Categorias
Cinema Cinema alemão Cinema europeu Cinema francês Crítica de filme Filme premiado Globo de Ouro 2017 Movie Oscar 2017

Elle

elle1

Vivemos em sociedades em que a violência, os desejos e a loucura jogam papéis importantes. Talvez cada vez mais relevantes. Elle nos conta uma história interessante, destas sobre as quais precisamos pensar um bocado depois para pensar o que achamos delas. O filme aborda aquelas três questões que citei na primeira frase e tem um bocado delas na história. Mesmo que a violência seja o elemento constante, pincelado aqui e ali, talvez a sobrevivência e a “volta por cima” sejam as mensagens que ficam no final. Filme instigante, interessante, mas não é o melhor desta safra.

A HISTÓRIA: Ouvimos gemidos e um soco. Um gato olha fixo para a frente e resolve ir para outro local. Na cozinha, um homem mascarado acaba de estuprar Michèle Leblanc (Isabelle Huppert) no chão e sai tranquilamente pela porta. Michèle se levanta lentamente. Ela está em choque. Depois, limpa a bagunça deixada pela cena violenta e vai tomar um banho demorado na banheira. Ela pede comida por telefone e espera o filho, Vincent (Jonas Bloquet), que chega atrasado. Ele está em um novo emprego e ficou mais tempo nele. Os dois conversam sobre um apartamento que ele vai alugar, e a mãe oferece ajuda. Michèle segue trabalhando e tenta manter uma vida normal, mas o perigo seguirá rondando a casa dela.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Elle): Um filme que começa com um gato e um estupro já mostra a que veio. Paul Verhoeven é um diretor ousado e aqui, novamente, ele mostra isso. Elle bebe dos filmes clássicos de suspense mas também avança ao mostrar aspectos que não são muito comuns nestas produções. A protagonista não é uma simples vítima de um canalha que a estupra e que mantém ela refém do medo. Não, ela é uma personagem complexa e interessante.

Aliás, possivelmente a construção da protagonista seja a parte mais interessante de Elle. Michèle Leblanc é uma mulher que beira os 50 anos, divorciada, independente, que vive sozinha, tem a sua própria empresa em sociedade com a amiga Anna (Anne Consigny), tem uma vida sexual ativa e “sem sentimentalismos”. Ela é estuprada na cozinha de casa e não para a vida por causa disso. Neste sentido o histórico dela tem um peso muito importante. E não poderia ser de outra forma, convenhamos.

Elle é um filme feito para Isabelle Huppert, uma das grandes atrizes da França, brilhar. E ela realmente faz isso. A personagem dela e toda a sua complexidade/humanidade são, sem dúvida alguma, os pontos fortes da produção. No mais, do que trata a história? Essencialmente de dois pontos: o perigo constante que ronda Michèle que, de forma inteligente, logo percebe que foi estuprada por alguém próximo dela, e o acerto de contas que ela tenta ter com o passado. Curioso que tanto o presente quanto o passado dela são cercados de violência. Mas isso não faz com que ela fique paralisada, o que só mostra a força da mulher e da personagem – um ponto forte que é ainda mais ressaltado na cena final da produção na conversa entre ela e Anna.

O suspense de Elle é garantido pela cena inicial do estupro e que, de forma muito inteligente, é “revivida” por Michèle em duas outras ocasiões. Na primeira, ela apenas revê como tudo aconteceu para tentar compreender melhor a situação. Na segunda ela já imagina o que poderia ter feito para se defender. Interessante este recurso utilizado pelo roteirista David Birke, que trabalha o texto do filme baseado no livro de Philippe Dijan. O filme tem uma forte carga psicológica e, devo dizer, por detalhes como este de Michèle revivendo o trauma, também bem realista.

Inicialmente achamos estranho que a protagonista buscou apenas um médico e não fez queixa na polícia. Mas conforme o roteiro de Elle vai se desenvolvendo e vamos entendendo melhor a personagem, fica claro como o passado trágico da família dela influencia o presente da personagem. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). O pai dela, Georges, matou toda a vizinhança quando Michèle tinha 10 anos de idade. Ele entrou nas casas e matou 27 pessoas, incluindo crianças e adultos, além de animais de estimação. A protagonista deixa claro que lutou muito para reconstruir a vida apesar da polícia e da imprensa e, por isso mesmo, prefere lidar com o risco de continuar sendo vítima de um maníaco por sua própria conta.

Pelo desenrolar da história, especialmente pelas mensagens que Michèle recebe no celular e por um vídeo parodiando uma cena de estupro no jogo que a empresa dela está produzindo, fica claro que o algoz da protagonista é alguém próximo. Desde o início eu desconfiei de duas pessoas: Patrick (Laurent Lafitte), o vizinho da frente que teria bastante facilidade de acompanhar a rotina de Michèle (este é um elemento-chave em casos assim), e Kurt (Lucas Prisor), que parece ser o diretor técnico da emrpesa de Michèle e de Anna e que confronta a chefe com alguma regularidade. Os dois dão diversos sinais de comportamento estranho durante o filme.

(SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Mesmo aquela sequência em que Michèle chega em casa e a polícia está na rua procurando um “suspeito” que Patrick tinha identificado, não me convenceu. Achei, ali, que ele poderia estar forjando aquela situação. Por isso mesmo não foi totalmente surpresa quando em um novo ataque Michèle conseguiu reagir e desmascarou o vizinho. Mesmo não sendo muito surpreendente, este fato jogou uma luz interessante na história. Michèle estava flertando com o vizinho descaradamente. Havia interesse mútuo entre os dois. Por isso mesmo é tão difícil para ela entender porque ele, podendo ter um caso com ela sem muito esforço, preferiu o caminho da violência e do estupro.

Elle é um filme que retrata, desta forma, desvios de comportamento, obsessões e escolhas pela violência sem maiores explicações. Tanto a chacina praticada pelo pai de Michèle quanto os estupros praticados por Patrick carecem de explicação e ficam sem ela. Afinal, o que explicaria comportamentos tão fora das regras sociais e do que aceitamos como lógico? O filme de Paul Verhoeven não se arrisca a querer explicar isso, mas ele mostra uma sobrevivente de toda esta carga de violência: Michèle.

Por mais que a protagonista se sentisse atraída por Patrick – e todos os homens ao redor dela percebem isso -, ela não aceita aquele jogo maluco em que a violência tinha que ser um elemento básico da “relação” deles. Em certo momento do filme, ao conversar com o ex-marido, Richard (Charles Berling), fica claro que Michèle não gostava de violência. Ela diz que eles se separaram depois que ele bateu nela. Ainda assim, mesmo divorciados, fica claro que ela tem uma certa esperança deles retornarem – tanto que ambos tinham como regra se “aventurarem” apenas com pessoas casadas, sem o risco, assim, de terem uma relação realmente séria.

Richard quebra esta regra ao se relacionar com Hélène (Vimala Pons), o que motiva ainda mais Michèle a buscar novas relações para se distrair. Ela se cansou das aventuras com Robert (Christian Berkel), até porque se sente mal em ficar mentindo para a melhor amiga e sócia. Mas como ela gosta de ter o controle da situação e é sexualmente ativa, ela logo começa a investir em Patrick. Antes de descobrir, é claro, o “segredinho sórdido” do vizinho.

O final é interessantemente dúbio e permite mais de uma leitura. Michèle convida Patrick para a festa de lançamento do novo jogo da empresa dela e, na volta, ela ameaça o vizinho de escancarar o seu lado obscuro para a polícia e para a mulher dele. Eu achei a atitude muito corajosa porque, afinal, seria muito fácil para ele matá-la. A alta voltagem sexual entre os dois e a violência ganham um capítulo final. E a partir daqui há duas questões que podem ter mais de uma leitura.

