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Toni Erdmann – As Faces de Toni Erdmann

Histórias de família e a busca do “sentido da vida” sempre rendem bons filmes. As relações pais e filhos, os conflitos, a dificuldade que alguns familiares têm de expressar o que sentem, especialmente em relações muito próximas, assim como um questionamento sempre saudável sobre que escolhas um indivíduo está fazendo na vida, são alguns dos elementos de Toni Erdmann. Este é um filme longo, mas envolvente. Considerado por muitos o favorito para o Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira, ele me surpreendeu menos que outros concorrentes desta temporada.

A HISTÓRIA: Um entregador chega em uma casa e toca a campainha. Ele tem que esperar um bocado até que Winfried (Peter Simonischek) aparece. Ele diz que não tem ideia do que o irmão possa ter pedido desta vez. Ele chama por Toni, e comenta que ele saiu há pouco tempo da prisão. O entregador escuta o diálogo entre os “irmãos” e “Toni” aparece para receber a mercadoria. Em seguida ele cumprimenta Lukas (Lennart Moho), um de seus alunos de piano. Winfried gosta de fazer piadas, e é com elas que ele tenta se aproximar da filha, Ines (Sandra Hüller).

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Toni Erdmann): Não deixa de ser verdade que eu estava com grande expectativa para assistir a este filme. Afinal, em muitas bolsas de apostas ele é apontado como o favorito para o Oscar 2017. Como nesta temporada temos alguns filmes bem interessantes, eu esperava uma produção extraordinária.

Toni Erdmann é um bom filme, não quero que ninguém me entenda mal. Ele, de fato, trata muito bem sobre diversas questões atuais, especialmente sobre o distanciamento das pessoas. Todos nós estamos tão ocupados com os nossos compromissos que, muitas vezes, desprezamos o principal: as relações afetuosas e mais generosas com quem mais amamos.

Isso é verdade, mas acho que Toni Erdmann vai bater de forma mais profunda em quem ainda não passou por reflexões como as que o filme tenta despertar. Da minha parte, há muito tempo eu sei o que é mais importante. Por isso mesmo, sempre que eu posso, tento valorizar os bons momentos com as pessoas que eu amo. Até porque nós nunca sabemos quando teremos uma nova oportunidade.

Algo que temos como uma das grandes certezas da vida é que um dia vamos morrer. E, na sociedade cheia de riscos em que vivemos, isso pode acontecer praticamente a qualquer momento. A cada final de ano, quando fazemos também a nossa famosa “revisão” de tudo o que aconteceu e do que não aconteceu, este entendimento da “vida como ela é” também fica mais forte. Então, digamos assim, a reflexão central de Toni Erdmann não é nova – os mais atentos costumam fazer ela de tempos em tempos.

Mas outras questões além do “afinal, o que é importante na vida?” estão presentes neste filme. Um dos temas centrais é a busca de um pai por se aproximar de sua filha ausente. Esta possivelmente é a parte mais tocante da produção. Realmente é de fazer pensar que um pai tenha que assumir um personagem (no caso, Toni Erdmann) para circular perto da filha.

Ao mesmo tempo em que isso nos faz pensar sobre as nossas posturas e a correria do dia a dia que não nos deixa “mudar os planos” para receber bem uma pessoa que nos visita sem avisar – isso é algo especialmente típico da cultura alemã -, também nos faz refletir que somos de uma determinada maneira por uma série de fatores. No caso da protagonista desta produção, ela é um produto, sem dúvida alguma, de sua cultura.

Realmente é possível ela mudar radicalmente e estar aberta para receber o pai que chega sem avisar de uma forma mais “disponível” sendo que ela tem uma série de compromissos de trabalho importantes? Olha, acho até que a pessoa pode identificar as suas características, incluindo pontos fortes e fracos, e tentar melhorar em vários deles para se tornar mais amorosa e afetiva. Mas ninguém muda radicalmente.

Além da cultura que nos forma – e faz parte dela os ensinamentos e valores repassados pelos pais e parentes, além dos nossos amigos, colegas e todas as experiências que temos de formação, especialmente na infância -, temos também características que nos são próprias. Uma pessoa que não é afetiva pode se esforçar para demonstrar mais o que sente, mas ela jamais terá o mesmo comportamento de uma pessoa que é afetiva em sua essência.

Winfried tenta, a sua maneira, mostrar para a filha o que ele aprendeu com a vida. A mensagem dele aparece no final. Durante a vida nos ocupamos tanto com afazeres e tarefas que não curtimos os “momentos” especiais como deveríamos. E muitas vezes, quando eles acontecem, nem estamos atentos para isso.

Esta é uma vantagem da passagem do tempo. Conforme a idade avança, realmente nos tornamos mais sábios e aprendemos isso. Não precisamos ser uma pessoa de meia idade, contudo, para nos darmos conta disso. É possível chegar a este entendimento muito antes. E, claro, quanto mais cedo, melhor.

Então Toni Erdmann nos conta uma história interessante de um pai que precisa interpretar um personagem para se aproximar da filha. De quebra, ele faz ela pensar sobre a própria vida. Consequentemente, esta produção também trata de outra questão: afinal, qual é o propósito da vida de cada um de nós?

Aparentemente Ines gasta muito tempo de sua vida e energia em uma profissão que não traz, exatamente, alegria ou oportunidade para as pessoas. Como consultora de empresas que terceirizam processos e buscam eficiência ao máximo, ela acaba fazendo parte de projetos de “modernização” que apenas criam desemprego e que aumentam as desigualdades sociais.

Por outro lado, e como contraponto a ela, o protagonista e pai de Ines é um professor de música, alguém que vive de ensinar e de inspirar jovens com algo tão bonito quanto a arte. São dois mundos muito diferentes, sem dúvida. Para Ines o sucesso é algo importante. Ser independente, ter as rédeas da própria vida. Mas alguém que busca esse caminho sempre tem alguns preços a pagar.

Esta produção não fecha os olhos para a questão social. Além de ter o tema da atividade de Ines como pano de fundo, o filme com roteiro e direção de Maren Ade mostra, pincelado aqui e ali, a realidade com grandes desigualdades da Romênia. O país entrou na União Europeia junto com a Bulgária em 2007 – ou seja, há exatos 10 anos.

Como Ines comenta em um certo momento, ela e o pai vão para uma “missão” no maior centro comercial, onde ninguém tem dinheiro para comprar nada – no caso, claro, ela se refere aos habitantes da cidade e do país e não trata dos turistas como a esposa de Henneberg (Michael Wittenborn).

Apenas neste comentário existem algumas verdades interessantes e incômodas. Primeiro que a única diferença para muitos países que entraram na União Europeia depois foi receber grandes investimentos estrangeiros, mas sem que isso mudasse realmente a realidade das pessoas daquele país. Em muitos lugares, inclusive, estes novos investimentos apenas tornaram ainda mais evidentes ou agravaram as desigualdades sociais existentes. Esta é a crítica social interessante do filme – e que pode agradar, em especial, aos membros da Academia.

