Avengers: Infinity War – Vingadores: Guerra Infinita

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Tudo o que os fãs dos super heróis esperam para um filme estrelado por eles encontramos em Avengers: Infinity War. Para começar, o que há de melhor em efeitos visuais e virtuais. As imagens mais incríveis criadas por artistas com a ajuda da tecnologia vemos em cena. Depois, temos alguns dos personagens mais amados das HQs reunidos e um super vilão – possivelmente o mais temido de todos os tempos – para ser combatido. Embalando tudo isso, um roteiro recheado de cenas de ação, de algumas piadas perspicazes e de certo drama pincelado aqui e ali.

A HISTÓRIA: Uma nave de refugiados está sendo atacada. Famílias de asgardianos estão sendo mortas, e um pedido de socorro percorre o Universo. Dentro da nave, Ebony Maw (Tom Vaughn-Lawlor), um dos mais fieis seguidores e aliados de Thanos (Josh Brolin), diz para as vítimas que elas devem se alegrar, porque elas serão sacrificadas em nome do equilíbrio do Universo. Thanos, por sua vez, diz que o destino sempre chega, e exige que Loki (Tom Hiddleston) lhe entregue o cubo de Tesseract para que Thor (Chris Hemsworth) não seja morto.

Thor diz que não adianta Thanos pedir por Tessaract porque ele foi destruído em Asgard. Mas Loki mostra o cubo e entrega uma das Joias do Infinito que Thanos tanto queria. Apesar de ceder, Loki diz que eles continuarão a ver a luz do dia, e afirma que eles tem o Hulk (Mark Ruffalo). Ele ataca Thanos, mas acaba sendo vencido. Antes de Hulk ser morto, contudo, Heimdall (Idris Elba), que está caído no chão, consegue enviar o gigante verde para a Terra. Agora, Thanos tem duas Joias do Infinito. Em breve, ele seguirá atrás das outras quatro, incluindo duas que estão na Terra.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Avengers: Infinity War): Eu prometo tentar não escrever um texto gigante sobre esse filme, beleza? 😉 Como já comentei antes em algum texto aqui no blog, eu sempre fui uma grande fã de HQs. Li bastante, especialmente na adolescência. Hoje, leio mais The Walking Dead, apenas – e, eventualmente, alguma outra HQ mais antiga.

Dito isso, claro que eu já tinha visto os principais heróis da Marvel em ação antes. Dos vários filmes da grife lançados no cinema, assisti a alguns – mas a maioria, acredito, eu perdi. Dito isso, quero dizer sim que eu me lembrei de todos os personagens principais desse filme – exceto Thanos e seus aliados, dos quais eu não tinha lembrança.

Acho importante para você que, como eu, talvez não tenha assistido a todos os filmes de heróis da Marvel dos últimos 10 ou 15 anos, dar uma olhada nessa matéria do jornal O Globo. Nela, são citados os sete filmes mais importantes que você deveria assistir antes de conferir Avengers: Infinity War. O quarto e o sétimo filme da lista me parecem os mais importantes – os demais são bacanas também, mas para quem conhece bem os personagens dos quadrinhos, talvez eles não sejam tãoooo fundamentais assim.

Dito isso, comento que sim é possível assistir a Avengers: Infinity War sem ter visto aos sete filmes listados pelo O Globo ou mesmo às outras produções da Marvel que envolvem Os Vingadores e que não estão na lista. O importante mesmo é você conhecer relativamente bem os personagens, as suas personalidades e a importância de cada um naquela constelação de heróis. Fui assistir ao filme em um cinema 3D logo na primeira sessão de sábado, e qual a minha surpresa em conseguir um dos últimos ingressos para a sessão.

O cinema estava praticamente lotado – exceto pelas fileiras bem na frente, que ninguém quer. Tive sorte em consegui entrar. E gostei muito do que eu vi. Para começar, Avengers: Infinity War tem aquela pegada de uma nave no espaço sendo atacada que faz os fãs de cinema e da cultura nerd lembrarem imediatamente de Star Wars. Logo essa impressão desaparece quando vemos ao vilão Thanos, a Loki e Thor, o que nos faz “cair” rapidamente no universo da Marvel.

O começo de Avengers: Infinity War é ótimo. Com bons diálogos e uma luta bacana entre Hulk e Thanos que serve como um “cartão de visitas” do que veremos depois. Essa qualidade inicial do filme também acaba sendo um problema depois. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Isso porque você acaba esperando um filme cheio de cenas de ação, de disputas e de muita adrenalina, mas temos várias partes da história com “cenas emotivas” entre dois ou mais personagens.

Sim, há cenas de ação que todo fã espera, mas talvez em menor número do que gostaríamos. No fim das contas, a narrativa mostra Thanos, que acredita que tem como “missão” exterminar metade da vida no Universo para que o equilíbrio seja reestabelecido, em busca das cinco Joias do Infinito que lhe faltam – ele começa a narrativa já com a Joia do Poder. Se Thanos conseguir o seu objetivo, ele se tornará onipotente e poderá, com um estralar de dedos, exterminar metade da vida nos planetas Universo afora.

Sobrevivem àquela cena inicial do filme os heróis Thor e Hulk. Cada um deles parte em uma direção para buscar aliados para tentar impedir Thanos. E aí que a narrativa se fragmenta, com um núcleo na Terra liderado por Hulk, Doutor Estranho (Benedict Cumberbatch), Tony Stark/Homem de Ferro (Robert Downey Jr.) e Peter Parker/Homem Aranha (Tom Holland) tentando proteger a Joia do Tempo que está com o Doutor Estranho, enquanto outro grupo, liderado por Thor e os Guardiões da Galáxia busca atacar Thanos em duas frentes.

Mesmo o grupo da Terra também acaba se dividindo. Depois de Doutor Estranho ser atacado por Ebony Maw e sequestrado por ele, o Homem de Ferro e o Homem Aranha conseguem embarcar na nave e seguir o vilão para tentar resgatar o Doutor Estranho, enquanto o Hulk, que ficou na Terra, entra em contato com Steve Rogers/Capitão América (Chris Evans).

Quando o Visão (Paul Bettany), que tem a Joia da Mente, passa a ser o novo alvo dos aliados de Thanos, o herói e a sua companheira Wanda Maximoff/Feiticeira Escalate (Elizabeth Olsen) acabam sendo socorridos por Steve Rogers, Sam Wilson/Falcão (Anthony Mackie) e Natasha Romanoff/Viúva Negra (Scarlett Johansson). Enfim, isso tudo vocês sabem, vendo o filme.

Mas fiz questão de contar toda essa fragmentação da narrativa para comentar como a história, que é linear e parece bastante “simples” no direcionamento da narrativa, acaba ganhando em velocidade e em fragmentação ao se dividir em algumas linhas de ação. Não temos apenas a Thanos perseguindo Joia por Joia. O tempo dos heróis fica mais curto porque enquanto Thanos persegue algumas Joias, os seus comparsas atacam outras frentes para conquistar as demais.

O objetivo dos heróis, por outro lado, é tentar preservar as Joias que estão no poder de dois membros desse grupo: Doutor Estranho e Visão. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Enquanto isso, boa parte da turma dos Guardiões da Galáxia – com exceção de Groot (voz de Vin Diesel) e de Rocket (voz de Bradley Cooper), que acabam seguindo a direção de ajudar Thor a forjar um novo martelo para combater Thanos -, incluindo a “filha adotiva” do vilão, Gamora (Zoe Saldana), tentam impedir Thanos de conseguir as duas Joias que estão em outros lugares do Universo.

Como os fãs dos heróis da Marvel sempre esperam dos filmes que buscam honrar os personagens das HQs, Avengers: Infinity War tem ação, humor e suspense nas doses certas. Essa produção rende algumas boas risadas, em tiradas um tanto sarcásticas com as quais estamos acostumados. As cenas de ação são ótimas, mas talvez o filme poderia ter um pouco mais desse elemento.

