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Sully – Sully: O Herói do Rio Hudson

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Não é fácil assistir a Sully depois do que aconteceu com o voo da Chapecoense. Talvez outras culturas ou nacionalidades não tenham esse problema, mas para nós, que vivemos tudo de perto, tem outro impacto ver as cenas deste filme. Bem produzido e com uma direção impecável do mestre Clint Eastwood, Sully tem um Tom Hanks em grande forma, mais uma vez vivendo um “homem comum” em uma situação extraordinária. Construído com esmero, Sully faz o espectador se emocionar sem apelar para o sentimentalismo. É um filme honesto.

A HISTÓRIA: Começa com o áudio de uma conversa entre o piloto Sully (Tom Hanks) e os operadores do aeroporto La Guardia. Sully diz que eles estão sem os dois motores e que precisam de um pouso de emergência. Com 155 passageiros e tripulantes, o avião se choca contra prédios de Nova York. Este é um pesadelo. Sully acorda ofegante.

No dia seguinte, ele corre às margens do Rio Hudson e, distraído, quase é atropelado. Depois de tomar um bom banho, ele assiste às notícias sobre o pouso que fez no Rio Hudson. Em seguida, ele vai para uma audiência do NTSB (National Transportation Safety Board) que investiga o que aconteceu com o avião e as razões que fizeram Sully decidir fazer um pouso forçado no rio e não voltar para um dos dois aeroportos que estavam disponíveis.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Sully): Como eu comentei lá no início, não é fácil assistir ao pedido de socorro do comandante do voo 1549 da US Airways e não pensar no desespero do que aconteceu com o voo da Chapecoense. E não apenas isso, mas nos faz pensar também que tudo poderia ter acabado de uma forma totalmente diferente.

Diferente do exemplo de Sully, que tinha 42 anos de experiência e teve um controle impressionante no pouso forçado no Rio Hudson, o piloto da LaMia acabou fazendo escolhas erradas e não encontrou nenhuma rota para salvar a maior parte dos tripulantes e passageiros de seu voo.

Como catarinense, não consegui me desprender totalmente deste fato “fora do filme” quando assisti a Sully. Consegui me colocar mais no lugar dos envolvidos do que se não tivesse passado pela experiência de acompanhar de perto a cobertura sobre o acidente com o time da Chapecoense. Isso semanas depois de tudo ter acontecido. Por isso mesmo foi acertadíssima a decisão da distribuidora de Sully de adiar um pouco a sua estreia – originalmente o filme estrearia na mesma semana em que o acidente da Chapecoense aconteceu.

Uma característica fundamental deste filme é mergulhar no personagem-título. O roteiro de Todd Komarnicki, baseado no livro escrito por Chesley “Sully” Sullenberger e Jeffrey Zaslow, mostra a história sempre sob a perspectiva do protagonista. A produção magistralmente dirigida pelo mestre Clint Eastwood começa com o pós-grande evento, ou seja, com Sully acordando após um de seus vários pesadelos depois dele ter conseguido um pouso praticamente impossível no Rio Hudson.

A partir deste momento, o filme é praticamente todo linear, mostrando as reações e o dia a dia de Sully e do copiloto Jeff Skiles (Aaron Eckhart) durante as investigações sobre o voo feitas pelos especialistas do NTSB (National Transportation Safety Board), uma organização independente nos Estados Unidos responsável pelas investigações sobre acidentes aéreos.

Desde o início o grupo formado por Charles Porter (Mike O’Malley), Ben Edwards (Jamey Sheridan) e Elizabeth Davis (Anna Gunn) questionam as decisões tomadas na cabine de comando do avião. Diferente do que Sully havia afirmado, eles dizem que um dos motores estava funcionando, ainda que em marcha lenta, e que todos os cálculos dos engenheiros aeronáuticos mostravam que Sully e Skiles poderiam ter voado até um dos dois aeroportos disponíveis e que já tinham sido avisados para um pouso de emergência.

Inicialmente você poderia imaginar que um filme sobre uma investigação de um acidente de avião poderia ser chato, maçante, mas não é isso que vemos em Sully. A tensão entre os investigadores e os pilotos é evidente, mas mais que isso, o filme de Clint Eastwood nos mostra todas as informações conflitantes que circundam a vida dos protagonistas.

