deveria ter apenas liderado um movimento de organização popular, mas ter estimulado que pessoas comprometidas se candidatassem a cargos públicos. Dentro do governo eles poderiam realmente ter fomentado a mudança. Afinal, toda vez que prendessem alguém e repassem o criminoso para a polícia federal, estas pessoas continuariam presas e não seriam libertadas, por exemplo. E toda vez que alguém fosse comprado para facilitar fugas e similares, estas pessoas deveriam ser julgadas com rigidez. É uma forma.

Se por um lado Cartel Land não responde a diversas perguntas porque simplesmente não as formula, por outro lado o documentário acerta ao mostrar a complexidade de alguns personagens. El Doctor, em especial, é visto de uma forma mais completa. E isso é positivo. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Ao mesmo tempo que ele parece ser um cara honesto, simples, que defende que os povoados estabeleçam os seus conselhos cidadãos para que o controle seja comunitário, mais direto e menos suscetível à corrupção e aos crimes – porque ele não quer que o movimento seja “manchado” -, ele também é o sujeito que é infiel com a mulher e que acaba se afastando da família. Então o filme não o torna um herói, destes irretocáveis e sem nenhum defeito. Não. Ele aparece com certa complexidade, o que é positivo. Só o filme nos deixa com vontade de “quero mais”. Gostaríamos de saber mais sobre ele e sobre os movimentos de autodefesa.

O grande mérito deste filme é, sem dúvida, do diretor Matthew Heineman. Ele faz um grande trabalho para contar esta história da maneira mais completa possível. Como o tema é apaixonante e amplo, claro que alguns pontos ficam a desejar. Mas é preciso aplaudir as cenas corajosas que ele faz, muitas vezes na linha de frente do combate aos cartéis. Além disso, ele consegue entrevistar alguns dos criminosos, o que acaba sendo importante para entender aquele contexto e o intricado que é conseguir uma solução para o problema.

Logo nos créditos do filme um nome me chamou a atenção. O de Kathryn Bigelow como uma das produtoras executivas do filme. Kathryn Bigelow, para quem não lembra, ganhou dois Oscar pelo filme The Hurt Locker (comentado aqui no blog) em 2010 – Melhor Filme e Melhor Diretora. Três anos depois ela foi indicada por Zero Dark Thirty (com crítica neste link). Dois filmes importantes. Aliás, Bigelow é uma figura que merece ser acompanhada porque ela faz boas escolhas – incluindo produzir este documentário.

Da parte técnica do filme, merecem destaque o trabalho dos diretores de fotografia Matthew Heineman e Matt Porwoll. Em um documentário, normalmente, os diretores de fotografia são responsáveis pelas cenas que vemos na produção. Heineman e Porwoll fazem um grande trabalho de captação de imagens em Cartel Land. Também é muito bom o trabalho de edição de Heineman, Matthew Hamachek, Bradley J. Ross e Pax Wassermann. As imagens, no caso de Cartel Land, são muito eloquentes. Mas vale citar também o bom trabalho complementar da trilha sonora assinada por Jackson Greenberg e H. Scott Salinas.

Cartel Land estreou em janeiro de 2015 no Festival de Cinema de Sundance. Depois o filme participaria, ainda, de outros 29 festivais. Nesta trajetória este documentário conquistou 11 prêmios e foi indicado a outros 31 – incluindo a indicação para o Oscar de Melhor Documentário. Entre os prêmios que recebeu, destaque para dois conquistados no Festival de Cinema de Sundance: um prêmio de Direção e outro de Direção de Fotografia.

O festival de Sundance destacou, ao dar o prêmio de Melhor Direção para Matthew Heineman: “Para um cineasta que teve a coragem de perseguir uma história que se desenvolveu com complexidade inesperada. Sua mão confiante nos leva a um mundo onde vemos tanta brutalidade e graça”. Ao conferir o prêmio de Melhor Direção de Fotografia para Heinemann e Matt Porwoll o festival de Sundance afirmou: “Os riscos de um documentarista com uma câmera em sua frente são físicos, emocionais e éticos. Estes cineastas navegaram por tudo, nos permitindo preocupar-nos profundamente com as pessoas, criando imagens que nos impulsionam através de uma paisagem de pesadelos”.

