Phantom Thread – Trama Fantasma

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O amor é um troço complicado. Especialmente quando tratamos do amor romântico, aquele que dilacera a pessoa, faz ela cometer atos até então impensados. Aquele amor que bagunça a tua vida e que muda a tua rotina. Digo que esse amor é complicado para não dizer que ele é aquela palavra que começa com F… Sim, porque ele é bem assim.

Phantom Thread, o último filme que me faltava para completar a lista dos 9 indicados na categoria Melhor Filme do Oscar 2018, me surpreendeu em alguns pontos e me tranquilizou em outros. Paul Thomas Anderson, diretor e roteirista de quem eu tanto gosto, continua mandando bem. Fiquei feliz (e tranquila) por isso.

A HISTÓRIA: Começa com um “depoimento” de Alma (Vicky Krieps), que diz que Reynolds (Daniel Day-Lewis) transformou os sonhos dela em realidade. Em troca, ela teve que entregar para ele tudo que ele desejava. Alguém lhe pergunta o que isso seria, e ela diz que cada pedaço dela. O seu interlocutor pergunta se ele é um homem exigente, e comenta que deve ser difícil estar com ele, e Alma diz que ele é, possivelmente, o mais exigente dos homens. Em seguida, vemos a Reynolds começando mais um dia, com todo o seu preparo para que ele esteja impecável.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Phantom Thread): Eu gosto de filme que parecem uma coisa e, depois, se revelam outra. Inicialmente, Phantom Thread parece uma produção sobre um sujeito que é admirado por seu talento, dedicação extrema ao trabalho e pela arte que ele produz com a ajuda de uma equipe de mulheres talentosas.

Ou seja, inicialmente esse filme parece tratar do estilista Reynolds Woodcock (Daniel Day-Lewis) e de sua arte com o design e os detalhes de cada vestido incrível que ele cria para as mulheres endinheiradas da Europa. Mas aos poucos vamos vendo que essa produção trata, em realidade, de outro tema. (SPOILER – não leia se você não assistiu a essa produção). Phantom Thread fala do encantamento, da paixão, do amor e de como tudo isso pode ser usado para a criação, para a dedicação de uma pessoa pela outra (ou por algo) ou para a destruição.

Gostei, nessa produção, especialmente, do roteiro do diretor Paul Thomas Anderson. Ele acertou tanto na apresentação dos personagens principais, adentrando na vida, em especial, do protagonista, quanto acertou em cheio na construção de alguns diálogos muito marcantes. Percebe-se que ele cuidou de cada linha da história, sem descuidar de nenhum detalhe. E o efeito disso tudo é que o seu filme é potente e, ao mesmo tempo, sutil. Curioso, não?

Não são muitos os filmes que tratam com o devido respeito e talento personagens com personalidade forte. Aqui, temos de maneira evidente, desde o princípio, o “sol” da personalidade de Reynolds Woodcock, um sujeito realmente exigente, talentoso e que não consegue mostrar fragilidade em momento algum, exceto quando está sobrecarregado pelo trabalho. Algumas vezes, todo esse nível de exigência, faz com que ele seja cruel com as pessoas – especialmente com as mulheres que, para ele, são um bocado “descartáveis”.

Mas, um belo dia, quando ele sai de Londres para “espairecer” um pouco pelo interior, ele se encontra com um mulher de sorriso fácil e encantadora, a jovem Alma. Ela vira o novo objeto de desejo dele, e o encantamento entre os dois fica evidente logo na primeira troca de olhares. O que descobrimos em Phantom Thread, e aos poucos, como deve ser, é que Reynolds encontrou em Alma uma mulher tão forte, determinada e apaixonada quanto ele. Só que de outra forma.