A narrativa, que na maior parte do tempo se apresenta bem envolvente e ágil, tem algumas desaceleradas importantes – e, algumas vezes, elas me pareceram um tanto forçadas – para explorar o lado “sentimental” dos personagens. Sim, é bacana ver a tantos personagens importantes em cena. Também faz sentido que o roteiro de Christopher Markus e de Stephen McFeely explorasse as relações entre os personagens, mas algumas sequências entre eles me pareceram um tanto previsíveis e exageradas – especialmente as sequências entre Visão e Wanda Maximoff e entre Thanos, Gamora e Nebulosa (Karen Gillan).

Mas ok, nem sempre dá para um filme tão complexo como esse, com tantos personagens e tanta narrativa contada em diversos HQs e resumida em apenas uma produção, ser totalmente coerente ou equilibrado. O que importa, no fim das contas, é que Avengers: Infinity War atende a grande parte da expectativa dos fãs do gênero. Para começar, o filme é impecável nos efeitos especiais e visuais. Depois, para os fãs, é inegável o efeito de êxtase que uma produção com tantos astros e estrelas juntos, interpretando os seus personagens preferidos, desperta.

Também são importantes – e os pontos altos do filme – as cenas de batalha, luta e as de humor. Para arrematar tudo isso, ainda temos o final dessa produção. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Assim como um dos arcos narrativos do HQ conta, em uma das realidades possíveis – o Doutor Estranho viu pouco mais de 4 milhões de alternativas ao viajar “no tempo” -, Thanos consegue todas as Joias do Infinito e faz realmente a limpa que ele gostaria no Universo.

Não deixa de ser emocionante e até de nos arrepiar quando vemos, no final de Avengers: Infinity War, diversos heróis sumindo na nossa frente após o sucesso de Thanos. É de doer o coração ver a T’Challa/Pantera Negra (Chadwick Boseman), o Homem-Aranha, Doutor Estranho, Peter Quill/Senhor das Estrelas (Chris Pratt) e tantos outros partirem tão repentinamente. Quando o filme acaba, a plateia fica se perguntando se aquilo realmente aconteceu.

Bem, avaliando as HQs que tratam sobre esse assunto, sim, em um dos arcos narrativos Thanos conseguiu exatamente o que queria. E se metade da população do Universo foi exterminada com o estrelar de dedos dele, é de se presumir que metade – ou um pouco menos – dos heróis também passaria pelo mesmo, não é?

Ainda assim, segundo o próprio Doutor Estranho comentou ao viajar no tempo, havia uma possibilidade – entre mais de 4 milhões – dos heróis vencerem o vilão. Quem sabe essa possibilidade realmente não aconteceu em alguma realidade paralela e os heróis conseguem reverter o que sucedeu nas demais linhas narrativas?

Estou apenas fazendo uma especulação aqui. Mas mesmo que o final seja aquele mesmo, interessante ver a um filme da Marvel que não termina com os heróis se dando bem – afinal, nem sempre é isso que acontece. Uma outra possibilidade que vejo no desdobramento desse filme é que na próxima produção os Vingadores e os Guardiões da Galáxia que restaram realmente unam as forças (talvez até com a adição de outros heróis) e, ao derrotar Thanos, eles consigam “restabelecer” a vida com a Manopla do Universo e as suas Joias. Afinal, se um estralar de dedos mata metade da população do Universo, por que um novo estralar de dedos não poderia “reviver” as mesmas pessoas? A conferir, pois.

Pensando na cena que vemos após os créditos e que mostra Nick Fury (Samuel L. Jackson) também desaparecendo, mas, antes, enviando uma mensagem de Código Vermelho, podemos presumir que o alerta será respondido por alguém. Provavelmente pelos heróis que restaram – e que devem se reunir para enfrentar Thanos. Então muito mais virá pela frente ainda.

Finalizando essa crítica, comento que esse filme me agradou, mas que ele teve um impacto menor do que outra produção recente que assisti baseada em HQs: Black Panther (comentada por aqui). Se, por um lado, Avengers: Infinity War agradou pelos efeitos visuais e especiais e por fazer desfilar tantos astros e personagens legais na nossa frente, por outro lado essa quantidade de personagens torna a narrativa menos rica. Diferente de Black Panther, que teve muito mais espaço para desenvolver os personagens e suas relações.

Apesar disso, vale comentar como Avengers: Infinity War trata de um assunto que parece exagerado mas que já fez parte da nossa história no passado e que volta à tona agora, com o recrudescimento de posturas de direita extremista: o desejo de alguns de determinar quem deve viver ou morrer e de, movidos por essa ânsia, promover “limpas” e/ou genocídios de contingentes importantes em nome de um “equilíbrio” da sociedade.

Hitler, antes, defendia o extermínio de vários grupos que não eram da “raça superior”. Vários políticos, atualmente, querem fechar fronteiras para refugiados, tirar do próprio território pessoas que eles consideram “indignas” de estar no país e outros tipos de exclusão/extermínio por causa de raça ou credo.

Muitos, a exemplo de Thanos, defendem essas práticas em nome do “equilíbrio” e como solução para o crescimento da população e a diminuição dos recursos finitos da Terra. Assim, guardadas as devidas proporções de um filme de ficção e baseado em HQs, Avengers: Infinity War nos faz pensar sobre questões bastante reais e que fazem parte da nossa realidade – mesmo que não estejamos inseridos (ainda) em regimes de exceção. Mas vale o alerta – e a reflexão.

Dito isso, devo comentar que sim, Avengers: Infinity War e Black Panther são estilos de filmes bem diferentes, com propostas igualmente diferenciadas. Mas, inevitavelmente, sempre comparamos as nossas experiências com o cinema. Assim, sendo, gostei sim de Avengers: Infinity War, mas não tanto gostei de Black Panther. Dito isso, quero dizer que vale muito a pena assistir a Avengers: Infinity War em 3D e nos cinemas, é claro.

NOTA: 9,2.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Eu li a algumas histórias de Thanos. Mas não sou nenhuma especialista no super vilão e em suas peripécias envolvendo Os Vingadores e demais heróis das HQs – como o Surfista Prateado. Mas do que eu conheço e do que eu li, me parece que Avengers: Infinity War toma diversas “licenças poéticas”, digamos assim. Parece que o filme não é muuuuito fiel aos quadrinhos. E beleza os realizadores produzirem algo diferente, mas fico me perguntando se o filme ficou melhor que o original. Se tiver algum especialista por aqui que puder comentar, agradeço.

Falando em Thanos e as suas peripécias, se você, como eu, não é um(a) especialista no assunto, sugiro dar uma conferida em dois sites que ajudam a nos situar sobre esse personagem e as suas narrativas na Marvel. A primeira leitura que eu recomendo é essa, do site Universo HQ, que dá uma bela resumida no personagem e em suas aparições em gibis da Marvel. Depois, sugiro a leitura desse texto do site Aficionados que traz um bom resumo sobre as Joias do Infinito, incluindo a função de cada um delas e os seus atuais e antigos detentores. Leituras bastante recomendadas e que ajudam a rememorar e/ou conhecer alguns fatos envolvendo Thanos e as Joias.

Enquanto eu via o vilão Thanos na minha frente, era impossível para mim não lembrar de personagens da mitologia grega como Thánatos e Hades. Quem já ouviu falar deles – quem sabe em uma música da Legião Urbana – sabe que eles estão ligados à morte e à destruição. Ou seja, faz muito sentido o nome de Thanos, que acredita que tem como “missão” matar para colocar equilíbrio no Universo. Quem quer saber um pouco mais sobre Thánatos e Hades, pode encontrar uma boa introdução nesse texto da Wikipédia.

O roteiro de Christopher Markus e Stephen McFeely é inspirado em uma série de personagens criados por alguns dos grandes gênios da história das HQs. Vale citar toda a inspiração dos roteiristas: eles se inspiraram nos quadrinhos de Stan Lee e Jack Kirby; no personagem do Capitão América criado por Joe Simon e Jack Kirby; no Senhor das Estrelas (Star-Lord) criado por Steve Englehart e Steve Gan; no Rocket Raccoon criado por Bill Mantlo e por Keith Giffen; no Thanos, Gamora e Drax criados por Jim Starlin; no Groot criado por Stan Lee, Larry Lieber e Jack Kirby; e na Mantis criada por Steve Englehart e Don Heck.

