Tomb Raider – Tomb Raider: A Origem

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Alguns filmes não conseguem fugir do óbvio. E pela proposta que eles têm, isso é meio que previsto. Esse é o caso de Tomb Raider, o novo filme sobre a personagem conhecida dos games e que retoma a origem de Lara Croft. Como um filme com esse perfil não terá exageros e “cenas impossíveis”? Como alguém que conhece a história da personagem não sentirá que está vendo, muitas vezes, trechos dos games na sua frente? Sim, Tom Raider é óbvio. Mas nem por isso ele deixa de ser um bom entretenimento.

A HISTÓRIA: Dia 17 de maio de 2009. Lord Richard Croft (Dominic West) conta a história de Himiko, uma “divindade” do Japão que ficou conhecida por usar magia negra e por matar exércitos com apenas um toque. Ela provocou muita desgraça, até que o seu próprio Exército a levou para uma ilha no Mar do Diabo para que ela fosse aprisionada lá. Mas Croft está obcecado em encontrá-la, e apenas lamenta ter que deixar a sua Lara para trás. Fim da animação que introduziu a lenda.

Em um ringue, Lara (Alicia Vikander) está dando o melhor de sim em um treinamento feroz. No fim, ela acaba sendo vencida. Falando com uma amiga, que diz que ela foi derrotada – ou massacrada -, Lara responde que não foi nada disso. O treinador lembra ela que ela está devendo, e que ninguém treina se não pagar. Saindo dali, Lara vai trabalhar como entregadora. Em uma entrega, fica sabendo de uma corrida de bikes. Como “lebre”, se ela escapar da perseguição, vai ganhar um dinheiro que lhe faz falta. Depois de se acidentar, ela é levada pela polícia, onde Ana Miller (Kristin Scott Thomas) lhe encontra. Em breve, a discussão sobre o pai de Lara a levará para locais distantes.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Tomb Raider): Inicialmente, esse filme não teria muitos atrativos para me chamar a atenção. Mas, entre os filmes que estavam em cartaz na semana passada, esse me pareceu o segundo mais atrativo – o primeiro foi o recentemente comentado por aqui Aus Dem Nichts. Depois, veio Tomb Raider.

Eu conheço e já joguei alguma das aventuras da senhorita Lara Croft. Então sim, conheço a personagem na sua versão original, dos games. Depois, assisti ao primeiro – e possivelmente ao segundo, mas não tenho certeza – filme da personagem estrelado por Angelina Jolie. Então sim, a história de Croft não é uma novidade para mim.

Esse filme, acredito, pode ser analisado sob duas óticas distintas: de pessoas com eu, que já conhecem a história da personagem tanto nos games quanto nos filmes anteriores; e a de pessoas que não tem esse conhecimento. Para o primeiro grupo, o filme é de uma obviedade gritante. Sim, não há nada realmente novo em cena.

O que temos, então, para destacar da produção? A competência nos efeitos especiais, o começo da história realmente bem feito e os ótimos atores em cena – com destaque especial para Alicia Vikander, uma Lara Croft bem mais interessante que Angelina Jolie. Gostei da pegada inicial da produção, em especial. O roteiro de Geneva Robertson-Dworet e Alastair Siddons e a direção de Roar Uthaug rejuvenesceram a personagem.

Assim, especialmente a Lara Croft que vemos em cena no início da história, parece conversar muito bem com os jovens da atualidade. Ela procura fazer o seu “caminho por sua própria conta”, trabalha como entregadora, participa de um “racha” de bikes, treina em uma academia e tem todos os predicados para ser uma jovem mulher com opinião forte e a clareza do que deseja ou não para si. Ou seja, o perfil de garota tão em alta nos nossos dias.

Por isso, aquele começo de Tomb Raider me pareceu bastante interessante. Especialmente a direção ágil e atenta aos detalhes de Uthaug. Depois, o filme mergulha um pouco demais no estilo Indiana Jones. Em vários momentos eu me senti assistindo a um filme estrelado por Harrison Ford no papel do arqueologista mais famoso do cinema. Além disso, claro, há cenas de ação “absurdas”, mas que são bastante típicas da personagem nos games.

Agora, o filme também pode ser assistido sob aquela segunda ótica, de quem não está familiarizado com a personagem. Para esse grupo, Tomb Raider é um filme atraente, movimentado, que apresenta algumas ideias já conhecidas de “aventura com requintes de arqueologia” e, principalmente, a velha busca da autoafirmação e das “pazes” com os pais – nesse caso, com o pai, porque nunca ouvimos falar da mãe de Lara Croft.

Então sim, assistimos a uma velha fórmula da menina que busca a admiração do pai – que, não por acaso, é uma figura ausente mas que vive no imaginário da “eterna criança” como alguém sempre marcante. Essa busca de Lara pela figura paterna, é um dos motes principais da história. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). No fim, ela encontra algumas respostas para as perguntas que tem, conhece um pouco mais de suas origens para, em seguida, e de forma muito rápida, ela logo romper o cordão umbilical.

Existe uma razão para isso acontecer. A personagem precisa ter aquela ausência do pai como uma motivação para os passos seguintes, assim como o compromisso de manter e preservar o legado do pai ausente. Tomb Raider foca na origem da personagem ao mesmo tempo que deixa claro que esta é apenas a primeira das muitas aventuras de Lara Croft.

O filme também apresenta uma “organização secreta” e que está espalhada por diversas partes do mundo. Ou seja, o típico elemento de “teoria da conspiração” que será importante para essa história despertar certo interesse no futuro. Tomb Raider, assim, cumpre bem o seu papel, seja por apresentar bem a personagem e as suas motivações originais como “aventureira”, seja por preservar boa parte da essência dos games.

