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Licorice Pizza


Um filme bobinho, que faz uma “homenagem” quase paródia sobre os filmes e o estilo de vida dos anos 1970 nos Estados Unidos. Por ser uma produção dirigida por Paul Thomas Anderson e por ser cotado o favorito no Oscar 2022 na categoria Melhor Roteiro Original, admito que eu esperava bem mais de Licorice Pizza. Para mim, eu não perderia nada se não tivesse assistido a esta produção. Ou seja, dispensável. A não ser que você é mega saudosista dos anos 1970 ou dos filmes daquela época.

A HISTÓRIA

Começa com uma voz no autofalante comentando sobre como as fotos dos estudantes serão organizadas. No banheiro dos meninos, eles arrumam o penteado antes da foto que irão fazer no ginásio. Enquanto espera na fila da foto, Gary (Cooper Hoffman) vê Alana (Alana Haim) e fica fascinado por ela. A garota oferece pente e espelho para os estudantes e Gary aceita a ajuda para iniciar uma conversa com ela. O objetivo dele é se encontrar com Alana à noite. Ela resiste, porque ele tem 15 anos e ela é “muito mais velha”, mas é a partir deste ponto que a relação deles tem início.

VOLTANDO À CRÍTICA

(SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto a seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Licorice Pizza): Olha, gente, vou ser bem direta na crítica deste filme. Primeiro, porque acho que não preciso me alongar muito com esta produção. E, depois, porque resta pouco tempo para o Oscar – a premiação será entregue amanhã, domingo – e tenho que publicar este texto antes da premiação.

Sendo bem objetiva, devo dizer que eu esperava muito mais deste filme. Primeiro, porque sempre gostei muito do trabalho de Paul Thomas Anderson. Ele é um dos meus diretores americanos da geração que está hoje na casa dos 50 anos de idade preferidos. Acompanho a carreira dele desde Boogie Nights, filme de 1997 e o segundo longa do diretor. Em 1999, ele lançou um dos meus filmes preferidos de sempre: Magnolia.

O blog não existia naquele tempo, então vocês não vou encontrar críticas destes filmes por aqui. Dos anos 2000 em diante, quando esse blog já existia, publiquei por aqui críticas dos seguintes filmes dirigidos por ele: There Will Be Blood (com crítica neste link), The Master (comentado por aqui) e Phantom Thread (com crítica neste link).

Verdade seja dita, Magnolia foi muito marcante para mim. Boogie Nights também marcou época. Mas, olhando de forma fria agora para as outras produções do diretor que eu assisti, talvez ele já não me “convença” ou me “toque” como antes há muito tempo. E isso acontece novamente neste Licorice Pizza.

Mas, admito, por gostar do diretor e por esse filme estar sendo apontado como o favorito na categoria Melhor Roteiro Original do Oscar 2022, eu esperava encontrar uma produção muito mais interessante, criativa e marcante. Mas não foi isso que eu vi nesta produção. Achei Licorice Pizza apenas mediano, regular, tipo “Sessão da Tarde”, para passar o tempo e para não deixar muitas lembranças depois que a história acaba.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Para resumir, sobre o que Licorice Pizza trata? Durante todo o filme, fiquei pensando nos empreendedores que surgiram nos Estados Unidos com suas empresas criativas em suas garagens. Jovens que não tinham medo de ousar e de fazer o seu próprio caminho, de empreender e de buscar dinheiro para ter uma vida independente logo que possível.

O protagonista deste filme é um jovem ator que faz alguns filmes interessantes até que se “queima” e resolve apostar a ficha em outros negócios. Ele é o típico “oportunista”, no bom sentido. Aquela figura que esbarra com uma ideia que pode ser interessante e aposta suas fichas nesta ideia para ganhar dinheiro rápido. Uma figura dos anos 1970 sim e que se faz presente até hoje.

Mas, para além disso, Licorice Pizza trata de uma “história de amor” juvenil, na qual um garoto de 15 anos se interessa por uma garota cerca de 10 anos mais velha e aposta todas suas fichas nesta relação. Ele é persistente. Ele marca em cima e muitas vezes confunde os papéis de amigo com “enamorado”. Um clássico. Bem típico da adolescência e, especialmente, daqueles anos 1970 em que os jovens pareciam ser mais ousados do que a média dos jovens da atualidade – mais “castrados”?

Assim, para resumir, temos em Licorice Pizza uma grande homenagem do diretor e roteirista à década na qual ele nasceu, os anos 1970, e tudo que ela trouxe de “inspiração” para as décadas seguintes. No meio da história de amor entre Gary e Alana, temos alguns personagens que “bombaram” naquela época ou que representam figuras daquele momento histórico.

