Categorias
Cinema Cinema norte-americano Crítica de filme Filme premiado Globo de Ouro 2019 Movie Oscar 2019 Votações no blog

Vice

Alguém que chega à Vice-Presidência de um país tem que ter influência e uma trajetória cheia de aliados. Mas algumas vezes alguns vice-presidentes parecem ter saído quase do anonimato. Esses, muitas vezes, são os mais perigosos. Vice nos conta a história de uma figura importante dos Estados Unidos que fez um bom estrago enquanto esteve no poder. Raposa antiga do sistema, ele soube inclusive moldar o próprio cargo, dando para o vice mais poder do que os Estados Unidos estão acostumados. Um filme interessante, muito bem construído e contundente na sua crítica. Uma das boas pedidas desta temporada do Oscar.

A HISTÓRIA: Começa dizendo que a história a seguir é real. Ou tanto quanto possível, levando em conta que Dick Cheney é considerado um dos líderes mais reservados da história. Mas eles comentam que fizeram o melhor. Em uma noite de jogos e bebidas, alguém urra alto. Na cidade de Casper, Wyoming, em 1963, um motorista dirige de forma arriscada. Dentro do carro, o jovem Dick Cheney (Christian Bale), que é abordado por um policial, que lhe manda sair do veículo. Ele está caindo de bêbado. Corta. Em 2011, esse mesmo Dick Cheney é levado para uma sala de segurança após os ataques do 11 de setembro de 2011 começarem. Ali ele começa a mudar a história dos EUA.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Vice): Quem diria que o grande vilão da administração George W. Bush (interpretado por Sam Rockwell) não foi o próprio Bush, e sim o seu vice-presidente Dick Cheney. Morando no Brasil, e não nos Estados Unidos, nós acompanhamos os bastidores políticos dos Estados Unidos totalmente em segundo plano. Quem mora por lá deve ter outra visão sobre Cheney e Bush.

Adoro filmes que tratam sobre os bastidores da política e sobre figuras que foram determinantes para a vida de um país – ou tiveram efeito maior do que as suas fronteiras, influenciando inclusive as relações internacionais. Volta e meia Hollywood nos apresenta um filme que vai além na análise política e econômica e que nos mostra as “engrenagens do poder”. Gosto de produções do gênero.

A última nesse estilo que concorreu ao Oscar de Melhor Filme foi, olhem a coincidência, uma produção também estrelada por Christian Bale – e que tinha Steve Carell no elenco. Falo de The Big Short (comentado por aqui), que tratava sobre o colapso gerado nos Estados Unidos, no setor imobiliário e que chegou ao setor financeiro, e que desencadeou a crise financeira global de 2008.

Entre os filmes que eu assisti esse ano, e que concorrem ao Oscar de Melhor Filme, Vice foi o que me pareceu mais ousado na sua proposta. O filme é crítico e tem um roteiro um bocado ácido e criativo acima da média. Mérito do roteirista e diretor Adam McKay. Sem dúvida alguma ele é o grande responsável pela proposta desta produção.

Mergulhamos na figura de Dick Cheney, um sujeito que foi preso duas vezes por fazer estripulias regadas a bebedeira quando jovem e que teria tudo para ser um americano comum e relativamente “fracassado” se não fosse a pressão e cobrança da esposa Lynne Cheney (Amy Adams), que exigiu que o marido tomasse outro rumo e recuperasse a compostura em 1963 – após a segunda prisão, desta vez por dirigir bêbado.

Na verdade, e isso é muito interessante, Cheney acaba sendo vice-presidente dos Estados Unidos na capa de George W. Bush, um outro sujeito que também teve vários problemas quando jovem e que poderia ter sido um “loser”. Ambos, contudo, seguindo caminhos diferentes e motivados por razões distintas, acabaram se tornando presidente e vice-presidente dos Estados Unidos, um dos países mais poderosos do mundo.

Adam McKay acerta na mosca na sua narrativa mostrando as sutilezas da história, como algumas decisões, em determinados momentos das vidas dos personagens retratados, foram decisivas para o rumo da história. Quando jovem, Cheney poderia ter seguido um caminho que o levaria a ter sempre empregos de segunda e se separar de Lynne. Mas, ao ser pressionado, ele resolve fazer algo diferente, e é assim que ele se torna assessor de outra figura muito conhecida na política dos Estados Unidos, Donald Rumsfeld (Steve Carell).

Para mim, o grande interesse de Vice é justamente nos apresentar um retrato muito próximo – e sem filtros – destas figuras famosas da política americana, especialmente Cheney, Rumsfeld e Bush. Com destaque para os dois primeiros nessa história – até porque ambos tiveram uma trajetória anterior à de Bush. O tom do filme, crítico, cínico e mordaz, destaca ele em relação à maioria dos filmes que concorrem ao Oscar nesse ano. Gostei disso. O roteiro de Vice, assim como a direção e a edição do filme, são as suas principais qualidades.

Gostei da “brincadeira” que McKay faz com os espectadores quando o filme não tinha chegado ainda à metade. Ele mostra um “final feliz” que teria sido possível, com Cheney deixando a política e trabalhando para o setor privado. Mas não é isso que acontece. Cheney, que, certa vez, pergunta para Rumsfeld no que eles, republicanos, acreditam – o que despertou gargalhadas do “mestre” Rumsfeld -, vislumbra que pode ser o vice-presidente mais importante da história dos Estados Unidos.

Para isso, ele consulta especialistas na Constituição americana e consegue colocar condições para Bush para que ele seja o vice-presidente. Cheney convence Bush a “dividir” mas o poder com ele, para que ele não seja apenas uma figura sem importância, e Bush aceita a proposta. Quando acontecem os ataques terroristas do dia 11 de setembro de 2001, Cheney coloca outra das suas ideias em cena: a teoria do Executivo Unitário, ou seja, que o poder executivo dos Estados Unidos pode ser considerado supremo, tomar decisões que não precisam respeitar convenções internacionais ou outros acordos e legislações. Ou seja, um poder “democrático” com requintes de poder ditatorial.

Foi essa teoria que fez com que a “guerra ao terror” fosse possível. A partir daí, criou-se Guantánamo e diversas outras estratégias e práticas que incluíram torturas de suspeitos e espionagem de todo e qualquer cidadão. Tudo isso, quem diria, não saiu da cabeça “alucinada” de George W. Bush, mas da teoria há muito tempo estudada por Cheney. A narrativa sobre a sua trajetória e sobre aqueles anos loucos da administração Bush são o principal atrativo e diferencial de Vice.

Além das qualidades já comentadas, gostei muito do trabalho dos atores que fazem parte desta produção, com destaque para Christian Bale, que encarnou muito bem Cheney, e de Amy Adams como a sua esposa. (SPOILER – não leia se você não assistiu a Vice). Um filme competente e muito bem acabado, mas que acaba “forçando” um pouco a barra com o narrador da história. Achei um tanto “viagem” demais de McKay colocar como narrador Kurt (Jesse Plemons), um sujeito que serviu o Exército dos Estados Unidos e que tem como “ligação” com o protagonista o fato de ter doado para ele, após ter tido morte cerebral após ser atropelado, o seu coração.

Até acho interessante a figura de um narrador para esta produção, mas a figura escolhida para isso, achei um tanto forçada. Vice também nos deixa um gostinho de “quero mais”, de sabermos sobre outras figuras poderosas que circundaram Bush e sobre o que aconteceu com Cheney depois que a história termina.

Ainda assim, o filme tem muito mais qualidades que defeitos, o que faz dele uma das produções mais interessantes do ano. Vale ser vista e pensarmos sobre ela. Afinal, mas do que nunca, deveríamos pensar sobre a trajetória e a história dos nossos governantes, estudando as suas origens, ligações e o que eles pensam. Do contrário, nossos países e o mundo podem seguir caminhos perigosos. Ou seja, Vice é um filme mais que atual. Ele é necessário.

NOTA: 9,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Estou atrasada com a publicação de críticas aqui no blog, devo dizer. Assisti à Vice há mais de uma semana. Em seguida, assisti ao último filme que faltava da lista de concorrentes a Melhor Filme no Oscar 2019 – ou seja, finalmente assisti a Bohemian Rhapsody. O que eu posso dizer sobre o que eu assisti? Que estamos em um dos anos mais fracos em relação aos concorrentes do Oscar do qual eu tenho lembrança. Na verdade, pouco a pouco, tenho visto os indicados ao Oscar nos convencerem menos do que gostaríamos. Sim, temos a ótimos filmes na disputa. Mas temos filmes inesquecíveis? Temos na lista produções que nos impactaram e que nos fazem torcer por elas? Para o meu gosto, não.

De todos os concorrentes deste ano, acho que Bohemian Rhapsody é o filme mais completo e “empolgante”. Ou seja, não será uma surpresa se ele ganhar como Melhor Filme. Além dele, eu gosto muito de Vice. Não acho que o filme tenha chances de ganhar na categoria principal hoje à noite, mas acho que ele é um dos dois melhores filmes do ano. Além de Bohemian Rhapsody, que me parece ser o favorito da noite, acho que Green Book tem alguma chance de se dar bem na categoria Melhor Filme. Logo mais veremos.

Como comentei acima, as maiores qualidades de Vice são o roteiro e a direção de Adam McKay. O diretor e roteirista dá o tom diferenciado desta produção, nos apresentando uma história bem focada em um personagem e nas pessoas que orbitaram ao redor dele, aprofundando-se o máximo possível no protagonista e nos apresentando com talento não apenas os bastidores da sua vida mas também o que as suas ações significaram para o mundo. Roteiro realmente brilhante, juntamente com a construção em imagens de sua narrativa.

Por isso, além da direção e do roteiro de McKay, destaco a excelente edição de Hank Corwin e a direção de fotografia de Greig Fraser. Vale comentar, ainda, a trilha sonora de Nicholas Britell; o design de produção de Patrice Vermette; a direção de arte de David Meyer, Brad Ricker e Dean Wolcott; a decoração de set de Jan Pascale e David Smith; os figurinos de Susan Matheson; e o excelente trabalho dos 23 profissionais envolvidos com o trabalho no Departamento de Maquiagem.