Enquanto dentro de uma sala eles são questionados pelo grupo do NTSB e parecem cada vez mais equivocados em suas decisões, nas ruas, bares e na casa das pessoas eles são considerados heróis por terem salvado todas as pessoas que estavam naquele avião. A imprensa ajuda nesta construção do heroísmo, mas como sempre acontece, há algumas vozes dissonantes na imprensa também e que começam a questionar as decisões do comandante.

Todos os atores estão perfeitos em seus papéis. De forma inteligente, o roteirista e o diretor sabem explorar bem o dia a dia de Sully, em especial. Vemos os efeitos de angústia, pesadelos e a solidão que surge após o acidente e durante o isolamento pelo qual ele e Skiles passam durante as investigações sobre o acidente. As conversas de Sully com a mulher Lorraine (Laura Linney) ajudam a tornar o personagem humano, mais completo. Ele tinha uma família, contas para pagar e estava preocupado com a iminência de ser culpado por parte do acidente e, com isso, ter a carreira terminada antes do tempo – e sem direito à aposentadoria.

O filme só abandona a narrativa linear nos momentos em que apresenta em pinceladas um pouco a carreira de Sully, há 42 anos atuando como piloto de diferentes tipos de avião, e quando retorna a história em mais de uma dimensão para mostrar os momentos que antecederam o embarque e o curto voo da aeronave da US Airways pilotada por Sully.

A direção de Eastwood especialmente nestes momentos de retrocesso na narrativa é muito precisa, sem sobras, sem desperdícios. Toda a sequência do acidente e do que acontece após o pouso forçado são de tirar o chapéu. Ajuda muito também na narrativa a escolha do elenco, que tem grandes nomes além de Tom Hanks.

Por todo esse conjunto da obra, e muito pelo talento de Hanks, o espectador não tem dificuldade de se colocar no lugar das pessoas. Especialmente de Sully. Hanks consegue, mais uma vez, uma grande empatia no papel do “sujeito comum” que é colocado em uma situação extraordinária.

Algo interessante que Sully levanta é sobre as diferentes versões sobre o mesmo fato e de como uma mesma situação pode levantar diferentes interpretações. Por pouco Sully não foi responsabilizado por uma decisão que parecia equivocada. Isso teria significado o fim de uma carreira de muita dedicação e de talento puro – do contrário, ele não teria conseguido êxito em um pouso tão difícil e raro.

A postura de Sully é um elemento fundamental e que nos dá muitas lições. Para começar, ele não contou com a sorte. Ele tinha 42 anos de experiência e soube ser muito profissional no momento em que passou por uma situação de emergência. Ele se manteve calmo e gastou o tempo necessário para fazer a adequada leitura do cenário que tinha pela frente e tomar a decisão mais acertada para aquela situação. Também teve grande controle e precisão no momento do pouso na água.

Mas mais que a dedicação constante para tornar-se cada vez melhor naquilo que ele fazia, Sully teve uma postura exemplar de humildade. Tanto é verdade que, apesar de ter certeza de que ele tinha feito o que era preciso naquela situação, ele chegou a começar a duvidar de si mesmo conforme o comitê do NTSB apresentavam as suas argumentações.

Depois, quando Sully percebe um elemento fundamental que eles não estavam levando em conta, ele não bate no peito e se vangloria como o herói que grande parte da sociedade está o classificando. Ele diz que conseguiu o êxito em uma situação que pode ser considerada milagrosa por causa do bom desempenho de toda a tripulação e dos passageiros que estavam no voo. Divide o mérito com todos eles. E a verdade é que ele tem razão ao fazer isso. Cada uma das pessoas que estavam naquela avião teve uma parte de responsabilidade para tudo dar tão certo.

Por outro lado, Sully dá a entender que os interesses econômicos podem estar acima dos valores humanitários e do bom senso em diversas ocasiões. Enquanto assistimos ao filme, parece realmente que os interesses da companhia aérea estão forçando a investigação a penalizar Sully – afinal, ao pousar na água, ele destruiu um avião que poderia, em teoria, ter pousado sem danos em um dos dois aeroportos próximos.

Mas após o filme terminar, o espectador pode refletir um pouco mais e pensar que há razões para uma organização independente questionar qualquer acidente aéreo. Só ao avaliar com exatidão cada decisão, cada falha e cada acerto é que eles podem trabalhar para evitar que outros acidentes aconteçam.

