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Shame

Duas pessoas com problemas. Graves, sem uma solução fácil. Mas a dificuldade para a solução está, justamente, na forma desapegada de vivermos atualmente. Shame permanece focado na história de dois indivíduos mas, através deles, o filme reflete sobre a hiper sexualidade de uma geração sem amarras, com pouca capacidade para se comprometer, mas que busca constantemente o prazer. Ainda que interessante e com duas grandes atuações, Shame é um filme um tanto repetitivo e bastante erótico. Bem feito, mas lhe falta um pouco de inventividade.

A HISTÓRIA: Um homem está acordado e olha para o alto enquanto está deitado nu na cama, com o lençol tapando metade de seu corpo. Ele se levanta. Depois, aparece na estação do metrô. Dentro de um vagão, ele observa os passageiros, até fixar o olhar em uma jovem bonita. Corta. Em outra ocasião, logo após gozar ao lado de uma mulher qualquer, ele sai nu pela casa e ouve uma mensagem na secretária eletrônica. Uma mulher pede para ele atender o telefone. A garota no metrô começa a ficar constrangida com o olhar fixo dele. O homem, em outra ocasião, recebe uma garota de programa em casa. Segue a sequência anterior, da gravação, e descobrimos que o nome deste homem é Brandon (Michael Fassbender). Vamos acompanhá-lo no trabalho e em suas variadas cenas de conquista e sexo.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Shame): Logo de cara, nós sabemos que aquele homem tem algum problema. E a música que o acompanha, de permanente “suspense” apenas aumenta a expectativa para que algo de muito errado aconteça. O bom é que esta expectativa não termina em um lugar-comum fácil, como de que ele é um psicopata, assassino de prostitutas, ou um maluco deste gênero.

Pelo contrário. O personagem de Brandon Sullivan assusta pelo tanto que ele é um “sujeito comum”. Não sei vocês, mas eu fiquei o tempo todo pensando sobre a quantidade de homens solteiros que fazem o mesmo que ele. Que estão pensando o tempo todo em sexo e cuidando de sentir prazer o máximo de tempo possível. Não é ruim, é claro, sentir prazer. Mas buscá-lo daquela forma, simplesmente, sem nenhum apego ou risco de compromisso, é sinal de doença. E grave.

Impressionante como o protagonista de Shame não tem apego por nada. Ele vai para o trabalho, mas não gosta do que faz. Ou não se interessa o suficiente pela profissão – do contrário, não chegaria constantemente atrasado. Não tem relacionamentos verdadeiros. Sai com o chefe, David Fisher (James Badge Dale), que vê em Brandon a isca perfeita para despertar o interesse de mulheres interessantes. Pega mulheres à torto e direito, mas não se encontra com elas mais do que uma noite.

No início, fiquei impressionada com o apetite dele por sexo. Parece que ele pensa o tempo inteiro no prazer que uma transa pode proporcionar. A dúvida, e ela é plantada de maneira eficaz desde a sequência inicial do metrô, é se ele chega a ser perigoso na ânsia de saciar a própria necessidade por prazer. Pessoalmente, fiquei o tempo todo esperando ele fazer uma grande besteira. Estuprar uma mulher, ou algo pior. Bela sacada dos roteiristas Steve McQueen e Abi Morgan plantar esta dúvida logo no início do filme.

Shame segue em bom ritmo. Não demora muito para a personagem de Sissy (Carey Mulligan) invadir a rotina do protagonista. E ela desestabiliza aquela rotina “segura” e previsível dele que parece se resumir a chegar no trabalho atrasado, sair com o chefe para caçar e terminar a noite sempre com uma mulher diferente. Sissy é um risco para essa “segurança” vazia de Brandon. Ela grita, e de forma insistente, por atenção e carinho. Tenta resgatar laços, manter uma relação. Tudo que ele parece incapaz de conseguir.

Além disso, e percebi isso só quando assisti ao trailer do filme, depois que eu já tinha assistido a Shame, Brandon fica tão perturbado com a presença da irmã porque ele não consegue lidar com a ideia dos homens tratando ela da mesma forma com que ele trata todas as mulheres que ele encontra. Ou seja: ele não suporta pensar em Sissy como apenas um corpo que pode ser usado e jogado fora depois por qualquer homem – especialmente os que ele conhece. Ele fica perturbado com isso, e acaba repensando seus próprios atos. Interessante.

Este filme, por tudo isso, é um retrato do lado cínico e sem capacidade de comprometer-se que caracteriza parte das pessoas do nosso tempo. Todos muito ocupados em ter vidas vazias, sem maiores significados ou relações pessoais. Brandon sofre e vive uma rotina autodestrutiva, regada a sexo, bebidas, noitadas e alguma carreira de cocaína. Sissy sente-se frágil, sugere constantemente estar doente e acaba voltando, de forma recorrente, à tentativa do suicídio.

Os dois são lindos, inteligentes, tem oportunidades na vida. Ele, um ótimo trabalho – ainda que nunca fique evidente o que ele faça, mas ele está em uma empresa que parece ter futuro. Ela, com uma voz maravilhosa, pode virar uma estrela da noite cantando. Mas nenhum dos dois irmãos parece ser capaz de dar certo, de ser feliz. Sissy percebe isso e pede ajuda para o irmão tentando, ao resgatar o laço deles, ajudá-lo também. Não sabemos se isso dará certo. E pouco importa. O retrato, a crítica e a reflexão sobre este tipo de “enfermidade social” já estão feitos. E essa é a principal qualidade de Shame.

Pena que nem tudo seja perfeito nesta produção. Depois dos roteirista acertarem com o elemento de suspense e tensão e em não demorar muito para introduzir a ótima Carey Mulligan na produção, as boas ideias parecem ter quase evaporado. As cenas de sexo do protagonista se repetem, ficando cada vez mais estimulantes, é verdade. O drama da irmã dele também fica mais intenso, mas ela aparece menos do que deveria. O problema é que as situações se repetem além do desejado. O filme perde um pouco da força, ainda que a trilha sonora cheia de tensão tente deixar o espectador sempre neste estado de alerta.

Ainda que o filme não termine com uma conclusão óbvia, eu vi naquele olhar do ótimo ator Michael Fassbender na última cena no metrô uma diferença. Ele pareceu, finalmente, entender que não poderia seguir com aquela vida sem comprometimento. Talvez ele consiga mudar. Talvez não. Mas o olhar não parece mais ser o mesmo.