Do elenco, sem dúvida alguma o grande destaque é Christian Bale. Ele conseguiu emular Dick Cheney com perfeição – seu jeito de olhar, de andar e, principalmente, de falar. Impressionante o trabalho do ator. Conseguimos esquecer, muitas vezes, que é Bale quem está em cena – e pensamos em Cheney. Excelente trabalho e que poderá levar o ator a ganhar mais um Oscar – o grande nome que ele precisa “vencer” no Oscar hoje será Rami Malek, que também está ótimo como Freddie Mercury em Bohemian Rhapsody. Será uma disputa das boas.

Além de Bale, vale comentar o ótimo trabalho de Amy Adams como Lynne Cheney e de Steve Carell como Donald Rumsfeld – acho, inclusive, que Carell merecia mais uma indicação ao Oscar como coadjuvante do que Sam Rockwell como George W. Bush. Ainda que, claro, Rockwell esteja bem. Além deles, vale citar o bom trabalho de Alison Pill como a filha homossexual de Cheney, Mary; Eddie Marsan como Paul Wolfowitz, aliado de Cheney; Justin Kirk como Scooter Libby; LisaGay Hamilton em uma ponta como Condoleezza Rice; Jesse Plemons como Kurt, narrador da história; Bill Camp como Gerald Ford; Don McManus como David Addington; Lily Rabe como Liz Cheney, que segue os passos do pai; e Tyler Perry em uma ponta como Colin Powell.

Vice estreou nos Estados Unidos no dia 12 de dezembro de 2018. A produção participou de apenas dois festivais, desde então, o PAC Festival e o Festival Internacional de Cinema de Berlin. Em sua trajetória até o momento, Vice ganhou 28 prêmios e foi indicado a outros 115 – incluindo oito indicações ao Oscar 2019. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o de Melhor Ator – Musical ou Comédia para Christian Bale no Globo de Ouro 2019; o de Melhor Edição no BAFTA; e para outros 8 prêmios de Melhor Ator para Christian Bale.

Agora, vale citar algumas curiosidades sobre esta produção. O ator Christian Bale disse que, devido ao estilo de direção voltada para a improvisação de Adam McKay, ele teve que fazer mais pesquisas sobre o seu personagem para este filme do que qualquer outro papel que ele já tivesse desempenhado. Para improvisar dentro de seu personagem, Bale não precisava apenas “absorver” os maneirismos e o vernáculo de Dick Cheney como precisava, também, saber quais políticas, suas instâncias e abreviações o vice-presidente dominaria em qualquer momento da produção levando em conta a sua trajetória. Um trabalho realmente aprofundado e que convence.

Christian Bale engordou 45 quilos, raspou a cabeça, clareou as sobrancelhas e se esforçou para engrossar o pescoço para assumir a figura de Cheney. O ator disse que conseguiu engordar para o filme comendo muitas tortas. Realmente o trabalho dele é impressionante. Não sei se bato mais palmas para Bale ou para Malek, mas ambos estão fantásticos em seus respectivos papéis.

Como Cheney teve problemas cardíacos bem documentados durante a maior parte da sua vida adulta, Bale teve de estudar a prevenção de ataques cardíacos como parte de seu método de mergulho no personagem. O que ele aprendeu ajudou a salvar a vida do diretor Adam McKay, que teve um ataque cardíaco durante a pós-produção.

A atriz Amy Adams permaneceu com o seu personagem durante todo o tempo das filmagens, especialmente mantendo a voz diferenciada da sua personagem. Ela chegou a debater política com o diretor McKay com a voz de sua personagem. A atriz disse que essa foi a primeira vez que ela ficou imersa no personagem durante toda a filmagem.

Bale disse que essa foi a primeira vez que ele contou com um nutricionista para ajudá-lo a ganhar peso. Isso porque, desta vez, ele estava mais preocupado em manter a saúde do que quando era mais jovem.

Christian Bale e Dick Cheney fazem aniversário no mesmo dia, 30 de janeiro.

Esse é o primeiro filme de Hollywood que foca na vida real de um vice-presidente do país – normalmente o que vemos são filmes sobre homens que chegaram à Presidência.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme ainda). A sequência em que Bale “quebra a quarta parede”, ou seja, em que faz o seu personagem falar com os espectadores, foi sugerida pelo ator. Inicialmente McKay não tinha pensado naquela cena e estava um pouco resistente a incluí-la, mas ao ver o desempenho de Bale, ele resolveu utilizá-la. De fato, naquele momento, Bale dá um show de interpretação e demonstra como ele realmente mergulhou no personagem.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,2 para Vice, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 207 críticas positivas e 107 negativas para a produção – o que lhe garante uma aprovação de 66% e uma nota média de 6,7. O site Metacritic apresenta um “metascore” de 61 para Vice, fruto de 29 críticas positivas, 14 medianas e 11 negativas. Sem dúvida alguma é o filme com menor aprovação dos críticos entre aqueles que concorrem a Melhor Filme no Oscar 2019.

De acordo com o site Box Office Mojo, Vice teria arrecadado US$ 47,2 milhões nas bilheterias dos Estados Unidos e outros US$ 16,5 milhões nas bilheterias dos outros países em que o filme estreou. Ou seja, no total, o filme fez pouco mais de US$ 63,7 milhões, um bom resultado para um filme com uma carga tão fortemente política – o que, convenhamos, não é o perfil favorito da maioria do público.

Vice é uma produção 100% dos Estados Unidos, por isso esse filme passa a figurar na lista de produções que atendem à uma votação feita há algum tempo aqui no blog e que pedia por filmes made in USA.

CONCLUSÃO: Um filme que mergulha muito bem na história de um vice-presidente dos Estados Unidos que teve mais poder que o próprio líder do país. Bem narrado, com um roteiro ácido, crítico e que apresenta alguma inovação não apenas na narrativa, mas também na forma de apresentar essa história, Vice é um dos melhores filme do ano e desta temporada do Oscar. Entre os concorrentes deste ano, este é um dos melhores, especialmente por inovar na narrativa. Gostei muito da direção e do roteiro, e os atores estão muito bem. Mereceu as indicações recebidas, mas deve levar poucos prêmios para casa. Espero que mais filmes assim surjam. Filme político, crítico e necessário.

PALPITES PARA O OSCAR 2019: Vice concorre a oito prêmios na premiação da Academia de Arte e Ciência Cinematográfica de Hollywood. O filme teve muitos méritos para chegar a essas indicações. A produção concorre como Melhor Ator Coadjuvante para Sam Rockwell; Melhor Atriz Coadjuvante para Amy Adams; Melhor Edição; Melhor Ator para Christian Bale; Melhor Diretor para Adam McKay; Melhor Maquiagem e Cabelo; Melhor Filme; e Melhor Roteiro Original.

Vamos começar com as chances de Sam Rockwell. O ator está bem como George W. Bush, mas ele aparece relativamente pouco no filme e não me pareceu que faz aquela graaaaande interpretação. Faz um bom trabalho, mas não realmente marcante. Entre ele e Mahershala Ali, sem dúvida Ali tem o favoritismo e deve receber o Oscar.

Amy Adams tem uma importância maior em Vice e está muito bem, mas tanto Emma Stone quanto Rachel Weisz em The Favourite (comentado aqui) apresentam trabalhos mais marcantes. Além delas terem chances maiores que Adams, tudo indica que a favorita do ano é Regina King por If Beale Street Could Talk. A confirmar esse favoritismo.

Em Melhor Edição, o filme tem grandes concorrentes pela frente. Mas o trabalho de Hank Corwin é realmente muito bom e interessante. Gosto muito também do trabalho de edição de BlacKkKlansman (com crítica neste link), mas considero que The Favourite também tem boas chances. Difícil apostar nessa categoria, mas Vice até poderia levar a estatueta em edição.

Depois, temos a categoria de Melhor Ator e a indicação para Christian Bale. Ele realmente tem boas chances de levar ao prêmio mas, para isso, terá que vencer a queda de braços com Rami Malek, de Bohemian Rhapsody. Viggo Mortensen faz um grande trabalho em Green Book (com crítica neste link), mas parece que ele corre por fora nesse ano. O favorito, me parece, é realmente Christian Bale. Se ganhar, não será injusto – ainda que eu tenha uma certa quedinha pelo ator Rami Malek e acho que ele merecia ser reconhecido.

Temos ainda Adam McKay concorrendo como Melhor Diretor, em um ano em que dificilmente tirarão o prêmio de Alfonso Cuarón, por Roma (comentado aqui). Vice tem grandes chances de ganhar na categoria Melhor Maquiagem e Cabelo. Em Melhor Filme, apesar de merecer, dificilmente Vice terá chances reais de levar. Os favoritos deste ano, me parecem, são os filmes Bohemian Rhapsody – o próximo na minha lista -, Green Book ou The Favourite. Para o meu gosto, por ordem de preferência, os favoritos seriam Vice, The Favourite e Green Book.

Finalmente, Vice concorre em Melhor Roteiro Original. Categoria com grandes títulos na disputa nesse ano. Roma e Green Book parecem levar vantagem nesta disputa, mas estão no páreo, ainda, The Favourite e Vice. Assim, no cômputo geral, Vice tem chances reais de levar estatuetas em três categorias: Melhor Ator para Christian Bale, Melhor Maquiagem e Cabelo e Melhor Edição. Pode surpreender ainda em alguma outra categoria, mas acho difícil. E pode, eventualmente, levar apenas em Melhor Maquiagem e Cabelo.

Categorias
Cinema Cinema norte-americano Crítica de filme Filme premiado Globo de Ouro 2016 Movie Oscar 2016 Votações no blog

The Big Short – A Grande Aposta

thebigshort3

Existe uma regra quase infalível no mercado: sempre que alguém perde, há outro alguém que ganha. The Big Short conta a história de homens que lucraram, e muito, com a quebradeira causada por bancos mal-intencionados e agências de risco comprometidas em 2008. Mas mais que contar a história deles, este filme reflete sobre a ignorância forçada em que boa parte da sociedade vive. Como é citado no filme, a verdade é como a poesia, e poucas pessoas gostam de poesia. Equilibrando comédia com drama, este filme é uma crítica ácida para o que há de pior no capitalismo.

