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Werk Ohne Autor – Never Look Away – Nunca Deixe de Lembrar

Um filme que começa de forma muito interessante, nos trazendo à memória como parte do povo alemão sofreu na pele a ideologia nazista. Mas Werk Ohne Autor não é uma produção comum sobre a Segunda Guerra Mundial. Ainda que trate de temas fortes daquela época, Werk Ohne Autor trata, sobretudo, sobre o poder da arte. Não apenas para inspirar, mas também para mover e salvar vidas. A essência do autor deve estar na sua obra, isso essa produção deixa muito claro. Mas quem nos inspira, no final? Alguns que puderam ser considerados loucos. Um filme muito bem conduzido e interessante, ainda que seja preciso trabalhar com dois ritmos muito diferentes ao longo da produção – o que não necessariamente funciona com perfeição.

A HISTÓRIA: Começa em Dresden, em 1937. E uma galeria, em uma visita guiada, um alemão fala sobre a Arte Moderna. Ele comenta que ela existia antes da Alemanha Nazista, mas que, agora, eles querem novamente uma arte alemã. Essa arte, segundo ele, estamparia os valores alemães. No grupo de pessoas que visitam o museu, estão Elisabeth May (Saskia Rosendahl) e o seu sobrinho, Kurt Barnert (Cai Cohrs). Durante a visita, quem os guia no museu diz que os artistas que fazem Arte Moderna tem falhas na visão, que podem decorrer de acidente ou de herança. Sugere que, se for o segundo caso, os nazistas podem atuar para que esse problema não se perpetue. Em breve a família de Elisabeth e de Kurt vivenciarão uma situação como a sugerida por ele.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Werk Ohne Autor): Esse era o único filme que faltava para que eu conseguisse completar a lista das cinco produções que concorreram ao Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira no Oscar 2019. Cinema alemão, do qual eu gosto tanto – só não mais que o cinema francês. E obra de um diretor do qual eu aprecio também o trabalho, Florian Henckel von Donnersmarck – que fez, antes, o interessantíssimo Das Leben der Anderen (comentado aqui no blog).

Para falar a verdade, eu não tinha acompanhado mais a von Donnersmarck. Tanto que eu não sabia, por exemplo, que após Das Leben der Anderen ele havia lançado apenas um outro filme, The Tourist, com Johnny Depp e Angelina Jolie e que, em seguida, ele ficou oito anos longe dos lançamentos nos cinemas. Depois de impressionar a muitos com Das Leben der Anderen, parece que ele foi “contaminado” por Hollywood com o comercial The Tourist e voltou para as suas origens vários anos depois com esse Werk Ohne Autor.

O filme tem dois momentos muito diferentes. E isso chega a ser impactante. A diferença entre a primeira parte do filme e o que vemos depois é marcante. Funciona bem? Acho que o diretor começa forte, de maneira impactante, e que depois ele perde um pouco da força abraçando uma trajetória mais “plana” do protagonista, digamos assim. Por outro lado, isso também é interessante, não apenas para mostrar que a arte não precisa ser visceral como que não precisamos ter os nossos “desejos” de plateia por sangue, vingança ou afins atendido.

Werk Ohne Autor foca na história de um artista. Não por acaso a narrativa acompanha esse artista, vivido, na etapa adulta, pelo ator Tom Schilling e, quando criança, por Cai Cohrs, desde a sua infância. Quando era muito jovem, ele foi marcado e inspirado pela tia Elisabeth May (a ótima Saskia Rosendahl). Ela é uma pessoa à frente do seu tempo, muito sensível e com forte apreço pelas artes, mas acaba sendo diagnosticada como esquizofrênica.

O problema é que eles viviam, quando ela era jovem, justamente durante o regime nazista. Naquele momento, não importa se você fosse alemão ou estrangeiro. Se você tinha algum problema de saúde ou alguma doença mental, você era considerado “inferior” e não “merecia” dividir os recursos públicos com pessoas “saudáveis”. Francamente, especialmente pelas atitudes de Elisabeth quando ela estava internada, apresentando uma visão tão crítica e sensível, tenho sérias dúvidas se ela realmente sofria de esquizofrenia.

Será que ela não poderia ter sofrido apenas com uma crise nervosa? Relativamente limitada no interior da Alemanha e bastante pressionada na adolescência, quem nos garante que ela não tinha sofrido apenas com uma carga grande de estresse? E ainda que não fosse isso, que ela realmente tivesse esquizofrenia, hoje sabemos que essa doença mental tem tratamento e pode ser controlada.

A parte inicial do filme, especialmente quando é mostrada uma reunião de oficiais do Reich, é de arrepiar. Sob o comando do Dr. Burghart Kroll (Rainer Bock), o professor Carl Seeband (Sebastian Koch) e outros médicos responsáveis por clínicas e hospitais espalhados pela Alemanha, ganham o poder de determinar quem viveria e morreria sob as ordens do regime nazista. A ideia de Kroll era eliminar todas as pessoas que tinham doenças mentais e que eram consideradas, por isso, inferiores. Na cabeça doentia daquelas pessoas, eles estariam fazendo um “favor” para as gerações futuras.

Apenas ao assinalar uma cruz vermelha – ou um sinal de mais – na ficha dos pacientes, Seeband e seus colegas estavam decretando o envio das pessoas para campos de extermínio na parte “oriental” do país. O cinema alemão não tem problema em lembrar que o extermínio de milhões de pessoas não focou apenas em judeus, mas em outras pessoas que eram consideradas “inferiores” ou “non gratas” pelo regime nazista e criminoso do Reich.

Depois daquela introdução marcante e impactante, Werk Ohne Autor desacelera bastante. Mas isso não faz com que a produção deixe de ser interessante ou fique enfadonha. Muito bem conduzida por von Donnersmarck, Werk Ohne Autor acompanha o sobrinho de Elisabeth, Kurt, em sua jovem vida adulta. Ele também parece ter uma visão diferenciada do mundo, como a tia. Mas vivendo uma época pós-guerra e com a família tendo aprendido com a história de Elisabeth, Kurt não segue o mesmo caminho da tia.

