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Loving Vincent – Com Amor, Van Gogh

A cada novo frame, uma obra de arte. Sem exageros. Loving Vincent é uma obra estonteante, um verdadeiro deleite para quem já se pegou passando um longo tempo contemplando uma obra de arte. E se você é fã de Van Gogh, então… aposto que você vai ficar sem palavras com este filme. Honestamente, acho que este é um dos filmes mais bonitos que eu já assisti na vida. A história é envolvente, interessante, o filme têm dinâmica e movimento, apesar de ser todo feito a partir de um trabalho totalmente artesanal. Uma bela, belíssima homenagem ao artista que foi incompreendido no seu tempo e valorizado apenas após a sua morte.

A HISTÓRIA: Começa nos informando que o filme que vamos assistir foi totalmente pintado à mão por uma equipe de mais de 100 artistas. Em uma notícia ampliada de jornal, sabemos que em Auvers-Sur-Oise, no domingo dia 17 de julho, Van Gogh, com 37 anos, pintor holandês que estava com “estadia” em Auvers, atirou em si mesmo com um revólver nos campos, mas que ele acabou retornando para o quarto em que estava hospedado, onde morreu dois dias depois. Depois desta notícia, o filme informa que a história de Loving Vincent começa um ano após a morte de Vincent Van Gogh. A “jornada” começa em Aarles, no ano de 1891.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Loving Vincent): Este é um filme que preferencialmente, você deve assisti-lo em um cinema. Afinal, para curtir toda a beleza e o trabalho magnífico dos artistas envolvidos neste filme, só mesmo em frente a uma tela grande. Algo similar com ver uma obra de arte em um livro e/ou na tela do computador ou pessoalmente. A diferença entre as nossas leituras e impressões é gigantesca.

Eu não sou uma grande conhecedora da vida e da obra de Vincent Van Gogh. Eu já vi a algumas de suas obras pessoalmente, em museus de mais de uma latitude, mas eu sei o que quase todo mundo sabe sobre a vida dele. Antes de assistir a este filme, por exemplo, eu sabia sim que ele não tinha sido uma pessoa exatamente feliz em vida, que ele tinha alguns problemas psicológicos – a ponto de cortar a própria orelha em um dia de desespero. E era isso que eu sabia sobre a vida dele.

Sobre a obra… esta eu posso dizer que eu conhecia um pouco mais. Tinha visto a alguns de seus quadros pessoalmente e a vários outros em coleções e livros de arte que eu li há vários anos. A obra dele é realmente algo impressionante. E isso é o que me marcou logo nos primeiros segundos deste filme. Como a equipe dirigida por Dorota Kobiela e Hugh Welchman, responsáveis pelo roteiro desta produção junto com Jacek Dehnel, conseguiram reproduzir com tanto esmero e talento a obra do mestre que eles estão homenageando.

Realmente o trabalho é incrível. Cada frame que vemos em cena, especialmente do “tempo presente” da narrativa, é algo impressionante. Obras de arte que tem os traços e as cores das obras de Van Gogh. Como vários outros filmes com atores reais que são dirigidos em longas que não são de animação, em Loving Vincent o passado é narrado em preto e branco. Um recurso bem conhecido do público para diferenciar dois momentos narrativos diferentes.

Então este é outro ponto marcante nesta produção. Como cada tempo narrativo tem uma técnica diferente de pintura desenho e de arte. Muito interessante como os estilos, tão diferentes, acabam se complementando. Honestamente, achei o trabalho técnico e artístico deste filme impecável. Os realizadores não apenas resgatam a história de Van Gogh, mas o homenageiam de forma espetacular ao reproduzir algumas de suas telas na nossa frente. E o que não foi pintado pelo mestre holandês se inspira na obra dele para preencher os espaços entre uma obra e outra de Van Gogh que vemos em cena. Um trabalho belíssimo.

Imagino que quem conhece com profundidade a vida de Van Gogh, não tenha se surpreendido tanto com esta história quanto eu. Possivelmente esta pessoa que tem mais conhecimento tenha também achado um e outro defeito da história que está sendo contada. Da minha parte, de quem não é uma especialista em Van Gogh, achei o roteiro de Kobiela, Welchman e Dehnel muito bem construído. A história segue uma linha um tanto “clássica”, intercalando o momento presente da narrativa e o passado que tenta explicar o que teria provocado a morte prematura do pintor holandês.

O protagonista desta produção, o jovem Armand Roulin (com voz de Douglas Booth), que foi retratado por Van Gogh e que era filho do carteiro que atendeu o artista por muitos anos, faz as vezes em Loving Vincent de um investigador. Enviado pelo pai, Joseph Roulin (Chris O’Dowd), para encontrar a última carta escrita por Van Gogh, Armand acaba indo atrás, primeiro, do irmão do pintor holandês, Theo van Gogh (Cezary Lukaszewicz). Afinal, ele era o destinatário da carta e parecia a pessoa certa a receber esta última correspondência.