Primeiro, Michèle estava mesmo falando sério no carro ou o que ela disse era apenas uma forma de provocar Patrick para eles terem mais um encontro “quente” e violento? Da minha parte, acho que ela estava falando sério. Como mulher independente que ela era e, seguindo o que eu observei antes sobre Richard, ela não ter o perfil de mulher que gostasse de ser agredida, acredito sim que ela decidia sempre o que considerava melhor para si, independente do que os outros achassem. Ela não queria seguir com aquele jogo com Patrick e ia mesmo denunciá-lo. Ele resolve se arriscar e conferir de perto se aquilo era apenas uma provocação ou algo que poderia acontecer. O desfecho daquela situação, por outro lado, foi imprevisto e acidental.

Mas na sequência dos fatos – muito acertado, aliás, o filme não terminar naquele desenlace -, há um outro ponto que pode render mais de uma leitura. Na sequência em que Michèle vai conversar com Rebecca (Virginie Efira) está controlada, aparentemente em paz. Inicialmente podemos pensar que ela, por ser muito católica, está se “agarrando na fé”, e por isso aceitou bem tudo que aconteceu.

Mas quando Rebecca fala para Michèle que ela fica feliz de que Patrick tenha encontrado nela o que ele precisava, pelo menos por um tempo, o espectador pode se perguntar se, afinal, ela sabia sobre os “desvios” do marido. Eu acredito que sim. Que ela “aproveitava” o lado bom que Patrick tinha e fechava os olhos para os crimes que ele praticava para satisfazer os seus desejos sexuais regados à violência. Ou seja, Elle inteiro trata sobre as diferentes formas de violência e sobre um bocado de psicologia.

Alguns podem pensar, especialmente sobre a forma com que Michèle reage aos estupros quanto pela maneira com que ela encara a mãe Irène (Judith Magre) e o pai preso que ela era uma psicopata. Afinal, ela não esboça grande emoção nestes diferentes fatos. Não gosto de julgar ninguém, mas para mim ela apenas aprendeu a forjar os seus sentimentos e reações frentes aos fatos após passar pela situação mais absurda que alguém pode imaginar. Ela tinha 10 anos quando o pai foi preso após matar 27 pessoas e ela foi acusada por ser cúmplice apenas por ter entrado na “brincadeira” de colocar fogo nas coisas de casa. Certamente aquilo lhe deu uma carapaça muito forte.

Ela conseguiu, da melhor forma que ela encontrou, conviver com aquele pesadelo que foi perdurado no tempo pela memória das pessoas e o resgate da história pela imprensa. Tornou-se forte, independente, dona do próprio nariz. Mas não acho que ela fosse psicopata porque, afinal de contas, ela teve raiva e ódio do pai por muito tempo. Com o aneurisma que Irène sofre na noite de Natal e por causa do último pedido que ela faz para Michèle, ela resolve encarar o pai depois de quase 30 anos de prisão dele.

Por mais que a protagonista não gostasse de mostrar nenhuma fragilidade e, consequentemente, os seus sentimentos, dá para perceber que ela sofre o baque do que acontece com a mãe e também com as agruras do filho. Vincent se casa com Josie (Alice Isaaz), uma garota que não tem nenhum apreço pela sogra e, aparentemente, nem grande respeito pelo marido. Quando a garota tem o bebê que seria deles, Michèle percebe que ela está manipulando a situação. Em resumo, ela se importa com o filho, com a amiga Anna e com os demais. Não é exatamente um comportamento de uma psicopata.

A história é interessante e envolvente. Para mim, o roteiro não foi tãoooo surpreendente na revelação do criminoso que aterroriza Michèle. Mas isso não torna o roteiro ruim. Pelo contrário. O texto de Birke é bom porque desenvolve bem os personagens, especialmente a protagonista. Contemporâneo, moderno, o filme também escancara a cultura da violência e do machismo, tendo a coragem de apresentar uma mulher que resiste à tudo isso e insiste em sobreviver. Interessante, muito interessante. Poderia ser um filme de Almodòvar, se o diretor estivesse em uma boa fase. Não é o caso, infelizmente. Mas é bom ver que outros diretores conseguem ser tão ousados quanto.

NOTA: 9,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Gostei muito do trabalho de todos os atores envolvidos nesta produção. Claro que o destaque principal é o da sempre ótima Isabelle Huppert. Há quem diga que ela pode ser indicada ao Oscar de Melhor Atriz. Realmente ela pode. Faz um grande trabalho aqui. Bastante orgânico, convincente, sem exageros ou forçando a barra. A personagem dela, que é firme, mas complexa, ganha legitimidade pelo talento da atriz. Mas é preciso assistir aos outros filmes das atrizes sempre cotadas nesta categoria para saber se ela realmente poderá chegar lá.

Para Isabelle Huppert brilhar em cena ela precisa de um ótimo elenco para atuar com ela. Paul Verhoeven foi feliz ao escolher aos demais atores da produção. Claro que o outro destaque vai para Laurent Lafitte. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Ele faz muito bem a transição do vizinho “super boa praça” e atencioso para o sujeito que tem um desvio de comportamento sério e que é violento para dar vasão para a sua tara sexual. Lafitte não perde a mão ou exagera nesta transição, tornando o personagem dele bastante crível. Fundamental para o filme.

Dos atores coadjuvantes, merecem destaque os talentosos Anne Consigny como a sócia e melhor amiga de Michèle; Charles Berling como o escritor e ex-marido da protagonista; e Virginie Efira como a religiosa e sempre simpática vizinha de Michèle. Todos tem desempenhos inspirados e bastante adequados para os seus personagens. Estão muito bem também Judith Magre como Irène, a mãe provavelmente setentona de Michèle que gosta de jovens rapazes; Christian Berkel como o marido sorrateiro de Anna; Alice Isaaz como a maluquete namorada de Vincent; e o próprio Jonas Bloquet como o um tanto tapado (ou inocente/carente) Vincent. Todos estes atores tem papéis com uma certa relevância na produção.

Além deles, vale citar os atores que tem papéis menores, mas que também se saem bem quando aparecem em cena: Vimala Pons como Hélène, a linda nova namorada de Richard; Raphaël Lenglet como Ralf, o mais novo namorado de Irène e visto como Michèle como o novo golpista do pedaço; Arthur Mazet como Kevin, o funcionário de Michèle que a admira que é contratado por ela para descobrir quem fez o vídeo paródia dela sendo estuprada no jogo que eles estão produzindo; Lucas Prisor como Kevin, um dos principais responsáveis pelo jogo que a empresa da protagonista está produzindo; e Stéphane Bak como Omar, colega de trabalho de Vincent e suspeito número 1 de ter um caso com Josie.

Da parte técnica do filme, sem dúvida alguma o destaque é a direção de Paul Verhoeven. Ele tem um estilo muito interessante, que valoriza, claro, o trabalho dos atores e torna toda a dinâmica do filme bastante convincente. Muito bom também o roteiro de David Birke – gosto, especialmente, quando Michèle destila toda a sua personalidade. Especialmente interessante o diálogo que ela tem com Patrick após o acidente. Mas há muitos pontos altos e interessantes no filme, com destaque para os diálogos entre os atores. Sem dúvida alguma é o roteiro, com ótimos diálogos, e a interpretação diferenciada de Isabelle Huppert que faz Elle ser melhor do que um thriller regular.

Outros elementos técnicos de destaque do filme são a trilha sonora bem pontual e que ajuda a contar a história de Anne Dudley; a direção de fotografia competente mas sem estrelismos de Stéphane Fontaine; a ótima edição de Job ter Burg; o design de produção de Laurent Ott; os bem definidos e estrategicamente escolhidos figurinos de Nathalie Raoul; e a maquiagem de Sophie Farsat.

Agora, um adendo sobre o filme que eu não comentei antes. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Depois que a identidade do estuprador é descoberta, Michèle evidentemente se sente desconfortável ao encontrar o vizinho. Mas aí, porque quando ela sofre o acidente, ela liga para ele? Verdade que ela tentou Anna e o ex-marido primeiro, mas ela não teria outras alternativas, como Vincent ou mesmo Robert? Além disso, é verdade que ela não gostava da polícia e de policiais, mas ela não poderia ter chamado ao socorro, aos Bombeiros, ou na França isso não existe? Claro que existe, estou brincando. Ela chama Patrick. Se isso não é muito lógico, pelo menos rende uma conversa reveladora para a história.