A partir daí, vemos como ele evoluiu em sua busca pela arte. Inicialmente, ele se desenvolve na parte comunista da Alemanha, onde consegue sucesso seguindo a ideologia que faz parte daquela realidade. Mas ele não está satisfeito. Buscando por liberdade artística e por reconhecimento da vanguarda desta área na época, Kurt migra com a namorada, Elisabeth Seeband – que ele prefere chamar de Ellie (Paula Beer), para a parte ocidental da Alemanha.

Nessa parte da produção, mergulhamos na lógica da arte moderna e da busca dos artistas por sua própria identidade e expressão desta identidade para os demais. Se a tia do protagonista o influenciou a começar a sua trajetória, é o professor Antonius van Verten (Oliver Masucci) que o incita a amadurecer na sua linguagem artística. Ainda que ele parece ter se “decepcionado” com o pupilo inicialmente, a sua crítica e a sua própria história ajudam Kurt a encontrar a linguagem e o foco que ele precisa para expressar o que ele acreditar ser a sua identidade.

Interessante a forma com que a produção explora as diferentes escolas artísticas, o quanto a política e a vida influenciam a arte. A busca do artista por sua própria voz é sempre algo admirável e que rende boas histórias. O foco principal de Werk Ohne Autor é esse, assim como contar, é claro, parte do que aconteceu durante a Segunda Guerra Mundial e no pós-guerra a partir da ótica de alguns alemães.

O período da guerra e do pós-guerra visto pela ótica dos alemães que não aderiram ao regime – mas que foram um tanto “forçados” a aceitá-lo para sobreviver – é um dos pontos de interesse do filme. Assim como aquela busca da essência artística do protagonista. Para embalar a história – e torná-la mais “comercial”, talvez? – o diretor e roteirista também nos apresentam uma história de amor inicialmente “impossível”.

(SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Afinal, alguém quer algo mais improvável e “mundo pequeno” do que o sobrinho da garota que é morta por Seeband e que tinha o mesmo nome que a filha dele se apaixonar justamente pela filha do carrasco de sua tia? Elas terem o mesmo nome é algo marcante também, especialmente porque a tia do protagonista implorou para o médico como se fosse a sua filha.

Claro que, conforme a história se desenrola, parece que em algum momento virá a tona a verdade sobre a tia de Kurt e seu carrasco. Esse risco existe, mas a revelação acaba não acontecendo. Seeband, claro, mata a charada ao ver as obras de Kurt, mas o genro “desafeto” dele acaba sem entender a reação do sogro e não tem revelado o mistério da tia. Com isso, parece, von Donnersmarck está nos mostrando que a vida é cheia de encontros e de coincidências, mas que nem todas as histórias tem as revelações e as resoluções que gostaríamos ou que veríamos em novelas.

Apesar de ter feito um juramento como médico, de salvar vidas, Seeband era, acima de tudo, um nazista convicto. Ele é tão carniceiro e preconceituoso que não se importou de praticamente tirar a possibilidade da própria filha engravidar apenas para “impedir” que um sujeito que ele considerava inferior – afinal, Kurt era um artista e vinha de uma família que não era tradicional ou poderosa – tivesse um filho com ela.

(SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Ainda que o filme não nos entregue a “vingança” ou ao menos a queda de máscara de Seeband, mas ele avança com um final feliz dos sobreviventes do Holocausto. Kurt e Ellie conseguem ficar juntos e ela consegue engravidar, que é muito mais e o contrário do que o pai da garota desejaria. Kurt também consegue desenvolver o seu próprio estilo artístico, ainda que a crítica considere a sua arte “sem autor”.

O título original do filme, em alemão, faz alusão a isso, a uma arte “sem autor”. O título para o mercado internacional explora a frase que a tia do protagonista falava para ele – de nunca desviar o olhar. Para o Brasil, o título foi levemente modificado e faz alusão às memórias do artista sobre o próprio passado. Por incrível que pareça, os três títulos fazem sentido – apesar de, claro, quererem explorar aspectos diferentes da história.

Vamos falar do primeiro. Para os críticos que avaliam o trabalho de Kurt Barnert, ele é um dos maiores expoentes da arte do seu tempo, da sua geração. Eles elogiam o trabalho que ele faz, mas consideram que o que ele responde não é satisfatório. Por não conseguirem as respostas que desejam, os críticos consideram que a arte dele é “sem autor”. Isso fala muito sobre os nossos dias, inclusive. Os críticos e o público em geral desejam determinadas respostas e que seus desejos sejam satisfeitos, independente do que o autor deseja comunicar.

Me desculpem os críticos e o público que “funciona” com esta lógica, mas eu funciono com uma lógica diferente. Respeito o que os artistas comunicam e o que eles querem expressar. Não quero que tudo satisfaça o meu gosto ou as minhas expectativas. Para mim, o importante é que a arte faça sentido e/ou que me emocione.

Uma prova desta falta de abertura para o que o autor deseja comunicar é o que vimos recentemente com o final de Game of Thrones. As pessoas levam para tudo a cultura do “futebol”. Ou seja, havia um “team Daenerys” e um “team Jon”. Para estes times, só existia um final possível: a vitória de seus personagens no final. Qualquer outra possibilidade seria um “lixo”. Não é isso que vemos em Werk Ohne Autor também quando os jornalistas e críticos entrevistam Kurt e não conseguem dele as respostas que desejam?

Não importa a frustração ou as expectativas de quem assiste ou aprecia a algo. O ego deveria ser deixado de lado para entender a ótica do outro, do artista, suas motivações, sua história, seus sentimentos e todo o contexto que circunda aquela obra. O mesmo vale para o cinema. Devemos entender o que cada cineasta deseja nos passar antes de saber se aquilo fez ou não sentido para cada um de nós. A partir daí pode surgir a nossa crítica, embasada não apenas em gostos pessoais e em “torcidas” estilo futebol.