Em Paris, Armand descobre que Theo não morreu muito depois do irmão. E a esposa e filhos dele já não estão morando mais ali. Então ele decide ir para Auvers, onde Van Gogh morreu, para tentar encontrar algumas respostas sobre o que aconteceu com o amigo de seu pai. Inicialmente, Armand tinha pouco interesse em realmente saber o que tinha acontecido com Van Gogh, até porque ele acreditava na versão oficial de que o pintor tinha se matado. Mas a certeza do pai dele de que isso não teria acontecido com o amigo Van Gogh, que estaria melhor de uma depressão, fazem com que Armand acabe investigando as relações e os últimos dias de Van Gogh.

No fim das contas, Armand acredita que se ele entregar a carta de Van Gogh para o Doutor Gachet (Jerome Flynn), ele poderá dar o destino correto para a correspondência. É desta forma que ele conhece algumas pessoas interessantes e que foram retratadas por Van Gogh em suas obras. O roteiro de Loving Vincent equilibra, desta forma, esta espécie de “investigação” sobre a morte de Van Gogh, o que imprime um pouco de suspense para o roteiro do filme, com um resgate de fatos da vida do artista que aparecem como pinceladas volta e meia na história.

Assim, sabemos um pouco sobre a infância dele, da relação conturbada com os pais, sobre a dependência e a proximidade de Vincent com o irmão Theo, assim como sabemos sobre as alegrias e os muitos desafios e fontes de tristeza que o artista teve na sua vida. Fica evidente, com este filme, que Van Gogh foi incompreendido em seu tempo. Ele não teve apoio de ninguém além do irmão, e não teve sucesso com a sua arte enquanto vivo. Também sabemos sobre o quanto ele escrevia – muito! – para o irmão e sobre como ele era admirado pelas pessoas que o conheceram mais de perto. Afinal, ele era um sujeito calmo, atencioso, educado, e que vivia por sua arte.

Uma história interessante por si mesma, pois, e que foi muito bem explorada por esta produção. Claro que a vida de um artista como Van Gogh não pode ser resumida em 1h34 de filme, como é a duração desta produção, mas a homenagem que os realizadores fizeram para o artista aqui é impressionante e maravilhosa. Me apaixonei por esta produção. Achei uma grande experiência de cinema. Dos melhores filmes que eu já vi do gênero. Por isso, recomendo a todos que assistam a Loving Vincent. Especialmente nos cinemas.

Além de todos os fatos que eu citei anteriormente e de todas as qualidades relacionadas, também pela história inspiradora de Vincent Van Gogh. Ele viveu em outro tempo e em outros locais do que a gente, mas algo que podemos aprender com a sua história é que quando nos dedicamos a um talento com o qual nascemos, maravilhas surgem do nosso trabalho. Mas que para chegarmos a um trabalho excepcional, precisamos sacrificar outras partes da nossa vida e realmente trabalhar muito. Van Gogh era um apaixonado pela arte e uma pessoa muito atenta e admiradora de tudo que o cercava. Características que deveriam nos inspirar e nos fazer pensar sobre como gastamos o nosso tempo, não é mesmo? Belo filme.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Gostei dos poucos momentos em que este filme citou trechos de cartas e, consequentemente, do pensamento de Vincent Van Gogh. Claro que o filme, com a duração que ele tem, já deu muitíssimo trabalho para os realizadores, mas eu não teria achado ruim mais 10 ou 15 minutos de filme e a citação de mais trechos de cartas de Van Gogh. Algo que esta produção desperta é o nosso interesse por saber mais sobre o artista, a sua vida, o que ele pensava e como ele produzia as suas obras de arte.

Falando no pensamento de Van Gogh, uma das frases dele que são citadas, logo no início do filme e que serve como uma espécie de cartão-de-visitas da produção é esta aqui: “Só podemos falar através das nossas pinturas”. De fato, Van Gogh acreditava nisso. Como ele não tinha muitas relações pessoais e pensava e conversava através de sua arte, é que entendemos o porquê dele ser tão talentoso.

Todos os atores que “interpretam” os personagens deste filme, ou seja, que dão vozes para eles, estão muito bem. O destaque inevitável, claro, pela presença dele em tela e por conduzir a narrativa, é para o ator Douglas Booth, que interpreta a Armand Roulin. Mas outros personagens e atores que ganham destaque neste filme são Eleanor Tomlinson, que interpreta Adeline Ravoux, filha dos proprietários do hotel em que Van Gogh ficou hospedado e onde morreu; Saoirse Ronan como Marguerite Gachet, filha do Doutor Gachet e uma grande admiradora do talento de Van Gogh; Jerome Flynn como Doutor Gachet, uma figura muito próxima de Van Gogh na temporada próxima de sua morte; Robert Gulaczyk como Vincent Van Gogh; Cezary Lukaszewicz como Theo van Gogh; Robin Hodges como o Lieutenant Milliet; Chris O’Dowd como o carteiro Joseph Roulin; John Sessions como Pere Tanguy, dono de galeria que tentava comercializar as obras de Van Gogh em Paris; Helen McCrory como Louise Chevalier, empregada dos Gachet; Aidan Turner como o barqueiro que conviveu com Van Gogh e que é procurado por Armand; Bill Thomas como o Doutor Mazery, que deu outra interpretação para o tiro que Van Gogh levou; e Piotr Pamula em uma ponta como Paul Gaugin.