Eu já esperava por um belo trabalho do grande Daniel Day-Lewis, um dos meus atores preferidos. Mas, quem diria, ele tem uma atriz tão boa quanto ele com quem contracenar nessa produção. Até assistir a Phantom Thread, Vicky Krieps era uma desconhecida para mim. Mas que bela atriz, meus bons amigos e amigas do blog! Ela é encantadora, charmosa, carismática, perigosa e forte na medida certa.

Então, no fim das contas, Phantom Thread trata de tudo que eu comentei antes, mas, especialmente, sobre os ganhos, perdas e o preço alto que o amor romântico e extremo pode cobrar das pessoas. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Alma realmente ama Reynolds, e ele gosta dela. Mas para conseguir manter a relação entre os dois, Alma descobre que precisa fragilizar o ser amado quando ele não está preparado para isso – e quase até o ponto dele morrer. No fundo, ela se revela mais forte do que ele, porque ela pode viver sem Reynolds.

Esse é um ponto interessante do filme. Ambos podem viver um em o outro, mas eles decidem não fazer isso. Ela, porque está obstinada por ser a pessoa mais poderosa da relação. Ele, porque fica fascinado pelo ponto extremo em que ela chega por causa dele. Esse amor extremo que eles cultivam chega a ser doentio, além de perigoso. Mas quem somos nós, público que gosta de uma boa história, para julgá-los?

O título é algo interessante, também. Inicialmente, quando pensamos na palavra “trama”, em português, ela nos remete à ideia de “enredo”, de “história”. Mas, no caso desse filme, acho que a história tem mais a ver com a trama de tecidos, com a trama de fios que acaba sendo a base de um vestido ou de uma peça qualquer que nos veste e que ajuda a nos definir e/ou identificar os nossos gostos e escolhas para o mundo.

E o que seria o “fantasma” do título? Para mim, esse “fantasma” tem a ver com a presença da mãe na vida de Reynolds. Essa presença é marcante, não apenas quando ele se lembra e fala dela, mas, principalmente, quando o protagonista não nota que ela esteja presente. E a mãe está presente em todo o momento. Inclusive porque ele a idealiza, a coloca em um pedestal, e a torna insubstituível – por isso mesmo a sua dificuldade de aceitar qualquer mulher em sua vida por longo tempo.

Até conhecer Alma, Reynolds se considera um “solteiro convicto”. Há um diálogo precioso entre ele e Alma, quando ele fala sobre isso e sobre como “as expectativas e as suposições” sobre o outro trazem mágoas. Que frase, meus amigos! E essa é uma entre várias marcantes. Ele está certíssimo. Nos defendemos e nos isolamos justamente porque não queremos sofrer, e o sofrimento muitas vezes acontece por expectativas não atendidas e por suposições sobre o que os outros são ou fazem equivocadas.

Isso acontece com praticamente todo mundo. Em maior ou menor grau, a mãe e/ou o pai de uma pessoa marcam presença na vida dessa pessoa para sempre. Ela notando ou não. Esse “fantasma” pode ser uma presença suave, compreensiva, que apenas nos deixa menos “solitários”, ou pode ser uma presença tão grande, marcante e “pesada” que tira o espaço de outras pessoas que estão vivas e ao nosso redor. Para mim, esse é um dos pontos que essa produção trata de forma muito sutil.

Assim, essa produção trata de amor e trata também do que nos define, do que forma o nosso caráter e de elementos que ajudam a explicar o porquê de fazermos o que fazemos. É um filme bastante humanista, no final de contas. E muito belo também. Paul Thomas Anderson selecionou a sua equipe à dedo e conseguiu nos apresentar uma obra detalhista, atenciosa em cada detalhe, capaz de nos fascinar pelo visual e pelas palavras também selecionadas à dedo.

Enfim, um filme muito interessante e que nos surpreende positivamente por não ser pretensioso ou arrogante. Na verdade, Phantom Thread pode parecer mais simples do que é, para quem não estiver atento a cada detalhe. Mas ele é cheio de sutilezas e de pequenos detalhes, como os vestidos que Reynolds cria. Um filme provocante, atraente, e que faz pensar. Bem acima da média, pois, e merecedor de ter chegado ao Oscar 2018 com seis indicações, incluindo a de Melhor Filme.

