Tomb Raider – Tomb Raider: A Origem

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Alguns filmes não conseguem fugir do óbvio. E pela proposta que eles têm, isso é meio que previsto. Esse é o caso de Tomb Raider, o novo filme sobre a personagem conhecida dos games e que retoma a origem de Lara Croft. Como um filme com esse perfil não terá exageros e “cenas impossíveis”? Como alguém que conhece a história da personagem não sentirá que está vendo, muitas vezes, trechos dos games na sua frente? Sim, Tom Raider é óbvio. Mas nem por isso ele deixa de ser um bom entretenimento.

A HISTÓRIA: Dia 17 de maio de 2009. Lord Richard Croft (Dominic West) conta a história de Himiko, uma “divindade” do Japão que ficou conhecida por usar magia negra e por matar exércitos com apenas um toque. Ela provocou muita desgraça, até que o seu próprio Exército a levou para uma ilha no Mar do Diabo para que ela fosse aprisionada lá. Mas Croft está obcecado em encontrá-la, e apenas lamenta ter que deixar a sua Lara para trás. Fim da animação que introduziu a lenda.

Em um ringue, Lara (Alicia Vikander) está dando o melhor de sim em um treinamento feroz. No fim, ela acaba sendo vencida. Falando com uma amiga, que diz que ela foi derrotada – ou massacrada -, Lara responde que não foi nada disso. O treinador lembra ela que ela está devendo, e que ninguém treina se não pagar. Saindo dali, Lara vai trabalhar como entregadora. Em uma entrega, fica sabendo de uma corrida de bikes. Como “lebre”, se ela escapar da perseguição, vai ganhar um dinheiro que lhe faz falta. Depois de se acidentar, ela é levada pela polícia, onde Ana Miller (Kristin Scott Thomas) lhe encontra. Em breve, a discussão sobre o pai de Lara a levará para locais distantes.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Tomb Raider): Inicialmente, esse filme não teria muitos atrativos para me chamar a atenção. Mas, entre os filmes que estavam em cartaz na semana passada, esse me pareceu o segundo mais atrativo – o primeiro foi o recentemente comentado por aqui Aus Dem Nichts. Depois, veio Tomb Raider.

Eu conheço e já joguei alguma das aventuras da senhorita Lara Croft. Então sim, conheço a personagem na sua versão original, dos games. Depois, assisti ao primeiro – e possivelmente ao segundo, mas não tenho certeza – filme da personagem estrelado por Angelina Jolie. Então sim, a história de Croft não é uma novidade para mim.

Esse filme, acredito, pode ser analisado sob duas óticas distintas: de pessoas com eu, que já conhecem a história da personagem tanto nos games quanto nos filmes anteriores; e a de pessoas que não tem esse conhecimento. Para o primeiro grupo, o filme é de uma obviedade gritante. Sim, não há nada realmente novo em cena.

O que temos, então, para destacar da produção? A competência nos efeitos especiais, o começo da história realmente bem feito e os ótimos atores em cena – com destaque especial para Alicia Vikander, uma Lara Croft bem mais interessante que Angelina Jolie. Gostei da pegada inicial da produção, em especial. O roteiro de Geneva Robertson-Dworet e Alastair Siddons e a direção de Roar Uthaug rejuvenesceram a personagem.

Assim, especialmente a Lara Croft que vemos em cena no início da história, parece conversar muito bem com os jovens da atualidade. Ela procura fazer o seu “caminho por sua própria conta”, trabalha como entregadora, participa de um “racha” de bikes, treina em uma academia e tem todos os predicados para ser uma jovem mulher com opinião forte e a clareza do que deseja ou não para si. Ou seja, o perfil de garota tão em alta nos nossos dias.

Por isso, aquele começo de Tomb Raider me pareceu bastante interessante. Especialmente a direção ágil e atenta aos detalhes de Uthaug. Depois, o filme mergulha um pouco demais no estilo Indiana Jones. Em vários momentos eu me senti assistindo a um filme estrelado por Harrison Ford no papel do arqueologista mais famoso do cinema. Além disso, claro, há cenas de ação “absurdas”, mas que são bastante típicas da personagem nos games.

Agora, o filme também pode ser assistido sob aquela segunda ótica, de quem não está familiarizado com a personagem. Para esse grupo, Tomb Raider é um filme atraente, movimentado, que apresenta algumas ideias já conhecidas de “aventura com requintes de arqueologia” e, principalmente, a velha busca da autoafirmação e das “pazes” com os pais – nesse caso, com o pai, porque nunca ouvimos falar da mãe de Lara Croft.