Pena que Robertson-Dworet, Siddons e Uthaug tenham optado apenas por caminhos seguros e por referências que já conhecemos bem. Desta forma, eles tornaram Tomb Raider um filme seguro mas, ao mesmo tempo, nada ousado. Eles poderiam ter inovado mais, seja na forma, seja no conteúdo, para nos surpreender. Mas não.

Nada do que vemos em cena nos surpreende de fato. Apenas, talvez, a confirmação de algo que já suspeitávamos: que Alicia Vikander tem muito mais a ver com o papel do que outras atrizes que poderiam ter encarnado Lara Croft. Esse, ao menos, foi um belo acerto. Agora, é esperar os próximos filmes da grife para saber se alguém nos apresentará ao menos algo além do óbvio ou se seguiremos tendo “mais do mesmo” pela frente.

NOTA: 7,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Pelas características desta produção, um elemento que Tomb Raider deveria ter de destaque são os efeitos especiais e visuais. E, de fato, o filme atende bem as expectativas nesses quesitos. Como em praticamente todos os outros quesitos desta produção, os profissionais envolvidos nesses aspectos fazem um bom trabalho, mas nada além do esperado – e nada próximo de algo excepcional. Assisti ao filme na versão 3D e, como tantas outras produções recentes nesse formato, Tomb Raider não aproveita ao máximo esse recurso. Ou seja, você não perderá grande coisa se assistir ao filme em 2D mesmo.

Entre os aspectos técnicos dessa produção, vale então destacar os efeitos especiais que envolveram nove profissionais; a lista gigantesca que – chuto – deve ter contado com mais de 300 profissionais responsáveis pelos efeitos visuais de Tomb Raider. Sem esses efeitos, certamente não teríamos um filme frente aos nossos olhos – grande parte da produção depende dos efeitos visuais e especiais.

Além desses elementos, vale destacar a direção de fotografia de George Richmond; a edição de Stuart Baird, Tom Harrison-Read e Michael Tronick; a trilha sonora de Junkie XL; o design de produção de Gary Freeman; a direção de arte de Tom Brown, Anthony Caron-Delion, Claire Fleming, Simon Lamont, Tamara Marini, Tom Still e Alessandro TRoso; e os figurinos de Colleen Atwood e Timothy A. Wonsik; e a decoração de set de Raffaella Giovannetti e Maria Labuschagne.

Do elenco, o nome a destacar é realmente da atriz Alicia Vikander. Ela cai como uma luva para a personagem. Ela tem o estilo, o físico e a atitude perfeita para viver Lara Croft. Está muito bem em cena. Além dela, os destaques, pela importância dos personagens na história, são Dominic West como Lord Richard Croft, pai de Lara; Walton Goggins como Mathias Vogel, o chefe da missão escalada para encontrar a tumba de Himiko; Daniel Wu como Lu Ren, o piloto da embarcação que leva Lara para o seu desejado destino – e que acaba virando também o braço direito dela nessa missão; e Kristin Scott Thomas como uma esquisita Ana Miller, tipo de “gerentona” dos negócios do pai Croft.

Além deles, o veterano Derek Jacobi faz uma ponta como Mr. Yaffe, advogado da família Croft. Também vale citar a participação de Maisy De Freitas como a Lara Croft aos 7 anos de idade e de Emily Carey como a Lara aos 14 anos.

Tomb Raider estreou em première no dia 2 de março de 2018 em Berlim. No Brasil, assim como em grande parte do mundo, o filme estreou no dia 15 de março.

Agora, algumas curiosidades sobre essa produção. Tomb Raider é baseado na “reinicialização” da saga de Lara Croft feita nos jogos e lançada em 2013.

A atriz Alicia Vikander fez um grande esforço físico nessa produção porque ela queria que a sua interpretação fosse a mais realista possível da personagem. Entre outros detalhes, ela realmente estrela todas as cenas de ação e que exigem esforço físico. A atriz também era fã da história de Lara Croft nos games.

Especialmente a crítica não gostou muito de Tomb Raider. Os usuários do site IMDb deram a nota 6,9 para esta produção. O que, para os padrões do site, não está ruim. Mas os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 110 críticas positivas e 110 negativas para o filme, o que lhe garante uma aprovação de apenas 50% e uma nota média de 5,4. Os dois critérios são bastante baixos.

O site Metacritic, por sua vez, apresenta o “metascore” de 48 para Tomb Raider, utilizando 53 críticas para chegar nessa média. O “user score” do site está um pouco melhor, registrando 6,7 de média.

De acordo com o site Box Office Mojo, Tomb Raider teria custado cerca de US$ 94 milhões e faturado, nas bilheterias dos Estados Unidos, pouco mais de US$ 41,7 milhões até o dia 16 de março. Nos outros mercados em que o filme já estreou, ele teria feito outros US$ 170 milhões. Ou seja, até o momento, teria faturado cerca de US$ 211,7 milhões. Está conseguindo pagar as contas, tanto de produção quanto de distribuição, mas não está conseguindo aquele resultado maravilhoso que os realizadores idealizaram, certamente.

Tomb Raider é uma coprodução do Reino Unido com os Estados Unidos.

CONCLUSÃO: A história do surgimento da aventureira Lara Croft contada com alguns requintes de “modernidade”. Nesse filme, você não vai encontrar nada de original. Encontrará a essência da personagem, a sua origem, e lembrará, se tiver “bagagem” para isso, bastante dos filmes de Indiana Jones.

Se você conhece os games da personagem, também se sentirá em um deles, algumas vezes. No mais, tudo aquilo que já esperamos de um filme do gênero, mas com uma atriz que combina muito mais com o papel do que a anterior que encarnou o personagem. Um bom entretenimento, que só poderia ter aproveitado melhor o 3D para ficar um pouco melhor.