A resposta para o drama de Sully parece meio óbvia, mas da forma com que este filme é narrado, demoramos um pouco para perceber o óbvio. Somos levados pelas mãos por Eastwood para duvidar um pouco sobre o que está sendo argumentado, especialmente porque o próprio protagonista chega a duvidar de si mesmo.

Qualquer um de nós está sujeito a uma tomada de decisão difícil em algum momento da vida. Estarmos preparados o melhor que podemos e procurarmos sempre estar cercados das melhores pessoas podem ajudar no processo e, principalmente, em uma resposta mais satisfatória. Sully nos mostra isso e muito mais. Trata também da força da mídia para erguer ou sepultar heróis – ainda que, no caso de Sully, a maioria estava no processo de valorizar o seu feito.

Mais um belo filme de Clint Eastwood, um dos meus diretores preferidos. Mais uma grande interpretação de Tom Hanks, cada vez mais o ator que dá vida para sujeitos comuns que encantam o público pela empatia que eles despertam. Perfeito tecnicamente, Sully também é um filme que surpreende por fazer de uma história relativamente simples uma grande peça de cinema. Bela produção.

Admito que em mais de um momento me emocionei, especialmente por causa da postura de Sully, o seu caráter e o próximo que ele ficou de perder tudo por uma interpretação equivocada e injusta de tudo que aconteceu. Nos faz pensar. E sentir.

NOTA: 9,4.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Um dos grandes destaques deste filme, sem dúvida alguma, é a interpretação precisa, sem exageros e bastante convincente de Tom Hanks. Ele é um ator que sabe interpretar como ninguém um sujeito comum que vive situações que qualquer um de nós pode entender. Hanks convence em cada olhar de angústia, em cada gesto de determinação e de procura de respostas de seu personagem.

O ator que completou 60 anos de idade em 2016 já ganhou dois Oscar’s. Além das estatuetas douradas por seus papéis em Philadelphia e Forrest Gump, Tom Hanks tem nada menos que 78 prêmios no currículo e outras 125 indicações. É um dos grandes atores de sua geração e pode conseguir, com Sully, mais uma indicação ao Oscar. É possível, ainda que não seja uma “bola cantada”. Muitos especialistas colocam o nome dele como um dos possíveis indicados, mas ele ter ficado fora do Globo de Ouro não ajuda nesta expectativa.

O elenco escolhido por Clint Eastwood é um dos pontos fortes de Sully. Além do ótimo Tom Hanks, vale destacar o bom trabalho de Aaron Eckhart e Laura Linney, em especial. Os dois ajudam a dar uma dimensão mais humana para a história. Também estão bem em seus papéis o trio de “investigadores” do acidente, Mike O’Malley, Jamey Sheridan e Anna Gunn. Também se saem muito bem as atrizes que interpretam as comissárias do voo com pouso heróico: Jane Gabbert como Sheila Dail, Ann Cusack como Donna Dent, e Molly Hagan como Doreen Welsh.

Entre os atores com papéis menores, vale citar o trabalho de Blake Jones como Sully quando ele tinha 16 anos de idade e começou a pilotar; Chris Bauer como Larry Rooney, amigo de Sully; o trio de passageiros que chegaram atrasados e quase não entraram no voo e que representa algumas das dezenas de histórias que estavam dentro daquele avião e que foram interpretados por Max Adler (como Jimmy Stefanik), Sam Huntington (como Jeff Kolodjay) e Christopher Curry (o pai de Jeff, Rob Kolodjay); Patch Darragh como o operador de voo do aeroporto Patrick Harten; e o ótimo Michael Rapaport em uma super ponta como o barman Pete que atende a Sully.

Algo impressionante nesta história não foi apenas o pouso feito por Sully no Rio Hudson, mas também toda a operação de resgate dos passageiros e tripulantes que foi impressionantemente rápida e bem orquestrada. Só mesmo em um país que leva a segurança a sério como os Estados Unidos para que uma operação como aquela acontecesse de forma tão impressionante. Sem dúvida alguma no Brasil e em tantos outros países temos muito a avançar ainda neste sentido. Ainda que, é preciso admitir, tudo também correu também porque estamos falando de Nova York e de um rio importante como o Hudson, bem explorado e com uma excelente infraestrutura atrelada a ele.