Para entender bem Toni Erdmann é preciso conhecer de perto a cultura alemã. Para mim o filme trata de comportamentos, posturas e valores muito típicos desta cultura. Os personagens que eu vi em cena eu “conheci” por ter nascido em uma cidade de colonização alemã. E o personagem de Winfried/Toni, em especial, me lembrou muito o pai de uma das minhas melhores amigas.

Ele é exatamente daquele jeito. Uma pessoa “fechada”, rígida, mas que não perde uma piada. Que gosta de “pregar peças” e de interpretar personagens. Que tem dificuldade de se expressar, muitas vezes, usando a comédia como ferramenta para comunicar o que de forma séria não tem coragem. Uma pessoa excêntrica segundo a visão de muitos. Mas quem conheces pessoas assim sabe que elas não são excêntricas, mas que é possível compreendê-las apesar do choque que muitas vezes elas provocam.

Aliás, por trás de toda a reação chocante, sempre existe algum desespero que quer ser comunicado. Toni Erdmann tem pelo menos dois momentos “chocantes” e/ou de grande surpresa. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). O primeiro é quando Toni Erdmann aparece no restaurante em que Ines vai se encontrar com as suas amigas. O segundo é quando Ines “pira o cabeção” em sua própria festa de aniversário e resolve receber todos nua, afirmando que a festa é para pessoas sem roupa.

Nas duas situações os tão diferentes pai e filha estão desesperados por comunicar algo. Por isso eles agem de uma maneira que acaba surpreendendo e chocando. Quando as pessoas não conseguem expressar exatamente o que elas querem dizer de forma racional, elas agem de maneira “fora dos padrões” e chocam aqueles que as conhecem.

No final do filme, Toni Erdmann nos deixa mais algumas lições. Ines vai se despedir de sua avó e comenta que gostaria de ter convivido mais com ela. Ora, para isso acontecer, dependia apenas de uma decisão dela. Todos nós podemos aproveitar mais as pessoas de quem gostamos, mesmo que estejamos pouco com elas. Mas que os encontros sejam de qualidade.

E a sequência final para mim é ótima porque demonstra como as pessoas podem ser generosas e fazerem gestos para agradar as pessoas de quem elas gostam mas, nem por isso, elas vão mudar a sua própria identidade. Ines agrada o pai que, como muitos pais, deseja que ela seja mais parecida com ele. Só que Ines tem a sua própria identidade, e segue com ela, apesar de refletir sobre tudo que o pai lhe sugere.

Alguns pais tem essa mania de querer que os filhos sejam parecidos com eles, mas cada indivíduo é um universo, sabe sobre os seus próprios sonhos, desejos, realizações e decide no que colocar a sua energia. Toni Erdmann termina nos mostrando isso. Que todos somos capazes de gestos de generosidade e de doação mas que, no fim das contas, somos exatamente aquilo que nos desafiamos a ser. Somo o que escolhemos.

NOTA: 9,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Esta produção tem dois grandes, grandes atores. O primeiro destaque é o óbvio e evidente personagem título, interpretado pelo divertido e interessante Peter Simonischek. Ele se destaca por cada olhar, por cada gesto inusitado. Mas, para mim, o grande destaque é mesmo a atriz Sandra Hüller. Ela está fantástica como Ines, em um papel bastante complexo e bem desenvolvido.

Ela convence em um papel menos linear que o do personagem do pai. Para mim, ela até poderia ser indicada ao Oscar de Melhor Atriz – mas algo que será quase impossível de acontecer. Afinal, ela não tem o “apelo” de outras atrizes estrangeiras mais conhecidas dos votantes da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, como é o caso de Isabelle Huppert – que está muito bem em Elle, devemos admitir (filme comentado neste link). Ainda assim, acho o desempenho de Sandra Hüller impecável. Ela está soberba.

Ainda que a produção seja focada nos personagens de pai e filha, Toni Erdmann funciona porque tem alguns atores coadjuvantes muito bons. Fazem um belo trabalho na produção Trystan Pütter como Tim, colega e namorado “secreto” de Ines; Thomas Loibl como Gerald, chefe da protagonista; Ingrid Bisu muito bem em todas as suas aparições como a assistente de Ines, Anca; Hadewych Minis como Tatjana e Lucy Russell como Steph, as duas as melhores amigas de Ines. Especialmente Lucy ganha destaque pela sequência da festa da protagonista/aniversariante.

Outros atores que participam do filme em papéis menores mas que tem as suas oportunidades de se destacarem são Victoria Cocias como Flavia, uma pessoa que Winfried conhece em uma festa e que acaba recebendo ele e a filha em casa em uma sequência inusitada do filme; Alexandru Papadopol como Dascalu, que faz parte das negociações da empresa de Ines com Henneberg; o próprio Michael Wittenborn muito bem como o americano Henneberg; Victoria Malektorovych como Natalja, mulher de Henneberg; e Vlad Ivanov como Iliescu, representante dos trabalhadores envolvidos no processo entre a empresa de Ines e Henneberg.

Apesar de não ser, para mim, super surpreendente, Toni Erdmann é um filme com um olhar apurado e interessante. Fiquei interessada em saber mais sobre a diretora e roteirista, Maren Ade, especialmente porque este é o primeiro filme dela que eu assisto. Natural da cidade alemã de Karlsruhe, Maren Ade completou 40 anos no final de 2016, no dia 12 de dezembro.

Toni Erdmann é o quinto filme de Maren Aden como diretora. Ela fez, antes, dois curtas e dois longas. Os longas foram Der Wald vor Lauter Bäumen e Alle Anderen. Ela estava desde 2009 sem lançar um novo filme. Por outro lado, ela tem uma carreira mais ampla como produtora, tendo 17 filmes em seu currículo nesta função. Todos os filmes que ela dirigiu também tiveram roteiros escritos por ela. Vale acompanhá-la, pois.

Da parte técnica do filme, gostei da direção de fotografia de Patrick Orth, da edição de Heike Parplies e, principalmente, do design de produção de Silke Fischer, da direção de arte de Malina Ionescu, da decoração de set de Katja Schlömer, dos ótimos figurinos de Gitti Fuchs e da maquiagem muito coerente e bem pensada do trio Wiltrud Derschmidt, Monika Münnich e Astrid Weber. Todos trabalharam muito bem e contribuíram para o filme ter a qualidade e a coerência que tem.

Toni Erdmann estreou em maio de 2016 no Festival de Cinema de Cannes. Depois o filme participou de outros 39 festivais e eventos de cinema pelo mundo. Ou seja, fez uma grande trajetória de premiações antes de ser cotado para o Oscar 2017. Nesta trajetória ele acumulou 26 prêmios e foi indicado a outros 51 prêmios, incluindo a indicação ao Globo de Ouro 2017 de Melhor Filme em Língua Estrangeira.