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Darkest Hour – O Destino de Uma Nação

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Foi por pouco, por muito pouco que não vimos o terror dominar a Europa e o mundo de uma forma irreversível. Darkest Hour se debruça sobre um período complicadíssimo e decisivo da nossa história. Com uma reconstituição de época impecável, um roteiro que faz jus ao personagem principal retratado e uma caracterização e interpretação desse personagem que não precisam de retoques, esse filme nos mostra uma ótica mais intimista do tão falado e conhecido Winston Churchill. Não por acaso o ator Gary Oldman está colecionando prêmios pelo seu trabalho nesse filme. Ele realmente nos dá uma aula de interpretação e é um dos principais trunfos desta produção.

A HISTÓRIA: Imagens históricas de soldados, armas, Adolf Hitler e tanques. A história começa no dia 9 de maio de 1940, quando a Alemanha tinha acabo de invadir mais quatro países europeus e 3 milhões de pessoas se deslocavam tentando fugir do terror. Enquanto isso, no Parlamento britânico, rejeitavam a postura “compassiva” de Neville Chamberlain (Ronald Pickup). A oposição dizia que ele era “despreparado para enfrentar Hitler” e pedia mudanças na polícia do Reino Unido.

Do Parlamento em alvoroço, seguimos para um jantar em que Chamberlain adianta que irá renunciar como Primeiro Ministro no dia seguinte, mas que queria comunicar aos amigos do seu Partido Conservador antes. Ele pede para o grupo indicar um novo nome, e o mais citado é o Visconde Halifax (Stephen Dillane), que não aceita a indicação porque afirma que apenas um nome será aceito pela oposição. Todos resistem a esse nome, mas Winston Churchill (Gary Oldman) acaba sendo indicado no final.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Darkest Hour): Winston Churchill é um dos nomes mais conhecidos da História. Ele tornou-se tão famoso por sua posição firme contra Hitler na Segunda Guerra Mundial, pelos seus discursos inspirados e por, com tudo isso, ter sido um personagem decisivo no conflito que poderia ter mudado para sempre o destino de diversas nações.

O interessante desse Darkest Hour é que o filme faz o que Lincoln (comentado por aqui), dirigido por Steven Spielberg e que deu um Oscar de Melhor Ator para Daniel Day-Lewis, fez antes por Abrahm Lincoln, outro nome sempre citado pelos livros de História. Novamente vemos a um personagem histórico sob uma ótica muito mais próxima, reparando nas suas oscilações de humor, manias, relações próximas, jogos de poder e conhecendo melhor os momentos decisivos que antecederam as escolhas que lhe tornaram uma figura importante na trajetória civilizatória.

Algo positivo no roteiro de Anthony McCarten é que ele não apenas “humaniza” o personagem histórico, atendendo a uma necessidade cada vez maior das pessoas conhecerem a História como ela realmente aconteceu, mas ele também dá a devida atenção e importância para as pessoas que cercaram Churchill naqueles dias decisivos de 1940.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Então sim, se é verdade que Churchill era um grande orador e um homem genial no uso das palavras, também é verdade que ele precisou de alguns apoios fundamentais para conseguir o que desejava: confrontar Hitler sem mostrar o mínimo de dúvida ou fraqueza no processo. Darkest Hour revela muito bem, por exemplo, como o Rei George VI (Ben Mendelsohn) foi uma figura fundamental por ter, horas antes da grande decisão de Churchill, visitado o Primeiro Ministro e dito que o apoiava inteiramente.

Se ele não tivesse feito isso e tivesse percorrido o outro caminho possível, que era, naquele momento, apoiar Halifax, certamente a história teria se desenrolado de forma muito diferente. Interessante como Darkest Hour mostra que apesar do Reino Unido e da Europa viverem dias decisivos, a classe política daquele país não abandonou em momento alguns os seus jogos políticos. Ou seja, isso não é uma questão apenas do Brasil ou dos “dias atuais”.

Jogos de poder, intrigas e a defesa de ilusórios e fugazes “interesses próprios” acima do bem comum, mesmo que por alguns minutos, horas ou dias, é algo que parece fazer parte da nossa História desde sempre – e possivelmente, para sempre. Temos que perceber isso, estarmos atentos e fazermos como o povo que Churchill ouviu em uma das sequências menos críveis dessa produção: marcar posição e dizermos com todas as letras o que queremos ou não como coletivo de cidadãos. E, preferencialmente, pensando no bem da maioria – ou de todos que forem possíveis abarcar.

Falando nessa sequência um tanto “difícil de acreditar” do filme… (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Sim, o diretor Joe Wright consegue um “grande momento” naquela sequência decisiva em que Churchill segue o conselho do Rei e vai até o “povão” no metrô de Londres para ouvir a opinião deles sobre empreender uma guerra ou buscar um acordo de paz com Hitler. A cena é muito bem feita e bacana, especialmente pelo trabalho de Gary Oldman. Mas, cá entre nós, mesmo quando ela estava acontecendo, ela me incomodou um pouco.

Realmente Churchill teria descido até o metrô para ouvir o povo? Me pareceu um tanto inverossímil. Além disso, enquanto a cena está rolando, eu pensei: “Nossa, como o metrô demorava séculos para ir de uma estação para a outra naquele tempo, não?”. 😉 Digo isso porque, afinal de contas, Churchill só precisava de uma estação para chegar ao seu destino, mas passam vários e vários minutos no trajeto para ele conseguir falar com o povo.

Fui procurar informações a respeito, e achei esse texto do Steve Pond, do The Wrap, em que ele comenta o assunto. Pond conversou com McCarten, que escreveu um livro sobre os fatos que ocorreram em maio de 1940 – e na obra o roteirista de Darkest Hour não cita o episódio do metrô. McCarten admite que provavelmente a cena do metrô nunca aconteceu, mas afirma que poderia ter acontecido, já que Churchill ficou famoso por dar algumas “sumidas” para falar com o povo para saber o que as pessoas realmente pensavam.