A HISTÓRIA: Começa nos dizendo que o filme é baseado em fatos reais. Em seguida, surge uma citação de Mark Twain que diz que não é o que sabemos agora que nos coloca em apuros, mas sim aquilo que nós achamos que temos certeza. De fundo, a imagem de uma criança brincando com o seu pai. Corta. A história começa no final dos anos 1970, com o narrador nos dizendo que naquela época ninguém procurava um banco para ganhar dinheiro. Os bancos, ele conta, eram cheios de perdedores, vendedores de seguro ou contadores.

Naquele cenário, a venda de títulos não interessava para ninguém. Uma regra do mercado até então que foi alterada por Lewis Renieri (Rudy Eisenzopf), o homem que criou os títulos garantidos em hipotecas. Esses recursos mudariam os Estados Unidos, até que eles deixassem de ser tão seguros. Esta história é sobre como a crise de 2008 aconteceu e sobre as pessoas que viram o problema se formar e apostaram contra ele a tempo de ganhar dinheiro com isso.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Big Short): A primeira impressão errada sobre este filme é a de que ele seria uma comédia. Impressão essa dada pela indicação de The Big Short ao Globo de Ouro 2016 nesta categoria. Claro que esta produção tem humor, mas não é aquele clássico, engraçado. É um humor ácido, crítico, irônico, quase azedo pelo tema que o filme trata.

A segunda impressão errada sobre este filme pode ser dada pelo cartaz dele, com algumas das estrelas que fazem parte do elenco. The Big Short é muito mais complexo do que o cartaz poderia dar a entender. O roteiro vai fundo nos bastidores que levaram à quebradeira dos bancos em 2008 e que, por consequência, criou uma crise financeira global. Muitos dos conceitos tratados na produção são complexos para qualquer mortal que não seja economista ou que não esteja mergulhado no sistema bancário ou na bolsa de valores.

Então esqueça que este filme é fácil. Não é. Em todos os sentidos. O diretor Adam McKay utiliza diversas estratégias para contar essa história. Da introdução em uma época, para apresentar uma ideia, passando depois mais de 20 anos no tempo para nos contar como aquele embrião criado por Lewis Ranieri cresceu e virou um monstro, até a mescla de narrativa do “tempo presente” com a inserção de fotos, notícias e videoclipes para contar a passagem do tempo e os elementos culturais que fizeram parte da sociedade retratada no período. Além disso, há aquele velho recurso de alguns atores falando diretamente para a câmera (ou seja, com o espectador).

No meio de tudo isso, algumas vezes quase esquecemos que este filme tem um narrador: Jared Vennett (Ryan Gosling), bancário do Deutsche Bank. Esse esquecimento é explicável porque a produção é rápida no ritmo e na mudança do estilo de narração. Uma das maiores qualidades do filme, além da direção rápida e criativa de McKay é, sem dúvida, o roteiro complexo e cheio de tempero que McKay escreveu junto com Charles Randolph e que é inspirado no livro The Big Short (que recebeu o título de A Jogada do Século no Brasil) de Michael Lewis.

The Big Short pega o assunto complexo do colapso econômico de 2008 e nos mostra como chegamos ali. O bacana é que depois que Jared Vennett explica a realidade sobre o mercado imobiliário dos Estados Unidos, com toda a corrupção e ganância dos bancos contaminando também as agências de risco, ou seja, todo o sistema, para o investidor Mark Baum (Steve Carrell) e equipe, nos colocamos exatamente no lugar daquele grupo.

Ficamos surpresos com o que Vennett explica. É difícil de acreditar que os bancos e as agências de risco chegaram naquele ponto de descontrole. E qual é o passo seguinte de Baum e seu grupo? Eles resolvem verificar in loco o que está acontecendo. Eles saem para investigar a denúncia de Vennett. Enquanto isso, há outras duas linhas narrativas complementares se desenrolando. A origem de todo esse grupo que acabou investindo contra o mercado imobiliário e ganhando muito dinheiro com isso teve a ver com o trabalho de Michael Burry (Christian Bale).

Aliás, não comentei antes, mas após aquela introdução sobre a origem dos títulos imobiliários nos anos 1970, o primeiro personagem contemporâneo e que descobriu que o mercado iria colapsar foi Michael Burry. Ele era o gestor de um fundo de investimento e analisando milhares de números e dados do mercado imobiliário, foi o primeiro a perceber que era uma questão de tempo para a bomba estourar. Por sua conta e risco Burry foi aos bancos e criou o swap de incumprimento de títulos hipotecários – ou seja, ele criou um produto que era, na essência, uma aposta de que o mercado imobiliário iria colapsar.

Como era um produto novo e ele queria ter certeza que iria receber o dinheiro quando o que ele estava prevendo acontecesse, os bancos exigiram que ele pagasse os juros sobre o capital investido mensalmente. Caso os títulos hipotecários colapsassem, ele teria garantia de receber o correspondente ao que ele tinha “apostado” (feito “short” contra o mercado). Mas se os títulos hipotecários subissem, ele teria que pagar por isso.

No início, todos acharam ele louco. Os investidores do fundo que ele administrava quiseram tirar o dinheiro, mas ele percebeu que existia uma fraude no mercado e bloqueou as retiradas. Aliás, este é um dos pontos mais interessantes de The Big Short. Mostrar como os bancos e as agências de risco fraudaram o sistema e chegaram a fazer os títulos hipotecários podres serem valorizados antes que a verdade começasse a aparecer.

Com a sua teoria Burry procurou diversos bancos, começando pelo Goldman Sachs, seguindo para o Deutsche Bank e o Bank of America para criar o “short” contra os títulos hipotecários. Todos aceitaram a sua proposta porque, como fica claro em cada lugar que ele procura, os banqueiros acharam que estavam ganhando um dinheiro fácil. No total, ele investiu US$ 1,3 bilhão em swaps de incumprimento de hipotecas.

O problema para Burry é que a previsão que ele tinha feito para o colapso do sistema não levou em conta que bancos e agências de risco estavam comprometidos até o pescoço e que, além de tudo, eles iriam mentir, fraudar e adiar a crise um pouco mais de tempo. O fundo de Burry acabou perdendo dinheiro neste período e Bale nos faz acreditar em sua angústia com aquele cenário.

Enquanto isso, o investidor Mark Baum vai verificar diretamente no mercado imobiliário como os negócios são feitos. Ele fala com corretores e com pessoas de bancos e descobre que ninguém parece saber fazer contas. Ou estão tão preocupados com os seus ganhos que não percebem que não há como aquele sistema de enganação se manter por muito tempo. Carell está ótimo com as suas expressões e caretas. Afinal, ele nos representa. Baum ficou sabendo da teoria de Burry através de Jared Vennett que, por sua vez, soube da criação das swaps de incumprimento de hipotecas conversando com colegas dos bancos em um bar.

Outra fonte de informações nesta narrativa é puxada pela dupla Charlie Geller (John Magaro) e Jamie Shipley (Finn Wittrock). Eles são investidores de pequeno porte que conseguiram fazer o patrimônio multiplicar em pouco tempo investindo em títulos baratos. Depois de conseguir multiplicar o dinheiro inicial, eles querem jogar como adultos e procuram um banco para isso. Eles nem são considerados para entrar no grupo dos grandes, porque não tem dinheiro para isso, mas no lobby do banco eles descobrem um documento que propõe swaps de incumprimento de hipotecas.

Intrigados com aquele documento, eles também resolvem investigar o mercado imobiliário. Rápidos no gatilho, mas sem capital para entrar com as swaps, eles recorrem a um grande investidor que saiu do mercado, Ben Rickert (Brad Pitt). Ex-vizinho de Shipley, ele resolve ajudar os dois jovens porque, afinal, ele pode fazer isso. No fundo, todos acreditam que o sistema está falido e querem demonstrar isso – ganhando muito dinheiro com isso, se possível.

Um dos aspectos mais interessantes do filme, para mim, não foi apenas contar como tudo nos levou para aquela crise do mercado imobiliário e financeiro dos Estados Unidos e que depois contaminaria o mundo, mas especialmente a reflexão do roteiro sobre a ignorância da coletividade. Geniais as imagens que mostram os fatos que aconteceram de importante e de desimportante – como clipes musicais, artistas em alta e em baixa e tantas cenas de pessoas comuns dos Estados Unidos – enquanto aquele grupo de pessoas enxergava o caos que estava para vir.

É a velha história de que a ignorância é uma benção. Não, não é. Mas infelizmente, e isso está comprovado, a maioria das pessoas vive na ignorância. Consome notícias esparsas e não consegue entender a fundo nada de importante que está ocorrendo à sua volta, seja na sua comunidade, país ou no mundo. Todos estão preocupados demais com as suas pequenas misérias ou momentos breves de felicidade e ninguém (ou quase ninguém) consegue ver o quadro inteiro.

The Big Short é fascinante por isso. Pela reflexão que ele faz sobre a sociedade dos anos que antecederam 2008 e que continua sendo válida até agora. Quanto tempo as pessoas que você conhece perdem com futilidades, consumindo informações sem importância sobre a vida pessoal dos artistas, por exemplo? Quantas entendem as razões da atual crise no Brasil ou em outras partes do mundo? Enfim, The Big Short é um bom soco no estômago da sociedade atual.

Por esta questão, é um filme que merece a nota abaixo. Também é preciso aplaudir a narrativa de McKay. Por outro lado, acho que esta produção poderia ter simplificado um pouco a história e não ter forçado a barra, até aonde eu vejo, tentando mostrar os personagens principais como “heróis”. No final das contas eles foram apenas pessoas que quiseram ganhar dinheiro com o colapso de um mercado.

Claro, eles também queriam provar uma teoria, demonstrar que o sistema estava corrompido mas, acima de tudo, eles queriam ganhar dinheiro. No fim, eles são tão diferentes assim das pessoas que, sedentas por dinheiro, fizeram o sistema chegar naquele ponto? O filme falha um pouco ao torná-los quase heróis da história. Não os vejo assim.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Citei apenas parte do elenco de The Big Short. Christian Bale, Ryan Gosling, Brad Pitt, Steve Carell, John Magaro e Finn Wittrock lideram o elenco com os personagens centrais da trama. Mas completam o elenco estelar, ainda, os competentes Marisa Tomei (como a esposa de Mark Baum), Hamish Linklater (como Porter Collins), Jeremy Strong (como Vinnie Daniel) e Rafe Spall (como Danny Moses), esses três últimos a equipe de Mark Baum e que o acompanha quase todo o tempo na investigação sobre o mercado imobiliário e financeiro.