A frase dita por Elisabeth e que sempre inspirou Kurt tem a ver com o ensinamento de nunca ter medo de nada, de enfrentar a vida de frente e de não ter vergonha de ser o que se é. Uma frase potente, simples e que acaba moldando um bocado a percepção que o protagonista tem do mundo. Finalmente, a frase que acabou sendo usada no título do filme no mercado brasileiro tem a ver com a busca do próprio cineasta, do cinema alemão e do país em não esquecer o seu passado, até para evitar que ele se repita. Tudo isso é importante, e tudo isso ajuda a explicar esta produção.

Gostei de Werk Ohne Autor. Apesar de longo, por ser muito bem construído e por atores carismáticos como protagonistas, o filme não cansa. Passa até meio que rápido. No final das contas, essa produção tem uma narrativa clássica, linear e um pouco previsível. Nos surpreende mais apenas no início, mas depois segue uma vertente confortável.

Essa não é uma produção inesquecível, mas é um filme bem feito e bem realizado. Mais uma obra interessante sobre o regime nazista e o pós-guerra, explorando algo que não é comum de ser mostrado no cinema sobre esta época, que é justamente como os artistas se comportavam e trabalhavam nas “duas Alemanhas” que restaram após a derrota de Hitler e seus cães de guerra. Por ter esse toque diferenciado, assim como pela maneira com que a produção encara o fazer artístico e a crítica da arte, Werk Ohne Autor merece ser visto.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Último filme da lista dos principais concorrentes ao Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira deste ano, Werk Ohne Autor mostra a força do cinema alemão. Mas não achei o melhor filme da temporada. Particularmente, prefiro Shoplifters (com crítica neste link), Capernaum (comentado por aqui) e até mesmo produções que não chegaram entre as finalistas, especialmente Den Skyldige (comentado neste link) e Beoning (com crítica por aqui). Gostei mais desses filmes todos do que da produção que levou o Oscar para casa, Roma (com crítica neste link). Mas o filme vencedor é melhor que este Werk Ohne Autor? Acho que eles empatam, ao menos nos quesitos direção e fotografia. Em termos de roteiro, me parece que até o filme alemão apresenta elementos mais interessantes e que fazem pensar do que o filme de Cuarón.

Um dos pontos altos de Werk Ohne Autor é a sua direção de fotografia. Assim como outra produção indicada a Melhor Filme em Língua Estrangeira nesse ano, Cold War (com crítica neste link). Em Werk Ohne Autor esse trabalho leva a assinatura de Caleb Deschanel. Também vale destacar a ótima trilha sonora de Max Richter e a edição de Patricia Rommel e Patrick Sanchez Smith. Todos fazem um belo trabalho. O diretor Florian Henckel von Donnersmarck também consegue equilibrar bem todos os elementos em cena, exprimir ótimas interpretações dos atores e valorizar a parte artística da produção. Apenas o seu roteiro achei um tanto previsível e “clássico demais” na segunda parte – após aquele começo potente e impactante. Mas o trabalho dele não é ruim.

Falando nos grandes méritos do filme, além da direção segura de von Donnersmarck, da direção de fotografia de Deschanel e da trilha sonora de Richter, vale destacar o carisma dos protagonistas, especialmente de Tom Schilling e de Paula Beer. A atriz Saskia Rosendahl aparece menos do que gostaríamos, mas também esbanja carisma e beleza. Os três são o ponto alto da produção, sem dúvida. Não exageram nas interpretações e passam a veracidade necessária para nos convencer de seus personagens. O ator Sebastian Koch, veterano, também faz um belo trabalho.

Além deles, vale comentar o bom trabalho de outro veterano, Oliver Masucci, bem como o professor de arte Antonius van Verten; Hanno Koffler bem como Günther Preusser, que se torna amigo de Kurt na escola de arte; Evgeniy Sidikhin como o major russo Murawjow, que acaba protegendo Seeband depois que o médico ajuda no parto de seu primeiro filho; o talentoso Jörg Schüttauf como Johnann Barnert, pai de Kurt e mais uma vítima do regime nazista – mesmo sem apoiar o regime, ele teve que se filiar ao partido e acabou pagando caro por isso; Jeanette Hain como Waltraut Barnert, mãe de Kurt e irmã de Elisabeth; Ina Weisse como Martha Seeband, mãe de Ellie; o veterano Rainer Bock quase em uma ponta como o Dr. Burghart Kroll, comandante do extermínio; David Schütter como o artista Adrian Schimmel/Finck, que acaba “empresariando” o colega Kurt; e os atores jovens que interpretaram os protagonistas quando crianças/adolescentes, a saber: Cai Cohrs interpreta Kurt aos 6 anos de idade e Oskar Müller o interpreta quando ele teria 13 anos; e Mina Herfurth interpreta Ellie aos 6 anos.

Além do elenco e dos aspectos técnicos já comentados, vale citar o bom trabalho de Silke Buhr no design de produção; de Theresia Anna Ficus, Markus Nordemann, Robert Reblin, Marek Warszewski e de Jiri Zavadil na direção de arte; de Julia Roeske e de Yvonne von Krockow na decoração de set; e de Gabriele Binder nos figurinos.

Werk Ohne Autor estreou em setembro de 2018 no Festival de Cinema de Veneza. No mesmo mês o filme estreou nos festivais de cinema de Toronto e de Zurique. Depois, a produção passaria, ainda, por outros oito festivais em diversos países. Nessa trajetória, o filme ganhou quatro prêmios e foi indicado a outros 13, incluindo as indicações para os Oscar’s de Melhor Filme em Língua Estrangeira e Melhor Direção de Fotografia no Oscar 2019. A produção também foi indicada ao Globo de Ouro de Melhor Filme em Língua Estrangeira.

Os prêmios que o filme recebeu foram o de Melhor Ator – Nacional para Sebastian Koch no Bambi Awards; o de Melhor Produção no Bavarian Film Awards; o de Melhor Filme em Competição na mostra Arca CinemaGiovani Award e o Leoncino d’Oro Agiscuola Award para Florian Henckel von Donnersmarck, ambos entregues no Festival de Cinema de Veneza.