NOTA: 9,4.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Eis um grande trabalho do diretor Steve McQueen, que também assina o roteiro da produção ao lado de Abi Morgan. Ele acerta ao acompanhar de perto o protagonista e contar, através de seu olhar, os vícios de uma geração obcecada pelo prazer. Essa busca, com a Aids por aí, ainda incurável, é apenas mais uma forma de tentar acabar com a própria vida. E quem está imerso neste consumo desenfreado por sexo, parece incapaz de perceber que exagera na dose, que sua busca tornou-se uma enfermidade. Shame mostra isso, e um rápido lapso de consciência do protagonista quando ele joga sua imensa “coleção” fora.

Gostei do trabalho do diretor de fotografia Sean Bobbitt. Ele usa lentes que fazem a produção ter um ar frio permanente. As roupas escolhidas por David C. Robinson para o figurino da produção reforçam esse clima. Já a trilha sonora, fundamental para a produção e assinada por Harry Escott, cumpre bem o seu papel. No início. Depois, o filme perde o momento de mudar de tom. Gostei quando a música clássica entra em cena. Mas aquele ritmo de “filme de suspense” quase permanente chega a irritar um pouco.

Da parte técnica do filme, vale comentar ainda o bom trabalho do editor Joe Walker.

Como tantos e tantos homens por aí, David não se importa de sair à noite para caçar mulheres com um anel que mostra que ele é casado no dedo. Acho errado, com certeza. Mas pelo menos ele deixa claro, para quem quiser ver – e se importar – qual é o seu estado civil. Mais honesto que outros homens que fazem o mesmo, mas tirando o anel do dedo.

Existe pelo menos uma questão dúbia nesta produção. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Não sei vocês, mas fiquei permanentemente na dúvida se Brandon e Sissy teriam tido alguma relação incestuosa anteriormente. Porque percebe-se que ele fica muito incomodado com a presença da irmã, e fiquei na dúvida se seria apenas porque ela estava quebrando a rotina dele – o que não é pouca coisa, concordo – ou se eles teriam alguma relação complicada e, quem sabe, sexual no histórico. Acho que esta questão não fica esclarecida, mas há uma certa sugestão no ar. Assim como não fica claro se Sissy estaria realmente com algum problema mais grave, como alguma doença, ou se ela estava apenas em mais uma fase de baixa estima gravemente baixa. São pontos sem resposta única e que fazem o filme ser ainda mais complexo e interessante.

Shame é, claramente, uma produção focada no trabalho de um ator. Se fosse um texto, seria uma narrativa em primeira pessoa. No caso, a ótima é do personagem de Brandon, por isso Michael Fassbender se destaca. Mas há espaço para pelo menos uma outra ótima atuação. No caso, do oposto do protagonista, encarnado pela personagem de Carey Mulligan. Maravilhosa. A versão dela de New York, New York é incrível. Uma das melhores que já ouvi.

Mas na produção, claro, há espaço para alguns coadjuvantes. Além do já citado James Badge Dale, que interpreta o cafajeste chefe de Brandon, vale citar o trabalho de Nicole Beharie como Marianne. Ainda que o diálogo dela com o protagonista pareça um pouco premeditado no restaurante, ela toca na ferida dele. E ajuda Brandon, em outro momento, a perceber que tem um problema sério a ser tratado. Ela está muito bem, ainda que não apareça muito.

Muitos filmes competentes são de baixo orçamento. Shame é mais um exemplo disto. Esta produção teria custado aproximadamente US$ 6,5 milhões. Para vocês terem uma ideia, The Descendants, que não tem nenhum grande efeito especial e pode ser considerado um bocado “cru”, custou mais de três vezes isto – ou US$ 20 milhões.

Mas sem tanto apelo e nenhuma indicação ao Oscar, Shame não se saiu bem nas bilheterias dos Estados Unidos. Até o dia 26 de fevereiro ele tinha arrecadado pouco mais de US$ 3,8 milhões nas terras do Tio Sam. No restante dos países onde estreou, ele conseguiu pouco mais de US$ 9 milhões. Ufa, ainda bem! Pelo menos ele se pagou e conseguiu algum lucro. Mesmo que o público estadunidense não tenha ajudado muito para isso.

Shame estreou em setembro no Festival de Veneza. Depois, ele participou de outros 10 festivais, incluindo os de Toronto, San Sebastian e Londres. Nesta jornada, ele conquistou 21 prêmios e outras 41 indicações. Números importantes. Entre os que recebeu, destaque para os prêmios FIPRESCI e CinemAwenire como Melhor Filme no Festival de Veneza, onde o ator Michel Fassbender foi premiado ainda como Melhor Ator no Volpi Cup. Destaque também para o prêmio de Melhor Ator recebido por Fassbender no British Independent Film Awards e o prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante para Carey Mulligan no Hollywood Film Festival.

Esta produção foi ignorada pelo Oscar, mas teve Michael Fassbender indicado ao Globo de Ouro de Melhor Ator – ele perdeu a estatueta para George Clooney, por The Descendants.

Curiosidades sobre o filme: ele foi rodado em apenas 25 dias; a cena em que Carey Mulligan canta foi rodada em tempo real, com a atriz realmente soltando a voz e com os dois atores que aparecem em cena presenciando, pela primeira vez, o desempenho dela como cantora. Outras curiosidades sobre esta cena: ela foi rodada as três horas da manhã e teve três câmeras focando os atores individualmente – para que fossem captadas as suas reações em detalhes (ou seja, Fassbender realmente chorou com a performance).

E mais uma: Fassbinder disse que realmente urinou na cena em que ele aparece fazendo isso – e que aquela sequência foi rodada três vezes, com ele repetindo a “performance” em cada uma. Para finalizar, o hotel onde Fassbender transa com Amy Hargreaves na frente da janela, o Manhattan’s The Standard, inaugurado em 2009 próximo do parque High Line, é conhecido por várias cenas similares, de clientes que transam na janela podendo ser assistidos por pedestres que passam abaixo.

Shame foi totalmente rodado em Nova York, mas é uma produção 100% inglesa.

Os usuários do site IMDb gostaram do filme, dando para ele a nota 7,9. Os críticos que tem seus textos linkados no Rotten Tomatoes chegaram bem perto desta avaliação, dedicando 140 críticas positivas e 36 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 80% e uma nota média de 7,4.

Carey Mulligan, mais uma vez, mostra um ótimo gosto na escolha de seus papéis. E ela brilha. Vejo que ela terá cada vez mais destaque no cinema e será uma questão de tempo para aparecer no Oscar como indicada outra vez.

