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Foxcatcher – Foxcatcher: Uma História que Chocou o Mundo

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O filme mais estranho que eu assisti até agora da lista de indicados ao Oscar 2015. Foxcatcher é todo estranho. Primeiro, conta a história de alguns atletas de um dos esportes mais marginalizados dos Jogos Olímpicos. Depois, se aproxima de uma tradicional e muito rica família dos Estados Unidos. A junção destas duas realidades parece improvável, e a motivação desta aproximação é ainda mais estranha. Um filme curioso, mas que não passa muito disso.

A HISTÓRIA: Cenas históricas de cavaleiros e amazonas montando a cavalos de estirpe. Muitos são cercados de cães. Corta. Mark Schultz (Channing Tatum) treina sozinho na academia Wexler. Depois de alguns exercícios, ele coloca a medalha de campeão olímpico no pescoço e vai conversar com alunos de uma escola de ensino básico. Ele fala sobre o que faz um atleta ser um campeão. É março de 1987, e Mark ganha US$ 20 por ter falado para os estudantes.

Depois, ele ganha um lanche, aparentemente com diversos veteranos de guerra, e vai para casa comer macarrão instantâneo com molho de pimenta. Ele tem uma vida miserável, e parece estar incomodado com isso. Mas ele tem o irmão, David (Mark Ruffalo) sempre por perto. Tudo isso vai mudar quando entra em cena o multimilionário John du Pont (Steve Carell), que resolve patrocinar Mark e outros esportistas da luta grego-romana.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Foxcatcher): Desde os primeiros minutos deste filme a sensação predominante é de desconforto. Sempre há algo que parece “fora da ordem”. Não por acaso, a expectativa de quem assiste é de algo ruim deve acontecer a qualquer momento. Só não sabemos da onde o tiro vai partir.

Verdade que o título do filme no Brasil não ajuda no mistério. Afinal, “uma história que chocou o mundo” dá muito a entender que haverá um crime em cena. E como o tom de estranheza é constante, não é difícil alimentar a dúvida sobre que um crime ocorrerá a qualquer instante. Esse incômodo, não tenho dúvidas, faz parte das intenções dos roteiristas E. Max Frye e Dan Futterman, assim como do diretor Bennett Miller. Ou para dizer de outra forma, a sensação de um certo gosto amargo na boca é proposital.

A única justificativa para Foxcatcher existir é o desejo dos realizadores de questionar alguns dos baluartes da sociedade norte-americana. Afinal, o estranhíssimo personagem principal desta história John du Pont, encarna diversos elementos daquela cultura e professa valores que parecem corretos, mas que podem ser muito mal utilizados. Vale lembrar que a diferença entre o remédio e o veneno está na dose. E que muitas vezes a aplicação dos conceitos faz toda a diferença.

Com um tom amargo constante, Foxcatcher vai contando histórias de gente desvirtuada e que, aparentemente, não tem limites para a própria ambição. O que fica confuso, para mim, é o quanto os roteiristas tornam confusa a identificação de quem exagera na ambição e de quem apenas é dedicado a um propósito. Pensando bem, agora, ao escrever este texto, talvez essa seja a intenção deles.

Afinal, ainda que não seja fácil de perceber isso o tempo todo, mas há muitos mais tons de cinza – sem fazer alusão ao livro pornográfico – do que o preto e o branco que gostaríamos que predominasse em tantas ocasiões. Sendo assim, du Pont poderia realmente ter algum bom propósito, mas o essencial da conduta dele era de fonte egocêntrica. Através deste personagem, os realizadores querem questionar as famílias ricas e poderosas dos Estados Unidos. Que, volta e meia, mostram o seu pior lado.

Neste ponto é que entra o questionamento sobre a razão de ser de Foxcatcher. Esta é um produção que apenas aborda um crime ainda considerado absurdo por muitos norte-americanos? Ou seria uma forma dos realizadores questionarem a alta sociedade dos Estados Unidos, suas relações de poder e também a falta de apoio para alguns tipos de esporte? Sou mais adepta da segunda versão, ainda que eu não ache a primeira desprezível.

O filme parece ter a intenção de acertar a dois passarinhos com um tiro. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Ao mesmo tempo, matar a curiosidade de muitas pessoas que ainda se lembram do assassinato do campeão olímpico David Schultz, e também levar aquele caso para um outro nível, no qual são questionados os valores, as relações de poder e o ambiente em que as famílias abastadas do país estão fundamentadas.