Agora, vale citar algumas curiosidades sobre esta produção. Durante o filme, fiquei me perguntando o quanto da história poderia ter relação com alguma história real. Segundo os produtores de Werk Ohne Autor, o filme é “vagamente baseado” na história do artista alemão Gerhard Richter. Parece que foi “levemente” inspirado mesmo, porque Richter reagiu à produção dizendo que ela apresentava “abuso e distorção gritante” da sua biografia.

Procurando mais sobre Richter, vi que ele já rendeu alguns documentários interessantes. Nascido em 1932 na cidade de Dresden, na Saxônia, o artista começou a ser retratado pelo cinema em 1994 com o curta para a TV Gerhard Richter. Em 1999, ele apareceu no documentário Speaking of Abstraction: A Universal Language. Depois, em 2005, foi foco do documentário Gerhard Richter: 4 Decades. Outro documentário focado nele foi lançado em 2011, Gerhard Richter Painting. Segundo a Wikipédia, o pintor alemão viveu mais de 16 anos “debaixo do comunismo” na Alemanha Oriental antes de se mudar para a Alemanha Ocidental em 1961.

Segundo este artigo de 2005 da Deutsche Welle sobre Richter, o “superstar alemão” produzia obras que valiam até US$ 9 milhões e foi considerado, pela Art Newspaper em março de 2002, o “artista vivo mais caro” do mundo – ao menos no início dos anos 2000. Segundo o artigo, em 40 anos de carreira, o estilo de Richter mudou continuamente, passando por pop art, fotorrealismo, arte conceitual e minimalista, chegando até a pintura abstrata. Também criou objetos, fotocolagens e instalações.

Para quem deseja ver mais sobre a obra diversificada do artista que inspirou o filme, vale dar uma conferida na página dedicada para ele do site Artsy.

O professor de arte de Kurt é inspirado no artista Joseph Beuys, que foi chefe do departamento de escultura na Kunstakadamie em Dusseldorf no início dos anos 1960. Foi nessa época, também, que o artista Gerhard Richter se matriculou na escola de arte pela primeira vez.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,7 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 74 críticas positivas e 23 negativas para o filme – o que lhe garante uma aprovação de 76% e uma nota média de 7,31. O site Metacritic apresenta um “metascore” 69 para Werk Ohne Autor, fruto de 17 críticas positivas, sete medianas e uma negativa.

De acordo com o site Box Office Mojo, Werk Ohne Autor faturou cerca de US$ 1,3 milhão nos Estados Unidos. Pouco, se comparado com um filme americano, mas um resultado razoável para uma produção estrangeira com três horas de duração. Até porque o filme estreou em apenas 122 cinemas do país.

Werk Ohne Autor é uma coprodução da Alemanha com a Itália. Há algum tempo, aqui no blog, vocês votaram pedindo por mais críticas de filmes alemães. Por isso, essa crítica passa a figurar na lista de textos que atendem à votações feitas aqui no blog. 😉

Me desculpem as poucas atualizações aqui no blog nos últimos meses, mas estou em uma correria boa no meu trabalho. Mas prometo, logo que possível, voltar a publicar mais textos por aqui. Com maior frequência, ao menos. Logo voltarei a alguns clássicos do cinema também – até para “reavivar” a seção aqui no blog destinada a isso e que anda meio abandonada.

CONCLUSÃO: Werk Ohne Autor começa de forma impactante. Um drama familiar que acabou sendo o drama de diversas outras famílias é contado de forma vigorosa na parte inicial deste filme. Depois, temos uma quebra de ritmo marcante em Werk Ohne Autor, o que não é difícil de trabalhar. A produção então suaviza bastante, mas acaba transmitindo a sua mensagem de amor à arte e de que o amor vence mesmo a brutalidade. Sempre bacana ver como os alemães olham e refletem sobre o próprio passado. Sem dúvida, uma cultura admirável, apesar de todos os seus equívocos históricos. Um filme longo, de três horas, que não é difícil de assistir. O tempo passa mais rápido do que o previsto. O que é um bom sinal. Vale ser visto, sem dúvidas.

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The Danish Girl – A Garota Dinamarquesa

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Esse filme será difícil de ser assistido por alguns, será uma verdadeira revelação para outros e, para um terceiro grupo, ele pode parecer uma redenção. Tudo vai depender sob que ótica você irá assistir a The Danish Girl. Da minha parte, ele foi difícil de ser visto, ao mesmo tempo que ele foi um eficaz cartão de visitas para uma realidade até agora desconhecida. Com atores de primeiríssima linha, especialmente com mais uma atuação inspirada de Eddie Redmayne, The Danish Girl se revela um filme necessário. Especialmente para ajudar a quebrar preconceitos ainda existentes.

A HISTÓRIA: Um conjunto de belas paisagens. Elas servem de inspiração para Einar Wegener (Eddie Redmayne). Gerda (Alicia Vikander), mulher dele, observa um de seus quadros. Perto dela, Einar é paparicado pela forma com que ele retrata Vejle. Os dois se olham, enquanto o agente dele, Rasmussen (Adrian Schiller) tenta exaltar o talento do artista. Essa história começa em Copenhagen em 1926. No dia seguinte Gerda acorda Einar, que a chama para a cama novamente. O casal de artistas é uma inspiração, ainda que eles tenham apelos muito diferentes. Em breve, contudo, Einar deixará aflorar a verdade sobre si mesmo, o que vai mudar a vida do casal.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Danish Girl): Este filme não é fácil de ser visto. Pelo menos pela maioria das pessoas, eu aposto. Para mim não foi fácil. Primeiro porque é sempre duro ver o sofrimento alheio. E em The Danish Girl há bastante sofrimento. Mas ele não é tudo nesta história, é claro. Neste filme também há muito amor e a busca pela própria verdade. Ainda que esta verdade seja dura de aceitar, algumas vezes.