Entre os prêmios que recebeu, destaque para os três de Melhor Filme em Língua Estrangeira dados pelas associações de críticos de Vancouver, Nova York e de Atlanta; para dois prêmios de Melhor Filme e o de Melhor Roteiro no Festival Internacional de Cinema de Bruxelas; para o Prêmio Fipresci do Festival de Cinema de Cannes; pelos cinco prêmios (Atriz Europeia, Ator Europeu, Diretor Europeu, Roteiro Europeu e Filme Europeu) no European Film Awards; para o Fipresci Filme do Ano do Festival Internacional de Cinema de San Sebastián; e para os seis prêmios (Melhor Filme Estrangeiro, Melhor Atriz para Sandra Hüller e Melhor Diretor para Maren Aden) dados em “duplicata” em 2016/2017 pela Associação de Críticos de Cinema de Toronto.

Toni Erdmann teria custado 3 milhões de euros. Um orçamento muito baixo, especialmente se levarmos em conta os padrões de Hollywood. Não informações seguras sobre o desempenho do filme nos mercados em que ele já estreou. E nem uma previsão para quando ele vai estrear no Brasil.

Como a história do filme mesmo sugere, Toni Erdmann foi rodado em diversas localidades da Alemanha e da Romênia. Entre outras cidades, ele foi filmado em Bucareste, na Romênia, e em Aachen e Langerwehe, cidades de North Rhine-Westphalia, na Alemanha.

Agora, aquelas tradicionais curiosidades sobre o filme. Toni Erdmann foi um dos filmes mais comentados do Festival de Cinema de Cannes, mas ele saiu da premiação sem qualquer reconhecimento do júri da “competição oficial”. A Palma de Ouro foi para I, Daniel Blake. Críticos importantes como Justin Chang, Manohla Dargis, Kenneth Turan, Peter Bradshaw e Guy Lodge disseram que a decisão do júri de Cannes por não dar a Palma de Ouro para Toni Erdmann foi “desconcertante” e de que o festival perdeu uma boa chance de premiar um ótimo filme de uma diretora.

O personagem de Winfried Conradi é levemente inspirado no pai da diretora Maren Ade que gosta, ele próprio, de colocar dentes falsos para brincar com as pessoas. Outra inspiração para o personagem foi o comediante Andy Kaufman.

Toni Erdmann demorou um ano para ser editado e utilizou como matéria-prima 120 horas de filmagens feitas durante 56 dias.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). A sequência da festa com convidados nus dada por Ines foi considerada a “cena de nudez do ano” pela Vulture.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 63 críticas positivas e seis negativas para o filme, o que lhe rendeu uma aprovação de 91% e uma nota média de 8,4. Apesar das duas notas serem boas, se levarmos em conta os padrões dos dois sites, elas não podem ser consideradas excepcionais – há diversos filmes desta temporada com avaliações melhores.

Este filme é uma coprodução da Alemanha, da Áustria e da Romênia. Mas como o coração da produção é da Alemanha, o filme é o representante oficial do país no Oscar 2017. Há bastante tempo, em uma votação aqui no blog, vocês pediram filmes da Alemanha. Por isso essa produção entra para a lista de filmes que atendem a votações feitas por aqui.

CONCLUSÃO: Este é um bom filme. Ele conta boa parte do “modo de ser” dos alemães. Por ter nascido em uma cidade de colonização alemã e por conhecer personagens como os mostrados em Toni Erdmann, talvez por isso o filme não tenha me surpreendido tanto como talvez tenha ocorrido com outras pessoas.

É uma história humana interessante, que resume bem o desejo de um pai se aproximar de sua filha e, de quebra, fazê-la pensar sobre o que é importante na vida. Também tem um fundo de análise social sobre os nossos tempos, especialmente sobre as desigualdades na Europa. Vale ser visto, sem dúvida, ainda que eu não o considere a melhor produção cotada para a categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira do Oscar 2017.

PALPITES PARA O OSCAR 2017: Quase todas as bolsas de apostas estão colocando Toni Erdmann como o grande favorito para o Oscar deste ano. A produção realmente deve figurar entre as cinco finalistas da categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira deste ano. Ainda preciso assistir a outro forte concorrente do ano, Forushande, do geralmente ótimo Asghar Farhadi.

Da minha parte e, como sempre, cinema é uma questão de gosto pessoal. Sendo assim, posso comentar que gostei de Toni Erdmann, mas não achei ele o melhor filme estrangeiro do ano. Da lista de nove filmes que conseguiram avançar na disputa por uma das cinco vagas na categoria do Oscar deste ano, prefiro A Man Called Ove (comentado aqui) e até Land of Mine (com crítica neste link) achei mais surpreendente e impactante.

Mas não sei, desconfio que o filme de Farhadi tem grandes chances de vencer desta produção alemã. Quer dizer, tudo vai depender dos humores e dos gostos dos votantes da Academia. Ainda preciso assistir aos outros nomes fortes da disputa para poder fazer uma avaliação final.

Toni Erdmann é bom, mas não é inesquecível ou mesmo a produção em disputa que mais me agradou. Mas ele tem boas chances no Oscar sim, especialmente porque trata de questões universais apesar de ser muito, muito alemão. Não é todo filme que consegue este equilíbrio.

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Toni Erdmann

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Histórias de família e a busca do “sentido da vida” sempre rendem bons filmes. As relações pais e filhos, os conflitos, a dificuldade que alguns familiares têm de expressar o que sentem, especialmente em relações muito próximas, assim como um questionamento sempre saudável sobre que escolhas um indivíduo está fazendo na vida, são alguns dos elementos de Toni Erdmann. Este é um filme longo, mas envolvente. Considerado por muitos o favorito para o Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira, ele me surpreendeu menos que outros concorrentes desta temporada.

A HISTÓRIA: Um entregador chega em uma casa e toca a campainha. Ele tem que esperar um bocado até que Winfried (Peter Simonischek) aparece. Ele diz que não tem ideia do que o irmão possa ter pedido desta vez. Ele chama por Toni, e comenta que ele saiu há pouco tempo da prisão. O entregador escuta o diálogo entre os “irmãos” e “Toni” aparece para receber a mercadoria. Em seguida ele cumprimenta Lukas (Lennart Moho), um de seus alunos de piano. Winfried gosta de fazer piadas, e é com elas que ele tenta se aproximar da filha, Ines (Sandra Hüller).

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Toni Erdmann): Não deixa de ser verdade que eu estava com grande expectativa para assistir a este filme. Afinal, em muitas bolsas de apostas ele é apontado como o favorito para o Oscar 2017. Como nesta temporada temos alguns filmes bem interessantes, eu esperava uma produção extraordinária.