O roteirista também admite que usou de “licença poética” com o tempo “flexível” da sequência do metrô – que dura, evidentemente, muito mais tempo do que seria uma viagem normal de metrô entre duas estações, mesmo para aquela época. Claro que uma sequência do filme não estraga tudo que Darkest Hour nos entrega – e o maior destaque da produção é, sem dúvida, a interpretação impecável de Gary Oldman -, mas, admito, aquela “forçada de barra” diminuiu um pouco a nota do filme que eu vou dar abaixo.

Mas voltando para a história e sobre o que ela nos apresenta. Quem gosta do episódio da Segunda Guerra Mundial, certamente já ouviu a pelo menos alguns dos discursos famosos que Churchill fez na época – tanto para toda a população, através de uma transmissão no rádio, quanto no momento em que marcou a posição do Reino Unido na guerra ao falar para os seus pares no Parlamento – representantes do povo, no fim das contas.

Esses discursos famosos são vistos em uma telona agora, e na íntegra, por causa de Darkest Hour. Realmente é um deleite ouvir o talento de Churchill com as palavras. E é bom um filme como esse valorizar isso em uma época em que tem uma parte da população que acha que escrever e falar errado não importa “tanto”. Afinal, o que interessa é escrever de forma “telegráfica” nas redes sociais e no WhatsApp e “manjar” de tecnologia e afins, não é?

Só que não. Darkest Hour e a nossa História estão aí para mostrar como falar, escrever e, quase como condição “sine qua non” disso, pensar de forma lógica e inspirada pode sim mudar uma realidade de forma definitiva. Porque as pessoas gostam de serem inspiradas, gostam de grandes líderes. E por mais que, hoje, parece que estas figuras estão em falta, nunca elas foram tão necessárias.

Não que as pessoas não possam pensar por sua própria conta. Muito pelo contrário. Todos podem. Mas, certamente, somos movidos a grandes histórias. E essas histórias são feitas, sempre, por pessoas. Então quando temos pessoas inspiradoras para admirar e com quem aprender, tanto melhor. Podemos, assim, também encurtar caminhos e nos tornarmos melhores. Churchill, como esse filme bem revela, teve a coragem de não trilhar o caminho mais fácil ou cômodo, mas de ter uma posição firme e de “nadar contra a maré” sabendo escutar a população.

No fim das contas, isso que um grande líder deveria fazer sempre, não é mesmo? Não se esquecer que ele(a) está ali para servir e não para ser servido. Um grande líder – e hoje carecemos dele justamente por essa falta de compromisso público – deveria sempre colocar o interesse da maioria em primeiro plano, e não a sua própria busca por poder ou dinheiro. Claro que Darkest Hour tem o cuidado de não “endeusar” Churchill. E isso é uma qualidade do filme.

Assim, vemos em cena um sujeito cheio de manias, de dúvidas, que gostava de beber com frequência e que nem sempre sabia tratar as pessoas da forma mais recomendada ou adequada possível. Muito pelo contrário. Quando ele estava em um dia um tanto “atravessado”, ele gritava com os outros e afastava as pessoas sem pestanejar. Ele faz isso Elizabeth Layton (Lily James), a sua nova secretária, logo no primeiro dia de trabalho da moça. Mas, depois, ela acaba voltando e os dois se tornam próximos.

Ninguém é simples, no fim das contas – e nem podemos colocar as pessoas em uma caixa ou lhes dar uma ou duas etiquetas. E se Churchill era capaz de ter rompantes de grosseria, ele era também capaz de lançar o olhar mais atento para as pessoas comuns. Ele sabia que não era um sujeito comum.

Como ele mesmo comenta em um determinado momento do filme, ele nunca teve que andar de transporte público, e não passou por várias situações que as pessoas para quem ele governava passavam cotidianamente. Ao ter consciência disso, ele não se sentia melhor, apenas privilegiado. Tanto que sempre que ia para o seu dever, ele observava, do lado de fora da janela do carro, aquelas pessoas para quem ele tinha dedicado grande parte da sua vida.

Nesse sentido, sim, a sequência do metrô incomoda um pouco. Mas também dá para entender as razões da “liberdade poética” do roteirista McCarten. De fato, Churchill ouvia as pessoas comuns, e as observava atentamente. Que ele não tenha feito uma conversa com eles decisiva antes de seu discurso histórico, tudo bem. Mas ele nunca deixou de estar “antenado” com as demandas das pessoas comuns.

Darkest Hour explora muito bem, dessa forma, as facetas do personagem, assim como a angústia e as dúvidas que circundaram tão poucos dias daquele maio decisivo de 1940. Verdade que a Segunda Guerra teve outros momentos decisivos, mas aquele foi um dos grandes. Se a França tivesse caído, realmente, ou se o Exército inglês não tivesse sido quase todo resgatado em Dunquerque, certamente o restante da História teria sido muito diferente.

Algo que achei positivo nesse filme, volto a dizer, foi como, apesar de Darkest Hour ser uma “cinebiografia” de Churchill em seus dias decisivos, a história não render reverências apenas a ele. Como eu disse, o Rei George VI foi fundamental ao apoiar Churchill em um momento em que ele próprio estava com medo e cercado de dúvidas. Depois, mesmo tendo sido equivocado em grande parte do tempo, Chamberlain teve um gesto decisivo perto do final de apoio a Churchill e à sua resistência contra os nazistas.

Estas são as pessoas da esfera pública que foram decisivas no episódio de maio de 1940. Mas, além deles, o apoio constante e amoroso de Clemmie (a sempre ótima Kristin Scott Thomas), esposa de Churchill, também foi fundamental para que o Primeiro Ministro pudesse centrar-se no que realmente era importante naquele momento.