Há um recurso no roteiro que eu não comentei antes e que achei muito interessante como forma de reforçar a proposta dos roteiristas de que a nossa sociedade capitalista vive de aparências – ao ponto de acreditar em celebridades mais do que na própria análise, muitas vezes. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Diversos conceitos complicados do filme são explicados com pausas para que algumas celebridades discorram sobre o assunto. A técnica começa com a atriz Margot Robbie, que fez cenas provocantes em The Wolf of Wall Street – por isso a alusão à banheira nesta produção; prossegue com o chef Anthony Bourdain e termina com o economista Richard Thaler e a cantora Selena Gomez. Uma das boas sacadas do filme.

Cada um dos atores principais deste filme é motivado por uma questão diferente. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Michael Burry quer, essencialmente, comprovar uma teoria. Quer comprovar como ele viu que tudo estava desmoronando enquanto mais ninguém via isso. Mark Baum, descrente do sistema, queria comprovar que os sistemas político e financeiro estavam corrompidos e que iriam sucumbir. Era um destes sujeitos de “teoria da conspiração” que acaba acertando no alvo com a ajuda de terceiros. E a dupla Charlie Geller e Jamie Shipley queria multiplicar a pequena fortuna que eles tinham feito até então. Mas independente da motivação de cada um, todos queriam ganhar dinheiro com a crise que eles perceberam sozinhos.

Falando em ganhar dinheiro, as tais swaps criadas por Burry podiam dar retornos de 20:1, ou seja, para cada US$ 1 investido, retorno de US$ 20. Geller e Shipley procuraram investir em swaps contra títulos classificados como AAA, ou seja, os que deveriam ser os mais seguros do mercado. Neste caso, eles poderiam ganhar até 200:1.

Da parte técnica do filme vale destacar, em primeiro lugar, a excelente direção de Adam McKay. Ele consegue não apenas dar ritmo para a história, mas também valorizar os diversos elementos importantes em cena. Algumas vezes ele destaca o trabalho dos atores. Em outros momentos, valoriza as cidades e o comportamento das pessoas, assim como a dinâmica de valores e as notícias que estiveram em evidência naquele período. Sem dúvida, um grande trabalho. O roteiro também merece aplausos, assim como a edição excepcional de Hank Corwin.

Como eu gosto de rock, devo dizer que adorei o estilo musical do personagem de Michael Burry. Através dele, temos uma boa parte da trilha sonora de Nicholas Britell focada em um rock vigoroso. Bacana. A trilha sonora dele não se resume a esse estilo, claro. Britell faz uma trilha bem ponderada e atenta para cada momento da produção. Um belo trabalho.

O roteiro de McKay de de Charles Randolph é um dos principais trunfos da produção. E também um de seus principais problemas em um ou dois momentos. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Ele acerta nos diferentes elementos narrativos que agrega na produção, assim como no tom crítico, irônico e ácido com que analisa a sociedade e o contexto da crise. Mas, francamente, achei forçadas algumas cenas de “consciência” dos personagens.

Por exemplo, coube a Brad Pitt dar um “esporro” em Geller e Shipley quando eles estavam comemorando o investimento que tinham feito. Ah, convenhamos, o personagem de Pitt havia ganho muito dinheiro com aquele mercado e agora ajudava os dois amigos a fazer o mesmo. Sério que nunca antes ele tinha pensado o quanto especuladores e pessoas que jogam com o dinheiro fazem mal para a sociedade?

O mesmo podemos falar sobre algumas das cenas com Mark Baum. Ele parece não se conformar com o desenrolar dos fatos após a quebradeira dos primeiros bancos, mas também não foge da raia em tirar lucro da situação. Se eles tivessem outra motivação que não a de encher os bolsos, porque eles não avisaram mais pessoas do que estava prestes a acontecer? As “crises” de consciência que aparecem no filme tem um propósito claro de fazer o espectador pensar, mas não me convenceram. De qualquer forma, bem perto do final, Baum estava certo ao comentar que, no fim das contas, os pobres e imigrantes iriam ser apontados como os culpados de tudo. Isso de fato aconteceu e, parece, sempre vai se repetir. Infelizmente.

The Big Short estreou no Festival da AFI em novembro de 2015. No mês seguinte o filme participou do Festival Internacional de Cinema de Dubai. Até o momento a produção acumula 13 prêmios e foi indicada a outros 73. Entre os que recebeu, destaque para seis prêmios dados por círculos de críticos de cinema como Melhor Roteiro Adaptado.

Apesar de ter um elenco estrelado, esta produção custou relativamente pouco: US$ 28 milhões. Apenas nos cinemas dos Estados Unidos a produção fez pouco mais de US$ 44,6 milhões até ontem, dia 13 de janeiro. Nos outros países em que o filme já estreou ele fez outros US$ 10 milhões. Provavelmente ele vai conseguir se pagar.

The Big Short foi rodado, essencialmente, nos Estados Unidos, em cidades como New Orleans, Las Vegas e Malibu. Mas as cenas externas do pub inglês que aparece no filme foram rodadas no The Black Horse, pub tradicional da cidade inglesa de Fulmer.

Agora, algumas curiosidades sobre esta produção. Os personagens do filme são baseados em pessoas reais. Por exemplo: Mark Baum é inspirado no gerente de investimentos Steve Eisman; Jared Vennett é inspirado no negociador Greg Lippmann; Ben Rickert é baseado em Ben Hockett; e Charlie Geller e Jamie Shipley são baseados em Charlie Ledley e Jamie Mai.

Este é o primeiro filme em que Ryan Gosling aparece desde que ele decidiu dar uma “pausa” na carreira em 2013.

The Big Short é o segundo filme baseado em um livro de Michael Lewis em que Brad Pitt investe como produtor e no qual ele também atua. O filme anterior foi Moneyball (comentado aqui).

Não sei vocês, mas para mim foi impossível assistir a The Big Short e não lembrar de The Woll of Wall Street. Além dos dois filmes tratarem das loucuras do mercado financeiro e de seus especuladores, ambos tem em comum um tom crítico, ácido e um roteiro cheio de palavrões. Ainda que, evidentemente, The Wolf of Wall Street (comentado aqui) ganhe na loucura e na interpretação de catarse e digna de aplausos de Leonardo DiCaprio.

Agora, uma pequena curiosidade sobre a participação especial de algumas celebridades nesta produção. Inicialmente, no lugar de Margot Robbie, estava planejada a participação de Scarlett Johansson; e no lugar de Selena Gomez estava prevista Beyonce e Jay Z – inclusive com ele tirando sarro da questão da aposta, item de uma de suas canções de sucesso.

Entre os atores, vejo que todos se saíram bem. Mas lideram como destaques Christian Bale, Ryan Gosling e Steve Carell. Para mim, nesta ordem.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8 para esta produção. Uma avaliação muito boa levando em conta o padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 170 críticas positivas e 24 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 88% e uma nota média de 7,9. Sem dúvida alguma um desempenho abaixo de diversos outros concorrentes desta produção no Oscar.

CONCLUSÃO: Um filme complexo em um certo nível mas simples de entender em outro. A complexidade está em absorver conceitos complicados como subprime, swap e CDO (obrigações de dívida colateralizada). Nestes momentos o filme entra em exemplos cômicos para “mastigar” os temas complexos. Por outro lado, The Big Short vai direto na veia e não tem papas na língua para chamar de fraude e de especulação todo o movimento que nos levou à quebradeira de 2008.

Com um roteiro bem construído, especialmente ao resumir parte da ganância das sociedades “desenvolvidas” como a dos Estados Unidos, este filme conta também com um elenco de estrelas. Sarcástico na medida certa, ele também faz pensar. Funciona, ainda que tenha algumas pequenas ressalvas no caminho.

PALPITES PARA O OSCAR 2016: Hoje saiu a lista dos indicados ao prêmio máximo da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. The Big Short está concorrendo em cinco categorias: Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator Coadjuvante, Melhor Edição e Melhor Roteiro Adaptado.

Foram justas todas as indicações, sem dúvida. Mas não vejo o filme tendo muitas chances na maioria destas categorias. Talvez ele possa concorrer com maior vigor em Melhor Ator Coadjuvante. Ainda assim, ele teria que ganhar do mais novo-velho queridinho dos críticos, Sylvester Stallone em Creed. Claro que eu sempre vou achar Christian Bale mais ator que Stallone – estou falando aqui de interpretação, não de ícone do cinema de ação -, mas é fato que temos um grande “risco” da Academia querer dar uma estatueta para Stallone enquanto há tempo.

A edição deste filme é fantástica, mas ele tem, pela frente, Mad Max: Fury Road e The Revenant para vencer. Parada dura. Mas The Big Short tem alguma chance aqui. Honestamente, se eu pudesse, votaria por ele. Não vejo o mesmo em Melhor Diretor (o favoritismo é de Iñarritu, seguido de George Miller e Tom McCarthy) ou Melhor Filme (claramente tendo The Revenant e Spotlight correndo na frente).

Finalmente, em Melhor Roteiro Adaptado, acho que The Big Short tem alguma chance, ainda que me parece levar uma certa vantagem nesta categoria os roteiros de Room e Carol. Para resumir, não seria uma total zebra The Big Short sair de mãos abanando do Oscar. Se isso não acontecer, ele poderá levar uma ou duas estatuetas para casa, apenas.

Categorias
Cinema Cinema norte-americano Crítica de filme Filme premiado Globo de Ouro 2015 Movie Oscar 2015 Votações no blog

Foxcatcher – Foxcatcher: Uma História que Chocou o Mundo

foxcatcher7

O filme mais estranho que eu assisti até agora da lista de indicados ao Oscar 2015. Foxcatcher é todo estranho. Primeiro, conta a história de alguns atletas de um dos esportes mais marginalizados dos Jogos Olímpicos. Depois, se aproxima de uma tradicional e muito rica família dos Estados Unidos. A junção destas duas realidades parece improvável, e a motivação desta aproximação é ainda mais estranha. Um filme curioso, mas que não passa muito disso.

