Phantom Thread – Trama Fantasma


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O amor é um troço complicado. Especialmente quando tratamos do amor romântico, aquele que dilacera a pessoa, faz ela cometer atos até então impensados. Aquele amor que bagunça a tua vida e que muda a tua rotina. Digo que esse amor é complicado para não dizer que ele é aquela palavra que começa com F… Sim, porque ele é bem assim.

Phantom Thread, o último filme que me faltava para completar a lista dos 9 indicados na categoria Melhor Filme do Oscar 2018, me surpreendeu em alguns pontos e me tranquilizou em outros. Paul Thomas Anderson, diretor e roteirista de quem eu tanto gosto, continua mandando bem. Fiquei feliz (e tranquila) por isso.

A HISTÓRIA: Começa com um “depoimento” de Alma (Vicky Krieps), que diz que Reynolds (Daniel Day-Lewis) transformou os sonhos dela em realidade. Em troca, ela teve que entregar para ele tudo que ele desejava. Alguém lhe pergunta o que isso seria, e ela diz que cada pedaço dela. O seu interlocutor pergunta se ele é um homem exigente, e comenta que deve ser difícil estar com ele, e Alma diz que ele é, possivelmente, o mais exigente dos homens. Em seguida, vemos a Reynolds começando mais um dia, com todo o seu preparo para que ele esteja impecável.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Phantom Thread): Eu gosto de filme que parecem uma coisa e, depois, se revelam outra. Inicialmente, Phantom Thread parece uma produção sobre um sujeito que é admirado por seu talento, dedicação extrema ao trabalho e pela arte que ele produz com a ajuda de uma equipe de mulheres talentosas.

Ou seja, inicialmente esse filme parece tratar do estilista Reynolds Woodcock (Daniel Day-Lewis) e de sua arte com o design e os detalhes de cada vestido incrível que ele cria para as mulheres endinheiradas da Europa. Mas aos poucos vamos vendo que essa produção trata, em realidade, de outro tema. (SPOILER – não leia se você não assistiu a essa produção). Phantom Thread fala do encantamento, da paixão, do amor e de como tudo isso pode ser usado para a criação, para a dedicação de uma pessoa pela outra (ou por algo) ou para a destruição.

Gostei, nessa produção, especialmente, do roteiro do diretor Paul Thomas Anderson. Ele acertou tanto na apresentação dos personagens principais, adentrando na vida, em especial, do protagonista, quanto acertou em cheio na construção de alguns diálogos muito marcantes. Percebe-se que ele cuidou de cada linha da história, sem descuidar de nenhum detalhe. E o efeito disso tudo é que o seu filme é potente e, ao mesmo tempo, sutil. Curioso, não?

Não são muitos os filmes que tratam com o devido respeito e talento personagens com personalidade forte. Aqui, temos de maneira evidente, desde o princípio, o “sol” da personalidade de Reynolds Woodcock, um sujeito realmente exigente, talentoso e que não consegue mostrar fragilidade em momento algum, exceto quando está sobrecarregado pelo trabalho. Algumas vezes, todo esse nível de exigência, faz com que ele seja cruel com as pessoas – especialmente com as mulheres que, para ele, são um bocado “descartáveis”.

Mas, um belo dia, quando ele sai de Londres para “espairecer” um pouco pelo interior, ele se encontra com um mulher de sorriso fácil e encantadora, a jovem Alma. Ela vira o novo objeto de desejo dele, e o encantamento entre os dois fica evidente logo na primeira troca de olhares. O que descobrimos em Phantom Thread, e aos poucos, como deve ser, é que Reynolds encontrou em Alma uma mulher tão forte, determinada e apaixonada quanto ele. Só que de outra forma.

Eu já esperava por um belo trabalho do grande Daniel Day-Lewis, um dos meus atores preferidos. Mas, quem diria, ele tem uma atriz tão boa quanto ele com quem contracenar nessa produção. Até assistir a Phantom Thread, Vicky Krieps era uma desconhecida para mim. Mas que bela atriz, meus bons amigos e amigas do blog! Ela é encantadora, charmosa, carismática, perigosa e forte na medida certa.

Então, no fim das contas, Phantom Thread trata de tudo que eu comentei antes, mas, especialmente, sobre os ganhos, perdas e o preço alto que o amor romântico e extremo pode cobrar das pessoas. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Alma realmente ama Reynolds, e ele gosta dela. Mas para conseguir manter a relação entre os dois, Alma descobre que precisa fragilizar o ser amado quando ele não está preparado para isso – e quase até o ponto dele morrer. No fundo, ela se revela mais forte do que ele, porque ela pode viver sem Reynolds.

