De Rouille et d’Os – Ferrugem e Osso


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Para a maioria dos filmes, é fácil começar um texto como este. Porque eles são diretos no que eles querem dizer e significar. De Rouille et D’Os não é assim. O que é curioso, já que é um dos filmes mais diretos e “simples” (reforço as aspas) que eu assisti nos últimos tempos. Ele fala de desejos primários. E de como a vida é cheia de pancadas. No final das contas, o que importa é como reagimos a estes golpes. Pronto, consegui escrever um início de texto sobre o filme. E, nem por isso, De Rouille et D’Os é simples de ser assistido.

A HISTÓRIA: Água. E outras imagens vão se fundindo. Um quarto, um menino, um local de espetáculos. Das imagens que parecem saídas de um sonho, partimos para a realidade dos passos de Sam (Armand Verdure), que tenta acompanhar a caminhada do pai, Alain van Versch (Matthias Schoenaerts). Em uma avenida, eles pedem carona. Sem dinheiro, Alain deixa a Bélgica e viaja para a casa da irmã Anna (Corinne Masiero), onde procura recomeçar a vida com algum apoio. Após conseguir emprego como segurança de uma casa noturna, ele conhece a Stéphanie (Marion Cotillard), uma mulher que é agredida no local em que ele trabalha.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a De Rouille et D’Os): Propositalmente eu contei pouco sobre o enredo de De Rouille et d’Os ali no resumo da história. Isso porque, e não tenho um pingo de dúvida sobre isso, o filme só tem a força que ele tem porque vai surpreendendo o espectador conforme o tempo vai passando. E com isso eu não quero dizer que a história tenha grandes reviravoltas. Mas, sem dúvida, ela tem algumas surpresas dramáticas que são fundamentais.

Como um soco que levamos na cara, ou no estômago, as surpresas de De Rouille et d’Os deixam marcas. E para cada grande cicatriz que a vida vai deixando, existe a criatividade de buscar saídas para aqueles golpes e, principalmente, para a dor que volta de feridas mal curadas. Este é o grande lance deste filme. A grande sacada do roteiro escrito por Jacques Audiard e Thomas Bidegain e que foi inspirado na história escrita por Craig Davidson.

Os personagens principais desta produção passaram por tempos difíceis. E, para surpresa geral, inclusive deles mesmos, vão passar por dificuldades ainda piores. Machucados por histórias de amor marcantes, mas que deram errado, Stéphanie e Alain se encontram justamente no momento em que se esforçam para continuar tocando a vida. Ela, sai à noite em busca de alguma diversão. Sente-se melhor ao perceber que segue sendo desejada pelos homens. Ele, encara qualquer mulher que queira dar uma rapidinha. Ele não se importa em repetir a dose, desde que fique claro que ele não tem compromisso com ninguém.

Fiquei especialmente impressionada com o personagem de Alain. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Como tantas pessoas que a gente encontra na vida, é possível fazer uma leitura rasa dele. Alain é um sujeito bruto, direto, que transpira testosterona a todo momento. Apenas isso? Fica evidente que não. Ele também é um sujeito que paga um preço alto por pensar e atuar a sua maneira, contra convenções, e por viver em um constante pêndulo entre agir como um sujeito egoísta e solidário, altruísta. Na mesma medida em que ele gosta de ganhar dinheiro batendo em outros sujeitos e vivendo a experiência de ser um campeão, ele também é capaz de carregar Stéphanie nas costas até o mar. Sempre direto, ele parece não ter filtros. E isso é fantástico.

O personagem de Alain me fez refletir sobre algo: dá para simplificar a vida ao ponto de ser tão direto em seus atos e forma de pensar que chega a assustar outras pessoas? Porque ele é assim. Sem se importar com o que os outros vão dizer ou pensar sobre como ele atua, Alain rompe convenções, teorias, e resgata um modo de vida primário. Quase primitivo. Ele ama o filho, mas é capaz de estourar e dizer, para a própria criança, que a odeia. Porque a gente não ama e “odeia” quem amamos em alguns momentos? Somos generosos, mas também egoístas.