Como comentei antes, um dos destaques de Avengers: Infinity War é o elenco estelar da produção. Entre os vários nomes em cena, destaco as atuações de Chris Hemsworth, de Mark Ruffalo, de Benedict Cumberbatch, de Zoe Saldana, de Josh Brolin e de Chris Pratt. Aparecem bastante na produção, mas achei que com um nível de interpretação um pouco menor, os atores Robert Downey Jr., Chris Evans, Scarlett Johansson e Tom Holland. Eles estão bem, mas acho que se destacam menos que os anteriores.

Além deles, vale citar o bom trabalho de Scarlett Johansson, Don Cheadle, Chadwick Boseman, Karen Gillan, Paul Bettany, Elizabeth Olsen, Vin Diesel, Bradley Cooper, Benedict Wong e Letitia Wright. Eles aparecem um pouco menos que os atores citados anteriormente, mas fazem um bom trabalho. Estão bem no filme, mas em papéis ainda menos – quase de pontas – os atores Tom Hiddleston, Anthony Mackie, Sebastian Stan, Idris Elba, Danai Gurira, Peter Dinklage, Pom Klementieff, Dave Bautista, Gwyneth Paltrow, Benicio Del Toro, Winston Duke e Florence Kasumba.

Os diretores Anthony Russo e Joe Russo fazem um belo trabalho com Avengers: Infinity War, especialmente nas cenas de ação. Pena que o roteiro não acompanhou tão bem o talento dos diretores.

Avengers: Infinity War teve a sua première em Los Angeles no dia 23 de abril de 2018. No dia 25, dois dias depois da première, o filme estreou nos cinemas de 25 países. No dia 26, estreou em outros 28 países, incluindo o Brasil. Assisti ao filme ontem, dia 28 de abril, em uma sessão praticamente lotada.

O filme deve consagrar-se com uma das grandes bilheterias de todos os tempos. Segundo o site Box Office Mojo, Avengers: Infinity War faturou, até o dia 29 de abril, US$ 250 milhões nos Estados Unidos e outros US$ 380 milhões nos outros países em que o filme estreou até essa data. Ou seja, em poucos dias, ele faturou US$ 630 milhões. Se seguir nessa pegada, logo ele será um filme com faturamento bilionário. Impressionante. Quem mesmo disse que as pessoas não vão mais nos cinemas? Para determinados filmes, não faltará público e lucro.

Agora, algumas curiosidades sobre essa produção. As filmagens de Avengers: Infinity War começou em janeiro de 2017 e terminou em janeiro de 2018. Essa produção foi rodada simultaneamente ao novo filme Avengers, que dá continuidade a Infinity War mas que ainda não tem o título definido e que deverá estrear nos cinemas em 2019.

De acordo com o presidente da Marvel Studios, Kevin Feige, a formação dos Vingadores vai mudar substancialmente entre esse filme lançado em 2018 e o próximo que será estrelado pelo grupo de heróis. Dá para entender o porquê disso assistindo a Avengers: Infinity War. 😉 Ainda segundo Feige, Avengers: Infinity War é o ponto alto de toda a saga dos super heróis da Marvel porque esta produção seria o “resultante” de todos os filmes anteriores.

Nesse filme, os atores Robert Downey Jr. e Chris Evans completam nove produções em que eles interpretam os personagens Homem de Ferro e Capitão América, respectivamente. Assim, eles empatam com Hugh Jackman, que também interpretou em nove filmes o personagem Wolverine. Mas tanto Downey Jr. quanto Evans demoraram muito menos tempo que Jackman para chegar a esse marco de nove produções interpretando o mesmo herói de HQ. Enquanto Jackman demorou 16 anos para somar esses nove filmes, Evans demorou sete anos e Downey Jr. demorou 10 anos.

Avengers: Infinity War é o primeiro filme – sem ser um documentário – totalmente filmado com câmeras IMAX.

O primeiro trailer de Avengers: Infinity War registrou 200 milhões de visualizações em 24 horas, o que estabeleceu um novo recorde para visualizações de um trailer em um único dia.

Quando eu estava no cinema, eu achei o filme um tanto longo… mas só agora eu me dei conta que Avengers: Infinity War tem 156 minutos de duração, ou seja, 2 horas e 36 minutos! Uau! No cinema, ele parece longo, mas não dá para perceber que ele tem mais de duas horas e meia. Por ter toda essa duração, Avengers: Infinity War é o filme baseado em HQs mais longo da história do cinema.

De acordo com os produtores do filme, Avengers: Infinity War está inspirado em três marcos narrativos das HQs da Marvel: The Infinity Gauntlet, The Thanos Imperative e Infinity. O enredo Civil War das HQs da Marvel, contudo, não tem nada a ver com a narrativa do filme. Que bom que esclareceram isso, porque realmente me pareceu estranho as HQs e o filme terem o mesmo nome mas não terem nada a ver uns com os outros.

Os usuários do site IMDb deram a nota 9,1 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 226 críticas positivas e 42 negativas para o filme, o que lhe garante um nível de aprovação de 84% e uma nota média de 7,5. Especialmente o público está amando essa produção – mais do que os críticos. Reação mais que compreensível dos super fãs do Universo Marvel. No site Metacritic, Avengers: Infinity War apresenta um metascore de 68. Esse indicador resume 38 críticas positivas, 13 medianas e uma negativa.

Avengers: Infinity War é uma produção 100% dos Estados Unidos. Assim, esse filme atende a uma votação feita há bastante tempo aqui no blog.

CONCLUSÃO: Todos esperavam pela estreia de Avengers: Infinity War. Os fãs de HQ “raiz”, os fãs dos filmes que estão arrasando as bilheterias a cada nova estreia e mesmo aqueles que não são tão fãs assim desse gênero. Afinal, tanto se falou dessa produção… Como filmes do gênero competentes foram lançados recentemente, ficou difícil para esse filme superar toda essa expectativa. Então sim, Avengers: Infinity War é uma bela experiência de cinema. Um show de efeitos especiais e um belo desfile de astros e estrelas. O filme também agrada por não acabar de maneira óbvia, mas está longe de ser uma produção inesquecível. Vale pelo entretenimento e pelo visual. Mas isso é tudo.

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Spotlight – Spotlight: Segredos Revelados

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Quase todo jornalista já pensou, em algum momento de sua vida, que o seu trabalho poderia mudar para melhor a realidade em que ele vivia ou além disso. Alguns, inclusive, imaginaram que poderiam mudar o mundo. Essa possibilidade foi e é uma realidade, mas para poucos. Há muitas razões para isso. Spotlight conta a história de um pequeno grupo de jornalistas que conseguiu tal feito. Ou, pelo menos, ainda podem conseguir.

Mesmo que a realidade denunciada por eles ainda não tenha tido uma resposta à altura, eles conseguiram colocar o tema nos holofotes e dar voz para as vítimas. Isso é, eu acredito, também uma forma de mudar o mundo. Grande filme, que merece ser visto, indicado e propagado como um bom exemplo de história de jornalismo bem contada.

A HISTÓRIA: Começa com os dizeres “baseado em eventos atuais”. Em seguida, acompanhamos um policial na cidade de Boston no ano de 1976. Estamos no 11º distrito. Um colega do policial pergunta sobre como tudo está caminhando. Ele responde que a mãe está chateada e que o tio das crianças que sofreram abuso está furioso. O abusador, um padre, estaria ajudando a mulher divorciada com quatro crianças. Em seguida, chega o procurador-adjunto Burke (Brian Chamberlain), que fica sabendo que a família está falando com o bispo e que não apareceu ninguém da grande imprensa – apenas um jornalista de uma publicação menor apareceu, mas foi afastado. Ele gosta da última notícia.

Sozinho em uma sala está o molestador, que não será acusado, o padre Geoghan. Enquanto isso, o bispo ressalta o ótimo trabalho que a Igreja está fazendo “na comunidade” e garante que ele, pessoalmente, vai garantir que o padre seja afastado e que o abuso nunca voltará a acontecer. Corta. Passamos para a Redação do Boston Globe em julho de 2001. A equipe está se despedindo do editor Stewart (Mairtin O’Carrigan). No lugar dele, aparece Marty Baron (Liev Schreiber), que desafia a equipe do Spotlight a investigar não apenas Geoghan, mas a se aprofundar no acobertamento dos casos de abuso pela Igreja

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a assistir quem já viu a Spotlight): Algo que achei incrível neste filme é como ele fala do trabalho e da vida dos jornalistas sem mistificar essa profissão. Pelo contrário. Vemos ali não apenas a paixão deles pelo trabalho – especialmente a equipe de Spotlight -, mas também os desafios que eles devem enfrentar e o ambiente que os cerca. Inclusive a “preguiça” ou a miséria de colegas – muitas vezes jornalistas em posição de comando – e de fontes.