Toni Erdmann é um bom filme, não quero que ninguém me entenda mal. Ele, de fato, trata muito bem sobre diversas questões atuais, especialmente sobre o distanciamento das pessoas. Todos nós estamos tão ocupados com os nossos compromissos que, muitas vezes, desprezamos o principal: as relações afetuosas e mais generosas com quem mais amamos.

Isso é verdade, mas acho que Toni Erdmann vai bater de forma mais profunda em quem ainda não passou por reflexões como as que o filme tenta despertar. Da minha parte, há muito tempo eu sei o que é mais importante. Por isso mesmo, sempre que eu posso, tento valorizar os bons momentos com as pessoas que eu amo. Até porque nós nunca sabemos quando teremos uma nova oportunidade.

Algo que temos como uma das grandes certezas da vida é que um dia vamos morrer. E, na sociedade cheia de riscos em que vivemos, isso pode acontecer praticamente a qualquer momento. A cada final de ano, quando fazemos também a nossa famosa “revisão” de tudo o que aconteceu e do que não aconteceu, este entendimento da “vida como ela é” também fica mais forte. Então, digamos assim, a reflexão central de Toni Erdmann não é nova – os mais atentos costumam fazer ela de tempos em tempos.

Mas outras questões além do “afinal, o que é importante na vida?” estão presentes neste filme. Um dos temas centrais é a busca de um pai por se aproximar de sua filha ausente. Esta possivelmente é a parte mais tocante da produção. Realmente é de fazer pensar que um pai tenha que assumir um personagem (no caso, Toni Erdmann) para circular perto da filha.

Ao mesmo tempo em que isso nos faz pensar sobre as nossas posturas e a correria do dia a dia que não nos deixa “mudar os planos” para receber bem uma pessoa que nos visita sem avisar – isso é algo especialmente típico da cultura alemã -, também nos faz refletir que somos de uma determinada maneira por uma série de fatores. No caso da protagonista desta produção, ela é um produto, sem dúvida alguma, de sua cultura.

Realmente é possível ela mudar radicalmente e estar aberta para receber o pai que chega sem avisar de uma forma mais “disponível” sendo que ela tem uma série de compromissos de trabalho importantes? Olha, acho até que a pessoa pode identificar as suas características, incluindo pontos fortes e fracos, e tentar melhorar em vários deles para se tornar mais amorosa e afetiva. Mas ninguém muda radicalmente.

Além da cultura que nos forma – e faz parte dela os ensinamentos e valores repassados pelos pais e parentes, além dos nossos amigos, colegas e todas as experiências que temos de formação, especialmente na infância -, temos também características que nos são próprias. Uma pessoa que não é afetiva pode se esforçar para demonstrar mais o que sente, mas ela jamais terá o mesmo comportamento de uma pessoa que é afetiva em sua essência.

Winfried tenta, a sua maneira, mostrar para a filha o que ele aprendeu com a vida. A mensagem dele aparece no final. Durante a vida nos ocupamos tanto com afazeres e tarefas que não curtimos os “momentos” especiais como deveríamos. E muitas vezes, quando eles acontecem, nem estamos atentos para isso.

Esta é uma vantagem da passagem do tempo. Conforme a idade avança, realmente nos tornamos mais sábios e aprendemos isso. Não precisamos ser uma pessoa de meia idade, contudo, para nos darmos conta disso. É possível chegar a este entendimento muito antes. E, claro, quanto mais cedo, melhor.

Então Toni Erdmann nos conta uma história interessante de um pai que precisa interpretar um personagem para se aproximar da filha. De quebra, ele faz ela pensar sobre a própria vida. Consequentemente, esta produção também trata de outra questão: afinal, qual é o propósito da vida de cada um de nós?

Aparentemente Ines gasta muito tempo de sua vida e energia em uma profissão que não traz, exatamente, alegria ou oportunidade para as pessoas. Como consultora de empresas que terceirizam processos e buscam eficiência ao máximo, ela acaba fazendo parte de projetos de “modernização” que apenas criam desemprego e que aumentam as desigualdades sociais.

Por outro lado, e como contraponto a ela, o protagonista e pai de Ines é um professor de música, alguém que vive de ensinar e de inspirar jovens com algo tão bonito quanto a arte. São dois mundos muito diferentes, sem dúvida. Para Ines o sucesso é algo importante. Ser independente, ter as rédeas da própria vida. Mas alguém que busca esse caminho sempre tem alguns preços a pagar.

Esta produção não fecha os olhos para a questão social. Além de ter o tema da atividade de Ines como pano de fundo, o filme com roteiro e direção de Maren Ade mostra, pincelado aqui e ali, a realidade com grandes desigualdades da Romênia. O país entrou na União Europeia junto com a Bulgária em 2007 – ou seja, há exatos 10 anos.

Como Ines comenta em um certo momento, ela e o pai vão para uma “missão” no maior centro comercial, onde ninguém tem dinheiro para comprar nada – no caso, claro, ela se refere aos habitantes da cidade e do país e não trata dos turistas como a esposa de Henneberg (Michael Wittenborn).

Apenas neste comentário existem algumas verdades interessantes e incômodas. Primeiro que a única diferença para muitos países que entraram na União Europeia depois foi receber grandes investimentos estrangeiros, mas sem que isso mudasse realmente a realidade das pessoas daquele país. Em muitos lugares, inclusive, estes novos investimentos apenas tornaram ainda mais evidentes ou agravaram as desigualdades sociais existentes. Esta é a crítica social interessante do filme – e que pode agradar, em especial, aos membros da Academia.

Para entender bem Toni Erdmann é preciso conhecer de perto a cultura alemã. Para mim o filme trata de comportamentos, posturas e valores muito típicos desta cultura. Os personagens que eu vi em cena eu “conheci” por ter nascido em uma cidade de colonização alemã. E o personagem de Winfried/Toni, em especial, me lembrou muito o pai de uma das minhas melhores amigas.

Ele é exatamente daquele jeito. Uma pessoa “fechada”, rígida, mas que não perde uma piada. Que gosta de “pregar peças” e de interpretar personagens. Que tem dificuldade de se expressar, muitas vezes, usando a comédia como ferramenta para comunicar o que de forma séria não tem coragem. Uma pessoa excêntrica segundo a visão de muitos. Mas quem conheces pessoas assim sabe que elas não são excêntricas, mas que é possível compreendê-las apesar do choque que muitas vezes elas provocam.

Aliás, por trás de toda a reação chocante, sempre existe algum desespero que quer ser comunicado. Toni Erdmann tem pelo menos dois momentos “chocantes” e/ou de grande surpresa. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). O primeiro é quando Toni Erdmann aparece no restaurante em que Ines vai se encontrar com as suas amigas. O segundo é quando Ines “pira o cabeção” em sua própria festa de aniversário e resolve receber todos nua, afirmando que a festa é para pessoas sem roupa.

