L’ombre Des Femmes – In The Shadow of Women – À Sombra de Uma Mulher

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Tem filmes que você assiste com um certo sorriso no canto da boca. No final, você fica um tempo pensando se gostou ou não do que viu. Geralmente estas produções tratam de forma sincera questões com as quais você já se deparou. Este é bem o caso de L’ombre Des Femmes. Esta produção francesa é interessante no estilo/forma por ser curta e em preto e branco. Mas a história… nos faz pensar em pessoas que conhecemos ou que já passaram por nossa vida e também nos faz refletir sobre os nossos modelos de sociedade. É um filme “singelo”, entre aspas. Ele não nos apresenta, realmente, nenhuma grande ideia nova. Mas nos faz pensar além do gostaríamos, muitas vezes.

A HISTÓRIA: Pierre (Stanislas Merhar) olha para um papel. Em seguida, olha ao redor e como um pedaço de um baguete. Ele segue olhando para aquele papel, como se estivesse decorando o que está vendo. Corta. Em casa, Manon (Clotilde Courau) seca os cabelos. Alguém toca a campainha e abre a porta. Manon acredita que seja Pierre. Mas não. Caminha pelo apartamento o proprietário do local (Claude Desmecht), que questiona a inquilina em diversos pontos, inclusive lhe cobrando o aluguel que Manon está devendo. Pierre a consola, e diz para ela parar de chorar. Na sequência, o narrador nos conta um pouco da história deste casal.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes deste filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a L’ombre Des Femmes): Cada vez mais eu gosto de filmes curtos. Quando vi que esta produção teria pouco mais de uma hora de duração, achei perfeito. Essa talvez seja uma influência das séries que eu ando assistindo – e há vários anos. Tenho achado, com bastante frequência, que uma boa história não precisa de mais de duas horas para ser contada. Muitas, aliás, podem ter 1h30 ou menos. Este é o caso deste L’ombre Des Femmes.

O diretor Philippe Garrel, que escreveu o roteiro junto com Jean-Claude Carrière, Caroline Deruas-Garrel e Arlette Langmann, resolveu grande parte da “enrolação” que a trama poderia ter utilizando um narrador para nos apresentar aspectos da história. Essa decisão funcionou muito bem. Desta forma, temos um filme ágil e que vai direto ao ponto. O narrador nos ajuda a contextualizar os personagens centrais e a entendermos as suas relações melhor.

No fundo, L’ombre Des Femmes fala sobre casais e sobre a busca particular e individual pela própria felicidade e por sentido. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Olhando de maneira ligeira para esta produção, ela poderia ser resumida como a história de um sujeito que trai a mulher, sem culpa, porque acredita que é isso “o que os homens fazem”, mas que não aceita quando ele próprio é traído. Convenhamos, esta é a narrativa de boa parte das nossas sociedades machistas, onde os homens acreditam realmente que tem direitos acima das mulheres.

Garrel aborda estas questões de forma muito direta e franca. Ao mesmo tempo, acompanhamos os protagonistas nas suas buscas particulares por encontrar sentido para as suas existências. Manon faz isso dedicando o seu tempo e talento para o trabalho do marido. Ela ama ele e admira o que ele faz. Pierre, por sua vez, busca seguir fazendo documentários, mesmo que isso não lhes pague as contas. Ambos, no dia a dia, devem buscar saídas para a “vida ordinária” enquanto tentam fazer, em paralelo, o que eles acreditam.

Essa é a vida adulta, todos nós sabemos. Quem nunca teve que encarar afazeres no dia a dia que não lhe faziam muito sentido mas que precisavam ser feitos para que você conseguisse pagar as contas e sobreviver, apostando no dia em que aqueles “sacrifícios” lhe trariam a oportunidade de fazer o que realmente lhe importa? A diferença é que Pierre parece consumido pelo cotidiano. Ele vive espalhando papéis pelo bairro para conseguir um emprego, enquanto filma um documentário que é um projeto muito particular.

Em casa, ele parece morrer de tédio. Não consegue mais olhar para Manon como deveria. Este “tédio” todo faz com que ele se encante pela primeira mulher que lhe “dá mole”. Como muitos homens na vida real, Pierre acredita que está se eximindo de qualquer responsabilidade pelo simples fato que falou, logo de cara, para a amante, Elisabeth (Lena Paugam), que ele era casado. Ora, se ela sabe disso, não deve ter maiores esperanças em relação a ele ou expectativas, correto? Pierre é, me desculpem os sensíveis, o canalha clássico.

Ele considera mesmo que tem o direito de trair e de ficar com quem ele quiser, não importando que, com isso, ele está sendo desonesto com a mulher com quem ele divide um teto. O importante, para ele, é que ele tem uma amante à sua disposição que “sabe a verdade”. Elisabeth é vista como um objeto, um pedaço de carne que ele pode utilizar quando deseja. Em “retribuição”, ele ajuda ela aqui e ali com alguns afazeres domésticos e, claro, com toda a sua “masculinidade”.

Desta forma, Elisabeth deveria ser um robô ou alguém insensível como ele. Afinal, por saber que ele é casado, ela não deve nutrir realmente algum sentimento por Pierre. Mas as pessoas – especialmente as mulheres – são assim? Difícil, não? Como alguém se envolve com outra pessoa e acha que é possível desligar os sentimentos com um botão? Não tem lógica. Ao menos para as mulheres. Os homens, aparentemente, foram forjados para não sentir, não se envolver quando isso não lhes interessa. Para a maioria das mulheres, isso parece algo incrível, inalcançável.