Acho válido todo filme que aborda o segundo ponto, porque é interessante, ilustrativo e faz pensar o mergulho em realidades segmentadas. O que questiono é utilizar um drama que realmente aconteceu para fazer isso. Afinal, o trabalho de Frye e Futterman conta uma de diversas versões possíveis. Não necessariamente a mais próxima da verdade. Há fatos revelados no filme que acredite terem pouco espaço para dúvida, como a forma com que David é morto. Mas tantos outros detalhes são bastante questionáveis, sem contar os fatos sugeridos e não explicados. Vejamos.

Segundo este filme, Mark Schultz vivia em uma realidade paupérrima, aparentemente descontente com o rumo que a vida dele estava levando, até que surgiu na sua frente John du Pont. Podre de rico, o herdeiro de uma das famílias tradicionais do país resolve bancar o jovem atleta. Por mais que Schultz estivesse insatisfeito com a vida que ele levava, a forma fácil com que ele se muda para a propriedade de du Pont é um pouco difícil de acreditar. Mas ok, vamos levar em conta que os roteiristas não quiseram perder muito tempo com os pormenores.

A produção sugere que Mark estava não apenas insatisfeito com a falta de apoio para ele e para o esporte, mas também com as comparações constantes com o irmão, David, e com certa superioridade que o irmão mais velho poderia ter. Esta é uma forma de encarar a história, mas não é a única. Depois falarei mais a esse respeito.

Pois bem, segundo Foxcatcher, o filme – porque também há o livro homônimo e que não tem nada a ver com esta produção – , Mark não pensa muito em aceitar o convite de du Pont. Interessado em aparecer e em ter poder, principalmente, o multimilionário logo começa a jogar psicologicamente com Mark. Primeiro, ele tenta trazer o irmão David para o grupo. Quando não consegue isso, ele resolve substituir a figura do irmão, afastando Mark de David.

Daí surge um dos primeiros elementos que Foxcatcher questiona na sociedade americana: a ambição. Ela é vista em duas das figuras centrais desta produção – apenas David é semi-poupado na história. Primeiro, em Mark, que, segundo os roteiristas, estaria obcecado em fazer sucesso “por seus próprios méritos”, embarcando naquela ideia de du Pont de que ele deveria sair da sombra do irmão – mais velho e mais reconhecido que ele. Depois, no próprio du Pont, um sujeito estranho que parece estar sempre exibindo o poder emanado pelo dinheiro que a família tem, além de querer ganhar evidência em algo – nem que for na luta grego-romana com a qual ele não tem nenhum approach.

Quando du Pont, superbem interpretado por Steve Carell, resolve ele mesmo começar a “lutar”, chegamos ao extremo da noção patética do personagem no filme. A mãe dele, Jean du Pont (a veterana e sempre ótima Vanessa Redgrave), claramente tem vergonha do filho quando ele se presta a fazer coisas com as quais ele não tem nenhuma intimidade.

Além disso, e aí está um dos problemas do filme, Foxcatcher não deixa claro, mas apenas sugere que du Pont é gay. Isso fica subentendido em diversas cenas que mostra como ele admira aqueles – além da esfera deles serem atletas de elite -, e também em uma sequência que sugere que du Pont e Mark tiveram alguma relação mais íntima. Se ele fosse gay e se sentisse “castrado” pela mãe, que reprovaria um homossexual em uma família tão tradicional, muito seria explicado. Mas esse fato não fica evidente.

O que fica claro é que du Pont se sentia podado pela mãe em diversos sentidos, inclusive ao acreditar que ela amava mais os cavalos de raça e premiados do que ele. Consequentemente, du Pont reage a isso querendo ser um filantropo, especialista em diversas áreas e reconhecido por isso. Não importa para ele se o reconhecimento é real ou se ele deve pagar para ele. Du Pont, aparentemente, cresceu e “amadureceu” sem conhecer limites. Tanto que ele, ao ser contrariado, ao não conseguir o que ele mais desejava – que era ver Mark ser campeão olímpico sob a sua chancela e patrocínio -, ele resolveu “vingar-se” de alguém relacionado que estivesse perto.

Como Mark já havia saído do propriedade, a ira e a falta de controle de du Pont acabou cobrando um preço alto de David. Nestas minhas observações já estão outros elementos que Foxcatcher claramente acha relevantes de questionar: a alta classe tradicional dos Estados Unidos e sua falta de limites e a influência que eles conseguem ter ao dedicar parte de suas fortunas para causas “filantrópicas”. Curioso também como o filme mostra a proximidade de du Pont com os militares e os policiais, ao ponto dele comprar um tanque de guerra e praticar tiro com os homens da lei.