NOTA: 9,4.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Uma obra de cinema pode ser chamada dessa forma quando percebemos que cada detalhe da produção foi cuidado com esmero. E isso acontece com esse Phantom Thread. Todos os elementos dessa produção são perfeitos. Nenhum precisa de ajustes. Isso começa com a trilha sonora marcante e inspirada de Johny Greenwood, segue com as linhas do roteiro minuciosamente escritas por Paul Thomas Anderson, segue com o trabalho dedicado e inspirador dos atores e segue até os figurinos maravilhosos de Mark Bridges.

Isso apenas para falar dos elementos mais marcantes dessa produção. Mas todos os detalhes estão perfeitos e ajudam a contar essa história. Entre os aspectos técnicos, sem dúvida alguma os figurinos e a trilha sonora se destacam. Mas é possível destacar também a direção de fotografia maravilhosa de Paul Thomas Anderson; a edição de Dylan Tichenor; o design de produção de Mark Tildesley; a direção de arte de Chris Peters, Denis Schnegg e Adam Squires; a decoração de set de Véronique Melery; e a maquiagem feita por 19 profissionais competentes.

Entre outros elementos, Phantom Thread nos faz pensar sobre as nossas próprias manias, hábitos, e sobre o quanto estamos ou não abertos a abrir mão deles ou ceder para que outras pessoas façam parte da nossa vida. É especialmente interessante, por exemplo, como o protagonista tem hábitos bastante “marcados”. Como o café da manhã, que se não for silencioso e pacífico, pode “acabar” com todo o seu dia. Alma acaba se adaptando à rotina dele, mas ela também acaba alterando essa rotina aqui e ali, de forma sutil. E é isso, essa presença marcante de Alma, que não está ali para agradá-lo apenas, mas também para confrontá-lo, que acaba fascinando Reynolds.

Não sei vocês, mas acredito que isso seja verdadeiro em diversos aspectos da nossa vida. As pessoas mais marcantes não são aquelas que nos agradam, que estão tentando nos fazer “felizes” o tempo todo, mas aquela que nos fazem crescer, que nos questionam, que nos “confrontam”, mas que mostram que tem opinião e que tem talentos próprios. Pessoas que não são capazes de viver sob a sombra de ninguém, porque tem luz própria. Essas são as mais interessantes, não há dúvidas.

E o que dizer dos atores? Paul Thomas Anderson fez a escolha certa ao dar destaque, essencialmente, para o trabalho de três atores. Todos esperavam um belo trabalho de Daniel Day-Lewis. Ele realmente faz mais um trabalho primoroso, detalhista e marcante. Como lhe é típico. Mas outros dois nomes, de mulheres, acabam se destacando na produção: Vicky Krieps como Alma e Lesley Manville como Cyril, irmã do protagonista. Interessante como elas, de forma sutil algumas vezes, outras vezes de forma bastante explícita, marcam presença e fazem duetos entre si. Esse trio de atores vale cada minuto em que eles aparecem em cena.

Além dos protagonistas e de Lesley Manville, Phantom Thread tem apenas alguns personagens coadjuvantes que ganham um certo destaque. Nesse sentido, vale comentar o trabalho de Camilla Rutherford como Johanna, a mulher que está com Reynolds no início da produção – mas que logo será despachada por Cyril a pedido de Reynolds; Gina McKee como Henrietta Harding, uma das clientes fiéis de Reynolds; Brian Gleeson como o Dr. Robert Hardy, que tenta atender Reynolds e que “entrevista” Alma naquela sequência inicial da produção; Lujza Richter como a Princesa Mona Braganza; Emma Clandon como a mãe de Reynolds e Harriet Sansom Harris como Barbara Rose, a socialite um tanto sem limites que “não merecia” ficar com um vestido de Reynolds.