Como esperado, Elisabeth não é um robô e nem uma pessoa que não alimenta o desejo (bastante irreal, devemos admitir) de ter Pierre para si. Ela não quer ser a amante, mas ser “promovida” a condição de companheira de Pierre. Claro, são erros comuns e um caminho bastante óbvio para um roteiro. L’ombre Des Femmes não é, realmente, inovador em sua história. O que chama a atenção no filme é a forma direta com que ele trata os personagens e a forma cuidadosa com que o diretor valoriza os atores em cena.

Elisabeth cai no lugar-comum de querer ficar com Pierre. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Aos poucos, ela vai se tornando a mulher que procura conhecer a “rival” e que busca realmente minar a relação do amado com a sua mulher. Enquanto isso, Manon surpreende um pouco ao se jogar, ela mesma, em um romance fora do casamento (com o personagem interpretado por Mounir Margoum). Quando Elisabeth descobre isso, resolve que é por aí que ela vai conseguir o que quer – ficar com Pierre para si.

O problema é que Pierre traiu Manon não porque não a amava, mas porque ele próprio estava precisando se autoafirmar. Quantos homens não tem o sucesso que eles acham que deveriam ter e que, sem muita autoestima, resolvem trair para se sentirem “desejados” ou “poderosos”? Eles não param para pensar no que lhes faz sentido, no que eles realmente querem. Sem pensar, eles se abraçam no instinto mais “primitivo”, tentando preencher as suas carências pulando a cerca. Sentindo-se, assim, desejados e “valorizados”.

É nesta cilada e nesta ilusão que o nosso protagonista cai. Pierre satisfaz os seus desejos imediatos pulando a cerca, mas quando percebe que a mulher também está usufruindo deste prazer com um outro homem, ele não consegue olhar mais para ela da mesma forma. É o clássico comportamento machista predominante de “eu posso fazer, você não”. L’ombre Des Femmes revela, assim, uma incoerência nata desta sociedade que vê homens e mulheres de forma desigual. O diretor desta produção e os roteiristas apresentam isso de forma direta e muito franca.

Esta é a parte positiva do filme. A forma com que Garrel e a sua turma demonstram toda esta incoerência da sociedade e de parte das pessoas que fazem este entendimento persistir com o passar do tempo. Pierre não admite a traição de Manon e não consegue olhar mais para ela da mesma forma. Ele próprio acaba seguindo a mulher, a exemplo do que Elisabeth fez com ele. Mas e o lado de Manon? Ela mesma confronta ele, em um determinado momento, dizendo que não aguenta mais ser a “culpada” pela ruína do casamento quando ele também a traiu.

Agora, nem tudo são flores. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Enquanto Manon tem a maturidade de seguir em frente, Pierre não consegue fazer o mesmo. Ele não lida nada bem com a traição e acaba radicalizando com o seu “orgulho” ferido de macho contrariado. Até aí, tudo normal, temos “a vida como ela é”, em muitos casos. Pierre acaba se desfazendo de Elisabeth e arruinando a relação com Mainon. O problema e um certo “gosto amargo” que esta produção deixa no final é quando Manon, após se separar de Pierre, resolve ceder novamente aos apelos dele.

Sim, acredito que o casal poderia ter amadurecido e chegado a conclusão que eles poderiam ser felizes novamente. O problema é a essência de Pierre. Será mesmo que ele conseguiria ser honesto com Manon novamente? Ele será capaz de deixar a sua ótica machista e de supremacia sobre ela de lado? Vai superar isso? Tenho sérias dúvidas. Quem tem uma visão romantizada das relações vai apostar nisso. Que Pierre aprendeu com os próprios erros e que realmente será capaz de ter uma relação madura com Manon. Eu, particularmente, duvido muito disso.

Então admito que me incomodou um pouco o fato de Manon não conseguir virar a página. Seguir a vida sozinha e/ou encontrando um novo amor, talvez alguém um pouco mais preparado para tratar uma mulher como ela merece. Agora, se Pierre amadureceu, acredito sim que ele e Manon podem voltar a ser felizes. Para isso, basta os dois se esforçarem, verdadeiramente, e serem sinceros consigo mesmos, em primeiro lugar, para logo conseguirem ser sinceros um com o outro. Não é fácil, mas acredito sim que é possível.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Sim, eu sei. Ultimamente eu tenho dado muitos 9. 😉 Fico um bom tempo pensando sobre a nota que eu gostaria de dar para cada filme. E, muitas vezes, não consigo sair do bendito 9. Mais uma vez isso aconteceu. Não vejo a hora de encontrar algo para o qual eu queira dar o tão desejado 10. Que isso aconteça logo, pois! 😉

Este filme tem uma série de qualidades. Para começar, o roteiro direto e muito preciso de Philippe Garrel, Jean-Claude Carrière, Caroline Deruas-Garrel e Arlette Langmann. Eles não tem papas na língua e não escreve nada que realmente não precisa estar em cena. O filme é enxuto, direto, e o público agradece quando é assim.

