Star Wars: Episode VIII -The Last Jedi – Star Wars: Os Últimos Jedi

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O que realmente vale a pena ser ensinado e aprendido não pode ser encontrado em um conjunto de livros. Aprendemos com o exemplo, com a experiência e a sabedoria de quem já viveu um bocado, com suas histórias de sucesso e, principalmente, de fracasso. É o mestre Yoda que nos ensina em Star Wars Episode VIII: The Last Jedi que o fracasso é o nosso grande mestre. Que belo filme esse, aliás! Bom saber que a saga Star Wars voltou a encontrar o seu bom caminho, resgatando personagens fundamentais e nos apresentando uma nova geração interessante. A essência dos filmes originais está aqui, e avançando ainda mais na explicação da Força e do equilíbrio que é preciso ter no Universo.

A HISTÓRIA: Começa com a famosa trilha sonora que arrepia qualquer fã de Star Wars. Na sequência, os também famosos letreiros que introduzem a história explicam que a Primeira Ordem está dominando o Universo. Logo depois de dizimar a pacífica República, o Líder Supremo Snoke (Andy Serkis) mandou as suas tropas para assumir o “controle militar” da Galáxia. Apenas a General Leia Organa (Carrie Fisher) e o seu grupo de combatentes da Resistência se opõem à “crescente tirania”, acreditando que o Mestre Jedi Luke Skywalker (Mark Hamill) regressará e ajudará a reacender a luz de esperança de dias mais justos. O problema é que a Resistência foi descoberta, e enquanto a Primeira Ordem se dirige para acabar com a base dos rebeldes, um grupo de heróis organiza a fuga dos sobreviventes.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Star Wars VIII): A primeira grata surpresa desse filme: o diretor Rian Johnson não começou pelo óbvio. Digo isso porque como o filme anterior terminou com o encontro da nova heroína da saga, Rey (Daisy Ridley), com o até então “sumido” Luke Skywalker (o grande Mark Hamill), a expectativa “óbvia” dos fãs era que o novo filme começasse justamente desenvolvendo este encontro com expectativa alimentada durante o filme anterior.

Mas não. Johnson começa Star Wars Episode VIII de forma diferente. A espera pela primeira troca de palavras entre Rey e Luke acaba levando mais alguns minutos no novo filme. Antes, assistimos a algumas cenas de batalha e perseguição no Espaço, algo sempre muito celebrado pelos fãs da saga criada há exatos 40 anos – o primeiro filme, que virou Star Wars Episode IV, comentei há alguns meses aqui no blog.

Então o Episode VIII começa com a tentativa de fuga dos sobreviventes da Resistência, perseguidos pela Primeira Ordem – sistema que surgiu após a queda do Império Galáctico. Como a “fórmula” Star Wars pede – e que é seguida à risca nesta nova produção com roteiro de Johnson, baseado nos personagens criados por George Lucas -, o novo episódio da saga equilibra nas doses certas o humor, a ação, a adrenalina, o drama e a emoção.

O primeiro elemento que aparece em cena é o humor, com o piloto da Resistência Poe Dameron (Oscar Isaac) enganando o General Hux (Domhnall Gleeson), que está liderando o “cerco” contra as naves que tentam fugir. Em seguida, surge a ação, a adrenalina e a emoção, com a mobilização de parte das forças da Resistência para acabar com um encouraçado da Primeira Ordem.

Nessa operação, a Resistência registra muitas baixas e surge a primeira heroína desta produção – Paige Tico (Veronica Ngo), que se sacrifica para que a tentativa do grupo tenha êxito. O protagonismo das mulheres nesta produção, tão celebrada pelo retorno do personagem Luke Skywalker, que marcou a trilogia original da saga, chama a atenção, aliás.

Os fãs da série já esperavam um certo protagonismo das personagens Rey e Leia Organa (a maravilhosa Carrie Fisher) que, no Episode VII (com crítica neste link), já tinham mostrado bastante relevância na “nova trilogia”. Mas, tudo indicava, elas teriam ainda mais importância no Episode VIII. E isso, de fato, acontece. Mas elas não são as únicas mulheres que brilham em seus papéis e que acabam sendo decisivas no filme.

A personagem de Paige Tico aparece rapidamente na produção, mas ela acaba sendo lembrada por Rose Tico (Kelly Marie Tran) durante o restante do filme. A própria Rose, assim como a Almirante Holdo (Laura Dern) e Maz Kanata (com voz de Lupita Nyong’o), além de Rey e Leia Organa, são fundamentais para os acontecimentos desta história. Então sim, o Episode VIII mostra diversas mulheres corajosas, determinadas, valentes e que são as donas de seus destinos – e que influenciam, desta forma, diversas outras pessoas.

Assim, esse novo Star Wars está afinado com o nosso tempo, uma era em que (ainda bem!) cada vez mais mulheres assumem as suas opiniões e desejos sem ter que pedir licença para ninguém. O famoso “empoderamento feminino” está presente nesta nova produção da saga Star Wars. Mas isso não é tudo que chama atenção neste filme.

Gostei muito do equilíbrio que a produção busca (e consegue alcançar) dos elementos fundamentais que comentei anteriormente, assim como apreciei muito o lado mais “filosófico” desta história – se compararmos, por exemplo, com o Episode VII – e os encontros especiais que o filme promove. A verdade é que o Episode VIII é emotivo, desde o início, por sabermos que estamos vendo, na nossa frente, ao último filme estrelado pela atriz Carrie Fisher.

Essa atriz foi – e eternamente será – importante para a saga Star Wars, e quando vemos ela em cena neste seu último filme, cada “aparição” dela se torna especial. Como no Episode VII tivemos encontros emocionantes, como o de Leia Organa com Han Solo (Harrison Ford), neste novo episódio temos o memorável encontro de Leia com o seu irmão, Luke. Pessoalmente, achei até mais marcante e tocante o encontro do Episode VIII do que o ocorrido no episódio anterior. De arrepiar, por exemplo, quando Luke diz para Leia que alguém, quando morre, realmente não desaparece – impossível não pensar na atriz nesse momento.

Aliás, algo que gostei muito nesta produção é o avanço do filme na parte “filosófica” e de princípios da saga Star Wars. Quando Rey insiste e consegue vencer a resistência de Luke em ensiná-la sobre a Força, vemos a alguns minutos preciosos sobre a interpretação do personagem sobre a essência que perpassa todas as histórias da saga. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Com uma narrativa muito bem pensada e planejada, Johnson nos mostra a essência sobre a Força que, nada mais é, que a energia que perpassa todos os seres e que busca o equilíbrio constante.

