A Quiet Place – Um Lugar Silencioso

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Vivemos em sociedades cheias de barulho, de ruídos, de verborragia. É difícil encontrar o silêncio, muitas vezes, mesmo quando ele é tão necessário. Agora imagine uma sociedade em que o silêncio impera. E, mais que por qualquer outra razão, por uma questão de sobrevivência – e de poucos. Esse é o pano de fundo do interessante A Quiet Place. O filme assusta menos do que o esperado, mas tem alguns insights bastante interessantes. Ele também faz pensar, especialmente sobre um ou dois pontos que não ficam tão claros na história – mas estão subentendidos.

A HISTÓRIA: Dia 89. Vemos a uma cidade deserta, com ruas vazias, e dentro de uma venda, encontramos uma parede cheia de fotos de pessoas desaparecidas. Nesse local, abandonado, mas com muitos produtos – incluindo medicamentos – dentro, uma criança caminha ligeiro e na ponta dos pés. Em seguida, vemos a uma menina maior caminhando no local, e um garoto sentado no chão.

A mãe das crianças, Evelyn Abbott (Emily Blunt), surge em seguida e começa a buscar um remédio específico entre os medicamentos que estão em uma prateleira. Em seguida, ela dá o remédio para o filho maior, Marcus (Noah Jupe). Eles falam pela língua de sinais, e o garoto diz que está bem. O filho menor, Beau (Cade Woodward), desenha uma nave no chão e mostra para a irmã, Regan (Millicent Simmonds). Ele diz que é assim que eles vão fugir. A obsessão do garoto pelas espaçonaves acaba colocando a família em risco.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a A Quiet Place): Que filme interessante! Uma produção que, como tantas outras de qualidade, tem mais de uma camada de leitura e de interpretação. A Quiet Place tem uma pegada curiosa desde o princípio. Para começar, pela coragem do filme ser todo baseado no silêncio. Hoje, na sociedade em que vivemos, incluindo a cultura de filmes cheios de som e de efeitos especiais, investir em uma história com essa pegada é realmente algo corajoso.

Apenas por isso, o filme já merece os parabéns. Porque ele vai contra a corrente dos blockbusters dos anos 2000 e apresenta uma outra forma de fazer cinema tão interessante quanto – cada uma com o seu propósito, é preciso ponderar. Além disso, o diretor, roteirista e protagonista desta história, John Krasinski, acerta ao apostar em um cinema sensorial e que resgata alguns dos princípios do cinema do grande Alfred Hitchcock.

Aqui não interessa tanto as razões do que estamos assistindo. Não sabemos como tudo começou – apenas por alguma pincelada aqui e ali – ou como a família que conduz essa história sobreviveu. O que importa em A Quiet Place é o tempo atual, os desafios dos personagens e, principalmente, o perigo que eles enfrentam a todo momento. Apesar das regras do perigo serem claras – você deve evitar fazer barulho o tempo todo -, o filme ganha pontos ao mostrar que as pessoas se acostumam com tudo, até com aquele estado de atenção constante.

A Quiet Place consegue equilibrar, assim, momentos de pura tensão e adrenalina por causa do perigo que ronda os personagens com cenas de um “cotidiano” já esquecido por aquele contexto. Algumas das cenas que eu mais gostei do filme tem a ver com isso. Além do desejo de brincar do pequeno Beau, logo no início do filme, até a bela cena em que Evelyn procura o marido, Lee, para os dois dançarem juntos – ouvindo a música com fones de ouvido, é claro.

Graças a essas escolhas, o filme de Krasinski não se resume apenas a um compêndio de cenas tensas. As sequências de “vida real”, de pais tentando fazer o melhor possível para criar, educar e proteger os seus filhos em um ambiente totalmente perigoso e tenso, é o que torna essa produção interessante e passível de empatia. Não é difícil se colocar no lugar dos personagens – tanto adultos quanto das crianças. E isso é algo mágico no cinema.

A Quiet Place acerta, assim, no tom e na narrativa. Além disso, ele nos faz pensar em pontos essenciais sobre a visão de mundo das pessoas e sobre cenários “pós-apocalípticos”. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Um dos primeiros pensamentos que veio na minha mente, quando o tempo passa e o filme salta daquele começo para o dia 473, quando vemos a protagonista grávida, foi: “Claro, você vive em uma realidade em que você não pode fazer barulho, ou falar, ou gritar, e qual é a melhor alternativa nesse cenário? Engravidar e ter um filho que já vai nascer chorando”.

Mas aí você pensa: “Ok, estou em um cenário pós-matança geral das sociedades. Como eu vou continuar com a civilização se eu não tiver filhos?”. Algo estilo Noé. Por isso eu falava sobre as várias camadas dessa produção. Certamente o casal de protagonistas tinha essa convicção de que eles deveriam continuar a ter filhos para “preservar a espécie”. E, também, possivelmente, porque eles são casados e, segundo algumas crenças, são isso que os casais fazem, certo? Eles têm filhos.

Essas são as únicas justificativas para aceitarmos que um casal continue a ter filhos naquele cenário mostrado por A Quiet Place. Então, assim meio sem querer, esse filme nos coloca em questão a reflexão lógica e o sentido de sobrevivência versus a questão das crenças, da fé e afins. Porque realmente não faz o mínimo sentido os Abbott pensarem em ter um filho naquela realidade em que o silêncio é fundamental.