Este é o segundo longa do diretor londrino Steve McQueen. Antes, ele dirigiu Hunger, muito elogiado – e que eu ainda não vi, mas está na minha lista. Antes destes, ele fez apenas o curta Exodus. Atualmente, ele trabalha na pré-produção de Twelve Years a Slave, estrelado novamente por Michael Fassbender e ainda com Brad Pitt. Ele vale ser acompanhado.

CONCLUSÃO: Duas pessoas estão gritando por ajuda, ainda que sejam incapazes de verbalizar com clareza os seus próprios desesperos. A vida passa, o tempo corre, e quando os dois percebem, estão sozinhos. Ele, não fica nenhuma noite desacompanhado. Ela, procura abrigo na casa dele e atenção cantando delicadamente. Os dois são bons sedutores, mas não conseguem emocionar-se. Apenas gozam. Shame fala de sexo, prazer, solidão e desespero. Não é um filme fácil, mas também não é simples o cenário em que vivemos. Eis um retrato interessante de dois adultos belos, com muitas razões para serem valorizados, mas que se depreciam a cada dia. A história é ótima, mas só peca um pouco pela falta de ritmo. Algumas repetições também poderiam ter sido evitadas. E é bom que você esteja preparado para um semi-pornô. Ainda que o sexo não seja explícito, há muitas e reiteradas cenas do gênero. Mas todas elas se justificam é claro. Belo trabalho do diretor e dos dois atores principais. Este trio merece ser acompanhado.

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Drive

Um filme com estilo. No conteúdo e na forma. Drive resgata um jeito de fazer cinema um tanto esquecido e presenteia o espectador com uma história bem contada e envolvente. Quem diria que um sujeito bom de braço no volante poderia ser tão versátil. E render tantas cenas instigantes muito além da ação. Drive lembra um pouco o estilo da boa fase de Quentin Tarantino. Mas não é uma cópia do estilo do diretor ou mesmo uma releitura. Ele tem criatividade e estilo próprio, com foco menor nos diálogos e uma atenção maior em outros quesitos.

A HISTÓRIA: Um homem (Ryan Gosling) comenta, por telefone e olhando por uma janela de hotel, que há milhares de ruas em Los Angeles. E que basta o interlocutor dizer hora e local, que ele dará cinco minutos para ele. Depois deste tempo, ele irá embora, não importa o que aconteça. Em seguida, ele diz que a pessoa não poderá falar mais com ele naquele celular. O homem pega uma bolsa e sai do quarto. Dirige pelas ruas iluminadas, até chegar em uma oficina e pegar um Chevy Empala, um carro mais básico e comum para ele dirigir. O dono da oficina, Shannon (Bryan Cranston) explica que este é o carro mais usado na Califórnia. O protagonista então dirige, escutando a transmissão do jogo entre Celtics e Clippers. Chega no lugar combinado, vê dois homens atravessando a rua e tira o relógio do pulso para colocá-lo no volante. Ele dá cinco minutos para eles fazerem o roubo e depois segue para a fuga. A partir daí, mergulhamos na vida deste motorista.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Drive): Uma pessoa nunca é uma coisa só. Um médico não é apenas um sujeito que tenta curar pessoas. Ele também pode ser um pai, sem dúvidas é um filho – ou já foi um -, um apreciador de bons vinhos, um especialista em mitologia grega, um ótimo pescador e tantas outras coisas… Da mesma forma, o protagonista de Drive não é apenas um ótimo motorista. Mas a habilidade dele para guiar com maestria um carro e seu conhecimento das ruas de Los Angeles fazem ele utilizar este diferencial para muitas funções.

No começo de Drive, ele parece ser apenas um motorista voraz e especialista em fugas espetaculares. E aí surge a primeira boa sacada da direção de Nicolas Winding Refn: mostrar como o ingrediente principal do protagonista não é a destreza, dirigir o carro de uma maneira enfurecida, mas a inteligência. Ele conhece como ninguém as ruas e quebradas de Los Angeles. Sabe como a polícia funciona. E, pouco a pouco, o roteiro de Hossein Amini vai nos mostrando que ele conhece também, com precisão, o funcionamento da bandidagem.

Um grande acerto do filme, para começar, é esta resistência em cair no lugar-comum de um filme de ação. Ainda que a destreza no volante seja fundamental para o protagonista, este não é o único elemento que o diferencia dos demais. A inteligência e o comportamento reto, centrado em proteger a Irene (Carey Mulligan) e seu filho, Benicio (Kaden Leos), e a manter-se vivo, contam muito mais. Então Drive acaba tendo elementos de filmes de ação, mas ele também abraça o drama e o suspense. Faz lembrar dos filmes noir, não apenas pelo estilo, mas pela lógica da produção, na qual o protagonista parece fadado a se dar mal – e tem que lutar para manter-se o mais limpo possível em um ambiente de contravenções e de um tipo de “submundo”.

Como em tantas outras produções, acompanhamos o protagonista em um momento de ruptura. Ele está deixando a vida de motorista de ladrões para abraçar apenas as suas outras duas profissões: dublê de astros em filmes de ação e mecânico. Neste momento, como manda a regra da roda-viva do cotidiano, ele também encontra outro motivo para mudar de foco: conhece a Irene e seu filho. Fica encantado por ela, e parece que o interesse é recíproco. Mas como nunca as coisas são fáceis, ele só se complica com esta ilusão de viver um grande amor.

Porque Irene é toda uma complicação. O protagonista não demora muito para saber que ela é casada com um cara que está na prisão. E ele, o marido, Standard (Oscar Isaac), também não tarda muito para dar as caras. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). E daí aquele primeiro lugar-comum básico: Standard é pressionado a fazer um “último trabalho” para pagar uma dívida contraída na prisão. E o protagonista se oferece para ajudar. Não por causa de Standard, claro, mas porque ele quer proteger Irene e Benicio. E como manda a regra de um filme que lembra o estilo noir, claro que algo vai sair errado. E sai.

A partir daí, o filme mergulha no submundo do crime, com os parceiros Bernie Rose (Albert Brooks, naquele que talvez seja o seu melhor desempenho em muito tempo) e Nino (Ron Perlman) assumindo os papéis de vilões no melhor estilo de mafiosos. O protagonista, sempre tão cuidadoso e cheio de regras – a principal delas, de não se envolver emocionalmente nos crimes – acaba se dando mal justamente quando perde o racionalismo. Drive, desta forma, também não deixa de ser um romance. Com elementos de ação, suspense e crime, mas um romance.