Além da direção e do roteiro, já comentados antes, o grande mérito desta produção ser tão bela e perfeita são os artistas – mais de 100, como foi comentado na introdução deste filme – envolvidos nas pinturas que compõem este filme. O trabalho deles é que faz Loving Vincent ser tão diferenciado. Então todos os louros para os 20 nomes relacionados no Departamento de Arte deste filme e para os 111 nomes que trabalharam no Departamento de Animação. Eles são os grandes responsáveis por este filme ser tão especial. Parabéns a todos os envolvidos, pois!

Da parte técnica do filme, também vale destacar o ótimo – e fundamental – trabalho dos diretores de fotografia Tristan Oliver e Lukasz Zal; o belo e pontual trabalho de Clint Mansell com a trilha sonora; a edição cuidadosa e precisa de Dorota Kobiela e de Justyna Wierszynska; o design de produção de Matthew Button, Maria Duffek e Andrzej Rafal Waltenberger – os dois últimos envolvidos nas fotografias dos atores em Wroclaw, trabalho esse que depois influenciaria nas pinturas dos artistas que fizeram esta produção; a direção de arte de Daniela Faggio; os figurinos de Dorota Roqueplo; o trabalho dos 17 profissionais envolvidos com o Departamento de Som – responsáveis, entre outros pontos, pela difícil sincronização das falas dos atores com o trabalho dos artistas envolvidos com as animações; e os 50 profissionais envolvidos com os Efeitos Visuais.

Loving Vincent estreou em junho de 2017 no Annecy International Animation Film Festival. Depois, esta produção participaria, ainda, de outros 25 festivais em várias partes do mundo. Nesta trajetória, Loving Vincent ganhou seis prêmios e foi indicado a outros 11. Entre os que recebeu, destaque para os prêmios de Melhor Filme segundo a escolha do público no Annecy International Animation Film Festival; para o de Melhor Animação Estrangeira/Trailer Familiar e para o Melhores Gráficos Estrangeiros em um Trailer no Golden Trailer Awards; para o prêmio de Melhor Filme de Animação no Festival Internacional de Cinema de Shanghai; e para o prêmio Produção Internacional Mais Popular no Festival Internacional de Cinema de Vancouver. Loving Vincent também figura no Top 10 da lista do National Board of Review de Filmes Independentes. Ele é a única animação da lista, vale dizer.

Agora, algumas curiosidades sobre esta produção. De acordo com o site IMDb, Loving Vincent é o primeiro longa de animação totalmente pintado que já foi realizado pelo cinema mundial. Baita, não?

Segundo os produtores, cada um dos 65 mil frames que vemos em cena, nesta produção, são quadros de pinturas a óleo sobre tela. A parte do filme colorida utiliza a mesma técnica utilizada por Van Gogh; técnica esta reproduzida por pouco mais de 100 artistas.

Durante uma “masterclass” no Klik Amsterdam Animation Festival, os diretores Dorota Kobiela e Hugh Welchman afirmaram que, se você olhar atentamente para cada cena desta produção, em uma delas você poderá notar uma mosca presa na pintura de um dos quadros. Quem se habilita a buscar a tal mosca? 😉

Loving Vincent foi totalmente rodado no Three Mills Studios, na cidade de Londres, no Reino Unidos.

Este filme é uma coprodução do Reino Unido com a Polônia.

Claro que existem muitos outros textos melhores e mais profundos sobre a vida de Vincent Van Gogh. Mas vale, para os que ficaram curiosos para saber um “resumo” sobre a trajetória do artista, dar uma olhada nos textos dos sites InfoEscola; History; UOL Educação; e Huffpost Brasil.

De acordo com o site Box Office Mojo, Loving Vincent teria feito quase US$ 5,8 milhões nos cinemas dos Estados Unidos. Para um filme independente e com a proposta desta produção, acho que não está nada mal. Mas o principal concorrente dele no Oscar 2018 está em primeiro lugar nas bilheterias dos Estados Unidos e conseguiu, até o momento, pouco mais de US$ 135,5 milhões apenas nos Estados Unidos. Ou seja, uma comparação realmente brutal – e não fica difícil presumir para onde “pende” o pêndulo da indústria de Hollywood, não é mesmo?

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,9 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 94 críticas positivas e 21 negativas para este filme – o que garante para Loving Vincent uma aprovação de 82% e uma nota média 7. Pelos prêmios que eu citei antes, já dá para perceber que este filme agradou mais ao público do que aos críticos, não é mesmo?

Procurando saber um pouco mais sobre os realizadores deste filme, achei interessante saber – e comentar com vocês – que Loving Vincent marca a estreia na direção do produtor Hugh Welchman. Por outro lado, este filme é o quarto trabalho na direção de Dorota Kobiela. Ela estreou na direção com o longa The Flying Machine, em 2011, e, depois, dirigiu a dois curtas antes de fazer com Welchman o filme Loving Vincent.