Por causa dessa ideia, que nos desafia a lógica e também a nossa capacidade de aceitar as escolhas diferentes dos demais, é que A Quiet Place começa a revelar os seus pequenos defeitos. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Para começar, é interessante que o casal Abbott tenha pensado em um “quarto” quase à prova de som onde, em teoria, o filho deles iria nascer. Mas as coisas saem mal – e isso sempre rende bons momentos em filmes de suspense e terror – e Evelyn acaba tendo o filho no banheiro que não é à prova de som.

Ora, eis o primeiro problema da história – talvez até tenham tido outros antes, mas esse me pareceu o mais gritante. Se alguns tiros despertam a atenção de vários “bichos estranhos” no final do filme, o nascimento de uma criança não iria fazer o mesmo? Para que aquela cena do banheiro se justifique, a criança teria que ter nascido em pleno silêncio. Alguém realmente acredita nisso? Que a mãe tenha se esforçado ao máximo e não tenha gritado de dor, tudo bem, mas a criança ter nascido sem abrir o berreiro… não é impossível, mas é extremamente improvável.

Além disso, me pareceu um tanto forçado o fim de Lee. Ok, Regan poderia não ser muito “esperta” ou ter pensamento rápido, mas realmente, além do aparelho dela a incomodar, ela não reparou que ele afastava o perigo? Na cena da caminhonete, foi a segunda vez que ela passou por aquilo. E o que ela faz? Ao invés de afastar o perigo, ela desliga o aparelho e deixa todos vulneráveis. E aí o pai das crianças, claro, assume a responsabilidade de protegê-las de qualquer forma.

Aquela sequência me pareceu um tanto forçada por causa disso. Também me pareceu um tanto forçado que a solução para aquele problema tivesse sido descoberto daquela forma, acidental, e por uma pré-adolescente, enquanto exércitos e cientistas antes forma exterminados sem terem pensado naquela mesma ideia. Para mim, esses são os problemas da produção, junto com a sequência em que Evelyn escapa com o bebê mesmo tendo ficado frente a frente com o inimigo quando a “sala segura” é inundada.

Mas descontados esses pequenos problemas do roteiro, esse filme se apresentar muito potente e interessante. Ele realmente envolve o espectador e nos faz, com bastante facilidade, nos sentirmos “na pele” dos personagens. Apesar disso, desse resgate salutar de filmes que alimentavam a nossa tensão explorando muito mais as fragilidades humanas do que os “perigos inexplicáveis” – vide Hitchcock -, eu esperava me assustar mais.

A Quiet Place é um filme muito eficaz em nos deixar tensos. Em esperarmos o pior a qualquer momento. Mas ele não nos apavora ou nos assusta como outras produções já conseguiram antes. Eu procuro não ler sobre os filmes antes de assisti-los, mas acabei vendo, aqui e ali, em portais de notícias, que alguns consideravam esse filme o mais inovador em muito tempo. Sim, A Quiet Place tem uma pegada interessante e criativa, mas não acho ele tão surpreendente quanto Get Out (comentado aqui), por exemplo.

Assim, para resumir, A Quiet Place é um filme interessante, com uma proposta diferenciada em meio a tantos filmes cheios de som e de efeitos especiais, mas que acaba caindo em alguns lugares-comum. Por exemplo, as características da ameça que a família Abbott enfrenta. Será mesmo que não vamos conseguir abandonar aquele perfil de “alien” que já conhecemos? Não fica evidente se a ameaça veio de fora da Terra ou se é produto de uma mutação, mas isso pouco importa. Impossível não lembrar dos filmes Alien ou Predator.

Então esse certo “lugar-comum” do perfil da ameaça enfrentada pelos personagens me incomodou um pouquinho. Por outro lado, achei interessante outra leitura que surge após o filme terminar. Você pararam para pensar em quem era a pessoa mais preparada para enfrentar aquele cenário? Alguém que nasceu no silêncio e que não teria dificuldade alguma em conviver com ele até o final? Sim, justamente a personagem surda-muda de Regan.

Isso me fez pensar. O que é, afinal, uma pessoa “menos preparada” para o mundo? Já tivemos imbecis na história da nossa civilização que acreditavam em desenvolver uma “super raça” de pessoas perfeitas e em eliminar todos aqueles que tinham alguma “imperfeição” – até hoje há imbecis que defendem esse equívoco. E aí vem um filme como A Quiet Place para nos mostrar, como com um tapa na cara, que talvez essas pessoas “imperfeitas” – e quem não é? – sejam just

NOTA: 8,7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Uma das qualidades de A Quiet Place é que a história é centrada em poucos personagens. Assim, fica mais fácil do público “se aproximar” deles e de desenvolver a empatia necessária para “sofrer” e sentir a tensão junto com eles. Sem dúvida alguma, uma escolha acertada para essa produção funcionar.

Fiquei especialmente feliz em ver a John Krasinski novamente. Primeiro, estrelando um filme que caiu na graça do público e da crítica. E, depois, ao saber que ele é o grande responsável por A Quiet Place. Krasinski escreveu o roteiro ao lado de Bryan Woods e Scott Beck, a dupla que teve a ideia original de A Quiet Place, e também dirigiu o filme. Eu gosto muito dele desde a época de The Office – uma grande série, aliás. Se você ainda não assistiu à versão americana da série inglesa, versão essa que conta com Krasinski, vá atrás. Vale muito a pena.

Além de Krasinski, que faz um belo trabalho como o protagonista dessa história, estão muito bem em seus papéis também as atrizes Emily Blunt e Millicent Simmonds e o jovens atores Noah Jupe e Cade Woodward. Toda a história gira em torno da família formada por eles, mas algumas outras figuras aparecem rapidamente em cena. Como o casal de idosos que aparece na floresta e que é interpretado por Leon Russom e Doris McCarthy.