Verdade que Michèle está tentando entender o que aconteceu e as motivações dele. Isso faz sentido. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Acho que no início ela fica imaginando se ele, como ela, não tinha um grande desejo mas, com medo de se declarar, preferiu o caminho da violência com “anonimato”. Mas depois ela percebe que não é nada disso.

Naquela conversa reveladora que eu comentei e em fatos que vão acontecer posteriormente Michèle percebe que Patrick não tem coragem de verbalizar os seus desejos e nem lida bem com eles. Na verdade, aquele é um lado obscuro que ele tem e sobre o qual ele não gosta de falar. Mas é um desejo que ele tem e que acredita que deve suprir, mesmo que vá totalmente contra a “versão oficial” que ele tem para a sociedade. Sinistro. E mais um exemplo de que pessoas mal resolvidas são perigosas. O final dele não é planejado, mas não deixa de ser irônico que Vincent, sem nunca ter conhecido o avô, se torne um assassino também.

Elle estreou no Festival de Cinema de Cannes em maio. Depois, o filme fez (e está fazendo) o impressionante circuito de outros 27 festivais e eventos de cinema pelo mundo. Os últimos nos quais ele vai participar são o Festival de Cinema de Toronto, que começa no dia 18, e da Semana do Festival de Cinema de Cannes, que começa no dia 30.

Nesta trajetória de festivais, Elle conquistou um prêmio e foi indicado a outros seis. Apesar de ter sido indicado à Palma de Ouro no Festival de Cannes, o filme não ganhou o prêmio. O único prêmio que ele recebeu foi o Grand Prix do ICS Cannes Award do Prêmio Internacional da Sociedade Cinéfila francesa. Não deixa de ser curioso que um filme tão bem cotado para o Oscar tenha apenas um prêmio anterior no currículo até o momento. Isso, acredito, não o ajuda muito na corrida para a estatueta dourada.

Esse filme, que é uma coprodução da França, da Alemanha e da Bélgica, tem a predominância dos recursos da França, por isso ele pode ser escolhido pelo país como o candidato francês para o Oscar 2017.

Elle foi totalmente rodado na França, em quatro cidades. Uma fica bastante evidente na história: Paris, com cenas em Port de Montebello (as do restaurante), Rue Soufflot (onde Vincent trabalha), o conhecidíssimo Cemitière du Père-Lachaise (cemitério do final da produção) e a Rue de Beaujolais (quando Michèle bate no carro de Richard); na cidade de Hauts de Seine (cena das cinzas); na cidade de Fresnes, parte de Val-der-Marne (cenas exteriores da prisão); e na cidade de Saint-Germain-en-Laye, na 11bis Rue Charles Rhôné, onde é ambientada a casa dos Leblanc.

Agora, uma curiosidade sobre este filme: Elle inicialmente foi planejado para ser rodado nos Estados Unidos. Mas o diretor Paul Verhoeven não conseguiu encontrar uma protagonista para a produção. O papel foi oferecido para Nicole Kidman, Diane Lane, Julianne Moore, Cate Blanchett, Kate Winslet, Marion Cotillard, Carice van Houten e Sharon Stone (ufa!), mas todas recusaram o papel logo depois de lerem o roteiro. Elas nem esperaram alguns dias para negar o papel, como é de praxe. Pois perderam uma boa oportunidade de brilhar. Seria interessante, agora, ver Isabelle Huppert concorrendo ao um Oscar por Michèle. Não sei se isso vai acontecer, mas seria interessante.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,3 para Elle. Uma boa avaliação, levando em conta o padrão do site, mas achei pouco para um filme que quer ganhar uma estatueta dourada. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram mais generosos, dedicando 73 críticas positivas e apenas seis negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 92% e uma nota média de 8,1. Especialmente a nota chama a atenção. Ela é bastante boa se levarmos em conta a média das críticas listadas no site. Pela crítica sim, o filme pode chegar lá.

CONCLUSÃO: Boa parte da loucura das sociedades modernas está plasmada nesta produção. A violência é um elemento muito presente, assim como as taras envolvendo o sexo, o jogo de poder entre homens e mulheres e a super exposição das pessoas na mídia. Filme bem contemporâneo e com uma história envolvente, ele tem uma grande atriz como protagonista. Mas no final, você se pergunta qual é o sentido de tudo isso. Além de refletirmos sobre o que nos rodeia, sem dúvida Elle nos faz pensar sobre a nossa capacidade de nos reinventar e de sermos verdadeiros com a gente mesmo. Uma boa produção, que terá uma vida dura para conseguir uma ou duas estatuetas douradas.

PALPITES PARA O OSCAR 2017: Elle está sendo apontado sempre como um dos favoritos a uma das cinco vagas finais da categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira do Oscar 2017. De fato, o filme tem diversas qualidades que o podem levar até lá. Mas ganha a estatueta já é outros 500.

Há muitos filmes ainda para assistir e que estão bem cotados nesta categoria. Mas do que eu vi até agora, acho que Under Sandet (comentado aqui) é a produção com maiores chances, não apenas de figurar entre os finalistas mas também de ganhar o Oscar. Depois, o venezuelano Desde Allá (com crítica neste link) é tão interessante quanto Elle, mas talvez ele tenha até mais força e seja mais surpreendente do que a produção francesa. Aí tudo vai depender do gosto dos votantes da Academia e se eles estão dispostos a apostar em uma escola menos tradicional.

Desta lista inicial, sem dúvida alguma Julieta (comentado por aqui) corre por fora. O filme emplacaria mais pela força do diretor Pedro Almodóvar do que por sua proposta, qualidade ou inovação. O brasileiro Pequeno Segredo, então, corre totalmente por fora, bem distante da história mais impactante destas produções. Novamente, comento, ele tem poucas chances de chegar entre os finalistas. Interessante também observar que Elle e Desde Allá tratam de alguns temas em comum, como desejos, sexo, manipulação e histórias mal resolvidas dos protagonistas com os seus pais.

Os dois roteiros são bem feitos, com uma narrativa interessante, tendo como principal diferença o contexto social e os protagonistas – no filme francês temos uma mulher dando as cartas, enquanto no filme venezuelano é um homem de meia idade. Aí tudo vai depender do gosto dos votantes, sem dúvida. Para mim, qualquer um dos dois poderia chegar lá, mas faz mais sentido que apenas um deles consiga uma vaga – até para não termos dois filmes “parecidos” entre os cinco finalistas. Agora, para mim, Under Sandet é o filme que realmente precisa chegar lá. Ele merece.

Da minha parte, até prefiro a história de Desde Allá do que a de Elle. Certo que a produção francesa tem a ótima Isabelle Huppert como um dos destaques, além de ter uma pegada mais “grandes centros” e tecnologia/mídia, elementos que me interessam, mas prefiro a questão social levantada por Desde Allá. Querendo ou não, no filme venezuelano as pessoas não estão no mesmo patamar de situação e de conhecimento, diferente do que vemos em Elle. Acho que as reflexões levantadas por Desde Allá são um pouco mais interessantes do que as de Elle. Mas essa, claro, é a minha opinião. Logo mais veremos o que os votantes da Academia vão achar disso tudo.

ATUALIZAÇÃO (18/12): Foi um bocado surpreendente Elle ficar de fora dos filmes pré-indicados ao Oscar 2017 na categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira e que foi divulgada no final da noite desta última quinta-feira. Digo isso porque o filme vinha sendo apontado sempre na lista dos filmes prováveis nesta categoria pelas bolsas de aposta. Mas ele ficou de fora. Ainda não o tirei da lista do Oscar 2017 porque a atriz Isabelle Huppert ainda tem uma chance de ser indicada, ainda que isso ficou mais difícil agora.