Um dos problemas deste filme é que para ele vender os seus conceitos, ele deve simplificar bastante os personagens. Por exemplo, Mark começa e termina o filme carrancudo. Parece um cara que está insatisfeito o tempo todo. No início, por não ter dinheiro. Depois, por estar à sombra do irmão. Finalmente, por se sentir usado por du Pont e por não se reconhecer mais – inclusive ao descambar para a cocaína. Por outra parte, du Pont é um cara estranho do início ao fim, detentor de várias frases feitas e manipulador. Ele sabe usar o poder e o dinheiro que tem para conquistar o que deseja.

Certo que as pessoas são o que elas são. Mas ninguém é tão raso quanto os personagens de Foxcatcher. Ou dificilmente encontramos pessoas tão unidimensionais. Mas para convencer, Frye e Futterman escolhem esse caminho da simplificação dos personagens. E também um bocado da história, a ponto de deixar algumas pontas soltas – como se houve ou não um envolvimento sentimental/sexual entre Mark e du Pont; sobre as reais motivações da chegada e da partida de Mark da propriedade e assim por diante.

No fim das contas, acho que há filmes que falam sobre o “mal estar” dos valores norte-americanos de forma muito mais eficaz. O primeiro que me vem à mente é o já clássico American Beauty, ou mesmo o ainda anterior Blue Velvet e o mais recente Mulholland Dr. – ambos do ótimo David Lynch. Para mim, estes três filmes, para citar só alguns, são mais eficazes em fazer uma autocrítica ao “american way of life” do que este Foxcatcher com suas leituras simplificadas de personagens – e o pior, reais – e seus furos de roteiro.

NOTA: 6,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Realmente é uma experiência muito diferente ver Steve Carell em um papel tão sério. Esse ótimo ator, que eu gostei de acompanhar em parte da versão norte-americana da série The Office, aparece totalmente diferente aqui em Foxcatcher. Mas ele está ótimo, porque convence como um cara que parece, permanentemente, ser perigoso. O John du Pont de Carell é estranho o tempo todo, e um pouco assustador. Para incorporá-lo, o ator contou com a ajuda fundamental da maquiagem. No total, 14 profissionais estiveram envolvidos no departamento de maquiagem do filme. Trabalharam bem.

Gosto de Channing Tatum e de Mark Ruffalo. Cada um deles está bem neste filme, mas o roteiro não lhes ajuda a construírem personagens melhores. Afinal, os irmãos Mark e David nesta produção estão desenhados para propósitos muito específicos, sem complicações – diferente das pessoas reais, normalmente. Isso me incomoda um pouco, porque, afinal de contas, este filme segue aquela alcunha de “baseado em fatos reais”.

As atrizes Sienna Miller e Vanessa Redgrave mais uma vez em papéis secundários. A primeira, em especial, se consolidando como uma camaleoa. A cada novo filme que eu vejo essa atriz, ela está muito diferente do anterior. Bacana isso. Ela mostra versatilidade. Acho que é uma questão de tempo para vermos ela em um grande papel e com uma grande interpretação. Vanessa Redgrave, como sempre, elegante e precisa em sua interpretação.

Como comentei na crítica, alguns pontos no filme me deixaram em dúvida e incomodada. Daí que parti para ir atrás de informações sobre a história real de Foxcatcher. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Encontrei este texto, um tanto fraquinho – e não, Foxcatcher não é um dos favoritos ao Oscar -, mas que ganha interesse por resgatar parte da história real e, principalmente trazer uma foto do verdadeiro David e do du Pont real.

Mas a real controvérsia sobre a versão de Foxcatcher, filme dirigido por Bennett Miller, eu fui ter ao procurar o livro Foxcatcher escrito por Mark Schultz. Não li o livro inteiro, mas dei uma passada nele, e a versão é bem diferente do filme. Ele não fala que teve uma relação afetiva com du Pont. Pelo contrário. Ele deixa claro que só foi para a propriedade do multimilionário por causa do dinheiro. E diferente do que o filme sugere, ele nunca se queixa do irmão ou demonstra ter inveja ou sentir-se à sombra dele.