Entre os elementos técnicos do filme, vale destacar a ótima fotografia de Charlotte Bruus Christensen; a trilha sonora fundamental de Marco Beltrami; a edição precisa de Christopher Tellefsen; o design de produção de Jeffrey Beecroft; a direção de arte de Sebastian Schroeder; a decoração de set de Heather Loeffler; os figurinos de Kasia Walicka-Maimone; o fundamental trabalho dos 20 profissionais envolvidos com o Departamento de Som; e o trabalho dos 42 profissionais envolvidos com os Efeitos Visuais.

Agora, estava pensando em um ponto. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Eu não li ainda vários textos sobre esse filme. Mas consigo imaginar que ele pode suscitar uma série de debates e questionamentos. Por exemplo, imagine você ficando grávida – se for mulher, claro. E se for marido dessa mulher, imagine você sabendo que a sua mulher está grávida em um cenário em que vocês não podem nem conversar. O que você faria?

Da minha parte, eu procuraria um bunker ou um lugar similar, já planejado para ter uma super proteção e que fosse à prova de som. Então porque os Abbott não procuraram um bunker? Claro, você vai dizer, porque aí esse filme não existiria. Até pode ser, ou ele existiria com um pouco mais de inteligência e outros desafios a serem vencidos. 😉 Mas que faria mais lógica uma busca dessa, certamente.

Digam o que disserem, mas em um cenário pré-apocalipse de “invasão alienígena” – ou do que for -, os jornais ainda seguiam importantes. 😉 Vide os recortes guardados por Lee e o jornal da banca que já nos falava no início do filme sobre a grande questão naquele momento. A manchete dizia, simplesmente: “É o som”. Interessante.

Achei muito interessante uma sacada dessa produção. Como em um jogo de videogame “modernete”, a história muda conforme “varia” a perspectiva dos personagens. Assim, ouvimos sons normalmente quando estamos vendo a realidade sob a ótica de Evelyn, Lee ou Marcus, mas não escutamos nada quando estamos sob a ótica de Regan. Sacada bacana essa. Funciona muito bem e dá outra perspectiva para o filme e os espectadores.

A Quiet Place estreou no dia 9 de março no Festival de Cinema South by Southwest. Depois, o filme participou de apenas mais um festival de cinema, o Blood Window Fest. No Brasil, o filme estreou no dia 5 de abril. Assisti ele há uma semana e gostei do que eu vi – apesar das considerações que eu fiz acima.

Agora, algumas curiosidades sobre essa produção. A atriz Millicent Simmonds é surda desde a infância por causa de uma overdose de medicamentos. A Quiet Place foi o segundo filme que ela fez. Achei a atriz muito talentosa e com grande expressividade. Torço para que ela tenha outros filmes interessantes para fazer.

O roteiro original de Bryan Woods e de Scott Beck tinha apenas uma linha de diálogo. Curioso. O roteiro deles foi eleito um dos 10 melhores do ano segundo o Tracking Board, uma eleição anual feita por profissionais da indústria do cinema nos Estados Unidos.

Os atores John Krasinski e Emily Blunt são casados na vida real. Inicialmente, Woods e Beck escreveram o roteiro para a Paramont, que enviou o material para Krasinski, que já tinha sido escolhido para estrelar o filme. Quando a esposa dele leu o roteiro, ela também quis participar. E foi assim que os dois estrelaram essa produção. E, cá entre nós, eles SÃO o filme. Estão ótimos e muito, muito convincentes.

Por pouco a Paramount não colocou A Quiet Place como um filme da franquia Cloverfield. Mas os realizadores – especialmente os roteiristas – ficaram aliviados por conseguirem fazer um filme independente. Honestamente, não assisti aos filmes Cloverfield. Por isso, pergunto para quem já os viu: faria sentido A Quiet Place entrar nessa franquia? Mesmo sem esse conhecimento de causa, essa ideia me pareceu um tanto estranha.

Algo importante para a história – e algo que me fez pensar enquanto eu assistia ao filme: o dispositivo que Reagan utiliza é um implante coclear e não um aparelho auditivo simples. E a explicação para isso: “A deficiência auditiva geralmente envolve danos ou subdesenvolvimento da cóclea, que traduz vibrações no ar para impulsos nervosos que o cérebro percebe como som”. Ou seja, a personagem não tinha apenas um aparelhinho colocado no ouvido, mas um implante que provavelmente lhe causava uma dor muito maior quando entrava em “conflito” com a “sintonia” das criaturas.

A Quiet Place foi filmado em 36 dias. Essa produção, segundo o site Box Office Mojo, teria custado cerca de US$ 17 milhões e faturado, apenas nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 67 milhões. Nos outros mercados em que o filme já estreou, ele fez quase US$ 25,7 milhões. Ou seja, no total, até o dia 12 de abril, A Quiet Place tinha faturado US$ 92,7 milhões. Alguma dúvida que ele está rendendo um belo lucro para os produtores e o estúdio? Fico feliz por esse resultado, porque ele pode incentivar os estúdios a apostarem cada vez mais em produção não muito óbvias. E nós, que amamos cinema, ganhamos com isso.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,3 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 222 críticas positivas e 11 negativas para esse filme, o que garante para A Quiet Place um nível de aprovação de 95% e uma nota média de 8,2.

Por sua vez, o site Metacritic registra um metascore de 82 para essa produção, com um raro registro de 54 críticas positivas para o filme (e nenhuma negativa ou mediana). Essas notas, altas para os padrões dos sites, e o nível de críticas positivas demonstra como esse filme caiu no gosto do público e da crítica de uma maneira especial.