A HISTÓRIA: Cenas históricas de cavaleiros e amazonas montando a cavalos de estirpe. Muitos são cercados de cães. Corta. Mark Schultz (Channing Tatum) treina sozinho na academia Wexler. Depois de alguns exercícios, ele coloca a medalha de campeão olímpico no pescoço e vai conversar com alunos de uma escola de ensino básico. Ele fala sobre o que faz um atleta ser um campeão. É março de 1987, e Mark ganha US$ 20 por ter falado para os estudantes.

Depois, ele ganha um lanche, aparentemente com diversos veteranos de guerra, e vai para casa comer macarrão instantâneo com molho de pimenta. Ele tem uma vida miserável, e parece estar incomodado com isso. Mas ele tem o irmão, David (Mark Ruffalo) sempre por perto. Tudo isso vai mudar quando entra em cena o multimilionário John du Pont (Steve Carell), que resolve patrocinar Mark e outros esportistas da luta grego-romana.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Foxcatcher): Desde os primeiros minutos deste filme a sensação predominante é de desconforto. Sempre há algo que parece “fora da ordem”. Não por acaso, a expectativa de quem assiste é de algo ruim deve acontecer a qualquer momento. Só não sabemos da onde o tiro vai partir.

Verdade que o título do filme no Brasil não ajuda no mistério. Afinal, “uma história que chocou o mundo” dá muito a entender que haverá um crime em cena. E como o tom de estranheza é constante, não é difícil alimentar a dúvida sobre que um crime ocorrerá a qualquer instante. Esse incômodo, não tenho dúvidas, faz parte das intenções dos roteiristas E. Max Frye e Dan Futterman, assim como do diretor Bennett Miller. Ou para dizer de outra forma, a sensação de um certo gosto amargo na boca é proposital.

A única justificativa para Foxcatcher existir é o desejo dos realizadores de questionar alguns dos baluartes da sociedade norte-americana. Afinal, o estranhíssimo personagem principal desta história John du Pont, encarna diversos elementos daquela cultura e professa valores que parecem corretos, mas que podem ser muito mal utilizados. Vale lembrar que a diferença entre o remédio e o veneno está na dose. E que muitas vezes a aplicação dos conceitos faz toda a diferença.

Com um tom amargo constante, Foxcatcher vai contando histórias de gente desvirtuada e que, aparentemente, não tem limites para a própria ambição. O que fica confuso, para mim, é o quanto os roteiristas tornam confusa a identificação de quem exagera na ambição e de quem apenas é dedicado a um propósito. Pensando bem, agora, ao escrever este texto, talvez essa seja a intenção deles.

Afinal, ainda que não seja fácil de perceber isso o tempo todo, mas há muitos mais tons de cinza – sem fazer alusão ao livro pornográfico – do que o preto e o branco que gostaríamos que predominasse em tantas ocasiões. Sendo assim, du Pont poderia realmente ter algum bom propósito, mas o essencial da conduta dele era de fonte egocêntrica. Através deste personagem, os realizadores querem questionar as famílias ricas e poderosas dos Estados Unidos. Que, volta e meia, mostram o seu pior lado.

Neste ponto é que entra o questionamento sobre a razão de ser de Foxcatcher. Esta é um produção que apenas aborda um crime ainda considerado absurdo por muitos norte-americanos? Ou seria uma forma dos realizadores questionarem a alta sociedade dos Estados Unidos, suas relações de poder e também a falta de apoio para alguns tipos de esporte? Sou mais adepta da segunda versão, ainda que eu não ache a primeira desprezível.

O filme parece ter a intenção de acertar a dois passarinhos com um tiro. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Ao mesmo tempo, matar a curiosidade de muitas pessoas que ainda se lembram do assassinato do campeão olímpico David Schultz, e também levar aquele caso para um outro nível, no qual são questionados os valores, as relações de poder e o ambiente em que as famílias abastadas do país estão fundamentadas.

Acho válido todo filme que aborda o segundo ponto, porque é interessante, ilustrativo e faz pensar o mergulho em realidades segmentadas. O que questiono é utilizar um drama que realmente aconteceu para fazer isso. Afinal, o trabalho de Frye e Futterman conta uma de diversas versões possíveis. Não necessariamente a mais próxima da verdade. Há fatos revelados no filme que acredite terem pouco espaço para dúvida, como a forma com que David é morto. Mas tantos outros detalhes são bastante questionáveis, sem contar os fatos sugeridos e não explicados. Vejamos.

Segundo este filme, Mark Schultz vivia em uma realidade paupérrima, aparentemente descontente com o rumo que a vida dele estava levando, até que surgiu na sua frente John du Pont. Podre de rico, o herdeiro de uma das famílias tradicionais do país resolve bancar o jovem atleta. Por mais que Schultz estivesse insatisfeito com a vida que ele levava, a forma fácil com que ele se muda para a propriedade de du Pont é um pouco difícil de acreditar. Mas ok, vamos levar em conta que os roteiristas não quiseram perder muito tempo com os pormenores.

A produção sugere que Mark estava não apenas insatisfeito com a falta de apoio para ele e para o esporte, mas também com as comparações constantes com o irmão, David, e com certa superioridade que o irmão mais velho poderia ter. Esta é uma forma de encarar a história, mas não é a única. Depois falarei mais a esse respeito.

Pois bem, segundo Foxcatcher, o filme – porque também há o livro homônimo e que não tem nada a ver com esta produção – , Mark não pensa muito em aceitar o convite de du Pont. Interessado em aparecer e em ter poder, principalmente, o multimilionário logo começa a jogar psicologicamente com Mark. Primeiro, ele tenta trazer o irmão David para o grupo. Quando não consegue isso, ele resolve substituir a figura do irmão, afastando Mark de David.

Daí surge um dos primeiros elementos que Foxcatcher questiona na sociedade americana: a ambição. Ela é vista em duas das figuras centrais desta produção – apenas David é semi-poupado na história. Primeiro, em Mark, que, segundo os roteiristas, estaria obcecado em fazer sucesso “por seus próprios méritos”, embarcando naquela ideia de du Pont de que ele deveria sair da sombra do irmão – mais velho e mais reconhecido que ele. Depois, no próprio du Pont, um sujeito estranho que parece estar sempre exibindo o poder emanado pelo dinheiro que a família tem, além de querer ganhar evidência em algo – nem que for na luta grego-romana com a qual ele não tem nenhum approach.

Quando du Pont, superbem interpretado por Steve Carell, resolve ele mesmo começar a “lutar”, chegamos ao extremo da noção patética do personagem no filme. A mãe dele, Jean du Pont (a veterana e sempre ótima Vanessa Redgrave), claramente tem vergonha do filho quando ele se presta a fazer coisas com as quais ele não tem nenhuma intimidade.

Além disso, e aí está um dos problemas do filme, Foxcatcher não deixa claro, mas apenas sugere que du Pont é gay. Isso fica subentendido em diversas cenas que mostra como ele admira aqueles – além da esfera deles serem atletas de elite -, e também em uma sequência que sugere que du Pont e Mark tiveram alguma relação mais íntima. Se ele fosse gay e se sentisse “castrado” pela mãe, que reprovaria um homossexual em uma família tão tradicional, muito seria explicado. Mas esse fato não fica evidente.

O que fica claro é que du Pont se sentia podado pela mãe em diversos sentidos, inclusive ao acreditar que ela amava mais os cavalos de raça e premiados do que ele. Consequentemente, du Pont reage a isso querendo ser um filantropo, especialista em diversas áreas e reconhecido por isso. Não importa para ele se o reconhecimento é real ou se ele deve pagar para ele. Du Pont, aparentemente, cresceu e “amadureceu” sem conhecer limites. Tanto que ele, ao ser contrariado, ao não conseguir o que ele mais desejava – que era ver Mark ser campeão olímpico sob a sua chancela e patrocínio -, ele resolveu “vingar-se” de alguém relacionado que estivesse perto.

Como Mark já havia saído do propriedade, a ira e a falta de controle de du Pont acabou cobrando um preço alto de David. Nestas minhas observações já estão outros elementos que Foxcatcher claramente acha relevantes de questionar: a alta classe tradicional dos Estados Unidos e sua falta de limites e a influência que eles conseguem ter ao dedicar parte de suas fortunas para causas “filantrópicas”. Curioso também como o filme mostra a proximidade de du Pont com os militares e os policiais, ao ponto dele comprar um tanque de guerra e praticar tiro com os homens da lei.

Um dos problemas deste filme é que para ele vender os seus conceitos, ele deve simplificar bastante os personagens. Por exemplo, Mark começa e termina o filme carrancudo. Parece um cara que está insatisfeito o tempo todo. No início, por não ter dinheiro. Depois, por estar à sombra do irmão. Finalmente, por se sentir usado por du Pont e por não se reconhecer mais – inclusive ao descambar para a cocaína. Por outra parte, du Pont é um cara estranho do início ao fim, detentor de várias frases feitas e manipulador. Ele sabe usar o poder e o dinheiro que tem para conquistar o que deseja.

Certo que as pessoas são o que elas são. Mas ninguém é tão raso quanto os personagens de Foxcatcher. Ou dificilmente encontramos pessoas tão unidimensionais. Mas para convencer, Frye e Futterman escolhem esse caminho da simplificação dos personagens. E também um bocado da história, a ponto de deixar algumas pontas soltas – como se houve ou não um envolvimento sentimental/sexual entre Mark e du Pont; sobre as reais motivações da chegada e da partida de Mark da propriedade e assim por diante.

No fim das contas, acho que há filmes que falam sobre o “mal estar” dos valores norte-americanos de forma muito mais eficaz. O primeiro que me vem à mente é o já clássico American Beauty, ou mesmo o ainda anterior Blue Velvet e o mais recente Mulholland Dr. – ambos do ótimo David Lynch. Para mim, estes três filmes, para citar só alguns, são mais eficazes em fazer uma autocrítica ao “american way of life” do que este Foxcatcher com suas leituras simplificadas de personagens – e o pior, reais – e seus furos de roteiro.