Nas duas situações os tão diferentes pai e filha estão desesperados por comunicar algo. Por isso eles agem de uma maneira que acaba surpreendendo e chocando. Quando as pessoas não conseguem expressar exatamente o que elas querem dizer de forma racional, elas agem de maneira “fora dos padrões” e chocam aqueles que as conhecem.

No final do filme, Toni Erdmann nos deixa mais algumas lições. Ines vai se despedir de sua avó e comenta que gostaria de ter convivido mais com ela. Ora, para isso acontecer, dependia apenas de uma decisão dela. Todos nós podemos aproveitar mais as pessoas de quem gostamos, mesmo que estejamos pouco com elas. Mas que os encontros sejam de qualidade.

E a sequência final para mim é ótima porque demonstra como as pessoas podem ser generosas e fazerem gestos para agradar as pessoas de quem elas gostam mas, nem por isso, elas vão mudar a sua própria identidade. Ines agrada o pai que, como muitos pais, deseja que ela seja mais parecida com ele. Só que Ines tem a sua própria identidade, e segue com ela, apesar de refletir sobre tudo que o pai lhe sugere.

Alguns pais tem essa mania de querer que os filhos sejam parecidos com eles, mas cada indivíduo é um universo, sabe sobre os seus próprios sonhos, desejos, realizações e decide no que colocar a sua energia. Toni Erdmann termina nos mostrando isso. Que todos somos capazes de gestos de generosidade e de doação mas que, no fim das contas, somos exatamente aquilo que nos desafiamos a ser. Somo o que escolhemos.

NOTA: 9,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Esta produção tem dois grandes, grandes atores. O primeiro destaque é o óbvio e evidente personagem título, interpretado pelo divertido e interessante Peter Simonischek. Ele se destaca por cada olhar, por cada gesto inusitado. Mas, para mim, o grande destaque é mesmo a atriz Sandra Hüller. Ela está fantástica como Ines, em um papel bastante complexo e bem desenvolvido.

Ela convence em um papel menos linear que o do personagem do pai. Para mim, ela até poderia ser indicada ao Oscar de Melhor Atriz – mas algo que será quase impossível de acontecer. Afinal, ela não tem o “apelo” de outras atrizes estrangeiras mais conhecidas dos votantes da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, como é o caso de Isabelle Huppert – que está muito bem em Elle, devemos admitir (filme comentado neste link). Ainda assim, acho o desempenho de Sandra Hüller impecável. Ela está soberba.

Ainda que a produção seja focada nos personagens de pai e filha, Toni Erdmann funciona porque tem alguns atores coadjuvantes muito bons. Fazem um belo trabalho na produção Trystan Pütter como Tim, colega e namorado “secreto” de Ines; Thomas Loibl como Gerald, chefe da protagonista; Ingrid Bisu muito bem em todas as suas aparições como a assistente de Ines, Anca; Hadewych Minis como Tatjana e Lucy Russell como Steph, as duas as melhores amigas de Ines. Especialmente Lucy ganha destaque pela sequência da festa da protagonista/aniversariante.

Outros atores que participam do filme em papéis menores mas que tem as suas oportunidades de se destacarem são Victoria Cocias como Flavia, uma pessoa que Winfried conhece em uma festa e que acaba recebendo ele e a filha em casa em uma sequência inusitada do filme; Alexandru Papadopol como Dascalu, que faz parte das negociações da empresa de Ines com Henneberg; o próprio Michael Wittenborn muito bem como o americano Henneberg; Victoria Malektorovych como Natalja, mulher de Henneberg; e Vlad Ivanov como Iliescu, representante dos trabalhadores envolvidos no processo entre a empresa de Ines e Henneberg.

Apesar de não ser, para mim, super surpreendente, Toni Erdmann é um filme com um olhar apurado e interessante. Fiquei interessada em saber mais sobre a diretora e roteirista, Maren Ade, especialmente porque este é o primeiro filme dela que eu assisto. Natural da cidade alemã de Karlsruhe, Maren Ade completou 40 anos no final de 2016, no dia 12 de dezembro.

Toni Erdmann é o quinto filme de Maren Aden como diretora. Ela fez, antes, dois curtas e dois longas. Os longas foram Der Wald vor Lauter Bäumen e Alle Anderen. Ela estava desde 2009 sem lançar um novo filme. Por outro lado, ela tem uma carreira mais ampla como produtora, tendo 17 filmes em seu currículo nesta função. Todos os filmes que ela dirigiu também tiveram roteiros escritos por ela. Vale acompanhá-la, pois.

Da parte técnica do filme, gostei da direção de fotografia de Patrick Orth, da edição de Heike Parplies e, principalmente, do design de produção de Silke Fischer, da direção de arte de Malina Ionescu, da decoração de set de Katja Schlömer, dos ótimos figurinos de Gitti Fuchs e da maquiagem muito coerente e bem pensada do trio Wiltrud Derschmidt, Monika Münnich e Astrid Weber. Todos trabalharam muito bem e contribuíram para o filme ter a qualidade e a coerência que tem.

Toni Erdmann estreou em maio de 2016 no Festival de Cinema de Cannes. Depois o filme participou de outros 39 festivais e eventos de cinema pelo mundo. Ou seja, fez uma grande trajetória de premiações antes de ser cotado para o Oscar 2017. Nesta trajetória ele acumulou 26 prêmios e foi indicado a outros 51 prêmios, incluindo a indicação ao Globo de Ouro 2017 de Melhor Filme em Língua Estrangeira.

Entre os prêmios que recebeu, destaque para os três de Melhor Filme em Língua Estrangeira dados pelas associações de críticos de Vancouver, Nova York e de Atlanta; para dois prêmios de Melhor Filme e o de Melhor Roteiro no Festival Internacional de Cinema de Bruxelas; para o Prêmio Fipresci do Festival de Cinema de Cannes; pelos cinco prêmios (Atriz Europeia, Ator Europeu, Diretor Europeu, Roteiro Europeu e Filme Europeu) no European Film Awards; para o Fipresci Filme do Ano do Festival Internacional de Cinema de San Sebastián; e para os seis prêmios (Melhor Filme Estrangeiro, Melhor Atriz para Sandra Hüller e Melhor Diretor para Maren Aden) dados em “duplicata” em 2016/2017 pela Associação de Críticos de Cinema de Toronto.

Toni Erdmann teria custado 3 milhões de euros. Um orçamento muito baixo, especialmente se levarmos em conta os padrões de Hollywood. Não informações seguras sobre o desempenho do filme nos mercados em que ele já estreou. E nem uma previsão para quando ele vai estrear no Brasil.