Esse é um ponto interessante do filme. Ambos podem viver um em o outro, mas eles decidem não fazer isso. Ela, porque está obstinada por ser a pessoa mais poderosa da relação. Ele, porque fica fascinado pelo ponto extremo em que ela chega por causa dele. Esse amor extremo que eles cultivam chega a ser doentio, além de perigoso. Mas quem somos nós, público que gosta de uma boa história, para julgá-los?

O título é algo interessante, também. Inicialmente, quando pensamos na palavra “trama”, em português, ela nos remete à ideia de “enredo”, de “história”. Mas, no caso desse filme, acho que a história tem mais a ver com a trama de tecidos, com a trama de fios que acaba sendo a base de um vestido ou de uma peça qualquer que nos veste e que ajuda a nos definir e/ou identificar os nossos gostos e escolhas para o mundo.

E o que seria o “fantasma” do título? Para mim, esse “fantasma” tem a ver com a presença da mãe na vida de Reynolds. Essa presença é marcante, não apenas quando ele se lembra e fala dela, mas, principalmente, quando o protagonista não nota que ela esteja presente. E a mãe está presente em todo o momento. Inclusive porque ele a idealiza, a coloca em um pedestal, e a torna insubstituível – por isso mesmo a sua dificuldade de aceitar qualquer mulher em sua vida por longo tempo.

Até conhecer Alma, Reynolds se considera um “solteiro convicto”. Há um diálogo precioso entre ele e Alma, quando ele fala sobre isso e sobre como “as expectativas e as suposições” sobre o outro trazem mágoas. Que frase, meus amigos! E essa é uma entre várias marcantes. Ele está certíssimo. Nos defendemos e nos isolamos justamente porque não queremos sofrer, e o sofrimento muitas vezes acontece por expectativas não atendidas e por suposições sobre o que os outros são ou fazem equivocadas.

Isso acontece com praticamente todo mundo. Em maior ou menor grau, a mãe e/ou o pai de uma pessoa marcam presença na vida dessa pessoa para sempre. Ela notando ou não. Esse “fantasma” pode ser uma presença suave, compreensiva, que apenas nos deixa menos “solitários”, ou pode ser uma presença tão grande, marcante e “pesada” que tira o espaço de outras pessoas que estão vivas e ao nosso redor. Para mim, esse é um dos pontos que essa produção trata de forma muito sutil.

Assim, essa produção trata de amor e trata também do que nos define, do que forma o nosso caráter e de elementos que ajudam a explicar o porquê de fazermos o que fazemos. É um filme bastante humanista, no final de contas. E muito belo também. Paul Thomas Anderson selecionou a sua equipe à dedo e conseguiu nos apresentar uma obra detalhista, atenciosa em cada detalhe, capaz de nos fascinar pelo visual e pelas palavras também selecionadas à dedo.

Enfim, um filme muito interessante e que nos surpreende positivamente por não ser pretensioso ou arrogante. Na verdade, Phantom Thread pode parecer mais simples do que é, para quem não estiver atento a cada detalhe. Mas ele é cheio de sutilezas e de pequenos detalhes, como os vestidos que Reynolds cria. Um filme provocante, atraente, e que faz pensar. Bem acima da média, pois, e merecedor de ter chegado ao Oscar 2018 com seis indicações, incluindo a de Melhor Filme.

NOTA: 9,4.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Uma obra de cinema pode ser chamada dessa forma quando percebemos que cada detalhe da produção foi cuidado com esmero. E isso acontece com esse Phantom Thread. Todos os elementos dessa produção são perfeitos. Nenhum precisa de ajustes. Isso começa com a trilha sonora marcante e inspirada de Johny Greenwood, segue com as linhas do roteiro minuciosamente escritas por Paul Thomas Anderson, segue com o trabalho dedicado e inspirador dos atores e segue até os figurinos maravilhosos de Mark Bridges.

Isso apenas para falar dos elementos mais marcantes dessa produção. Mas todos os detalhes estão perfeitos e ajudam a contar essa história. Entre os aspectos técnicos, sem dúvida alguma os figurinos e a trilha sonora se destacam. Mas é possível destacar também a direção de fotografia maravilhosa de Paul Thomas Anderson; a edição de Dylan Tichenor; o design de produção de Mark Tildesley; a direção de arte de Chris Peters, Denis Schnegg e Adam Squires; a decoração de set de Véronique Melery; e a maquiagem feita por 19 profissionais competentes.