Phantom Thread estreou em première em Beverly Hills no dia 24 de novembro de 2017. Depois, o filme fez uma trajetória em que passou por cinco festivais de cinema. Até o momento, ele ganhou 45 prêmios e foi indicado a outros 93 – incluindo a indicação em seis categorias do Oscar, sendo que o filme saiu vencedor de uma delas.

Entre os prêmios que recebeu, destaque para o Oscar de Melhor Figurino; para o BAFTA de Melhor Figurino; para outros oito prêmios de Melhor Figurino; para sete prêmios de Melhor Diretor para Paul Thomas Anderson; para 12 prêmios de Melhor Trilha Sonora; para dois prêmios de Melhor Filme; para um prêmio de Melhor Atriz para Vicky Krieps; para dois prêmios de Melhor Atriz Coadjuvante para Lesley Manville; para três prêmios de Melhor Roteiro Original e para quatro prêmios de Melhor Ator para Daniel Day-Lewis.

Agora, algumas curiosidades sobre essa produção. O diretor Paul Thomas Anderson teve a ideia de fazer esse roteiro em um dia em que estava doente e de cama por causa disso. A esposa dele, Maya Rudolph, estava cuidando do diretor quando ele percebeu que ela lhe lançou um olhar tão cheio de ternura e de amor como há muito tempo ele não notava. Daí surgiu a ideia de Phantom Thread. Interessante.

Paul Thomas Anderson disse que a linha preferida dele do roteiro é aquela dita por Daniel Day-Lewis: “O chá está saindo, mas a interrupção permanecerá aqui comigo”. Hahahaha. Realmente a linha é ótima. E arrancou algumas risadas da plateia no cinema em que eu fui conferir essa produção.

Para se preparar para o filme, Daniel Day-Lewis assistiu a gravações de desfiles de moda dos anos 1940 e 1950, estudou designers famosos, consultou com um curador de moda e de têxteis no Museu Victoria e Albert em Londres e aprendeu sobre Marc Happel, chefe do Departamento de Vestuário do New York City Ballet. O ator também aprendeu a costurar e tentou costurar um vestido de bainha “Balenciaga” para a esposa Rebecca Miller. Não por acaso esse ator é tão bom em seu ofício. Ele realmente mergulha no personagem, vive por ele, e isso se nota na telona.

A atriz Vicky Krieps não se encontrou com o ator Daniel Day-Lewis até o primeiro dia de filmagens. Ela também foi orientada a sempre referir-se a ele como Reynolds, durante as filmagens, para que ela nunca perdesse da mente o personagem. Curioso que mesmo na fase de divulgação do filme, muitas vezes a atriz se referiu a Day-Lewis como Reynolds.

O ator Daniel Day-Lewis disse que Phantom Thread é o seu último filme. No dia 20 de junho de 2017 ele anunciou a sua aposentadoria. O cinema perde um grande ator, sem dúvidas.

A história do designer de moda espanhol Cristóbal Balenciaga, incluindo a sua dedicação ao trabalho e a sua vida um tanto “monástica” inspirou o diretor e roteirista Paul Thomas Anderson na construção do protagonista desta história.

As filmagens de Phantom Thread terminaram no dia 26 de abril de 2017, mesmo dia em que o amigo e mentor de Paul Thomas Anderson, o diretor Jonathan Demme, faleceu de câncer. Phantom Thread é dedicado para Demme. Outro grande diretor, diga-se de passagem.

De acordo com as notas de produção, o roteiro de Paul Thomas Anderson teve uma grande participação do ator Daniel Day-Lewis. Tanto que o diretor disse que, provavelmente, o mais correto é que o ator tivesse recebido algum crédito por isso.