Pelo contrário. Ele elogia David do início ao fim. Claro, alguém pode dizer, que ele fez isso após o irmão morrer, mas que na época em que ele estava vivo as coisas eram diferentes. Até pode ser, mas não vi até agora nenhuma comprovação disso. Frye e Futterman devem ter se baseado na cobertura da imprensa da época e ter “adequado” a história para que o filme ganhasse em “interesse” e “drama”, mas não parece que a produção tem realmente muito fundo na realidade.

Outro texto interessante e até fundamental é este. Ele mostra como a polêmica cresceu quando o filme estreou, e de como o verdadeiro Mark ficou indignado com Miller, a ponto de ameaçá-lo de processo e de acabar com a carreira do diretor. Segundo um texto que Mark escreveu no Facebook e que é reproduzido no texto que eu linkei, ele nunca se mudou para Pensilvânia, como o filme mostra, e sim foi morar em Villanova como ajudante de treinador.

Ele também conta que a primeira vez que ele encontrou du Pont, este estava “sujo e bêbado”, e afirma que nunca o considerou um mentor ou que viu nele a figura de pai. Ele também nega vários outros fatos mostrados no filme. Ou seja, mais razões para questionar Foxcatcher de Miller. Ah sim, e Mark tira aquela dúvida que eu tinha lá encima: ele diz categoricamente que não teve nenhuma relação sexual com du Pont. Eita! O filme sugere algo bem diferente. O estranho é que Mark acabou mudando radicalmente de opinião depois – ele teria sido comprado?

Da parte técnica do filme, nada me chamou muito a atenção. Mas acho que vale mencionar a trilha sonora precisa e bem pontual de Rob Simonsen; o design de produção de Jess Gonchor; os figurinos de Kasia Walicka-Maimone e o trabalho dos 13 profissionais envolvidos na maquiagem.

Foxcatcher estreou em maio de 2014 no Festival de Cinema de Cannes. Depois disso, o filme participaria de outros 24 festivais. O próximo da lista aonde o filme ainda vai estrear é o Festival de Cinema de Belgrado, que começa no dia 2 de março. Nesta trajetória o filme conquistou 13 prêmios e foi indicado a outros 45. Entre os que recebeu, sem dúvida alguma o principal é o de Melhor Diretor para Bennett Miller no Festival de Cinema de Cannes.

Esta produção foi totalmente rodada nos Estados Unidos, em diversas cidades da Pensilvânia, incluindo Pittsburgh, e também em Leesburg, na Virgínia. O filme também é uma produção 100% dos Estados Unidos – por isso ele entra na lista de “votações no blog”.

Agora, aquelas clássicas curiosidades sobre o filme. Na cena do espelho, Channing Tatum realmente quebra o objeto, o que não estava no roteiro. Mas ele realmente entrou no personagem naquela sequência, inclusive machucando a testa na ação.

Tatum e Mark Ruffalo passaram de cinco a seis meses em um treino intensivo de luta para poderem interpretar os seus respectivos papéis no filme. Steve Carell estudou as imagens disponíveis de du Pont durante horas, para tentar ser o mais fiel possível ao retratado por ele no filme.

Não encontrei informações sobre os custos deste filme, mas tudo leva a crer que ele teve um baixo orçamento. Nas bilheteria dos Estados Unidos, até o dia 1º de fevereiro, o filme tinha conseguido pouco mais de US$ 11,45 milhões. Baixo, bem baixo.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,3 para esta produção. Uma boa avaliação, levando em conta o padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 177 textos positivos e 25 negativos para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 88% e uma nota média de 7,9. De fato, pelo visto, eu estou abaixo da média do público e da crítica na avaliação deste filme. Isso é raro, mas acontece.

CONCLUSÃO: Sabe aquele filme em que você fica esperando o tempo todo que algo de ruim e/ou trágico aconteça? Este é o caso de Foxcatcher. A história é estranha do início ao fim, e como as peças não encaixam, o diagnóstico da tragédia iminente é inevitável. Os atores estão bem, mas o roteiro é um pouco arrastado e tem partes com fios soltos. As sugestões e as não comprovações incomodam, assim como a “moral da história”. Filme estranho que aborda um dos crimes que pode ter chocado os Estados Unidos, mas que teve pouca repercussão mundial – diferente do que os produtores querem nos fazer crer. Eficaz na narrativa, ainda que facilmente esquecível.

PALPITES PARA O OSCAR 2015: Por razões óbvias eu esperava mais de Foxcatcher. Certo que ele não foi indicado a Melhor Filme. Mas há produções melhores na disputa – como Selma – que foram indicadas a menos estatuetas que este filme de Bennett Miller. Como gosto dos atores envolvidos no projeto, também esperava que a entrega deles fosse marcante.