Enfim, um filme sobre uma época e um local, sobre uma geração e sobre uma história de amor juvenil. É marcante ou inesquecível? Para o meu gosto, não. Nem achei o roteiro tudo aquilo – ao menos não para ser o favorito em uma categoria sempre difícil como a de Melhor Roteiro Original.

Acho que não preciso falar muito mais sobre esse filme. Para mim, essa produção, meio saudosista, talvez sirva especialmente para quem viveu os anos 1970 mais em seu início… para mim, que sou do final daquela década, o filme apenas pareceu ok, uma história meio “bobinha” sobre um garoto que encara o mundo com suas mil possibilidades e cheio de autoestima.

O protagonista deste filme tem muita autoconfiança e sabe bem o que quer. A garota que o acompanha é inteligente, linda, mas acaba sendo eclipsada pelo “infant terrible”, garoto “inventivo” que enxerga nela o que ela mesma não vê. Um filme bem marcado sobre uma época e que homenageia um estilo de produção que não vemos mais com frequência.

Enfim, para mim, uma produção dispensável. Acho que tem filmes bem mais interessantes no mercado. Mais um grão de areia no cesto para demonstrar que a safra deste ano do Oscar está fraca. Pelo menos do que eu vi até aqui.

NOTA

6,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA

Diferente do que eu imaginava, não achei o roteiro de Licorice Pizza tão interessante assim. O filme me fez rir menos do que eu gostaria por saber que é uma produção com forte carga de “comédia”. Sim, os atores principais tem carisma e fazem um belo trabalho. Mas a história em si… uma desculpa para o diretor revisitar os anos 1970, dos quais ele gosta tanto. Só isso. Nada demais.

Claro que o destaque desta produção é o belo trabalho dos protagonistas, vividos por Cooper Hoffman e por Alana Haim. Eles são carismáticos – especialmente Alana. Por serem carismáticos, algumas vezes até esquecemos a fragilidade do roteiro, com falas “engraçadinhas” e um bocado de linhas de diálogos típicos da época. Nada demais neste sentido. Mas os atores estão muito bem.

Esse filme tem dois atores centrais. Mas a produção é cheia de personagens secundários relevantes. Para a história, os principais são os garotos que estão sempre ao lado de Gary, assim como os familiares do garoto e de Alana. Também temos os amigos de Gary e Alana, como o empresário que investe em bares e restaurantes Jerry Frick, interpretado por John Michael Higgins; a mãe do protagonista, Anita, interpretada por Mary Elizabeth Ellis; o irmão mais novo de Gary, Greg, interpretado por Milo Herschlag; e alguns personagens que orbitam ao redor de Alana, como Nate Mann como Brian, ex-colega de Alana e que aceita a garota como voluntária do comitê de campanha do vereador Joel Wachs, interpretado por Benny Safdie.

Estes são personagens com certa “relevância” na história – repleta de personagens secundários. Mas alguns astros aparecem em papéis ainda mais pontuais. Realmente pontas na história. São exemplo disso o trabalho de Bradley Cooper como Jon Peters, que foi maquiador e produtor e que, naquela época, realmente namorou Barbra Streisand; Tom Waits como Rex Blau, personagem inspirado no diretor, editor e produtor Mark Robson; e Sean Penn como Jack Holden, que aparece no filme como um ator de filmes de ação – na época havia um Jack Holden esportista. Participações especiais para aumentar o “burburinho” sobre o filme, já que nenhum destes personagens são realmente relevantes e interessantes na história.

Neste artigo da Insider eles comentam um pouco sobre a figura de Jon Peters – vale por curiosidade.

Licorice Pizza teve première no dia 20 de novembro de 2021 em Westwood, na Califórnia. O filme participou de apenas três festivais e mostras de cinema. No Brasil, o filme estreou no dia 17 de fevereiro deste ano.

Se der tempo, outra hora eu vou trazer por aqui outras curiosidades sobre o filme. Mas, por hora, serei breve. A única curiosidade sobre Licorice Pizza que eu faço questão de citar é sobre a origem do roteiro. Segundo as notas de produção, a inspiração para o roteiro veio há cerca de 20 anos, quando Paul Thomas Anderson observou uma cena do lado de fora de uma escola secundária no bairro em que ele mora, Tarzana. Ele viu um adolescente tentando flertar com uma funcionária. Foi então que o diretor e roteirista pensou em como seria engraçado se um adolescente chamasse uma mulher mais velha para sair e ela aceitasse o convite como “blefe”.