NOTA: 6,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Realmente é uma experiência muito diferente ver Steve Carell em um papel tão sério. Esse ótimo ator, que eu gostei de acompanhar em parte da versão norte-americana da série The Office, aparece totalmente diferente aqui em Foxcatcher. Mas ele está ótimo, porque convence como um cara que parece, permanentemente, ser perigoso. O John du Pont de Carell é estranho o tempo todo, e um pouco assustador. Para incorporá-lo, o ator contou com a ajuda fundamental da maquiagem. No total, 14 profissionais estiveram envolvidos no departamento de maquiagem do filme. Trabalharam bem.

Gosto de Channing Tatum e de Mark Ruffalo. Cada um deles está bem neste filme, mas o roteiro não lhes ajuda a construírem personagens melhores. Afinal, os irmãos Mark e David nesta produção estão desenhados para propósitos muito específicos, sem complicações – diferente das pessoas reais, normalmente. Isso me incomoda um pouco, porque, afinal de contas, este filme segue aquela alcunha de “baseado em fatos reais”.

As atrizes Sienna Miller e Vanessa Redgrave mais uma vez em papéis secundários. A primeira, em especial, se consolidando como uma camaleoa. A cada novo filme que eu vejo essa atriz, ela está muito diferente do anterior. Bacana isso. Ela mostra versatilidade. Acho que é uma questão de tempo para vermos ela em um grande papel e com uma grande interpretação. Vanessa Redgrave, como sempre, elegante e precisa em sua interpretação.

Como comentei na crítica, alguns pontos no filme me deixaram em dúvida e incomodada. Daí que parti para ir atrás de informações sobre a história real de Foxcatcher. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Encontrei este texto, um tanto fraquinho – e não, Foxcatcher não é um dos favoritos ao Oscar -, mas que ganha interesse por resgatar parte da história real e, principalmente trazer uma foto do verdadeiro David e do du Pont real.

Mas a real controvérsia sobre a versão de Foxcatcher, filme dirigido por Bennett Miller, eu fui ter ao procurar o livro Foxcatcher escrito por Mark Schultz. Não li o livro inteiro, mas dei uma passada nele, e a versão é bem diferente do filme. Ele não fala que teve uma relação afetiva com du Pont. Pelo contrário. Ele deixa claro que só foi para a propriedade do multimilionário por causa do dinheiro. E diferente do que o filme sugere, ele nunca se queixa do irmão ou demonstra ter inveja ou sentir-se à sombra dele.

Pelo contrário. Ele elogia David do início ao fim. Claro, alguém pode dizer, que ele fez isso após o irmão morrer, mas que na época em que ele estava vivo as coisas eram diferentes. Até pode ser, mas não vi até agora nenhuma comprovação disso. Frye e Futterman devem ter se baseado na cobertura da imprensa da época e ter “adequado” a história para que o filme ganhasse em “interesse” e “drama”, mas não parece que a produção tem realmente muito fundo na realidade.

Outro texto interessante e até fundamental é este. Ele mostra como a polêmica cresceu quando o filme estreou, e de como o verdadeiro Mark ficou indignado com Miller, a ponto de ameaçá-lo de processo e de acabar com a carreira do diretor. Segundo um texto que Mark escreveu no Facebook e que é reproduzido no texto que eu linkei, ele nunca se mudou para Pensilvânia, como o filme mostra, e sim foi morar em Villanova como ajudante de treinador.

Ele também conta que a primeira vez que ele encontrou du Pont, este estava “sujo e bêbado”, e afirma que nunca o considerou um mentor ou que viu nele a figura de pai. Ele também nega vários outros fatos mostrados no filme. Ou seja, mais razões para questionar Foxcatcher de Miller. Ah sim, e Mark tira aquela dúvida que eu tinha lá encima: ele diz categoricamente que não teve nenhuma relação sexual com du Pont. Eita! O filme sugere algo bem diferente. O estranho é que Mark acabou mudando radicalmente de opinião depois – ele teria sido comprado?

Da parte técnica do filme, nada me chamou muito a atenção. Mas acho que vale mencionar a trilha sonora precisa e bem pontual de Rob Simonsen; o design de produção de Jess Gonchor; os figurinos de Kasia Walicka-Maimone e o trabalho dos 13 profissionais envolvidos na maquiagem.

Foxcatcher estreou em maio de 2014 no Festival de Cinema de Cannes. Depois disso, o filme participaria de outros 24 festivais. O próximo da lista aonde o filme ainda vai estrear é o Festival de Cinema de Belgrado, que começa no dia 2 de março. Nesta trajetória o filme conquistou 13 prêmios e foi indicado a outros 45. Entre os que recebeu, sem dúvida alguma o principal é o de Melhor Diretor para Bennett Miller no Festival de Cinema de Cannes.

Esta produção foi totalmente rodada nos Estados Unidos, em diversas cidades da Pensilvânia, incluindo Pittsburgh, e também em Leesburg, na Virgínia. O filme também é uma produção 100% dos Estados Unidos – por isso ele entra na lista de “votações no blog”.

Agora, aquelas clássicas curiosidades sobre o filme. Na cena do espelho, Channing Tatum realmente quebra o objeto, o que não estava no roteiro. Mas ele realmente entrou no personagem naquela sequência, inclusive machucando a testa na ação.

Tatum e Mark Ruffalo passaram de cinco a seis meses em um treino intensivo de luta para poderem interpretar os seus respectivos papéis no filme. Steve Carell estudou as imagens disponíveis de du Pont durante horas, para tentar ser o mais fiel possível ao retratado por ele no filme.

Não encontrei informações sobre os custos deste filme, mas tudo leva a crer que ele teve um baixo orçamento. Nas bilheteria dos Estados Unidos, até o dia 1º de fevereiro, o filme tinha conseguido pouco mais de US$ 11,45 milhões. Baixo, bem baixo.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,3 para esta produção. Uma boa avaliação, levando em conta o padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 177 textos positivos e 25 negativos para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 88% e uma nota média de 7,9. De fato, pelo visto, eu estou abaixo da média do público e da crítica na avaliação deste filme. Isso é raro, mas acontece.

CONCLUSÃO: Sabe aquele filme em que você fica esperando o tempo todo que algo de ruim e/ou trágico aconteça? Este é o caso de Foxcatcher. A história é estranha do início ao fim, e como as peças não encaixam, o diagnóstico da tragédia iminente é inevitável. Os atores estão bem, mas o roteiro é um pouco arrastado e tem partes com fios soltos. As sugestões e as não comprovações incomodam, assim como a “moral da história”. Filme estranho que aborda um dos crimes que pode ter chocado os Estados Unidos, mas que teve pouca repercussão mundial – diferente do que os produtores querem nos fazer crer. Eficaz na narrativa, ainda que facilmente esquecível.

PALPITES PARA O OSCAR 2015: Por razões óbvias eu esperava mais de Foxcatcher. Certo que ele não foi indicado a Melhor Filme. Mas há produções melhores na disputa – como Selma – que foram indicadas a menos estatuetas que este filme de Bennett Miller. Como gosto dos atores envolvidos no projeto, também esperava que a entrega deles fosse marcante.

Pouco disso aconteceu. Como repeti diversas vezes no texto acima, apenas a estranheza da história e da forma com que ela é contada predomina nesta produção. Dos indicados ao Oscar deste ano, este é um exemplo de como a premiação está um pouco enfraquecida. Em um ano de boa safra, não imagino Foxcatcher concorrendo sequer a uma estatueta, quanto mais à cinco!

Mas ok, vamos ao que interessa. As indicações do filme este ano. Foxcatcher concorre em Melhor Ator para Steve Carell; Melhor Ator Coadjuvante para Mark Ruffalo; Melhor Direção para Bennett Miller; Melhor Roteiro Original e Melhor Maquiagem e Cabelo. Melhor Ator, nem pensar. Ainda que eu goste muito de Steve Carell, ele está léguas distante das ótimas performances de Eddie Redmayne e Benedict Cumberbatch. Mesmo Michael Keaton está melhor. Carell também apenas poderia duelar com Bradley Cooper – e olha lá.

Na categoria de Melhor Ator Coadjuvante também não vejo chances para Ruffalo. J.K. Simmons e Ethan Hawke estão muito melhores, e mesmo Edward Norton me pareceu mais “dentro” do papel. Não que Ruffalo não esteja bem, mas ele não faz nada além do que já estamos acostumados a vê-lo fazer. Ainda preciso ver a Robert Duvall.

Melhor Direção, nem pensar. Richard Linklater, Wes Anderson, Morten Tyldum e Alejandro González Iñarritu, nesta ordem, para mim, tem trabalhos melhores para apresentar que Miller. Aliás, se fosse para indicar alguém diferente nesta categoria, eu ainda preferia Clint Eastwood do que Miller. Acho o trabalho de Eastwood em American Sniper mais difícil e técnico do que do diretor de Foxcatcher. Ele dever ter bons amigos em Hollywood.

Finalizando, Melhor Roteiro Original, também, nem pensar. Boyhood, Birdman e The Grand Budapest Hotel são muito melhores e bem acabados, nesta ordem de preferência. Mesmo Nightcrawler achei melhor desenvolvido. A única chance do filme, pois, está em Melhor Maquiagem e Cabelo. Sem o trabalho técnico nesta área Carell não teria recebido uma indicação ao Oscar. 🙂 Sendo assim, talvez o filme leve uma estatueta, nesta categoria, se conseguir ganhar de The Grand Budapest Hotel – grande concorrente também – e Guardians of the Galaxy. Mas não seria totalmente surpreendente se o filme saísse do Oscar sem nada. Seria justo, na verdade.

Categorias
Cinema Cinema norte-americano Confessions Crítica de filme Filme premiado Movie Votações no blog

The Way Way Back – O Verão da Minha Vida

thewaywayback4

Um filme “bobinho” pode ser bom? Com certeza. The Way Way Back é um destes exemplares de filme sem grandes pretensões que acaba surpreendendo justamente pela suavidade. Ele faz rir menos que o previsto, por tratar-se de um filme de comédia. E ganha pontos ao abordar temas sempre relevantes apesar de não fazer grandes discursos sobre eles – para a nossa sorte. De quebra, ele ainda trata de forma bastante irônica de um tema importante para todo norte-americano (e pra gente também): as férias de Verão, que parece que sempre precisam ser extraordinárias. Se você não está buscando uma comédia escrachada e piadas fáceis, esta pode ser uma boa aposta.