Da parte técnica do filme, além da direção exemplar de Clint Eastwood, vale citar a excelente edição de Blu Murray; a competente direção de fotografia de Tom Stern; o design de produção de James J. Murakami; a direção de arte de Ryan Heck e Kevin Ishioka; a decoração de set de Gary Fettis; o impressionante trabalho dos 25 profissionais envolvidos com o Departamento de Arte; o fundamental trabalho dos 29 profissionais envolvidos com o Departamento de Som; o competente trabalho dos oito profissionais dos Efeitos Especiais; e o trabalho fundamental dos 140 profissionais envolvidos com os Efeitos Visuais. Sem o trabalho dedicado de toda esta equipe Sully simplesmente não seria possível de ser feito.

Sully estreou no Festival de Cinema de Telluride em setembro. Depois o filme estreou em diversos países antes de passar por outros três festivais: o de Londres, o de Torino e o Festival de Cinema Americano. Até o momento a produção ganhou quatro prêmios e foi indicada a outros nove.

Entre os prêmios que recebeu estão o de Ator do Ano para Tom Hanks no Hollywood Film Awards e o Icon Award para Tom Hanks no Festival Internacional de Cinema de Palm Springs. A produção também aparece como um dos 10 filmes do ano no Prêmio AFI (junto com Arrival, Fences, La La Land, Moonlight, Silence, Zootopia, Hacksaw Ridge, Hell or High Water e Manchester by the Sea) e na lista Top Ten Films do National Board of Review (ao lado de Arrival, Hacksaw Ridge, Hell or High Water, La La Land, Moonlight, Silence, Hidden Figures, Patriots Day e Hail, Caesar!).

Sully teria custado cerca de US$ 60 milhões. Certamente grande parte deste orçamento foi gasto nos efeitos visuais, especiais e sonoros. Grande trabalho da equipe técnica envolvida. Apenas nos Estados Unidos o filme fez nas bilheterias até o dia 15 de dezembro quase US$ 124,8 milhões. No restante dos países em que o filme estreou ele fez outros Us$ 94 milhões. Ou seja, perto de US$ 218,8 milhões. Ele já é um sucesso de bilheteria.

Esta produção foi rodada em várias cidades dos Estados Unidos. Além de Nova York, que aparece de forma evidente no filme, Sully teve cenas rodadas em Atlanta e no Gwinnett Technical College, ambos na Georgia; e as cenas de simulação de voos na cidade de Charlotte, na Carolina do Norte.

Esta é uma produção 100% dos Estados Unidos, por isso ela passa a atender a uma lista de pedidos que foi feita aqui no blog há algum tempo.

Agora, algumas curiosidades sobre a produção. O capitão do barco Vincent Lombardi, que comandava o primeiro ferry boat a chegar no socorro do avião que pousou no Rio Hudson interpreta a si mesmo no filme.

As cenas de resgate foram filmadas no mesmo local do Rio Hudson em que o resgate verdadeiro aconteceu. Sully também teve cenas rodadas no New York Marriot Downtown, local em que o piloto e o copiloto do voo foram levados após o acidente.

O ator Tom Hanks passou metade de um dia com o verdadeiro Sully para compreender ele melhor e, principalmente, pegar as suas característica para logo interpretá-lo melhor.

Sully utiliza o mesmo recurso de Forrest Gump na cena da entrevista feita por David Letterman. Ou seja, a entrevista original é utilizada no filme, apenas trocando os rostos das pessoas pelos atores da produção – com exceção de Letterman, é claro. A jornalista Katie Couric participou da produção reproduzindo a entrevista que ela fez com o Sully original para o 60 Minutes e que foi ao ar no dia 8 de fevereiro de 2009, apenas 24 dias após o acidente ter acontecido.

A canção “A Real Hero” da artista eletrônica francesa College feita em colaboração com a Electronic Youth foi feita em 2010 em homenagem ao Sully real. O líder da Electronic Youth Austin Garrick foi inspirado nos comentários que o avô dele fez sobre Sully, afirmando que ele era um “ser humano real e um verdadeiro herói”.

É bacana ficar até o final dos créditos por causa das cenas das pessoas reais envolvidas naquele voo milagroso. Depois de várias pessoas falarem, inclusive o verdadeiro Sully, a esposa dele, Lorraine, finaliza com uma declaração emocionada. É bacana ver tantas pessoas vivas contrastando com tantas pessoas que já morreram em desastres aéreos.