Ah sim, e você, como eu, deve ter se perguntado como os artistas trabalharam cada frame que vemos em cena, não é mesmo? Pesquisando sobre o filme e vendo fotos de bastidores, percebi que os diretores filmaram as cenas com os atores e que depois cada um daqueles 111 envolvidos com o trabalho do Departamento de Animação produziram as telas que reproduziram a ação em quadros que são verdadeiras obras de arte. Bem bacana!

CONCLUSÃO: Para quem é um profundo conhecedor da vida e da obra de Van Gogh, possivelmente a leitura deste filme será diferente da minha. Como eu não me enquadro neste perfil, me considero apenas uma pessoa com conhecido médio sobre o artista, achei Loving Vincent simplesmente divino. É um prazer passar pouco mais de uma hora e meia no cinema, frente a uma grande tela que desfila obras de arte a cada novo frame, como comentei lá na introdução deste texto.

Como animação, este filme é um dos melhores que eu já vi na vida. Enquanto história criada para o cinema, este filme cumpre bem o seu propósito, resgatando parte da vida, da obra e do pensamento do artista. Para mim, um trabalho irretocável. Merece ser visto com tempo e, quem sabe, até revisto. Este é um dos raros casos de peça de cinema que não cansa pela experiência prazerosa de cada cena. Não perca!

PALPITES PARA O OSCAR 2018: Loving Vincent é um dos 26 filmes de animação que a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood informou que está concorrendo a uma vaga na disputa de Melhor Filme de Animação no próximo Oscar. Este filme a exemplo do que aconteceu em outros anos, foge do padrão “hollywoodiano” de filmes de animação. Especialmente pelo fato desta produção ser artística e mais “adulta”, diferente das produções que costumam ganhar o prêmio e que são feitas pela Disney ou pelo estúdio Pixar.

Francamente, este é o primeiro filme da lista de 26 que eu assisto. E mesmo sem poder compará-lo com os demais ainda, digo com toda a certeza que ele não deveria ficar fora da disputa do Oscar 2018 em sua categoria. Esta produção é brilhante, belíssima, muito bem narrada e com uma beleza ímpar. Como e disse antes, um dos melhores filmes que eu já vi do gênero. Então, apesar de não ter o lobby dos grandes estúdios, Loving Vincent deveria sim estar entre os cinco finalistas desta categoria.

Agora, ele tem chances de ganhar o Oscar? O franco favorito, pelo que eu tenho lido, é o sucesso de público e de crítica Coco. Existem outros filmes que estariam na “dianteira” desta disputa, como The Breadwinner, Ferdinand e Birdboy: The Forgotten Children, além de outras produções que estariam correndo um pouco por fora mas com chances de chegar a uma das cinco indicações, como os filmes da grife The Lego Movie e The Boss Baby.

Para realmente opinar sobre esta categoria, eu preciso ver a outros concorrentes. Mas analisando apenas Loving Vincent, o meu foto seria, inicialmente, para ele. Seria muito injusto este filme não figurar entre os cinco finalistas ao Oscar. O grande desafio desta produção será vencer o grande lobby do filme Coco, uma coprodução das gigantes Disney e Pixar. Me parece que Coco leva vantagem, mas seria bacana ver a “zebra” Loving Vincent ganhar esta disputa.

ATUALIZAÇÃO (11/12): Hoje, dia 11 de dezembro, saiu a lista dos filmes indicados ao Globo de Ouro. Loving Vincent foi indicado na categoria Melhor Filme de Animação. Como esperado, o principal concorrente dele será Coco. Esperamos que este filme também consiga a sua vaga no Oscar. Eu estou na torcida desde já! 😉

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Noah 3D – Noé 3D

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Um dos mitos mais fascinantes da Bíblia se tornou o mais novo projeto de um dos meus diretores preferidos. Como não assistir a Noah? Mesmo não querendo saber muito sobre o filme antes de buscá-lo em uma sala 3D, li uma e outra chamada de críticos detonando a performance de Russell Crowe. Mas me arrisquei mesmo assim, porque sempre gostei do trabalho de Darren Aronofsky. E não me enganei. Noah é um filme bem conduzido e que tem momentos verdadeiramente impactantes. É destas experiências gratificantes em uma sala 3D. O que mais você pode querer?

A HISTÓRIA: No início, não havia nada. Mas daí tudo foi criado, até chegarmos a Adão e Eva. Com eles, surgiu o pecado. A partir dos filhos do casal surgiu também o primeiro assassinato, quando Caim matou Abel. Seres iluminados tentaram ajudar os homens, mas por traírem a vontade divina, eles acabaram sendo aprisionados na Terra, ficando conhecidos como os Guardiões. A linhagem de Methuselah (Anthony Hopkins) prossegue até Noah (Dakota Goyo quando criança, Russell Crowe na fase adulta). Após ouvir a história anterior do pai, Noah vê ele ser assassinado. Adulto, tenta passar para os filhos Shem (Douglas Booth), Ham (Logan Lerman) e Japheth (Leo McHugh Carroll) os princípios dos antepassados, especialmente o amor à Deus e à sua criação. Mas tudo muda na vida da família quando Noah começa a ter visões sobre o fim do mundo como eles o conheciam.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Noah): Até prevejo os dois estilos de comentários que este post vai render. O primeiro, de pessoas que sempre estão mais interessadas na experiência que o cinema pode proporcionar, independente da fonte de inspiração para o cineasta e sua equipe. O segundo, de pessoas que estão mais interessadas na origem do filme do que no produto cinema.