O diretor italiano Luca Guadagnino, de Call Me By Your Name (com crítica nesse link), considerou Phantom Thread o melhor filme de 2017. Enquanto isso, Paul Thomas Anderson disse, no Reddit, que o seu filme favorito no ano foi Call Me By Your Name. Sim, os dois filmes estão acima da média e estão entre as boas pedidas do ano, mas eu tive outros que me chamaram mais a atenção em 2017. Ainda assim, considero que ambos mereceram chegar bem no Oscar, por exemplo.

Seguindo uma tradição que Paul Thomas Anderson lançou e seguiu nos seus três filmes anteriores, os materiais publicitários de Phantom Thread apresentam cenas que não vemos na versão final da produção. Achei essa ideia ótima, afinal, muitas vezes os trailers estragam a nossa experiência dos filmes aos nos apresentarem cenas que não deveríamos ver fora de contexto.

Phantom Thread não cita nenhuma data, mas há algumas indicações na história que apontam que ela teria ocorrido entre maio de 1953, quando um cliente compra um vestido de gala para uma Coroação e outubro de 1954, data de uma revista UK Vogue que aparece na reta final da produção. Interessante pensar que essa história se passa nos anos 1950, especialmente pelo que acontece com os atores – e pela força da personagem feminina Alma.

Algumas sequências desse filme foram rodadas nas aldeias de Lythe e de Staithes, que estão próximas de Whitby, na costa leste da Inglaterra.

Esse filme é uma coprodução do Reino Unido com os Estados Unidos.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,8 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 246 críticas positivas e 23 negativas para esta produção, o que garante para Phantom Thread uma aprovação de 91% e uma nota média de 8,5. Especialmente as notas dos dois sites chamam a atenção – elas estão bem acima da média.

De acordo com o site Box Office Mojo, Phantom Thread fez pouco mais de US$ 20,7 milhões nas bilheterias dos Estados Unidos e cerca de US$ 20,7 milhões nas bilheterias dos outros países em que estreou até 11 de março. No total, portanto, essa produção acumula pouco mais de US$ 41,4 milhões. Um dos melhores resultados já obtidos por um filme de Paul Thomas Anderson. Fico feliz pelo diretor. E também porque o filme merece ser visto.

CONCLUSÃO: Um filme sobre um tipo de amor sobre o qual parte da Humanidade nunca vai vivenciar. Ou conhecer. Ou mesmo “roçar”. Phantom Thread trata de um desses amores descabidos, que começam com uma grande admiração, flerte, e que avançam para um desejo que não tem muitas barreiras. Um filme bem narrado, com uma condução bem cadenciada, ótimas interpretações e, principalmente, alguns diálogos preciosos.

Fico feliz em ver que o diretor Paul Thomas Anderson continua centrado, escrevendo bem, e nos lançando algumas ideias interessantes. A provocação dele é sempre bem-vinda. Um belo filme. Um dos mais contundentes sobre a “loucura” do amor que tivemos a possibilidade de ver nos últimos tempos.

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The Master – O Mestre

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Todos servem a algo ou a alguém. Essa afirmação foi cantada por Bob Dylan em 1979 na música Gotta Serve Somebody. E eu sempre lembro dela, nos momentos mais diferentes. Afinal, por mais independente e esperto que alguém se imagine, uma hora ou outra ele vai servir a alguém. The Master trata um pouco sobre isto. De como as pessoas precisam de lideranças e de crenças. Elas vão seguir e servir a alguém. E elas tem o poder de escolher a quem.