E, claro, todos os pescadores e marinheiros civis voluntários que fizeram a ideia “maluca” de Churchill dar certo em Dunquerque – aliás, enquanto assistia a esse filme, eu pensei: nada mas indicado do que, após assistir Darkest Hour, alguém emendar a experiência assistindo ao marcante e eletrizante filme Dunkirk, comentado nesse link, outro forte concorrente ao Oscar desse ano.

Para ter uma dimensão mais precisa do que foi aquele resgate no litoral francês, sem dúvida alguma é uma boa pedida assistir ao filme dirigido por Christopher Nolan. Enfim, Darkest Hour é um filme interessante, bem conduzido, que conta um pouco mais sobre este capítulo já bastante explorado pelo cinema, que é a Segunda Guerra Mundial. Bacana avançarmos mais nas cinebiografias que “humanizam” personagens históricos. E claro, Gary Oldman volta a fazer uma das grandes interpretações da sua vida. Ele, sem dúvida, merece a experiência de assistir a esse filme.

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: A caracterização do personagem de Winston Churchill nesse filme é, realmente, algo impressionante. Até porque basta comparar as diferenças físicas entre o personagem histórico e o ator Gary Oldman para percebermos que foi preciso um grande trabalho de caracterização para deixá-los parecidos. Então, evidentemente, os grandes destaques desse filme são o trabalho da equipe envolvida em Maquiagem e Cabelo e a interpretação inspirada, cuidadosa e muito convincente de Gary Oldman.

Não por acaso, o filme é favorito no Oscar nessas duas categorias: Melhor Ator e Melhor Maquiagem e Cabelo. Falarei mais sobre isso logo abaixo.

Acho, e não é de hoje, Gary Oldman um ótimo ator. Mas, como outros ótimos atores, ele tem entregas irregulares. Porque, talvez, nem sempre escolha ótimos papéis ou filmes. Perto de completar 60 anos de idade – ele faz aniversário no dia 21 de março -, Oldman é um ator que não tem preguiça de trabalhar. Ele tem, no currículo, 92 trabalhos, incluindo projetos para o cinema e a TV.

Até hoje, Oldman recebeu apenas uma indicação ao Oscar – e nunca ganhou o prêmio -, por Tinker Tailor Soldier Spy. Ele fez vários papéis interessantes, nessa longa trajetória, mas um dos que mais me marcaram foi, sem dúvida, o que ele realizou em Dracula, de 1992, dirigido por Francis Ford Coppola.

A estrela de Darkest Hour, disparado, é Gary Oldman. Mas temos alguns atores competentes e que fazem um belo trabalho como coadjuvantes. Vale citar, nesse sentido, Kristin Scott Thomas como Clemmie, esposa de Churchill; Ben Mendelson como Rei George VI; Lily James como Elizabeth Layton, secretária do Primeiro Ministro inglês; Ronald Pickup como Neville Chamberlain, líder do Partido Conservador e ex-Primeiro Ministro; Stephen Dillane como o Visconde Halifax, um sujeito que quer assumir como Primeiro Ministro mas que, antes, quer “queimar” Churchill; Samuel West como Sir Anthony Eden, embaixador; David Schofield como Clement Atlee e Hilton McRae como Arthur Greenwood, os representantes do Partido Trabalhista no Gabinete de Guerra; e Demetri Goritsas como o secretário de gabinete Bridges.

Assim como o trabalho de Maquiagem e Cabelo é excepcional nesse filme, outros aspectos técnicos que ajudaram na reconstituição de época acabaram sendo vitais para a produção. Destaco, nesse sentido, o trabalho excepcional dos 18 profissionais envolvidos com o Departamento de Maquiagem; a direção de fotografia de Bruno Delbonnel; os figurinos de Jacqueline Durran; o design de produção de Sarah Greenwood; a direção de arte de Oliver Goodier, Nick Gottschalk e Joe Howard; a edição de Valerio Bonelli; e a trilha sonora de Dario Marianelli. Belo trabalho de equipe.

O roteiro de Darkest Hour é bom e cumpre bem o seu trabalho de “humanizar” o personagem histórico de Winston Churchill. Mas, cá entre nós, o filme não apresenta nenhuma graaaande novidade em relação ao que os um pouco mais informados já sabiam. Talvez seja um bocado marcante, apenas, como tantos fatos marcantes aconteceram em um período tão curto de tempo. Mas até isso, convenhamos, é esperado durante um grande conflito como foi a Segunda Guerra Mundial. Então sim, o filme tem todas as qualidades que eu falei, mas ele realmente não apresenta uma novidade para quem já conhece um pouco sobre a história de Churchill e os bastidores da Segunda Guerra Mundial.

Eu não precisei procurar muito para tirar a minha pequena – porque eu já tinha quase certeza sobre a resposta – dúvida sobre a tal cena de Churchill no metrô. Vários textos tratam do assunto. O que eu citei antes, pegou mais leve. Mas se você quer uma crítica mais ácida, recomendo essa aqui de Owen Gleiberman publicada pela Variety. 😉

Darkest Hour estreou em setembro de 2017 no Festival de Cinema de Telluride. Depois, o filme participou, ainda, de outros 15 festivais. Até o momento, essa produção ganhou 27 prêmios, incluindo o Globo de Ouro de Melhor Ator – Drama para Gary Oldman, e foi indicado a outros 52 prêmios. A maior parte dos prêmios, 22 no total, foram dados para Gary Oldman. Mas há prêmios também pela maquiagem, figurino e um para o diretor Joe Wright.

Agora, algumas curiosidades sobre essa produção. De acordo com os produtores do filme, Gary Oldman gastou mais de 200 horas na maquiagem para conseguir se transformar em Churchill. Um trabalho impressionante, não apenas dele, mas da equipe de técnicos envolvida no processo, que a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood gosta de valorizar – seja com indicações, seja com estatuetas.