O interessante do trabalho deste quarteto é que apesar do roteiro ser muito franco e direto, a história não corre com uma velocidade acima do indicado. Não. Nada disso. O diretor Philippe Garrel consegue valorizar os ótimos atores em cena e fazer com que as suas ações e reações tenham coerência. Com bastante facilidade o público consegue colocar-se no lugar deles ou, ao menos, pensar em alguém que se parece com os personagens. O uso do narrador para contextualizar a história, como comentei antes, ajuda a dar agilidade e flexibilidade para a trama. Elimina “enrolações” e permite que o roteiro foque nas relações que realmente interessam.

Por falar do elenco desta produção, L’ombre Des Femmes acerta ao apostar em um núcleo pequeno de personagens. Essencialmente, este é um filme sobre um casal e as suas relações próximas. Assim, brilham em cena a excelente Clotilde Courau e o interessante (ainda que nos desperte ojeriza) Stanislas Merhar. A atriz se destaca, especialmente, pelo carisma e pelas reações muitas vezes viscerais. Ele, por sua interpretação contida que, em certos momentos, chega quase a se assemelhar ao silêncio antes da explosão. Muito bom e complementar o trabalho dos dois.

Além dos protagonistas apresentarem uma grande sintonia em cena, vale também destacar alguns personagens coadjuvantes que fazem um bom trabalho. O destaque, entre os coadjuvantes, sem dúvida é de Lena Paugam, que interpreta Elisabeth. Mas vale citar também o trabalho de Vimala Pons como Lisa, amiga de Manon; Antoinette Moya como a mãe da protagonista; Jean Pommier como Henri, o “velho resistente” que vira o foco de um documentário de Pierre; Thérèse Quentin como a mulher de Henri; Mounir Margoum como o amante de Manon; Claude Desmecht como o proprietário do apartamento onde Manon mora; e Louis Garrel como o narrador.

Entre as qualidades técnicas do filme, sem dúvida alguma o destaque é a direção de fotografia de Renato Berta. Um trabalho impecável e muito, muito interessante e bonito. A fotografia é um dos pontos fortes desta produção. Também vale destacar a ótima edição de François Gédigier; os figurinos escolhidos à dedo por Justine Pearce; a trilha sonora clássica e bastante pontual de Jean-Louis Aubert; e o design de produção e a direção de arte de Emmanuel de Chauvigny.

Agora, algo temos que admitir. O final deste filme tem uma fina ironia. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Na igreja, Manon faz um paralelo entre o falso “resistente” Henri, que eles foram velar, e a história do próprio casal. O que Henri contava era uma mentira, e a busca do próprio casal por “felicidade” extra-conjugal também se mostrou uma mentira, como ela mesma comenta. Os dois acabaram sozinhos e infelizes. Neste ponto que ela percebe que talvez a história dos dois mereça uma nova oportunidade. Quem sabe, agora sem mentiras ou ilusões, realmente eles possam dar certo? Algumas vezes as pessoas evoluem. Vamos acreditar que isso aconteceu com os dois – assim teríamos, de fato, um final feliz.

Ainda que todo o elenco seja competente, achei a atriz Clotilde Courau realmente deslumbrante. Ela é encantadora, tem carisma e, quando sorri, a tela parece se iluminar. Stanislas Merhar, que parece cheio de tédio durante o filme inteiro, finalmente sorri no final. Então sim, é um final feliz. Não sabemos o quanto ele vai durar, mas isso não o torna menos feliz. E sim, sorrir faz toda a diferença. Na vida e na arte. 😉

L’ombre Des Femmes estreou em maio de 2015 no Festival de Cinema de Cannes. Até agosto de 2016 esta produção passou por outros 14 festivais em diversos países. Nesta trajetória, o filme conquistou três prêmios e foi indicado a outros dois. Os prêmios que recebeu foram o de Melhor Filme no Athens Panorama of European Cinema, em 2015; o de Melhor Filme não lançado em 2015 no International Cinephile Society Awards de 2016; e o de Melhor Atriz para Clotilde Courau no Festival de Cinema Europeu de Sevilha.

Não encontrei informações sobre os custos desta produção. Apenas fiquei sabendo que L’ombre Des Femmes fez pouco mais de US$ 50 mil nas bilheterias dos Estados Unidos – a produção estreou, na verdade, em apenas dois cinemas. Algo insignificante, mas que também não nos dá uma ideia do desempenho da produção nos cinemas.

Para quem gosta de saber onde os filmes foram rodados, L’ombre Des Femmes foi totalmente filmado em Paris.

O diretor Philippe Garrel é um veterano do cinema francês. Ele começou a sua carreira por trás das câmeras em 1964 com o curta Les Enfants Désaccordés. O primeiro longa assinado por ele foi Anémone, de 1968. Diretor, roteirista, editor, ator e produtor, Garrel têm 11 prêmios na carreira. Por duas vezes ele foi premiado no Festival de Cinema de Cannes: em 1984, com Liberté, la Nuit; e em 2017 com L’amant d’un Jour. Entre os seus filmes, um dos mais premiados foi Les Amants Réguliers, estrelado por Louis Garrel, grande ator que é filho do diretor.

Outro destaque de L’ombre Des Femmes, a atriz Clotilde Courau também é uma veterana do cinema francês. Aos 48 anos de idade, ela têm 47 trabalhos como atriz. Em sua trajetória, Clotilde ganhou cinco prêmios. Além do já citado por L’ombre Des Femmes, ela foi premiada por Le Petit Criminel e com outros três prêmios por sua carreira.