Isso aconteceu antes e deve se repetir sempre, e especialmente, quando a fonte da história contada no cinema for a Bíblia. The Book of Eli (com crítica por aqui) é um dos comentários sobre filmes que eu fiz que mais rendeu “marola” no site. E nem tanto porque as pessoas discordavam ou concordavam com a minha análise do filme, mas especialmente porque queriam falar sobre as suas próprias crenças. Então, caro/a leitor/a, se você faz parte do segundo grupo, por favor, tente entender que este é um blog que fala sobre cinema e não sobre religião. Por isso mesmo, não vou discutir por aqui o teu ou o meu credo.

Feito este “preâmbulo” para a crítica, vamos ao que interessa. Noah em sua versão 3D. Sim, porque este filme, a exemplo de Gravity (comentado aqui) e Avatar (com crítica neste link), merece ser visto na versão da tecnologia na qual ele foi planejado desde o princípio. Noah tem cenas verdadeiramente impactantes, uma ótima direção de fotografia de Matthew Libatique e sequências cheias de efeitos especiais que tem uma dinâmica diferente nas salas 3D.

Dito isso, vamos voltar ao que eu comentei lá no início. Ao mesmo tempo que eu achei surpreendente a escolha do diretor Darren Aronofsky em explorar uma história bíblica, devo admitir que a ideia foi um verdadeiro achado. Afinal, a história de Noé nunca tinha sido explorada com toda a tecnologia que o cinema atual propicia. E este mito da Bíblia, além de ser um dos melhores em termos de impacto visual, também revela-se muito forte na mensagem que ele quer passar.

Importante dizer e repetir que a história de Noé é um mito bíblico porque, evidentemente, ela não aconteceu. Pelo menos não da forma literal que muitos insistem em acreditar – mas que a própria Igreja afirma que não foi bem assim. O importante da história de qualquer mito é o que ela quer nos dizer. E neste sentido, Noah, o filme, cumpre bem o seu papel.

Primeiro de tudo, Aronofsky soube, mais uma vez, conduzir bem uma história. Sabendo equilibrar momentos de introspecção e de narrativa mais lenta com aqueles de pura ação e adrenalina. Há um bocado de ação em Noah, mas também várias sequências que fazem as pessoas se emocionarem, exercerem a empatia e pensarem sobre o que está sendo dito/mostrado.

A essência da história é que após um longo período de decepção com a raça humana, Deus decide acabar com o último elo de sua Criação. Após o “pecado original” de Adão e Eva, parte da humanidade teria caído em disputas motivadas pela busca pelo poder e pela cobiça. Apenas os descendentes de Methuselah (na tradução, Matusalém) seguiram o caminho do bem. Mas nem eles são poupados, como o início do filme mostra quando o pai de Noé é morto na frente do filho, que foge.

O principal da criação que Noé passa para os filhos, o mais velho Shem, o segundo Ham e o mais novo, Japheth, é o respeito a cada pedaço da criação de Deus. Assim, ele ensina para Ham que ele não deve arrancar uma flor do chão apenas porque ela é bonita, já que ela tem um propósito na Natureza e não deve ser retirada se não for por necessidade. No momento em que Noé ensina este princípio para o filho, ele tem a primeira visão. Outras virão. Cada uma delas é o ponto alto do filme em termos de uso de efeitos especiais e simbolismo.

O dilúvio vislumbrado por Noé é encarado como a redenção para a Humanidade, que havia se perdido após o pecado original. O primeiro problema desta produção, para o meu gosto, é quando surgem os Guardiões. Bem mal-feitos, eles ficam no meio do caminho entre seres dantescos e o que eles deveriam ser: seres de luz aprisionados em pedras e lama. Em certo momento do filme, no momento de maior ação de Noah, quando se dá o embate pouco antes do caos, pela primeira vez os Guardiões se revelam interessantes – é quando, finalmente, eles se libertam e são salvos.

Mesmo que a imagem dos Guardiões deixe a desejar, a história deles convence e se revela interessante – seres de luz que tentam ajudar a Humanidade e que acabam punidos por Deus por causa disso. Quando sonha com a destruição do mundo, Noé também vê o monte de origem de seu ancestral, Methuselah. E é assim que ele e a família procuram pelo ancião, esbarram com os Guardiões e recebem do velho patriarca a semente que dará início ao oásis que servirá de matéria-prima para a arca gigantesca da qual todos já ouviram falar.

Interessante a saída encontrada por Aronofsky, que escreve o roteiro junto com Ari Handel, para a equação quase impossível de encher uma arca, por maior que ela seja, com um casal de cada bicho vivo sobre a Terra. Noé e família usam uma espécie de sonífero para fazer todos os animais “hibernarem”. Desta forma, todos são acomodados dentro da arca para uma viagem que ninguém sabe quando terá fim. Evidentemente que na prática aquela imagem seria impossível, mas o que importa é a mensagem de Noah.