Esse é um filme 100% dos Estados Unidos. Por isso, ele entra na lista de produções que atendem a uma votação feita aqui no blog há algum tempo.

CONCLUSÃO: Um filme interessante, com algumas ideias bacanas e bem desenvolvido. Mas sou franca em dizer que eu esperava mais, até porque A Quiet Place recebeu muitos elogios – que eu vi bem por cima, mas que foram suficientes para aumentar a minha expectativa. Essa produção se destaca pelo trabalho dos atores, pela angústia e pelo suspense bem construídos, mas se torna um pouco óbvia e previsível em algumas partes. Não é tão surpreendente quanto Get Out, por exemplo. Mas vale ser visto, especialmente pelo que nos faz refletir depois que a projeção termina e que passamos a refletir sobre detalhes da história.

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Salmon Fishing in the Yemen – Amor Impossível

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Lasse Hallström é um especialista em fazer filmes bonitos. Ele busca belas imagens, e gosta de ter tempo de revelá-las. Nos incita à contemplação. Não é diferente com Salmon Fishing in the Yemen, um filme divertido, muito inglês, e que busca enfatizar como não há limites para a vontade – e o dinheiro. Bem ao estilo de Hallsröm, que gosta de adaptar romances bacaninhas para a telona, Salmon Fishing aborda temas muito diferentes de forma leve e um tanto descompromissada.

A HISTÓRIA: Água, e belos peixes. Uma figura com vara de pescar e turbantes pesca em um cenário incrível. E começa a narrativa com uma carta escrita por Harriet Chetwode-Talbot (Emily Blunt), de um escritório de advocacia, para o Dr. Alfred Jones (Ewan McGregor). Ela diz que representa um cliente com muito dinheiro que quer financiar um projeto para que o Iêmen comece a produzir salmão. Harriet comenta, na correspondência, que o projeto tem o apoio do Ministério de Relações Exteriores inglês, que quer reforçar a cooperação com o pequeno país árabe que faz fronteira com a Arábia Saudita e Oman. Após mandar o e-mail para o Dr. Jones, Harriet sai para se encontrar com o militar Robert Mayers (Tom Mison), com quem ela está começando a se envolver. Dr. Jones acha a ideia de criar salmões no Iêmen absurda, mas acaba sendo forçado, por questões políticas, a embarcar no projeto financiado pelo Sheikh Muhammmed (Amr Waked).

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momento importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Salmon Fishing in the Yemen): Um ponto forte desta produção é o humor da história. E a coragem do roteiro de Simon Beaufoy, adaptado do livro de Paul Torday, em refletir sobre questões como as relações diplomáticas, a política inglesa e seus “veja bem”, assim como na ironia de mostrar os extremos de um cientista que busca lógica constante e de um sheikh árabe movido pela fé e que tem dinheiro suficiente para mover montanhas.

Como a vida mesma ensina, este filme revela como as convicções vão sendo modificadas e enfraquecidas pela experiência. Nem o cientista segue sendo tão objetivo quando ele esperava, nem o sheikh com todas as ferramentas na mão (especialmente a fé e o dinheiro) consegue tudo o que quer. A vida é mais complexa do que parece, como escreveria e cantaria Jorge Drexler. E as variantes vão nos moldando. Porque a nossa vontade, por mais que algumas vezes surpreendente, sempre é limitada. O desejo de um indivíduo esbarra na vontade de seu semelhante, quando as pessoas não estão olhando na mesma direção.

Salmon Fishing in the Yemen ensina um pouco sobre isso. O que é surpreendente. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Por incrível que pareça, este filme me fez lembrar de algums discussões que eu tive o prazer de ter no meu doutorado. Especificamente sobre projetos de desenvolvimento local. O erro mais comum, incluside de organizações internacionais de respeito, é querer implantar em locais diferentes as mesmas fórmulas de desenvolvimento. Sem se preocupar em ouvir as pessoas daquela localidade, seja para saber se aquela proposta é adequada para elas, seja para despertar nos indivíduos a capacidade de encontrarem soluções para os seus próprios problemas. E Salmon Fishing trata exatamente disto.

O sheikh Mohammed está cheio de boas intenções, investe um rio de dinheiro – literalmente – para levar uma alternativa econômica e de renda para aquele local antes depreciado, mas não encontra este mesmo entendimento entre um grupo de pessoas local. Claro que se ele tivesse feito outro movimento, como ouvir as pessoas locais antes de atuar, envolvendo elas nesta proposta de desenvolvimento, ele teria tido outra resposta. O que nos leva a outra questão: por mais que achemos que estamos fazendo o bem e uma escolha certa, devemos sempre nos questionar. Partir da posição humilde de que não sabemos tudo, e que deveríamos ouvir mais do que falar aquilo que, para nós, parece tão evidente e certo.

Salmon Fishing, aliás, parece estar sempre falando sobre como esta posição humilde de questionar-se sempre parece ser a mais adequada. Dr. Jones e Harriet acabam, cada um em seu momento, questionando as suas próprias escolhas de vida. O sheikh, por mais diferente que é a sua realidade e firmeza de propósitos, também acaba se questionando. E o que o filme mostra, e eis uma parte bacana dele, é que há sempre alternativas. Não importa o problema que você esteja enfrentando, ou as escolhas que já tenhas tido na vida, há sempre um novo recomeço possível. Para isso, basta ter um pouco de fé, e alguma humildade e coragem.