Então sim, assistimos a uma velha fórmula da menina que busca a admiração do pai – que, não por acaso, é uma figura ausente mas que vive no imaginário da “eterna criança” como alguém sempre marcante. Essa busca de Lara pela figura paterna, é um dos motes principais da história. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). No fim, ela encontra algumas respostas para as perguntas que tem, conhece um pouco mais de suas origens para, em seguida, e de forma muito rápida, ela logo romper o cordão umbilical.

Existe uma razão para isso acontecer. A personagem precisa ter aquela ausência do pai como uma motivação para os passos seguintes, assim como o compromisso de manter e preservar o legado do pai ausente. Tomb Raider foca na origem da personagem ao mesmo tempo que deixa claro que esta é apenas a primeira das muitas aventuras de Lara Croft.

O filme também apresenta uma “organização secreta” e que está espalhada por diversas partes do mundo. Ou seja, o típico elemento de “teoria da conspiração” que será importante para essa história despertar certo interesse no futuro. Tomb Raider, assim, cumpre bem o seu papel, seja por apresentar bem a personagem e as suas motivações originais como “aventureira”, seja por preservar boa parte da essência dos games.

Pena que Robertson-Dworet, Siddons e Uthaug tenham optado apenas por caminhos seguros e por referências que já conhecemos bem. Desta forma, eles tornaram Tomb Raider um filme seguro mas, ao mesmo tempo, nada ousado. Eles poderiam ter inovado mais, seja na forma, seja no conteúdo, para nos surpreender. Mas não.

Nada do que vemos em cena nos surpreende de fato. Apenas, talvez, a confirmação de algo que já suspeitávamos: que Alicia Vikander tem muito mais a ver com o papel do que outras atrizes que poderiam ter encarnado Lara Croft. Esse, ao menos, foi um belo acerto. Agora, é esperar os próximos filmes da grife para saber se alguém nos apresentará ao menos algo além do óbvio ou se seguiremos tendo “mais do mesmo” pela frente.

NOTA: 7,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Pelas características desta produção, um elemento que Tomb Raider deveria ter de destaque são os efeitos especiais e visuais. E, de fato, o filme atende bem as expectativas nesses quesitos. Como em praticamente todos os outros quesitos desta produção, os profissionais envolvidos nesses aspectos fazem um bom trabalho, mas nada além do esperado – e nada próximo de algo excepcional. Assisti ao filme na versão 3D e, como tantas outras produções recentes nesse formato, Tomb Raider não aproveita ao máximo esse recurso. Ou seja, você não perderá grande coisa se assistir ao filme em 2D mesmo.

Entre os aspectos técnicos dessa produção, vale então destacar os efeitos especiais que envolveram nove profissionais; a lista gigantesca que – chuto – deve ter contado com mais de 300 profissionais responsáveis pelos efeitos visuais de Tomb Raider. Sem esses efeitos, certamente não teríamos um filme frente aos nossos olhos – grande parte da produção depende dos efeitos visuais e especiais.

Além desses elementos, vale destacar a direção de fotografia de George Richmond; a edição de Stuart Baird, Tom Harrison-Read e Michael Tronick; a trilha sonora de Junkie XL; o design de produção de Gary Freeman; a direção de arte de Tom Brown, Anthony Caron-Delion, Claire Fleming, Simon Lamont, Tamara Marini, Tom Still e Alessandro TRoso; e os figurinos de Colleen Atwood e Timothy A. Wonsik; e a decoração de set de Raffaella Giovannetti e Maria Labuschagne.

Do elenco, o nome a destacar é realmente da atriz Alicia Vikander. Ela cai como uma luva para a personagem. Ela tem o estilo, o físico e a atitude perfeita para viver Lara Croft. Está muito bem em cena. Além dela, os destaques, pela importância dos personagens na história, são Dominic West como Lord Richard Croft, pai de Lara; Walton Goggins como Mathias Vogel, o chefe da missão escalada para encontrar a tumba de Himiko; Daniel Wu como Lu Ren, o piloto da embarcação que leva Lara para o seu desejado destino – e que acaba virando também o braço direito dela nessa missão; e Kristin Scott Thomas como uma esquisita Ana Miller, tipo de “gerentona” dos negócios do pai Croft.