E qual seria essa mensagem? Desde o pecado original, quando Adão e Eva desobedeceram a Deus e comeram a fruta da árvore proibida (que não apenas simboliza o pecado, porque representa a desobediência a Deus, mas também o desejo do homem e da mulher em possuir tudo, sua ganância, ambição e arrogância), passando pela morte de Abel pelas mãos de seu irmão, Caim – primogênito de Adão e Eva -, a Humanidade apenas caminhou ladeira abaixo.

Após o primeiro assassinato narrado pela Bíblica – o de Abel pelas mãos de Caim -, homens e mulheres teriam criado guerras e surgido diferentes pecados e crimes motivados pela cobiça, pela arrogância e pelo desejo de muitas pessoas em dominar a Terra sobre todas as outras criaturas. Muito bem, a história de Noé surge para mostrar como havia gente ainda fiel à Deus. Não apenas a família do protagonista é devota, mas ela simboliza quem ainda seguia a vontade de Deus e não a sua própria vontade.

Pois bem, quando Deus decide acabar com a Humanidade, por não acreditar mais em uma “salvação” para as pessoas que estavam perdidas em si mesmas, Noé lidera a família nos preparativos para a arca que deveria salvar a todos os animais vivos na Terra. Mas mesmo a família de Noé tinha problemas, como uma certa rivalidade entre os irmãos Ham e Shem. O conflito fica pior quando Ham vê o irmão acompanhado – por Ila (Emma Thompson Watson), adotado por Noé e pela mulher Naameh (Jennifer Connelly) – e percebe que ficará sem companheira para o futuro de um mundo sem outras pessoas.

Noé está seguro sobre a vontade de Deus e entende que a Humanidade deve terminar. Afinal, Ila não poderia ter filhos – até que o avô de Noé interfere nesta realidade -, ele e a esposa também não. Assim, quando o filho mais novo do casal morresse, a Humanidade teria terminado. Naameh quer o melhor para os filhos e buscando a felicidade deles, interfere nesta realidade com a ajuda de Methusalah. E daí surge o questionamento fundamental do filme: Noé acredita que o mal está em todas as pessoas, e que mesmo quem se diz do bem é capaz de matar para defender um filho.

Para o protagonista, é preciso vigiar a própria vontade e ser fiel à Deus. Desta forma, mesmo tendo o bem e o mal dentro de si, a pessoa vai trilhar o caminho do bem porque não cairá na tentação de fazer a própria vontade, mas de seguir o que o Criador deseja. Naameh é temente à Deus e concorda em seguir os passos do marido, mas não quer ver os filhos sofrerem e, por isso, segundo a visão de Noé, afronta a vontade divina.

Mas daí surge um ponderamento importante. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Se Deus deu ao homem o poder de escolher entre o bem e o mal, e se nada que ele não deseja acontece, como dizer que a gravidez de Ila não é vontade de Deus? Algumas vezes acreditamos que estamos lendo os sinais de Deus corretamente, mas talvez em muitas situações a nossa compreensão limitada seja falha. Noé sofre com a própria “fraqueza”, acreditando que ao poupar as netas ele estava confrontando Deus. Mas nada aconteceria se o Criador não tivesse concordado com a “mudança de planos”. Ele teve misericórdia com a própria criação e resolveu nos dar uma nova chance.

Esta são algumas das reflexões do filme. Independente da crença de cada um, acho que alguns dos pontos citados acima – capacidade de escolha, cada pessoa abrigar o bem e o mal, possibilidade de ser fiel a um desejo superior ou seguir apenas os próprios desejos – valem para qualquer pessoa refletir sobre si mesma e os demais. Além de que Noah aparece em um momento importante, no qual estamos destruindo um bocado dos recursos naturais do mundo e ponderando sobre o nosso egoísmo como civilização – sem contar o choque que temos cada vez que um ato de crueldade é praticado em histórias ordinárias ao nosso redor.

Não há dúvidas de que esta produção aparece em um momento em que muita gente está questionando não apenas o que estamos fazendo, enquanto coletivo, mas também sobre as escolhas que praticamos cotidianamente como indivíduos. Perceber que não estamos sozinhos no mundo e que os nossos atos afetam aos demais independe de religião. Neste ponto Noah cumpre o seu papel de fazer qualquer pessoa refletir. Sem contar que o filme mostra o seu valor como obra de cinema. Explora bem os recursos narrativos e, principalmente, a tecnologia de ponta disponível para este tipo de arte. Ou seja, um bom programa sob qualquer ótica.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Antes de mais nada, quero pedir desculpas pela ausência aqui no blog. Há duas semanas eu não publico nada, e este foi o tempo que me separa de ter assistido a Noah e de estar publicando este texto. Por esta razão, também não considero a crítica acima das melhores. Afinal, quanto mais demoro para falar de um filme que eu assisti, mais fácil para que eu perca detalhes de impressões que eu tive. Dito isso, acho que comentei a essência sobre o que achei desta produção por aqui – mas algo sempre se perde com este hiato de tempo. Tentarei evitá-lo nas próximas publicações.