L’ombre Des Femmes é uma coprodução da França com a Suíça.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,5 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 31 críticas positivas e apenas cinco negativas para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 86% e uma nota média de 7,4.

Agora, falemos um pouquinho sobre o título desta produção. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). L’ombre Des Femmes quer dizer, literalmente, “À Sombra das Mulheres”. Um título interessante para esta produção… Especialmente se pensamos que o protagonista se acha realmente “predominante” por boa parte da história. Ainda que o roteiro diga, lá pelas tantas, que Manon parece viver à sombra de Pierre, o título e o final da narrativa dá a entender que era o inverso. E mais do que Pierre viver à sombra de Manon, ele vive à sombra do sexo feminino. Ou seja, tem os seus passos determinados pelas mulheres. Interessante. No fundo, o machista que “pega todas” não percebe o quanto o seu desejo é o que lhe domina – e não o inverso. Por isso acho que o título faz muito sentido.

Por outro lado, a tradução do título para o português me pareceu um tanto precipitada/equivocada. “À Sombra de Uma Mulher” modifica a interpretação comentada há pouco. Dá a entender que Pierre vive à sombra de Manon, mas não é assim. A interpretação do título original é mais ampla e mais interessante.

Uma outra curiosidade sobre o filme que me ocorreu agora. (SPOILER – não… bem, você já sabe). Não deixa de ser mais uma fina ironia o protagonista desta produção ser um diretor de documentários que não consegue enxergar na sua frente uma mentira. Ele não percebe que Henri está contando uma história mentirosa na mesma medida em que, na vida pessoal, não consegue ver que vive uma mentira dentro de casa. Irônico e interessante. Uma forma de nos mostrar como muitas vezes em “casa de ferreiro, espeto de pau”. 😉

CONCLUSÃO: Um filme sincero, destes que nos fazem pensar sobre crenças, comportamentos, amor, desejo, fidelidade, liberdade e escolhas. Pois sim. Como comentei lá no início, L’ombre Des Femmes é um filme singelo, sem um história complicada e que vai direto ao ponto. Apesar de ter uma história aparentemente bem simples, esta produção nos faz pensar sobre algumas certezas e práticas. De tão sincero, este filme surpreende. Passa rápido, mas nos deixa com uma vontade de “quero mais”. Ele segue na nossa mente um bom tempo depois de terminar. É interessante, vale ser conferido, ainda que não esteja na lista dos melhores do ano – mas isso pouco importa, não é mesmo?

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Elle

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Vivemos em sociedades em que a violência, os desejos e a loucura jogam papéis importantes. Talvez cada vez mais relevantes. Elle nos conta uma história interessante, destas sobre as quais precisamos pensar um bocado depois para pensar o que achamos delas. O filme aborda aquelas três questões que citei na primeira frase e tem um bocado delas na história. Mesmo que a violência seja o elemento constante, pincelado aqui e ali, talvez a sobrevivência e a “volta por cima” sejam as mensagens que ficam no final. Filme instigante, interessante, mas não é o melhor desta safra.

A HISTÓRIA: Ouvimos gemidos e um soco. Um gato olha fixo para a frente e resolve ir para outro local. Na cozinha, um homem mascarado acaba de estuprar Michèle Leblanc (Isabelle Huppert) no chão e sai tranquilamente pela porta. Michèle se levanta lentamente. Ela está em choque. Depois, limpa a bagunça deixada pela cena violenta e vai tomar um banho demorado na banheira. Ela pede comida por telefone e espera o filho, Vincent (Jonas Bloquet), que chega atrasado. Ele está em um novo emprego e ficou mais tempo nele. Os dois conversam sobre um apartamento que ele vai alugar, e a mãe oferece ajuda. Michèle segue trabalhando e tenta manter uma vida normal, mas o perigo seguirá rondando a casa dela.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Elle): Um filme que começa com um gato e um estupro já mostra a que veio. Paul Verhoeven é um diretor ousado e aqui, novamente, ele mostra isso. Elle bebe dos filmes clássicos de suspense mas também avança ao mostrar aspectos que não são muito comuns nestas produções. A protagonista não é uma simples vítima de um canalha que a estupra e que mantém ela refém do medo. Não, ela é uma personagem complexa e interessante.

Aliás, possivelmente a construção da protagonista seja a parte mais interessante de Elle. Michèle Leblanc é uma mulher que beira os 50 anos, divorciada, independente, que vive sozinha, tem a sua própria empresa em sociedade com a amiga Anna (Anne Consigny), tem uma vida sexual ativa e “sem sentimentalismos”. Ela é estuprada na cozinha de casa e não para a vida por causa disso. Neste sentido o histórico dela tem um peso muito importante. E não poderia ser de outra forma, convenhamos.

Elle é um filme feito para Isabelle Huppert, uma das grandes atrizes da França, brilhar. E ela realmente faz isso. A personagem dela e toda a sua complexidade/humanidade são, sem dúvida alguma, os pontos fortes da produção. No mais, do que trata a história? Essencialmente de dois pontos: o perigo constante que ronda Michèle que, de forma inteligente, logo percebe que foi estuprada por alguém próximo dela, e o acerto de contas que ela tenta ter com o passado. Curioso que tanto o presente quanto o passado dela são cercados de violência. Mas isso não faz com que ela fique paralisada, o que só mostra a força da mulher e da personagem – um ponto forte que é ainda mais ressaltado na cena final da produção na conversa entre ela e Anna.