Assim, como diversas religiões – inclusive o catolicismo – ensinam, nunca teremos realmente apenas a luz e/ou o bem no Universo. Como existe a luz, existe a treva, e como existe o bem, também existe o mal. Nunca teremos apenas luz ou apenas o bem, mas o equilíbrio entre estes elementos e a escuridão e o mal. Este é o ponto. No fim das contas, Star Wars e todos os seus filmes tratam desta busca constante pelo equilíbrio e sobre os problemas que surgem quando um destes elementos – mais notadamente o mal – prevalece.

Achei muito bacana a forma com que Johnson apresenta a explicação de Luke sobre a Força e como o próprio Luke questiona a existência dos Jedi. Talvez nesta parte que alguns fãs tenham se sentido “traídos” ou tenham ficado insatisfeitos com a história. Luke diz com todas as letras que os Jedi não são os únicos detentores da Força e nem os únicos que podem utilizá-la para o bem. Ele realmente “diminui” a importância dos Jedi e questiona como a arrogância deles – ou de parte deles, para ser mais precisa – acabou provocando mais danos do que ajudando para o equilíbrio do Universo.

Os super fãs da saga podem até não ter gostado disso, mas eu achei muito positiva esta ponderação. Afinal, podemos perceber isso em várias partes… como os detentores da “verdade” acabam se perdendo na sua arrogância e, apesar de terem qualidades e muito conhecimento, acabam indo contra tudo aquilo que acreditam e provocando mais mal do que bem. Esse comentário importante de Luke, que vivenciou a Força muito bem e que viu como ela podia ser mal utilizada – como muitas religiões, diga-se de passagem -, ajuda a explicar a cena final do Episode VIII.

Na sequência final, um grupo de crianças que são escravas está animado com a passagem das pessoas da Resistência por onde elas viviam e sonham com um futuro em que elas possam ser livres. Nessa cena, fica evidente o que Luke nos disse antes. Todos têm a Força dentro de si, basta acreditarem nela e a utilizarem da melhor forma possível para atingir os seus objetivos – e, preferencialmente, causas maiores que beneficiem mais pessoas. Aquelas crianças no final simbolizam a esperança e como a Força realmente está presente em todos. O que importa é o que fazemos com ela.

Ah sim, e antes de terminar estes comentários e avaliação sobre o Episode VIII, vale citar outro encontro mais que marcante nesta produção: o que acontece entre o mestre Yoda (voz de Frank Oz) e Luke. Para mim, uma das grandes sequências do filme – assim como o encontro entre Leia e Luke e a batalha “lado a lado” de Rey e Kylo Ren (Adam Driver).

No encontro entre o mestre Yoda e Luke, o mestre mostra toda a sua sabedoria ao dizer que Luke não deve se preocupar com a destruição dos “livro sagrados” e do primeiro tempo Jedi. Porque o que importa mesmo é o que aprendemos nas nossas trajetórias e em como repassamos isso para a frente – valendo as histórias de sucesso e, especialmente, as de fracasso. Uma grande lição, e que vale para todos nós. Para mim, um dos melhores filmes da saga.

NOTA: 9,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Eu assisti a esse filme em sua versão 3D. A exemplo do Episode VII, achei que este novo filme da saga merece ser visto na versão 3D, ainda que ele não tenha realmente um grande ganho, digamos assim, nesta versão. Mas a qualidade do 3D, especialmente na profundidade de cada plano e nos detalhes de alguma cena, tornam a experiência do filme ainda mais interessante. Recomendo.

Três personagens dos filmes originais voltam com tudo nesta nova produção. Dois deles, claro, com um protagonismo maior, e o terceiro em apenas uma sequência muito marcante. Me refiro aos personagens de Luke Skywalker, Leia Organa e Mestre Yoda, nesta ordem de importância para o Episode VIII. Luke aparece um bocado, e sempre com uma interpretação marcante de Mark Hamill. O ator mostra, agora de forma amadurecida, porque gostamos tanto dele no passado. Ele está ótimo. Carrie Fisher arrepia em cada cena em que aparece pela presença marcante e pelo talento da atriz e também por aquela questão “nostálgica” e de despedida que eu comentei anteriormente. E o Mestre Yoda tem algumas das falas mais importantes da história. Então estes três personagens “clássicos” retornando neste filme fazem qualquer fã arrepiar e delirar – ao menos isso aconteceu comigo.

Outros personagens da “velha guarda” aparecem nesta produção, mas com uma presença menos importante. Vale citar o C-3PO de Anthony Daniels; o maravilhoso Chewbacca de Joonas Suotamo – eu admito que quase tive um “ataque”, no bom sentido, cada vez que o Chewbacca apareceu em cena nesse novo filme; e o R2-D2 de Jimmy Vee. Bacana ver esses personagens marcantes novamente no cinema – mesmo que em participações menores, como é o caso do C-3PO e do R2-D2.

Algo bacana nesta nova trilogia que dá sequência para a saga Star Wars é encontrar novos personagens que seguem a essência dos personagens que deram início à série nos anos 1970 e 1980. Então é bacana “reencontrar” os personagens apresentados no Episode VII e se aprofundar um pouco mais nas suas histórias e, principalmente, personalidades. Dos novos personagens, o destaque vai, sem dúvida, para a Rey interpretada por Daisy Ridley; para o Finn do ótimo John Boyega – muito bons o ator e o personagem, aliás; e para o Kylo Ren de Adam Driver. Como na trilogia original existia o duelo entre o bem e o mal entre Luke e Darth Vader, agora o mesmo duelo é vivenciado por Rey e Kylo Ren.

Além destes três personagens centrais da nova trilogia, vale destacar o bom trabalho de Oscar Isaac como Poe Dameron e de Andy Serkis como Snoke. Outros personagens relevantes neste novo episódio e que foram bem interpretados por seus atores são a Maz Kanata de Lupita Nyong’o; o General Hux de Domhnall Gleeson; a Rose Tico de Kelly Marie Tran; e a Almirante Holdo de Laura Dern. O personagem DJ, interpretado por Benicio Del Toro, também tem relevância na história, mas achei ele o mais forçado de todos e o menos interessante da turma.

Entre os coadjuvantes do Episode VIII, vale ainda comentar o bom trabalho de Gwendoline Christie como a Capitã Phasma; de Billie Lourd como a Tenente Connix; de Amanda Lawrence como a Comandante D’Acy; e de Brian Herring e Dave Chapman como BB-8 (a nova “mascote” da trilogia).