Pouco disso aconteceu. Como repeti diversas vezes no texto acima, apenas a estranheza da história e da forma com que ela é contada predomina nesta produção. Dos indicados ao Oscar deste ano, este é um exemplo de como a premiação está um pouco enfraquecida. Em um ano de boa safra, não imagino Foxcatcher concorrendo sequer a uma estatueta, quanto mais à cinco!

Mas ok, vamos ao que interessa. As indicações do filme este ano. Foxcatcher concorre em Melhor Ator para Steve Carell; Melhor Ator Coadjuvante para Mark Ruffalo; Melhor Direção para Bennett Miller; Melhor Roteiro Original e Melhor Maquiagem e Cabelo. Melhor Ator, nem pensar. Ainda que eu goste muito de Steve Carell, ele está léguas distante das ótimas performances de Eddie Redmayne e Benedict Cumberbatch. Mesmo Michael Keaton está melhor. Carell também apenas poderia duelar com Bradley Cooper – e olha lá.

Na categoria de Melhor Ator Coadjuvante também não vejo chances para Ruffalo. J.K. Simmons e Ethan Hawke estão muito melhores, e mesmo Edward Norton me pareceu mais “dentro” do papel. Não que Ruffalo não esteja bem, mas ele não faz nada além do que já estamos acostumados a vê-lo fazer. Ainda preciso ver a Robert Duvall.

Melhor Direção, nem pensar. Richard Linklater, Wes Anderson, Morten Tyldum e Alejandro González Iñarritu, nesta ordem, para mim, tem trabalhos melhores para apresentar que Miller. Aliás, se fosse para indicar alguém diferente nesta categoria, eu ainda preferia Clint Eastwood do que Miller. Acho o trabalho de Eastwood em American Sniper mais difícil e técnico do que do diretor de Foxcatcher. Ele dever ter bons amigos em Hollywood.

Finalizando, Melhor Roteiro Original, também, nem pensar. Boyhood, Birdman e The Grand Budapest Hotel são muito melhores e bem acabados, nesta ordem de preferência. Mesmo Nightcrawler achei melhor desenvolvido. A única chance do filme, pois, está em Melhor Maquiagem e Cabelo. Sem o trabalho técnico nesta área Carell não teria recebido uma indicação ao Oscar. 🙂 Sendo assim, talvez o filme leve uma estatueta, nesta categoria, se conseguir ganhar de The Grand Budapest Hotel – grande concorrente também – e Guardians of the Galaxy. Mas não seria totalmente surpreendente se o filme saísse do Oscar sem nada. Seria justo, na verdade.

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Anonymous – Anônimo

E se William Shakespeare, o autor teatral mais conhecido e encenado de todos os tempos, não fosse, exatamente, William Shakespeare? Ou melhor, se o autor de todas aquelas peças e sonetos escritos em inglês e que ganharam o mundo com o nome de William Shakespeare fosse outra pessoa? Anonymous trata sobre esta teoria de que o homem por trás de Hamlet, Romeu e Julieta e todas as demais peças conhecidas era outro, na verdade Eduardo de Vero, conde de Oxford. Voltamos no tempo, na Londres do final do século 16 e início do século 17. Uma viagem fascinante, com bastidores de traição, disputa pelo poder e teatro, muito teatro.

A HISTÓRIA: Trânsito congestinado, sirenes de ambulâncias. Um táxi freia abruptamente na frente de um teatro que tem Anonymous em cartaz. O homem que desce do táxi entra apressado. Ele está atrasado. Uma mulher pede para ele se apressar, e ele chega à tempo para apresentar a história para o público. O veterano Derek Jacobi começa relembrando os fatos conhecidos sobre a “alma do século”, como foi chamado William Shakespeare. E afirma que apresentará uma história diferente sobre ele e suas obras. Esta história, segundo o ator, é feita de “penas e espadas, de poder e traição, de um palco conquistado e um trono perdido”. A partir daí, o filme acompanha Ben Jonson (Sebastian Armesto), dramaturgo contemporâneo de Shakespeare que seria uma peça fundamental na farsa por trás de suas obras.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Anonymous): O filme começa muito bem. Não consigo imaginar uma introdução mais interessante que aquela, magistralmente interpretada pelo veterano Derek Jacobi. Afinal, se vamos mergulhar na obra e no tempo do maior dramaturgo de todos os tempos, a melhor porta de entrada deve ser a de um palco teatral. Interessante a passagem deste ambiente para a do cinema. Acertos do roteiro de John Orloff e da direção de Roland Emmerich.