Mas o surpreendente está na forma com que ele vê as suas relações pessoais, especialmente o sexo. Como ocorre para muitos homens – e o filme, de forma inevitável, trata das diferentes óticas entre homense  mulheres – Alain encara o sexo como algo natural, que pode ser feito a qualquer hora em que não é preciso estar fazendo outras coisas. E com qualquer pessoa. Sem cobranças, expectativas, fidelidade. Stéphanie, por sua parte, como ocorre com quase todas as mulheres, espera o inverso. Ela quer se dedicar a alguém e ser retribuída, e não dividir essa fidelidade com uma terceira pessoa. Qual versão é mais natural? Qual faz mais sentido? Poderíamos escrever textos apenas sobre isto, mas não é esta discussão que importa. O interessante é a forma com que estas formas diferentes de amar e de se entregar são mostradas no filme.

Igualmente importante como cada um deles, Stéphanie e Alain, acaba aprendendo com o outro. Porque no final do filme, eles não estão iguais ao início. Especialmente após as últimas experiências traumáticas. Isso porque, especialmente quando a dor ensina algumas lições, você entende que não há decisão melhor do que a de ficar comprometido com alguém. De compartilhar e crescer ao lado desta pessoa, tendo o amor como elemento em comum. E não importa se Alain é meio tosco, não pensa direito em seus próprios atos. Apenas age. E se Stéphanie é sensível, observadora, e sente tudo com uma intensidade impressionante. No fim das contas, os dois se aproximam, se respeitam, ficam perto o suficiente para se perceberem. E superam todo o restante. Belo filme. Grande exemplo de história e de narrativa.

NOTA: 9,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Gostei do estilo da direção de Jacques Audiard, que filma como se fizesse um documentário, mas com um toque muito cuidadoso nos detalhes. Ele “esconde o jogo” sempre que possível, para surpreender ao público, e mantem a câmera muito próxima dos atores, valorizando o trabalho deles e a fotografia. Muito bom!

Aliás, a direção de fotografia também merece um comentário específico. Constantemente ela valoriza a luz, algumas vezes até destacando o brilho do local, mesmo em momentos sombrios da história. Valoriza as belas cenas, quando elas aparecem, e busca estas imagens que perduram na memória do espectador depois que o filme termina. Belo trabalho de Stéphane Fontaine.

Tudo funciona bem em De Rouille et d’Os. Além dos elementos já citados, vale citar a trilha sonora deliciosa e marcante de Alexandre Desplat, e a competente edição de Juliette Welfling.

Pela primeira vez em muito tempo eu vejo uma tradução literal de um título de outro país. Muito bom! Ferrugem e Osso é um belo título, sem dúvida, para esta produção.

De Rouille et d’Os teria custado cerca de 15,4 milhões de euros. E arrecadou, apenas na França, pouco mais de US$ 14,5 milhões até o dia 1 de julho de 2012. Na Bélgica, fez outros US$ 1,26 milhões e, no Reino Unido, mais US$ 1,3 milhões. Pouco a pouco o filme foi conseguindo algum lucro, apesar de ter conseguido um resultado fraco nos Estados Unidos, onde fez pouco mais de US$ 866 mil até o dia 6 de janeiro deste ano.

Esta produção estreou na Bélgica em maio de 2012 e, depois, participou do Festival de Cannes. Em sua trajetória, até agora, passou por outros 17 festivais.

Neste caminho, ganhou seis prêmios e foi indicado a outros 11. Além destes, nomeado para dois Globos de Ouro: Melhor Filme em Língua Estrangeira e Melhor Atriz – Drama para Marion Cotillard. Ela realmente dá um banho nesta produção. Mostra maturidade e muita força, uma entrega comovente. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o de Melhor Filme no Festival de Londres de 2012, assim como para os prêmios de Melhor Ator para Matthias Schoenaerts, Melhor Diretor para Jacques Audiard e Melhor Roteiro no Festival Internacional de Cinema de Valladolid.

De Rouille et d’Os foi filmado na França, em várias cidades do Alpes-Maritimes, e também nas cidades de Liège e Spa, ambas na Bélgica.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,6 para esta produção. Uma boa avaliação, levando em conta o padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram um pouco mais generosos com a quantidade de textos positivos, dedicando 101 críticas positivas e 25 negativas, o que garante, para o filme, uma aprovação de 80% e uma nota média de 7,6.