Assim, meio sem percebermos, adentramos na vida de um sujeito que simboliza as diferentes expressões de Los Angeles, dos Estados Unidos e, por que não dizer, de qualquer grande cidade e país do mundo? Esse motorista que dá título ao filme nos conduz pela história com maestria, revelando um pouco da simplicidade de quem enche as mãos de graxa, dos bastidores de uma indústria milionária como é o cinema, dos caminhos retos de quem trabalha muito e incorretos de quem busca a alternativa do crime para faturar muito em pouco tempo.

Los Angeles também é uma personagem da história. Se for olhado com uma lupa, Drive trata da busca tradicional do homem que parece perdido, sem sentimento, pela redenção, pelo amor, por um recomeço diferente. Ele quer mudar a lógica da roda que repete sempre a mesma fórmula. Vários filmes já trataram disto, é verdade. E ainda assim, Drive consegue contar esta história de forma diferente. E com muito estilo.

O personagem de Gosling é destes que há muito não vemos no cinema. Que cria fascínio pela personalidade, e porque nos colocamos muito próximos dele, ao mesmo tempo que desperta repúdio pelos crimes que comete ou ajuda a cometer. O ator dá um show. Convence e carrega o filme nas costas, ainda que os atores coadjuvantes também estejam muito bem. A direção de Refn, que nos aproxima sempre do protagonista e dos demais personagens, e que consegue criar a tensão exata nos momentos mais delicados, também é fundamental. Assim como o roteiro de Amini, que inova nos momentos precisos sem, para isso, tirar coelhos da cartola. A história parece realista, e esse tom é fundamental para que Drive funcione.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Para funcionar tão bem, Drive tem na qualidade dos elementos técnicos um ponto fundamental. Além de dirigir muito bem as cenas de ação, o diretor Nicolas Winding Refn acerta em cheio na forma de dirigir as demais cenas. Em como criar a tensão exata quando o protagonista está sendo perseguido, e de como valorizar o trabalho dos atores e o texto bem escrito por Hossein Amini. Um grande trabalho do diretor.

Mas para o filme conseguir a nota máxima, ele precisou também que outros detalhes funcionassem com perfeição. O primeiro elemento que me chamou a atenção nesta produção é a trilha sonora. Envolvente, moderna, ela dita um ritmo importante para a produção, especialmente em seus momentos de “reflexão”, sem diálogos. Mérito de Cliff Martinez. Ele também é responsável por ficarmos com a música A Real Hero, de College, na cabeça. Ela também serve para “resumir” a mensagem do filme, de transformar aquele “sujeito comum”, suscetível a todos os acertos e erros possíveis, em um “herói”. Drive consegue fazer com que ele seja visto assim, e que o espectador torça por ele.

Depois da trilha sonora, palmas para a direção de fotografia de Newton Thomas Sigel, que consegue capturar a melhor luz de Los Angeles durante o dia e as cores artificiais da cidade pela noite com precisão. Além do olhar diferenciado de Refn, o filme se destaca por uma edição cirúrgica de Matthew Newman. Sem ele, o filme perderia bastante do ritmo.

Difícil escolher apenas algumas cenas de Drive para destacar. Há muitos momentos bem pensados e filmados nesta produção. Mas eu gostei de alguns mais do que outros. Por exemplo, a sequência do protagonista e de Blanche (Christina Hendricks, ótima atriz de Mad Men) no hotel e a descida de elevador dele com Irene pouco depois. Simplesmente, genial.

Este, sem dúvida, é o grande filme de Ryan Gosling. Agora sim, consigo entender porque Hollywood está badalando tanto este ator. Ele merece. Há muito tempo eu não via um intérprete se sair tão bem em um papel complexo, que alia o lado mais bandido com o de mocinho. Gosling é carismático. Está lindo em Drive. E consegue convencer em cada nuance do seu papel. Se ele acertar em outras escolhas de papel como esta, poderá tornar-se um dos principais nomes de Hollywood em pouco tempo.

Os demais atores desta produção também estão muito bem. Gostei de ver Bryan Cranston em cena. Lembrei do trabalho excepcional dele em Breaking Bad durante todo o tempo. Mas em Drive ele está muito mais como “cordeirinho”. 🙂 Carey Mulligan também está ótima. Frágil, observadora e carismática na medida. Ainda que em um papel muito menor que dos outros dois, achei que Christina Hendricks se destaca no filme.

Drive estreou no Festival de Cannes em maio de 2011. De lá para cá, a produção passou por outros 13 festivais mundo afora. Nesta trajetória, ganhou 39 prêmios e concorreu a outros 56. Números impressionantes. Entre os prêmios que recebeu, destaque para os de melhor diretor para Nicolas Winding Refn no Festival de Cannes; o de melhor filme americano no Robert Festival, na Dinamarca; e quatro prêmios no Satellite Awards, entregue pela imprensa de Hollywood. Nesta última premiação ele ganhou como melhor ator para Ryan Gosling; melhor ator coadjuvante para Albert Brooks; melhor diretor para Refn; e melhor som (edição e mixagem). Albert Brooks foi indicado ao Globo de Ouro como melhor ator coadjuvante, mas foi vencido pelo favorito também no Oscar, Christopher Plummer.

Esta produção demonstra, mais uma vez, como um ótimo filme não precisa custar mais de US$ 100 milhões. Drive teria custado cerca de US$ 15 milhões. Até o momento, ele arrecadou mais que o dobro apenas nos Estados Unidos. O acumulado nas bilheterias, até o dia 5 de fevereiro, chegou a pouco mais de US$ 35 milhões. Não é nenhum resultado fantástico, arrasa-quarteirão, mas também não é desprezível.

Curiosidades sobre Drive: Ryan Gosling assumiu o papel que seria de Hugh Jackman. Acho que o Wolverine teria se saído bem mas, certamente, teríamos uma produção muito diferente com ele. Refn também substituiu outro nome inicialmente cotado para o projeto, o diretor Neil Marshall. Durante a preparação para a produção, Gosling restaurou o Chevy Malibu de 1973 que o seu personagem iria utilizar na produção. Inicialmente, os personagens de Irene e Standard seriam latinos. Mas isso mudou com a entrada de Carey Mulligan no projeto.