Agora, uma curiosidade de bastidores desta história: em Cartel Land aparece o momento em que o grupo de “autodefesa” comemorou um ano do movimento social em 24 de fevereiro de 2014. Naquele mesmo dia a revista Time publicou um artigo com o presidente do México, Enrique Peña Nieto intitulado “Saving Mexico” (Salvando o México). Nieto teria pago US$ 44 mil para a Time publicar aquele artigo no exato dia em que os “autodefesas” estavam celebrando um ano de atividades no México.

Esse filme fez um roteiro, até agora, mais de festivais do que de cinemas. Nos Estados Unidos o filme fez pouco mais de US$ 704 mil nas bilheterias. Nos outros mercados em que estreou, de forma bem limitada ainda, ele conseguiu mais US$ 421,7 mil. No total, pouco mais de US$ 1,1 milhão. Pouco visto até agora, infelizmente. Espero que com a indicação do filme ao Oscar ele consiga melhorar na distribuição.

O diretor Matthew Heineman tem quatro títulos no currículo como diretor. Ele estreou com o curta em vídeo documentário Overcoming the Storm, de 2006. O primeiro longa em documentário viria três anos depois: Our Time. Antes de Cartel Land ele lançou o documentário Escape Fire: The Fight to Rescue American Healthcare, em 2012. Vale a pena acompanhar a trajetória dele. Fiquemos de olho. 😉

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,4 para esta produção. Ainda que seja uma avaliação boa, levando em conta o padrão do site, acho que o filme merecia uma avaliação um pouco melhor. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 79 críticas positivas e nove negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 90% e uma nota média de 7,8.

A situação no México é complicadíssima. Ainda que o país tenha crescido nos últimos anos, melhorando a sua economia e recebendo investimentos, a questão dos cartéis é algo gravíssimo e menos explorada pela mídia internacional do que deveria. Encontrei algumas matérias recentes e interessantes a respeito. Indico esta, sobre um sujeito responsável por “desaparecer” com pessoas a mando de um cartel; esta outra que trata de uma vala comum para 105 vítimas e a investigação de oficiais de segurança locais; e esta matéria sobre um ano do desaparecimento de 43 estudantes em Guerrero, uma das poucas histórias vindas do México relacionada com os cartéis, com a polícia e outras autoridades locais corruptas que realmente ganhou projeção mundial.

Sobre José Manuel “El Doctor” Mirales encontrei esta reportagem que trata das milícias no México e mais esta série de matérias do jornal El País sobre o líder comunitário.

Esta é uma coprodução do México e dos Estados Unidos.

CONCLUSÃO: Um filme necessário e surpreendente. Cartel Land nos mostra uma história e ao mesmo tempo fatos novos e que são pouco difundidos fora das fronteiras dos Estados Unidos e do México. A história conhecida está relacionada à guerra sem fim entre traficantes de drogas, as forças de segurança pública e a população. A novidade está no levante popular de algumas pessoas contra essa situação. Filme bem dirigido, com diversas cenas gravadas com muita coragem, esta produção destrincha o assunto e o apresenta com ousadia. No final, ficamos com gosto de querer saber mais. Sem dúvida alguma merece estar no Oscar e ter o seu conteúdo debatido com seriedade.

PALPITES PARA O OSCAR 2016: Desde que a lista final dos indicados ao prêmio máximo da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas saiu, admito que estava muito curiosa para assistir a este filme. Cartel Land tinha me chamado a atenção pelo nome e pelo tema, ainda que, inicialmente, eu não sabia que ele focava os levantes populares e tomada de armas pela população. O que tornou o filme ainda mais interessante.

Francamente, pelo tema e pela ousadia de muitas cenas gravadas por Matthew Heineman, este é um dos grandes documentários do ano. Como eu disse antes, merece estar entre os finalistas do Oscar. Apesar disso, vejo que ele tem uma parada dura para vencer, especialmente contra The Look of Silence (comentado aqui), um trabalho muito autoral e também corajoso de Joshua Oppenheimer. Outro filme que pode surpreender é Amy (com crítica neste link).