Vale citar também que o filme foi indicado na categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira do Globo de Ouro 2017. Aliás, dois filmes franceses estão disputando nesta categoria da premiação. Além de Elle, aparece na disputa o francês Divines. Os outros concorrentes no Globo de Ouro 2017 são Neruda, The Salesman e Toni Erdamnn – estes dois últimos são os favoritos do Oscar 2017 também. No Globo de Ouro Isabelle Huppert concorre também na categoria Melhor Atriz – Drama.

Categorias
Cinema Cinema norte-americano Crítica de filme Filme premiado Globo de Ouro 2016 Movie Oscar 2016 Votações no blog

Trumbo – Lista Negra

trumbo3

Quase todos os países do mundo já viveram épocas tenebrosas em suas histórias. Os Estados Unidos não é diferente. Na verdade, o mundo enquanto conjunto civilizatório já viveu diversas épocas tenebrosas e que valeriam variados filmes críticos. Trumbo trata de uma destas épocas sob uma ótica pouco mostrada pelos filmes de Hollywood: a chamada caça à bruxas dentro dos estúdios de cinema durante a Guerra Fria. Eu já tinha lido um bocado a respeito e sabia sobre a perseguição de vários nomes, mas nunca tinha visto um filme tão direto e focado neste assunto quanto este Trumbo.

A HISTÓRIA: Começa explicando que durante os anos 1930, em resposta à Grande Depressão e ao crescimento do Fascismo, milhares de americanos se filiaram ao Partido Comunista dos Estados Unidos. Depois que os Estados Unidos se aliaram à União Soviética durante a Segunda Guerra Mundial, muitos mais se juntaram ao partido. O roteirista Dalton Trumbo, antigo defensor dos direitos trabalhistas, tornou-se membro do partido em 1943. Mas a Guerra Fria lançou uma nova luz de suspeita sobre os comunistas americanos. A história propriamente começa em 1947, na propriedade de Trumbo ao norte de Los Angeles. Vemos o autor trabalhando, o cenário de Hollywood naquela época e o início da caça aos comunistas em Hollywood.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Trumbo): Gosto de filmes que falam de cinema e da relação que esta arte tem com a sociedade e vice-versa. Eles não são muito frequentes, por isso é sempre um deleite quando encontramos uma boa produção que trate desta indústria. Trumbo, para ser ainda melhor, não trata de uma fase qualquer da indústria, e sim quando ela mudou para sempre.

Há diversos acertos e alguns pequenos deslizes neste filme. Primeiro, vou falar de todos os acertos – que, em número, excedem em muito as falhas da produção. Para começar, o roteirista John McNamara, baseado no livro de Bruce Cook, acerta em focar a carreira de Trumbo pouco antes dela começar a ser questionada e desmoronar. Não demora muito, assim, para o filme entrar na questão central, que foi a criação pelo Comitê de Atividades Anti-Americanas, criado em 1938, de um inquérito para investigar a Indústria Cinematográfica de Hollywood em 1947.

Ao mesmo tempo que o roteiro de McNamara acerta em ir direto ao ponto e em se debruçar no que aconteceu durante, imediatamente depois e nos anos seguintes deste processo que ficou conhecido como “caça às bruxas em Hollywood”, o filme perde um pouco de contextualização. Eis um motivo para, apesar de soberbo, brilhante e necessário, este filme não ser perfeito.

Valeria ter gasto alguns minutos a mais para explorar melhor aquelas ameaças de greve que aparecem rapidamente no início de Trumbo. Na verdade, elas foram causadas, mais que por influência dos “comunistas”, como o filme pode ter sugerido, por uma mudança de lógica em Hollywood. Na década de 1940 os grandes estúdios, até então predominantes nas decisões de Hollywood, estavam começando a ruir enquanto catalisadores da indústria. Grandes diretores e atores surgiram com poder criativo e de escolha, ditando regras e não mais repetindo as velhas fórmulas dos estúdios.

Neste cenário, naturalmente diversas categorias começavam a exigir mais. Trumbo mostra os designers de produção fazendo piquetes e greve, mas na história de Hollywood há diversos outros profissionais que fizeram isso. Uma das greves mais conhecidas foi a relativamente recente paralisação dos roteiristas de Hollywood entre o final de 2007 e o início de 2008, em uma paralisação que durou 100 dias e que afetou produções para o cinema e para a televisão – confira aqui uma matéria que fala do final desta greve.

Comentei isso apenas para deixar claro que a greve dos designers de produção e as manifestações de outras categorias na Hollywood da segunda metade dos anos 1940 tinha pouco a ver com os comunistas. Verdade que eles defendiam uma outra organização econômica e social, mas nem todos eram panfletários. E mesmo que fossem, eles não faziam isso através dos filmes e sim em sua vida particular. Trumbo, o filme, mostra isso com propriedade.

Gostei muito do roteiro de McNamara e da direção de Jay Roach. Os dois realmente focam no personagem central, o roteirista Dalton Trumbo, mas nem por isso ignoram o que acontece ao redor dele. Verdade que acho que faltou um pouco mais de contextualização histórica, como eu comentei antes. Afinal, depois da prisão e da soltura de Trumbo, passados alguns anos daquela perseguição descabida, parece um tanto inusitado para quem não acompanhou a história de Hollywood o ator Kirk Douglas (interpretado por Dean O’Gorman) bater à porta do roteirista para pedir que ele refizesse o roteiro de Spartacus.

Afinal, quando Trumbo começa, figuras como Louis B. Mayer (interpretado por Richard Portnow), um dos fundadores do estúdio MGM, é quem dita as regras da indústria. Como, anos depois, Kirk Douglas era o produtor de seu próprio filme e, junto com Stanley Kubrick, foi o grande responsável por Spartacus? Isso tem a ver com o que eu disse antes, com a ascensão de diretores como Alfred Hitchcock e de atores como Huphrey Bogart e Kirk Douglas, que ganharam mais independência, autoridade e autonomia, enquanto os estúdios perderam força.

Essa falta de contextualização atrapalha um pouco Trumbo. Senti falta também de serem citados mais nomes perseguidos naqueles tempos. Afinal, verdade que Trumbo fez parte do “The Hollywood Ten” (Os Dez de Hollywood), primeiro grupo identificado e penalizado por ser comunista e trabalhar em Hollywood, mas em junho de 1950 três ex-agentes de FBI e um produtor de televisão de direita, Vincent Harnett, publicaram o Red Channels.

Esse documento listava nada menos que 151 nomes de roteiristas, diretores e atores que passaram a integrar a lista negra do Comitê de Atividades Anti-Americanas. Conforme as pessoas eram convocadas para falar com o Comitê e preferiam ficar caladas, elas também eram listadas – cerca de 320 pessoas passaram a fazer parte desta lista que as impedia, em teoria, de trabalhar na indústria. Entre os nomes incluídos nesta relação estavam os de Leonard Bernstein, Charlie Chaplin, John Garfield, Dashiell Hammett, Lillian Hellman, Arthur Miller e Orson Welles.

Claro que eu não esperava que Trumbo listasse todos esses nomes, mas poderia ter indicado, aqui e ali, no roteiro de McNamara, alguns destes nomes conhecidos além daqueles 10 iniciais que acabaram presos. Mas esses são os únicos aspectos que me “incomodaram” um pouco neste filme, pensando neles especialmente depois que a produção terminou. Porque enquanto o filme está se desenrolando ele é apenas um grande deleite.

Trumbo acerta ao mostrar os bastidores de Hollywood e, principalmente, em focar os efeitos daquela caça às bruxas na vida dos nomes perseguidos e suas famílias. Para mim, o filme tem dois grandes recortes: o óbvio, sobre a indústria do cinema, e o menos óbvio, dos perigos da histeria coletiva e da política do medo. Especialmente o segundo tema é mais do que atual. Nos Estados Unidos, desde o ataque às Torres Gêmeas, a política do medo vive assombrando a população e a cultura do país, provocando estragos particulares e coletivos dentro e fora do país.