Noah, como não poderia deixar de ser, é um filme carregado de valores. E de questionamentos. O primeiro valor explorado pela história e que me chamou a atenção foi o da retidão. Esta qualidade fica evidente na linhagem de Noah. A qualidade seguinte daquela família é o respeito extremo a tudo que é vivo – a tudo que é a criação de Deus. Nada deve ser usado ou destruído sem que isso seja extremamente necessário. Uma grande lição para os tempos atuais, quando as principais nações do mundo não conseguem nem mesmo o básico, que é reduzir o nível de poluição de seus países. Sem contar o restante dos problemas causados pelo consumismo e pelo exagero/desrespeito que as pessoas tem pelo que nos cerca.

Dos elementos técnicos do filme, destaque para a ótima direção de Darren Aronofsky. Não por acaso ele é um dos meus diretores favoritos de sua geração. Aronofsky soube conduzir muito bem a trama, com imagens verdadeiramente impressionantes em um filme que exigia cenas grandiloquentes e uma boa condução de atores. Merece aplausos também a impecável direção de fotografia de Matthew Libatique; a trilha forte e marcante de Clint Mansell e, principalmente, os efeitos especiais fantásticos da equipe liderada por Lindsay Boffoli. Para mim, o excelente trabalho de efeitos especiais se revela em todo o seu esplendor em dois momentos: primeiro, no sonho de Noé com a inundação; depois, com o “ressurgimento do Éden”, quando surge da semente dada por Methuselah a floresta que servirá de base para a arca.

Algo que achei interessante nesta produção é que ninguém no filme é visto acima de qualquer suspeita. Por exemplo: apesar do grande respeito que tem por tudo que foi criado por Deus, Noah não titubeia em matar agressores para proteger a própria família. O “não matarás” que está nos 10 mandamentos é desrespeitado, neste sentido. Em outro momento, o próprio Noah vai filosofar com a esposa de como todos carregam o bem e o mal dentro de si. Ele incluído, evidentemente.

Cada um vai tirar uma mensagem específica deste filme. (SPOILER – não leia se você não assistiu a Noah). Da minha parte, como católica, achei ótimo um dos meus diretores preferidos ter recontado um dos mitos mais significativos da Bíblia. Afinal, a história de Noé mostra o quanto vale a pena ser fiel à Deus. E o quanto isso é difícil no dia a dia. Afinal, há muitas tentações, diariamente, e recusar estas tentações, esmagando sempre que possível o orgulho, a soberba e a falsa ideia de que somos mais do que pó é difícil. Mas também recompensador. Além de tudo isso, essa história passa para mim a mensagem que, por mais que ele esteja decepcionado com a Humanidade muitas vezes, Deus é sempre perdão e amor. Isso é o que tiro desta história. Mas cada um vai tirar o que lhe parecer mais interessante.

Inicialmente eu achei os Guardiões toscos demais. Me assustei com o quanto eles foram “mal feitos”. Depois, claro, entendi a razão daquele aspecto tosco. Ainda assim, mesmo que justificados pela história, achei o aspecto daqueles Guardiões descuidado demais.

Interessante e ao mesmo tempo um pouco cômica a caracterização do grande Anthony Hopkins como Methuselah. Em certo momento do filme, quando ele está na floresta, o personagem me fez lembrar a figura do clássico desenho Caverna dos Dragão. 🙂

O elenco principal desta produção foi citado antes. Mas faltou comentar o bom trabalho de Ray Winstone como o vilão da história Tubal-cain. Descendente de Caim, ele resume a linhagem da soberba, da crença que o homem é superior ao Criador e que basta em si mesmo. O ator está bem em cada cena, resumindo bem a tentação de Ham e a presença do Mal. Dos atores principais, gostei do trabalho de Russell Crowe – acho que ele esteve firme no papel-chave, sem exagerar a mão na interpretação ou ser relapso com o papel como em produções recentes. Mas o destaque fica mesmo com Emma Watson. Ela rouba a cena como Ila.

Em certo momento, Noé diz que foi escolhido por Deus para proteger a Sua criação porque Ele sabia que Noé seria fiel e faria tudo o que lhe fosse pedido. De fato, dificilmente alguma outra pessoa conseguiria. Porque Noé não se importava de perder tudo e a todos, de que sua própria família desaparecesse da face da Terra se esta fosse a vontade de Deus. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Nós humanos, em geral, seguimos o nosso instinto da autopreservação. Mas isso não mostra a nossa fidelidade com Deus, apenas a nossa condição humana falha e a nossa fraqueza. Noé é diferente. Não apenas a mulher dele “fraqueja” e pensa na família em primeiro lugar, como também o filho “certinho” de Noé, Shem, acaba atacando o pai em momento decisivo. E, quem diria, é o “sempre tentado” e questionador Ham que impede a tragédia. Mais ensinamentos nestes exemplos. Finalmente, concordo com Ila… no fim das contas, nada daquilo teria acontecido se Deus não quisesse. E sim, a compaixão e o amor sempre vencem no final.