Muito diferente de The Look of Silence e Cartel Land, Amy levanta outro tipo de debate e usa recursos distintos para contar uma história também muito contemporânea. Parada dura. Não seria injusto Cartel Land levar a estatueta dourada, mas acho que ele corre por fora. Especialmente em relação a The Look of Silence. Agora, se der “zebra” e Cartel Land ganhar, terá sido merecido. Este ano a categoria está disputada e com grandes filmes. Dos que eu assisti, até agora, diria que apenas Winter on Fire: Ukraine’s Fight for Freedom (comentado aqui), apesar de ser um filme importante, teria poucas chances porque ele é menos complexo que os demais. A conferir.

Zero Dark Thirty – A Hora Mais Escura

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Tem histórias que precisam ser contadas. Não apenas porque marcaram uma nação, mas porque fecharam um ciclo que definiu uma época. Zero Dark Thirty é uma destas histórias. Mais uma vez a grande diretora Kathryn Bigelow mostra que sabe focar como ninguém o ambiente militar, traduzindo a tensão daquele ecossistema como poucos diretores desta época. Zero Dark Thirty é um filme envolvente, que passa boa parte de seu tempo procurando respostas. Tudo para nos levar a um ponto final que, propositalmente, tem uma pergunta sem resposta.

A HISTÓRIA: Começa dizendo que este filme foi baseado em fatos reais. Gravações de áudios começam a ser reproduzidas, trazendo parte do drama vivido pelas vítimas dos ataques terroristas feitos no dia 11 de setembro de 2001 nos Estados Unidos. Enquanto os áudios são reproduzidos, estamos no breu. Dois anos depois, um homem é torturado em um local não identificado. Ele faz parte de um grupo saudita. Dan (Jason Clarke) avança em direção a Ammar (Reda Kateb), que está com braços e pernas amarrados, e diz que ele é de sua propriedade. O homem preso está bem machucado, e sabe que irá sofrer muito mais. Ainda assim, ele não colabora. Esta cena e outras que virão são assistidas por Maya (Jessica Chastain), uma agente que está levando um “choque” de realidade. Tanto ela quanto Dan trabalham com a missão de encontrar os líderes responsáveis pelos ataques feitos contra os Estados Unidos.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Zero Dark Thirty): Primeiro vieram os filmes sobre os ataques aos Estados Unidos. A maioria deles, como era de se esperar de Hollywood, focando o drama dos civis que foram mortos em 11 de setembro. Depois, surgiram as produções que trataram do ambiente militar após o ataque, alguns deles revelando torturas e práticas condenáveis.

Com o assassinato de Osama bin Laden em maio de 2011, era apenas uma questão de tempo para que a história que levou até a localização e morte dele fosse contada. Ainda há muita desinformação sobre os bastidores daquela ação. Mas Zero Dark Thirty ajuda a explicar uma parte do processo que levou os militares dos Estados Unidos até aquele ponto.

Kathryn Bigelow entende muito bem de seu ofício. Acredito que ela seja uma das melhores diretoras da atualidade. E ela comprova isto a cada minuto desta produção. Começando pelo início, quando acerta ao não mostrar as famosas imagens das Torres Gêmeas sendo acertadas pelos aviões. Estas imagens já estão por demais desgastadas. E se um diretor quer causar impacto, nada melhor do que escolher áudios angustiantes e deixar o espectador “no breu” enquanto os reproduz. Belo começo de filme. E o melhor: este estilo de escolhas certas prossegue até o final.

Claro que parte do mérito para este resultado positivo é do roteirista Mark Boal, um sujeito que, prestes a completar 40 anos – ele fará esta idade redonda no próximo dia 23 -, tem três ótimos trabalhos no currículo: além deste Zero Dark Thirty, ele escreveu The Hurt Locker e a história de In the Valley of Elah. Todos com uma visão crítica ou, pelo menos, um bocado realista do ambiente militar. Jornalista de profissão, Boal traz para o cinema o senso de realidade da profissão. Mesmo na ficção de uma história “baseada” em fatos reais, ele guarda o compromisso de tentar ser o mais verossímel possível. E o efeito disto na telona é devastador.