Além deles, o veterano Derek Jacobi faz uma ponta como Mr. Yaffe, advogado da família Croft. Também vale citar a participação de Maisy De Freitas como a Lara Croft aos 7 anos de idade e de Emily Carey como a Lara aos 14 anos.

Tomb Raider estreou em première no dia 2 de março de 2018 em Berlim. No Brasil, assim como em grande parte do mundo, o filme estreou no dia 15 de março.

Agora, algumas curiosidades sobre essa produção. Tomb Raider é baseado na “reinicialização” da saga de Lara Croft feita nos jogos e lançada em 2013.

A atriz Alicia Vikander fez um grande esforço físico nessa produção porque ela queria que a sua interpretação fosse a mais realista possível da personagem. Entre outros detalhes, ela realmente estrela todas as cenas de ação e que exigem esforço físico. A atriz também era fã da história de Lara Croft nos games.

Especialmente a crítica não gostou muito de Tomb Raider. Os usuários do site IMDb deram a nota 6,9 para esta produção. O que, para os padrões do site, não está ruim. Mas os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 110 críticas positivas e 110 negativas para o filme, o que lhe garante uma aprovação de apenas 50% e uma nota média de 5,4. Os dois critérios são bastante baixos.

O site Metacritic, por sua vez, apresenta o “metascore” de 48 para Tomb Raider, utilizando 53 críticas para chegar nessa média. O “user score” do site está um pouco melhor, registrando 6,7 de média.

De acordo com o site Box Office Mojo, Tomb Raider teria custado cerca de US$ 94 milhões e faturado, nas bilheterias dos Estados Unidos, pouco mais de US$ 41,7 milhões até o dia 16 de março. Nos outros mercados em que o filme já estreou, ele teria feito outros US$ 170 milhões. Ou seja, até o momento, teria faturado cerca de US$ 211,7 milhões. Está conseguindo pagar as contas, tanto de produção quanto de distribuição, mas não está conseguindo aquele resultado maravilhoso que os realizadores idealizaram, certamente.

Tomb Raider é uma coprodução do Reino Unido com os Estados Unidos.

CONCLUSÃO: A história do surgimento da aventureira Lara Croft contada com alguns requintes de “modernidade”. Nesse filme, você não vai encontrar nada de original. Encontrará a essência da personagem, a sua origem, e lembrará, se tiver “bagagem” para isso, bastante dos filmes de Indiana Jones.

Se você conhece os games da personagem, também se sentirá em um deles, algumas vezes. No mais, tudo aquilo que já esperamos de um filme do gênero, mas com uma atriz que combina muito mais com o papel do que a anterior que encarnou o personagem. Um bom entretenimento, que só poderia ter aproveitado melhor o 3D para ficar um pouco melhor.

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Anonymous – Anônimo

E se William Shakespeare, o autor teatral mais conhecido e encenado de todos os tempos, não fosse, exatamente, William Shakespeare? Ou melhor, se o autor de todas aquelas peças e sonetos escritos em inglês e que ganharam o mundo com o nome de William Shakespeare fosse outra pessoa? Anonymous trata sobre esta teoria de que o homem por trás de Hamlet, Romeu e Julieta e todas as demais peças conhecidas era outro, na verdade Eduardo de Vero, conde de Oxford. Voltamos no tempo, na Londres do final do século 16 e início do século 17. Uma viagem fascinante, com bastidores de traição, disputa pelo poder e teatro, muito teatro.

A HISTÓRIA: Trânsito congestinado, sirenes de ambulâncias. Um táxi freia abruptamente na frente de um teatro que tem Anonymous em cartaz. O homem que desce do táxi entra apressado. Ele está atrasado. Uma mulher pede para ele se apressar, e ele chega à tempo para apresentar a história para o público. O veterano Derek Jacobi começa relembrando os fatos conhecidos sobre a “alma do século”, como foi chamado William Shakespeare. E afirma que apresentará uma história diferente sobre ele e suas obras. Esta história, segundo o ator, é feita de “penas e espadas, de poder e traição, de um palco conquistado e um trono perdido”. A partir daí, o filme acompanha Ben Jonson (Sebastian Armesto), dramaturgo contemporâneo de Shakespeare que seria uma peça fundamental na farsa por trás de suas obras.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Anonymous): O filme começa muito bem. Não consigo imaginar uma introdução mais interessante que aquela, magistralmente interpretada pelo veterano Derek Jacobi. Afinal, se vamos mergulhar na obra e no tempo do maior dramaturgo de todos os tempos, a melhor porta de entrada deve ser a de um palco teatral. Interessante a passagem deste ambiente para a do cinema. Acertos do roteiro de John Orloff e da direção de Roland Emmerich.

