Drive


Um filme com estilo. No conteúdo e na forma. Drive resgata um jeito de fazer cinema um tanto esquecido e presenteia o espectador com uma história bem contada e envolvente. Quem diria que um sujeito bom de braço no volante poderia ser tão versátil. E render tantas cenas instigantes muito além da ação. Drive lembra um pouco o estilo da boa fase de Quentin Tarantino. Mas não é uma cópia do estilo do diretor ou mesmo uma releitura. Ele tem criatividade e estilo próprio, com foco menor nos diálogos e uma atenção maior em outros quesitos.

A HISTÓRIA: Um homem (Ryan Gosling) comenta, por telefone e olhando por uma janela de hotel, que há milhares de ruas em Los Angeles. E que basta o interlocutor dizer hora e local, que ele dará cinco minutos para ele. Depois deste tempo, ele irá embora, não importa o que aconteça. Em seguida, ele diz que a pessoa não poderá falar mais com ele naquele celular. O homem pega uma bolsa e sai do quarto. Dirige pelas ruas iluminadas, até chegar em uma oficina e pegar um Chevy Empala, um carro mais básico e comum para ele dirigir. O dono da oficina, Shannon (Bryan Cranston) explica que este é o carro mais usado na Califórnia. O protagonista então dirige, escutando a transmissão do jogo entre Celtics e Clippers. Chega no lugar combinado, vê dois homens atravessando a rua e tira o relógio do pulso para colocá-lo no volante. Ele dá cinco minutos para eles fazerem o roubo e depois segue para a fuga. A partir daí, mergulhamos na vida deste motorista.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Drive): Uma pessoa nunca é uma coisa só. Um médico não é apenas um sujeito que tenta curar pessoas. Ele também pode ser um pai, sem dúvidas é um filho – ou já foi um -, um apreciador de bons vinhos, um especialista em mitologia grega, um ótimo pescador e tantas outras coisas… Da mesma forma, o protagonista de Drive não é apenas um ótimo motorista. Mas a habilidade dele para guiar com maestria um carro e seu conhecimento das ruas de Los Angeles fazem ele utilizar este diferencial para muitas funções.

No começo de Drive, ele parece ser apenas um motorista voraz e especialista em fugas espetaculares. E aí surge a primeira boa sacada da direção de Nicolas Winding Refn: mostrar como o ingrediente principal do protagonista não é a destreza, dirigir o carro de uma maneira enfurecida, mas a inteligência. Ele conhece como ninguém as ruas e quebradas de Los Angeles. Sabe como a polícia funciona. E, pouco a pouco, o roteiro de Hossein Amini vai nos mostrando que ele conhece também, com precisão, o funcionamento da bandidagem.

Um grande acerto do filme, para começar, é esta resistência em cair no lugar-comum de um filme de ação. Ainda que a destreza no volante seja fundamental para o protagonista, este não é o único elemento que o diferencia dos demais. A inteligência e o comportamento reto, centrado em proteger a Irene (Carey Mulligan) e seu filho, Benicio (Kaden Leos), e a manter-se vivo, contam muito mais. Então Drive acaba tendo elementos de filmes de ação, mas ele também abraça o drama e o suspense. Faz lembrar dos filmes noir, não apenas pelo estilo, mas pela lógica da produção, na qual o protagonista parece fadado a se dar mal – e tem que lutar para manter-se o mais limpo possível em um ambiente de contravenções e de um tipo de “submundo”.

Como em tantas outras produções, acompanhamos o protagonista em um momento de ruptura. Ele está deixando a vida de motorista de ladrões para abraçar apenas as suas outras duas profissões: dublê de astros em filmes de ação e mecânico. Neste momento, como manda a regra da roda-viva do cotidiano, ele também encontra outro motivo para mudar de foco: conhece a Irene e seu filho. Fica encantado por ela, e parece que o interesse é recíproco. Mas como nunca as coisas são fáceis, ele só se complica com esta ilusão de viver um grande amor.

Porque Irene é toda uma complicação. O protagonista não demora muito para saber que ela é casada com um cara que está na prisão. E ele, o marido, Standard (Oscar Isaac), também não tarda muito para dar as caras. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). E daí aquele primeiro lugar-comum básico: Standard é pressionado a fazer um “último trabalho” para pagar uma dívida contraída na prisão. E o protagonista se oferece para ajudar. Não por causa de Standard, claro, mas porque ele quer proteger Irene e Benicio. E como manda a regra de um filme que lembra o estilo noir, claro que algo vai sair errado. E sai.