Gostei tanto da direção quanto do roteiro de Rian Johnson. Acho que o diretor americano, que tinha pouco mais de três anos de idade quando o primeiro Star Wars estreou em 1977, encarnou bem o espírito dos filmes criados por George Lucas e soube resgatar a essência da saga no Episode VIII. Antes de fazer este filme, Johnson dirigiu a outras nove produções, incluindo quatro curtas, três longas e duas séries – 1 episódio de Terriers e 3 episódios da ótima Breaking Bad. A estreia dele em longas foi com Brick, em 2005. Depois viriam os longas The Brothers Bloom (2008) e Looper (2012) – esse último comentado aqui no blog.

Claro que um filme de ficção científica tem em seus aspectos técnicos alguns de seus principais trunfos. Isso sempre foi uma característica de Star Wars e continua sendo neste novo filme da saga. Entre os aspectos técnicos desta produção, destaque para a sempre marcante trilha sonora do mestre John Williams; para a direção de fotografia de Steve Yedlin; para a edição de Bob Ducsay; para o design de produção de Rick Heinrichs; para a direção de arte que envolveu 10 profissionais; para a decoração de set de Richard Roberts; para os figurinos de Michael Kaplan; para o Departamento de Maquiagem com 36 profissionais; para o Departamento de Arte com 180 profissionais – incluindo artistas conceituais e construtores de maquetes e afins; para os Efeitos Especiais criados por 63 profissionais; e para os Efeitos Visuais criados por cerca de 600 profissionais – admito que eu me cansei de contar e parei perto dos 300 artistas, mas a lista deve ser quase o dobro disso. Números impressionantes e que mostram o tamanho gigantesco desta produção. Sem essa turma, que não ganha os holofotes de outros nomes, o Episode VIII não existiria.

Star Wars Episode VIII estreou em première em Los Angeles no dia 9 de dezembro. Depois, no dia 12, ele fez première em Londres e, no dia seguinte, estreou no Festival Internacional de Cinema de Dubai e em 17 países – incluindo o Brasil.

De acordo com o site Box Office Mojo, Star Wars: The Last Jedi já figurava, no dia 27 de dezembro, como o segundo filme com a maior bilheteria de 2017, somando US$ 445,2 milhões apenas nos Estados Unidos – ficando atrás, apenas, de Beauty and the Beast. Olhando para os restante do mundo, no acumulado do ano, Star Wars já figurava em quarto lugar no ranking de 2017, com US$ 892,1 milhões até o dia 27 – atrás de Beauty and the Beast, Fate of the Furious e Despicable Me 3. Certamente o filme vai passar a marca de US$ 1 bilhão em breve.

Star Wars Episode VIII foi filmado em quatro países: Croácia, Irlanda, Bolívia e Reino Unido. Entre as cidades em que a produção passou, vale citar Dubrovnik, na Croácia, que fez as vezes de Cidade do Canto Bright; Skellig Michael e Brow Head, na Irlanda, que fez as vezes do Planeta Ahch-To; Salar de Uyuni, na Bolívia, cenário das cenas da batalha final; e muitas e muitas cenas rodadas no Pinewood Studios, em Iver Hearth, Reino Unido.

Eu vou abrir mão, dessa vez, de citar curiosidades sobre a produção, beleza? É que apenas o site IMDb traz nada menos que 129 tópicos sobre o filme… quem estiver muito curioso(a) em fazer essa imersão nas curiosidades de Star Wars Episode VII, sugiro visitar a página específica do IMDb.

Por falar em site IMDb, vale comentar que Star Wars Episode VIII registra a nota 7,6 no site que registra a opinião do público – menos que o seu antecessor, que registra a nota 8,0. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 314 textos positivos e apenas 31 negativos para o Episode VIII, o que garante para o filme uma aprovação de 91% e uma nota média de 8,1. O nível de aprovação e a nota do Episode VIII também estão ligeiramente menores que o do Episode VII no Rotten Tomatoes. Gostei mais do Episode VIII, pelas razões que comentei, e acho que estou mais próxima dos críticos, em relação a este filme, do que do público em geral.

Até o momento, Star Wars: The Last Jedi ganhou um prêmio e foi indicado a outros três – acredito que o filme será indicado em uma ou mais categorias técnicas do Oscar 2018. O único prêmio que o filme recebeu, até o momento, foi o Golden Trailer de Melhor Poster Fantasia/Aventura no Golden Trailer Awards.

Este filme é uma produção 100% dos Estados Unidos. Por isso, ele entra na lista de filmes que atendem a uma votação feita há algum tempo aqui no blog.

CONCLUSÃO: Eis um filme com o coração e o espírito nos lugares certos. Muito bom ver a saga Star Wars voltando aos seus grandes momentos. Este filme, mais até que o anterior da grife, nos apresenta a alguns dos elementos que fazem os fãs delirarem. Muitas batalhas no ar e algumas bem marcantes sobre a terra. Grandes personagens que voltam a se encontrar e uma nova geração que volta a formar a disputa clássica entre o Bem e o Mal, naquele jogo constante entre as forças contrárias em busca do equilíbrio. Aliás, Star Wars VIII avança um bocado sobre a explicação da Força e de como a lógica por trás da saga funciona. Além de todas as suas qualidades técnicas, que são variadas, este filme vale por alguns reencontros realmente marcantes e especiais. Para quem gosta de Star Wars, não dá para perder.

PALPITES PARA O OSCAR 2018: Star Wars Episode VIII tem grandes chances de fechar o ano como a maior bilheteria dos cinemas americanos. E isso com menos de um mês de tempo nos cinemas. Esse é um elemento importante que pode ajudar o filme a ser indicado a alguns Oscar’s. Acredito na indicação do filme em algumas categorias técnicas.

A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood inovou ao divulgar, no final de 2017, mais notícias sobre os filmes que foram, pouco a pouco, avançando na disputa por uma indicação. Até o final do ano, Star Wars seguia na disputa por uma vaga na categoria de Melhores Efeitos Visuais com outros nove títulos. Acho que o filme deve chegar na lista dos cinco indicados nessa categoria, assim como vejo chances dele ser indicado nas categorias Melhor Edição de Som e Melhor Mixagem de Som.

Talvez o filme até possa emplacar indicações nas categorias Melhor Trilha Sonora e Melhor Design de Produção, mas com chances menores de emplacar indicação e de ganhar uma estatueta. Na categoria Melhor Maquiagem e Cabelo o filme já ficou de fora da disputa – a Academia divulgou sete produções que seguem na disputa por uma das vagas de finalistas, e Star Wars não está no meio. Resumindo, esse filme pode até conseguir algumas indicações, mas possivelmente sairá de mãos vazias do Oscar – talvez vencendo apenas como Melhores Efeitos Visuais, e olha lá.