O momento seguinte, que mostra a primeira de muitas perseguições sofridas por Ben Jonson também é interessante. Afinal, ela imprime logo uma levada de suspense e intriga para a história. E serve como uma introdução para o que virá à seguir, ambientado cinco anos antes daquelas cenas de tortura. Só achei que a forma com que o filme é narrado torna a tarefa do espectador reconhecer personagens e suas ligações um pouco complicada demais. Demoramos muito tempo para fazer estas ligações e ligar os nomes às pessoas, o que pode provocar desinteresse na hsitória em algumas pessoas.

Mas quem insistir vai encontrar um ambiente interessante. A Londres do final do século 16 e início do 17, quando o teatro popular estava em plena efervescência. Momento em que começaram a surgir as primeiras peças de William Shakespeare. Ou, pelo menos, atribuídas a ele. Porque o filme abraça a teoria de uma corrente de estudiosos e historiadores que afirma que o homem nascido e criado em Stratford-upon-Avon que, aos 18 anos, mudou-se para Londres para dedicar-se à carreira de ator, não poderia ter escrito todas aquelas obras-primas do teatro.

Há muitas teorias sobre quem poderia ter sido o verdadeiro autor das obras atribuídas à Shakespeare. Mais abaixo falarei sobre isso. Anonymous segue a teoria lançada por John Thomas Looney, em 1922, de que o verdadeiro autor dos clássicos do teatro era Eduardo de Vero, o 17º Conde de Oxford. De acordo com este texto da Wikipédia, até 1975 a Enciclopédia Britânica apontava Oxford como o mais provável autor das peças. Outros nomes que apoiaram esta teoria são bastante conhecidos: Sigmund Freud, Orson Welles, Charlie Chaplin, Ralph Waldo Emerson e muitos outros intelectuais do século 20.

Anonymous explica os bastidores desta farsa possível. Contextualiza a Londres daquele tempo, mostrando como uma pessoa da aristocracia não tinha espaço para ser irônico, crítico ou mesmo artístico. Ele deveria preocupar-se com outros temas, muito mais “sérios”. Isso explicaria porque uma pessoa como Oxford, com uma formação exemplar, teria que “esconder-se” atrás de um outro autor.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Fascinado pela arte e pelo teatro, em especial, Eduardo de Vero (o ótimo Rhys Ifans) foi levado pelo lorde de Southampton (Xavier Samuel) a conhecer o teatro The Globe. O filme mostra como ele ficou fascinado, em sua primeira visita ao teatro, com a reação do público, a cenografia, a dinâmica das cenas – muito diferente do que era visto na côrte naquela época – e com o trabalho de Jonson. Mais tarde, Oxford teria libertado o dramaturgo em troca de um grande favor: que ele levasse um de seus textos para ser encenado pelo grupo teatral Lord Chamberlain’s Men.

A partir daí, nos deliciamos com os bastidores do teatro e o surgimento das peças de “Shakespeare” no teatro. Um acerto do filme é citar alguns trechos e reproduzir encenações “da época” das obras encenadas pelo grupo teatral dos clássicos da dramaturgia. Uma imersão interessante e inédita. Bacana. O roteiro só se mostra um pouco confuso porque demoramos para entender quem é Oxford, Southampton e o lorde de Essex (Sam Reid). A relação entre eles fica um pouco confusa, e será explicada apenas perto do filme – ainda que algumas questões não sejam respondidas até o final, como a alta fidelidade de Southampton por Essex.

De qualquer forma, mesmo que o roteiro não ajude muito o espectador na tarefa de entender estas relações, ele acerta ao introduzir logo os bastidores do poder. As relações entre a rainha Elizabeth I (a sempre ótima Vanessa Redgrave) e os Cecil, por exemplo – o pai William (David Thewlis) e o filho Robert (Edward Hogg), seus conselheiros de primeira linha. Depois, pouco a pouco, vamos conhecendo outras histórias de bastidores, como a relação da rainha com Oxford e outras figuras importantes da história.

Um acerto do filme é equilibrar sempre os bastidores do teatro com os da côrte. Há disputa, talento e intrigas nestas duas frentes. Traições, disputas, inveja, cobiça, elementos presentes na obra de “Shakespeare” estão espalhadas também pelo recorte feito daquela Londres efervescente. Algo muito bacana da produção também é a sua convicção em defender a ideia de que palavras podem provocar revoluções e mudar realidades.