Impressionante pensar também que tudo durou 208 segundos… Pouco mais de três minutos e meio entre a decolagem, o choque com as aves e o pouso forçado no rio. Incrível.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,6 para esta produção, enquanto os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 227 críticas positivas e 38 negativas para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 86% e uma nota média de 7,2. Especialmente a avaliação do público no IMDb é boa, ainda que ela e a avaliação do Rotten Tomatoes demonstrem que este filme não tem o mesmo padrão alto de outras produções que estão buscando uma vaga no Oscar 2017.

Para quem ficou curioso para saber mais sobre a história real de Sully e o seu pouso milagroso, este artigo da Wikipédia traz muita informação, inclusive com links interessantes para reportagens e vídeos. Sem dúvida alguma foi um episódio muito documentado.

CONCLUSÃO: Um filme com esmero técnico e narrativa competente, que sabe valorizar o trabalho do protagonista e que ganha pontos pela escolha à dedo do elenco de apoio. Uma história relativamente simples, que para alguns poderia não ter grande interesse no cinema, mas que ganha contornos interessantes graças à sensibilidade do roteirista Todd Komarnicki e do diretor Clint Eastwood. Mais um filme que nos faz refletir sobre os valores da nossa sociedade e sobre escolhas difíceis que alguns tem que fazer em segundos. Bem construído, tecnicamente perfeito e com grandes interpretações, especialmente de Tom Hanks, Sully merece ser visto.

PALPITES PARA O OSCAR 2017: Achei muito estranho como Sully foi esnobado pelo Globo de Ouro 2017. Claro que todos nós, que acompanhamos as principais premiações do cinema mundial a cada ano, sabemos que Globo de Ouro não significa Oscar e vice-versa. Ainda assim, não deixou de ser estranho o filme não ser lembrado em nenhuma categoria.

Nas bolsas de apostas para o Oscar 2017, contudo, Sully aparece em mais de uma ocasião. Da minha parte, acho sim que o filme tem potencial de chegar a algumas indicações. As mais óbvias seriam a de Melhor Filme, Melhor Ator para Tom Hanks e algumas indicações técnicas. Mas é preciso avaliarmos com um pouco mais de carinho estas chances.

Há muitos filmes ainda para assistir para poder comentar realmente sobre as chances de Sully como Melhor Filme. Desde que a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood abriu esta categoria para até 10 indicações, as chances para filmes “não-óbvios” conseguirem uma vaga aumentou. Aparentemente, Sully não está entre os favoritos este ano. Há produções muito mais “fortes” na disputa e o filme de Eastwood estaria correndo “por fora”.

Ainda assim, como é possível até 10 concorrentes na categoria Melhor Filme, acredito que Sully poderá chegar lá. Mas ganhar… daí é algo muito mais difícil. Há outros filmes que levam vantagem neste sentido. Tom Hanks merece uma indicação ao Oscar, não tenho dúvidas. Mas para saber se ele realmente chegará lá será preciso antes assistir a outros fortes concorrentes. Como esta categoria tem apenas cinco vagas, Hanks terá mais trabalho para chegar lá.

No caso do ator conseguir uma vaga, a vida dele será bem difícil para conseguir conquistar a estatueta. Não há dúvidas de que ele merece por tudo que já fez no cinema, mas acaba sendo um tanto improvável ele vencer este ano.

Sobre as indicações em categorias técnicas, sem dúvida Sully tem argumentos para ser indicado a Melhores Efeitos Visuais, Melhor Edição de Som, Melhor Mixagem de Som e até Melhor Edição. O problema é que este ano estamos “recheados” de filmes inspirados em HQs e que dão um “banho” justamente nestes quesitos.

Então Sully pode até emplacar uma indicação em alguma destas categorias, mas não é algo provável. Quanto a ganhar… bem, aí sim a tarefa será ainda mais complicada, porque os filmes de heróis são favoritos. No geral, acredito que o filme tem chances de ser indicado a duas ou mais categorias, mas tenho dúvidas se vencerá algo. De qualquer forma, estou na torcida para ao menos ele chegar lá, porque acho que os envolvidos e o filme em si merecem.

ATUALIZAÇÃO (19/12): Como comentei na crítica de Hell or High Water (que pode ser acessada aqui), nem sempre eu deixo clara as razões que fazem eu dar uma nota e não outra nas minhas críticas. Acho que não deixei muito claro, por exemplo, porque eu dei a nota acima para Sully e não uma nota maior. Muito bem, vou explicar melhor.