Como a história do filme mesmo sugere, Toni Erdmann foi rodado em diversas localidades da Alemanha e da Romênia. Entre outras cidades, ele foi filmado em Bucareste, na Romênia, e em Aachen e Langerwehe, cidades de North Rhine-Westphalia, na Alemanha.

Agora, aquelas tradicionais curiosidades sobre o filme. Toni Erdmann foi um dos filmes mais comentados do Festival de Cinema de Cannes, mas ele saiu da premiação sem qualquer reconhecimento do júri da “competição oficial”. A Palma de Ouro foi para I, Daniel Blake. Críticos importantes como Justin Chang, Manohla Dargis, Kenneth Turan, Peter Bradshaw e Guy Lodge disseram que a decisão do júri de Cannes por não dar a Palma de Ouro para Toni Erdmann foi “desconcertante” e de que o festival perdeu uma boa chance de premiar um ótimo filme de uma diretora.

O personagem de Winfried Conradi é levemente inspirado no pai da diretora Maren Ade que gosta, ele próprio, de colocar dentes falsos para brincar com as pessoas. Outra inspiração para o personagem foi o comediante Andy Kaufman.

Toni Erdmann demorou um ano para ser editado e utilizou como matéria-prima 120 horas de filmagens feitas durante 56 dias.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). A sequência da festa com convidados nus dada por Ines foi considerada a “cena de nudez do ano” pela Vulture.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 63 críticas positivas e seis negativas para o filme, o que lhe rendeu uma aprovação de 91% e uma nota média de 8,4. Apesar das duas notas serem boas, se levarmos em conta os padrões dos dois sites, elas não podem ser consideradas excepcionais – há diversos filmes desta temporada com avaliações melhores.

Este filme é uma coprodução da Alemanha, da Áustria e da Romênia. Mas como o coração da produção é da Alemanha, o filme é o representante oficial do país no Oscar 2017. Há bastante tempo, em uma votação aqui no blog, vocês pediram filmes da Alemanha. Por isso essa produção entra para a lista de filmes que atendem a votações feitas por aqui.

CONCLUSÃO: Este é um bom filme. Ele conta boa parte do “modo de ser” dos alemães. Por ter nascido em uma cidade de colonização alemã e por conhecer personagens como os mostrados em Toni Erdmann, talvez por isso o filme não tenha me surpreendido tanto como talvez tenha ocorrido com outras pessoas.

É uma história humana interessante, que resume bem o desejo de um pai se aproximar de sua filha e, de quebra, fazê-la pensar sobre o que é importante na vida. Também tem um fundo de análise social sobre os nossos tempos, especialmente sobre as desigualdades na Europa. Vale ser visto, sem dúvida, ainda que eu não o considere a melhor produção cotada para a categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira do Oscar 2017.

PALPITES PARA O OSCAR 2017: Quase todas as bolsas de apostas estão colocando Toni Erdmann como o grande favorito para o Oscar deste ano. A produção realmente deve figurar entre as cinco finalistas da categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira deste ano. Ainda preciso assistir a outro forte concorrente do ano, Forushande, do geralmente ótimo Asghar Farhadi.

Da minha parte e, como sempre, cinema é uma questão de gosto pessoal. Sendo assim, posso comentar que gostei de Toni Erdmann, mas não achei ele o melhor filme estrangeiro do ano. Da lista de nove filmes que conseguiram avançar na disputa por uma das cinco vagas na categoria do Oscar deste ano, prefiro A Man Called Ove (comentado aqui) e até Land of Mine (com crítica neste link) achei mais surpreendente e impactante.

Mas não sei, desconfio que o filme de Farhadi tem grandes chances de vencer desta produção alemã. Quer dizer, tudo vai depender dos humores e dos gostos dos votantes da Academia. Ainda preciso assistir aos outros nomes fortes da disputa para poder fazer uma avaliação final.

Toni Erdmann é bom, mas não é inesquecível ou mesmo a produção em disputa que mais me agradou. Mas ele tem boas chances no Oscar sim, especialmente porque trata de questões universais apesar de ser muito, muito alemão. Não é todo filme que consegue este equilíbrio.

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Pozitia Copilului – Child’s Pose – Instinto Materno

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Por trás de um grande idiota normalmente existe uma sequência de erros. E muitas vezes boa parte destes equívocos tem origem na criação do sujeito. Pozitia Copilului trata de um caso assim. Que poderia ser a história de diversos destes boçais que provocam horrores no trânsito ou em crimes contra as ex-namoradas e que fazem de tudo para sair ilesos. Com um baita roteiro, destes em que não é preciso tirar e nem acrescentar nada, este filme tem nas relações familiares e, especialmente, no domínio de uma mãe o seu argumento principal.

A HISTÓRIA: Sentada em um sofá e com um cigarro na mão direita, Cornelia Keneres (Luminita Gheorghiu) diz que tem vergonha de repetir o que lhe disseram. Mesmo assim, em seguida, ela diz que “estúpida” e “idiota” já viraram xingamentos habituais. Mas o grau desta vez superou em muito este padrão. Olga (Natasa Raab) escuta tudo com atenção e aconselha a irmã a deixar o filho em paz, pede para ela parar de sufocá-lo e esperar que ele a procure. Mas Cornelia não escuta. Ela diz que viu o filho, Barbu (Bogdan Dumitrache) depois de dois meses e meio e que a culpada de tudo é a nova mulher dele, Carmen (Ilinca Goia). Não vai demorar muito para que Barbu sofra um acidente grave que vai acabar testando ainda mais as relações familiares.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Pozitia Copilului): Como é bom assistir a um filme que valoriza o roteiro e o trabalho dos atores! Pozitia Copilului tem como protagonista uma mãe que faz absolutamente tudo para o filho, mesmo que ele esteja constantemente maltratando a mulher. Ser rejeitada pouco importa. Pouco a pouco vamos descobrindo mais sobre a personalidade de Barbu, assim como da protagonista, ao mesmo tempo que vai ficando claro o que aconteceu no acidente provocado pelo rapaz.

O roteiro de Razvan Radulescu com o diretor Calin Peter Netzer é uma pequena preciosidade. Antes de mais nada, porque ele vai entregando o ouro aos poucos. Nas primeiras frases do filme ficamos em dúvida sobre a origem das queixas de Cornelia. A primeira impressão é que ela está falando do marido, mas conforme o diálogo da personagem com a irmã vai se desenvolvendo, percebemos que ela está falando do filho.

O sujeito alvo de tantas críticas vamos conhecer um bocado de tempo depois, e não damos muita bola pra ele. Porque o personagem de Barbu é bem daquele jeito: um sujeito insignificante, sem nenhum grande predicado até que ele começa a abrir a boca e a maltratar a própria mãe. Na delegacia, quando ele está prestando depoimento, mais uma vez é Cornelia que se faz ouvir. O acerto no roteiro deste filme é justamente este de ir revelando sobre os personagens centrais pouco a pouco.