A HISTÓRIA: Trent (Steve Carell) está dirigindo, mas não deixa Duncan (Liam James) em paz. Olhando pelo espelho retrovisor do carro, ele pergunta para o adolescente que nota ele se dá em uma escala de um a dez. O garoto, sentado no fundo do carro, de costas para Trent, responde que não sabe. O motorista não aceita esta resposta e diz porque acha que o jovem, filho da nova namorada dele, Pam (Toni Collette), tem uma nota baixa. Mas ele diz que tem uma boa notícia: que Duncan terá muitas pessoas para conhecer e muitas oportunidades de sair e se divertir na casa de veraneio de Trent, para onde a família está indo. De fato, Duncan terá férias diferentes e marcantes pela frente.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a The Way Way Back): A primeira sensação que eu tive com o começo deste filme foi: será que ele vai seguir a linha de Little Miss Sunshine? Um grande filme, lançado em 2006 e dirigido por Jonathan Dayton e Valerie Faris e que também tinha no elenco os atores Toni Collette e Steve Carell. Se você ainda não o assistiu, recomendo. Mas para a nossa sorte, The Way Way Back não é um Little Miss Sunshine 2. Digo para a nossa sorte porque cada vez mais eu acho que o cinema deve buscar uma história nova e não seguir velhas fórmulas.

Com isso, não quero dizer que The Way Way Back seja uma verdadeira revolução. Na verdade, o filme mergulha em um tema que já foi explorado em várias outras produções de Hollywood: as férias de Verão. Mas há muitas maneiras de encarar este assunto. Esta nova produção, dirigida e com roteiro da dupla Nat Faxon e Jim Rash, procura uma abordagem engraçada e ao mesmo tempo dramática desta válvula de escape social.

Não é por acaso, e vamos descobrir isso só depois, conforme o filme se desenvolve, que The Way Way Back começa com aquela conversa cheia de pressão e um aparente rancor entre Trent e Duncan. A rivalidade entre os dois vai pontuar toda esta produção. Como ocorre com tantas outras famílias “modernas”, Duncan sente dificuldade em se adaptar ao novo namorado da mãe. Ele quer viver com o pai, mas acaba tendo que passar as férias com o “desafeto” e a filha que busca sempre ser popular, Steph (Zoe Levin).

Claramente Duncan está deslocado. Aparentemente, não apenas naquela junção de famílias, mas também na vida. Ele não sabe muito bem como se comportar entre jovens de sua idade e nem em outros ambientes. Ele é o rapaz que acaba ficando com os adultos na mesa, mas não sente que aquele é o seu lugar. Um sentimento bastante comum entre muitos adolescentes que não estão na categoria de “populares”.

Não demora muito para que Duncan sinta uma certa sintonia com Susanna (AnnaSophia Robb), que parece não fazer esforço algum para agradar a mãe esfuziante Betty (Allison Janney) ou qualquer outra pessoa. Trent faz parte de uma vizinhança que sempre se encontra no Verão. Todos se conhecem, e todos sabem que “papéis” cada um joga durante as férias. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). E elas são sinônimos de excessos, de muita bebida, drogas e de troca de casais.

Esta é a “alma” das férias nos Estados Unidos – e em muitas outras latitudes. Parece que tudo aquilo que você deixou de fazer no resto do ano é liberado durante as férias. Relaxamento total e momento de passar todas as fronteiras – muitas, inclusive, do bom senso. Este é o pano de fundo de The Way Way Back. Sem se encaixar entre os jovens locais e com dificuldade cada vez maior de suportar Trent, Duncan descola uma bicicleta nada masculina. Esta é a primeira válvula de escape do adolescente.

Na busca de Duncan por alguma liberdade e satisfação, ele se encontra com o “eternamente jovem” Owen (Sam Rockwell). Mesmo não sendo mais um adolescente, Owen muitas vezes se comporta com o humor de um jovem. Com uma grande interpretação de Rockwell, o personagem de Owen encarna o “Peter Pan”, mas com o viés de um sujeito com grande generosidade.

Afinal, ele é o único que realmente olha para Duncan e percebe que o garoto só precisa de uma oportunidade. O protagonista deste filme necessita que alguém acredite nele para que ele possa começar a ter confiança e, consequentemente, tenha mais autoestima. Muito bacana o exemplo de Owen e a relação que ele estabelece com Duncan.

Em certo momento fica subentendido que Owen segue trabalhando na Water Wizz para seguir o legado do fundador que era, na verdade, pai do agora administrador do parque aquático. Durante o Verão, ele se solta e aproveita para ser o “rei” daquela parte da cidade. Duncan fica fascinado com o local, e com o próprio Owen. Mas, em certo momento, o herói do garoto comenta que aquele local fica vazio e horrível no Inverno.

Esta aí uma das mensagens de The Way Way Back. Quando adolescentes, podemos achar o máximo determinadas pessoas, épocas ou locais. Mas conforme o tempo passa e vemos tudo de forma mais realista, percebemos que não existem heróis, épocas ou locais perfeitos. Tudo tem pelo menos dois lados e altos e baixos. Mas não devemos desanimar com os momentos ruins, mas ter confiança que o sol vai voltar e apostar nesta “época” para curtir e disseminar o bom humor. A exemplo do que Owen faz com aquele parque e com o Verão.

Falando nesta época do ano, Trent encarna o sujeito que aguarda o Verão para extravasar e “curtir a vida adoidado”. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Não demora muito para percebermos que ele é um verdadeiro “garanhão” naquela vizinhança. Por isso, não é uma novidade quando Joan (Amanda Peet) aperta ele contra a parede. Típico “machista” que precisa dar a última palavra em casa, ele segue o padrão de “faço-besteira-e-depois-peço-desculpas-e-tudo-bem”. E, evidentemente, aguarda que os demais lhe desculpem e que tudo volte ao normal, para que depois ele siga fazendo besteiras e falando mais alto.

Além da busca da autoafirmação e de “um lugar no mundo” do adolescente em vias de chegar na vida adulta, tema bastante comum no cinema, e dos outros temas citados neste texto (perfil “Peter Pan”, dificuldade de adaptação dos jovens filhos de pais separados para os novos “arranjos familiares”), The Way Way Back trata de outro tema sensível: a preocupação de mulheres que já passaram dos 40 e que se separaram sobre a possibilidade de ficarem sozinhas.

Não é por acaso que a personagem de Pam encarne o perfil de tantas mulheres que conhecemos na vida real. Não é fácil ver o amor que se acreditava ser para a “vida inteira” terminar. E tão complicado quanto é ver as oportunidades de encontrar um homem digno e interessante caírem drasticamente quando se passa de uma certa faixa etária. Sei que parece lugar-comum dizer que os homens após os 40 estão mais interessados em mulheres jovens, deixando em segundo plano as mulheres da mesma faixa etária, mas é isso o que se vê em muitas partes.

Pressionada por este cenário e não querendo ficar “sozinha”, Pam cai na armadilha de ceder em muito do que acredita e na preocupação com o próprio filho para tentar fazer o relacionamento com Trent dar certo. Afinal, o sujeito parece ter pegada… e, mesmo sendo um cretino, ele é um cara bem cuidado, bronzeado e que procura, aparentemente, sempre agradar à nova amada.

Verdade que é preciso esforço para fazer uma relação dar certo. Mas a que custo? Até onde vale à pena investir em um relacionamento quando nem todos estão satisfeitos – e no caso desta produção, fica claro que Duncan não se sente mais “em casa” desde que Trent entrou na vida daquela pequena família. Verdade também que, muitas vezes, os jovens viram “aborrecentes” e fazem de tudo para uma nova relação da mãe ou do pai não darem certos. Mas é preciso bom senso e atenção para os detalhes, para ver até que ponto pode ser “birra” do jovem que gostaria de ver os pais juntos ou de fato há incompatibilidades importantes e determinantes na nova relação.

The Way Way Back, que deveria ser, essencialmente, uma comédia, trata de todos estes temas. E o melhor: sem discursos. Tudo vai fluindo com muita tranquilidade e com um trabalho muito bom do elenco, especialmente dos atores mais experientes.

Todos estão bem, e o roteiro dos diretores Faxon e Rash mantém o interesse do espectador, ainda que o filme seja um pouco arrastado. Afinal, na maior parte do tempo parece que falta força nas piadas. O humor é ameno, assim como o drama. Por isso mesmo o filme não tem um grande impacto, apesar de ter bons momentos e ser bem feito.

A verdade é que apesar de esforçado, Liam James cansa um pouco como Duncan. Beleza o personagem dele ser um bocado deslocado, mas muitas vezes ele parece quase um autista. E nada indica que ele seja um. No fim das contas, o que parece mesmo é que o ator deu uma exagerada no tom do personagem. E sendo o protagonista, isso não ajuda ao filme.

Eu também esperava mais deste filme no quesito humor. Especialmente quando vi Jim Rash como Lewis, um dos empregados do parque aquático. Na hora lembrei dele na ótima e super recomendada série Community. Quem acompanha a série, uma das melhores de comédia da TV americana, sabe que Rash é um dos destaques da produção. Mas como roteirista, ele escreveu apenas um episódio da série.

Tendo Community como parâmetro, pensei que o filme seria melhor. Com tiradas mais engraçadas, pelo menos. Mas The Way Way Back não tem esta preocupação de fazer rir. Pelo menos não tanto quanto outros filmes do gênero. Por um lado, isso é bom. Porque melhor um roteiro um tanto ingênuo quanto este do que uma produção escatológica – e há muitas em Hollywood ultimamente. Por outro lado, eu esperava mais de um texto de Rash. Assim como esperava mais de Steve Carell – quem assistiu a The Office sabe do que estou falando. Mesmo sendo um pouco entediante, The Way Way Back tem boas intenções e um final bastante acertado.

NOTA: 8,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Além de ser louca por ótimos filmes, admito que sou um bocado viciada em séries de TV. Enquanto as novelas são o filé mignon da TV no Brasil, as séries de TV são o que os Estados Unidos sabe fazer de melhor – além de filmes, é claro. Outros países, como o Reino Unido, também são bons nisso. Mas os EUA são mestres. Gosto de assistir de tudo um pouco. Dramas, séries de ação e comédias.