Ainda que, na prática, todo o intento de Oxford não tenha conseguido mudar aquela realidade retratada. Mas ela acabou, depois, vencendo o tempo e influenciando todas as gerações posteriores. Sim, palavras tem um poder fantástico, quando são bem utilizadas.

Mas nem tudo são flores… Anonymous infelizmente apresenta um desempenho muito variável de seus atores. Os protagonistas, que interpretam Oxford e a rainha Elizabeth I, estão ótimos. Parecem acreditar em suas falas e tentam repassar as diferentes nuances de seus personagens. Gostei também de Joely Richardson, que interpreta a rainha em uma fase mais jovem. Mas a mesma qualidade não vi em Jamie Campbell Bower, que interpreta o jovem nobre de Oxford. Achei o desempenho dele, na maior parte do tempo, bastante forçada.

O mesmo se pode falar dos outros atores. O trabalho de Edward Hogg, Xavier Samuel e Sam Reid também pareceram um tanto fora do tom. Por outro lado, outro ator importante para a história, Sebastian Armesto, faz um bom trabalho. Na conta final, o elenco teve um desempenho razoável. A sorte do espectador é que três dos atores que mais aparecem em cena estão bem. O restante… apenas razoáveis.

O roteiro também tem muitos altos e baixos. Ainda que o filme inteiro desperte interesse, principalmente pela reconstituição de época e pelo equilíbrio entre os dois bastidores comentados anteriormente, ele não facilita muito a vida do espectador para entender as relações entre os personagens. E também exagera em alguns pontos, como no retrato feito de William Shakespeare (Rafe Spall, em um desempenho bem forçado também).

Achei ele muito estereotipado. Aparece apenas como um ator fanfarrão que gosta de beber, farrear com prostitutas e que sabe aproveitar a deixa para tornar-se famoso por algo que não fez. Em momento algum o filme mostra o “outro lado”, historicamente incontestável, de que ele foi casado e teve três filhos.

Mesmo que tenha sido um boêmio, como Anonymous insiste em retratar, havia uma outra parte de sua vida privada que acabou sendo totalmente ignorado pelo filme. Em contrapartida, Jonson também é retratado de uma forma bastante estereotipada, como um ótimo dramaturgo que sofreu com a genialidade de “Shakespeare”. Novamente, ainda que isso tenha sido real, certamente não foi toda a história de Jonson. Estas simplificações de personagens fundamentais não ajudam o filme.

NOTA: 8,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Pelas características deste filme, é de se tirar o chapéu para alguns elementos técnicos da produção. Para começar, para a direção de fotografia de Anna Foerster, fundamental para retratar a Londres elisabetana. Muitas cenas parecem ter sido tiradas de quadros de mestres que pintaram aquela época. Impressionante. Depois, excelente o design de produção de Sebastian T. Krawinkel, a direção de arte comandada por Stephan O. Gessler e composta por outros cinco profissionais; a decoração de set de Simon-Julien Boucherie; e os figurinos de Lisy Christl.

A trilha sonora de Thomas Wanker e Harald Kloser é boa, dá ritmo para o filme, mas fica em segundo plano e perde importância se comparado com os outros elementos técnicos citados.

Competente também o trabalho do editor Peter R. Adam.

O alemão Roland Emmerich, mais conhecido por “filmes-catástrofe”, me surpreendeu com este Anonymous. Com este filme ele mostra que pode fazer um cinema muito mais sério e “profundo”. Bem diferente de 2012, The Day After Tomorrow, Godzilla e Independence Day, entre outros.

Anonymous é um exemplo interessante de como o cinema é uma grande máquina de contar histórias. Mesmo que retrate um local muito específico, como pode ser Londres, em uma época determinada, esta produção não foi rodada na capital do Reino Unido. Não, meus bons leitores. Anonymous foi filmado inteiramente no Estúdio Babelsberg, na cidade de Potsdam, na Alemanha. Interessante, não? E esta informação me faz lembrar que é preciso tirar o chapéu também para o departamento de arte da produção, formada por nada menos que 50 pessoas, muitas delas sem crédito nos letreiros finais, mas citadas no site IMDb. Os efeitos especiais, feitos por uma equipe de nove profissionais, e os efeitos visuais, por outra equipe de 42 pessoas, também acabam sendo fundamentais para Anonymous.