O momento seguinte, que mostra a primeira de muitas perseguições sofridas por Ben Jonson também é interessante. Afinal, ela imprime logo uma levada de suspense e intriga para a história. E serve como uma introdução para o que virá à seguir, ambientado cinco anos antes daquelas cenas de tortura. Só achei que a forma com que o filme é narrado torna a tarefa do espectador reconhecer personagens e suas ligações um pouco complicada demais. Demoramos muito tempo para fazer estas ligações e ligar os nomes às pessoas, o que pode provocar desinteresse na hsitória em algumas pessoas.

Mas quem insistir vai encontrar um ambiente interessante. A Londres do final do século 16 e início do 17, quando o teatro popular estava em plena efervescência. Momento em que começaram a surgir as primeiras peças de William Shakespeare. Ou, pelo menos, atribuídas a ele. Porque o filme abraça a teoria de uma corrente de estudiosos e historiadores que afirma que o homem nascido e criado em Stratford-upon-Avon que, aos 18 anos, mudou-se para Londres para dedicar-se à carreira de ator, não poderia ter escrito todas aquelas obras-primas do teatro.

Há muitas teorias sobre quem poderia ter sido o verdadeiro autor das obras atribuídas à Shakespeare. Mais abaixo falarei sobre isso. Anonymous segue a teoria lançada por John Thomas Looney, em 1922, de que o verdadeiro autor dos clássicos do teatro era Eduardo de Vero, o 17º Conde de Oxford. De acordo com este texto da Wikipédia, até 1975 a Enciclopédia Britânica apontava Oxford como o mais provável autor das peças. Outros nomes que apoiaram esta teoria são bastante conhecidos: Sigmund Freud, Orson Welles, Charlie Chaplin, Ralph Waldo Emerson e muitos outros intelectuais do século 20.

Anonymous explica os bastidores desta farsa possível. Contextualiza a Londres daquele tempo, mostrando como uma pessoa da aristocracia não tinha espaço para ser irônico, crítico ou mesmo artístico. Ele deveria preocupar-se com outros temas, muito mais “sérios”. Isso explicaria porque uma pessoa como Oxford, com uma formação exemplar, teria que “esconder-se” atrás de um outro autor.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Fascinado pela arte e pelo teatro, em especial, Eduardo de Vero (o ótimo Rhys Ifans) foi levado pelo lorde de Southampton (Xavier Samuel) a conhecer o teatro The Globe. O filme mostra como ele ficou fascinado, em sua primeira visita ao teatro, com a reação do público, a cenografia, a dinâmica das cenas – muito diferente do que era visto na côrte naquela época – e com o trabalho de Jonson. Mais tarde, Oxford teria libertado o dramaturgo em troca de um grande favor: que ele levasse um de seus textos para ser encenado pelo grupo teatral Lord Chamberlain’s Men.

A partir daí, nos deliciamos com os bastidores do teatro e o surgimento das peças de “Shakespeare” no teatro. Um acerto do filme é citar alguns trechos e reproduzir encenações “da época” das obras encenadas pelo grupo teatral dos clássicos da dramaturgia. Uma imersão interessante e inédita. Bacana. O roteiro só se mostra um pouco confuso porque demoramos para entender quem é Oxford, Southampton e o lorde de Essex (Sam Reid). A relação entre eles fica um pouco confusa, e será explicada apenas perto do filme – ainda que algumas questões não sejam respondidas até o final, como a alta fidelidade de Southampton por Essex.

De qualquer forma, mesmo que o roteiro não ajude muito o espectador na tarefa de entender estas relações, ele acerta ao introduzir logo os bastidores do poder. As relações entre a rainha Elizabeth I (a sempre ótima Vanessa Redgrave) e os Cecil, por exemplo – o pai William (David Thewlis) e o filho Robert (Edward Hogg), seus conselheiros de primeira linha. Depois, pouco a pouco, vamos conhecendo outras histórias de bastidores, como a relação da rainha com Oxford e outras figuras importantes da história.

Um acerto do filme é equilibrar sempre os bastidores do teatro com os da côrte. Há disputa, talento e intrigas nestas duas frentes. Traições, disputas, inveja, cobiça, elementos presentes na obra de “Shakespeare” estão espalhadas também pelo recorte feito daquela Londres efervescente. Algo muito bacana da produção também é a sua convicção em defender a ideia de que palavras podem provocar revoluções e mudar realidades.