Muito da realidade da profissão é mostrada neste filme como eu não tinha visto antes. Acho que para as pessoas que não atuam na área, este é um filme que dá uma bela introdução para o que nós passamos – ou podemos passar na nossa profissão. E para os jornalistas, certamente, este filme é uma brisa de frescor, um estímulo e um lembrete do que podemos fazer e como podemos fazer.

Um ponto fundamental para o sucesso deste filme é o roteiro de Josh Singer e do diretor Tom McCarthy. Os dois acertam com a introdução da história, mostrando em poucos minutos como casos de abuso eram tratados em Boston. E não apenas ali, é claro, mas em diversas cidades mundo afora. A polícia não colidia com a Igreja e esta, através de seus bispos e cardeais, corria para encobrir os “escândalos” que não deveriam aparecer na imprensa e nem render grandes processos na Justiça.

Sem demorar muito com trechos desnecessários, o filme logo avança de 1976, quando é mostrada mais uma detenção do padre Geoghan, para 2001, quando uma mudança na direção do Boston Globe faz o assunto ganhar a devida atenção da equipe do jornal. É fato que, muitas vezes, os jornalistas se acomodam. Eles não conseguem enxergar a grande história que eles tem nas mãos. Por isso a visão de alguém que vem de fora pode ser tão importante, como foi o caso da chegada de Marty Baron para o Boston Globe.

Spotlight acerta ao mostrar isso e também o movimento de resistência criado pela chegada de Baron no jornal. Trabalhando como jornalista desde 1997 e tendo passado por três Redações diferentes, posso dizer que já vi isso acontecer antes. A liderança principal do jornal é trocada por alguém de fora e um profissional de dentro em outra posição de liderança se sente preterido. Ele resiste à mudança e não aceita bem as ideias novas do novo “comandante-geral”. No filme, esta posição de resistência é encarnada por Ben Bradlee Jr. (John Slattery).

Mas a resistência de Bradlee Jr. para as ideias de Baron não tem a ver apenas com o fato dele acreditar que poderia ser o diretor de redação no lugar do “invasor”. Essa resistência é vista entre jornalistas de diferentes postos e com distintas experiências.

Há quem resista por comodismo, porque é mais “fácil” continuar fazendo o que ele/a sempre fez, ou porque o jornalista acredita que a história em que ele está investindo é muito melhor do que aquela que o novo editor lhe sugeriu. Outros resistem porque estão em competição permanente com os demais, enquanto outros recusam boas ideias simplesmente porque “não vão com a cara” da outra pessoa – ou seja, tem problemas pessoais com o chefe ou editor. Não importa a razão. O importante é que, como Spotlight revela, há viseiras de diferentes cores e tamanhos que alguns jornalistas insistem em utilizar.

Com esta atitude quem perde é o jornalismo e, claro, o público leitor/consumidor da informação. Ainda bem que essa resistência não é a postura da maioria. Como este filme magistralmente escrito e dirigido por McCarthy revela, há muitos jornalistas ainda que acreditam em sua função social e no potencial que eles tem para colocar em evidência temas importantes para a coletividade. Esse é o caso da equipe de Spotlight.

Diferente do chefe imediato, Walter “Robby” Robinson (o ótimo Michael Keaton) acredita que eles devem investir não apenas na história do padre Geoghan mas também, e especialmente, na investigação sobre o cardeal Law (Len Cariou). (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Como bem ensina Baron, claro que uma cidade como Boston ter dezenas de padres abusadores é notícia, mas há uma história muito maior e mais impactante se a equipe de Spotlight conseguir comprovar que a instituição acobertava estes crimes. Isso, de fato, foi conseguido.

Por causa do trabalho do Boston Globe e, depois, de vários outros jornalistas mundo afora, é que nos últimos anos o assunto começou a ser tratado de outra forma pela Igreja. Apesar de ser uma traição e uma quebra de confiança sem precedentes um padre abusar de crianças e jovens inocentes que foram confiados pelos seus pais para eles, representantes de Deus na Terra, o pior crime não é este. Afinal, abusadores existem na sociedade e, friamente falando, porque eles não existiriam na Igreja, que é feita de pessoas da sociedade?

Mas o problema não está apenas na quantidade de padres que cometem estes crimes – alguns especialistas afirmam que isso tem a ver com a questão do celibato – mas sim, principalmente, na forma com que a Igreja trata o assunto. Por muito tempo o tema era visto como tabu, era proibido. Com as denúncias de grupos de vítimas e, principalmente, depois de reportagens da imprensa, o tema não pode mais ser acobertado. Isso acontece com tantos outros temas relevantes da sociedade – ou alguém tem dúvida que o Mensalão e a Operação Lava-Jato só avançaram com uma ajuda fundamental da imprensa?

Outra parte fundamental deste filme é mostrar o contexto do trabalho dos jornalistas. Além de mostrar os desafios da investigação dos repórteres e o fundamental direcionamento dos editores que acompanharam o caso, Spotlight mostra como a relação dos jornalistas com a cidade em que nasceram e atuam ou aonde passaram a atuar depois reflete na sua rotina profissional.

Diversas pessoas disseram para a equipe da editoria Spotlight do Boston Globe que eles não deveriam investir naquela história. Afinal, não valia a pena enfrentar a Igreja. Não apenas por ela ser poderosa, mas porque ela fazia muito bem para a cidade. Como se a instituição fazer bem para a cidade e ter toda a sua importância espiritual na vida das pessoas apagasse os crimes praticados por alguns de seus padres. Este argumento me fez lembrar outro filme recente que comentei aqui e que está tentando uma vaga na categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira no próximo Oscar: Im Labyrinth des Schweigens (comentado aqui no blog).

No filme alemão é possível ver como a sociedade do país vencido na Segunda Guerra Mundial queria abafar e esconder a história das vítimas de Auschwitz. Afinal, os oficiais que trabalharam lá foram “obrigados” a atuar daquela forma durante a guerra. Todos deveriam esquecer o que passou e seguir adiante. Mas sabemos que ninguém é obrigado a praticar atrocidades, assim como que a bondade feita por alguns não deve eximi-los de pagar por seus crimes.

Mas diferente de Im Labyrinth des Schweigens, Spotlight acerta ao dar voz para as vítimas. O contexto humano da história é um diferencial. O roteiro e o diretor não apenas valorizam a história dos jornalistas que contam essa história mas, também, os personagens que eles enfocam e todos os demais que tiveram alguma participação naquela investigação jornalística. Ouvimos as vítimas, conhecemos as suas dores. Isso faz toda a diferença neste filme – e foi algo que faltou na produção alemã.

Os jornalistas são humanos. Passíveis de arroubos de coragem, determinação, bravura e também de covardia ou comodismo. Spotlight aborda a profissão com maestria sem endeusar os protagonistas. Ele nos mostra, como tantas outras histórias, que todas as pessoas tem a capacidade de decidir entre fazerem o certo ou o errado, entre encararem interesses poderosos ou se manterem “fora” de uma polêmica, de permanecerem acomodadas.

Todo jornalista é fruto de uma sociedade, de uma realidade. Algumas vezes eles deixam em segundo plano as suas crenças e convicções pessoais e conseguem enxergar boas histórias mesmo quando elas confrontam estas certezas. Outras vezes, como nos alerta o personagem de Ben Bradlee Jr., os jornalistas são motivados mais por interesses ou convicções pessoais do que pelo interesse da maioria. Infelizmente. Como somos humanos, devemos sempre estar alertas para este risco.