O suspense de Elle é garantido pela cena inicial do estupro e que, de forma muito inteligente, é “revivida” por Michèle em duas outras ocasiões. Na primeira, ela apenas revê como tudo aconteceu para tentar compreender melhor a situação. Na segunda ela já imagina o que poderia ter feito para se defender. Interessante este recurso utilizado pelo roteirista David Birke, que trabalha o texto do filme baseado no livro de Philippe Dijan. O filme tem uma forte carga psicológica e, devo dizer, por detalhes como este de Michèle revivendo o trauma, também bem realista.

Inicialmente achamos estranho que a protagonista buscou apenas um médico e não fez queixa na polícia. Mas conforme o roteiro de Elle vai se desenvolvendo e vamos entendendo melhor a personagem, fica claro como o passado trágico da família dela influencia o presente da personagem. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). O pai dela, Georges, matou toda a vizinhança quando Michèle tinha 10 anos de idade. Ele entrou nas casas e matou 27 pessoas, incluindo crianças e adultos, além de animais de estimação. A protagonista deixa claro que lutou muito para reconstruir a vida apesar da polícia e da imprensa e, por isso mesmo, prefere lidar com o risco de continuar sendo vítima de um maníaco por sua própria conta.

Pelo desenrolar da história, especialmente pelas mensagens que Michèle recebe no celular e por um vídeo parodiando uma cena de estupro no jogo que a empresa dela está produzindo, fica claro que o algoz da protagonista é alguém próximo. Desde o início eu desconfiei de duas pessoas: Patrick (Laurent Lafitte), o vizinho da frente que teria bastante facilidade de acompanhar a rotina de Michèle (este é um elemento-chave em casos assim), e Kurt (Lucas Prisor), que parece ser o diretor técnico da emrpesa de Michèle e de Anna e que confronta a chefe com alguma regularidade. Os dois dão diversos sinais de comportamento estranho durante o filme.

(SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Mesmo aquela sequência em que Michèle chega em casa e a polícia está na rua procurando um “suspeito” que Patrick tinha identificado, não me convenceu. Achei, ali, que ele poderia estar forjando aquela situação. Por isso mesmo não foi totalmente surpresa quando em um novo ataque Michèle conseguiu reagir e desmascarou o vizinho. Mesmo não sendo muito surpreendente, este fato jogou uma luz interessante na história. Michèle estava flertando com o vizinho descaradamente. Havia interesse mútuo entre os dois. Por isso mesmo é tão difícil para ela entender porque ele, podendo ter um caso com ela sem muito esforço, preferiu o caminho da violência e do estupro.

Elle é um filme que retrata, desta forma, desvios de comportamento, obsessões e escolhas pela violência sem maiores explicações. Tanto a chacina praticada pelo pai de Michèle quanto os estupros praticados por Patrick carecem de explicação e ficam sem ela. Afinal, o que explicaria comportamentos tão fora das regras sociais e do que aceitamos como lógico? O filme de Paul Verhoeven não se arrisca a querer explicar isso, mas ele mostra uma sobrevivente de toda esta carga de violência: Michèle.

Por mais que a protagonista se sentisse atraída por Patrick – e todos os homens ao redor dela percebem isso -, ela não aceita aquele jogo maluco em que a violência tinha que ser um elemento básico da “relação” deles. Em certo momento do filme, ao conversar com o ex-marido, Richard (Charles Berling), fica claro que Michèle não gostava de violência. Ela diz que eles se separaram depois que ele bateu nela. Ainda assim, mesmo divorciados, fica claro que ela tem uma certa esperança deles retornarem – tanto que ambos tinham como regra se “aventurarem” apenas com pessoas casadas, sem o risco, assim, de terem uma relação realmente séria.

Richard quebra esta regra ao se relacionar com Hélène (Vimala Pons), o que motiva ainda mais Michèle a buscar novas relações para se distrair. Ela se cansou das aventuras com Robert (Christian Berkel), até porque se sente mal em ficar mentindo para a melhor amiga e sócia. Mas como ela gosta de ter o controle da situação e é sexualmente ativa, ela logo começa a investir em Patrick. Antes de descobrir, é claro, o “segredinho sórdido” do vizinho.

O final é interessantemente dúbio e permite mais de uma leitura. Michèle convida Patrick para a festa de lançamento do novo jogo da empresa dela e, na volta, ela ameaça o vizinho de escancarar o seu lado obscuro para a polícia e para a mulher dele. Eu achei a atitude muito corajosa porque, afinal, seria muito fácil para ele matá-la. A alta voltagem sexual entre os dois e a violência ganham um capítulo final. E a partir daqui há duas questões que podem ter mais de uma leitura.

Primeiro, Michèle estava mesmo falando sério no carro ou o que ela disse era apenas uma forma de provocar Patrick para eles terem mais um encontro “quente” e violento? Da minha parte, acho que ela estava falando sério. Como mulher independente que ela era e, seguindo o que eu observei antes sobre Richard, ela não ter o perfil de mulher que gostasse de ser agredida, acredito sim que ela decidia sempre o que considerava melhor para si, independente do que os outros achassem. Ela não queria seguir com aquele jogo com Patrick e ia mesmo denunciá-lo. Ele resolve se arriscar e conferir de perto se aquilo era apenas uma provocação ou algo que poderia acontecer. O desfecho daquela situação, por outro lado, foi imprevisto e acidental.