Não por acaso, pelas características anteriores, esta produção não custou barato. Anonymous teria custado aproximadamente US$ 30 milhões. E não foi muito bem nas bilheterias. Nos Estados Unidos, o filme arrecadou quase US$ 4,5 milhões até o dia 11 de dezembro. No resto do mundo, ele teria arrecadado quase US$ 11 milhões. Pouco, diante dos custos do filme. E uma pena, porque este talvez seja um dos melhores trabalhos de Emmerich. Mas sem nenhum ator muito popular no elenco, com um tema denso e polêmico e pouca adesão da crítica, Anonymous ficou com um caminho difícil para ser trilhado.

Este filme estreou no dia 11 de setembro de 2011 no Festival de Toronto. Depois, ele participou de apenas um outro festival, o desconhecido Yubari International Fantastic Film Festival. Nesta sua trajetória, ele foi indicado a seis prêmios, mais uma indicação ao Oscar de Melhor Figurino, mas não levou nenhum deles para casa.

Anonymous toca em um tema polêmico e interessante, e está ambientado em uma época igualmente rica em informações curiosas. Fiquei mega interessada em saber mais a respeito. E encontrei alguns textos que podem servir de ponto de partida para quem também ficou curioso para saber um pouco mais.

Neste texto da Wikipédia é possível encontrar um compêndio de informações sobre as duas correntes desta polêmica sobre a obra de Shakespeare: aquela que defende que os trabalhos atribuídos a ele foram de fato de sua autoria, e aquela que aponta outros possíveis autores. A verdade é que os argumentos de quem aposta que aquela obra, por ser tão sui generis, deveria ter sido originada da mente de um nobre e/ou de um intelectual como Francis Bacon, são bastante interessantes. Fazem sentido.

Lendo os textos sobre a era elisabetana, Oxford e Shakespeare, me chamou a atenção que a Rainha Elizabeth I morreu em 1603 e que Eduardo de Vero faleceu um ano depois. Interessante – especialmente pela relação e história que eles tiveram.

Existem muitos textos sobre Shakespeare, sua vida e obra – se é que ele foi autor dela, realmente. Alguns textos que podem servir de ponto de partida: este, da Wikipédia, com infirmações básicas do “bardo inglês”, e este outro, que tem como diferencial trazer várias frases atribuídas à Shakespeare.

Para os que ficaram curiosos para saber mais sobre a era elisabetana, recomendo este texto da Wikipédia sobre os costumes e características daquela época, e este outro focado exclusivamente na história de Elizabeth I. Baita história, aliás. Fiquei com vontade de assistir – e relembrar dos que eu já vi – aos filmes já feitos sobre ela. Ainda que nenhum deva entrar tão fundo em sua biografia quanto um bom e extenso livro. Agora, irônico ela ter sido conhecida como A Rainha Virgem, não é mesmo? Especialmente por tudo aquilo que Anonymous sugere que ela tenha feito. Curioso que no texto que eu citei, eles não citam o lorde de Oxford, e sim o de Essex como sendo o amor não realizado da rainha. Curioso…

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,8 para o filme. Não está mal, para os padrões do site. Já os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram mais rígidos em suas análises: eles dedicaram 86 críticas negativas e 76 positivas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 47% – e uma nota média de 5,5.

Anonymous é uma co-produção do Reino Unido com a Alemanha.

CONCLUSÃO: A ótima reconstrução de época de Anonymous é um dos pontos fortes do filme. Assim como a seriedade com que o roteiro assume e defende a teoria de que William Shakespeare não era o verdadeiro autor de todas aquelas peças e sonetos clássicos que ficaram conhecidos com o seu nome. Na média, os atores convocados para a produção fazem um bom trabalho, mas alguns não parecem encarar com tanta seriedade os seus papéis quanto outros. O desempenho desigual deles e do próprio roteiro, que perde um pouco de força em alguns momentos, não deixa o filme ser melhor. A caricatura de alguns personagens e momentos também prejudicam a produção. Mas apesar destes deslizes, o diretor Roland Emmerich consegue apresentar um trabalho interessante e cheio de convicção. Os adeptos da teoria de que as obras atribuídas a William Shakespeare não seriam dele, devem gostar do filme. Para os demais, reles mortais, eis um filme curioso, que resgata alguns trechos de obras famosas atribuídas a Shakespeare e que nos transporta para o auge do teatro inglês. Vale a viagem.