Fora as questões filosóficas sobre ter paciência – a velha alusão ao ato de pescar – e de investir em uma ideia movidos pelo amor, Salmon Fishing acerta ao contrapor os homens “da ciência e da fé”, justamente para mostrar que eles não são tão diferentes assim e podem ser igualmente “contaminados” por uma característica ou outra. Porque, no fim das contas, e ainda que o Dr. Jones não tenha percebido, mas é justamente o amor por uma mulher (no caso dele) ou por uma ideia/povo (no caso do sheikh) que move ele, Harriet e o sheikh.

Achei especialmente engraçado como o protagonista, tão enfático em seu conhecimento científico, é tão “inocente” a respeito da vida real. Como Dr. Jones, há muitos especialistas espalhados por aí que são quase autistas. Vivem tão fechados em seus mundos científicos que não percebem como o restante da vida se desenvolve. Para ele, como cientista, é impossível criar salmões em um clima como aquele do Iêmen. Mas ele logo descobre que não há fronteiras para a capacidade do dinheiro em mudar realidades e transformar o impossível em algo possível. Certamente ele amadurece conforme esta história se desenvolve, e acompanhá-lo nesta “passagem” da vida pueril de um cientista para a de um sujeito que embarca em um projeto cheio de interesses e interessante encanta o espectador.

Outro acerto da produção é ironizar não apenas o jeito interessante dos ingleses encararem a sua própria intimidade, como também os bastidores da política. Servem de condimento para a história a relação fria entre Alfred e Mary Jones (Rachael Stirling). Eles são destes casais, e há muitos na Inglaterra e em outros países, que ficaram juntos cedo e que são mais amigos do que amantes ou confidentes. Há pouca intimidade naquele lar. E essa falta de paixão contamina todo o restante.

A mesma intimidade pouco afetiva é vista na casa da poderosa Patricia Maxwell (a excelente Kristin Scott Thomas), assessora de imprensa do Primeiro Ministro britânico. Fora de casa ela intimida e consegue mudar as coisas a favor do governo britânico impondo autoridade, mas dentro do lar ela não consegue ser ouvida pelo filho adolescente. Um contraste interessante e que faz refletir sobre a capacidade de homens em mulheres em obter sucesso em determinado campo da vida – profissional ou pessoal – mas, dificilmente, em todos. Até porque, e Salmon Fishing fala sobre isso, a dedicação para um propósito ou outro faz toda a diferença.

NOTA: 8,9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Não li ao livro de Paul Torday, e que inspirou o roteiro de Salmon Fishing, mas algo eu posso dizer: que belo trabalho de Simon Beaufoy! Mais um, aliás. Aqui, outra vez, ele cuida de um roteiro ágil, cheio de diálogos preciosos e bem planejados/costurados. Não há sobras, e sim muitas linhas bem escritas. Dá gosto de ver um roteiro assim. E ainda que ele não seja muito surpreendente, no final, ele segura o interesse até o último minuto, bastante ajudado pelo carisma dos protagonistas e pelo ótimo trabalho dos coadjuvantes.

Falando nos coadjuvantes, Kristin Scott Thomas rouba a cena cada vez que aparece. Mas junto com ela, merecem ser mencionados alguns atores que fazem a diferença. Como, por exemplo, Conleth Hill, que interpreta a Bernard Sugden, o burocrata que é o chefe do Dr. Jones, político padrão, e que morre de medo de Patricia Maxwell. Os dois servem como uma ótima dupla de apoio para os protagonistas, junto com o excelente egípcio Amr Waked, que tem uma presença impressionante frente às câmeras, e do galã com pequena participação na trama, Tom Mison.

Salmon Fishing conseguiu, até o dia 3 de junho, pouco mais de US$ 9 milhões nas bilheterias dos Estados Unidos. Um desempenho baixo, comparado com os blockbusters, mas não está mal para um filme com estilo “alternativo”.

Esta produção estreou no Festival de Toronto em setembro de 2011. Depois, ele participou de outros três festivais de cinema, o de Portland, de Palm Springs e o de Tokyo. Nesta trajetória, ele conquistou um prêmio, o segundo lugar como melhor narrativa no festival de Palm Springs. Recentemente ele foi indicado para três prêmios no Globo de Ouro: Melhor Filme – Musical ou Comédia, Melhor Ator em Filme – Musical ou Comédia para Ewan McGregor e Melhor Atriz em Filme – Musical ou Comédia para Emily Blunt. Acho bem difícil ele ganhar qualquer um destes três.

Da parte técnica do filme, merecem ser mencionados os ótimos trabalhos do diretor de fotografia Terry Stacey, a trilha sonora de Dario Marianelli, e a edição de Lisa Gunning, que dá um ritmo interessante e que apresenta um trabalho técnico excelente.

Para quem gosta de saber aonde as produções foram filmadas, Salmon Fishing foi rodado em Londres, na Escócia e em Marrocos.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,8 para esta produção. Não está mal, avaliando a média de notas do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 91 críticas positivas e 45 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 67% e uma nota média de 6,2.

De fato, público e crítica tiveram uma avaliação muito próxima. E a minha, acima, talvez tenha sido muito generosa. Mas é que me surpreendi com todos os temas que esta produção trata. Admito, contudo, que ela simplifica um bocado os personagens principais – Dr. Jones muito estigmatizado como o “cientista insensível e deslocado do mundo real” e o sheikh muito estereotipado como o sujeito cheio da grana que gasta um rio de dinheiro em um projeto absurdo. Mas a verdade é que estes personagens existem na vida real, com um pouco menos ou mais de caricatura. Então devo dizer que este filme me convenceu, apesar do exagero em alguns momentos e pela falta total de surpresa na reta final. Mas tudo isso para dizer que eu entendo a avaliação menos generosa das outras pessoas. 🙂

Salmon Fishing in the Yemen é uma produção 100% inglesa.