A HISTÓRIA: O mar. Águas azuis. Um marinheiro olha para o horizonte e sente o sol. Depois, em um coqueiro, ele retira alguns cocos com um machado, e bebe aquela água com um aditivo. Este cidadão é Freddie Quell (Joaquin Phoenix), que faz parte de um grupo de marinheiros em tempo de guerra que encontra tempo para lutar como “gladiadores” na areia e para fazer imagens de mulheres nuas na praia. Com o fim do conflito, Quell volta para os Estados Unidos, onde passa por um tratamento psiquiátrico. Liberado, ele vai trabalhar como fotógrafo, na colheita de verduras, mas sempre se envolve em algum conflito. Até que entra no barco de Lancaster Dodd (Philip Seymour Hoffman), conhecido como Mestre, e fazer parte do grupo de seguidores de sua filosofia chamada A Causa.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a The Master): A música no início do filme fala muito a respeito do que vamos assistir a seguir. Porque ela é estimulante e ajuda a estarmos, ao mesmo tempo, atentos e inquietos. E este é apenas o começo. Outro elemento também logo fica evidente: que Joaquin Phoenix carrega o filme sozinho. Ele é a parte mais perturbadora da história, porque tem um desempenho visceral que impressiona.

The Master é um destes filmes curiosos do senhor Paul Thomas Anderson. O diretor assina também o roteiro da produção, que mergulha em elementos conhecidos do público estadunidense, como os traumas de um pós-guerra e a difícil experiência de integração dos ex-soldados a uma sociedade que não viu ou sentiu o que eles passaram em ambientes de batalha, tédio, espera e tensão. Mas o filme também inova ao mostrar uma seita, baseada em “ciência”, mas que trata de questões quase (ou que podem ser consideradas) religiosas.

Por todas as partes, os elementos dominantes deste filme são a dominação e a submissão. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Não percebemos no início, mas teremos certeza apenas no final, que Freddie Quell e Lancaster Dodd estão em uma permanente queda de braços. Para Dodd, líder de uma seita que busca consolidar-se e crescer, Quell é um belo experimento. Um desafio que, se superado, vai ajudar-lhe a ganhar ainda mais fama. Quell, por sua vez, perdido e solitário, sem amigos ou o amor verdadeiro, fica fascinado com a persuasão de Dodd, com o grupo que circula ao redor dele, e com a aparente confiança que o “guru” deposita nele, um pária social.

A todo o momento, esperamos que alguma catástrofe aconteça. Não sei vocês, mas eu aguardava a hora em que Quell pegaria uma mulher contra a sua vontade, talvez até a “bastante acessível” Peggy Dodd (Amy Adams). Isso porque ele é inconstante e imprevisível. Ainda que, conforme o filme passa, começamos a ter um quadro um pouco mais aprofundado do personagem, o opositor perfeito para o equilibrado e calculista Lancaster Dodd.

A grande questão levantada por The Master é de quem, afinal, acaba tendo mais poder? O sujeito inteligente, determinado, manipulador e cheio de seguidores, que tenta convencer as pessoas com sua doutrina e lógica, ou a força destrutiva, independente, anárquica e fora dos padrões do sujeito que flerta com a loucura e brinca com os padrões sociais? (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Por boa parte do filme, o primeiro tenta domar, compreender e subjugar o segundo. Acreditando que ele precisa ser “salvo” e domesticado. O segundo joga este jogo do subjugado por um tempo, mas resiste. E surpreende. A cena final entre os gigantes Phoenix e Hoffmann é de arrepiar, e só revela, mais uma vez, como este é o trabalho da vida de Joaquin.

O final deste filme pode levantar muitos debates – como a produção inteira, inclusive. O que eu achei dele? Bueno, primeiro, que os métodos de Dodd não eram tão eficazes assim – o que acaba sendo uma ironia interessante sobre qualquer figura que, como ele, tenta ser um messias misturando religião com ciência. Depois, que há casos de psoturas anarquistas e que fogem da lógica predominante que vencem qualquer tentativa de “conversão”. E terceiro que, mesmo que o objetivo “total” de Dodd não tenha sido realizado, de subjugar Quell, ele serviu como inspiração para o ex-militar, que seguiu adotando algumas das técnicas de Dodd a sua própria maneira.

E eis a ironia final de The Master. Porque por mais que algumas pessoas resistam a certa dominação, elas acabam cedendo a parte delas e/ou a suas influências mesmo sem querer. No fim, sempre que duas pessoas se encontram e se relacionam pra valer, elas se modificam mutuamente. Seguem suas trajetórias, após este encontro, tendo algum hábito ou forma de atuar diferente, influenciada pela pessoa que encontraram.