Outra vantagem desta história é que ela tem poucos personagens. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). O protagonismo é da mãe, Cornelia, ainda que a história toda gire em torno do filho dela. As revelações sobre estes dois personagens e a dinâmica entre eles é que vai rechear o filme. Me impressionou o realismo de Pozitia Copilului. Digo isso porque não são poucas as mães como Cornelia.

Ela não apenas faz tudo pelo filho e o coloca em primeiro lugar, como faz questão de ter controle sobre tudo – desde o filho até o marido. Cornelia tem o perfil da mulher que sufoca, que não dá espaço para os outros serem – apenas para eles obedecerem e andarem conforme a música que ela compõe. E há ao menos um momento em que ela diz o que pensa com todas as letras: quando afirma que se realiza através de Barbu.

Oras, meus caros amigos e amigas, que desvio de função para um filho é este? De fato um filho ou filha deve ser a extensão dos anseios e desejos dos pais? Que tipo de cobrança e de controle é esse? E o mais assustador é que não é apenas a personagem de Cornelia que pensa assim, mas há muitas mães e pais por aí que tem esta lógica guiando as suas vidas.

Para mim, que ainda não sou mãe e, por isso mesmo, sigo sendo apenas uma filha, uma mãe ou pai nunca podem projetar os seus sonhos e frustrações em seus filhos. Primeiro porque este tipo de cobrança é injusta. Depois, porque um filho deve ser visto como um ser único, particular, para o qual devemos dedicar o nosso melhor, ensinar valores e a fazer o certo, mas que deve ter toda a liberdade para ser o que desejar ser e desenvolver as suas próprias vocações.

Quando uma pessoa assume a postura da personagem da Cornelia, ela passa a ser a carrasca da vida do filho, dizendo o que ele deve ou não fazer, o que deve ou não pensar, sem dar qualquer espaço para a individualidade do sujeito. A excelente atriz que faz Cornelia consegue vivenciar à risca esta personagem controladora, ao mesmo tempo em que transparece todo o amor de uma mulher por seu filho. Este amor materno é imenso e belíssimo, mas deve cuidar para não ser algoz do filho e de quem mais a rodeia por consequência.

Além de ter personagens muito bem desenvolvidos, Pozitia Copilului tem uma história simples e muito bem desenvolvida. Um personagem como Barbu, um sujeito adulto que viveu sendo mimado pelos pais – especialmente pela mãe – e que, desta forma, parece não ter limites para a própria verve de crueldade, normalmente é a criatura por trás de acidentes de trânsito que vitimam o lado mais fraco. No caso do filme – e de tantos casos da vida real -, um jovem adolescente de uma família simples e sem muitos recursos.

Dentro da lógica acertada dos roteiristas Radulescu e Netzer de ir soltando as bombas aos poucos, ficamos sabendo só bem mais tarde os detalhes sobre o acidente provocado por Barbu. Quando Cornelia avança na tarefa de encobrir o crime do filho e procura o outro motorista envolvido no acidente, Dino Laurentiu (Vlad Ivanov), para fazê-lo mudar o depoimento que tinha dado até então para livrar o filho de excesso de velocidade e de imprudência na morte do jovem rapaz vizinho do local do atropelamento, ficamos sabendo que Barbu estava não apenas dirigindo acima da velocidade permitida, mas que também dirigia de forma violenta. Para ser mais precisa, praticamente disputou um racha com Laurentiu – que afirmou que o outro vinha tentando ultrapassá-lo de forma babaca há tempos.

Já vi muitas situações como aquela descrita por Laurentiu no filme. Um sujeito qualquer, um babaca destes que existe aos montes no trânsito, surge de forma virulenta atrás de um outro carro e procura retirá-lo da pista a qualquer custo para ultrapassar em uma velocidade bem acima do permitido. Este comportamento violento, para mim, sempre foi indício de sujeitos desequilibrados. E muitos deles são exatamente como Barbu, adultos que não tiveram e nem tem limites porque sempre foram superprotegidos por mães que mandam e controlam suas famílias ricas e com muitas posses para achar que podem comprar a tudo e a todos.

Quantos equívocos, meu Deus! Não apenas de mães, pais e filhos, mas também de pessoas como Laurentiu que acabam cedendo na convicção de fazer o que é certo e frear esta soberba sem limites para apenas dar razão para os idiotas em um tipo de “corporativismo” dos abastados que acaba apenas dinamitando as nossas sociedades.

Agora, ainda que Cornelia e o marido Domnul Fagarasanu (Florin Zamfirescu), conhecido mais como Relu, sejam culpados pela falta de limites do filho, não dá para ausentar Barbu de sua própria culpa. Ele é um verdadeiro cretino, destes sujeitos desprezíveis e covardes que se fazem de vítimas quando é algo do próprio interesse mas que, por trás da fumaça de ilusões, dão a impressão que são incapazes de alimentar qualquer sentimento benéfico. Eu não sei se figuras como Barbu conseguem sentir – ou que tipo de sentimentos são capazes de alimentar.

E será que este poderia ser o único futuro de um filho criado por uma mãe controladora como Cornelia? Em certo momento ela recorda da época em que Barbu era amoroso, sensível e tudo o mais. Mas os pais se equivocam achando que o filho que eles tem na infância será o mesmo sempre caso ele não aprenda os valores certos.

Me parece evidente que a criança seja “obediente” e/ou “amorosa”, afinal, ela depende dos pais e só conhece aquela realidade – até uma certa idade. Mas depois, quando passa a pensar por sua própria conta, aquele mesmo indivíduo começa a ver as falhas dos pais, começa a discordar de parte da realidade em que vive. Se esta pessoa foi criada com os valores certos, o choque pode ser mais suave. Mas se foi formada com a noção de que pode fazer tudo e que não tem barreiras para nada, certamente o efeito será pior.

Mesmo afirmando isso, evidente que eu não acredito que uma figura como Barbu não poderia ter escolhido outra realidade para si mesma. Por mais trágica ou cruel que seja a nossa formação, temos toda a liberdade para nos curarmos daquele cenário no futuro. Dá trabalho? Com certeza, mas nada é impossível para o ser humano se ele quiser buscar o caminho do bem e superar os seus próprios males.

Agora, em uma realidade como a mostrada em Pozitia Copilului, no fim das contas, qual é o saldo possível daquele cenário e que poderia ser o retrato de qualquer acidente provocado por um sujeito sem limites nas nossas rodovias e estradas reais e mortíferas? Apenas o de perdas, de vítimas provocadas por relações entre pais e filhos nada saudáveis. Não apenas os pais do garoto morto (interpretados por Adrian Titieni e Tania Popa) viraram vítimas de Barbu junto com o filho, mas também Carmen sofreu na pele os destemperos daquele homem com sérios problemas de comportamento.