Esta produção também mostra como um bom trabalho não é feito por uma ou duas pessoas, mas por uma equipe. Muitas pessoas tem mérito sobre uma conquista. É possível investir ainda em jornalismo de verdade, em investigação de histórias relevantes. Para isso é preciso não apenas profissionais que acreditam que eles podem fazer a diferença, mas também recursos para investir nestas pessoas. Quando jornais fecham ou equipes de investigação jornalística são desmontadas quem perde são os leitores/consumidores da notícia. É a sociedade.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Este filme tem diversos bons momentos. Difícil destacar um ou dois. Mas vou destacar pelo menos um do qual eu gostei muito. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Em um momento decisivo do filme a equipe se questiona, especialmente Walter Robinson, porque eles não tinham enxergado aquela história antes. Afinal, era uma baita história, uma grande reportagem que iria mudar a vida de muita gente e jogar luz para uma situação que deveria ser debatida coletivamente. Neste momento e com muita calma Marty Baron comenta que eles deveriam lembrar que, na maioria do tempo, os jornalistas ficam “tropeçando no escuro”.

Achei essa parte especialmente significativa porque ela é verdadeira. Em Redações cada vez mais enxutas – e mesmo antes, quando as equipes não eram tão pequenas – os jornalistas estão ocupados demais com o dia a dia, com as notícias factuais que, muitas vezes, deixam escapar histórias realmente importantes. Não existe mais tanto tempo para investir em histórias relevantes e, quando existe este tempo, nem sempre estamos dispostos ou atentos. Isso acontece. Mas também acontece de muitas histórias ganharam a dimensão que elas precisam em determinado momento, como aconteceu com este trabalho de Spotlight. E no fim das contas, é isso que interessa. Que mais momentos como esse aconteçam no jornalismo.

Falando em jornalismo – e me perdoe, caro leitor, por falar tanto deste filme e do tema, mas essa é a minha profissão e sou apaixonada por ela -, acho que muitas matérias especiais e de fôlego poderiam render um filme como esse. Afinal, uma boa investigação jornalística tem diversos elementos que podem ajudar um filme a ser bom. Para começar, tem drama, ação, suspense e uma dose cavalar de análise do comportamento humano. Spotlight tem tudo isso e, por este conjunto de fatores, é um grande filme.

Destaque antes que a principal qualidade de Spotlight é o seu roteiro. Mas além dele, vale comentar o ótimo trabalho de Tom McCarthy na direção. Ele conduz a história muito bem, no ritmo adequado e com a atenção justificada e constante em quem interessa: os personagens. Consequentemente é preciso destacar o ótimo trabalho do conjunto de atores envolvidos na produção. Todos estão muito bem, mas é inevitável destacar o trabalho dos protagonistas.

Neste ponto, aliás, admito que tenho uma dúvida: afinal, quem é o protagonista de Spotlight? Me arrisco a dizer que Michael Keaton ganha uma pequena dianteira por ser o chefe da equipe de Spotlight, mas sem dúvida alguma Mark Ruffalo como o repórter investigativo Mike Rezendes é o que puxa a ação por boa parte da trama. Ele assina a reportagem principal, além de ter diversos momentos de destaque. Não sei exatamente quem será considerado protagonista ou coadjuvante nesta produção, mas é fato que os dois merecem aplausos pelo excelente trabalho. Ambos convencem e emocionam em seus papéis.

Além de Michael Keaton e Mark Ruffalo, vale destacar do elenco o trabalho sólido de Rachel McAdams como a jornalista Sacha Pfeiffer; o de Liev Schreiber como Marty Baron, editor que tem participação fundamental na história – apesar do ator aparecer menos que os demais, ele está ótimo em cada entrada em cena; Brian d’Arcy James como o jornalista que fecha a equipe de Spotlight chamado Matt Carroll.

O trabalho de John Slattery é muito bom, ainda que dê um pouco de agonia aquela resistência dele toda a Baron. Stanley Tucci também está bem como o advogado Mitchell Garabedian. Ele é cheio de valor, mas não tem muita paciência com a imprensa – como tantos outros profissionais que acham que, no fim das contas, os jornalistas não conseguirão levar para a frente uma história complicada. A resistência de Garabedian, como tantas outras fontes no “mundo real”, vai cedendo pouco a pouco conforme Rezendes mostra que eles estão levando o tema a sério.

Finalmente, dos coadjuvantes, destaco o trabalho de Jamey Sheridan como Jim Sullivan, o advogado que defendeu os interesses da Igreja e que, por ser amigo de Robby, ajudou a equipe dele a confirmar extra-oficialmente a lista de nomes de padres abusadores; o de Billy Crudup como Eric Macleish, outro advogado que participou de acordos que deram vantagem para a Igreja; e o de Neal Huff como Phil Saviano, coordenador do grupo de vítimas e que faz um trabalho bem representativo deles neste filme.

Da parte técnica do filme, além do irretocável roteiro de McCarthy e de Singer já comentado mais de uma vez, devo destacar a direção de fotografia Masanobu Takayanagi. As lentes que ele escolheu dão aquela aura de filme um tanto antigo, mas sem exageros. Ajuda a nos situar nos dois tempos do filme a competente escolha de figurino de Wendy Chuck. Importante para a produção também a marcante e inspirada trilha do veterano e premiado Howard Shore. Importante e bem feito o trabalho de edição de Tom McArdle, assim como o design de produção de Stephen H. Carter.

Nos créditos finais do filme aparecem dezenas de cidades nos Estados Unidos aonde foram registrados os principais escândalos envolvendo padres abusadores e diversas cidades de outros países. Do Brasil aparecem as cidades de Arapiraca, Franca, Mariana e Rio de Janeiro.

Spotlight estreou em setembro de 2015 no Festival de Cinema de Veneza. Depois o filme participaria ainda de outros oito festivais. Nesta trajetória ele já acumulou 57 prêmios e foi indicado a outros 83, incluindo a indicação a três Globos de Ouro: Melhor Filme – Drama, Melhor Diretor e Melhor Roteiro. Entre os prêmios que recebeu, destaque para Filme do Ano ao lado de outras nove produções pelo Prêmio AFI; para dois prêmios para Tom McCarthy no Festival de Cinema de Veneza; para o prêmio de Top Films junto com outras oito produções no Prêmio NBR; e para 12 prêmios em associações de críticos como Melhor Filme e 16 como Melhor Roteiro.

Para quem gosta de saber aonde os filmes foram rodados, Spotlight foi filmado em Toronto, no Canadá, e com diversas cenas feitas no Boston Globe, em Boston, nos Estados Unidos.

Agora, algumas curiosidades sobre esta produção. O roteiro de Spotlight fez parte da 2013 Blacklist, uma lista dos roteiros mais apreciados e ainda não rodados daquele ano.

A equipe de Spotlight teve um contato direto e profundo com os jornalistas que inspiraram esta história. Walter Robinson brincou que Michael Keaton roubou a sua personalidade a ponto de, se ele roubasse um banco, os policiais iriam atrás de Robinson para prendê-lo; e Mark Ruffalo sempre pedia para o verdadeiro Michael Rezendes comentar os diálogos do roteiro com ele.

O ator Richard Jenkins fez a voz do ex-padre e psiquiatra Richard Sipe para as cenas do filme – como ele só participa da história em conversas por telefone com Rezendes, só a voz do ator “aparece” em cena.

Uma curiosidade histórica: Ben Bradlee Jr. é filho de Benjamin C. Bradlee, o jornalista que, como editor-executivo do The Washington Post, supervisionou as investigações durante o caso Watergate nos anos 1970.

O padre John J. Geoghan, condenado por ter acariciado um menino em uma piscina pública, foi morto pelo companheiro de cela em agosto de 2003. Como ele estava recorrendo da decisão quando foi morto, três juízes decidiram inocentá-lo do crime depois.

Não tenho dúvidas que este filme será indicado em todos os curso de Jornalismo. Inclusive para render debates acalorados. Ou seja, Spotlight já se tornou um filme referência e histórico.

A Igreja tomou algumas atitudes, nos últimos anos e, certamente, por influência das matérias jornalísticas que saíram sobre o tema, a respeito dos padres pedófilos e abusadores. Vale destacar algumas matérias sobre o tema. Para começar esta que comenta sobre a criação de um tribunal para bispos que não evitaram a pedofilia. Depois, vale dar uma olhada nesta outra sobre o mesmo assunto e esta terceira sobre a reação das vítimas de abusos para estas ações do Papa Francisco.