Serei franca em dizer que este filme mexeu com os meus preconceitos – ou com a minha dificuldade de entender o que é diferente de mim. (SPOILER – não leia se você não tiver assistido ao filme). Assistindo a The Danish Girl percebi que é muito mais simples entender um homem que se apaixona por um homem e uma mulher que se apaixona por uma mulher do que me colocar no lugar de quem não aceita o próprio corpo e faz cirurgias arriscadas para ter o outro sexo – que, evidentemente, é o que ele entende como sendo o seu.

Em outras palavras, para mim foi muito mais simples me identificar com Gerda do que com Einar/Lili. E neste ponto reside uma das belezas desta produção com roteiro de Lucinda Coxon baseado no livro de David Ebershoff. Ela provoca quem não compartilha com a visão de mundo e de realidade de Lili a conhecer mais de perto a intimidade dos transexuais/transgêneros.

Agora, o contato não é delicado. Pelo contrário. Não estamos do lado de fora, conhecendo a mudança de Einar para Lili como simples espectadores. Estamos dentro do quarto do casal Gerda e Einar. “Estamos” presentes no estúdio em que Gerda está trabalhando no retrato da amiga do casal, Ulla (Amber Heard), quando a modelo se atrasa e ela pede para o marido vestir as meias e a sapatilha para se passar pela amiga, momento em que Einar sente a sua verdadeira identidade começar a aflorar.

O filme não demora para mostra esta ruptura na vida do casal e a evolução deste quadro. Ainda assim, temos tempo de conhecer um Einar antes da mudança. Ele era um artista talentoso e sensível, se vestia bem e não tinha, aparentemente, nenhuma atração por homens ou vontade de se passar por mulher. Pelo menos até aceitar a provocação de Gerda e se vestir como mulher para acompanhá-la em mais um dos eventos chatos com artista que ele odiava.

Inicialmente eles pareciam estar apenas brincando e “jogando”. Afinal, no início, Einar continuava atraído pela esposa. Mas conforme ele foi dando espaço para Lili, tudo começou a mudar. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). De forma maravilhosa o grande ator Eddie Redmayne foi deixando claro que Einar se sentia muito mais vivo e “inteiro” sendo Lili. Não demorou muito para que ele só quisesse dar espaço para ela – e para que Einar praticamente desaparecesse.

A beleza de The Danish Girl é nos mostrar essa autodescoberta de Einar como Lili com muita franqueza. Mas a honestidade não torna tudo mais simples. De qualquer forma, para quem nunca tinha realmente se interessado ou tido a oportunidade de se colocar na ótica de um transgênero, este filme é um verdadeiro achado. Em The Danish Girl fica muito evidente o que se passa com um homem que passou uma parte considerável da vida escondendo o que realmente sentia sobre si mesmo e que, em determinado momento, resolve ser verdadeiro consigo mesmo.

A descoberta e a transição são dolorosas. Ainda assim, em diversos momentos, dá para perceber a liberdade e a alegria que Einar sente ao caminhar naquela direção de se assumir. Isso tudo é verdade e um desafio para quem não é transgênero. Me colocando no lugar deles, também entendo que este filme seja uma verdadeira redenção e uma inspiração. Mas serei franca em dizer que me coloquei demais no lugar de Gerda. Impossível não ficar assustada, como ela, com a primeira noite em que Lili saiu de casa e com o que viria depois.

A interpretação de Alicia Vikander é perfeita neste sentido. Ela fica assustada com as mudanças pelas quais passa Einar. Até porque ela não demora muito para perceber que, finalmente, ela está conhecendo de verdade a pessoa com quem ela se casou. Na medida em que a verdade não consegue mais ser escondida, o casal passa por um doloroso processo de aceitação e de mudança. Não tem como não sentir a dor de Gerda ao ver que ela está perdendo o seu marido.

Daí também, serei franca, um pouco da minha dificuldade também de entender Einar/Lili. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Como até ele experimentar as roupas e se sentir uma mulher ele tinha tanta atração e parecia apaixonado por Gerda? Entendo quem faça isso para “acobertar” a própria identidade enquanto tem uma vida dupla, por pressão social, mas alguém que parece realmente eliminar parte fundamental da própria identidade e viver uma outra persona por tanto tempo me parece algo incrível. Sei que os psicólogos podem explicar e que o fato da história se passar nos anos 1920 ajuda nesta explicação, mas ainda assim me parece incrível.

Por causa disso Gerda acredita que se casou com uma certa pessoa e que a conhecia, mas não. E o processo de descoberta de Einar e de Gerda é complicado. Primeiro ele mesmo parece não entender pelo que está passando. Muito menos ela. No início, me incomodou também o fato dele não ter coragem de falar a verdade para Gerda e sair escondido para se encontrar com Henrik (Ben Whishaw). Sempre sou à favor das pessoas jogarem aberto. A verdade deveria prevalecer. Bueno, isso acaba acontecendo mas, até lá, é duro ver o que acontece com Einar/Lili e Gerda.

Também não é nada fácil ver todas as soluções malucas e absurdas que diferentes médicos e “especialistas” dão para o caso de Lili. É de cortar o coração. Ninguém, por mais que a maioria não entenda pelo que está passando, dever ser sujeito àquelas dores e torturas. Mas todos sabemos como a sociedade lidava com este e com outros “problemas” há diversas décadas atrás.

Nestas horas – e em outras também – percebemos como sim, evoluímos com o passar do tempo. Mas algo que parece ainda não ter evoluído muito, e aí está a importância de The Danish Girl, é a aceitação e entendimento dos transgêneros pela maioria da sociedade. Ainda falta mais falarmos do assunto e conhecermos histórias como a de Lili. Talvez, com o tempo, elas se tornem tão naturais quanto as histórias de amor entre homossexuais.