O diretor Refn não tem carteira de motorista e falhou oito vezes em tentar obter uma. Ele também não conhecia muito Los Angeles. Para resolver esta questão, que poderia ser um problema para o filme, ele andou como carona do ator Ryan Gosling para cima e para baixo. O nome do protagonista não é revelado em momento algum, e os diálogos dele com Irene são tão raros porque os atores resolveram que os encontros dos personagens deveriam previlegiar o humor deles. Para tornar isso mais evidente, Mulligan e Gosling resolveram não falar muitas linhas do roteiro, apenas olharem um para o outro. Funcionou. E muito bem.

Drive faz uma referência à fábula do Sapo e do Escorpião, aquela em que um sapo aceita ajudar a um escorpião a atravessar um rio mas, no caminho, ele é picado pelo ferrão do escorpião e os dois acabam morrendo. Antes, o escorpião diz que ele não pôde evitar aquele gesto porque aquela é a sua natureza. Em Drive, o protagonista é o sapo, que dirige para os bandidos e acaba sendo “picado” por eles, arrastado para o lado destrutivo da vida por causa deles. Não por acaso ele usa aquela estilosa jaqueta com um escorpião – assim, ele leva sempre o animal perigoso nas costas. Ah, e o ator, Gosling, é do signo Escorpião. 🙂

Gostei do trabalho de Refn e fui buscar mais informações sobre ele. Dinamarquês, ele tem nove filmes no currículo, incluindo Only God Forgives, que está sendo filmado. Refn estrou nos cinemas em 1996 com Pusher. Em 2009 ele lançou o estiloso Valhalla Rising, que eu ainda não assisti. Agora é esperar para ver a Only God Forgives, estrelado novamente por Gosling e com Kristin Scott Thomas, entre outros, no elenco.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8 para Drive. Não está mal, mas poderia ser melhor. Os críticos que tem seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram mais generosos, dedicando 207 críticas positivas e apenas 16 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 93% e uma nota média de 8,2.

O roteiro de Drive é inspirado no livro de James Sallis.

CONCLUSÃO: Estamos sempre ao lado do protagonista. Tão perto, fica difícil não compartilhar de sua adrenalina, ousadia, frieza e emoção. Drive acerta ao colocar o espectador em posição tão privilegiada. Filme de ação, mas com espaço para aprofundar nos sentimentos e desejos dos personagens, Drive entra em universos diferentes de Los Angeles para traçar um quadro interessante da cidade e de alguns de seus personagens. Com um ótimo estilo narrativo e visual, e com um desempenho irrepreensível de Ryan Gosling, Drive mantém o interesse do espectador do primeiro até o último minuto. E ainda que o roteiro tenha lugares-comuns um tanto inevitáveis, ele sabe dar as viradas narrativas no momento certo, tornando toda a aventura da história um belo achado. Uma forma diferenciada de fazer filme noir que dá gosto de assistir. Quem gosta de Quentin Tarantino, deverá curtir este filme. Drive lembra a melhor fase dele e de vários outros diretores que souberam recriar o estilo noir. Mas com a diferença deste filme ter um foco menor nos diálogos e maior nas características dos personagens e das situações vividas por eles.

PALPITE PARA O OSCAR 2012: Drive está concorrendo em apenas uma categoria: edição de som. Uma pena. Ele facilmente poderia ter sido indicado como melhor trilha sonora e edição, dois de seus pontes fortes. Mas ok, ele ficou apenas com edição de som. Nesta categoria, ele tem fortes concorrentes: The Girl with the Dragon Tattoo, Transformers: Dark of the Moon, War Horse e Hugo. Destes, assisti apenas ao último. Mesmo sem ter visto aos demais, acredito que os favoritos nesta categoria sejam Transformers e Hugo. Não vejo que Drive tenha muitas chances para vencer. Eu não apostaria nele.

SUGESTÕES DE LEITORES: Só depois de publicar o texto sobre Drive e começar a responder aos comentários de vocês, meus bons leitores, de janeiro, é que eu percebi que este filme tinha sido indicado pelo André Oliveira no primeiro dia deste ano. Grande dica, hein, André? Filmaço! Gostei muito. Estiloso, com um ritmo perfeito. Muito obrigada pela dica.

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An Education – Educação

O velho dilema sobre o verdadeiro banco de apredizado ser o de uma escola ou o da própria vida embala o delicioso e inspirado An Education. Mesmo com um grupo de atores talentoso e que trabalha bem, seja em conjunto ou individualmente, este filme da dinamarquesa Lone Scherfig tem uma grande estrela: Carey Mulligan. Não é difícil perceber porque a atriz vem ganhando prêmios como a melhor intérprete de 2009 – e nem complicado perceber porque ela é um dos nomes mais fortes na disputa pelo Globo de Ouro e pelo Oscar. Carey Mulligan é o nome do filme. A atriz incorpora toda a leveza, vontade de viver e complexidade de uma adolescente londrina no início dos anos 1960. E nos ensina que a vida pode ser terrível ou maravilhosa – a escolha sobre isto depende apenas da nossa vontade de dar certo.

A HISTÓRIA: Em uma tradicional escola e família londrina de 1961, Jenny (Carey Mulligan) aprende tudo que é preciso para se tornar uma moça respeitável. Na sala de aula, a garota é a mais aplicada e a mais interessada nos ensinamentos da professora de literatura e língua inglesa Miss Stubbs (Olivia Williams). Em casa, ela tenta convencer o pai, Jack (Alfred Molina) sobre a importância de equilibrar seu interesse pelos estudos e pela música. Mas Jack quer que a filha se aplique totalmente aos estudos para que, logo mais, ela consiga entrar na tão sonhada faculdade de Oxford. Depois de um ensaio na orquestra juvenil, Jenny espera em um ponto de ônibus, com seu violoncelo, até que a chuva torrencial diminua. Nesta ocasião passa por ali David (Peter Sarsgaard), um charmoso homem mais velho que oferece uma carona para a estudante. Jenny ganha com David um atalho para a vida adulta que tanto deseja – e deve, logo mais, decidir sobre que tipo de educação ela quer continuar recebendo.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a An Education): Um filme acima da média se percebe nos detalhes. An Education, por exemplo, começa a mostrar a sua qualidade logo nos créditos de abertura. Eles são apresentados de maneira criativa, divertida, com uma trilha sonora deliciosa – que, aliás, permanecerá assim até o final da produção – e com um esquema “artístico” de desenhos que lembram o universo da história: o da escola. Primeiro grande acerto dos produtores e da diretora. Mas é preciso lembrar que estes são apenas os créditos iniciais. Junto com os desenhos, começam a surgir cenas do cotidiano da protagonista, Jenny. E, logo mais, para o deleite de quem gosta de uma grande atriz, ela mesma, Carey Mulligan.