Agora, uma pequena e fácil observação: o título original é bacana porque é autoexplicativo e resume parte da produção. Por outro lado, o título para o mercado brasileiro… horrível. Como em tantas outras vezes. Que Amor Impossível o que? Lamentável.

CONCLUSÃO: Há uma grande dose de realidade e de fantasia neste filme. Pescar, e isso Hemingway e tantos outros escritores já haviam nos ensinado, é uma questão filosófica e quase espiritual. Por tratar também de pescaria, Salmon Fishing in the Yemen pretende ser além do que uma bonita embalagem. Ele roça em questões como fé, superação humana e a motivação para nos fazermos maiores do que o ser insignificante (mas poderoso) que somos. E a grande motivação, claro, é o amor. Agora, francamente, se esta produção fosse apenas isto, filosofia em forma de pílulas, ela seria chata. Mas ela vai além. Aborda o jeito inglês de viver, trabalhar e amar, assim como os bastidores ridículos da política. Imagem é tudo, já diria uma certa propaganda. E o roteirista Simon Beaufoy e o diretor Lasse Hallström acertam a mão ao misturar todos estes elementos, buscando o equilíbrio entre eles. O resultado é um filme divertido, muito bem conduzido, que não surpreende no final, mas que traz alguns elementos interessantes no decorrer da história, além de um grupo de atores muito concentrado e com bom desempenho. Vale ser conferido, ainda que não seja inevitável.

PALPITES PARA O OSCAR 2013: Salmon Fishing in the Yemen deve ser indicado em algumas categorias do próximo Oscar. Mas é difícil precisar em quantas. Como sempre, tudo vai depender do lobby de seus produtores e realizadores. Não seria surpreendente ele chegar a ser indicado como Melhor Filme, especialmente agora que até 10 produções podem chegar lá. Na versão anterior da premiação, quando apenas cinco eram indicadas, certamente ele ficaria de fora. Mas com a lista maior, é possível que ele chegue, mesmo não sendo o melhor do ano – e isso porque eu não assisti nem a metade dos favoritos.

Também é possível, pela “ficha corrida” de Hallström e pelo trabalho competente que ele fez nesta produção, que ele seja indicado como Melhor Diretor. É mais difícil, é verdade, mas nunca se sabe. No mais, não seria surpresa se o filme aparecesse na lista de Melhor Direção de Fotografia, Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Trilha Sonora. Porque cada um destes elementos funciona com perfeição e tem destaque na produção.

Mesmo que o filme chegue a conquistar todas estas indicações, francamente acredito que ele saia de mãos vazias da premiação. Talvez Salmon Fishing tenha mais chances em direção de fotografia e trilha sonora. Mas, ainda assim, meu palpite é que ele não deverá ganhar nada. O que não seria injusto, analisando os seus concorrentes.

Looper – Looper: Assassinos do Futuro

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Dizem que nada se cria, tudo se copia. Que tanto já foi feito e dito sobre amor, vingança, sentido de autopreservação e outros temas fundamentais que nada mais de original, verdadeiramente original, restou. Looper parece ser uma prova desta premissa. Ele lembra demais a “alma” de The Terminator para parecer original. Mas tem uma certa novidade, aqui e ali e, especialmente, apuro técnico que não fazem esta experiência ser ruim. Afinal, o que, de fato, é original?

A HISTÓRIA: O dia está prestes a amanhecer, e Joe (Joseph Gordon-Levitt) dá mais uma olhada em seu relógio de bolso, antes de seguir treinando palavras em francês. Ele olha fixo para a frente, onde repousa, no chão, uma lona extendida. Após dar mais uma olhada no relógio, ele se levanta, empunha a arma e atira no homem que surge a sua frente. Ele explica que a viagem no tempo ainda não foi inventada, em 2044, mas que 30 anos depois ela será proibida e utilizada por criminosos para que eles consigam se livrar das pessoas, já que despachar um corpo no futuro não será uma tarefa simples. Os assassinos especializados em se desfazerem destas pessoas do futuro são chamados de loopers. Joe é um deles.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta trechos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Looper): Falar de viagem no futuro outra vez… e como ser original? Provavelmente, após a trilogia genial de Back to the Future e os filmes incríveis de The Terminator, isso seja impossível. Ainda assim, o diretor e roteirista Rian Johnson se lançou neste desafio, entregando o interessante Looper.

E o filme começa com uma ironia superinteressante: ao invés de termos “exterminadores do futuro” voltando para o passado para eliminar alguma ameaça, acompanhamos as histórias de “exterminadores do passado” que puxam o gatilho para tirar do futuro inimigos de organizações criminosas. Interessante. A tradução do título no Brasil, assim, pode ser vista como errada ou correta. Como tudo se passa no futuro – 2044 e 2074 -, o título não está errado, ainda que pareça estranho.

Looper deixa muitos elementos para o público pensar. Alguns menos importantes que outros para a história. Por exemplo, de como a viagem no tempo tornou-se proibida no “segundo” futuro – para não tornar a história uma bagunça, já que, como nos ensinou Back to the Future, cada mudança, por mínima que seja, do passado, altera o presente e o futuro. Outro exemplo é como o futuro de 2074, além de viagem no tempo, tem a rastreabilidade levada à escala máxima – tanto que fica quase impossível para uma pessoa desaparecer.