De acordo com Mark Ruffalo, a maioria dos jornalistas envolvidos no trabalho retratado por este filme de Spotlight eram católicos apostólicos romanos. Como eu. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Em certo momento do filme uma fonte de Rezendes comenta que os abusos praticados pelos padres não lhe retirou a sua fé na Igreja. Eu concordo com isso. É revoltante saber destes casos de padres abusadores, mas isso não tira a fé individual em Deus e em Jesus, assim como nos bons exemplos dados por tantas pessoas da Igreja. Uma coisa não deve nunca eliminar a outra. Penso assim, pelo menos.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,4 para esta produção, uma excelente avaliação levando em conta o padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 170 textos positivos e seis negativos para esta produção, o que lhe garante uma aprovação de 97% e uma nota média de 8,9. Excelente avaliação também. Não é fácil público e crítica darem notas acima de 8. Merecido.

Achei interessante também saber mais sobre a história real por trás de Spotlight. Recomendo a leitura deste link que trata sobre o tema e deste outro que mostra a equipe real por trás da história que inspirou o filme.

Este é apenas o quinto filme dirigido por Tom McCarthy. O primeiro longa dirigido por ele foi The Station Agent, de 2003, e o mais recente foi The Cobbler, de 2014. O único da filmografia dele que eu assisti foi The Visitor (comentado aqui no blog), do qual eu gostei muito. Acho que vale acompanhar o trabalho dele.

CONCLUSÃO: Como é bom ver um filme que trata da importância do jornalismo. Em época de internet a toda velocidade, em que diferentes pessoas falam sobre as suas vidas e tudo o mais, muitos questionam essa valorosa profissão. Como jornalista, não tenho dúvidas de que o trabalho da imprensa, quando feito com seriedade e profundidade, como nos mostra Spotlight, tem um valor inestimável e fundamental para a sociedade. Neste sentido é que um jornalista se diferencia de todas as outras pessoas que tem um smartphone ou um teclado nas mãos.

Com um roteiro primoroso e uma direção firme, Spotlight nos conta os bastidores de uma grande reportagem que desencadeou uma grande cobertura. Para quem não é da área, este filme apresenta um belo resumo de como funciona a imprensa – com todas as suas qualidades e falhas. Junto com os bastidores do jornalismo, este filme toca na polêmica e necessária questão do abuso sexual praticado por algusn padres da Igreja Católica. Um verdadeiro filmaço. Sem dúvida um dos melhores dos Estados Unidos dos últimos tempos e também um dos melhores a abordar a profissão do jornalismo.

PALPITES PARA O OSCAR 2016: Não tenho dúvidas que Spotlight será indicado em várias categorias do Oscar. Afirmo isso não apenas pelas indicações do filme no Globo de Ouro 2016, mas porque acho difícil a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood ignorar uma bora tão bem acabada. Mas, como bem sabemos, uma coisa é um filme ter várias indicações, outra coisa bem diferente é ele sair vencedor delas.

Ainda que, admito, com o Oscar 2015 as minhas esperanças para Hollywood se render a premiações menos óbvias aumentou. Não achei que na edição anterior Birdman poderia vencer Boyhood, um filme menos “ousado” – ao menos se entendermos ousadia como autoironia sobre a indústria do cinema. Como todos que acompanham esse blog sabem, eu prefiro a história de Boyhood, mas devo admitir que Birdman é muito mais polêmico, crítico e irônico que o concorrente que perdeu a quebra-de-braços.

Bueno, voltando ao Oscar deste ano. Acredito que Spotlight tem boas chances de ser indicado em cinco categorias: Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Roteiro Original, Melhor Ator (Michael Keaton) e Melhor Ator Coadjuvante (Mark Ruffalo). Talvez em seis, se Howard Shore emplacar em Melhor Trilha Sonora. Quanto a ganhar, ainda falta ver aos outros concorrentes de peso deste ano, mas acho que não seria uma surpresa ele ganhar como Melhor Filme, Diretor e Roteiro. Ainda que eu acho, francamente, que após a ousadia por premiar Birdman no ano passado, a Academia pode dar um voto mais conservador este ano e não premiar tanto a um filme que é crítico à Igreja. Logo mais veremos. Agora, me resta ver a outros fortes concorrentes do ano.

Foxcatcher – Foxcatcher: Uma História que Chocou o Mundo

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O filme mais estranho que eu assisti até agora da lista de indicados ao Oscar 2015. Foxcatcher é todo estranho. Primeiro, conta a história de alguns atletas de um dos esportes mais marginalizados dos Jogos Olímpicos. Depois, se aproxima de uma tradicional e muito rica família dos Estados Unidos. A junção destas duas realidades parece improvável, e a motivação desta aproximação é ainda mais estranha. Um filme curioso, mas que não passa muito disso.

A HISTÓRIA: Cenas históricas de cavaleiros e amazonas montando a cavalos de estirpe. Muitos são cercados de cães. Corta. Mark Schultz (Channing Tatum) treina sozinho na academia Wexler. Depois de alguns exercícios, ele coloca a medalha de campeão olímpico no pescoço e vai conversar com alunos de uma escola de ensino básico. Ele fala sobre o que faz um atleta ser um campeão. É março de 1987, e Mark ganha US$ 20 por ter falado para os estudantes.

Depois, ele ganha um lanche, aparentemente com diversos veteranos de guerra, e vai para casa comer macarrão instantâneo com molho de pimenta. Ele tem uma vida miserável, e parece estar incomodado com isso. Mas ele tem o irmão, David (Mark Ruffalo) sempre por perto. Tudo isso vai mudar quando entra em cena o multimilionário John du Pont (Steve Carell), que resolve patrocinar Mark e outros esportistas da luta grego-romana.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Foxcatcher): Desde os primeiros minutos deste filme a sensação predominante é de desconforto. Sempre há algo que parece “fora da ordem”. Não por acaso, a expectativa de quem assiste é de algo ruim deve acontecer a qualquer momento. Só não sabemos da onde o tiro vai partir.

Verdade que o título do filme no Brasil não ajuda no mistério. Afinal, “uma história que chocou o mundo” dá muito a entender que haverá um crime em cena. E como o tom de estranheza é constante, não é difícil alimentar a dúvida sobre que um crime ocorrerá a qualquer instante. Esse incômodo, não tenho dúvidas, faz parte das intenções dos roteiristas E. Max Frye e Dan Futterman, assim como do diretor Bennett Miller. Ou para dizer de outra forma, a sensação de um certo gosto amargo na boca é proposital.

A única justificativa para Foxcatcher existir é o desejo dos realizadores de questionar alguns dos baluartes da sociedade norte-americana. Afinal, o estranhíssimo personagem principal desta história John du Pont, encarna diversos elementos daquela cultura e professa valores que parecem corretos, mas que podem ser muito mal utilizados. Vale lembrar que a diferença entre o remédio e o veneno está na dose. E que muitas vezes a aplicação dos conceitos faz toda a diferença.

Com um tom amargo constante, Foxcatcher vai contando histórias de gente desvirtuada e que, aparentemente, não tem limites para a própria ambição. O que fica confuso, para mim, é o quanto os roteiristas tornam confusa a identificação de quem exagera na ambição e de quem apenas é dedicado a um propósito. Pensando bem, agora, ao escrever este texto, talvez essa seja a intenção deles.

Afinal, ainda que não seja fácil de perceber isso o tempo todo, mas há muitos mais tons de cinza – sem fazer alusão ao livro pornográfico – do que o preto e o branco que gostaríamos que predominasse em tantas ocasiões. Sendo assim, du Pont poderia realmente ter algum bom propósito, mas o essencial da conduta dele era de fonte egocêntrica. Através deste personagem, os realizadores querem questionar as famílias ricas e poderosas dos Estados Unidos. Que, volta e meia, mostram o seu pior lado.

Neste ponto é que entra o questionamento sobre a razão de ser de Foxcatcher. Esta é um produção que apenas aborda um crime ainda considerado absurdo por muitos norte-americanos? Ou seria uma forma dos realizadores questionarem a alta sociedade dos Estados Unidos, suas relações de poder e também a falta de apoio para alguns tipos de esporte? Sou mais adepta da segunda versão, ainda que eu não ache a primeira desprezível.