Ainda de acordo com os produtores, Churchill “frequentemente” desaparecia de Downing Street ou do gabinete de guerra para aparecer em outros pontos de Londres para ouvir o que as pessoas pensavam sobre o que estava acontecendo. Apesar disso, nunca foi documentado que ele tivesse andado de metrô naquele período.

Nos créditos finais do filme, esqueceram de mencionar que, apesar de realmente ter perdido as eleições em 1945, Churchill voltou a ser eleito Primeiro Ministro em 1951 porque o Partido Trabalhista ganhou mais votos, mas o Partido Conservador tinha mais assentos no Parlamento.

Apenas o orçamento do filme para charutos consumiu cerca de US$ 30 mil. O ator Gary Oldman chegou no final das filmagens com uma intoxicação por nicotina – ele teria fumado ou começado a fumar 400 charutos – e teve que passar por uma colonoscopia.

Outra licença poética de Darkest Hour: o filme todo se passa em maio de 1940, mas na vida real Elizabeth Layton não se tornou secretária de Churchill antes de 1941.

O ator Gary Oldman passou um ano estudando Churchill e suas manias antes de fazer Darkest Hour. Ele e os demais atores também puderam desenvolver melhor o seu trabalho tendo quatro semanas de tempo para ensaiar a produção – algo um tanto incomum em Hollywood.

Darkest Hour faturou pouco mais de US$ 41 milhões nos Estados Unidos e cerca de US$ 19,9 milhões nos outros mercados em que já estreou. No total, o filme arrecadou cerca de US$ 61 milhões. Considero uma bilheteria muito boa, especialmente nos Estados Unidos, e para um filme histórico sobre um personagem que não é daquele país.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,4 para essa produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 189 textos positivos e 32 negativos para o filme, o que garante para Darkest Hour uma aprovação de 86% e uma nota média de 7,4. Chama a atenção, mais do que nada, a boa nota dos dois sites – especialmente se levarmos em conta a média deles.

Esse filme é uma produção 100% do Reino Unido.

CONCLUSÃO: Esse filme segue na trilha de outras produções recentes que buscam “humanizar” e ter um olhar um pouco mais “pé no chão” de grandes personagens da nossa história. Dessa vez o escolhido foi Winston Churchill, em um trabalho primoroso e digno dos prêmios que está recebendo de Gary Oldman. Um filme bem contado, com uma bela reconstituição de época, mas que não foge da cartilha que já conhecemos bem.

História linear, que faz as pausas adequadas para nos aproximarmos mais do protagonista e das pessoas que lhe cercaram naqueles dias decisivos de maio de 1940. Essa produção não vai mudar a sua vida, mas se você se interessa pela História, por personagens marcantes e pela força que as palavras e as escolhas certas podem ter como inspiração para pessoas, nações e o mundo, essa será uma boa pedida. É um filme competente, sem dúvida.

PALPITES PARA O OSCAR 2018: Duas indicações são “batata” para esse filme: Melhor Ator para Gary Oldman e Melhor Maquiagem e Cabelo. Essa produção também é a favorita para vencer nessas duas categorias. Mas o que mais podemos esperar para Darkest Hour no Oscar?

O filme está cotado para ser indicado também em Melhor Fotografia, Melhor Figurino, Melhor Design de Produção e Melhor Trilha Sonora. Ele tem alguma chance, ainda que não tão grande, de ser indicado a Melhor Filme; Melhor Diretor para Joe Wright; Melhor Roteiro Original e Melhor Edição.

Ou seja, Darkest Hour pode receber, facilmente, seis indicações ao Oscar e chegar até o número de 10 indicações. O filme merece tanto? Bem, as indicações técnicas por causa da caracterização de época – nas categorias Melhor Maquiagem e Cabelo, Melhor Fotografia, Melhor Figurino e Melhor Design de Produção -, certamente que sim. Assim como a indicação para Oldman. As demais… bem, vai depender do lobby e da “paixão” das pessoas pelo filme.

Da minha parte, acho sim que a produção merece receber cerca de seis indicações e ganhar como Melhor Maquiagem e Cabelo e Melhor Ator – e comento isso sem ter assistido, ainda, a todos os concorrentes. Nas demais categorias, ainda preciso ver a outros filmes para poder “bater o martelo”, mas a minha tendência seria de dar apenas esses dois Oscar’s para Darkest Hour. Afinal, esse é um bom filme, com um grande ator, mas nada muito além disso.

Salmon Fishing in the Yemen – Amor Impossível

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Lasse Hallström é um especialista em fazer filmes bonitos. Ele busca belas imagens, e gosta de ter tempo de revelá-las. Nos incita à contemplação. Não é diferente com Salmon Fishing in the Yemen, um filme divertido, muito inglês, e que busca enfatizar como não há limites para a vontade – e o dinheiro. Bem ao estilo de Hallsröm, que gosta de adaptar romances bacaninhas para a telona, Salmon Fishing aborda temas muito diferentes de forma leve e um tanto descompromissada.

A HISTÓRIA: Água, e belos peixes. Uma figura com vara de pescar e turbantes pesca em um cenário incrível. E começa a narrativa com uma carta escrita por Harriet Chetwode-Talbot (Emily Blunt), de um escritório de advocacia, para o Dr. Alfred Jones (Ewan McGregor). Ela diz que representa um cliente com muito dinheiro que quer financiar um projeto para que o Iêmen comece a produzir salmão. Harriet comenta, na correspondência, que o projeto tem o apoio do Ministério de Relações Exteriores inglês, que quer reforçar a cooperação com o pequeno país árabe que faz fronteira com a Arábia Saudita e Oman. Após mandar o e-mail para o Dr. Jones, Harriet sai para se encontrar com o militar Robert Mayers (Tom Mison), com quem ela está começando a se envolver. Dr. Jones acha a ideia de criar salmões no Iêmen absurda, mas acaba sendo forçado, por questões políticas, a embarcar no projeto financiado pelo Sheikh Muhammmed (Amr Waked).