A educação rigorosa e formal inglesa aparece em cenas divertidas, como as que mostram as alunas aprendendo a ter postura e charme no caminhar (treinando com um livro sobre a cabeça), perfeição nos passos de dança e conhecimento da boa cozinha. Afinal, o que mais uma garota poderia querer na Londres do início dos anos 1960? Charme, postura, saber dançar e cozinhar, assim como ter um comportamento discreto e com recato em público. Só que no meio de dezenas de alunas “normais”, despontava Jenny, uma garota acima da média em literatura e língua inglesa e que tinha pressa por conhecer o mundo. Fascinada pela cultura francesa e a “liberdade” simbolizada por Paris, Jenny pensava na universidade como uma forma de trampolim para que ela conseguisse a sua tão desejada autonomia. Até que ela encontrou um atalho chamado David.

O encontro dos dois marca a espinha dorsal do filme. Afinal, quando Jenny finalmente começa a vivenciar os prazeres de quem tem uma certa quantidade de dinheiro no bolso e vive na Europa, é que o espectador começa a se perguntar, junto com ela, onde está realmente a base da educação. Em uma sala de aula, aprendendo parte dos conhecimentos científicos e culturais de uma sociedade até determinado momento, ou aprendendo com os prazeres e desilusões da vida mesma?

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Também é no encontro de Jenny com David que a garota vai ao céu e ao inferno rapidamente. Da promessa de amor eterno, apaixonado e de um casamento ela passa rapidamente para a desilusão de ter sido usada, de ter integrado o aparentemente diversificado grupo de jovens enganadas pelo homem casado e pai de família mentiroso. Algumas pessoas, em seu lugar, talvez tivessem sucumbido, aceitado o “destino” de casar com o primeiro pretendente que aparecesse e aceitado a sina de ser infeliz. Afinal, aparentemente, Jenny não teria mais a oportunidade de terminar seus estudos e seguir para Oxford. Mas daí vem o grande ensinamento desta jovem inglesa. Ao invés de encarar a sua experiência como algo ruim, como a lição de uma garota que não soube se manter “pura” e que agora deve aceitar o fato de que a vida é horrível, Jenny preferiu aprender com tudo que viveu e seguir adiante – acreditando que a vida é maravilhosa.

Esses ensinamentos de Jenny e a forma com que ela vai descobrindo os prazeres dos dois tipos de educação – a forma e a da vida – surgem de maneira muito natural neste filme. Eis um dos grandes acertos do roteiro do sempre ótimo Nick Hornby: a suavidade com que ele narra as mais diferentes histórias. Inspirado nas memórias da jornalista inglesa Lynn Barber, Hornby produziu um texto divertido, realista e ao mesmo tempo charmoso. A história de Jenny, suas amigas, familiares e a de David poderia perfeitamente ser contada no século 21. Ainda existe a “briga”, especialmente entre os jovens, para entender que educação é mais válida. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Também continua sendo atual o envolvimento de homens casados com garotas “inocentes” que, na busca pelos prazeres da “vida adulta”, se jogam em aventuras sob a conivência de pais “interesseiros” (ou inocentes/ignorantes mesmo). Mas então por que é tão interessante ambientar esta história na Londres de 1961?

Primeiro, pelo estilo de vida que as pessoas tinham naquele momento. Seria simplesmente impossível, se An Education fosse ambientado nos nossos dias, visualizar cenas tão encantadoras como a do cotidiano de Jenny na escola, suas idas a clubes noturnos ao lado de David e, principalmente, a magia de uma viagem para Paris como a que eles compartilharam. Por mais que a capital francesa continue charmosa, detalhes como a roupa dos personagens, a câmera de fotografia e a vitrola às margens do Rio Sena que aparecem no filme de época é o que fazem este filme ser tão encantador. Ele cairá, certamente, no gosto do público feminino – e pode agradar aos rapazes, especialmente pelo trabalho excepcional de Carey Mulligan.

A adolescência é uma época única para a descoberta de possibilidades, oportunidades e para que as pessoas passem por experiências novas. Mas, ao mesmo tempo, como pode-se ver pela história de Jenny, é uma época em que existe, ainda, a idéia de que o jovem deve escolher a direção que quer dar para sua vida – e, aparentemente, uma escolha elimina todas as demais. Um ganho da fase adulta é que as pessoas percebem que não é preciso seguir apenas um caminho. E uma das grandes lições de An Education é que é possível ter mais de uma educação e experimentar diversos caminhos dos vários possíveis.

Jenny descobrirá, com o tempo, que ela pode ser muitas coisas – e não apenas “mais uma” intelectual com uma vida enfadonha a qual ela tentava evitar, ao espelhar-se na professora Miss Stubbs ou na diretora da escola (Emma Thompson). Descobrirá também que uma “intelectual” não precisa ter uma vida essencialmente chata. É possível – e apenas o tempo nos ensina isso – equilibrar uma vida “séria”, de estudo e aprimoramento, com o colorido e a diversão da boemia, de festas, viagens e uma salutar vida cultural. Para isto, basta ter boa vontade, atenção às oportunidades e ampliar seus próprios horizontes. Algo que An Education esboça para os espectadores – mas que só se aprende vivendo a sua própria vida.

NOTA: 9,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Tudo funciona à perfeição em An Education. A diretora Lone Scherfig sabe escolher o ângulo e a dinâmica correta de cada imagem, de cada cena. Seu olhar cuidadoso para os cenários e os atores fica evidente em cada minuto do filme. Para ajudá-la nesta função, está o trabalho também perfeito do diretor de fotografia parisiense John de Borman. Os dois transformam muitas sequências em verdadeiros quadros, fotografias, peças que tem uma dinâmica e uma luz próprias. A edição precisa de Barney Pilling contribui bastante para o resultado final. E a trilha sonora, ah, a trilha sonora! Simplesmente deliciosa – e uma das melhores do ano. Mérito de Paul Englishby.

Aos 50 anos, a diretora Lone Scherfig tem no currículo 12 filmes – feitos para a TV e para o cinema. An Education é o seu primeiro trabalho fora da Dinamarca – e filmado em língua inglesa. Certamente ela ganhará, com esta produção, uma evidência no cenário internacional que não tinha até então. Até o momento, Scherfig tem na bagagem 24 prêmios e outras 15 indicações por sua trajetória.