Por falar em amor, uma das grandes mensagens de The Danish Girl é o imenso amor que existe entre Gerda e Einar/Lili. Enquanto Lili luta por sobreviver e por ser cada vez mais coerente consigo mesma, Gerda segura as pontas e enfrenta toda a dor de perder o marido para que Lili possa ganhar a vida. Impressionante a entrega de Gerda e o amor verdadeiro que ela sentia por Einar/Lili. Francamente, não sei se eu conseguiria fazer o mesmo. Provavelmente não. Mas Gerda nos ensina isso, que o mais bonito amor é aquele que quer que a outra pessoa seja feliz, que se sinta inteira e viva. Não há amor aonde o outro tem que mentir para si mesmo.

Claro que junto com esse amor gigante de Gerda por Einar/Lili está o amor de Lili pela própria verdade. A busca incessante de Einar para dar lugar para a sua verdadeira identidade é comovente e, certamente, inspirador para quem passa pelo menos. The Danish Girl consegue demonstrar isso mesmo para quem não faz parte deste grupo. Este, sem dúvida, é um grande mérito da produção. Conquista dos ótimos atores envolvidos no projeto, especialmente Eddie Redmayne e Alicia Vikander, e também da ótima direção de Tom Hooper.

O roteiro de Coxon e a direção de Hooper não embelezam a pílula. Pelo contrário. E isso é mais um ato corajoso dos realizadores deste filme. Francamente, gostei muito do resultado. Mas acho que o filme peca um pouco por não nos contextualizar mais na história de Einar. Talvez algum flashback do passado ou ele contando mais para Gerda sobre a sua trajetória, sentimentos e dificuldades poderia tornar o filme mais completo. De qualquer forma, é uma bela produção. E muito necessária, já que pouco ainda se fala, e de forma tão franca e humana, dos transgêneros no cinema. Sem contar que este é um trabalho exemplar dos atores principais. Maravilhosos, os dois.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Eddie Redmayne realmente é um ator diferenciado. Ele consegue dar vida para Lili de uma forma genuína e que convence – quantos atores que você acompanha conseguiriam fazer o mesmo? Quantos não pareceriam forçados? Sei que ele tem Leonardo DiCaprio no papel da vida dele para enfrentar no Oscar, mas não dá para ignorar o excelente trabalho de Redmayne neste filme. Se ele seguir inspirado como agora, não tenho dúvida que outros prêmios virão.

Muito importante para The Danish Girl que o filme tenha, além de um Redmayne inspirado, uma Alicia Vikander igualmente em ótima forma. A atriz interpreta com maestria Gerda, fazendo muitas pessoas se sensibilizarem pelo que ela está passando na história. Francamente, o papel dela é muito diferente do de Rooney Mara em Carol, quando a interpretação é muito mais contida e nos detalhes – como na troca de olhares. No caso de Vikander a interpretação é muito mais direta, franca e entregue porque a personagem dela pede isso. Mara, por outro lado, faz uma entrega perfeita também, mas de outra forma.

Complicado escolher entre as duas. Assim como é complicado escolher entre Redmayne e DiCaprio. Para mim, todos estão perfeitos. A diferença talvez seja na classificação de “interpretação da vida” dos atores. DiCaprio realmente faz o melhor papel da carreira. Não conheço muito da trajetória de Vikander para dizer o mesmo dela, mas me parece que ela ganhou outro status a partir deste filme. Então, se formos olhar por esta ótica, talvez Vikander tenha uma vantagem sobre Mara. Agora, é preciso ainda ver a Kate Winslet em Steve Jobs – falo mais do Oscar logo abaixo.

Eu gosto muito do que Redmayne faz, mas tenho que confessar algo: me irrita um pouco o cacoete dele de piscar os olhos como se o personagem de Lili/Einar tivesse uma certa timidez que algumas vezes deve ser administrada através daquela piscada. Não sei, isso me faz lembrar de outros papéis dele. Acho que ele poderia utilizar outros recursos para variar um pouco.

A direção de Tom Hooper me pareceu soberba. Ele acerta ao estar atento a cada detalhe da interpretação dos atores na mesma medida em que ele valoriza a beleza dos lugares – afinal, este filme, ao ter dois protagonistas que são pintores, exige um apreço pelo visual diferenciado. Neste sentido, contribui para o bom trabalho visto no filme o diretor de fotografia Danny Cohen. Belo trabalho o dos dois.

Falando nas qualidades técnicas do filme, é preciso ressaltar o bom trabalho de Alexandre Desplat na trilha sonora; a edição competente de Melanie Oliver; o design de produção requintado e certeiro de Eve Stewart; a direção de arte de Grant Armstrong e Tom Weaving; a decoração de set de Michael Standish; os figurinos perfeitos e muito bem pesquisados/criados por Paco Delgado; e o excelente trabalho de maquiagem dos 10 profissionais liderados por Caroline Case, Annette Field e Pari Khadem. Exemplar também o trabalho do departamento de arte que conta com 32 profissionais talentosos.

Este filme é capitaneado e tem na interpretação de Redmayne e Vikander uma de suas fortalezas. Mas é preciso enaltecer também o bom trabalho dos coadjuvantes. Destaque para Adrian Schiller como Rasmussen, que representa Einar e, rapidamente, entende o novo talento que aflora em Gerda a partir dos quadros inspirados em Lili; Amber Heard linda e com interpretação convincente como Ulla; Ben Whishaw ótimo como Henrik; Pip Torrens um tanto assustador como o Dr. Hexler, o primeiro a “tratar” Einar; Matthias Schoenaerts perfeito e maravilhoso como Hans Axgil, amigo de infância de Einar e grande parceiro de Gerda e Lili; e o grande Sebastian Koch muito bem como o médico Warnekros, o primeiro a entender os transexuais e fazer cirurgias de readequação genital.

Para quem ficou interessado pelo tema, assim como eu, recomendo a leitura de algumas perguntas e respostas sobre transgêneros e transexuais disponíveis aqui no site iGay.