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Star Wars: Episode VII – The Force Awakens – Star Wars: O Despertar da Força

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O que é bom, o que nos traz ótimas lembranças, deveria ser sempre revisitado. Assim como é bom, depois de quatro décadas do início de uma das grifes mais famosas do cinema, retomar alguns personagens que foram lançados há tanto tempo. E é exatamente isso que Star Wars Episode VII: The Force Awakens faz. Alguns de vocês podem estar achando estranho eu comentar este filme agora, mas é que eu perdi de assisti-lo quando ele estreou nos cinemas. E como eu quis assistir, nesse final de ano, ao segundo filme da nova trilogia da saga, segui o conselho de um amigo e vi a este filme primeiro. Star Wars VII é realmente um deleite, especialmente para quem ainda tem a saga original (relativamente) fresca na memória.

A HISTÓRIA: Inicia com a frase clássica “Há muito tempo em uma galáxia muito, muito distante…” e a música de início da saga que marcou o cinema há exatos 40 anos. Episode VII inicia comentando que Luke Skywalker (Mark Hamill) desapareceu, e que na ausência dele, a sinistra Primeira Ordem surgiu das cinzas do Império. Esse grupo procura por Skywalker e não descansará até que o “último Jedi” seja destruído. Com o apoio da República, a General Leia Organa (Carrie Fisher) lidera a Resistência que, por sua vez, também procura por Luke. Na missão de encontrar o seu irmão, Leia envia para uma missão secreta o piloto Poe Dameron (Oscar Isaac), que busca no planeta Jakku informações sobre o paradeiro de Luke.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Star Wars VII): O meu amigo, o Félix, estava certo. Eu realmente precisava assistir a esse Episode VII antes de conferir, nos cinemas, ao novo Episode VIII. Desta vez, aqui no blog, eu também fiz diferente. Assisti a este filme, comecei a escrever sobre ele, mas só terminei o texto cerca de duas semanas depois… nesse meio tempo, conferi ao Episode VIII nos cinemas e também escrevi sobre ele, começando o texto sobre o novo filme logo depois de assisti-lo e terminando o seu conteúdo apenas hoje.

Ou seja, pela primeira vez na história desse blog – ao menos pelo que eu tenho lembrança -, eu termino agora de escrever sobre um filme que foi o penúltimo que eu assisti e com uma crítica escrita posteriormente ao do blog post que eu ainda vou publicar. Eita! Espero não ter dado um nó na cabeça de alguém, mas tenho que ser sincera sobre a ordem dos fatos. Assim, assisti ao Episode VII um dia antes de ver nos cinemas ao Episode VIII, mas finalizei o texto do Episode VIII antes de terminar este texto aqui do Episode VII.

A escolha pela ordem dos fatos tem a ver com o “frescor” das lembranças na minha mente. Em casa, estou escrevendo este texto e vendo novamente ao Episode VII, enquanto que para escrever a crítica do Episode VIII eu contei apenas com as lembranças do que eu vi no cinema. Comentado isso, vamos ao que realmente interessa: as minhas impressões sobre este primeiro filme da nova trilogia da saga Star Wars.

Eu gostei do início do filme, com aquela alusão clara da nave gigante de outras naves menores saindo dela relacionadas com o filme que inaugurou a saga e que foi lançado em 1977 – revisto por mim este ano e comentado neste texto. Mas admito que algo me incomodou um pouco. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Na parte inicial do Episode VII, fiquei me perguntando: o que separa uma história que faz diversas homenagens para o filme original daquela história que parece carecer de imaginação?

Acredito que boa parte dos fãs curtiu as várias “homenagens” feitas pelo roteiro de Lawrence Kasdan, J.J. Abrams e Michael Arndt, inspirados nos personagens de George Lucas, à história original que apresentou a saga para o mundo em 1977. Digo isso pelas ótimas avaliações que esse filme recebeu e por verificar que, apesar do Episode VIII ter me parecido mais criativo e interessante, ele ter uma avaliação menos positiva que esse Episode VII. Entendo os fãs, mas eu fiquei um pouco incomodada com toda aquela “repetição” de padrões.

Nesse Episode VII temos, novamente, uma mensagem importante sendo escondida em um pequeno robô que, de forma leal, passa por diversos mal bocados até chegar a alguém de confiança que possa ajudá-lo. Mais uma vez, o vilão da história captura a um dos personagens importantes para tentar arrancar informações dele. No lugar do R2-D2, o robô da vez é o ágil BB-8 (interpretado por Brian Herring e Dave Chapman), e ao invés de um Darth Vader torturando uma Princesa Leia, temos Kylo Ren (Adam Driver) interrogando e torturando Poe Dameron.

A exemplo de Luke Skywalker, que contemplava os dois sóis no Star Wars Episode III, temos agora a nova heroína da saga, Rey (Daisy Ridley), também observando o anoitecer em sua cidade natal. Os dois personagens não foram criados por seus pais e tem curiosidade sobre as suas origens. Diversas semelhanças para um começo de história, não? Ao menos para o meu gosto, esse excesso de referências incomodou um pouco.

Mas descontado isso, devo dizer que esta história dirigida com esmero por J.J. Abrams cumpre totalmente o seu papel. Com um bom ritmo e resgatando a essência da trilogia original de George Lucas – aquela que encantou o público mundo afora nos anos 1970 e 1980 -, esse Episode VII volta a colocar a série de filmes com o selo Star Wars no caminho certo. Temos nesse Episode VII todos os elementos que encantaram as pessoas há algumas décadas.

O principal trunfo, possivelmente, destes filmes – e desse Episode VII – seja equilibrar os diversos elementos que fazem parte da vida de qualquer um de nós. Assim, nós temos drama, humor, ação, romance – ao menos sugerido – e suspense em um mesmo pacote. Um destaque deste filme, assim como do original de 1977, é a presença maior do humor e da ação na história. Esses elementos fazem com que esse Episode VII seja puro entretenimento. Um filme bem conduzido, com ritmo e que prende a atenção do público a cada segundo.

O interessante é que, ao mesmo tempo em que temos o resgate do “espírito” Star Wars nesse Episode VII e que vemos, literalmente, a personagens importantes da trilogia original voltando à tela, conferimos o protagonismo de novos personagens. São eles que trazem os elementos novos para a saga e que ajudam a renová-la, projetando um futuro interessante para Star Wars.