Como destaquei em toda a crítica sobre este filme, ele é perfeito, tecnicamente falando, e muito bem construído. O roteirista e o diretor surpreendem por fazer uma história relativamente “simples” de ser contada ter tanto “suspense” e emoção. Os atores estão bem, especialmente Hanks, mas alguns aspectos da produção me incomodaram um pouco e me impediram de dar uma nota maior para o filme.

Para começar, acho que o mesmo roteirista que torna a história interessante erra a mão um pouco em dois aspectos. Primeiro, em algumas cenas em que ele “exagera” um pouco no texto para emocionar – destaco, neste sentido, em especial, o “drama” do pai que procura o filho e não o encontra logo após o acidente, um tanto forçado para o meu gosto.

Outro ponto que me incomodou um pouco é a forma com que o roteirista carrega nas tintas para aparentar uma certa “perseguição” ou “caça às bruxas” dos representantes da NTSB nas investigações sobre os motivos para o acidente. Parece que eles estão tentando culpabilizar o tempo todo Sully, e me parece que a situação era muito mais técnica e menos “persecutória” do que o filme dá a entender. Estes dois pontos do roteiro me incomodaram um pouco e por isso eu dei a nota acima para Sully.

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Spotlight – Spotlight: Segredos Revelados

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Quase todo jornalista já pensou, em algum momento de sua vida, que o seu trabalho poderia mudar para melhor a realidade em que ele vivia ou além disso. Alguns, inclusive, imaginaram que poderiam mudar o mundo. Essa possibilidade foi e é uma realidade, mas para poucos. Há muitas razões para isso. Spotlight conta a história de um pequeno grupo de jornalistas que conseguiu tal feito. Ou, pelo menos, ainda podem conseguir.

Mesmo que a realidade denunciada por eles ainda não tenha tido uma resposta à altura, eles conseguiram colocar o tema nos holofotes e dar voz para as vítimas. Isso é, eu acredito, também uma forma de mudar o mundo. Grande filme, que merece ser visto, indicado e propagado como um bom exemplo de história de jornalismo bem contada.

A HISTÓRIA: Começa com os dizeres “baseado em eventos atuais”. Em seguida, acompanhamos um policial na cidade de Boston no ano de 1976. Estamos no 11º distrito. Um colega do policial pergunta sobre como tudo está caminhando. Ele responde que a mãe está chateada e que o tio das crianças que sofreram abuso está furioso. O abusador, um padre, estaria ajudando a mulher divorciada com quatro crianças. Em seguida, chega o procurador-adjunto Burke (Brian Chamberlain), que fica sabendo que a família está falando com o bispo e que não apareceu ninguém da grande imprensa – apenas um jornalista de uma publicação menor apareceu, mas foi afastado. Ele gosta da última notícia.

Sozinho em uma sala está o molestador, que não será acusado, o padre Geoghan. Enquanto isso, o bispo ressalta o ótimo trabalho que a Igreja está fazendo “na comunidade” e garante que ele, pessoalmente, vai garantir que o padre seja afastado e que o abuso nunca voltará a acontecer. Corta. Passamos para a Redação do Boston Globe em julho de 2001. A equipe está se despedindo do editor Stewart (Mairtin O’Carrigan). No lugar dele, aparece Marty Baron (Liev Schreiber), que desafia a equipe do Spotlight a investigar não apenas Geoghan, mas a se aprofundar no acobertamento dos casos de abuso pela Igreja

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a assistir quem já viu a Spotlight): Algo que achei incrível neste filme é como ele fala do trabalho e da vida dos jornalistas sem mistificar essa profissão. Pelo contrário. Vemos ali não apenas a paixão deles pelo trabalho – especialmente a equipe de Spotlight -, mas também os desafios que eles devem enfrentar e o ambiente que os cerca. Inclusive a “preguiça” ou a miséria de colegas – muitas vezes jornalistas em posição de comando – e de fontes.

Muito da realidade da profissão é mostrada neste filme como eu não tinha visto antes. Acho que para as pessoas que não atuam na área, este é um filme que dá uma bela introdução para o que nós passamos – ou podemos passar na nossa profissão. E para os jornalistas, certamente, este filme é uma brisa de frescor, um estímulo e um lembrete do que podemos fazer e como podemos fazer.