Até o momento, Licorice Pizza ganhou 57 prêmios e foi indicado a outros 183, incluindo a indicação em três categorias do Oscar: Melhor Filme, Melhor Direção para Paul Thomas Anderson e Melhor Roteiro Original. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o Melhor Roteiro Original no Prêmio BAFTA; e para os prêmios de Melhor Filme, Melhor Diretor para Paul Thomas Anderson e Melhor Performance para Alana Haim e Cooper Hoffman no National Board of Review.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,4 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 259 críticas positivas e 28 negativas para a produção – o que garante uma aprovação de 90% para o filme e uma nota média de 8,3.

O site Metacritic apresenta o “metascore” 90 para Licorice Pizza, além do selo “Metacritic Must-see”. O “metascore” é fruto de 52 críticas positivas e três medianas para a produção dirigida e roteirizada por Anderson.

Segundo o site Box Office Mojo, Licorice Pizza arrecadou cerca de US$ 17 milhões nas bilheterias dos Estados Unidos e mais US$ 13,4 milhões nos demais mercados em que o filme estreou nos cinemas. No total, portanto, esta produção teria feito cerca de US$ 30,5 milhões nas bilheterias.

Esse filme trata sobre a Geração X. Quem se interessa em saber mais sobre as gerações e suas características, recomendo este texto do blog Xerpay.

Licorice Pizza é uma coprodução dos Estados Unidos com o Canadá.

Publiquei esta crítica antes do Oscar para “desovar” os comentários do último filme que eu vi antes da premiação. Amanhã (ou melhor, hoje), no início da noite, vou acompanhar mais uma edição do Oscar. Aproveito para convidar vocês a acompanhar esta premiação junto comigo aqui no blog. Até breve! 😉

CONCLUSÃO

Um filme sobre um adolescente com muita autoconfiança e que deseja inovar, empreender e conquistar a garota dos seus sonhos. Licorice Pizza é um filme “leve”, divertidinho (no diminutivo mesmo) e que homenageia de forma escancarada a época e o estilo de vida dos anos 1970. Bem dirigido, com bons atores, é um filme estilo “Sessão da Tarde”. Tem como protagonista um jovem da Geração X e é embalado pelo romance e pelas “desventuras” deste adolescente que está entrando na vida adulta. Para mim, um filme mediano, na melhor das análises.

PALPITES PARA O OSCAR 2022

Como comentei antes, Licorice Pizza concorre em três categorias do Oscar deste ano: Melhor Filme, Melhor Roteiro Original e Melhor Direção para Paul Thomas Anderson.

Honestamente? Acho que Anderson realmente tem muitos amigos em Hollywood e é uma pessoa muito queria no meio. Porque Licorice Pizza, para mim, não merecia nenhuma destas indicações.

Vendo as bolsas de apostas do Oscar, Licorice Pizza é apontado, na véspera da premiação, como o segundo filme mais cotado na categoria Melhor Roteiro Original. Interessante como a produção perdeu a dianteira para Belfast nas últimas semanas. Por muito tempo ele foi apontado como o favorito em Melhor Roteiro Original.

Nas outras categorias, o filme aparece em último em Melhor Direção e apenas na sétima posição como Melhor Filme. Ou seja, não seria uma surpresa se Licorice Pizza saísse de mãos vazias do Oscar. A melhor chance dele está realmente em Melhor Roteiro Original – se conseguir vencer Belfast.

Da minha parte, acho que o mais justo seria o filme sair da premiação sem nenhuma estatueta. Por tudo que comentei acima. Na categoria Melhor Roteiro Original, não tenho dúvidas de que Verdens Verste Menneske (The Worst Person in the World) tem um roteiro melhor do que Licorice Pizza. Mesmo não achando o roteiro de Belfast aquele primor todo, ainda considero melhor que o filme de Anderson. Neste domingo vamos descobrir quem levará a melhor.

Por Alessandra

Jornalista com doutorado pelo curso de Comunicación, Cambio Social y Desarrollo da Universidad Complutense de Madrid, sou uma apaixonada pelo cinema e "série maníaca". Em outras palavras, uma cinéfila inveterada e uma consumidora de séries voraz - quando o tempo me permite, é claro.

Também tenho Twitter, conta no Facebook, Polldaddy, YouTube, entre outros sites e recursos online. Tenho mais de 20 anos de experiência como jornalista. Trabalhei também com inbound marketing e, atualmente, atuo como professora do curso de Jornalismo da FURB (Universidade Regional de Blumenau).

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