O filme parece ter a intenção de acertar a dois passarinhos com um tiro. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Ao mesmo tempo, matar a curiosidade de muitas pessoas que ainda se lembram do assassinato do campeão olímpico David Schultz, e também levar aquele caso para um outro nível, no qual são questionados os valores, as relações de poder e o ambiente em que as famílias abastadas do país estão fundamentadas.

Acho válido todo filme que aborda o segundo ponto, porque é interessante, ilustrativo e faz pensar o mergulho em realidades segmentadas. O que questiono é utilizar um drama que realmente aconteceu para fazer isso. Afinal, o trabalho de Frye e Futterman conta uma de diversas versões possíveis. Não necessariamente a mais próxima da verdade. Há fatos revelados no filme que acredite terem pouco espaço para dúvida, como a forma com que David é morto. Mas tantos outros detalhes são bastante questionáveis, sem contar os fatos sugeridos e não explicados. Vejamos.

Segundo este filme, Mark Schultz vivia em uma realidade paupérrima, aparentemente descontente com o rumo que a vida dele estava levando, até que surgiu na sua frente John du Pont. Podre de rico, o herdeiro de uma das famílias tradicionais do país resolve bancar o jovem atleta. Por mais que Schultz estivesse insatisfeito com a vida que ele levava, a forma fácil com que ele se muda para a propriedade de du Pont é um pouco difícil de acreditar. Mas ok, vamos levar em conta que os roteiristas não quiseram perder muito tempo com os pormenores.

A produção sugere que Mark estava não apenas insatisfeito com a falta de apoio para ele e para o esporte, mas também com as comparações constantes com o irmão, David, e com certa superioridade que o irmão mais velho poderia ter. Esta é uma forma de encarar a história, mas não é a única. Depois falarei mais a esse respeito.

Pois bem, segundo Foxcatcher, o filme – porque também há o livro homônimo e que não tem nada a ver com esta produção – , Mark não pensa muito em aceitar o convite de du Pont. Interessado em aparecer e em ter poder, principalmente, o multimilionário logo começa a jogar psicologicamente com Mark. Primeiro, ele tenta trazer o irmão David para o grupo. Quando não consegue isso, ele resolve substituir a figura do irmão, afastando Mark de David.

Daí surge um dos primeiros elementos que Foxcatcher questiona na sociedade americana: a ambição. Ela é vista em duas das figuras centrais desta produção – apenas David é semi-poupado na história. Primeiro, em Mark, que, segundo os roteiristas, estaria obcecado em fazer sucesso “por seus próprios méritos”, embarcando naquela ideia de du Pont de que ele deveria sair da sombra do irmão – mais velho e mais reconhecido que ele. Depois, no próprio du Pont, um sujeito estranho que parece estar sempre exibindo o poder emanado pelo dinheiro que a família tem, além de querer ganhar evidência em algo – nem que for na luta grego-romana com a qual ele não tem nenhum approach.

Quando du Pont, superbem interpretado por Steve Carell, resolve ele mesmo começar a “lutar”, chegamos ao extremo da noção patética do personagem no filme. A mãe dele, Jean du Pont (a veterana e sempre ótima Vanessa Redgrave), claramente tem vergonha do filho quando ele se presta a fazer coisas com as quais ele não tem nenhuma intimidade.

Além disso, e aí está um dos problemas do filme, Foxcatcher não deixa claro, mas apenas sugere que du Pont é gay. Isso fica subentendido em diversas cenas que mostra como ele admira aqueles – além da esfera deles serem atletas de elite -, e também em uma sequência que sugere que du Pont e Mark tiveram alguma relação mais íntima. Se ele fosse gay e se sentisse “castrado” pela mãe, que reprovaria um homossexual em uma família tão tradicional, muito seria explicado. Mas esse fato não fica evidente.

O que fica claro é que du Pont se sentia podado pela mãe em diversos sentidos, inclusive ao acreditar que ela amava mais os cavalos de raça e premiados do que ele. Consequentemente, du Pont reage a isso querendo ser um filantropo, especialista em diversas áreas e reconhecido por isso. Não importa para ele se o reconhecimento é real ou se ele deve pagar para ele. Du Pont, aparentemente, cresceu e “amadureceu” sem conhecer limites. Tanto que ele, ao ser contrariado, ao não conseguir o que ele mais desejava – que era ver Mark ser campeão olímpico sob a sua chancela e patrocínio -, ele resolveu “vingar-se” de alguém relacionado que estivesse perto.

Como Mark já havia saído do propriedade, a ira e a falta de controle de du Pont acabou cobrando um preço alto de David. Nestas minhas observações já estão outros elementos que Foxcatcher claramente acha relevantes de questionar: a alta classe tradicional dos Estados Unidos e sua falta de limites e a influência que eles conseguem ter ao dedicar parte de suas fortunas para causas “filantrópicas”. Curioso também como o filme mostra a proximidade de du Pont com os militares e os policiais, ao ponto dele comprar um tanque de guerra e praticar tiro com os homens da lei.

Um dos problemas deste filme é que para ele vender os seus conceitos, ele deve simplificar bastante os personagens. Por exemplo, Mark começa e termina o filme carrancudo. Parece um cara que está insatisfeito o tempo todo. No início, por não ter dinheiro. Depois, por estar à sombra do irmão. Finalmente, por se sentir usado por du Pont e por não se reconhecer mais – inclusive ao descambar para a cocaína. Por outra parte, du Pont é um cara estranho do início ao fim, detentor de várias frases feitas e manipulador. Ele sabe usar o poder e o dinheiro que tem para conquistar o que deseja.

Certo que as pessoas são o que elas são. Mas ninguém é tão raso quanto os personagens de Foxcatcher. Ou dificilmente encontramos pessoas tão unidimensionais. Mas para convencer, Frye e Futterman escolhem esse caminho da simplificação dos personagens. E também um bocado da história, a ponto de deixar algumas pontas soltas – como se houve ou não um envolvimento sentimental/sexual entre Mark e du Pont; sobre as reais motivações da chegada e da partida de Mark da propriedade e assim por diante.

No fim das contas, acho que há filmes que falam sobre o “mal estar” dos valores norte-americanos de forma muito mais eficaz. O primeiro que me vem à mente é o já clássico American Beauty, ou mesmo o ainda anterior Blue Velvet e o mais recente Mulholland Dr. – ambos do ótimo David Lynch. Para mim, estes três filmes, para citar só alguns, são mais eficazes em fazer uma autocrítica ao “american way of life” do que este Foxcatcher com suas leituras simplificadas de personagens – e o pior, reais – e seus furos de roteiro.

NOTA: 6,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Realmente é uma experiência muito diferente ver Steve Carell em um papel tão sério. Esse ótimo ator, que eu gostei de acompanhar em parte da versão norte-americana da série The Office, aparece totalmente diferente aqui em Foxcatcher. Mas ele está ótimo, porque convence como um cara que parece, permanentemente, ser perigoso. O John du Pont de Carell é estranho o tempo todo, e um pouco assustador. Para incorporá-lo, o ator contou com a ajuda fundamental da maquiagem. No total, 14 profissionais estiveram envolvidos no departamento de maquiagem do filme. Trabalharam bem.

Gosto de Channing Tatum e de Mark Ruffalo. Cada um deles está bem neste filme, mas o roteiro não lhes ajuda a construírem personagens melhores. Afinal, os irmãos Mark e David nesta produção estão desenhados para propósitos muito específicos, sem complicações – diferente das pessoas reais, normalmente. Isso me incomoda um pouco, porque, afinal de contas, este filme segue aquela alcunha de “baseado em fatos reais”.

As atrizes Sienna Miller e Vanessa Redgrave mais uma vez em papéis secundários. A primeira, em especial, se consolidando como uma camaleoa. A cada novo filme que eu vejo essa atriz, ela está muito diferente do anterior. Bacana isso. Ela mostra versatilidade. Acho que é uma questão de tempo para vermos ela em um grande papel e com uma grande interpretação. Vanessa Redgrave, como sempre, elegante e precisa em sua interpretação.