Mas na sequência dos fatos – muito acertado, aliás, o filme não terminar naquele desenlace -, há um outro ponto que pode render mais de uma leitura. Na sequência em que Michèle vai conversar com Rebecca (Virginie Efira) está controlada, aparentemente em paz. Inicialmente podemos pensar que ela, por ser muito católica, está se “agarrando na fé”, e por isso aceitou bem tudo que aconteceu.

Mas quando Rebecca fala para Michèle que ela fica feliz de que Patrick tenha encontrado nela o que ele precisava, pelo menos por um tempo, o espectador pode se perguntar se, afinal, ela sabia sobre os “desvios” do marido. Eu acredito que sim. Que ela “aproveitava” o lado bom que Patrick tinha e fechava os olhos para os crimes que ele praticava para satisfazer os seus desejos sexuais regados à violência. Ou seja, Elle inteiro trata sobre as diferentes formas de violência e sobre um bocado de psicologia.

Alguns podem pensar, especialmente sobre a forma com que Michèle reage aos estupros quanto pela maneira com que ela encara a mãe Irène (Judith Magre) e o pai preso que ela era uma psicopata. Afinal, ela não esboça grande emoção nestes diferentes fatos. Não gosto de julgar ninguém, mas para mim ela apenas aprendeu a forjar os seus sentimentos e reações frentes aos fatos após passar pela situação mais absurda que alguém pode imaginar. Ela tinha 10 anos quando o pai foi preso após matar 27 pessoas e ela foi acusada por ser cúmplice apenas por ter entrado na “brincadeira” de colocar fogo nas coisas de casa. Certamente aquilo lhe deu uma carapaça muito forte.

Ela conseguiu, da melhor forma que ela encontrou, conviver com aquele pesadelo que foi perdurado no tempo pela memória das pessoas e o resgate da história pela imprensa. Tornou-se forte, independente, dona do próprio nariz. Mas não acho que ela fosse psicopata porque, afinal de contas, ela teve raiva e ódio do pai por muito tempo. Com o aneurisma que Irène sofre na noite de Natal e por causa do último pedido que ela faz para Michèle, ela resolve encarar o pai depois de quase 30 anos de prisão dele.

Por mais que a protagonista não gostasse de mostrar nenhuma fragilidade e, consequentemente, os seus sentimentos, dá para perceber que ela sofre o baque do que acontece com a mãe e também com as agruras do filho. Vincent se casa com Josie (Alice Isaaz), uma garota que não tem nenhum apreço pela sogra e, aparentemente, nem grande respeito pelo marido. Quando a garota tem o bebê que seria deles, Michèle percebe que ela está manipulando a situação. Em resumo, ela se importa com o filho, com a amiga Anna e com os demais. Não é exatamente um comportamento de uma psicopata.

A história é interessante e envolvente. Para mim, o roteiro não foi tãoooo surpreendente na revelação do criminoso que aterroriza Michèle. Mas isso não torna o roteiro ruim. Pelo contrário. O texto de Birke é bom porque desenvolve bem os personagens, especialmente a protagonista. Contemporâneo, moderno, o filme também escancara a cultura da violência e do machismo, tendo a coragem de apresentar uma mulher que resiste à tudo isso e insiste em sobreviver. Interessante, muito interessante. Poderia ser um filme de Almodòvar, se o diretor estivesse em uma boa fase. Não é o caso, infelizmente. Mas é bom ver que outros diretores conseguem ser tão ousados quanto.

NOTA: 9,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Gostei muito do trabalho de todos os atores envolvidos nesta produção. Claro que o destaque principal é o da sempre ótima Isabelle Huppert. Há quem diga que ela pode ser indicada ao Oscar de Melhor Atriz. Realmente ela pode. Faz um grande trabalho aqui. Bastante orgânico, convincente, sem exageros ou forçando a barra. A personagem dela, que é firme, mas complexa, ganha legitimidade pelo talento da atriz. Mas é preciso assistir aos outros filmes das atrizes sempre cotadas nesta categoria para saber se ela realmente poderá chegar lá.

Para Isabelle Huppert brilhar em cena ela precisa de um ótimo elenco para atuar com ela. Paul Verhoeven foi feliz ao escolher aos demais atores da produção. Claro que o outro destaque vai para Laurent Lafitte. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Ele faz muito bem a transição do vizinho “super boa praça” e atencioso para o sujeito que tem um desvio de comportamento sério e que é violento para dar vasão para a sua tara sexual. Lafitte não perde a mão ou exagera nesta transição, tornando o personagem dele bastante crível. Fundamental para o filme.

Dos atores coadjuvantes, merecem destaque os talentosos Anne Consigny como a sócia e melhor amiga de Michèle; Charles Berling como o escritor e ex-marido da protagonista; e Virginie Efira como a religiosa e sempre simpática vizinha de Michèle. Todos tem desempenhos inspirados e bastante adequados para os seus personagens. Estão muito bem também Judith Magre como Irène, a mãe provavelmente setentona de Michèle que gosta de jovens rapazes; Christian Berkel como o marido sorrateiro de Anna; Alice Isaaz como a maluquete namorada de Vincent; e o próprio Jonas Bloquet como o um tanto tapado (ou inocente/carente) Vincent. Todos estes atores tem papéis com uma certa relevância na produção.