Falemos primeiro do recorte sobre Hollywood que o filme faz. Fiquei impressionada não apenas com a interpretação de Bryan Cranston, que está perfeito, mas também com os atores que interpretam personagens importantes daquela época e daquele círculo como Edward G. Robinson (interpretado por Michael Stuhlbarg), Hedda Hopper (a ótima Helen Mirren), John Wayne (David James Elliott), Arlen Hird (Louis C.K.), Buddy Ross (Roger Bart), Frank King (John Goodman), Hymie King (Stephen Root) e Otto Preminger (Christian Berkel). Ainda ainda o já citado Kirk Douglas e uma ponta de John F. Kennedy (Rick Kelly).

Sempre é um prazer ver tantos personagens importantes da história – especialmente de Hollywood – sendo reinterpretados e trazidos novamente “à vida”. A reconstituição de época e os “bastidores” do cinema que permeiam toda a história são interessantíssimos, especialmente para quem gosta do tema. Interessante ver as relações de poder e o jogo de interesses que permeia os diferentes estúdios e profissionais que atuam naquela área, assim como o governo e formadores de opinião – como a jornalista Hedda Hopper. Na época figuras como ela podiam destruir ou, pelo menos, abalar reputações com bastante facilidade.

Essa narrativa dos bastidores de Hollywood não é muito comum e, por isso mesmo, Trumbo se torna um filme diferenciado. No fim das contas, apesar de toda a pressão e “terrorismo” das pessoas que queriam acabar com os comunistas no país, o talento venceu. Com a ajuda inicial fundamental dos irmãos Frank King e Hymie King, Trumbo conseguiu sobreviver e, pouco a pouco, trabalhar cada vez mais – e até em demasia – para pagar as contas e dar estabilidade para a família.

E daí surge o outro aspecto interessante de Trumbo. Ao focar essencialmente em um personagem importante daquela época, o filme dirigido por Roach se aprofunda na personalidade e no cotidiano do personagem, mostrando não apenas o seu talento, mas também o seu contexto familiar e de amizades. Esta produção acerta, sem dúvida, ao fazer isso, porque daí percebemos os efeitos daninhos de uma perseguição aloprada como aquela da caça às bruxas. Vale lembrar também que aquele tipo de perseguição se espalhou pelo mundo, em diferentes países e realidades – no Brasil ela também existiu e, como diz Trumbo, vitimou não apenas a cultura, mas também tirou vida de várias pessoas.

Bueno, voltando para o filme. Ao se debruçar na história de Trumbo, vemos como aquela paranoia coletiva cobrou um preço alto das famílias, que eram hostilizadas por vizinhos e conhecidos e não podiam admitir o que os perseguidos faziam para viver. As pessoas eram condenadas pelo que elas acreditavam e pensavam e não por seus atos. Como Trumbo afirma na entrevista que o filme reproduz apenas uma parte, o tal Comitê de Atividades Anti-Americanas nunca conseguiu provar nenhuma atividade realmente daninha para o país.

O que aquela perseguição provocou foi a perda de liberdade de centenas de pessoas que, no fim das contas, foram impedidas de trabalhar. E sem trabalho, passaram por diversas agruras – algumas morreram, como diz Trumbo, vítimas dos efeitos desta perseguição. No caso do protagonista deste filme, depois que saiu da prisão Trumbo ficou obcecado por fazer exatamente aquilo que a caça às bruxas queria lhe impedir de fazer: trabalhar.

Obcecado por escrever cada vez mais, mas sem a possibilidade de assinar os próprios roteiros, Trumbo virava as noites, trabalhava praticamente o tempo inteiro e sem ter mais tempo para a família – algo que ele conseguia fazer muito bem antes de ser perseguido. O filme mostra muito bem essa mudança e a forma com que Trumbo acaba envolvendo toda a família naquela nova rotina – até que a esposa dele, Cleo (interpretada pela ótima Diane Lane), resolve dar um basta e chamar a atenção do marido sobre a forma repressora que ele adotou em casa.

Esse filme tem grandes momentos – dois que me tocaram muito foi a conversa de Cleo com o marido e as vezes em que a família dele, em casa, torceram para que ele ganhasse os dois Oscar’s que ele ganhou assinando com outros nomes duas produções premiadas pela Academia.

Todo o contexto cruel que cercou todas aquelas vidas é um verdadeiro absurdo. E é bom falar deste absurdo hoje, em 2016, porque há muitas figuras que querem voltar para aquele tempo de censura e de perseguição. É preciso recordar, lembrar, para impedir que histórias assim se repitam. Trumbo funciona muito bem neste sentido. Grande filme, mais uma das boas descobertas apresentadas pelo Oscar 2016.

NOTA: 9,7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Vale listar os “The Hollywood Ten”: Herbert Biberman, Lester Cole, Albert Maltz, Adrian Scott, Samuel Ornitz, Dalton Trumbo, Edward Dmytryk, Ring Lardner Jr., John Howard Lawson e Alvah Bessie. Eles foram condenados a períodos que variaram entre seis e doze meses de prisão.

O tema da caça às bruxas feita em Hollywood é fascinante. Vale buscar mais a respeito. Recomendo, para quem quiser iniciar essa pesquisa, este texto bem ilustrativo sobre o Macartismo da Planeta Educação; também este outro texto do blog Ready for My Close Up Now que não apenas traz os nomes e obras dos 10 de Hollywood, mas também os movimentos de solidariedade à eles (algo que Trumbo também ignora); vale dar uma olhada neste texto da revista Época, com outras informações curiosas sobre o período; e, mesmo escapando um pouco do tema, mas complementando ele um bocado, vale a leitura deste texto da História Viva sobre a “colaboração” ou influência direta do Exército americano no cinema até que eles se divorciaram após o Vietnã.

Trumbo não trata do tema, mas o blog Ready for My Close Up Now lembra bem que se existia o MPA (Motion Picture Alliance for the Preservation of American Ideals), que tinha entre um de seus líderes John Wayne, também existia para contrabalancear a balança o Comitê Pela Primeira Emenda que contava com Humphrey Bogart, Lauren Bacall, John Huston, entre outras personalidades que defendiam os 10 de Hollywood. Aliás, falando em MPA, Trumbo não trata disso, mas ela foi fundada por Walt Disney – sim, meus caros! – e tinha como participantes, ainda, Gary Cooper, Barbara Stanwick, Cecil B. DeMille, Ginger Rogers, Ronald Reagan, King Vidor, entre outros.

Uma coisa, e Trumbo aborda bem isso, é alguém “dedurar” um colega para sobreviver, como alegou o ator Edward G. Robinson, interpretado com precisão e brilhantismo por Michael Stuhbarg, outra bem diferente é a delação “por prazer”, praticamente, como aquela feita por Elia Kazan – que era brilhante, mas pisou na bola ao destruir a vida de diversos colegas. Diversos nomes não precisavam ter denunciado os colegas para sobreviver.

O diretor Jay Roach acerta ao apostar no talento de Bryan Cranston e estar sempre próximo do ator, assim como dos outros personagens próximos a ele. Ele faz uma boa e competente direção, mas sem nenhuma grande “invenção”. O que é bom, porque valoriza o trabalho dos atores e o bom roteiro de John McNamara – ainda que ele tenha falhado em alguns pontos que eu já comentei, especialmente na falta de contextualização e da citação de mais nomes daquele contexto histórico.