A partir daí, o filme mergulha no submundo do crime, com os parceiros Bernie Rose (Albert Brooks, naquele que talvez seja o seu melhor desempenho em muito tempo) e Nino (Ron Perlman) assumindo os papéis de vilões no melhor estilo de mafiosos. O protagonista, sempre tão cuidadoso e cheio de regras – a principal delas, de não se envolver emocionalmente nos crimes – acaba se dando mal justamente quando perde o racionalismo. Drive, desta forma, também não deixa de ser um romance. Com elementos de ação, suspense e crime, mas um romance.

Assim, meio sem percebermos, adentramos na vida de um sujeito que simboliza as diferentes expressões de Los Angeles, dos Estados Unidos e, por que não dizer, de qualquer grande cidade e país do mundo? Esse motorista que dá título ao filme nos conduz pela história com maestria, revelando um pouco da simplicidade de quem enche as mãos de graxa, dos bastidores de uma indústria milionária como é o cinema, dos caminhos retos de quem trabalha muito e incorretos de quem busca a alternativa do crime para faturar muito em pouco tempo.

Los Angeles também é uma personagem da história. Se for olhado com uma lupa, Drive trata da busca tradicional do homem que parece perdido, sem sentimento, pela redenção, pelo amor, por um recomeço diferente. Ele quer mudar a lógica da roda que repete sempre a mesma fórmula. Vários filmes já trataram disto, é verdade. E ainda assim, Drive consegue contar esta história de forma diferente. E com muito estilo.

O personagem de Gosling é destes que há muito não vemos no cinema. Que cria fascínio pela personalidade, e porque nos colocamos muito próximos dele, ao mesmo tempo que desperta repúdio pelos crimes que comete ou ajuda a cometer. O ator dá um show. Convence e carrega o filme nas costas, ainda que os atores coadjuvantes também estejam muito bem. A direção de Refn, que nos aproxima sempre do protagonista e dos demais personagens, e que consegue criar a tensão exata nos momentos mais delicados, também é fundamental. Assim como o roteiro de Amini, que inova nos momentos precisos sem, para isso, tirar coelhos da cartola. A história parece realista, e esse tom é fundamental para que Drive funcione.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Para funcionar tão bem, Drive tem na qualidade dos elementos técnicos um ponto fundamental. Além de dirigir muito bem as cenas de ação, o diretor Nicolas Winding Refn acerta em cheio na forma de dirigir as demais cenas. Em como criar a tensão exata quando o protagonista está sendo perseguido, e de como valorizar o trabalho dos atores e o texto bem escrito por Hossein Amini. Um grande trabalho do diretor.

Mas para o filme conseguir a nota máxima, ele precisou também que outros detalhes funcionassem com perfeição. O primeiro elemento que me chamou a atenção nesta produção é a trilha sonora. Envolvente, moderna, ela dita um ritmo importante para a produção, especialmente em seus momentos de “reflexão”, sem diálogos. Mérito de Cliff Martinez. Ele também é responsável por ficarmos com a música A Real Hero, de College, na cabeça. Ela também serve para “resumir” a mensagem do filme, de transformar aquele “sujeito comum”, suscetível a todos os acertos e erros possíveis, em um “herói”. Drive consegue fazer com que ele seja visto assim, e que o espectador torça por ele.

Depois da trilha sonora, palmas para a direção de fotografia de Newton Thomas Sigel, que consegue capturar a melhor luz de Los Angeles durante o dia e as cores artificiais da cidade pela noite com precisão. Além do olhar diferenciado de Refn, o filme se destaca por uma edição cirúrgica de Matthew Newman. Sem ele, o filme perderia bastante do ritmo.

Difícil escolher apenas algumas cenas de Drive para destacar. Há muitos momentos bem pensados e filmados nesta produção. Mas eu gostei de alguns mais do que outros. Por exemplo, a sequência do protagonista e de Blanche (Christina Hendricks, ótima atriz de Mad Men) no hotel e a descida de elevador dele com Irene pouco depois. Simplesmente, genial.