Zero Dark Thirty criou uma certa polêmica nos Estados Unidos. Primeiro, porque políticos – especialmente os contrários ao reeleito Barack Obama – quiseram saber se informações confidenciais “vazaram” para alimentar a produção. Segundo, porque houve quem considerasse que esta produção apoia e justifica a tortura.

Para mim, tudo isso é uma grande bobagem, e uma forma da oposição nos EUA querer fazer algum barulho. Será que eles não aprenderam nada com Julian Assange? De que não adianta querer esconder todas as informações porque algumas delas, e muitas vezes as mais vexatórias, uma hora vão aparecer? Está cada vez mais difícil manter segredo, mesmo quando há muitos bilhões de dólares envolvidos na área de segurança. Depois que é evidente que Zero Dark Thirty não justifica a tortura.

O que o filme faz, e acho muito correto que seja assim, é tentar narrar os acontecimentos o mais próximo da realidade possível. Todos sabemos, desde os escândalos da Prisão de Guantánamo, que muitos militares dos Estados Unidos perderam totalmente a mão e a cabeça após os atentados terroristas. Então não há novidade alguma que usaram de tortura para conseguir informações.

Para mim, o que mais me chamou a atenção em Zero Dark Thirty é como a obstinação de uma pessoa, neste caso, a protagonista, foi fundamental para o desfecho daquela caçada humana. Se não fosse Maya, e não sei até que ponto de fato esta figura existiu na vida real, provavelmente Osama bin Laden não teria sido encontrado. Ou teria escapado, apesar da desconfiança de que ele estaria naquele esconderijo em Abbottabad.

Além da obstinação de Maya, chama a atenção neste filme o quanto figuras importantes da CIA e do alto escalão do governo e do Exército dos EUA estavam “boiando” sobre a realidade. Em uma das horas mais tensas desta produção, quando Maya confronta o seu superior, ela descarrega em Joseph Bradley (Kyle Chandler) toda a frustração das pessoas “de campo” que não conseguem ter a compreensão adequada de seus “superiores”, tão isolados nos próprios gabinetes que desconhecem os detalhes da realidade que eles deveriam acompanhar de perto.

Quando se junta ao grupo da CIA em Islamabad, no Paquistão, Maya não começa leve. Logo vai impondo a sua opinião, e se aproxima de Jessica (Jennifer Ehle), de Jack (Harold Perrineau) e de Thomas (Jeremy Strong). Especialmente de Jessica. O clima vai ficando mais tenso conforme o tempo passa, novos atentados vão ocorrendo no Ocidente, e aquele grupo – assim como outros envolvidos na busca pelos terroristas – não consegue avançar na captura de figuras-chave do núcleo terrorista.

Zero Dark Thirty conta muito bem esta história. Não apenas foca bem na personagem de Maya – tanto que o filme é praticamente todo narrado sob a sua ótica -, em suas relações e reações, como também mantêm um ritmo interessante de narrativa. O espectador sente o desdobrar dos fatos, o tique-taque do relógio tendo cada vez mais peso, todas as tentativas de buscar informações que levam apenas a becos sem saída, até que Debbie (Jessica Collins) encontra, em uma busca no sistema, uma das ligações com Osama bin Laden mais procuradas por Maya e equipe. Neste ponto, após uma hora de filme, que Zero Dark Thirty dá uma reviravolta importante.

E o que acontece a partir daí, com infindáveis reuniões para discutir o que seria feito com aquela informação, torna o filme interessante novamente. Além das ruas e torturas, entramos mais no cenário dos gabinetes e dos engravatados que tem a caneta e o botão na mão. De forma inteligente, Boal e Bigelow tornam a expectativa e a angústia de Maya na expectativa e na angústia do espectador, que aguarda para que algo seja feito. O que não deixa de ser irônico, porque todos nós sabemos qual será o desfecho. O que apenas demonstra o talento desta dupla – e de Chastain, que transfigura perfeitamente esta missão.