Carey Mulligan, não me canso de dizer, está arrebatadora em An Education. Mas para conseguir este desempenho, conta muito a favor da atriz o grande elenco que tem ao seu lado para contracenar. Para começar, ela tem Alfred Molina e Cara Seymour (que interpreta a Marjorie) como seus pais. Depois, ela contracena com Dominic Cooper e Rosamund Pike, respectivamente Danny e Helen, amigos de David. Cooper e Pike conseguem interpretações acima da média que ambos tem apresentado ultimamente – eles estão concentrados, inspirados, afinados e convincentes. Peter Sarsgaard também faz um trabalho excepcional, conseguindo o tom exato de fragilidade, ambição, charme e mistério de seu personagem. Vale a pena citar ainda o trabalho de Matthew Beard como Graham, jovem envergonhado fascinado por Jenny; Amanda Fairbank-Hynes e Ellie Kendrick como as amigas de escola da protagonista que acabam sendo as suas confidentes. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Também gostei da interpretação, ainda que em uma ponta minúscula (na verdade ela aparece em uma única cena) de Sally Hawkins como Sarah, a esposa de David que agradece por Jenny não estar grávida – como havia ocorrido com outras jovens enganadas pelo marido anteriormente.

An Education estreou no Festival de Sundance em janeiro de 2009. Depois, ele passou por uma extensa participação em festivais pelo mundo – ao total, marcou presença em outros 17 eventos, incluindo os festivais do Rio de Janeiro e de São Paulo.

Até o momento, o filme ganhou oito prêmios e foi indicado a outros 21 (a maioria deles ainda não entregues). Dos oito que recebeu, cinco foram para a atriz Carey Mulligan – entre outros, ela ganhou os de melhor atriz no British Independent Film Awards e pela National Board of Review. Os outros foram: prêmo do público para uma produção estrangeira e melhor fotografia na categoria “cinema estrangeiro – drama” no Festival de Sundance; além do prêmio do público para uma produção estrangeira no Festival de Cinema de Mill Valley. Mas a maior expectativa para o filme está nas quatro indicações de An Education no prêmio da Broadcast Film Critics Association e na indicação de Carey Mulligan no Globo de Ouro.

Uma curiosidade: no Brasil, An Education será exibido no circuito comercial com o título de Educação. Mas antes, quando de sua participação no festival do Rio de Janeiro, em setembro de 2009, ele foi apresentado sob o título de Sedução.

Produção inglesa, An Education teria custado aproximadamente 4,5 milhões de libras para ser produzido e finalizado. Até o momento, o filme está tendo um desempenho razoável nas bilheterias. Ele teria acumulado, no Reino Unido, pouco mais de 1,3 milhão de libras nas bilheterias e, nos Estados Unidos, aproximadamente US$ 7,8 milhões. Pode se sair melhor – especialmente se começar a receber boa parte dos prêmios para os quais ele está sendo indicado.

Em 2007, a revista Variety escolheu o roteiro de An Education como um dos melhores ainda não-produzidos.

Durante as filmagens, a diretora Lone Scherfig incentivou os atores a improvisar. Muitos diálogos e ações vistas no filme foram criadas pelos protagonistas durante a rodagem da produção.

No Festival de Sundance de 2009 a atriz Carey Mulligan comentou, em uma entrevista, que alguns dos momentos mais prazerosos das filmagens ocorreram quando ela contracenou com atores com os quais ela se encontrou muito pouco. A protagonista destacou as cenas que dividiu com Sally Hawkins e Emma Thompson – Mulligan classificou o trabalho da última como “fantástico” e seu desempenho no papel como “brilhante”.

O ator Orlando Bloom era o intérprete de Danny até uma semana antes das filmagens de An Education começar. Com a saída de Bloom, Dominic Cooper, que havia feito testes para o papel, acabou assumindo o seu lugar.

An Education caiu no gosto do público e, principalmente, da crítica. Os usuários do site IMDb deram a nota 7,7 para a produção. Por sua vez, os críticos que tem textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 152 críticas positivas e apenas nove negativas para An Education – o que lhe garante uma aprovação de 94%.

Para o crítico Liam Lacey, do The Globe and Mail, An Education serve como “lição de como se pode misturar entretenimento com idéias provocativas”. Neste texto, o crítico destaca o trabalho luminoso da diretora Lone Scherfig e o talento da “radiante” e jovem atriz Carey Mulligan. Lacey comenta que o filme narra uma história com uma moral ambígua, adaptada com inspiração por Nick Hornby. O roteirista foi inspirado em um texto autobiográfico da jornalista inglesa Lynn Barber publicado na revista literária Granta no verão de 2003. Para o crítico, a personagem de Jenny é um pacote atraente de contradições e o filme, como o título sugere, fala sobre como Jenny explora seus desejos e limitações sem, contudo, apresentar respostas fáceis para as perguntas propostas. “Não existe um livro que descreva a distinção entre o mal e a injustiça, romance e desilusão, ou entre a tentativa de ser sábio e a capacidade de realmente se chegar até lá”, comenta Lacey.

Neste texto, Lisa Kennedy, do Denver Post, destaca a impressionante sintonia entre a diretora Lone Scherfig e a atriz Carey Mulligan. O que é uma coisa boa, segundo a crítica, porque o filme sobre o envolvimento de uma garota de 16 anos com um homem mais velho requer sutileza. Ela destaca ainda a forma saborosa com que os pais de Jenny são seduzidos pelo personagem de David e como, de maneira acertada, o filme se mostra “gentil” com os seus julgamentos. Kennedy resume bem a “moral” do filme ao comentar que crescer/amadurecer significa se decepcionar, aprender com a vida e, no processo, algumas vezes “se quebrar” ou ter as coisas mais claras. “Os prêmios (deste processo) são bons. Mas os arranhões e os machucados são a educação”.

O geralmente ótimo Peter Howell, do The Star, comenta neste texto que An Education é um filme sobre a descoberta, tanto para a sua protagonista quanto para o espectador. No caso da primeira, ela acontece através do difícil aprendizado da experiência. No caso do espectador, pelo prazer de assistir ao novo talento de Carey Mulligan em uma das melhores interpretações do ano, segundo o crítico. Ele destaca que, ainda que pequenos, os papéis de Olivia Williams e Emma Thompson reforçam o trabalho estelar do elenco – os personagens delas são os únicos que, como o espectador, percebem o perigo na relação entre David e Jenny. Gostei especialmente quando Howell destaca o trabalho da diretora e do roteirista em não transformar o personagem de David em um monstro. “O ponto aqui não é julgar os erros do passado pelos padrões modernos, mas salientar o quão fácil os sonhos podem se tornar realidade. O David de Saarsgaard é mais uma figura de piedade do que ameaçadora, e o trabalho hábil do ator em um papel difícil merece consideração em uma temporada de premiações”, opina Howell.