Os novos personagens apresentam várias semelhanças com os heróis que fizeram história na trilogia original ao mesmo tempo em que avançam na compreensão dos fãs sobre o significado da Força, dos Jedi e de tudo o mais que faz parte do universo de George Lucas. Rey resgata algumas características e valores da Princesa Leia, ao mesmo tempo em que ela se parece mais com o exemplo de mulher “empoderada” da atualidade.

O mesmo pode ser dito sobre Finn (John Boyega), personagem interessantíssimo que lembra um pouco o relutante e corajoso Han Solo da trilogia original. Poe Dameron recorda um pouco a Luke, mas apenas na parte da destreza como piloto – está claro que Poe não terá a importância de Luke para a história, não apenas pelo que vemos no Episode VII, mas especialmente pelo Episode VIII. E assim, de forma muito sutil, J.J. Abrams, George Lucas e companhia demonstram como a saga Star Wars tem muito para nos contar ainda e pode ser renovada com talento por muito tempo ainda.

As cenas de batalha aérea são o principal do filme em termos de sequências de ação neste Episode VII. Da minha parte, senti falta de mais disputas em solo, seja com sabres de luz ou não – isso eu fui ver mais apenas no Episode VIII. Os efeitos visuais e especiais, assim como o ritmo do filme, são impecáveis. Em relação à história, descontada a parte que comentei antes de um certo “excesso” de referências ao filme de 1977, gostei da forma com que o roteiro apresentou os novos personagens, resgatou o espírito dos filmes originais e promoveu reencontros importantes e emocionantes.

É muito marcante cada momento em que vemos em cena, novamente, personagens tão marcantes como Han Solo (Harrison Ford), Leia Organa (Carrie Fisher), Chewbacca (Peter Mayhew e Joonas Suotamo) e C-3PO (Anthony Daniels). Especialmente emocionante os momentos entre Han Solo e Leia Organa. O quanto não aconteceu entre os dois entre os episódios VI e VII? Espero que um dia esta história ainda seja contada. 😉

Este filme é mais concentrado na apresentação dos novos personagens e no início do embate entre a Primeira Ordem e a Resistência. É um filme também sobre a busca do herói – ou a ideia que temos dele – e sobre a busca particular de cada um sobre a sua essência e sobre o que lhe faz sentido. Alguns dos elementos fundamentais da saga original, pois, voltam à cena, mas de forma renovada e inteligente. Um filme divertido e que mostra, ao mesmo tempo, como sempre podemos escolher entre o bem e o mal. Ninguém nos leva por um caminho se não quisermos seguir aquela direção.

O novo vilão, neto de Darth Vader e filho de Han Solo e de Leia Organa, tem muitos elementos interessantes para tornar este um personagem forte na saga Star Wars. E para equilibrar com ele, que é um dos personagens centrais do “lado negro” da Força, temos personagens da estirpe de Rey, uma garota que percebe o “lado claro” da Força despertando em si neste Episode VII. Outros personagens como ela devem surgir, é claro, especialmente após o Episode VIII. Bom ver, neste dois novos episódios, como a saga Star Wars tem ainda muito gás para dar.

NOTA: 9,6.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Como eu disse antes, perdi esse filme quando ele passou nos cinemas. Mas, agora, prestes a ver ao Episode VIII, consegui uma versão em 3D do Episode VII para ver em casa. Realmente é um filme fascinante, muito bonito e que utiliza bem a tecnologia 3D a seu favor.

Han Solo e Leia Organa são os dois grandes retornos/presentes desse filme. Como é bom rever personagens tão “clássicos” e carismáticos novamente em cena! Os atores Harrison Ford e Carrie Fisher estão ótimos, tão bons e carismáticos como nos filmes originais – ou até melhores, após algumas décadas de experiência. Além deles, os destaques desta produção são os atores Daisy Ridley, John Boyega, Adam Driver e Oscar Isaac, as novas estrelas que apresentam os personagens da nova trilogia Star Wars. Todos estão muito bem, com protagonismo de Daisy Ridley e John Boyega.

Entre os atores coadjuvantes, vale citar o bom trabalho de Lupita Nyong’o como Maz Kanata; de Andy Serkis como o Supremo Líder Snoke; o de Domhnall Gleeson como General Hux; o de Gwendoline Christie como Capitã Phasma; e o de Ken Leung como Almirante Statura. Além deles, vale citar as participações pequenas, mas muito marcantes, de Max von Sydow como Lor San Tekka e de Mark Hamill como Luke Skywalker. J.J. Abrams sabe alimentar muito bem, aliás, a expectativa até revermos ao grande Mark Hamill em cena. A sequência final é muito marcante.

O diretor J.J. Abrams faz um belo trabalho na direção. Nada realmente inovador, mas ele segue bem a cartilha de George Lucas, de Irvin Keshner e de Richard Marquand, os diretores da trilogia original. Além do belo trabalho na direção, Episode VII se destaca, entre os aspectos técnicos, pela marcante e inesquecível trilha sonora de John Williams; pela direção de fotografia de Dan Mindel; pela edição de Maryann Brandon e de Mary Jo Markey; pelo design de produção de Rick Carter e de Darren Gilford; pela decoração de set de Lee Sandales; pelos figurinos de Michael Kaplan; e pelo trabalho decisivo e coletivo da equipe de 16 artistas responsáveis pela Direção de Arte; dos cerca de 170 profissionais envolvidos com o Departamento de Arte; dos cerca de 100 profissionais responsáveis pelos Efeitos Especiais e pelo trabalho do espantoso contingente de cerca de 1.250 profissionais envolvidos com os Efeitos Visuais desta produção.

Star Wars Episode VII estreou no dia 14 de dezembro de 2015 em uma première em Los Angeles. No dia seguinte, o filme teve première em Jakarta e, no dia 16 de dezembro, em Sydney. No Brasil, o Episode VII estreou no dia 17 de dezembro de 2015.

Vocês vão me perdoar, mas desta vez eu não vou citar curiosidades sobre esta produção. Até porque a lista é beeeeem grande. Quem quiser conferir curiosidades sobre o Episode VII, pode dar uma conferir em alguns (ou todos) dos 380 tópicos listados por aqui pelo site IMDb.

Star Wars Episode VII foi indicado em cinco categorias do Oscar, ganhou 57 prêmios e foi indicado a outros 123. O filme não ganhou nenhum Oscar, mas entre as premiações que levou para casa, destaque para a de Melhores Efeitos Visuais no Prêmio Bafta; o de Melhor Trilha Sonora para Mídia Visual para John Williams no Grammy; e o Trailer de Filme Mais Visto no YouTube em 24 horas no Guinness World Record Award.