The Master trata desta história. Com interpretações dedicadas, especialmente de Joaquin Phoenix, e uma direção que valoriza estas interpretações, este é um filme de atores. E que ironiza sobre alguns mestres e seus seguidores, e sobre a validade e eficácia de suas doutrinas. Esta produção segue a lógica de uma extensa sessão de psicanálise. Por isso, tem momentos angustiantes, de puro desabafo e de alguma chatice. A parte que pode render algum bocejo envolve os “exercícios” e “provações” que Quell passa sob a batuta de Dodd. Mas nada que torne a aventura insuportável. Até porque Paul Thomas Anderson sabe o momento de virar o disco. E faz isso sempre no momento certo.

NOTA: 9,2.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Difícil terminar de escrever este texto. Por uma razão bem simples: assisti a este filme, acredito, ainda em fevereiro. Após o Oscar. Na sequência, comecei a escrever este texto. Mas pela correria que tive no meu trabalho, salvei ele nos rascunhos e só voltei a completá-lo hoje. Final de abril, mais ou menos dois meses depois. Então ficou difícil de relembrar de todas as minhas impressões sobre o filme. Por isso, peço desculpas para vocês. Esta crítica ficou mais “fria” do que eu gostaria.

Muito se falou que The Master seria “livremente” inspirado na história de L. Ron Hubbard, o polêmico, admirado e criticado “mestre” da cientologia. Honestamente? Vejo muitos pontos em comum e acredito, francamente, que Paul Thomas Anderson quis dar uma cutucada na cientologia sim. Para os curiosos sobre este assunto, eis aqui um texto, em inglês, assinado por Marc Headley que faz uma comparação interessante entre o filme, Lancaster Dodd, L. Ron Hubbard e a cientologia.

Paul Thomas Anderson faz mais um belo trabalho aqui, mas não considero este o seu melhor filme. Ainda prefiro Magnolia e There Will Be Blood. Neste momento, o diretor está trabalhando em seu décimo sexto título, Inheret Vice, ambientado na Los Angeles dos anos 1960 e protagonizado, mais uma vez, por Joaquin Phoenix.

Para mim, e volto a repetir isto, este é o trabalho mais impressionante de Phoenix. Ele domina e carrega o filme. E olha que ele tem, ao seu lado, o ótimo Philip Seymour Hoffmann e a sempre competente Amy Adams. Ainda assim, eles ficam eclipsados por Phoenix.

Além dos atores já citados, vale comentar o trabalho de Jesse Plemons como Val Dodd, filho do Mestre; Ambyr Childers como Elizabeth, a filha de Dodd; Rami Malek como o marido dela, Clark, que acaba desafiando o protagonista em diversos momentos; e Laura Dern como Helen Sullivan, uma das “crentes” da doutrina de Dodd.

Da parte técnica do filme, vale comentar sobre a trilha sonora fundamental, e algumas vezes irritante, de Jonny Greenwood; e a direção de fotografia de Mihai Malaimare Jr., que valoriza a luz, algumas vezes parece “superexposta” e, consequentemente, nos ajuda a nos transportar para os Estados Unidos do período pós-Segunda Guerra Mundial.

Este foi o primeiro filme de Anderson sem o diretor de fotografia Robert Elswit – que tinha se comprometido a filmar The Bourne Legacy.

E uma curiosidade sobre The Master: ele tem uma forte influência estilística do documentário Let There Be Light, de John Huston, lançado em 1946.

A cena em que Freddie retira etanol de um torpedo para “envenenar” uma de suas bebidas foi baseada em fatos reais contados por Jason Robards para o diretor.

Na cena da destruição da cela na prisão, Phoenix realmente quebra o vaso sanitário. Ele fez isso no improviso. Outra sequência de improviso é aquela que abre o filme, com Freddie falando na praia.