Os bastidores que levam até a ação e, finalmente, o grand finale, com toda a sequência da operação que levou à morte de Osama bin Laden, aumentam o ritmo até a grande pergunta sem resposta no final. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Após a grande “catarse” da morte do “vilão” bin Laden, o que virá? Bigelow e Boal merecem que a gente tire o chapéu para eles com aquela sequência em que a “importante” Maya entra no avião e, quando lhe perguntam para onde ela quer ir – e ela pode escolher qualquer parte do mundo – ela apenas chora, um tanto desolada, e olha pra frente sem uma resposta. O que pode vir depois? Não apenas para ela, mas para a sua própria nação e para todos nós, afetados de alguma forma com aquela loucura toda – dos terroristas e da caçada a eles. Pelo virtuosismo da direção, pelo roteiro envolvente e por este questionamento final, Zero Dark Thirty merece ser visto.

NOTA: 9,6.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Como no ótimo The Hurt Locker, filme anterior de Kathryn Bigelow que foi comentado neste blog aqui, Zero Dark Thirty é caracterizado pela excelência técnica. A direção de fotografia de Greig Fraser cuida de cada detalhe e do jogo de luz e sombra que ajuda a narrar cada momento desta história. O trabalho dele na sequência da operação militar, na reta final da produção, é fundamental, assim como a direção precisa de Bigelow. O outro roteiro de Boal, In the Valley of Elah, foi comentado no blog aqui.

Outros elementos também funcionam muito bem. Para começar, a ótima edição de William Goldenberg e Dylan Tichenor que, junto com o roteiro de Boal e da direção de Bigelow, dão o ritmo adequado para a produção. A edição de som, os efeitos especiais e visuais também são fundamentais, especialmente durante a operação militar derradeira. Vale citar, também, a trilha sonora bem planejada e que entra nos momentos mais adequados – o que nem sempre tem sido feito, pelo menos não nos últimos filmes que eu assisti – do trabalhador Alexandre Desplat.

Quem brilha, realmente, nesta produção é a atriz Jessica Chastain. Mas além dela, fazem um bom trabalho Jason Clarke e Jennifer Ehle. Esta última me lembrou muito, em alguns momentos, a Meryl Streep quando era jovem. Além dos atores já citados, vale comentar o trabalho dos coadjuvantes Mark Strong, como George; e James Gandolfini em uma superponta como o diretor da CIA.

E uma curiosidade sobre o filme: originalmente, Rooney Mara tinha sido convidada para estrelar esta produção. Mas ela resolveu pular fora do projeto, quando então foi substituída por Jessica Chastain. Sorte da segunda.

A expressão “00 dark 30”, no jargão militar, significa um tempo não especificado nas primeiras horas da manhã quando, normalmente, está escuro “lá fora”.

Outra curiosidade sobre esta produção: inicialmente, ela abordaria uma década sobre o trabalho fracassado dos Estados Unidos em buscar Osama bin Laden. Mas com a morte dele em maio de 2011, o roteiro foi totalmente reescrito.

No livro No Easy Day, escrito por um ex-combatente das forças de elite Seal e que narra a operação que levou à morte de bin Laden, a personagem de Maya é identificada apenas como Jen.

O clímax da produção dura 25 minutos – e não dá para perceber que ela leva tanto tempo -, apenas alguns minutos a menos do que a sequência real da operação envolvendo as forças especiais dos EUA.

Segundo o livro No Easy Day, pelo menos três pontos importantes foram deixados de fora deste filme: 1) a discussão se seria melhor bombardear a residência onde poderia estar bin Laden ou fazer uma incursão de forças especiais no local; 2) a construção de uma maquete da residência para que fosse planejado o ataque; 3) os testes feitos com helicópteros para que os militares estivessem preparados para qualquer contratempo quando fosse feita a operação.

Zero Dark Thirty foi filmado em Londres, Washington, Patiala (na Índia), no Manimajra Fort (também na Índia, que reproduziu Abottabad), Amman (Jordânia) e Chandigarh (Paquistão).

Este filme estreou para um público limitado, nos Estados Unidos, no dia 19 de dezembro. Depois, estreou no dia 4 de janeiro na Espanha e, no dia 11, em circuito comercial nos Estados Unidos e em outros três países.

Zero Dark Thirty teria custado cerca de US$ 40 milhões. Após três dias em cartaz nos Estados Unidos em pouco mais de 2,9 mil salas de cinema, ele faturou pouco mais de US$ 24,4 milhões. Uma marca impressionante. Certamente ele vai faturar muito alto.