O elenco de apoio do filme é muito competente – e chama a atenção a quantidade de estrelas. Além de Bryan Cranston, se destacam Helen Mirren, Diane Lane, Michael Stuhlbarg e Louis C.K. Mas além deles e dos outros nomes já citados, vale comentar o bom trabalho dos atores que dão vida para os filhos dos Trumbo: Toby Nichols como Chris Trumbo entre as idades de seis e 10 anos; Madison Wolfe como Niki Trumbo na idade entre oito e 11 anos; Meghan Wolfe como Mitzi Trumbo na idade entre seis e oito anos; Mitchell Zakocs como Chris Trumbo entre os 10 e os 12 anos; Mattie Liptak como Chris Trumbo entre os 13 e os 17 anos; Becca Nicole Preston como Mitzi Trumbo entre os nove e os 12 anos; John Mark Skinner como Chris Trumbo quando ele tem 29 anos; e a sempre competente Elle Fanning como Niki Trumbo na fase universitária/adulta quando ela tem uma troca mais madura com o pai.

Da parte técnica do filme, vale destacar a ótima trilha sonora de Theodore Shapiro; a direção de fotografia de Jim Denault; a edição de Alan Baumgarten; o design de produção de Mark Ricker; a direção de arte de Lisa Marinaccio e Jesse Rosenthal; a decoração de set de Cindy Carr; e os figurinos de Daniel Orlandi. Todos eles, especialmente os últimos, são fundamentais para a ambientação da história.

Achei os irmãos King – que, na verdade, tinham o sobrenome Kozinsky – mais que admiráveis. Eles deram emprego não apenas para Trumbo, mas para vários outros nomes perseguidos pela lista negra. Vale dar uma conferida na história deles neste link da Wikipédia.

Eu nem preciso dizer que Bryan Cranston mais que mereceu a indicação como Melhor Ator no Oscar 2016, né? Grande ator. Espero que ele faça mais filmes excelentes e que logo mais ganhe, por mérito puro, uma estatueta dourada. Este ano não tinha como porque a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood já devia um Oscar há tempos para o Leonardo DiCaprio, mas eu espero, sinceramente, que a hora de Cranston chegue. Agora, falando ainda e Oscar, Helen Mirren bem que podia ter sido indicada como Melhor Atriz Coadjuvante pelo trabalho neste filme, não? Ela está tão bem que não tem como não odiar a personagem que ela está fazendo. 😉

Trumbo estreou em setembro de 2015 no Festival Internacional de Cinema de Toronto. Depois, o filme participaria, ainda, de outros sete festivais mundo afora. Nesta trajetória, até o momento, o filme recebeu dois prêmios e foi indicado a outros 31. Ele rendeu apenas o terceiro lugar como Melhor Ator para Bryan Cranston no Prêmio dos Críticos de Cinema de Iowa; o Spotlight Award no Festival Internacional de Cinema de Palm Springs para Bryan Cranston e o prêmio de Melhor Ator para Cranston no Prêmio da Associação de Críticos de Cinema Southeastern.

Algo que este filme aborda e que nunca eu vou entender: por que tantas pessoas tem medo de outras que pensam diferente e preferem combatê-las do que aceitar que elas tem o direito de pensar diferente? Isso já aconteceu muito na história da Humanidade – da Inquisição na Idade Média até a “blacklist” de Hollywood – e volta e meia alguém tenta fazer este tipo de medo e de atitude predominar. Temos que estar alertas e cada vez mais defender que todas as pessoas tenham liberdade de pensar diferente – desde que este pensamento não se materialize em crime e infrinja as leis, evidentemente. Neste segundo caso, a aplicação da lei deve ser feita. E isso é tudo.

Agora, algumas curiosidades sobre o filme: o diretor Jay Roach disse que muitas cenas de Trumbo em que o protagonista escreve sozinho na mesa ou na banheira foram improvisadas por Bryan Cranston enquanto as câmeras estavam rodando e que ele realmente estava criando frases para os roteiros que o personagem estaria escrevendo.

O ator Steve Martin comentou que quando ele era muito jovem a sua namorada e a família dela lhe apresentaram novas ideias e oportunidades intelectuais – e o pai dela era Dalton Trumbo, de quem Martin nunca tinha ouvido falar até aquele momento.

Gary Oldman foi cogitado para o papel de Trumbo. Francamente, Cranston faz um trabalho tão impressionante como o roteirista que eu não consigo imaginar mais ninguém como protagonista deste filme.

Importante observar duas “incorreções” do filme. Edward G. Robinson, na verdade, nunca delatou nenhum nome para o Comitê, como Trumbo mostra. Ele testemunhou quatro vezes, mas nunca apontou nenhum nome. Outro personagem, Arlen Hird, não existiu com este nome – ele é, na verdade, um amálgama de vários nomes de escritores que fizeram parte da lista negra. Observando a lista dos 10 de Hollywood, da qual ele teria feito parte, realmente já dá para perceber isso. Curioso não terem escolhido um outro personagem real, não é mesmo? Não vi muito a razão para isso. Também não entendi porque colocar Robinson como delator quando ele não foi – e outros sim.

Trumbo fez pouco mais de US$ 7,8 milhões nos Estados Unidos. Somando com o que a produção fez nas outras bilheterias mundo afora, ele chegou a US$ 8,2 milhões. Ainda pouco para o filme.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,5 para esta produção, enquanto os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 107 críticas positivas e 38 negativas para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 74% e uma nota média de 6,7. Fiquei curiosa para ver o documentário sobre Trumbo. Será que é melhor que o filme? Alguém viu e quer comentar? 😉

Esta é uma produção 100% dos Estados Unidos.

CONCLUSÃO: Filme extraordinário e que conta um momento muito importante da história não apenas dos Estados Unidos, mas do mundo. Afinal, enquanto artistas eram perseguidos naquele país, tínhamos situação parecida no Brasil quando por aqui tivemos ditadura militar, e em tantos outros países em fases um pouco anteriores ou posteriores. Bem narrado, com um ator de primeiríssima linha como protagonista e um belo elenco de apoio nos outros papéis, Trumbo é um destes filmes inevitáveis para quem gosta de cinema.

Quem dera que mais filmes se debruçassem não apenas nas relações e bastidores da Sétima Arte, mas que também falassem de épocas tenebrosas da nossa história coletiva. O filme acerta no ritmo e na crítica, assim como na imersão na história pessoal e profissional do protagonista. Por pouco ele não é perfeito. Senti falta da produção citar mais nomes importantes de Hollywood que foram perseguidos naquela época, assim como explicar um pouco melhor a mudança do “sistema” da indústria, que deixou naqueles anos de ser dominada por grandes estúdios para passar a ser muito mais autoral.

Categorias
Cinema Cinema alemão Cinema europeu Crítica de filme Filme premiado Movie Sugestão de leitores

Das Experiment – A Experiência

dasexperiment1

O ser humano visto e tratado como cobaia. Das Experiment, filme alemão dirigido por Oliver Hirschbiegel – antes dele filmar o interessante Der Untergang -, esquece a lógica e o bom senso de situações reais para nos apresentar uma história hipótetica curiosa. O que aconteceria se 20 desconhecidos fossem divididos em dois grupos distintos, de guardas e prisioneiros, e fossem colocados em situações de estresse constante? Detalhe: qualquer conflito que possa surgir deve ser solucionado sem o uso da violência. O que poderia ser visto diariamente nas delegacias e presídios de qualquer país acaba virando a realidade de um grupo de homens que resolvem abrir mão de sua liberdade por 14 dias. Uma ficção que funciona em alguns aspectos, mas que em outros deixa bastante a desejar.

A HISTÓRIA: O taxista Tarek Fahd (Moritz Bleibtreu) encontra em um jornal um anúncio que lhe chama a atenção. Nele, um grupo procura voluntários para um experimento de 14 dias. Em troca, cada homem aprovado para o experimento ganhará 4 mil marcos. Pouco depois, ele participa dos testes com os interessados para o projeto e, na saída, procura o jornal para o qual trabalhava, há dois anos, oferecendo uma reportagem a respeito. Ele pretende mostrar que tipo de projeto é esse. Aprovado para o experimento, ele entra, junto com os demais participantes, em um cotidiano estressante que vai revelar a verdadeira natureza de cada um.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Das Experiment): O primeiro elemento do filme que me chamou a atenção foi a trilha sonora assinada por Alexander Bubenheim. Em alguns momentos da história, especialmente quando ela ainda está um pouco “morna”, sua trilha é o principal em cena. Ela marca o ritmo e cria a tensão necessária para o que, em breve, será um estado inevitável de tensão criada por imagens fortes. Muito bom o trabalho dele, assim como do diretor de fotografia veterano Rainer Klausmann. O suíço que completou recentemente, em abril, 60 anos, capricha na qualidade de cenas difíceis, especialmente aquelas filmadas em ambientes externos, de noite, ou no espaço diminuto do confinamento dos presos – onde foi preciso criatividade no uso das câmeras para o trabalho não ficar muito repetitivo.