Ainda que, na prática, todo o intento de Oxford não tenha conseguido mudar aquela realidade retratada. Mas ela acabou, depois, vencendo o tempo e influenciando todas as gerações posteriores. Sim, palavras tem um poder fantástico, quando são bem utilizadas.

Mas nem tudo são flores… Anonymous infelizmente apresenta um desempenho muito variável de seus atores. Os protagonistas, que interpretam Oxford e a rainha Elizabeth I, estão ótimos. Parecem acreditar em suas falas e tentam repassar as diferentes nuances de seus personagens. Gostei também de Joely Richardson, que interpreta a rainha em uma fase mais jovem. Mas a mesma qualidade não vi em Jamie Campbell Bower, que interpreta o jovem nobre de Oxford. Achei o desempenho dele, na maior parte do tempo, bastante forçada.

O mesmo se pode falar dos outros atores. O trabalho de Edward Hogg, Xavier Samuel e Sam Reid também pareceram um tanto fora do tom. Por outro lado, outro ator importante para a história, Sebastian Armesto, faz um bom trabalho. Na conta final, o elenco teve um desempenho razoável. A sorte do espectador é que três dos atores que mais aparecem em cena estão bem. O restante… apenas razoáveis.

O roteiro também tem muitos altos e baixos. Ainda que o filme inteiro desperte interesse, principalmente pela reconstituição de época e pelo equilíbrio entre os dois bastidores comentados anteriormente, ele não facilita muito a vida do espectador para entender as relações entre os personagens. E também exagera em alguns pontos, como no retrato feito de William Shakespeare (Rafe Spall, em um desempenho bem forçado também).

Achei ele muito estereotipado. Aparece apenas como um ator fanfarrão que gosta de beber, farrear com prostitutas e que sabe aproveitar a deixa para tornar-se famoso por algo que não fez. Em momento algum o filme mostra o “outro lado”, historicamente incontestável, de que ele foi casado e teve três filhos.

Mesmo que tenha sido um boêmio, como Anonymous insiste em retratar, havia uma outra parte de sua vida privada que acabou sendo totalmente ignorado pelo filme. Em contrapartida, Jonson também é retratado de uma forma bastante estereotipada, como um ótimo dramaturgo que sofreu com a genialidade de “Shakespeare”. Novamente, ainda que isso tenha sido real, certamente não foi toda a história de Jonson. Estas simplificações de personagens fundamentais não ajudam o filme.

NOTA: 8,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Pelas características deste filme, é de se tirar o chapéu para alguns elementos técnicos da produção. Para começar, para a direção de fotografia de Anna Foerster, fundamental para retratar a Londres elisabetana. Muitas cenas parecem ter sido tiradas de quadros de mestres que pintaram aquela época. Impressionante. Depois, excelente o design de produção de Sebastian T. Krawinkel, a direção de arte comandada por Stephan O. Gessler e composta por outros cinco profissionais; a decoração de set de Simon-Julien Boucherie; e os figurinos de Lisy Christl.

A trilha sonora de Thomas Wanker e Harald Kloser é boa, dá ritmo para o filme, mas fica em segundo plano e perde importância se comparado com os outros elementos técnicos citados.

Competente também o trabalho do editor Peter R. Adam.

O alemão Roland Emmerich, mais conhecido por “filmes-catástrofe”, me surpreendeu com este Anonymous. Com este filme ele mostra que pode fazer um cinema muito mais sério e “profundo”. Bem diferente de 2012, The Day After Tomorrow, Godzilla e Independence Day, entre outros.

Anonymous é um exemplo interessante de como o cinema é uma grande máquina de contar histórias. Mesmo que retrate um local muito específico, como pode ser Londres, em uma época determinada, esta produção não foi rodada na capital do Reino Unido. Não, meus bons leitores. Anonymous foi filmado inteiramente no Estúdio Babelsberg, na cidade de Potsdam, na Alemanha. Interessante, não? E esta informação me faz lembrar que é preciso tirar o chapéu também para o departamento de arte da produção, formada por nada menos que 50 pessoas, muitas delas sem crédito nos letreiros finais, mas citadas no site IMDb. Os efeitos especiais, feitos por uma equipe de nove profissionais, e os efeitos visuais, por outra equipe de 42 pessoas, também acabam sendo fundamentais para Anonymous.