E nesta última categoria, The Office e Community são das melhores que eu já assisti. Sendo assim, não fica difícil de imaginar o quanto eu esperava da união entre Steve Carell e Jim Rash neste The Way Way Back. Infelizmente o resultado não foi tão arrebatador quanto eu esperava, até porque os dois atores, especialmente Rash, tem papéis menores na produção estrelada por James. Ainda assim, este é um bom filme.

Talvez uma razão para o roteiro de The Way Way Back não ser tão bom quanto poderia ser, pelo menos no quesito comédia, seja que falte um pouco mais de experiência para Rash e Faxon. Os dois tem um longo currículo como atores, mas poucos trabalhos como roteiristas. Antes de The Way Way Back, a dupla tinha escrito junto com Alexander Payne o roteiro de The Descendants (que tem este comentário aqui no blog), bastante elogiado e ganhador de um Oscar. Além de The Descendants, Rash e Faxon trabalharam juntos no roteiro do filme feito para a TV Adopted e Rash escreveu um episódio da série Community e outro do programa Saturday Night Live. E só.

Falando de direção, The Way Way Back marca a estreia da dupla. Algo me diz que eles vão longe na parceria. Afinal, ambos tem moral e talento, basta investir mais em projetos que tenham marca própria.

Para mim, as melhores interpretações deste filme estão com os atores experientes. Destaque especial para Sam Rockwell, que rouba a cena sempre que aparece. Toni Collette e Allison Janney também estão muito bem. Além deles, entre os jovens, ganha destaque AnnaSophia Robb.

Além dos atores já citados, tem um certo destaque na história o trabalho de Maya Rudolph como Caitlin, uma funcionária do parque aquático que planejou trabalhar ali por um verão e acabou ficando três anos por causa de Owen; Rob Corddry como Kip, amigo de Trent e namorado/marido de Joan; River Alexander como Peter, o filho caçula e que vive sendo zoado pela mãe Betty; e o diretor Net Faxon como o braço direito de Owen no parque aquático.

Falando nos filhos que são zoados pelos pais… este é um tema importante em The Way Way Back e que vai de encontro totalmente ao tipo de debate que eu gosto de ter. Este não é o primeiro filme que comento aqui no blog e que me faz dizer que nem todo mundo foi feito para ser pai ou mãe. É preciso querer, em primeiro lugar, e é preciso ter “talento” ou vocação para isso. Há pessoas preparadas, e há outras que nunca estarão.

E é uma verdadeira tristeza ver figuras como Trent que, claramente, não foi feito para ser um pai. Ele não sabe estimular Duncan e nem orientar Steph. Na verdade, o que ele queria era ser um eterno lobo solitário, pelo visto. Betty, por mais tresloucada que seja, pelo menos tem afeto verdadeiro pelos filhos. Isso dá para notar. Ainda que ela também não saiba lidar muito bem com eles – especialmente com Peter. Pais desfuncionais, nada pior.

Da parte técnica do filme, gostei do estilo de direção da dupla Nash e Faxon. Eles valorizam o trabalho dos atores e aquela região dos Estados Unidos, colocando o cenário e o estilo de vida dos personagens como elementos centrais da história. O início do filme é muito promissor, com aquele controle exercido por Trent através do espelho do carro – quase que dizendo a Duncan e para o espectador que ele estará sempre “vigilante”, controlador. A disposição dos personagens naquele começo e a figura de Duncan de costas e “acuado” são muito reveladores. Pena que o restante do filme não siga com a mesma escolha acertada de cenas ilustrativas como esta. Há algumas, aqui e ali, mas estão espalhadas e sem a frequência que seria desejada.

Ainda seguindo nos aspectos técnicos, muito boa a direção de fotografia de John Bailey. O filme tem, de fato, cenas muito bonitas, plásticas, e uma predominância de sol fundamental para deixar The Way Way Back ainda mais firme e forte no “tempo” dramático do Verão. Há muita claridade em cena, e um tom “naturalista” importante. Muito bom também o trabalho da editora Tatiana S. Riegel, bastante precisa na função de dar dinâmica e ritmo para o material dos diretores.

Este é um filme de muitos diálogos. Por isso mesmo a trilha sonora de Rob Simonsen é bastante pontual. Aparece para preencher os momentos em que as pessoas não estão dialogando entre si. Mas ela não é apenas um “tapa-buraco”. Em diversos momentos ela tem importância narrativa. E em outros, quando não está tendo significado direto para os personagens, ajuda a explicar pelo que eles estão passando. Um belo trabalho, e bem planejado.

Como o cenário é um elemento importante da história, acho importante comentar onde The Way Way Back foi rodado. Esta produção está ambientada nas cidades de Marshfield, Wareham, Onset, Duxbury e East Wareham (onde fica o parque Water Wizz), todas em Massachusetts, Estados Unidos. Caso alguém quiser fazer um roteiro reconstruindo este filme. 🙂

Agora, algumas curiosidades sobre esta produção. O diretor e roteirista Jim Rash disse que a inspiração para The Way Way Back foi a sequência inicial do filme, porque ele teve um diálogo parecido com aquele entre Trent e Duncan quando tinha 14 anos e falava com o padrasto.

Como eu imaginava, The Way Way Back foi gravado em um parque aquático real usando frequentadores do local como figurantes. Segundo os produtores, Sam Rockwell costumava improvisar sempre utilizando o auto-falante do local. Em uma certa ocasião ele esqueceu que haviam muitas crianças no local e fez uma piada indecente sobre herpes. Na sequência ele teve que pedir desculpas para o proprietário do parque para que a equipe pudesse seguir trabalhando no filme e no local.

Inicialmente esta produção, com roteiro escrito em 2007, ia levar o nome de The Way Back. Mas os realizadores decidiram mudar o título para que ele não fosse confundido com o filme homônimo lançado em 2010. A ideia do título faz referência ao “way back seat”, uma expressão coloquial dos anos 1970 nos Estados Unidos para o terceiro lugar, espaço muitas vezes oculto no bagageiro de um veículo “station wagon”.

Para economizar dinheiro, os diretores resolveram não alugar trailers para os atores. Ao invés disso, eles alugaram uma casa durante o tempo de filmagens – seis semanas – onde os atores poderiam descansar entre uma gravação e outra. A residência virou ponto de encontro do elenco e da equipe do filme que, muitas vezes, se encontrava no local mesmo nos finais de semana e em dias de folga. Isso explica a sintonia entre as pessoas do elenco.

Inicialmente a personagem de Caitlyn teria pouco espaço no filme. Mas nas versões finais do roteiro ela ganhou a característica de ser mais velha – e não uma adolescente – e de ter mais interações com Owen. Quando Maya Rudolph entrou em cena, os diretores resolveram que ela ganharia importância e deixaram na mão dela e de Sam Rockwell o trabalho para que eles criassem uma dinâmica mais ativa entre os personagens.

Por pouco Steve Carell não pula fora do projeto. Isso porque ele iria passar férias com a família em Massachusetts, como eles fazem todos os Verões. Para a sorte dos realizadores, eles descobriram com o avanço do projeto que o local em que iriam filmar The Way Way Back ficava perto da casa de veraneio dos Carell. Por isso deu certo dele participar do filme.

The Way Way Back teria custado US$ 4,6 milhões, um orçamento bem enxuto para um filme nos Estados Unidos. E o resultado que a produção obteve, até agora, foi excelente. Apenas nas bilheterias dos Estados Unidos ele fez pouco mais de US$ 21,4 milhões. Nos outros mercados em que já estreou, ele acumula outro US$ 1,69 milhão. Um belo lucro.

Este filme estreou no Festival de Sundance em janeiro deste ano. Depois, The Way Way Back participou de outros sete festivais. Neste caminho, recebeu dois prêmios e foi indicado a um terceiro. Ele ganhou os prêmios de Melhor Filme e Melhor Produção dos Estados Unidos no Festival de Cinema de Newport Beach.

Esta é uma produção 100% Estados Unidos. Por isso mesmo ela entra na lista de filmes daquele país que atendem a um pedido de vocês, caros leitores, para que eu comentasse uma série de produções daquela nacionalidade. Sigo na luta! 🙂

Eu sempre fui do grupo de pessoas que adorava a chegada do Verão para passar as férias na praia. Por isso mesmo, não tenho o “apego sentimental” com o parque aquático mostrado neste filme. Ainda assim, tenho certeza que muita gente vai se identificar com este cenário e relembrar momentos marcantes do passado. E desta forma, The Way Way Back ganhará uns pontos importantes – eu entendo isso, mas não compartilho desta referência sentimental.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,5 para The Way Way Back. Uma avaliação muito boa, levando em conta o padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 140 textos positivos e apenas 24 negativos para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 85% (muito boa) e uma nota média de 7,3.

Desta vez não achei ruim o título do filme no lançamento no Brasil. Afinal, seria muito complicado traduzir o sentido original. E “O Verão da Minha Vida” combina com a história. Escolha acertada.

CONCLUSÃO: Curioso como o tema da adolescência parece interminável para o cinema. Não se trata apenas da passagem da vida inocente da infância para a vida cheia de responsabilidades dos adultos. Mas o tema da autoafirmação, do autoconhecimento e da busca do próprio caminho estão no centro do picadeiro. Tudo isso acaba sendo importante em The Way Way Back não apenas porque temos um protagonista adolescente, mas porque acompanhamos umas férias de Verão da família dele. E não existe nada mais adolescente que um Verão no litoral – seja ele no hemisfério norte ou na parte sul do globo.

The Way Way Back revela de forma muito honesta como somos cobrados a desempenhar um determinado papel na vida adulta ao mesmo tempo em que muitas pessoas nunca conseguem, aparentemente, crescer. Ao mesmo tempo, há temas sérios em jogo, como a desestruturação familiar, o medo da solidão, o desafio de pertencer a algum lugar e o inevitável e já comentado desafio de um jovem encontrar o seu próprio caminho. Um filme interessante, que acaba não se destacando por elemento algum, mas que entretém e que também faz pensar. Boa diversão, mas sem nenhum grande “achado”.