Este é um filme co-produzido pela França e pela Bélgica.

O francês Jacques Audiard é um veterano roteirista que, 20 anos depois de escrever o seu primeiro trabalho para o cinema, estreou como diretor, em 1994, com a produção Regarde les Hommes Tomber. Inicialmente, quando assisti a De Rouille et d’Os, achei o seu trabalho impressionante, tanto pelo roteiro quanto pela direção. Mas, de imediato, “minha ficha” não tinha caído sobre ele. Audiard é o diretor Un Prophète, filmaço indicado ao Oscar que eu comentei por aqui. Ou seja, ele merece ter a filmografia conferida e, especialmente, ser acompanhado a partir daqui. Porque, tudo indica, ele fica melhor a cada nova produção.

CONCLUSÃO: Difícil encontrar apenas um ponto de destaque em De Rouille et D’Os. Afinal, esta é uma história de amor? Ou de superação? Ou ainda uma crônica amarga sobre pessoas sem muitas perspectivas na vida? É a história de pessoas simples ou complexas? De Rouille et D’Os é tudo isso, mas um pouco mais. O personagem principal da produção ser um sujeito que luta para conseguir dinheiro não é acidental. Porque todos nesta história, da criança até o adulto, apanham um pouco da vida. E batem de volta. Cada a sua maneira, na busca pela sobrevivência e desfrutando do amor. E sem padrões, fórmulas, mas daquela maneira acidentada que a vida mesma se apresenta. Por tudo isso, achei este filme excepcional. Realmente perfeito, no espírito, nas escolhas de seus realizadores e na interpretação dos protagonistas. Um filme inteligente, preciso na mensagem e na condução, e sem parecer óbvio – como outras produções recentes da França.

PALPITES PARA O OSCAR 2013: No fim das contas, demorei mais de uma semana para escrever toda esta crítica e a lista do Oscar saiu… deixando De Rouille et d’Os totalmente fora da disputa pelas estatuetas deste ano. Compreensível, até. Afinal, este filme não tem o perfil do Oscar. Seria muito mais uma produção a vencer Sundance.

Mas De Rouille et d’Os está concorrendo ao Globo de Ouro. Merece estar na lista, não há dúvidas. E, para ser franca, gostei mais dele do que do popularíssimo Intouchables. Especialmente porque De Rouille et d’Os é muito mais duro, direto, pé no chão. Intouchables fala bem de marginalizados que se respeitam e, por isso, surpreendem. E de como o politicamente correto é chato e muitas vezes nos atrapalha. Mas De Rouille et d’Os trata da capacidade humana de superação e de aprendizado. E sempre vou preferir histórias assim.

Apesar das minhas preferências, e sem ter assistido a todos os concorrentes ao Globo de Ouro ainda, admito que a disputa parece estar polarizada entre o popular Intouchables e o super elogiado Amour. Meu palpite é que o filme de Michael Haneke leve a melhor. E digo isso até por analisar que ele foi indicado a cinco Oscar. Isso não é para qualquer um. Mas o Globo de Ouro é diferente, costuma ser mais popular. Por isso é possível que Intouchables também leve. De Rouille et d’Os tem tudo para contentar-se apenas com a indicação.

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12 comentários em “De Rouille et d’Os – Ferrugem e Osso

  1. Ótimo comentário!
    Qd vi esse filme, fiquei pensando nele por dias.
    Lendo seu comentário percebi o que provocou isso.
    Talvez seja preciso tu perder tudo, estar sem perspectiva nenhuma p/, como Alain, alguém que não tem nada, descobrindo-se capaz de doar algo de bom e Stephanie obtendo algo mais que pena.
    Talvez o sexo ali enm fosse um lance só de alívio, mas de contato humano, algo que te lemrbasse que apesar de mutilados fisica emocionalemnte o sangue ainda pulsa em ti.

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    1. Olá johannah!

      Baita filme, não é mesmo?