Entre outros elementos, Phantom Thread nos faz pensar sobre as nossas próprias manias, hábitos, e sobre o quanto estamos ou não abertos a abrir mão deles ou ceder para que outras pessoas façam parte da nossa vida. É especialmente interessante, por exemplo, como o protagonista tem hábitos bastante “marcados”. Como o café da manhã, que se não for silencioso e pacífico, pode “acabar” com todo o seu dia. Alma acaba se adaptando à rotina dele, mas ela também acaba alterando essa rotina aqui e ali, de forma sutil. E é isso, essa presença marcante de Alma, que não está ali para agradá-lo apenas, mas também para confrontá-lo, que acaba fascinando Reynolds.

Não sei vocês, mas acredito que isso seja verdadeiro em diversos aspectos da nossa vida. As pessoas mais marcantes não são aquelas que nos agradam, que estão tentando nos fazer “felizes” o tempo todo, mas aquela que nos fazem crescer, que nos questionam, que nos “confrontam”, mas que mostram que tem opinião e que tem talentos próprios. Pessoas que não são capazes de viver sob a sombra de ninguém, porque tem luz própria. Essas são as mais interessantes, não há dúvidas.

E o que dizer dos atores? Paul Thomas Anderson fez a escolha certa ao dar destaque, essencialmente, para o trabalho de três atores. Todos esperavam um belo trabalho de Daniel Day-Lewis. Ele realmente faz mais um trabalho primoroso, detalhista e marcante. Como lhe é típico. Mas outros dois nomes, de mulheres, acabam se destacando na produção: Vicky Krieps como Alma e Lesley Manville como Cyril, irmã do protagonista. Interessante como elas, de forma sutil algumas vezes, outras vezes de forma bastante explícita, marcam presença e fazem duetos entre si. Esse trio de atores vale cada minuto em que eles aparecem em cena.

Além dos protagonistas e de Lesley Manville, Phantom Thread tem apenas alguns personagens coadjuvantes que ganham um certo destaque. Nesse sentido, vale comentar o trabalho de Camilla Rutherford como Johanna, a mulher que está com Reynolds no início da produção – mas que logo será despachada por Cyril a pedido de Reynolds; Gina McKee como Henrietta Harding, uma das clientes fiéis de Reynolds; Brian Gleeson como o Dr. Robert Hardy, que tenta atender Reynolds e que “entrevista” Alma naquela sequência inicial da produção; Lujza Richter como a Princesa Mona Braganza; Emma Clandon como a mãe de Reynolds e Harriet Sansom Harris como Barbara Rose, a socialite um tanto sem limites que “não merecia” ficar com um vestido de Reynolds.

Phantom Thread estreou em première em Beverly Hills no dia 24 de novembro de 2017. Depois, o filme fez uma trajetória em que passou por cinco festivais de cinema. Até o momento, ele ganhou 45 prêmios e foi indicado a outros 93 – incluindo a indicação em seis categorias do Oscar, sendo que o filme saiu vencedor de uma delas.

Entre os prêmios que recebeu, destaque para o Oscar de Melhor Figurino; para o BAFTA de Melhor Figurino; para outros oito prêmios de Melhor Figurino; para sete prêmios de Melhor Diretor para Paul Thomas Anderson; para 12 prêmios de Melhor Trilha Sonora; para dois prêmios de Melhor Filme; para um prêmio de Melhor Atriz para Vicky Krieps; para dois prêmios de Melhor Atriz Coadjuvante para Lesley Manville; para três prêmios de Melhor Roteiro Original e para quatro prêmios de Melhor Ator para Daniel Day-Lewis.

Agora, algumas curiosidades sobre essa produção. O diretor Paul Thomas Anderson teve a ideia de fazer esse roteiro em um dia em que estava doente e de cama por causa disso. A esposa dele, Maya Rudolph, estava cuidando do diretor quando ele percebeu que ela lhe lançou um olhar tão cheio de ternura e de amor como há muito tempo ele não notava. Daí surgiu a ideia de Phantom Thread. Interessante.

Paul Thomas Anderson disse que a linha preferida dele do roteiro é aquela dita por Daniel Day-Lewis: “O chá está saindo, mas a interrupção permanecerá aqui comigo”. Hahahaha. Realmente a linha é ótima. E arrancou algumas risadas da plateia no cinema em que eu fui conferir essa produção.

Para se preparar para o filme, Daniel Day-Lewis assistiu a gravações de desfiles de moda dos anos 1940 e 1950, estudou designers famosos, consultou com um curador de moda e de têxteis no Museu Victoria e Albert em Londres e aprendeu sobre Marc Happel, chefe do Departamento de Vestuário do New York City Ballet. O ator também aprendeu a costurar e tentou costurar um vestido de bainha “Balenciaga” para a esposa Rebecca Miller. Não por acaso esse ator é tão bom em seu ofício. Ele realmente mergulha no personagem, vive por ele, e isso se nota na telona.