Este, sem dúvida, é o grande filme de Ryan Gosling. Agora sim, consigo entender porque Hollywood está badalando tanto este ator. Ele merece. Há muito tempo eu não via um intérprete se sair tão bem em um papel complexo, que alia o lado mais bandido com o de mocinho. Gosling é carismático. Está lindo em Drive. E consegue convencer em cada nuance do seu papel. Se ele acertar em outras escolhas de papel como esta, poderá tornar-se um dos principais nomes de Hollywood em pouco tempo.

Os demais atores desta produção também estão muito bem. Gostei de ver Bryan Cranston em cena. Lembrei do trabalho excepcional dele em Breaking Bad durante todo o tempo. Mas em Drive ele está muito mais como “cordeirinho”. 🙂 Carey Mulligan também está ótima. Frágil, observadora e carismática na medida. Ainda que em um papel muito menor que dos outros dois, achei que Christina Hendricks se destaca no filme.

Drive estreou no Festival de Cannes em maio de 2011. De lá para cá, a produção passou por outros 13 festivais mundo afora. Nesta trajetória, ganhou 39 prêmios e concorreu a outros 56. Números impressionantes. Entre os prêmios que recebeu, destaque para os de melhor diretor para Nicolas Winding Refn no Festival de Cannes; o de melhor filme americano no Robert Festival, na Dinamarca; e quatro prêmios no Satellite Awards, entregue pela imprensa de Hollywood. Nesta última premiação ele ganhou como melhor ator para Ryan Gosling; melhor ator coadjuvante para Albert Brooks; melhor diretor para Refn; e melhor som (edição e mixagem). Albert Brooks foi indicado ao Globo de Ouro como melhor ator coadjuvante, mas foi vencido pelo favorito também no Oscar, Christopher Plummer.

Esta produção demonstra, mais uma vez, como um ótimo filme não precisa custar mais de US$ 100 milhões. Drive teria custado cerca de US$ 15 milhões. Até o momento, ele arrecadou mais que o dobro apenas nos Estados Unidos. O acumulado nas bilheterias, até o dia 5 de fevereiro, chegou a pouco mais de US$ 35 milhões. Não é nenhum resultado fantástico, arrasa-quarteirão, mas também não é desprezível.

Curiosidades sobre Drive: Ryan Gosling assumiu o papel que seria de Hugh Jackman. Acho que o Wolverine teria se saído bem mas, certamente, teríamos uma produção muito diferente com ele. Refn também substituiu outro nome inicialmente cotado para o projeto, o diretor Neil Marshall. Durante a preparação para a produção, Gosling restaurou o Chevy Malibu de 1973 que o seu personagem iria utilizar na produção. Inicialmente, os personagens de Irene e Standard seriam latinos. Mas isso mudou com a entrada de Carey Mulligan no projeto.

O diretor Refn não tem carteira de motorista e falhou oito vezes em tentar obter uma. Ele também não conhecia muito Los Angeles. Para resolver esta questão, que poderia ser um problema para o filme, ele andou como carona do ator Ryan Gosling para cima e para baixo. O nome do protagonista não é revelado em momento algum, e os diálogos dele com Irene são tão raros porque os atores resolveram que os encontros dos personagens deveriam previlegiar o humor deles. Para tornar isso mais evidente, Mulligan e Gosling resolveram não falar muitas linhas do roteiro, apenas olharem um para o outro. Funcionou. E muito bem.

Drive faz uma referência à fábula do Sapo e do Escorpião, aquela em que um sapo aceita ajudar a um escorpião a atravessar um rio mas, no caminho, ele é picado pelo ferrão do escorpião e os dois acabam morrendo. Antes, o escorpião diz que ele não pôde evitar aquele gesto porque aquela é a sua natureza. Em Drive, o protagonista é o sapo, que dirige para os bandidos e acaba sendo “picado” por eles, arrastado para o lado destrutivo da vida por causa deles. Não por acaso ele usa aquela estilosa jaqueta com um escorpião – assim, ele leva sempre o animal perigoso nas costas. Ah, e o ator, Gosling, é do signo Escorpião. 🙂

Gostei do trabalho de Refn e fui buscar mais informações sobre ele. Dinamarquês, ele tem nove filmes no currículo, incluindo Only God Forgives, que está sendo filmado. Refn estrou nos cinemas em 1996 com Pusher. Em 2009 ele lançou o estiloso Valhalla Rising, que eu ainda não assisti. Agora é esperar para ver a Only God Forgives, estrelado novamente por Gosling e com Kristin Scott Thomas, entre outros, no elenco.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8 para Drive. Não está mal, mas poderia ser melhor. Os críticos que tem seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram mais generosos, dedicando 207 críticas positivas e apenas 16 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 93% e uma nota média de 8,2.