O respeitado crítico Roger Ebert, do Sun Times, destaca neste texto como An Education é “maravilhosamente romântico e divertido”, mesmo tratando de um tema pesado como a sedução de uma garota de 16 anos por um homem de 35 anos. Ele destaca o trabalho excepcional de Carey Mulligan que, segundo ele, vem sendo comparada – de forma bastante justa – com Audrey Hepburn. De forma bastante acertada, Ebert destaca como An Education é um romance na medida em que mostra a paixão de sua protagonista não por um homem mais velho, mas por todas as possibilidades que ela tem, sobre seu futuro e a alegria de estar viva. Bingo! Também vejo estas questões como as centrais do filme.

Achei o texto de Ebert bastante ponderado quando ele mostra como David e Jenny “usaram” um ao outro e, ao mesmo tempo, se divertiram juntos. Realmente, não existe nesta história apenas “uma garota que foi enganada por um homem mais velho”. Ainda que David seja um canalha, ele e Jenny saíram ganhando e perdendo nesta história – e ela teve sorte de não ter se complicado mais no relacionamento. Como a “verdadeira” Jenny comentou em seu texto, ela tem que agradecer a esse homem mais velho que a seduziu por ter-lhe “curado totalmente a ânsia por sofisticação”. Depois de ter se relacionado com Simon – o nome verdadeiro do homem que virou David no filme -, Lynn Barber pôde começar seus estudos em Oxford verdadeiramente interessada nos amáveis, decentes e simples rapazes de sua idade.

An Education é muito sútil ao tratar duas formas de preconceito: o racismo e antisemitismo. (SPOILER – não leia se você não assistiu o filme). David, que é judeu, ganha a vida explorando a antipatia das pessoas contra negros e, em algumas situações, contra o seu próprio povo – algo absurdo de pensar e/ou admitir após o genocídio ocorrido durante a Segunda Guerra Mundial. Provocando ingleses que não suportam o convívio com os negros, ele faz dinheiro comprando arte e artigos valiosos por preço de banana. E pela resistência do pai da protagonista (e de outras pessoas) aos judeus, David consegue reverter a situação a seu favor quando necessário. Retratos de uma sociedade do pós-guerra e prestes a conhecer a revolução do rock dos The Beatles e da liberação sexual e feminina.

Nos quesitos técnicos, vale destacar o trabalho perfeito dos figurinos de Odile Dicks-Mireaux, a direção de arte de Ben Smith e a decoração de set de Anna Lynch-Robinson.

Os interessados em saber um pouco mais sobre Lynn Barber, a mulher que escreveu suas memórias sob o título de An Education e que teve seu trabalho adaptado neste filme podem encontrar mais informações em vários textos publicados pelo The Guardian e que podem ser acessados neste portal (em inglês).

CONCLUSÃO: Um filme divertido, encantador, charmoso e que evita os julgamentos fáceis. An Education reflete sobre dois bancos de escola: o das instituições de ensino e o da vida. Rouba a cena neste filme magistralmente conduzido pela diretora dinamarquesa Lone Scherfig a jovem atriz Carey Mulligan. Ela é a alma e o coração desta história. Mas ao seu lado o espectador poderá conferir o trabalho preciso de muitos atores conhecidos, como Peter Sarsgaard, Alfred Molina, Olivia Williams e Emma Thompson (em uma super ponta). Com linhas de roteiro cuidadosamente escritas por Nick Hornby, é destes filmes que vão conquistar o público e, de quebra, fazer pensar um pouquinho. Evitando julgamentos moralistas, An Education é um exemplo de como a vida pode ser maravilhosa ou trágica – tudo depende da escolha que fazemos. Se não nos entregarmos à culpa e ao desespero podemos, como a protagonista deste filme, perdoar nossos erros (e aqueles praticados pelas demais pessoas ao nosso redor) e sair para a frente, sabendo que sempre existem novos caminhos a percorrer. Uma ode à vida, às suas descobertas e prazeres. Perfeito para ser assistido com tempo, sem preocupações, apenas para saborear a realidade do Reino Unido e de Paris no início dos anos 1960 e, de quebra, a fase da vida das grandes descobertas – do amor, dos prazeres da vida e das oportunidades.

PALPITE PARA O OSCAR 2010: Será um verdadeiro crime se o nome de Carey Mulligan não estiver entre os das cinco indicadas ao Oscar de Melhor Atriz deste ano. Bem, esta possibilidade é bastante remota. Especialmente se levarmos em conta que a atriz está indicada na categoria de Melhor Atriz – Drama no Globo de Ouro e que, até o momento, ganhou quatro dos 13 prêmios mais importantes da temporada – considerados, por muitos, um termômetro para o Oscar e o próprio Globo de Ouro. Das atuações que assisti até agora, Carey Mulligan seria a minha aposta para ganhar o Oscar. Acho que ela tem mais méritos, junto com Gabourey Sidibe, de Precious (comentado aqui no blog), para levar esta consagração. Me desculpe Meryl Streep, mas o talento das jovens atrizes superou o dela em seu papel em Julie & Julia (com crítica aqui no blog). De qualquer forma, vocês sabem como o Oscar funciona. Nem sempre a Academia premia a melhor no ano. Então Meryl Streep, há muitos anos sendo apenas indicada – mas não ganhando nada, pode levar uma estatueta dourada para casa. Por mérito, seria Carey Mulligan.

Acho que An Education também tem potencial para chegar entre os 10 finalistas ao prêmio de Melhor Filme do ano. Veremos… O texto de Nick Hornby perfeitamente poderia ser indicado na categoria de Melhor Roteiro Adaptado, mas acho difícil ele conseguir uma vaga neste ano, porque há muitos concorrentes de peso na disputa. Nas categorias técnicas, não seria uma surpresa se An Education conseguisse indicações para Melhor Direção de Arte, Melhor Fotografia, Melhor Figurino e Melhor Trilha Sonora Original. De todas estas, acho que ele tem mais chances em ser indicado (e talvez ganhar) em Direção de Arte – nas demais, mais uma vez, a concorrência está muito forte. De qualquer forma, honestamente, espero que An Education receba algumas indicações para o prêmio mais badalado de Hollywood – ele merece.