Mais que um ótimo desenvolvimento no decorrer do filme, com o aprofundamento da história e dos personagens, Pozitia Copilului tem um ótimo final. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Quem estava simpatizando com Cornelia até aquele momento, dando razão para a mãe que estava fazendo de tudo para proteger o filho e afastá-lo da prisão – mesmo que isso significasse mentiras, suborno e que fosse errado -, passa a ter esta visão otimista balançada pela reta final da produção. Afinal, como não abominar aquela mulher que vai visitar os pais da vítima e que, mesmo ali, enaltece o filho ao invés de realmente se colocar no lugar dos outros? O egoísmo dela é de mexer com os brios.

E desta forma, com um roteiro inteligente e poucos atores, este filme comprova como tantos outros já fizeram que o cinema não precisa de rios de dinheiro. Basta uma grande ideia na cabeça e uma câmera na mão, praticamente. Com estes recursos é possível fazer pensar e mexer com os sentimentos e as certezas das pessoas, como este Pozitia Copilului faz muito bem.

Agora, para não dizer que o filme é perfeito, em alguns momentos há pequenas falhas na direção de Calin Peter Netzer, com um certo descontrole da câmera – especialmente quando Cornelia e Carmen chegam na casa dos pais do adolescente morto. E alguns devem ficar incomodados com a sequência final, quando Barbu vai falar com o pai do jovem e não sabemos qual é o desabafo do crápula.

Da minha parte, tenho um palpite: acho que ele foi lá pedir desculpas e dizer para o pai do garoto que ele estava disposto a pagar pelo próprio erro, a despeito da mãe superprotetora. Mas como o roteiro não deixa isso comprovado, qualquer outra versão da fala dele também é válida. Daí fica ao gosto do espectador. Muitos não gostam desta fórmula, mas eu acho os finais “abertos” sempre interessantes. Independente do gosto sobre este final, algo é certo: Pozitia Copilului cumpre muito bem o seu papel.

NOTA: 9,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O ponto alto de Pozitia Copilului é, como eu disse antes, o ótimo roteiro da dupla Razvan Radulescu e Calin Peter Netzer. Mas além daquelas linhas bem escritas, com diálogos marcantes e onde não há palavra que sobre, devo destacar também o trabalho de Netzer na direção. Ele assume a postura quase de um documentarista, com uma câmera ligeira e que busca sempre estar próxima dos atores. Esqueça planos abertos e a valorização de paisagens e/ou cenários. O que interessa nesta produção é a interpretação – os gestos e o que é dito.

Este filme, para mim, é mais um exemplo como o Oscar pode ser benéfico para o cinema mundial. Eu estava de olho em Pozitia Copilului não porque o filme tinha recebido este ou aquele prêmio, mas porque era considerado um forte candidato para o Oscar – antes da lista de indicados ser divulgada. No fim das contas ele ficou de fora da reta final da disputa, mas ainda assim ele ganhou uma certa evidência. Os indicados de cada país na categoria de Melhor Filme em Língua Estrangeira, normalmente, merecem uma conferida. O difícil é arranjar tempo para ver a todos. 🙂

Fiquei impressionada com o trabalho da atriz Luminita Gheorghiu. Ela está perfeita no papel de Cornelia, em um papel que tem várias camadas de interpretação. Para mim, a qualidade desta atriz é similar ao do trabalho de Paulina García em Gloria (comentado aqui). Mas o curioso é que García foi muito mais badalada que Gheorghiu. Para ver como nem sempre os burburinhos do cinema fazem justiça com todos.

Falando nos atores de Pozitia Copilului, além de Gheorghiu, chamou muito a minha atenção o trabalho de Ilinca Goia como Carmen – ela rouba a cena toda vez que aparece e tem um momento incrível na produção quando faz aquela confissão constrangedora para a mãe de Barbu sobre a intimidade deles. Gostei também da firmeza de Vlad Ivanov no papel do arrogante Dinu Laurentiu – ele aparece pouco, mas tem uma presença marcante.

Da parte técnica do filme, o único destaque além da direção de Netzer é a edição de Dana Bunescu. O restante funciona, mas sem nenhum outro destaque.

Pozitia Copilului estreou em fevereiro de 2013 no Festival Internacional de Cinema de Berlim. Depois, o filme participaria ainda de outros 14 festivais, incluindo os de Karlovy Vary, Toronto, San Sebastián, Londres, São Paulo e Estocolmo. Nesta trajetória ele conseguiu três prêmios e foi indicado a um quarto prêmio. Entre os que recebeu, destaque para o Urso de Ouro de Melhor Filme no Festival de Berlim e para o Prêmio FIPRESCI entregue no mesmo evento.

Esta produção teria custado aproximadamente 850 mil euros e faturado, apenas nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 33,7 mil. Pouco, quase nada, porque estreou em um circuito limitadíssimo. Infelizmente não consegui encontrar informações sobre a bilheteria do filme em outros mercados. Mas eu espero que ele consiga se pagar.

Fiquei curiosa para saber o significado do título original do filme já que, para o meu gosto, “Instinto Materno” me parecia um pouco estranho. A tradução literal de “Pozitia Copilului” é “posição do bebê”. Hummmmm… ainda mais misterioso este título. 🙂 Mas dá para usar a criatividade e fazer uma interpretação dele em relação a história do filme. O título em inglês acompanha o original, apenas a tradução para o mercado brasileiro que leva o título para outra linha.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,7 para este filme. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes escreveram 46 textos positivos e três negativos, o que lhe garante uma aprovação de 94% e uma nota média 7,5. Boas avaliações segundo os padrões dos dois sites.

Este é apenas o terceiro longa do diretor Calin Peter Netzer. Ele estreou no cinema com o curta-metragem Zapada Mieilor, de 1998. O primeiro longa veio cinco anos depois: Maria. Entre aquela produção e Pozitia Copilului, houve ainda Medalia de Onoare. Segundo o site IMDb, a melhor avaliação entre estas produções é a de Zapada Mieilor com a nota 7,9.

Pozitia Copilului é uma produção 100% da Romênia. E ela foi indicada por aquele país para representá-lo no Oscar.

CONCLUSÃO: Um filme direto, com um ótimo roteiro e interpretações muito convincentes. Pozitia Copilului é destas produções que não vão te deixar sem reação. Como um legítimo tapa no rosto, este filme pelo menos desperta reflexão, quando não alguma indignação. 🙂 E o mais interessante é que da forma com que ele é construído, bem que ele poderia ser um documentário de imersão na realidade de muitas famílias com boas condições de vida e pouca noção do que é ter relações saudáveis. Como diria o Cazuza, “só as mães são felizes”. Mesmo na infelicidade, assim parece sugerir Pozitia Copilului. Esse amor é impressionante mas, algumas vezes, também bastante destrutivo. Vale assistir, se entregar para a história e refletir sobre o que encontramos por aí.