Os problemas de Das Experiment não estão na parte técnica do filme, tenho que deixar claro. O principal “porém” desta produção está em seu roteiro. O texto adaptado para o cinema por Oliver Hirschbiegel foi escrito por Christoph Darnstädt, Don Bohlinger e Mario Giordano, este último autor também do livro Black Box, que inspirou esta história. Não li a obra original, para ser franca. Então não posso comparar se o filme é fiel ou não aos conceitos que lhe antecedem. Mas independente de ser ou não fiel, Das Experiment se mostra uma produção que irrita um bocado depois que a ação passa.

Enquanto tudo está acontecendo em tela, você já fica um pouco irritado. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Afinal, quem na face da terra faria um experimento como aquele sem ter um plano B ou C? Ou seja, quem colocaria 20 homens capazes de tudo em um espaço determinado e não teria nenhuma segurança para o caso de tudo sair do controle? Pois bem, Das Experiment quer nos convencer que os “científicos” Dr. Klaus Thon (Edgar Selge) e Dra. Jutta Grimm (Andrea Sawatzki) eram tão irresponsáveis ao ponto de não se importarem com o que poderia acontecer com seu experimento. Que grandes científicos, não? Como eles podem cogitar em fazer um estudo sério no qual eles tem, verdadeiramente, poucos elementos – e variáveis – controlados? É de fazer rir.

O problema é que o filme não é uma comédia. Se fosse, ainda tudo bem… Mas ele se leva a sério. Tanto que no final ainda fazem aquela tradição “explicação-resumo-do-que-aconteceu-quando-os-malvados-foram-pegos”. Os acertos na direção e na história lá pela metade do filme, como a construção de um clima de tensão até o ponto em que você espera que o pior aconteça com cada um dos personagens, acaba se transformando em um recurso batido e previsível no final. Para mim, o grande problema do filme é mesmo o roteiro, que segue pelo caminho mais fácil de criar dois antagonistas, que devem se degladiar até mostrar quem é o mais forte, e por ignorar uma série de ações lógicas. Nunca um experimento com o investimento que esse tinha – segundo a história – estaria tão relegado ao acaso e aos humores de seus participantes.

Mas descontadas as falhas da história, que tornam ela pouco crível, Das Experiment aborda questões interessantes, como é a eficácia da violência psicológica contra pessoas submetidas à figuras de autoridade. Como bem analisa o Dr. Klaus Thon em um certo ponto do filme, em cinco dias eles conseguiram resultados que tinham esperado atingir em duas semanas. Neste período, eles registraram “submissão à autoridade, violência subliminar e uma completa individualização” dos participantes. Claro que contribuiu bastante para isso o comportamento aloprado do “prisioneiro número 77”, ou seja, do jornalista infiltrado Tarek Fahd. Irresponsável, ele colocou a vida de todos à sua volta em risco para conseguir um “bom material” para a sua reportagem. Algo totalmente antiético e que, no mundo real, jamais seria aceito por publicações sérias.

Uma coisa é o jornalista criar algumas situações para documentar as reações das outras pessoas, outra muito diferente é elevar a tensão e os conflitos até a enésima potência, colocando as pessoas em risco. Irresponsável, imaturo, Fahd foi o oponente desejado pelo desequilibrado Berus (Justus von Dohnanyi), que perdeu o controle ao se sentir com mais poder do que normalmente tinha na sua vida real. O interessante da história foi mostrar que quando as pessoas estão isoladas e são colocadas “umas contra as outras”, reina a regra do individualismo. Poucos presos se importavam em ajudar o outro – o que interessava era salvar a própria pele. Uma regra de ouro para quem quer controlar um grupo – afinal, as pessoas isoladas são mais fáceis de controlar.

Também foi interessante perceber que depois de alguns conflitos no segundo dia, principalmente, guardas e prisioneiros esqueceram totalmente a “camaradagem” que os unia como um único grupo – submetido a um experimento – pouco antes. A perda do “senso de realidade” e o alto grau de “desorientação” também foram percebidos pela Dra. Jutta Grimm. Estes são os pontos interessantes do roteiro, que funciona bem ao construir um clima de tensão e suspense eficaz. O que não convence no filme, como já comentado, é a falta de controle dos cientistas com o seu próprio experimento. Como seria possível conseguir algum resultado sério deste estudo se parte do que os guardas fazia era feito fora do alcance das câmeras que controlavam a ação de seus participantes? E isso aconteceu mais de uma vez na história.

Sem contar a vulnerabilidade dos próprios pesquisadores, que poderiam ser confrontados a praticamente qualquer momento. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Outra parte que me irritou um pouco foi aquela em que o guarda Eckert (Timo Dierkes) tenta violentar a Dra. Jutta no exato momento em que Fahd se liberta da câmara escura e consegue rendê-lo. Sem isso, eles jamais conseguiriam empreender uma fuga. Essas “coincidências” tiradas da cartola em qualquer filme me irritam profundamente – parece que os roteiristas não conseguem uma saída melhor do que a mágica.

NOTA: 7,2.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Ainda acho que fui um bocado genrosa com a nota desse filme. Não sei, mas ele me irritou um bocado de vezes, pelas razões que eu já comentei. Ainda assim, claro está, se trata de uma história bem filmada e com atuações muito boas.

Falando no elenco, os atores que se destacaram, além dos já citados protagonistas Moritz Bleibtreu e Justus von Dohnanyi, foram: o sempre ótimo Christian Berkel como o prisioneiro número 38, conhecido também como Steinhoff, um homem correto que aceitou entrar no experimento para “espioná-lo”; Oliver Stokowski como o prisioneiro 82, chamado também como Schütte, um homem solitário que sonhava em comprar uma Ferrari; Nicki von Tempelhoff como o guarda Kamps, o primeiro a falar da necessidade dos guardas exigirem respeito dos prisioneiros; e Antoine Monot Jr. como o guarda Bosch – o único dividido entre o “dever” e o razoável.

Também merece destaque o trabalho da atriz Maren Eggert como Dora, uma mulher que Tarek Fahd conhece em um acidente de trânsito à noite e que acaba sendo a parte “onírica” desta história. Inicialmente achei a inclusão dela no filme um tanto deslocada e sem sentido, mas depois percebi que ela era a “âncora” que ligava Fahd ao mundo real, impedindo que ele sucumbisse à loucura ou que perdesse totalmente seu norte. A personagem de Dora, desta forma, acabou sendo bastante justificada para a trama – ainda que o seu tom “irreal” tenha sido um tanto exagerado demais. Afinal, ainda que no isolamento as “lembranças” de Dora para Fahd fossem um tanto de “sonho”, muitas vezes os fatos que aconteciam concretamente com a personagem, e que corriam paralelo a realidade de Fahd, pareciam igualmente irreais. O diretor poderia ter cuidado em diferenciar um pouco melhor lembranças e realidade.

Quem fez um bom trabalho nesta produção também foi o editor Hans Funck.

Lançado em 2001, Das Experiment colecionou 13 prêmios e foi indicado ainda a outros 15. Entre os prêmios que recebeu, estão o de melhor ator para Moritz Bleibtreu no Festival Internacional de Cinema de Seattle; o de melhor diretor para Oliver Hirschbiegel no Festival de Cinema de Montreal; os de filme alemão do ano, melhor ator, melhor ator coadjuvante para Justus von Dohnanyi e melhor design de produção no German Film Awards; e os de melhor roteiro, melhor direção de fotografia e melhor direção no Bavarian Film Awards.