Episode VII foi rodado na Irlanda, na Islândia, no Reino Unido, nos Emirados Árabes e nos Estados Unidos. Apesar de ser rodado em todos esses países, Star Wars The Force Awakens é uma produção 100% dos Estados Unidos – por isso o filme entra na lista de produções que atendem a uma votação feita há tempos aqui no blog.

De acordo com o site Box Office Mojo, Star Wars Episode VII faturou quase US$ 936,7 milhões nos Estados Unidos e pouco mais de US$ 1,13 bilhão nos outros países em que o filme estreou. Ou seja, no total, superou a marca de US$ 2 bilhões.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,0 para Star Wars Episode VII, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 350 textos positivos e apenas 28 negativos para esse filme, o que lhe garante uma aprovação de 93% e uma nota média de 8,2. Especialmente o patamar das notas chama a atenção – bem acima da média para os dois sites.

CONCLUSÃO: Um filme que coloca lado a lado ótimos personagens da trilogia anterior da saga e novos nomes que vão renovar Star Wars nesta nova fase de filmes. Como manda o figurino dos filmes Star Wars, este Episode VII tem muitas batalhas no ar e na terra, confrontos marcantes, equilíbrio entre ação, emoção e comédia e, claro, personagens interessantes. Novamente a disputa entre as forças do bem e do mal está no centro na narrativa, assim como o esperado reencontro de alguns personagens. Para os fãs, não há como não se arrepiar com algumas cenas. Para os demais mortais, este filme será, pelo menos, puro entretenimento. Sob uma ótica ou sob a outra, ele funciona muito bem. Um belo retorno da saga.

Detroit – Detroit em Rebelião

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É impressionante quando a pressão extrapola qualquer barreira e a convulsão social acontece. Para tudo nessa vida existe limite. Ao assistir a Detroit, percebemos um exemplo contundente de reação contra décadas, séculos de abusos, preconceito racial e violência. E o que impacta tanto quanto assistir ao que aconteceu nesta cidade norte-americana há 50 anos, é pensar que hoje em dia, tanto tempo depois, muito da motivação do “levante popular” continua válido. Sim, nós avançamos alguns milímetros em algumas direções, mas em outras… parece que custamos a sair do lugar.

A HISTÓRIA: Começa com uma animação que explica parte das mudanças na sociedade americana. Eles comentam, por exemplo, como houve uma grande migração antes da 1ª Guerra Mundial, com muitos negros indo da região Sul para o Norte dos Estados Unidos. Eles acabam morando nas periferias das cidades, onde começam a dividir espaço com brancos que trabalham nas fábricas.

Nos anos 1960, a tensão racial atinge o seu auge, especialmente porque os negros percebem que a ideia de igualdade de oportunidades entre eles e os brancos não passa de ilusão. A mudança então parece ser inevitável. A única questão é quando e como ela vai acontecer. A partir daí, a história mostra como a panela de pressão estoura e o que acontece a partir de então em um Detroit convulsionada.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Detroit): Eu gosto muito da diretora Kathryn Bigelow. Ela é um (ainda) raro caso de diretora que conseguiu conquistar com muito talento e obstinação o seu espaço de respeito em Hollywood, um local dominado por homens na direção. Kathryn conhece muito bem o seu ofício, e a cada filme ela demonstra isso com suavidade e competência, sem apostar em pirotecnia ou em exibicionismos.

Desde que lançou o ótimo The Hurt Locker, filme comentado aqui e que garantiu para ela duas estatuetas do Oscar na prateleira – uma como Melhor Filme, já que ela foi uma das produtoras da produção, e outro como Melhor Diretora -, Kathryn parece ter abraçado temas importantes para os Estados Unidos e para boa parte do mundo. The Hurt Locker fala sobre os efeitos nocivos de uma guerra “contra o terror” que parecem um tanto invisíveis e menos óbvios.

Depois, ela nos apresentou o interessante e denso Zero Dark Thirty, comentado neste texto aqui no blog. Novamente o tema era importante, o combate ao terrorismo, os seus personagens e os seus efeitos. Ou seja, entre 2010 e 2012, Kathryn nos apresentou dois filmes marcantes, ambos caracterizados por um estilo um tanto “documentarista”. De 2012 e até agora, ela havia dirigido apenas a dois curtas. Até que em 2017 ela nos apresenta Detroit, um filme que curiosamente trata sobre conflitos, mas totalmente de outra espécie.

Desta vez os inimigos não estão fora dos Estados Unidos. O perigo, o medo, a repressão e a covardia não estão longe, mas “dentro de casa”. O estilo de direção, contudo, segue o mesmo. Kathryn dá mais uma demonstração de que entende muito de cinema ao transformar a reconstituição de fatos reais em uma narrativa que lembra a de um documentário. A câmera dela se movimenta com bastante frequência, buscando reproduzir a agitação daqueles dias de convulsão social.

O tema do filme é interessante, especialmente porque os Estados Unidos tem dificuldade, na maioria das vezes, em falar de seus próprios demônios. Com muita frequência vemos ao cinema de Hollywood tratando dos “inimigos estrangeiros”, dos “bárbaros” que precisam ser combatidos de forma heroica longe de casa. Também vemos a alguns filmes humanos, demasiados humanos, sobre conflitos e dramas pessoais – mas menos do que podemos conferir no cinema europeu.

Agora, não são tão frequentes, ao menos nas últimas duas décadas, os filmes que tratam sobre os próprios problemas criados nos Estados Unidos. Sem, existem exceções à regra. Mas, no geral, o cinema de Hollywood não gosta muito de olhar para dentro de suas fronteiras. Talvez Kathryn tenha percebido isso e tenha pensado e se perguntado, diante de uma nova onda de violência policial contra negros dentro do país e a consequente revolta que isso despertou, que tipo de história ela poderia contar?

Sim, ela poderia ter focado em algum caso recente de violência policial e de morte de negros inocentes. Mas mais forte do que contar uma história recente, ainda passível de discussões e de interpretações, foi a escolha dela por voltar atrás espantosos 50 anos e mostrar que pouco avançamos desde então. A narrativa é bem feita, e algumas cenas são de arrepiar. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). A primeira vítima do policial Krauss (Will Poulter), o cidadão que foi fazer compras, que corre quando vê policiais brancos armados vindo na direção dele e que é acertado pelas costas, é um grande exemplo do que acontecia na cidade convulsionada de Detroit em 1967.