Não por acaso, pelas características anteriores, esta produção não custou barato. Anonymous teria custado aproximadamente US$ 30 milhões. E não foi muito bem nas bilheterias. Nos Estados Unidos, o filme arrecadou quase US$ 4,5 milhões até o dia 11 de dezembro. No resto do mundo, ele teria arrecadado quase US$ 11 milhões. Pouco, diante dos custos do filme. E uma pena, porque este talvez seja um dos melhores trabalhos de Emmerich. Mas sem nenhum ator muito popular no elenco, com um tema denso e polêmico e pouca adesão da crítica, Anonymous ficou com um caminho difícil para ser trilhado.

Este filme estreou no dia 11 de setembro de 2011 no Festival de Toronto. Depois, ele participou de apenas um outro festival, o desconhecido Yubari International Fantastic Film Festival. Nesta sua trajetória, ele foi indicado a seis prêmios, mais uma indicação ao Oscar de Melhor Figurino, mas não levou nenhum deles para casa.

Anonymous toca em um tema polêmico e interessante, e está ambientado em uma época igualmente rica em informações curiosas. Fiquei mega interessada em saber mais a respeito. E encontrei alguns textos que podem servir de ponto de partida para quem também ficou curioso para saber um pouco mais.

Neste texto da Wikipédia é possível encontrar um compêndio de informações sobre as duas correntes desta polêmica sobre a obra de Shakespeare: aquela que defende que os trabalhos atribuídos a ele foram de fato de sua autoria, e aquela que aponta outros possíveis autores. A verdade é que os argumentos de quem aposta que aquela obra, por ser tão sui generis, deveria ter sido originada da mente de um nobre e/ou de um intelectual como Francis Bacon, são bastante interessantes. Fazem sentido.

Lendo os textos sobre a era elisabetana, Oxford e Shakespeare, me chamou a atenção que a Rainha Elizabeth I morreu em 1603 e que Eduardo de Vero faleceu um ano depois. Interessante – especialmente pela relação e história que eles tiveram.

Existem muitos textos sobre Shakespeare, sua vida e obra – se é que ele foi autor dela, realmente. Alguns textos que podem servir de ponto de partida: este, da Wikipédia, com infirmações básicas do “bardo inglês”, e este outro, que tem como diferencial trazer várias frases atribuídas à Shakespeare.

Para os que ficaram curiosos para saber mais sobre a era elisabetana, recomendo este texto da Wikipédia sobre os costumes e características daquela época, e este outro focado exclusivamente na história de Elizabeth I. Baita história, aliás. Fiquei com vontade de assistir – e relembrar dos que eu já vi – aos filmes já feitos sobre ela. Ainda que nenhum deva entrar tão fundo em sua biografia quanto um bom e extenso livro. Agora, irônico ela ter sido conhecida como A Rainha Virgem, não é mesmo? Especialmente por tudo aquilo que Anonymous sugere que ela tenha feito. Curioso que no texto que eu citei, eles não citam o lorde de Oxford, e sim o de Essex como sendo o amor não realizado da rainha. Curioso…

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,8 para o filme. Não está mal, para os padrões do site. Já os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram mais rígidos em suas análises: eles dedicaram 86 críticas negativas e 76 positivas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 47% – e uma nota média de 5,5.

Anonymous é uma co-produção do Reino Unido com a Alemanha.

CONCLUSÃO: A ótima reconstrução de época de Anonymous é um dos pontos fortes do filme. Assim como a seriedade com que o roteiro assume e defende a teoria de que William Shakespeare não era o verdadeiro autor de todas aquelas peças e sonetos clássicos que ficaram conhecidos com o seu nome. Na média, os atores convocados para a produção fazem um bom trabalho, mas alguns não parecem encarar com tanta seriedade os seus papéis quanto outros. O desempenho desigual deles e do próprio roteiro, que perde um pouco de força em alguns momentos, não deixa o filme ser melhor. A caricatura de alguns personagens e momentos também prejudicam a produção. Mas apesar destes deslizes, o diretor Roland Emmerich consegue apresentar um trabalho interessante e cheio de convicção. Os adeptos da teoria de que as obras atribuídas a William Shakespeare não seriam dele, devem gostar do filme. Para os demais, reles mortais, eis um filme curioso, que resgata alguns trechos de obras famosas atribuídas a Shakespeare e que nos transporta para o auge do teatro inglês. Vale a viagem.