Looper faz lembrar um pouco também o espírito de Mad Max. Não porque temos uma sociedade desolada de recursos, mas pela falta de “humanidade” dos cenários. Não temos heróis em Looper. As duas versões de Joe são, na essência, de bandidos sem remorso. Que apenas pensam como irão sobreviver. Joe não se esforça muito para ajudar o seu melhor amigo Seth (Paul Dano), quando ele precisa. E segue a linha dos demais loopers, de esbanjar dinheiro, viver a vida adoidado e desprezando todos os marginalizados da sociedade futurista.

Mesmo sem se aprofundar muito no contexto que cerca aqueles personagens, Looper deixa claro que as sociedades futuristas deixam as pessoas com medo. Tanto que boa parte delas vive armada, pronta para puxar o gatilho e acertar qualquer pessoa que pareça um pouco ameaçadora. Também é um tempo em que a evolução de uma habilidade – a telecinética – é vista como piada. Esqueçam os heróis e os superheróis. Ninguém quer saber deles, aparentemente.

Looper, assim, é um bocado cínico. Na essência. E acerta nas apostas que faz. Depois de mostrar o cotidiano repetitivo e frio de Joe e os demais loopers, o filme ganha interesse ao apresentar o “encerramento de um loop”. Cada um daqueles assassinos sabe que, mais cedo ou mais tarde, isso irá acontecer com eles. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). E a premissão não é ruim: após matar a você mesmo, você ganha várias barras de ouro e 30 anos de vida com liberdade para ser vivida.

Todo “exterminador do passado” sabe que isso vai acontecer com ele. Mas acompanhamos uma fase em que isto está ocorrendo com muito mais frequência. Porque há um vilão novo no futuro. E para acabar com esse inimigo é que o Joe de 2074 (o ótimo Bruce Willis) engana a morte – como não lembrar de The Terminator? Apenas o alvo mudou, afinal, o “senhor da chuva” já é um garoto, e não adianta mais matar a mãe dele. 🙂

O ritmo de Looper vai bem até o velho Joe aparecer e começar o seu plano de busca do vilão do futuro. Nesta hora, o Joe jovem ajuda a desacelerar um pouco o filme. Claro que esta “esfriada” é necessária para explicar a origem do poder do “senhor da chuva”, e revelar o que há de verdade na lenda que o velho Joe trouxe a seu respeito. Mas querendo ou não, aquela parte é a menos interessante da produção – até porque o garoto Pierce Gagnon, que interpreta a Cid, irrita um pouco com aquela cara demoníaca e sua “superinteligência”.

De qualquer forma, o ambiente envolvendo Cid e Sara (Emily Blunt) abre aquela velha discussão sobre o que define o futuro das pessoas. Quanto este futuro é determinado por sua “essência”, por características inatas que lhe acompanham de antes mesmo de nascer, e o quanto é determinado por sua criação, amor familiar, amigos e o restante do “meio” que vai lhe cercando a vida afora? A questão está lançada e tem uma certa resposta no final. Digo isso porque há muito para acontecer após aquela cena final, e fica a gosto de cada um imaginar o futuro a partir dali.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Um acerto de Looper é explicar o que irá acontecer antes de que aconteça. Vide o momento decisivo da conversa do Joe do futuro com a sua versão mais jovem. A explicação dele sobre as lendas envolvendo o vilão do futuro é o que torna a convivência de Joe, Sara e Cid interessante. E também, naquele momento, existe uma questão fundamental neste filme: afinal, o antigo é melhor que o novo ou vice-versa? Os “dois” Joe se sentem superior, de alguma forma. O mais jovem porque sabe que tudo que ele fizer vai determinar a sua versão mais velha. E o mais velho porque ele sabe todas as besteiras e visões equivocadas que o mais novo tem. Sem dúvida, aquele é o grande momento de Looper.

Impressiona como este filme é bem acabado nos efeitos especiais e, principalmente, como ele deixa tantos temas abertos para a discussão e a reflexão. O embate entre o velho e o novo aparece a todo momento. Assim como, e de forma muito natural, a velha questão de Back to the Future de como cada mudança no presente afeta o futuro. O Joe de Bruce Willis segue tendo a sua mulher (Qing Xu) na memória, ainda que tudo nos leve a crer que aquele futuro não irá acontecer. Isso porque, até que algo realmente se defina, ele ainda pode viver muitas das coisas que tinham ocorrido na primeira versão. Interessante.

O diretor Rian Johnson afirma que cuidou de cada detalhe do roteiro para que este filme não tivesse furos. Ainda assim, há pelo menos duas partes que eu não entendi muito bem (e, como sempre, agradeço quem puder ajudar a esclarecer). (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Primeiro: a primeria sequência em que Joe não mata a sua versão no futuro representa a imaginação dele enquanto espera a figura da vítima aparecer, atrasada, na sua frente? Segundo: por que Joe fica mais sensível para matar o segundo garoto? Parece até que ele conhece a Suzie (Piper Perabo). Para mim, a resposta para a primeira pergunta é que sim, Joe primeiro imagina aquela sequência antes de atirar em seu “eu do futuro” e, para a segunda, é de que o Joe velho não conhecia Suzie, mas hesita apenas porque ficou mais difícil para ele seguir matando crianças.

Uma sacada muito bacana de Looper é como a versão de Joe do futuro acaba aprendendo com os novos fatos que vão acontecendo com o Joe do presente. Bem pensado pelo diretor.

Interessante como Looper está recheado de ótimos atores. Além dos já citados, vale comentar a participação de Jeff Daniels como Abe, o homem que tira Joe das ruas e garante “um futuro melhor” pra ele ao torná-lo um looper; Noah Segan como Kid Blue, o capanga que quer impressionar Abe e que acaba sendo a parte “engraçada” e trapalhona da trama; Frank Brennan como o Seth do futuro; além da super ponta de Piper Perabo.