A atriz Vicky Krieps não se encontrou com o ator Daniel Day-Lewis até o primeiro dia de filmagens. Ela também foi orientada a sempre referir-se a ele como Reynolds, durante as filmagens, para que ela nunca perdesse da mente o personagem. Curioso que mesmo na fase de divulgação do filme, muitas vezes a atriz se referiu a Day-Lewis como Reynolds.

O ator Daniel Day-Lewis disse que Phantom Thread é o seu último filme. No dia 20 de junho de 2017 ele anunciou a sua aposentadoria. O cinema perde um grande ator, sem dúvidas.

A história do designer de moda espanhol Cristóbal Balenciaga, incluindo a sua dedicação ao trabalho e a sua vida um tanto “monástica” inspirou o diretor e roteirista Paul Thomas Anderson na construção do protagonista desta história.

As filmagens de Phantom Thread terminaram no dia 26 de abril de 2017, mesmo dia em que o amigo e mentor de Paul Thomas Anderson, o diretor Jonathan Demme, faleceu de câncer. Phantom Thread é dedicado para Demme. Outro grande diretor, diga-se de passagem.

De acordo com as notas de produção, o roteiro de Paul Thomas Anderson teve uma grande participação do ator Daniel Day-Lewis. Tanto que o diretor disse que, provavelmente, o mais correto é que o ator tivesse recebido algum crédito por isso.

O diretor italiano Luca Guadagnino, de Call Me By Your Name (com crítica nesse link), considerou Phantom Thread o melhor filme de 2017. Enquanto isso, Paul Thomas Anderson disse, no Reddit, que o seu filme favorito no ano foi Call Me By Your Name. Sim, os dois filmes estão acima da média e estão entre as boas pedidas do ano, mas eu tive outros que me chamaram mais a atenção em 2017. Ainda assim, considero que ambos mereceram chegar bem no Oscar, por exemplo.

Seguindo uma tradição que Paul Thomas Anderson lançou e seguiu nos seus três filmes anteriores, os materiais publicitários de Phantom Thread apresentam cenas que não vemos na versão final da produção. Achei essa ideia ótima, afinal, muitas vezes os trailers estragam a nossa experiência dos filmes aos nos apresentarem cenas que não deveríamos ver fora de contexto.

Phantom Thread não cita nenhuma data, mas há algumas indicações na história que apontam que ela teria ocorrido entre maio de 1953, quando um cliente compra um vestido de gala para uma Coroação e outubro de 1954, data de uma revista UK Vogue que aparece na reta final da produção. Interessante pensar que essa história se passa nos anos 1950, especialmente pelo que acontece com os atores – e pela força da personagem feminina Alma.

Algumas sequências desse filme foram rodadas nas aldeias de Lythe e de Staithes, que estão próximas de Whitby, na costa leste da Inglaterra.

Esse filme é uma coprodução do Reino Unido com os Estados Unidos.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,8 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 246 críticas positivas e 23 negativas para esta produção, o que garante para Phantom Thread uma aprovação de 91% e uma nota média de 8,5. Especialmente as notas dos dois sites chamam a atenção – elas estão bem acima da média.

De acordo com o site Box Office Mojo, Phantom Thread fez pouco mais de US$ 20,7 milhões nas bilheterias dos Estados Unidos e cerca de US$ 20,7 milhões nas bilheterias dos outros países em que estreou até 11 de março. No total, portanto, essa produção acumula pouco mais de US$ 41,4 milhões. Um dos melhores resultados já obtidos por um filme de Paul Thomas Anderson. Fico feliz pelo diretor. E também porque o filme merece ser visto.

CONCLUSÃO: Um filme sobre um tipo de amor sobre o qual parte da Humanidade nunca vai vivenciar. Ou conhecer. Ou mesmo “roçar”. Phantom Thread trata de um desses amores descabidos, que começam com uma grande admiração, flerte, e que avançam para um desejo que não tem muitas barreiras. Um filme bem narrado, com uma condução bem cadenciada, ótimas interpretações e, principalmente, alguns diálogos preciosos.

Fico feliz em ver que o diretor Paul Thomas Anderson continua centrado, escrevendo bem, e nos lançando algumas ideias interessantes. A provocação dele é sempre bem-vinda. Um belo filme. Um dos mais contundentes sobre a “loucura” do amor que tivemos a possibilidade de ver nos últimos tempos.

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