Além deles, vale citar os atores que tem papéis menores, mas que também se saem bem quando aparecem em cena: Vimala Pons como Hélène, a linda nova namorada de Richard; Raphaël Lenglet como Ralf, o mais novo namorado de Irène e visto como Michèle como o novo golpista do pedaço; Arthur Mazet como Kevin, o funcionário de Michèle que a admira que é contratado por ela para descobrir quem fez o vídeo paródia dela sendo estuprada no jogo que eles estão produzindo; Lucas Prisor como Kevin, um dos principais responsáveis pelo jogo que a empresa da protagonista está produzindo; e Stéphane Bak como Omar, colega de trabalho de Vincent e suspeito número 1 de ter um caso com Josie.

Da parte técnica do filme, sem dúvida alguma o destaque é a direção de Paul Verhoeven. Ele tem um estilo muito interessante, que valoriza, claro, o trabalho dos atores e torna toda a dinâmica do filme bastante convincente. Muito bom também o roteiro de David Birke – gosto, especialmente, quando Michèle destila toda a sua personalidade. Especialmente interessante o diálogo que ela tem com Patrick após o acidente. Mas há muitos pontos altos e interessantes no filme, com destaque para os diálogos entre os atores. Sem dúvida alguma é o roteiro, com ótimos diálogos, e a interpretação diferenciada de Isabelle Huppert que faz Elle ser melhor do que um thriller regular.

Outros elementos técnicos de destaque do filme são a trilha sonora bem pontual e que ajuda a contar a história de Anne Dudley; a direção de fotografia competente mas sem estrelismos de Stéphane Fontaine; a ótima edição de Job ter Burg; o design de produção de Laurent Ott; os bem definidos e estrategicamente escolhidos figurinos de Nathalie Raoul; e a maquiagem de Sophie Farsat.

Agora, um adendo sobre o filme que eu não comentei antes. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Depois que a identidade do estuprador é descoberta, Michèle evidentemente se sente desconfortável ao encontrar o vizinho. Mas aí, porque quando ela sofre o acidente, ela liga para ele? Verdade que ela tentou Anna e o ex-marido primeiro, mas ela não teria outras alternativas, como Vincent ou mesmo Robert? Além disso, é verdade que ela não gostava da polícia e de policiais, mas ela não poderia ter chamado ao socorro, aos Bombeiros, ou na França isso não existe? Claro que existe, estou brincando. Ela chama Patrick. Se isso não é muito lógico, pelo menos rende uma conversa reveladora para a história.

Verdade que Michèle está tentando entender o que aconteceu e as motivações dele. Isso faz sentido. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Acho que no início ela fica imaginando se ele, como ela, não tinha um grande desejo mas, com medo de se declarar, preferiu o caminho da violência com “anonimato”. Mas depois ela percebe que não é nada disso.

Naquela conversa reveladora que eu comentei e em fatos que vão acontecer posteriormente Michèle percebe que Patrick não tem coragem de verbalizar os seus desejos e nem lida bem com eles. Na verdade, aquele é um lado obscuro que ele tem e sobre o qual ele não gosta de falar. Mas é um desejo que ele tem e que acredita que deve suprir, mesmo que vá totalmente contra a “versão oficial” que ele tem para a sociedade. Sinistro. E mais um exemplo de que pessoas mal resolvidas são perigosas. O final dele não é planejado, mas não deixa de ser irônico que Vincent, sem nunca ter conhecido o avô, se torne um assassino também.

Elle estreou no Festival de Cinema de Cannes em maio. Depois, o filme fez (e está fazendo) o impressionante circuito de outros 27 festivais e eventos de cinema pelo mundo. Os últimos nos quais ele vai participar são o Festival de Cinema de Toronto, que começa no dia 18, e da Semana do Festival de Cinema de Cannes, que começa no dia 30.

Nesta trajetória de festivais, Elle conquistou um prêmio e foi indicado a outros seis. Apesar de ter sido indicado à Palma de Ouro no Festival de Cannes, o filme não ganhou o prêmio. O único prêmio que ele recebeu foi o Grand Prix do ICS Cannes Award do Prêmio Internacional da Sociedade Cinéfila francesa. Não deixa de ser curioso que um filme tão bem cotado para o Oscar tenha apenas um prêmio anterior no currículo até o momento. Isso, acredito, não o ajuda muito na corrida para a estatueta dourada.

Esse filme, que é uma coprodução da França, da Alemanha e da Bélgica, tem a predominância dos recursos da França, por isso ele pode ser escolhido pelo país como o candidato francês para o Oscar 2017.

Elle foi totalmente rodado na França, em quatro cidades. Uma fica bastante evidente na história: Paris, com cenas em Port de Montebello (as do restaurante), Rue Soufflot (onde Vincent trabalha), o conhecidíssimo Cemitière du Père-Lachaise (cemitério do final da produção) e a Rue de Beaujolais (quando Michèle bate no carro de Richard); na cidade de Hauts de Seine (cena das cinzas); na cidade de Fresnes, parte de Val-der-Marne (cenas exteriores da prisão); e na cidade de Saint-Germain-en-Laye, na 11bis Rue Charles Rhôné, onde é ambientada a casa dos Leblanc.