Até o momento, esta produção ganhou 21 prêmios e foi indicada a outros 33, além de cinco indicações ao Oscar. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o de Filme do Ano pela AFI Awards; Melhor Atriz – Drama para Jessica Chastain no Globo de Ouro; e Melhor Atriz, Melhor Filme e Melhor Diretora pelo respeitadíssimo National Board of Review.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,7 para esta produção. Achei a avaliação baixa, levando em conta as qualidades da produção. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes escreveram 173 textos positivos e 13 negativos para Zero Dark Thirty, o que lhe garante uma aprovação de 93% e uma nota média de 8,7. Bem melhor.

CONCLUSÃO: A história dos Estados Unidos e do mundo nunca mais foi a mesma após os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001. Todos os que viveram a década posterior aquele momento sabem disso. O mundo mergulhou em uma caçada alimentada pelo medo. Pouco mais de 11 anos se passaram desde aquele dia, e os efeitos dos ataques continuam criando eco. Mas houve um ponto importante na “resposta” aos terroristas: quando uma operação militar matou Osama bin Laden quase 10 anos depois da destruição das torres do World Trade Center. A essência do que aconteceu entre setembro de 2001 e maio de 2011 é contada neste novo filme de Kathryn Bigelow, uma diretora de primeira que sabe contar os bastidores do ambiente militar como poucos. Esta produção é envolvente, muito bem dirigida, com uma história recheada de ação e de bastidores militares e políticos. Bigelow não se preocupa em fazer um filme partidário. Ela segue a linha documental, que pôde ser vista em The Hurt Locker. Nos entrega todos os ingredientes para refletirmos sobre o que aconteceu, e tirarmos as nossas próprias conclusões. Respeita o espectador, e conta muito bem esta história. Para fechar, nos deixa sem resposta, como acontece com a protagonista. Intocável.

PALPITE PARA O OSCAR 2013: Zero Dark Thirty foi indicado para cinco estatuetas. Todas muito justas. Exceto pelo “esquecimento” de Kathryn Bigelow como Melhor Diretora. Ela deveria ter entrado na competição. Ainda não vi ao trabalho de todos os outros, mas certamente a direção dela neste filme é muito melhor que o de Steven Spielberg com Lincoln. Mas o peso do nome dele, aparentemente, contou mais do que o resultado prático da direção deles.

Sem Bigelow como Melhor Diretora, Zero Dark Thirty chega ao Oscar indicado nas categorias Melhor Filme, Melhor Atriz para Jessica Chastain, Melhor Roteiro Original para Mark Boal, Melhor Edição de Som e Melhor Edição. Nenhum dos filmes que assisti até agora e que estão concorrendo ao Oscar me conquistaram totalmente. Mas dos que eu vi, gostei mais de Zero Dark Thirty até o momento. Não seria uma surpresa completa se ele ganhasse o Oscar principal, mas acho que ele corre por fora. Lincoln e Argo, aparentemente, estão na dianteira.

Jessica Chastain ganhou alguns pontos para a corrida a uma estatueta do Oscar ao vencer as concorrentes na categoria de Melhor Atriz – Drama no Globo de Ouro. Não assisti ao desempenho de nenhuma das outras quatro atrizes que estão na disputa ao Oscar, mas apenas ao ver a Chastain em Zero Dark Thirty eu posso dizer que ela merece. Faz um belo trabalho, e no tom certo.

Mark Boal tem uma tarefa bem difícil pela frente, porque concorre com pesos-pesados. Da minha parte, gosto muito do trabalho de Wes Anderson e Roman Coppola em Moonrise Kingdom. Mas eles são a zebra da disputa. Amour e até Django Unchained estão na dianteira. Possivelmente com uma certa vantagem de Amour.

Zero Dark Thirty tem mais chances em Edição de Som e, principalmente, Edição. No cômputo geral, acredito que o filme poderá levar um ou duas estatuetas, nestas categorias técnicas. Mas não seria surpreendente se levasse outra para Chastain e, se o lobby for bom, até como Melhor Filme. Se levasse todos estes, não seria injusto. Porque é um filme muito bem acabado, e que faz pensar. Acima da média deste ano no Oscar, pois.