Tecnicamente, tudo funciona muito bem em Looper. Da trilha sonora envolvente de Nathan Johnson até a excelente e precisa edição de Bob Ducsay – um dos pontos altos do filme; a direção de fotografia de Steve Yedlin; o ótimo design de produção de Ed Verreaux e a direção de arte de James A. Gelarden – que ajudam o filme a ser estiloso. Por outro lado, há um quesito na parte técnica que me irritou – ainda que eu entenda a razão dele ter sido feito como foi: a maquiagem da equipe liderada por Kimberly Amacker, Jack Lazzaro, Aimee Stuit e Emily Tatum. Me incomodou, do início até o final do filme, a maquiagem feita a golpes de facão para tornar Gordon-Levitt mais “parecido” com Bruce Willis. Sei lá, acho que podiam ter resolvido esta questão de outra forma – como o velho Joe ter feito, para fugir da polícia, uma plástica no futuro ou algo assim.

Além daqueles pontos do roteiro que parecem um pouco mal amarrados – citados acima -, e da maquiagem de Gordon-Levitt, me irritou um pouco o exagero da interpretação do garoto Pierce Gagnon. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). O filme ia muito bem até o guri começar a surtar e parecer um personagem demoníaco de filmes de terror. Não tenho problemas com estes personagens, desde que eles estejam nos filmes do gênero. Um garoto diabólico em Looper me pareceu um pouco exagerado. Um pouco mais de sutileza para este personagem teria sido mais interessante.

Looper custou cerca de US$ 35,7 milhões e arrecadou, apenas nos Estados Unidos, até o dia 23 de novembro, quase US$ 65,6 milhões. Nada mal. Mas pela propaganda boca-a-boca, certamente, ele vai conseguir faturar muito mais que isso. E merece. Não é fácil fazer um ótimo filme de ficção científica, ainda mais tratando de questões futuristas e viagem no tempo hoje em dia.

Esta produção estreou no Festival de Toronto em setembro deste ano. De lá para cá, ele participou de apenas dois outros festivais, o de Zurique e o Night Visions. Apesar destas participações, ele não ganhou nenhum prêmio até o momento. Mas deve figurar no próximo Oscar em categorias técnicas, como a de efeitos visuais.

Algumas curiosidades sobre a produção: Joseph Gordon-Levitt gravou várias falas de Bruce Willis ditas em filmes anteriores em seu iPod para emular o melhor possível o jeito de falar do ator. Ele também assistiu a várias produções para tentar repetir os trejeitos de Willis. Outro detalhe: no dia em que foi gravada a cena em que ele cai da escada externa do prédio onde vive, ao tentar fugir dos bandidos, Gordon-Levitt comemorava o aniversário de 30 anos.

Vi uma entrevista em vídeo com o diretor que achei interessante citar aqui. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Primeiro, ele explica a razão do filme ter tantos elementos do passado. Rian Johnson diz que os filmes futuristas que mostram tudo muito futurista lhe incomodam, porque não parecem realista. E dá exemplo do relógio e do sapato que ele estava usando na hora da entrevista… apesar de estarmos em 2012, utilizamos muitas coisas que lembram demais a metade do século passado. E ele acha que o futuro será assim… especialmente o futuro onde as coisas não funcionam bem. Porque quando as coisas não funcionam bem, as pessoas tendem a buscar referências no passado, quando a realidade parecia ter mais lógica. E o segundo ponto, que eu achei especialmente interessante, foi quando perguntaram para ele porque a violência é tão realista no filme. Ele diz que esta é a questão fundamental de Looper. Ele quer mostrar como a violência utilizada para resolver a violência acaba não solucionando nada – vide a busca pelo garoto. Pelo contrário, essa lógica acaba sendo o problema. Bacana.

Looper se saiu muito bem ao conquistar a opinião do público e da crítica. Os usuários do site IMDb deram a nota 7,9 para a produção, uma avaliação ótima para os padrões do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 216 textos positivos e apenas 15 negativos para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 94% – e uma nota média de 8,1. Muito boa nota também.

Há uma outra entrevista do diretor que eu achei interessante. Nela, Johnson comenta a cena no café. De como cada versão de Joe se acha superior e de que, apesar da versão de Willis dizer que sabe o quanto jovem está equivocado, porque já viveu “aquela vida” e por se sentir em outro nível, ele não percebe que segue meio que “preso” aquela falta de maturidade – que nada mais é do que uma forma egoísta de levar a vida.

CONCLUSÃO: Quem tem The Terminator e suas sequencias como referência, vai assistir Looper com um certo incômodo. Possivelmente o mesmo incômodo que o próprio mecanismo do “looper” provoque. Afinal, o passado volta, e volta, e parece que permaneceremos naquele “eterno retorno”. Mas temos a possibilidade de alterar essas repetições. Assim, Looper também altera a lógica de The Terminator. Nesta produção há violência, drama, cenas incríveis que usam o melhor da tecnologia e um bando de gente sem muito escrúpulo além da autopreservação. E ainda que a história, lá pelas tantas, fique um bocado previsível, essa previsibilidade ajuda a alimentar a tensão. Para que todos estejam ansiosos para ver quem segurará as suas crenças até o final. Porque, por incrível que pareça, Looper planta a sua semente naquela velha discussão sobre o que forma o caráter de um indivíduo. O quanto nós trazemos de antes do berço e o quanto somos moldados a ser. Essa reflexão, junto com ótimos efeitos, bons atores e uma recriação de histórias que já vimos antes, fazem de Looper uma peça eficaz de entretenimento.