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momento importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Salmon Fishing in the Yemen): Um ponto forte desta produção é o humor da história. E a coragem do roteiro de Simon Beaufoy, adaptado do livro de Paul Torday, em refletir sobre questões como as relações diplomáticas, a política inglesa e seus “veja bem”, assim como na ironia de mostrar os extremos de um cientista que busca lógica constante e de um sheikh árabe movido pela fé e que tem dinheiro suficiente para mover montanhas.

Como a vida mesma ensina, este filme revela como as convicções vão sendo modificadas e enfraquecidas pela experiência. Nem o cientista segue sendo tão objetivo quando ele esperava, nem o sheikh com todas as ferramentas na mão (especialmente a fé e o dinheiro) consegue tudo o que quer. A vida é mais complexa do que parece, como escreveria e cantaria Jorge Drexler. E as variantes vão nos moldando. Porque a nossa vontade, por mais que algumas vezes surpreendente, sempre é limitada. O desejo de um indivíduo esbarra na vontade de seu semelhante, quando as pessoas não estão olhando na mesma direção.

Salmon Fishing in the Yemen ensina um pouco sobre isso. O que é surpreendente. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Por incrível que pareça, este filme me fez lembrar de algums discussões que eu tive o prazer de ter no meu doutorado. Especificamente sobre projetos de desenvolvimento local. O erro mais comum, incluside de organizações internacionais de respeito, é querer implantar em locais diferentes as mesmas fórmulas de desenvolvimento. Sem se preocupar em ouvir as pessoas daquela localidade, seja para saber se aquela proposta é adequada para elas, seja para despertar nos indivíduos a capacidade de encontrarem soluções para os seus próprios problemas. E Salmon Fishing trata exatamente disto.

O sheikh Mohammed está cheio de boas intenções, investe um rio de dinheiro – literalmente – para levar uma alternativa econômica e de renda para aquele local antes depreciado, mas não encontra este mesmo entendimento entre um grupo de pessoas local. Claro que se ele tivesse feito outro movimento, como ouvir as pessoas locais antes de atuar, envolvendo elas nesta proposta de desenvolvimento, ele teria tido outra resposta. O que nos leva a outra questão: por mais que achemos que estamos fazendo o bem e uma escolha certa, devemos sempre nos questionar. Partir da posição humilde de que não sabemos tudo, e que deveríamos ouvir mais do que falar aquilo que, para nós, parece tão evidente e certo.

Salmon Fishing, aliás, parece estar sempre falando sobre como esta posição humilde de questionar-se sempre parece ser a mais adequada. Dr. Jones e Harriet acabam, cada um em seu momento, questionando as suas próprias escolhas de vida. O sheikh, por mais diferente que é a sua realidade e firmeza de propósitos, também acaba se questionando. E o que o filme mostra, e eis uma parte bacana dele, é que há sempre alternativas. Não importa o problema que você esteja enfrentando, ou as escolhas que já tenhas tido na vida, há sempre um novo recomeço possível. Para isso, basta ter um pouco de fé, e alguma humildade e coragem.

Fora as questões filosóficas sobre ter paciência – a velha alusão ao ato de pescar – e de investir em uma ideia movidos pelo amor, Salmon Fishing acerta ao contrapor os homens “da ciência e da fé”, justamente para mostrar que eles não são tão diferentes assim e podem ser igualmente “contaminados” por uma característica ou outra. Porque, no fim das contas, e ainda que o Dr. Jones não tenha percebido, mas é justamente o amor por uma mulher (no caso dele) ou por uma ideia/povo (no caso do sheikh) que move ele, Harriet e o sheikh.

Achei especialmente engraçado como o protagonista, tão enfático em seu conhecimento científico, é tão “inocente” a respeito da vida real. Como Dr. Jones, há muitos especialistas espalhados por aí que são quase autistas. Vivem tão fechados em seus mundos científicos que não percebem como o restante da vida se desenvolve. Para ele, como cientista, é impossível criar salmões em um clima como aquele do Iêmen. Mas ele logo descobre que não há fronteiras para a capacidade do dinheiro em mudar realidades e transformar o impossível em algo possível. Certamente ele amadurece conforme esta história se desenvolve, e acompanhá-lo nesta “passagem” da vida pueril de um cientista para a de um sujeito que embarca em um projeto cheio de interesses e interessante encanta o espectador.

Outro acerto da produção é ironizar não apenas o jeito interessante dos ingleses encararem a sua própria intimidade, como também os bastidores da política. Servem de condimento para a história a relação fria entre Alfred e Mary Jones (Rachael Stirling). Eles são destes casais, e há muitos na Inglaterra e em outros países, que ficaram juntos cedo e que são mais amigos do que amantes ou confidentes. Há pouca intimidade naquele lar. E essa falta de paixão contamina todo o restante.

A mesma intimidade pouco afetiva é vista na casa da poderosa Patricia Maxwell (a excelente Kristin Scott Thomas), assessora de imprensa do Primeiro Ministro britânico. Fora de casa ela intimida e consegue mudar as coisas a favor do governo britânico impondo autoridade, mas dentro do lar ela não consegue ser ouvida pelo filho adolescente. Um contraste interessante e que faz refletir sobre a capacidade de homens em mulheres em obter sucesso em determinado campo da vida – profissional ou pessoal – mas, dificilmente, em todos. Até porque, e Salmon Fishing fala sobre isso, a dedicação para um propósito ou outro faz toda a diferença.

NOTA: 8,9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Não li ao livro de Paul Torday, e que inspirou o roteiro de Salmon Fishing, mas algo eu posso dizer: que belo trabalho de Simon Beaufoy! Mais um, aliás. Aqui, outra vez, ele cuida de um roteiro ágil, cheio de diálogos preciosos e bem planejados/costurados. Não há sobras, e sim muitas linhas bem escritas. Dá gosto de ver um roteiro assim. E ainda que ele não seja muito surpreendente, no final, ele segura o interesse até o último minuto, bastante ajudado pelo carisma dos protagonistas e pelo ótimo trabalho dos coadjuvantes.