Fiquei curiosa para saber o que teria motivado o diretor Darren Aronofsky a filmar uma história da Bíblia. Encontrei alguns textos que ajudam a tirar esta dúvida. Nesta entrevista para o The Washington Post, Aronofsky explica como sendo um judeu do Brooklyn ele teve contato com a história de Noé muito jovem. Na sétima série, quando teve que escrever um texto sobre a paz, ele escreveu o poema The Dove sobre Noé.

O texto acabou levando ele para uma convenção da ONU e foi então que ele percebeu, pela primeira vez, que tinha o talento para contar histórias. Ou seja, Noé marcou a vida do diretor, que segue comentando que logo após fazer Pi (filme bem interessante e que recomendo para quem não assistiu ainda) ele pensou em Noé, mas que Hollywood não estava interessada em um projeto do tipo “filme bíblico”. Mas agora não, este perfil de filme está “em voga”, segundo o próprio Aronofsky. E foi aí que ele viu a oportunidade de resgatar aquela antiga ideia.

E sobre a essência de Noah, Aronofsky afirma que existe uma complexidade na história dele que não está necessariamente escrita na Bíblia, mas que é insinuada. Por exemplo, no fato de Noé ficar bêbado e se desentender com Ham logo após o dilúvio. Para haver este rompimento, os personagens tinham que ter uma relação conflituosa antes, e essa linha foi o que Aronofsky quis explorar. Para o diretor, o relacionamento de Noah e Ham levou a ideia “de bom e ruim que temos dentro de todos nós, e a luta da justiça que ocorre em cada um de nós para tentar equilibrar justiça e misericórdia em nossas vidas”. Cada personagem do filme, segundo o diretor, lida com essa ideia de maldade e perdão. Outro ponto interessante é quando o diretor diz que o seu grande propósito é entreter as pessoas, procurando fazer filmes excitantes, divertidos, emocionais e com movimento, cheios de ação. Ele consegue.

A entrevista do diretor para o The Washington Post está muito boa. Mas quem quiser saber mais sobre as opiniões do diretor, há esta outra entrevista para o Huffington Post e esta outra para a The Independent.

Agora, uma curiosidade sobre a produção: antes de ser lançado, Noah rendeu um belo embate entre Aronofsky e o estúdio Paramount. Preocupado com a recepção que o filme poderia ter, o estúdio fez testes com audiências católicas com três edições diferentes daquela planejada pelo diretor. Aronofsky resistiu à ideia de ter o trabalho alterado e acabou vencendo no final, já que o corte pensado por ele é que chegou até os cinemas. O efeito, acredito, foi o mesmo que se a produção tivesse chegado com algum dos outros cortes: Noah foi proibido em diversos países (como Bahrein, Catar, Emirados Árabes Unidos e Egito) porque ele não seria fiel aos ensinamentos do Islã.

De acordo com os realizadores da produção, grande parte dos recursos dos efeitos especiais foi utilizada para recriar todos os animais vistos no filme. Não teriam sido utilizados bichos reais em nenhum momento da produção.

Noah estreou em première na Cidade do México no dia 10 de março. Três dias depois o filme teve première em Berlim e, no dia 17 de março, em Madrid. No Brasil o filme estreou no dia 3 de abril. Até o momento o filme não ganhou nenhum prêmio.

Por ser uma superprodução, Noah teria custado cerca de US$ 125 milhões. Segundo o site Box Office Mojo, até ontem, dia 23 de abril, Noah teria conseguido pouco menos de US$ 94,7 milhões nos Estados Unidos e outros US$ 207 milhões nos outros mercados. Na soma, acumulou pouco mais de US$ 301 milhões. Ou seja, está conseguindo pagar as contas e conseguir algum lucro.

Para quem gosta de saber sobre as locações dos filmes, Noah foi rodado em Hollywood, na Islândia, no México, em Nova York e em Washington.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,5 para Noah. Acho que a avaliação poderia ser melhor, mas dá para entender porque o filme levantou muitas controvérsias – como a maioria das produções bíblicas que não são “extremistas”. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 157 críticas positivas e 47 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 77% e uma nota média de 6,6.

Esta é uma produção 100% dos Estados Unidos. Por isso ela entra na lista de filmes da categoria “Votações no blog”, já que os leitores deste espaço escolheram os Estados Unidos para uma série de críticas por aqui.

CONCLUSÃO: Quem leva tudo muito à sério não pode assistir a Noah. Por uma razão muito simples: esta é uma obra artística e não um libelo fundamentalista. Digo isso porque quem está buscando neste filme a história ipsis litteris do mito de Noé que está na Bíblia já começou perdendo a viagem. A produção dirigida por Aronofsky não tem a pretensão de levar a história bíblica a sério demais. Ainda bem. O resultado das escolhas do diretor é que assistimos a um filme potente pela forma e pelo conteúdo. Na forma, ótimos efeitos especiais e um bom trabalho dos atores. No conteúdo, o essencial da mensagem do mito de Noé e várias reflexões para adaptarmos para os dias atuais. Um filme inspirador, como tudo que o diretor apresentou até hoje. Se você não é um fundamentalista, tem grandes chances de apreciar mais esta obra interessante em 3D.