The Master foi indicado a três Oscar‘s, mas não levou nenhuma estatueta para casa. Mesmo saindo de mãos vazias da premiação máxima de Hollywood, ele foi bem reconhecido em outras partes. No total, até o momento, ele recebeu 60 prêmios, a maioria deles entregue por associações de críticos. Preciso destacar, entre este total, os prêmios de melhor Diretor e melhores Atores para Joaquin Phoenix e Philip Seymour Hoffman no Festival de Veneza.

Esta produção recebeu a nota 7,2 pelos usuários do site IMDb. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram mais generosos, dedicando 189 críticas positivas e 31 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 86% e uma nota média de 8,1. Especialmente a nota é muito boa, levando em conta a média do site.

Meus bons leitores/seguidores deste site, peço desculpas pela ausência desde o último Oscar. Mas é que vivi meses complicados, de muito trabalho fora do blog. Mas prometo que a partir desta semana eu voltarei a publicar com mais frequência, combinado? Obrigada a quem seguiu visitando este espaço e para quem fez comentários por aqui no período.

Em breve, começo a cumprir a promessa da última enquete neste site. A maioria de vocês pediu para que eu comece a falar de filmes nacionais. Muito bem, vou começar a fazer isto. Amanhã, vou assistir ao filme Somos Tão Jovens, um belo recomeço para as críticas de filmes nacionais aqui no blog. Sou convidada do Cinemark do Floripa Shopping. E na sequência, falo tudo sobre esta produção, que certamente vai mexer comigo – depois conto as razões -, para vocês. Inté breve!

CONCLUSÃO: Paul Thomas Anderson é um diretor diferenciado. E isso é o que eu mais gosto nele. Anderson fez um dos meus filmes preferidos de todos os tempos, Magnolia. E em todas as suas produções, ele apresenta esta forma de fazer cinema que não se parece com a de nenhum outro diretor de sua geração. The Master é mais um filme potente de sua filmografia, que flerta com questões importantes para a psicologia, mas que vai além. Trata de seitas, religiões e da ciência – cada uma com muitas aspas. Aborda os desejos reprimidos, a parte racional e animal de cada indivíduo e, principalmente, a nossa necessidade de acreditar e seguir certas ideias e pessoas. Um filme tão interessante que, certamente, pode render horas de debates. Por tratar de certas datas e locais, The Master foi apontado como uma produção que trata da cientologia e de seu fundador. De fato, há muitas semelhanças entre o roteiro e a história real, o que alimenta, ainda mais, os debates e a polêmica. Um filme perturbador, em vários sentidos, mas muito bom.

OSCAR 2013: The Master foi indicado a três estatuetas do Oscar deste ano. E não levou nenhuma. O que não é surpreendente, porque este não é um filme fácil para Hollywood.

As indicações foram para três atores. Algo justo, porque esta é uma produção que destaca o trabalho do ator. Assim, Joaquin Phoenix foi indicado como Melhor Ator; Philip Seymour Hoffman foi indicado como Melhor Ator Coadjuvante; e Amy Adams foi indicada como Melhor Atriz Coadjuvante.

De fato, acho que Christoph Waltz e Anne Hathaway tiveram interpretações mais impactantes em seus respectivos filmes do que os sempre competentes Hoffman e Adams. Agora, Phoenix… ele está tão entregue a seu papel e faz uma interpretação tão impactante e alucinante, que ouso dizer que ele merecia mais a estatueta que Daniel Day-Lewis.

Claro que ninguém duvida que Day-Lewis merecia ser o primeiro ator a receber três estatuetas pela categoria principal para homens do Oscar. Mas, desta vez, Phoenix fez um trabalho superior. Mas para quem acompanha a Academia, faz parte também saber que ela é política, e gosta de criar os seus mitos. Day-Lewis foi alçado a esta posição. Com méritos.