O roteiro de Drive é inspirado no livro de James Sallis.

CONCLUSÃO: Estamos sempre ao lado do protagonista. Tão perto, fica difícil não compartilhar de sua adrenalina, ousadia, frieza e emoção. Drive acerta ao colocar o espectador em posição tão privilegiada. Filme de ação, mas com espaço para aprofundar nos sentimentos e desejos dos personagens, Drive entra em universos diferentes de Los Angeles para traçar um quadro interessante da cidade e de alguns de seus personagens. Com um ótimo estilo narrativo e visual, e com um desempenho irrepreensível de Ryan Gosling, Drive mantém o interesse do espectador do primeiro até o último minuto. E ainda que o roteiro tenha lugares-comuns um tanto inevitáveis, ele sabe dar as viradas narrativas no momento certo, tornando toda a aventura da história um belo achado. Uma forma diferenciada de fazer filme noir que dá gosto de assistir. Quem gosta de Quentin Tarantino, deverá curtir este filme. Drive lembra a melhor fase dele e de vários outros diretores que souberam recriar o estilo noir. Mas com a diferença deste filme ter um foco menor nos diálogos e maior nas características dos personagens e das situações vividas por eles.

PALPITE PARA O OSCAR 2012: Drive está concorrendo em apenas uma categoria: edição de som. Uma pena. Ele facilmente poderia ter sido indicado como melhor trilha sonora e edição, dois de seus pontes fortes. Mas ok, ele ficou apenas com edição de som. Nesta categoria, ele tem fortes concorrentes: The Girl with the Dragon Tattoo, Transformers: Dark of the Moon, War Horse e Hugo. Destes, assisti apenas ao último. Mesmo sem ter visto aos demais, acredito que os favoritos nesta categoria sejam Transformers e Hugo. Não vejo que Drive tenha muitas chances para vencer. Eu não apostaria nele.

SUGESTÕES DE LEITORES: Só depois de publicar o texto sobre Drive e começar a responder aos comentários de vocês, meus bons leitores, de janeiro, é que eu percebi que este filme tinha sido indicado pelo André Oliveira no primeiro dia deste ano. Grande dica, hein, André? Filmaço! Gostei muito. Estiloso, com um ritmo perfeito. Muito obrigada pela dica.

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6 comentários em “Drive

  1. Olá Ale!
    como vai?

    Sensacional esse filme, mesmo. assisti ano passado e fiquei maravilhado, fala de boca cheia para todos que conheço.
    Gostaria de estar com ele mais fresco na memória, mas as cenas que você destacou, provavelmente são as minhas preferidas também… o filme é sublime, te deixa tão na expectativa do que pode e vai acontecer que seu corpo reage junto com o filme.

    Parabéns pelo texto, concordo plenamente com a nota.

    beijos

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    1. Oi Lorenzo!

      Há quanto tempo! Muito bom te “encontrar” por aqui outra vez.

      De veras… Drive é maravilhoso. Um filme sem grandes pretensões, mas que funciona completamente, nos mínimos detalhes.
      Ele nos conduz pelas mãos do início ao fim, e não resistimos. É ótimo.

      Fico feliz que tenhas gostado da crítica.

      Abraços e inté!

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  2. Concordo inteiramente também com a nota e suas impressões do filme…
    O resgate de um estilo de filme, de uma cidade que a tempos não participa, como você disse, sendo uma personagem da história, acho que nos anos 80 se faziam mais isso…
    Com precisão você definiu: “um filme com estilo”, e foi justamente isso que percebi ao iniciar o filme, a trilha sonora, as tomadas de LA, etc…
    Suspense, ação, violência, romance, drama, Drive…
    Parabéns pela resenha!!

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    1. Oi Marcus!

      Puxa, que legal que você curtiu a crítica, minhas impressões e o filme, claro.

      Grande história, grande produção, não é mesmo? Também gostei… achei perfeita. Há tempos não víamos um filme com essa “alma dos anos 80” – dos grandes filmes daquela época, claro.

      Legal.

      Obrigada por mais esta visita e por este comentário. Um grande incentivo para mim.
      Espero que voltes por aqui mais vezes.

      Abraços e inté!

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