Um ponto fundamental para o sucesso deste filme é o roteiro de Josh Singer e do diretor Tom McCarthy. Os dois acertam com a introdução da história, mostrando em poucos minutos como casos de abuso eram tratados em Boston. E não apenas ali, é claro, mas em diversas cidades mundo afora. A polícia não colidia com a Igreja e esta, através de seus bispos e cardeais, corria para encobrir os “escândalos” que não deveriam aparecer na imprensa e nem render grandes processos na Justiça.

Sem demorar muito com trechos desnecessários, o filme logo avança de 1976, quando é mostrada mais uma detenção do padre Geoghan, para 2001, quando uma mudança na direção do Boston Globe faz o assunto ganhar a devida atenção da equipe do jornal. É fato que, muitas vezes, os jornalistas se acomodam. Eles não conseguem enxergar a grande história que eles tem nas mãos. Por isso a visão de alguém que vem de fora pode ser tão importante, como foi o caso da chegada de Marty Baron para o Boston Globe.

Spotlight acerta ao mostrar isso e também o movimento de resistência criado pela chegada de Baron no jornal. Trabalhando como jornalista desde 1997 e tendo passado por três Redações diferentes, posso dizer que já vi isso acontecer antes. A liderança principal do jornal é trocada por alguém de fora e um profissional de dentro em outra posição de liderança se sente preterido. Ele resiste à mudança e não aceita bem as ideias novas do novo “comandante-geral”. No filme, esta posição de resistência é encarnada por Ben Bradlee Jr. (John Slattery).

Mas a resistência de Bradlee Jr. para as ideias de Baron não tem a ver apenas com o fato dele acreditar que poderia ser o diretor de redação no lugar do “invasor”. Essa resistência é vista entre jornalistas de diferentes postos e com distintas experiências.

Há quem resista por comodismo, porque é mais “fácil” continuar fazendo o que ele/a sempre fez, ou porque o jornalista acredita que a história em que ele está investindo é muito melhor do que aquela que o novo editor lhe sugeriu. Outros resistem porque estão em competição permanente com os demais, enquanto outros recusam boas ideias simplesmente porque “não vão com a cara” da outra pessoa – ou seja, tem problemas pessoais com o chefe ou editor. Não importa a razão. O importante é que, como Spotlight revela, há viseiras de diferentes cores e tamanhos que alguns jornalistas insistem em utilizar.

Com esta atitude quem perde é o jornalismo e, claro, o público leitor/consumidor da informação. Ainda bem que essa resistência não é a postura da maioria. Como este filme magistralmente escrito e dirigido por McCarthy revela, há muitos jornalistas ainda que acreditam em sua função social e no potencial que eles tem para colocar em evidência temas importantes para a coletividade. Esse é o caso da equipe de Spotlight.

Diferente do chefe imediato, Walter “Robby” Robinson (o ótimo Michael Keaton) acredita que eles devem investir não apenas na história do padre Geoghan mas também, e especialmente, na investigação sobre o cardeal Law (Len Cariou). (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Como bem ensina Baron, claro que uma cidade como Boston ter dezenas de padres abusadores é notícia, mas há uma história muito maior e mais impactante se a equipe de Spotlight conseguir comprovar que a instituição acobertava estes crimes. Isso, de fato, foi conseguido.

Por causa do trabalho do Boston Globe e, depois, de vários outros jornalistas mundo afora, é que nos últimos anos o assunto começou a ser tratado de outra forma pela Igreja. Apesar de ser uma traição e uma quebra de confiança sem precedentes um padre abusar de crianças e jovens inocentes que foram confiados pelos seus pais para eles, representantes de Deus na Terra, o pior crime não é este. Afinal, abusadores existem na sociedade e, friamente falando, porque eles não existiriam na Igreja, que é feita de pessoas da sociedade?

Mas o problema não está apenas na quantidade de padres que cometem estes crimes – alguns especialistas afirmam que isso tem a ver com a questão do celibato – mas sim, principalmente, na forma com que a Igreja trata o assunto. Por muito tempo o tema era visto como tabu, era proibido. Com as denúncias de grupos de vítimas e, principalmente, depois de reportagens da imprensa, o tema não pode mais ser acobertado. Isso acontece com tantos outros temas relevantes da sociedade – ou alguém tem dúvida que o Mensalão e a Operação Lava-Jato só avançaram com uma ajuda fundamental da imprensa?