The Danish Girl estreou em setembro de 2015 no Festival de Cinema de Veneza. Depois, o filme participaria ainda de outros cinco festivais de cinema. Em sua trajetória, até agora, o filme recebeu 18 prêmios e foi indicado a outros 63, incluindo quatro indicações ao Oscar. Entre os prêmios que recebeu, destaque para 10 premiações para Alicia Vikander como Melhor Atriz Coadjuvante, como “Performance Arrebatadora” de uma Atriz ou Atriz do Ano (prêmio que ela normalmente recebeu junto com a interpretação em outros filmes); e para um prêmio para Eddie Redmayne como Melhor Ator e outro para Tom Hooper como Melhor Diretor – além de um Queer Lion para ele no Festival de Cinema de Veneza.

Esta produção teria custado US$ 25 milhões e faturado, até ontem, dia 20 de janeiro, pouco mais de US$ 9,1 milhões nas bilheterias dos Estados Unidos. Nos outros mercados em que o filme já estreou ele fez outros US$ 13 milhões. No total, quase US$ 22,2 milhões. Ou seja, ele está longe ainda de se pagar – levando em conta que qualquer estúdio gasta muito mais do que apenas os recursos para a produção do filme. É preciso adicionar ainda os gastos com distribuição e publicidade. The Danish Girl precisa melhorar o desempenho para conseguir pagar o investido.

The Danish Girl foi filmado em Copenhagem, na Dinamarca; em Bruxelas, na Bélgica; em Londres e Hertfordshire, no Reino Unido; em Vigra Island e em Mount Mannen, na Noruega; e em Berlim, na Alemanha. Diversos lugares, não? Sem dúvida uma boa parte do orçamento foi nestes deslocamentos da equipe e elenco.

Agora, algumas curiosidades sobre o filme. The Danish Girl é baseado no livro homônimo de David Ebershoff que, na verdade, recria de forma ficcional a vida de Einar Wegener/Lili Elbe. Ou seja, não se trata de uma biografia real. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Relatos históricos apontam que Gerda Wegener era lésbica e que preferia a feminilidade de Lili do que a masculinidade de Einar. Além disso, eles teriam um relacionamento aberto e, quando o casamento deles terminou, cada um foi para um lado. Ou seja, uma história beeeeem diferente do filme. E, cá entre nós, que faz mais sentido. É bacana pensar em um amor de entrega tão grande quanto o que vemos de Gerda no filme, mas me parece que a história real é mais plausível.

Uma fonte mais fidedigna do que aconteceu com Einar/Lili está no livro Man into Woman, assinado por Niels Hoyer. Esse nome, Niels Hoyer, na verdade é o pseudônimo para Ernst Ludwig Hathorn Jacobson, editor de Lili que reuniu as cartas e o que ela escreveu em seu diário para que este material fosse transformado no livro autobiográfico. Este sim deve ser interessante de ler.

A verdadeira origem de Gerda Wegener não é americana e sim dinamarquesa. Gerda Gottlieb Wegener Porta nasceu no dia 15 de março de 1886 e faleceu no dia 28 de julho de 1940. Ela foi “tranformada” por Ebershoff em americana para agradar aos leitores dos Estados Unidos. A história real aponta para que Gerda era lésbica e tinha um relacionamento aberto com Einar/Lili. Na verdade, o relacionamento delas tinha mais a ver com o de irmãs do que de amantes ou cônjuges. No livro/filme Gerda aparece como uma esposa fiel que nunca deixou Lili. Bem, a história real não foi bem essa. Mais uma razão para eu deixar a nota do filme aonde ela está.

No início, Nicole Kidman queria estrelar e produzir o filme, com ela interpretando Einar/Lili. Para o papel de Gerda foram escaladas e depois pularam fora do projeto Charlize Theron, Gwyneth Paltrow, Uma Thurman, Marion Cotillard e Rachel Weisz. Tenho certeza que um projeto envolvendo Kidman e qualquer uma destas atrizes teria sido interessante mas, francamente, eu acho que foi muito mais justo com a história e interessante termos um homem passando pela experiência de Einar/Lili. Me parece muito mais lógico.

Einar/Lili não foi a primeira pessoa a se submeter à cirurgia de redefinição de sexo, mas esteve entre as primeiras. Carla van Crist, Toni Ebel e Dorchen Ritcher tinham feito a cirurgia antes de Lili. Magnus Hirschfeld fundou em Berlim em 1919 o Instituto Sexual de Berlim, nos mesmos moldes do Instituto Kinsey. Os nazistas destruíram os arquivos do instituto em 1933, por isso não é possível saber exatamente quem foi a primeira pessoa a fazer a cirurgia de redefinição de sexo.

Os personagens de Hans Axgil e Henrik não existiram na vida real. Eles foram inventados pelo autor do romance (e, consequentemente, aparecem no filme). (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). O namorado de Lili quando ela morreu era um negociar de arte chamado Claude Lejeune, com quem ela esperava casar e ter um filho. Gerda também não estava perto de Lili quando ela morreu e sim estava casada com um oficial italiano chamado Fernando Porta. Ela se casou com ele em 1931 e os dois foram morar juntos na Itália. Dez anos depois, no Marrocos, Gerda soube da morte de Lili. Fernando Porta acabou com as economias da artista que, em 1936, resolveu se divorciar dele. Ela não teve filhos e não se casou novamente. Voltando para a Dinamarca, Gerda começou a beber muito e morreu pobre em 1940.

O casamento de Einar e Gerda durou 26 anos, entre os anos 1904 e 1930. Ele tinha 22 anos e ela 18 quando se casaram. Lili tinha 47 anos quando fez a cirurgia para redefinir o seu sexo e morreu aos 48 anos graças à rejeição de órgãos após fazer um transplante de útero. Gerda tinha 44 anos durante os eventos retratados no filme e morreu aos 54 anos vítima de um ataque cardíaco.

The Danish Girl inspirou mais pesquisas sobre o período retratado, assim como uma exposição das obras de Gerda que retratam Lili que será feita em Copenhage.