      Ele também me deixou pensando um bom tempo. E enquanto o assistia, fiquei fascinada pela história e pelos atores.

      Acertastes em alguns pontos que eu acho os mais bacanas da história. A capacidade de todos nós em nos doarmos – independente do que “temos” ou não temos – e a necessidade do contato humano, de sentir a pele do outro, de nos sentirmos vivos. É bom por aí.

      Obrigada por teu comentário e tua visita. E volte muitas vezes ainda para falar de outros filmes, beleza?

      Abraços e inté!

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  2. Olá, Alessandra! Acompanho seu site faz um tempo, mas só agora resolvi comentar para agradecer por tantas reflexões e indicações de filmes maravilhosos. Esse foi mais um filme que me interessou por ter visto antes sua crítica (eu não leio a crítica toda antes de assistir, mas, geralmente, ela transmite exatamente a minha sensação após cada filme indicado). Sem dúvida é o blog sobre filmes mais bem escrito e de melhor gosto em relação às películas escolhidas para análise, reflexão e indicação. Parabéns, de verdade! Continuarei seguindo…

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    1. Oi Júlia!

      Uau, que comentário mais bacana o seu!

      Que bom que você resolveu comentar aqui no blog. Fiquei muito feliz que o blog tenha te ajudado a encontrar ótimos filmes, como este. Também vi como um grande incentivo o que comentaste. Para mim, é um prazer escrever sobre cinema e ver que tanta gente compartilha desta paixão.

      Espero que você se anime a comentar mais vezes por aqui, inclusive repassando as tuas avaliações sobre as produções que você for assistindo.

      Obrigada por tuas várias visitas e pelo teu comentário tão bacana. Abraços e inté!

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  3. Concordo em tudo! É um filme pra ser visto sem ler a sinopse, por sorte foi o que fiz.
    Realmente não é um filme óbvio, ele surpreende, a cada momento que você acha que as coisas vão mudar/melhorar, elas pioram ou ficam na mesma. Muito bom filme!
    Um dos meus favoritos de 2012 junto com The sessions, Moonrise Kingdom, Django Unchained, The impossible e End of Watch.
    Assisti todos que concorrem a melhor filme de língua estrangeira no Oscar 2013 e este estar de fora é uma injustiça, bem como os protagonistas Marion Cotillard e Armand Verdure. abs!!

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    1. Olá Marcus!

      Bacana te encontrar comentado este outro filme.

      Muito bom De Rouille et d’Os, não é mesmo? Esta produção também me surpreendeu positivamente. E que bom que você não leu a sinopse antes. hehehehe

      Anotei os outros filmes que comentaste… Moonrise Kingdom e Django Unchained eu lembro que assisti, mas os demais eu tenho impressão que não… vou consultar minhas anotações depois. E se não os vi, colocarei na lista para assisti-los.

      Obrigada por compartilhar a tua lista de favoritos de 2012. Bacana.

      Sobre De Rouille et d’Os ter ficado de fora do Oscar… isso acontece volta e meia. Um filme forte que é preterido por outro candidato forte. E que o país de origem, no caso da França, acha ter maior potencial de vencer. Neste caso, De Rouille et d’Os ficou de fora porque os franceses quiserem indicar o sucesso de público e crítica The Intouchables. Faz parte do jogo… E o Oscar é assim mesmo. Sempre comete injustiças. 🙂

      Obrigada pelas tuas visitas e comentários. Espero te encontra em vários outros.

      Abraços e inté!

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    1. Olá eliana!

      Antes de mais nada, obrigada pela tua visita aqui no blog.

      Então, eu vejo que o título do filme tem duas interpretações diferentes e ambas válidas. Primeiro, como disse o Marcus aqui abaixo, Ferrugem e Osso são os apelidos dos dois personagens da produção. Mas eu vejo que o título também se refere a dois aspectos da vida. A ferrugem, para mim, simboliza o desgaste do passar do tempo, inclusive nas relações, e o osso é o que permanece até o final, é um elemento que prossegue mesmo após a morte, além de representar resistência. Não é simples quebrar um osso.

      Espero que você volte por aqui mais vezes, inclusive para comentar sobre outros filmes. Abraços e até mais!

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