Como comentei na crítica, alguns pontos no filme me deixaram em dúvida e incomodada. Daí que parti para ir atrás de informações sobre a história real de Foxcatcher. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Encontrei este texto, um tanto fraquinho – e não, Foxcatcher não é um dos favoritos ao Oscar -, mas que ganha interesse por resgatar parte da história real e, principalmente trazer uma foto do verdadeiro David e do du Pont real.

Mas a real controvérsia sobre a versão de Foxcatcher, filme dirigido por Bennett Miller, eu fui ter ao procurar o livro Foxcatcher escrito por Mark Schultz. Não li o livro inteiro, mas dei uma passada nele, e a versão é bem diferente do filme. Ele não fala que teve uma relação afetiva com du Pont. Pelo contrário. Ele deixa claro que só foi para a propriedade do multimilionário por causa do dinheiro. E diferente do que o filme sugere, ele nunca se queixa do irmão ou demonstra ter inveja ou sentir-se à sombra dele.

Pelo contrário. Ele elogia David do início ao fim. Claro, alguém pode dizer, que ele fez isso após o irmão morrer, mas que na época em que ele estava vivo as coisas eram diferentes. Até pode ser, mas não vi até agora nenhuma comprovação disso. Frye e Futterman devem ter se baseado na cobertura da imprensa da época e ter “adequado” a história para que o filme ganhasse em “interesse” e “drama”, mas não parece que a produção tem realmente muito fundo na realidade.

Outro texto interessante e até fundamental é este. Ele mostra como a polêmica cresceu quando o filme estreou, e de como o verdadeiro Mark ficou indignado com Miller, a ponto de ameaçá-lo de processo e de acabar com a carreira do diretor. Segundo um texto que Mark escreveu no Facebook e que é reproduzido no texto que eu linkei, ele nunca se mudou para Pensilvânia, como o filme mostra, e sim foi morar em Villanova como ajudante de treinador.

Ele também conta que a primeira vez que ele encontrou du Pont, este estava “sujo e bêbado”, e afirma que nunca o considerou um mentor ou que viu nele a figura de pai. Ele também nega vários outros fatos mostrados no filme. Ou seja, mais razões para questionar Foxcatcher de Miller. Ah sim, e Mark tira aquela dúvida que eu tinha lá encima: ele diz categoricamente que não teve nenhuma relação sexual com du Pont. Eita! O filme sugere algo bem diferente. O estranho é que Mark acabou mudando radicalmente de opinião depois – ele teria sido comprado?

Da parte técnica do filme, nada me chamou muito a atenção. Mas acho que vale mencionar a trilha sonora precisa e bem pontual de Rob Simonsen; o design de produção de Jess Gonchor; os figurinos de Kasia Walicka-Maimone e o trabalho dos 13 profissionais envolvidos na maquiagem.

Foxcatcher estreou em maio de 2014 no Festival de Cinema de Cannes. Depois disso, o filme participaria de outros 24 festivais. O próximo da lista aonde o filme ainda vai estrear é o Festival de Cinema de Belgrado, que começa no dia 2 de março. Nesta trajetória o filme conquistou 13 prêmios e foi indicado a outros 45. Entre os que recebeu, sem dúvida alguma o principal é o de Melhor Diretor para Bennett Miller no Festival de Cinema de Cannes.

Esta produção foi totalmente rodada nos Estados Unidos, em diversas cidades da Pensilvânia, incluindo Pittsburgh, e também em Leesburg, na Virgínia. O filme também é uma produção 100% dos Estados Unidos – por isso ele entra na lista de “votações no blog”.

Agora, aquelas clássicas curiosidades sobre o filme. Na cena do espelho, Channing Tatum realmente quebra o objeto, o que não estava no roteiro. Mas ele realmente entrou no personagem naquela sequência, inclusive machucando a testa na ação.

Tatum e Mark Ruffalo passaram de cinco a seis meses em um treino intensivo de luta para poderem interpretar os seus respectivos papéis no filme. Steve Carell estudou as imagens disponíveis de du Pont durante horas, para tentar ser o mais fiel possível ao retratado por ele no filme.

Não encontrei informações sobre os custos deste filme, mas tudo leva a crer que ele teve um baixo orçamento. Nas bilheteria dos Estados Unidos, até o dia 1º de fevereiro, o filme tinha conseguido pouco mais de US$ 11,45 milhões. Baixo, bem baixo.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,3 para esta produção. Uma boa avaliação, levando em conta o padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 177 textos positivos e 25 negativos para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 88% e uma nota média de 7,9. De fato, pelo visto, eu estou abaixo da média do público e da crítica na avaliação deste filme. Isso é raro, mas acontece.

CONCLUSÃO: Sabe aquele filme em que você fica esperando o tempo todo que algo de ruim e/ou trágico aconteça? Este é o caso de Foxcatcher. A história é estranha do início ao fim, e como as peças não encaixam, o diagnóstico da tragédia iminente é inevitável. Os atores estão bem, mas o roteiro é um pouco arrastado e tem partes com fios soltos. As sugestões e as não comprovações incomodam, assim como a “moral da história”. Filme estranho que aborda um dos crimes que pode ter chocado os Estados Unidos, mas que teve pouca repercussão mundial – diferente do que os produtores querem nos fazer crer. Eficaz na narrativa, ainda que facilmente esquecível.

PALPITES PARA O OSCAR 2015: Por razões óbvias eu esperava mais de Foxcatcher. Certo que ele não foi indicado a Melhor Filme. Mas há produções melhores na disputa – como Selma – que foram indicadas a menos estatuetas que este filme de Bennett Miller. Como gosto dos atores envolvidos no projeto, também esperava que a entrega deles fosse marcante.

Pouco disso aconteceu. Como repeti diversas vezes no texto acima, apenas a estranheza da história e da forma com que ela é contada predomina nesta produção. Dos indicados ao Oscar deste ano, este é um exemplo de como a premiação está um pouco enfraquecida. Em um ano de boa safra, não imagino Foxcatcher concorrendo sequer a uma estatueta, quanto mais à cinco!

Mas ok, vamos ao que interessa. As indicações do filme este ano. Foxcatcher concorre em Melhor Ator para Steve Carell; Melhor Ator Coadjuvante para Mark Ruffalo; Melhor Direção para Bennett Miller; Melhor Roteiro Original e Melhor Maquiagem e Cabelo. Melhor Ator, nem pensar. Ainda que eu goste muito de Steve Carell, ele está léguas distante das ótimas performances de Eddie Redmayne e Benedict Cumberbatch. Mesmo Michael Keaton está melhor. Carell também apenas poderia duelar com Bradley Cooper – e olha lá.

Na categoria de Melhor Ator Coadjuvante também não vejo chances para Ruffalo. J.K. Simmons e Ethan Hawke estão muito melhores, e mesmo Edward Norton me pareceu mais “dentro” do papel. Não que Ruffalo não esteja bem, mas ele não faz nada além do que já estamos acostumados a vê-lo fazer. Ainda preciso ver a Robert Duvall.

Melhor Direção, nem pensar. Richard Linklater, Wes Anderson, Morten Tyldum e Alejandro González Iñarritu, nesta ordem, para mim, tem trabalhos melhores para apresentar que Miller. Aliás, se fosse para indicar alguém diferente nesta categoria, eu ainda preferia Clint Eastwood do que Miller. Acho o trabalho de Eastwood em American Sniper mais difícil e técnico do que do diretor de Foxcatcher. Ele dever ter bons amigos em Hollywood.

Finalizando, Melhor Roteiro Original, também, nem pensar. Boyhood, Birdman e The Grand Budapest Hotel são muito melhores e bem acabados, nesta ordem de preferência. Mesmo Nightcrawler achei melhor desenvolvido. A única chance do filme, pois, está em Melhor Maquiagem e Cabelo. Sem o trabalho técnico nesta área Carell não teria recebido uma indicação ao Oscar. 🙂 Sendo assim, talvez o filme leve uma estatueta, nesta categoria, se conseguir ganhar de The Grand Budapest Hotel – grande concorrente também – e Guardians of the Galaxy. Mas não seria totalmente surpreendente se o filme saísse do Oscar sem nada. Seria justo, na verdade.