Quando vemos aquela cena, maravilhosamente conduzida por Kathryn, ficamos chocados e arrepiados. E outras sequências produzem o mesmo efeito. Sim, dá para entender a revolta dos negros que vemos em cena, mas também nos perguntamos sobre como pode terminar uma situação como aquela. O caos reinante pode ter fim sem a geração de mais violência? Eu acredito que sim. Mas que nada se resolve com mais repressão e mais violência. Impressionante a cena, por exemplo, de um tanque de guerra patrulhando as ruas e disparando contra um prédio.

Detroit tem várias cenas marcantes. Estas duas que eu citei são dois bons exemplos da força a história contada pela diretora Kathryn Bigelow e com roteiro de Mark Boal. Mas… um dos problemas da produção é que ela é longa demais. Detroit tem 2h23min de duração. Hoje, mais do que antes, acho que poucos filmes merecem ter mais de 2h… a maioria poderia ter, inclusive, 1h30min de duração. Sendo assim, não. Não há necessidade de Detroit ser tão longo. Existem alguns elementos da produção que poderiam ser perfeitamente “enxugados” para tornar a narrativa mais cadenciada.

Entre várias outras sequências e fatos narrados na produção, sem dúvida o que ocupa o maior espaço no roteiro e no tempo do que vemos em tela é a sequência envolvendo o Motel Algiers em que parte dos amigos cantores do grupo The Dramatics vai se refugiar após mais uma noite tensa em Detroit. Aquele parecia ser um lugar seguro para eles ficarem até o toque de recolher passar, mas eles não sabiam que, ali, encontrariam pessoas sem noção do perigo como Carl (Jason Mitchell) que, com uma arma sem poder letal, acaba fazendo um disparo que desencadeia uma série de fatos trágicos.

Aquela sequência do motel é longa demais e parece não ter fim. A narrativa é contada em detalhes. Imagino que esta foi a intenção da diretora e do roteirista, contar os fatos minuciosamente e fazer o espectador vivenciar aquela sensação de terror sem fim. A sequência provoca angústia e indignação. Então sim, os realizadores conseguiram o efeito desejado. Mas, da minha parte, de quem gosta de uma narrativa menos redundante, eu preferia um pouco menos de repetição nesta parte do filme.

Cada um dos seis garotos e garotas que é torturado pelos policiais passa pelo mesmo “modus operandi”. Eles são questionados de forma violenta e ameaçadora quando estão em grupo e, depois, levados individualmente para um cômodo do motel para passarem por uma simulação de morte. (SPOILER – não leia se… bem, você já sabe). O problema é que um deles realmente é morto por um policial menos “ligado” na “psicologia” que está sendo usada naquela noite. Mas este não é o problema principal.

O policial Krauss, que realmente não se acha racista e acredita que apenas está “fazendo o seu trabalho”, não pensa duas vezes em matar duas pessoas desarmadas naquela noite. Logo na chegada dos policiais, ele atira para matar – e mais uma vez pelas costas – Carl. Depois, e esta é a uma das sequências mais cruéis do filme, ele mata o jovem Fred (Jacob Latimore), o último a ser solto e o único que não concorda em ficar quieto frente ao absurdo que ele presenciou. Krauss mata ele como se eliminasse a um inseto. É de arrepiar.

Então sim, Detroit tem ótimas sequências e uma narrativa franca que faz qualquer um ficar perplexo com a força que um absurdo como o racismo pode tomar tendo as condições certas para existir e se proliferar. Por outro lado, o filme tem algumas sequências repetitivas e outras que não agregam grande valor para a história – como o “chá de cadeira” que Krauss leva após fazer a sua primeira vítima, algumas sequências dele com outros policiais e, principalmente, grandes sequências que mostram The Dramatics e aquela cena musical da época.

Para mim, as melhores sequências do filme são aquelas que mostram a cidade de Detroit convulsionada, assim como a impactante ação da polícia e do Exército para reprimir o que está acontecendo. Também são marcantes as cenas dos crimes cometidos pelos policiais – representados, neste filme, pela figura de Krauss. Mas esta produção tem alguns pequenos defeitos que incomodam um pouco.

Para começar, não achei positivo o filme mostrar apenas um grande “vilão”. Até parece que apenas um sujeito “fora da curva” como Krauss é que foi responsável por grande parte do drama que vemos em cena. Sabemos que não foi assim. Vários policiais em 1967 e vários policiais hoje em dia nos Estados Unidos seguem tratando negros de forma diferente do que tratam os brancos como eles. Então não acho que ajuda a narrativa “resumir” boa parte destas figuras em apenas um personagem.

Depois, como eu disse antes, acho que o filme dedica tempo demais para questões secundárias daquela época, como o cenário musical e o grupo The Dramatics. Ok mostrar um pouco disso para apresentar um quadro mais completo da época, mas acho que a narrativa gasta tempo demais nestas partes. Também acho que o filme poderia ter condensado algumas narrativas paralelas, como os “bastidores” da polícia e até mesmo a repetição de fatos que acontecem no hotel.

Detroit é um filme importante e necessário. Toca em um tema que vale ser mostrado e debatido. A direção é bem feita, mas o roteiro podia ser um pouco mais objetivo e envolvente. No fim das contas, apesar de nos apresentar alguns personagens interessantes, não nos aprofundamos na vida de nenhum deles, além da história se distrair com pontos que não são muito relevantes para a história. Um bom filme, mas abaixo dos últimos que vimos da diretora.

NOTA: 8,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Eu já estou de olho no Oscar 2018, meus bons amigos e amigas do blog. Vocês que me acompanham há mais tempo, sabem que eu não acho o Oscar algo fundamental ou realmente o melhor critério para definir um filme que seja bom. Sabemos que tem um peso muito grande no Oscar o lobby e os interesses da indústria cinematográfica de Hollywood – que, afinal, promove esta “festa” e premiação. Mas o que eu acho importante no Oscar é a seleção que esta premiação nos apresenta – especialmente na fase atual, em que são divulgadas listas enormes de produções que estão “habilitadas” para chegar até a premiação.

Digo isso porque vocês vão ver, pouco a pouco, eu comentando bastante sobre produções que eu acho que tem ou não chance de serem indicados ao Oscar. Detroit é um filme que teria predicados para chegar lá – uma diretora que já ganhou uma estatueta, um roteirista que também já foi premiado -, mas que, francamente, acho que não terá fôlego para tanto. Quer dizer, tudo depende da qualidade dos concorrentes deste ano. Mas olhando de “longe” para a premiação, acho que Detroit não conseguirá ser indicado. Talvez consiga emplacar a indicação a alguma categoria técnica, como Melhor Design de Produção ou Melhor Edição. Veremos.