Agora, uma curiosidade sobre este filme: Elle inicialmente foi planejado para ser rodado nos Estados Unidos. Mas o diretor Paul Verhoeven não conseguiu encontrar uma protagonista para a produção. O papel foi oferecido para Nicole Kidman, Diane Lane, Julianne Moore, Cate Blanchett, Kate Winslet, Marion Cotillard, Carice van Houten e Sharon Stone (ufa!), mas todas recusaram o papel logo depois de lerem o roteiro. Elas nem esperaram alguns dias para negar o papel, como é de praxe. Pois perderam uma boa oportunidade de brilhar. Seria interessante, agora, ver Isabelle Huppert concorrendo ao um Oscar por Michèle. Não sei se isso vai acontecer, mas seria interessante.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,3 para Elle. Uma boa avaliação, levando em conta o padrão do site, mas achei pouco para um filme que quer ganhar uma estatueta dourada. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram mais generosos, dedicando 73 críticas positivas e apenas seis negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 92% e uma nota média de 8,1. Especialmente a nota chama a atenção. Ela é bastante boa se levarmos em conta a média das críticas listadas no site. Pela crítica sim, o filme pode chegar lá.

CONCLUSÃO: Boa parte da loucura das sociedades modernas está plasmada nesta produção. A violência é um elemento muito presente, assim como as taras envolvendo o sexo, o jogo de poder entre homens e mulheres e a super exposição das pessoas na mídia. Filme bem contemporâneo e com uma história envolvente, ele tem uma grande atriz como protagonista. Mas no final, você se pergunta qual é o sentido de tudo isso. Além de refletirmos sobre o que nos rodeia, sem dúvida Elle nos faz pensar sobre a nossa capacidade de nos reinventar e de sermos verdadeiros com a gente mesmo. Uma boa produção, que terá uma vida dura para conseguir uma ou duas estatuetas douradas.

PALPITES PARA O OSCAR 2017: Elle está sendo apontado sempre como um dos favoritos a uma das cinco vagas finais da categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira do Oscar 2017. De fato, o filme tem diversas qualidades que o podem levar até lá. Mas ganha a estatueta já é outros 500.

Há muitos filmes ainda para assistir e que estão bem cotados nesta categoria. Mas do que eu vi até agora, acho que Under Sandet (comentado aqui) é a produção com maiores chances, não apenas de figurar entre os finalistas mas também de ganhar o Oscar. Depois, o venezuelano Desde Allá (com crítica neste link) é tão interessante quanto Elle, mas talvez ele tenha até mais força e seja mais surpreendente do que a produção francesa. Aí tudo vai depender do gosto dos votantes da Academia e se eles estão dispostos a apostar em uma escola menos tradicional.

Desta lista inicial, sem dúvida alguma Julieta (comentado por aqui) corre por fora. O filme emplacaria mais pela força do diretor Pedro Almodóvar do que por sua proposta, qualidade ou inovação. O brasileiro Pequeno Segredo, então, corre totalmente por fora, bem distante da história mais impactante destas produções. Novamente, comento, ele tem poucas chances de chegar entre os finalistas. Interessante também observar que Elle e Desde Allá tratam de alguns temas em comum, como desejos, sexo, manipulação e histórias mal resolvidas dos protagonistas com os seus pais.

Os dois roteiros são bem feitos, com uma narrativa interessante, tendo como principal diferença o contexto social e os protagonistas – no filme francês temos uma mulher dando as cartas, enquanto no filme venezuelano é um homem de meia idade. Aí tudo vai depender do gosto dos votantes, sem dúvida. Para mim, qualquer um dos dois poderia chegar lá, mas faz mais sentido que apenas um deles consiga uma vaga – até para não termos dois filmes “parecidos” entre os cinco finalistas. Agora, para mim, Under Sandet é o filme que realmente precisa chegar lá. Ele merece.

Da minha parte, até prefiro a história de Desde Allá do que a de Elle. Certo que a produção francesa tem a ótima Isabelle Huppert como um dos destaques, além de ter uma pegada mais “grandes centros” e tecnologia/mídia, elementos que me interessam, mas prefiro a questão social levantada por Desde Allá. Querendo ou não, no filme venezuelano as pessoas não estão no mesmo patamar de situação e de conhecimento, diferente do que vemos em Elle. Acho que as reflexões levantadas por Desde Allá são um pouco mais interessantes do que as de Elle. Mas essa, claro, é a minha opinião. Logo mais veremos o que os votantes da Academia vão achar disso tudo.

ATUALIZAÇÃO (18/12): Foi um bocado surpreendente Elle ficar de fora dos filmes pré-indicados ao Oscar 2017 na categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira e que foi divulgada no final da noite desta última quinta-feira. Digo isso porque o filme vinha sendo apontado sempre na lista dos filmes prováveis nesta categoria pelas bolsas de aposta. Mas ele ficou de fora. Ainda não o tirei da lista do Oscar 2017 porque a atriz Isabelle Huppert ainda tem uma chance de ser indicada, ainda que isso ficou mais difícil agora.

Vale citar também que o filme foi indicado na categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira do Globo de Ouro 2017. Aliás, dois filmes franceses estão disputando nesta categoria da premiação. Além de Elle, aparece na disputa o francês Divines. Os outros concorrentes no Globo de Ouro 2017 são Neruda, The Salesman e Toni Erdamnn – estes dois últimos são os favoritos do Oscar 2017 também. No Globo de Ouro Isabelle Huppert concorre também na categoria Melhor Atriz – Drama.