Os usuários do site IMDb conferiram uma nota boa para o filme: 7,9. O Rotten Tomatoes, que publica textos de críticos de vários países, abriga 44 críticas positivas e 17 negativas sobre Das Experiment – o que lhe garante uma aprovação de 72%. Coincido com eles na avaliação.

No dia 13 de agosto o ator Moritz Bleibtreu celebra seus 38 anos. Nascido em Munique, ele tem muito que celebrar, realmente. Primeiro, pelo fato de ter estrelado alguns dos principais filmes feitos na Alemanha nos últimos anos. Depois, porque seu horizonte está repleto de trabalho. Neste ano, ele aparecerá em duas produções: Lippels Traum e Soul Kitchen. O segundo título, dirigido pelo ótimo diretor Fatih Akin. Para 2010, está prevista a estréia de cinco projetos com o ator, com destaque para Goethe!, dirigido por Philipp Stölzl; Angel Makers, estrelado por John Hurt e Daniel Brühl; e Jud Süss, com um elenco de estrelas, entre elas, Martina Gedeck e Armin Rohde.

CONCLUSÃO: Um filme bem dirigido e tecnicamente bem acabado que narra os resultados de um experimento um bocado irreal. Dito isso, fica claro que o problema do filme reside em seu roteiro, simplista por um lado, exagerado por outro. Simplista ao resumir os conflitos entre um “mocinho” e um “bandido”. Exagerado ao defender a idéia de que um grupo de cientistas esqueceria a segurança do seu experimento e confiaria em um grupo de “cobaias” que deveria ser controlado por eles. Mas se o roteiro não convence, os atores sim. Todos estão bem, especialmente os protagonistas, assim como o diretor e seu principal colaborador, o diretor de fotografia. A trilha sonora também merece uma menção especial. Para quem gosta de filmes de ficção científica que lidam com a idéia de experimentos humanos, deve interessar. Mas não espere achar nenhuma grande lição ou lógica no fim desta história. Exceto, talvez, de que toda vez que você juntar 20 pessoas diferentes em uma realidade de estresse, dali sairá um ou dois insanos.

SUGESTÕES DE LEITORES: Das Experiment faz parte de uma seleção de filmes alemães que está rolando aqui no blog há alguns meses. Agora, falta pouco para esta lista terminar. Para ser mais precisa, falta apenas um filme. 😉 Lembrando que o cinema alemão foi escolhido para essa série de críticas pelos leitores deste blog, em uma votação através de uma enquete pouco antes do Oscar deste ano. E Das Experiment, mais especificamente, foi um dos vários filmes indicados pelo leitor Leandro Soares. Garoto, mais uma dica bem bacana, viu? Ainda que eu não tenha colocado ele na minha lista de preferidos, mas gostei de tê-lo assistido. Obrigada pela recomendação! E o último filme que vou assistir desta lista também foi indicado por ti. Logo mais, um texto novo por aqui, para encerrar esta jornada pelo cinema alemão.

ATUALIZAÇÃO (8/6): Normalmente eu contraindico os trailers dos filmes que vou comentando por aqui, mas com Das Experiment vou fazer uma menção especial. O trailer do filme, que deixei disponível através do Vodpod, simplesmente mostra as cenas principais desta produção e, de quebra, o final do filme. Então, se vocês pretendem assistir ao filme, ignorem o trailer.

ATUALIZAÇÃO (17/06): Na correria para ver a outros filmes e, especialmente, para não perder os meus prazos no meu trabalho de investigação do doutorado, admito que fui um pouco preguiçosa em encontrar mais informações sobre a obra original escrita por Mario Giordano que inspirou este filme. Mas o comentário do bom leitor Leandro Soares me provocou a ir buscar mais informações. Nesta busca, encontrei três textos interessantes e esclarecedores. Acho que é importante falar deles por aqui.

Tanto o livro de Giordano quanto o filme Das Experiment são levemente baseados em um fato real, um experimento científico comandado por Philip Zimbardo em 1971 na Universidade de Stanford. Esses experimentos ficaram conhecidos como “Stanford Prison Experiment”. Mas, como os três textos que vou citar afirmam, tanto o livro quanto o filme exploram uma série de fatos que não aconteceram na vida real.

Esta resenha do Cultura Útil comenta que o filme extrapola os fatos que aconteceram em 1971, colocando a história em um outro patamar, diferente daquele vivido em Stanford, já que naquela ocasião os experimentos foram interrompidos “quando começaram os primeiros sinais de descontrole”. Na verdade, o “Stanford Prison Experiment” foi interrompido no sexto dia – quando eram previstas duas semanas -, sem que houvesse qualquer morte ou tentativa de estupro. Mas disso falaremos em seguida.

Este texto do site Omelete vai na mesma direção do anterior, afirmando que Das Experiment extrapola o que aconteceu na vida real com a proposta de “verificar o que aconteceria se o processo não fosse cancelado antes de começar a dar errado”. Ou seja: confirma que o filme é uma grande ficção, levemente baseada em fatos reais. O que não é um problema, por si só, ainda mais que o filme não usa o recurso de autoreferir-se como “baseado em fatos reais”. Um acerto, na minha opinião, já que tão pouco de seu roteiro é, verdadeiramente, realista.

Mas o principal texto que eu queria comentar é este, publicado no site “Monitor of Psychology” – o texto está em inglês. Nele, o então presidente da APA (American Psychological Association), Philip Zimbardo, critica o filme Das Experiment. Ele ressalta que o filme pode confundir as pessoas, fazendo-as acreditar que seu experimento, com alunos da Stanford em 1971, teria ocorrido daquela maneira – alucinada e descontrolada, eu devo comentar. Zimbardo nega que tenham ocorrido crimes como aqueles mostrados no filme e questiona o fato de Giordano fazer uma obra de ficção sobre aqueles fatos. Quem não quiser ler o texto inteiro, porque ele é um pouco longo, recomendo especialmente a leitura a partir do quarto parágrafo da parte intitulada “What really happened”.

Zimbardo afirma que a primeira metade do filme – e provavelmente parte do livro de Giordano – se aproxima bastante do que realmente ocorreu no estudo comandado por ele em Stanford. Efetivamente os guardas passaram a desenvolver um comportamento sádico, torturando alguns presos e colocando-os em posições vexatórias. Mas as semelhanças terminam por aí, porque o experimento em Stanford foi interrompido antes que as coisas saissem do controle. E foi justamente aí, a falta de controle dos pesquisadores e científicos com seu trabalho, o ponto que mais me incomodou em Das Experiment. Simplesmente não me convenceu.

Sendo uma obra de ficção, o filme não precisa, realmente, condizer com a realidade. Ainda mais porque ele não alardea, em momento algum, ser “baseado em fatos reais” – ainda bem! Mas sabendo que Black Box e Das Experiment tiveram esse “fundo” real, fica ainda mais evidente que ambos preferiram exagerar e escolheram o caminho mais fácil para isso. Mais do que nunca, digo que o filme não me convenceu.

No trecho “At what point fiction?” do artigo, eles comentam que Zimbardo questionou Das Experiment quando ele foi lançado em San Francisco. Na época, tanto o ator Moritz Bleibtreu quanto Giordano afirmaram que seus trabalhos eram obras de ficção e que o público saberia diferenciar isso dos fatos que realmente aconteceram anteriormente. Giordano, em especial, ressaltou que seu livro e, por consequencia, seu roteiro, eram obras de ficção inspiradas em diferentes eventos, entre eles os de Stanford e o de Stanley Milgram.

Pessoalmente, continuo achando Das Experiment um tiro pela culatra, porque ele pode fazer as pessoas acreditarem, de forma errada, que estudos científicos do gênero permitiriam absurdos como os vistos em tela. E isso seria impossível – pelo menos em se tratando de estudos sérios, realmente científicos.