Falando nos coadjuvantes, Kristin Scott Thomas rouba a cena cada vez que aparece. Mas junto com ela, merecem ser mencionados alguns atores que fazem a diferença. Como, por exemplo, Conleth Hill, que interpreta a Bernard Sugden, o burocrata que é o chefe do Dr. Jones, político padrão, e que morre de medo de Patricia Maxwell. Os dois servem como uma ótima dupla de apoio para os protagonistas, junto com o excelente egípcio Amr Waked, que tem uma presença impressionante frente às câmeras, e do galã com pequena participação na trama, Tom Mison.

Salmon Fishing conseguiu, até o dia 3 de junho, pouco mais de US$ 9 milhões nas bilheterias dos Estados Unidos. Um desempenho baixo, comparado com os blockbusters, mas não está mal para um filme com estilo “alternativo”.

Esta produção estreou no Festival de Toronto em setembro de 2011. Depois, ele participou de outros três festivais de cinema, o de Portland, de Palm Springs e o de Tokyo. Nesta trajetória, ele conquistou um prêmio, o segundo lugar como melhor narrativa no festival de Palm Springs. Recentemente ele foi indicado para três prêmios no Globo de Ouro: Melhor Filme – Musical ou Comédia, Melhor Ator em Filme – Musical ou Comédia para Ewan McGregor e Melhor Atriz em Filme – Musical ou Comédia para Emily Blunt. Acho bem difícil ele ganhar qualquer um destes três.

Da parte técnica do filme, merecem ser mencionados os ótimos trabalhos do diretor de fotografia Terry Stacey, a trilha sonora de Dario Marianelli, e a edição de Lisa Gunning, que dá um ritmo interessante e que apresenta um trabalho técnico excelente.

Para quem gosta de saber aonde as produções foram filmadas, Salmon Fishing foi rodado em Londres, na Escócia e em Marrocos.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,8 para esta produção. Não está mal, avaliando a média de notas do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 91 críticas positivas e 45 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 67% e uma nota média de 6,2.

De fato, público e crítica tiveram uma avaliação muito próxima. E a minha, acima, talvez tenha sido muito generosa. Mas é que me surpreendi com todos os temas que esta produção trata. Admito, contudo, que ela simplifica um bocado os personagens principais – Dr. Jones muito estigmatizado como o “cientista insensível e deslocado do mundo real” e o sheikh muito estereotipado como o sujeito cheio da grana que gasta um rio de dinheiro em um projeto absurdo. Mas a verdade é que estes personagens existem na vida real, com um pouco menos ou mais de caricatura. Então devo dizer que este filme me convenceu, apesar do exagero em alguns momentos e pela falta total de surpresa na reta final. Mas tudo isso para dizer que eu entendo a avaliação menos generosa das outras pessoas. 🙂

Salmon Fishing in the Yemen é uma produção 100% inglesa.

Agora, uma pequena e fácil observação: o título original é bacana porque é autoexplicativo e resume parte da produção. Por outro lado, o título para o mercado brasileiro… horrível. Como em tantas outras vezes. Que Amor Impossível o que? Lamentável.

CONCLUSÃO: Há uma grande dose de realidade e de fantasia neste filme. Pescar, e isso Hemingway e tantos outros escritores já haviam nos ensinado, é uma questão filosófica e quase espiritual. Por tratar também de pescaria, Salmon Fishing in the Yemen pretende ser além do que uma bonita embalagem. Ele roça em questões como fé, superação humana e a motivação para nos fazermos maiores do que o ser insignificante (mas poderoso) que somos. E a grande motivação, claro, é o amor. Agora, francamente, se esta produção fosse apenas isto, filosofia em forma de pílulas, ela seria chata. Mas ela vai além. Aborda o jeito inglês de viver, trabalhar e amar, assim como os bastidores ridículos da política. Imagem é tudo, já diria uma certa propaganda. E o roteirista Simon Beaufoy e o diretor Lasse Hallström acertam a mão ao misturar todos estes elementos, buscando o equilíbrio entre eles. O resultado é um filme divertido, muito bem conduzido, que não surpreende no final, mas que traz alguns elementos interessantes no decorrer da história, além de um grupo de atores muito concentrado e com bom desempenho. Vale ser conferido, ainda que não seja inevitável.

PALPITES PARA O OSCAR 2013: Salmon Fishing in the Yemen deve ser indicado em algumas categorias do próximo Oscar. Mas é difícil precisar em quantas. Como sempre, tudo vai depender do lobby de seus produtores e realizadores. Não seria surpreendente ele chegar a ser indicado como Melhor Filme, especialmente agora que até 10 produções podem chegar lá. Na versão anterior da premiação, quando apenas cinco eram indicadas, certamente ele ficaria de fora. Mas com a lista maior, é possível que ele chegue, mesmo não sendo o melhor do ano – e isso porque eu não assisti nem a metade dos favoritos.

Também é possível, pela “ficha corrida” de Hallström e pelo trabalho competente que ele fez nesta produção, que ele seja indicado como Melhor Diretor. É mais difícil, é verdade, mas nunca se sabe. No mais, não seria surpresa se o filme aparecesse na lista de Melhor Direção de Fotografia, Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Trilha Sonora. Porque cada um destes elementos funciona com perfeição e tem destaque na produção.

Mesmo que o filme chegue a conquistar todas estas indicações, francamente acredito que ele saia de mãos vazias da premiação. Talvez Salmon Fishing tenha mais chances em direção de fotografia e trilha sonora. Mas, ainda assim, meu palpite é que ele não deverá ganhar nada. O que não seria injusto, analisando os seus concorrentes.