Dois atores transgêneros fazem duas super pontas neste filme. A atriz Rebecca Root interpreta a uma das enfermeiras de Lili e Jake Graf, um homem transgênero, faz uma ponta ao lado de Matthias Schoenaerts na galeria de arte em que estão sendo expostas as obras de Gerda.

No dia 23 de novembro a Casa Branca promoveu o evento Champions of Change em que foram homenageadas as pessoas por trás de The Danish Girl, Tangerine e da série Transparent.

Os quadros mostrados no filme são uma adaptação da obra de Gerda feitas pelo designer de produção Eve Stewart e pela artista britânica Susannah Brough. Não foram utilizada réplicas do trabalho de Gerda porque eles quiseram fazer quadros que parecessem com Redmayne e com Amber Heard.

Muitos estranharam (como eu) que Alicia Vikander foi nomeada como Melhor Atriz Coadjuvante. Isso porque ela acaba aparecendo mais até que Eddie Redmayne no filme. Mas há uma razão para isso: os produtores de The Danish Girl quiseram que ela fosse indicada a Melhor Atriz Coadjuvante porque acharam que ela teria mais chances de ganhar o Oscar. A atriz acabou não comentando esta polêmica.

O nome pós-transição adotado por Einar foi o de Ilse Elvenes. Quem deu o nome de Lili Elbe para ele foi a jornalista de Copenhagen Louise Lassen. Esta é uma de várias imprecisões da história de Einar.

No livro e na primeira versão do roteiro deste filme a personagem de Amber Heard era uma cantora de ópera chamada Anna Fonsmark. Mas no final, para o filme, a personagem passou a ser a bailarina Ulla Paulson. O personagem é inspirado em duas amigas de Einar: a atriz dinamarquesa Anna Larssen Bjorner e a bailarina do mesmo país Ulla Poulsen Skou.

Outra fantasia que não tem a ver com a história real. Lili e Gerda se mudaram para Paris em 1912 – detalhe que o filme começa em 1926. Paris foi uma cidade bastante liberal nos anos 1910 e 1920 e, justamente por isso, as duas se mudaram para lá. Na capital francesa Gerda vivia abertamente como lésbica. Por isso mesmo a cena em que Einar é espancado por dois homens em Paris não teria acontecido realmente.

Um fato interessante que foi deixado fora do roteiro do filme – assim como o transplante de útero que matou Lili e que foi a quinta cirurgia dela: o terceiro médico que ela consultou a diagnosticou como intersexual e afirmou que ela teria órgãos sexuais femininos rudimentares. As análises hormonais feitas pouco antes da primeira cirurgia dela indicaram que ela tinha mais hormônios femininos que masculinos no corpo – o que sugere que ela tivesse o cromossomo XXY, da Síndrome de Klinefelter, algo que seria reconhecido pela Medicina apenas a partir de 1942.

Esta é uma coprodução do Reino Unido com os Estados Unidos, a Bélgica, a Dinamarca e a Alemanha.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,8 para esta produção. Provavelmente uma das menores notas entre os filmes indicados ao Oscar 2016. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 118 críticas positivas e 47 negativas para a produção, o que lhe garantiu uma aprovação de 72% e uma nota média de 6,6. Também uma das avaliações mais baixas entre os filmes bem cotados nesta sequência de premiações em Hollywood.

CONCLUSÃO: Uma grande, imensa história de amor, e um filme que fala sobre a coragem de alguém que resolve assumir a sua própria identidade, mesmo que ela afronte o que a sociedade considere natural. The Danish Girl é um filme corajoso e duro, mas importante. Ele questiona a nossa própria capacidade de entender o que é diferente. Não é exatamente fácil assisti-lo. Mas isso pouco importa. Com grandes atuações e uma direção sensível e cuidadosa, é um belo filme na aparência e na mensagem.  E as premiações que deram destaque para ele até agora, como o Oscar, estão de parabéns por colocar um título tão diferente em evidência. Importante.

PALPITES PARA O OSCAR 2016: The Danish Girl está concorrendo em quatro categorias da premiação máxima da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood: Melhor Ator (Eddie Redmayne), Melhor Atriz Coadjuvante (Alicia Vikander), Melhor Design de Produção e Melhor Figurino.

A melhor chance do filme, me parece, está na categoria Melhor Atriz Coadjuvante. Alicia Vikander enfrenta Kate Winslet, que já foi premiada por Steve Jobs, e Rooney Mara, que está espetacular também em Carol (comentado aqui). Francamente, se eu votasse no Oscar, eu ficaria em dúvida entre Vikander e Mara. São interpretações com tonalidades muito diferentes, mas acha que as duas estão impecáveis. Não assisti ainda a Winslet. Preciso ver Steve Jobs para opinar definitivamente sobre esta categoria.

O ator Eddie Redmayne está ótimo, mais uma vez, nesta produção, mas ele tem um páreo duríssimo ao concorrer com Leonardo DiCaprio. O favorito é o protagonista de The Revenant (com crítica neste link). Redmayne só leva a estatueta para casa se a Academia demonstrar, mais uma vez, que tem bronca com DiCaprio.

Agora, as duas indicações técnicas do filme. Na categoria Melhor Figurino The Danish Girl tem uma parada dura. Para mim, o favorito nesta categoria é Mad Max: Fury Road (comentado aqui), seguido de Cinderella e de Carol. Como não assisti a Cinderella, pessoalmente o meu voto iria para Carol, mas acho que Mad Max: Fury Road pode faturar. The Danish Girl corre um pouco por fora.

A categoria Melhor Design de Produção também está bem concorrida. The Danish Girl e Bridge of Spies concorrem por fora, com a decisão nesta categoria tendo Mad Max: Fury Road, The Revenant e The Martian (com crítica aqui) como as produções que estão se digladiando pela estatueta. Pessoalmente, eu ficaria dividida entre Mad Max e The Martian. Ou seja, The Danish Girl tem sérias chances de não levar nenhuma estatueta para casa. As melhores chances, se for levar algo, estão nas categorias dos atores. Veremos.