Gostei, em especial, dos cartazes de Detroit. Neles a gente lê “Detroit. This is America”. Soco no estômago. Importante e necessário. E que este filme sirva de tema de debate dentro e fora dos Estados Unidos. Já passou da hora. E serve para nós, no Brasil, que precisaríamos discutir o preconceito racial, contra as mulheres e tantas outras formas de abuso e violência cotidiana.

Da parte técnica do filme, sem dúvida alguma a direção de Kathryn Bigelow e a reconstrução dos detalhes da época feito pela equipe que a diretora escolheu são os pontos fortes de Detroit. Merecem elogios o diretor de fotografia Barry Ackroyd; a edição de William Goldenberg e de Harry Yoon; o design de produção de Jeremy Hindle; a equipe de 63 profissionais envolvidos com o departamento de arte, responsáveis por reconstruir a Detroit de 1967; os 22 profissionais envolvidos com o Departamento de Som; e os 43 profissionais responsáveis pelos Efeitos Visuais do filme.

Do elenco, poucos nomes acabam tendo destaque porque Detroit tem, na verdade, uma profusão de personagens. O roteiro de Mark Boal realmente não se aprofunda na história de nenhum deles. Como não temos o contexto das vidas dos personagens, poucos realmente chamam a atenção. Assim, do elenco, chamam mais a atenção por terem mais espaço em cena para demonstrar o seu trabalho os atores John Boyega, que interpreta a Dismukes, um segurança negro que se vê envolvido na situação dos crimes no motel; Will Poulter como o policial branco racista e assassino Krauss; Algee Smith como Larry, uma das lideranças da banda The Dramatics e que muda radicalmente de vida após a noite no motel; e Jacob Latimore como Fred, uma das vítimas daquela noite no motel e que se destaca, realmente, ao confrontar ao personagem de Krauss.

Além deles, vários outros atores fazem parte deste filme, mas em papéis menos expressivos. Ainda assim, vale citá-los. Até porque cada um deles tem algum momento de destaque na narrativa: Jason Mitchell como Carl; Hannah Murray como Julie; Jack Reynor como o policial Demens; Ben O’Toole como o policial Flynn; Kaitlyn Dever como Karen; John Krasinski como o advogado que defende os policiais Auerbach; Anthony Mackie como Greene; Nathan Davis Jr. como Aubrey; Gbenga Akinnagbe como Aubrey Pollard Sr.; Tyler James Williams como Leon; e Austin Hébert como o oficial Roberts.

Detroit estreou em première no dia 25 de julho na cidade que dá nome ao filme. Três dias depois o filme entrou em cartaz nos Estados Unidos, mas ainda em poucas cópias – um dia após o “aniversário” de 50 anos do início da revolta em Detroit -, estreando para valer no país e no Canadá no dia 4 de agosto. No Brasil, ele estreou no dia 6 de outubro no Festival Internacional de Cinema do Rio de Janeiro, chegando ao circuito comercial apenas no dia 12 de agosto. Eu assisti ao filme há umas duas semanas, por isso não lembro de todos os detalhes dele. 😉 Mas do essencial eu me lembrei.

Esta produção custou uma pequena fortuna: US$ 34 milhões. Nos Estados Unidos, o filme fez pouco quase US$ 16,8 milhões até o dia 28 de julho. Pouco, hein? Ainda que a produção consiga uma bilheteria boa fora dos Estados Unidos, dificilmente o filme vai conseguir se pagar.

Agora, algumas curiosidades sobre esta produção. Detroit foi filmado seguindo o estilo que Kathryn Bigelow adotou em The Hurt Locker. Ou seja, diversas sequências da produção tinham três ou quatro câmeras rodando ao mesmo tempo, e próximas dos atores, para dar aquela sensação de “história acontecendo sob nossos olhos”. A diretora gosta de trabalhar com atores que podem improvisar e não faz ensaios em que eles tenham pouca possibilidade de movimentação. Pelo contrário. Ela também prefere acompanhar os atores de perto, mas sem bloquear as suas possibilidades de movimento. E isso nós vemos bem em Detroit.

O ator John Boyega teve a oportunidade de conhecer pessoalmente a um dos sobreviventes daquela cena do motel, Melvin Dismukes, que ele retrata nesta produção. Outro ator que está nesta produção, Algee Smith, que interpreta a Larry, da banda The Dramatics, compôs a canção Grow, que ouvimos no filme, e que é interpretada por Smith e Reed.

Grande parte da produção e toda a sequência de Argel foram rodadas em ordem cronológica.

Detroit foi rodado nas cidades de Mason, Detroit, ambas no Michigan; em Brockton, Lawrence, Boston e Lynn, todas em Massachusetts.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,6 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 178 críticas positivas e 38 negativas para o filme, o que garante para Detroit uma aprovação de 82% e uma nota média de 7,5. A nota dos dois sites é muito boa, levando em conta os padrões dos dois lugares que reúnem críticas do público e da crítica. Ou seja, Kathryn Bigelow agradou a ambos. Da minha parte, como disse antes, eu gostei, mas não tanto quanto eu achei que gostaria.

Esta é uma produção 100% dos Estados Unidos. Por isso, o filme passa a integrar a lista de produções que atendem a uma votação feita há tempos aqui no blog. Até o momento Detroit não recebeu nenhum prêmio.

Achei algumas reportagens interessantes que mostram o quanto o filme Detroit é ou não fiel ao que realmente aconteceu na cidade de Detroit em 1967. Entre outros artigos que vale conferir, destaco este do site History vs Hollywood; este outro da revista Time; mais este texto do site The Wrap e esta outra reportagem do The Detroit News. No fim das contas, o filme de Kathryn Bigelow adotou uma série de “licenças poéticas”, como se pode notar por estas reportagens. Mais um fator que deve tornar as chances desta produção no Oscar pequenas.

CONCLUSÃO: Eu gosto da diretora Kathryn Bigelow. Ela tem estilo, tem assinatura, e gosta de temas importantes/relevantes. Não é diferente com este Detroit. Novamente ela assume o seu estilo de direção um tanto “documentarista” para nos contar uma história importante para os americanos, em especial. O filme é bem feito, tecnicamente falando, e toca em temas importantes. Mas achei o desenvolvimento da história um tanto lento, em algumas partes, e a produção longa demais. Sim, a longa sequência no hotel, que parece não ter fim, é para nos causar angústia. Algo que a diretora consegue. Kathryn Bigelow entrega mais um bom filme, mas nada além do mediano. Não é o seu melhor trabalho, mas vale conferir.