Outra parte fundamental deste filme é mostrar o contexto do trabalho dos jornalistas. Além de mostrar os desafios da investigação dos repórteres e o fundamental direcionamento dos editores que acompanharam o caso, Spotlight mostra como a relação dos jornalistas com a cidade em que nasceram e atuam ou aonde passaram a atuar depois reflete na sua rotina profissional.

Diversas pessoas disseram para a equipe da editoria Spotlight do Boston Globe que eles não deveriam investir naquela história. Afinal, não valia a pena enfrentar a Igreja. Não apenas por ela ser poderosa, mas porque ela fazia muito bem para a cidade. Como se a instituição fazer bem para a cidade e ter toda a sua importância espiritual na vida das pessoas apagasse os crimes praticados por alguns de seus padres. Este argumento me fez lembrar outro filme recente que comentei aqui e que está tentando uma vaga na categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira no próximo Oscar: Im Labyrinth des Schweigens (comentado aqui no blog).

No filme alemão é possível ver como a sociedade do país vencido na Segunda Guerra Mundial queria abafar e esconder a história das vítimas de Auschwitz. Afinal, os oficiais que trabalharam lá foram “obrigados” a atuar daquela forma durante a guerra. Todos deveriam esquecer o que passou e seguir adiante. Mas sabemos que ninguém é obrigado a praticar atrocidades, assim como que a bondade feita por alguns não deve eximi-los de pagar por seus crimes.

Mas diferente de Im Labyrinth des Schweigens, Spotlight acerta ao dar voz para as vítimas. O contexto humano da história é um diferencial. O roteiro e o diretor não apenas valorizam a história dos jornalistas que contam essa história mas, também, os personagens que eles enfocam e todos os demais que tiveram alguma participação naquela investigação jornalística. Ouvimos as vítimas, conhecemos as suas dores. Isso faz toda a diferença neste filme – e foi algo que faltou na produção alemã.

Os jornalistas são humanos. Passíveis de arroubos de coragem, determinação, bravura e também de covardia ou comodismo. Spotlight aborda a profissão com maestria sem endeusar os protagonistas. Ele nos mostra, como tantas outras histórias, que todas as pessoas tem a capacidade de decidir entre fazerem o certo ou o errado, entre encararem interesses poderosos ou se manterem “fora” de uma polêmica, de permanecerem acomodadas.

Todo jornalista é fruto de uma sociedade, de uma realidade. Algumas vezes eles deixam em segundo plano as suas crenças e convicções pessoais e conseguem enxergar boas histórias mesmo quando elas confrontam estas certezas. Outras vezes, como nos alerta o personagem de Ben Bradlee Jr., os jornalistas são motivados mais por interesses ou convicções pessoais do que pelo interesse da maioria. Infelizmente. Como somos humanos, devemos sempre estar alertas para este risco.

Esta produção também mostra como um bom trabalho não é feito por uma ou duas pessoas, mas por uma equipe. Muitas pessoas tem mérito sobre uma conquista. É possível investir ainda em jornalismo de verdade, em investigação de histórias relevantes. Para isso é preciso não apenas profissionais que acreditam que eles podem fazer a diferença, mas também recursos para investir nestas pessoas. Quando jornais fecham ou equipes de investigação jornalística são desmontadas quem perde são os leitores/consumidores da notícia. É a sociedade.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Este filme tem diversos bons momentos. Difícil destacar um ou dois. Mas vou destacar pelo menos um do qual eu gostei muito. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Em um momento decisivo do filme a equipe se questiona, especialmente Walter Robinson, porque eles não tinham enxergado aquela história antes. Afinal, era uma baita história, uma grande reportagem que iria mudar a vida de muita gente e jogar luz para uma situação que deveria ser debatida coletivamente. Neste momento e com muita calma Marty Baron comenta que eles deveriam lembrar que, na maioria do tempo, os jornalistas ficam “tropeçando no escuro”.

Achei essa parte especialmente significativa porque ela é verdadeira. Em Redações cada vez mais enxutas – e mesmo antes, quando as equipes não eram tão pequenas – os jornalistas estão ocupados demais com o dia a dia, com as notícias factuais que, muitas vezes, deixam escapar histórias realmente importantes. Não existe mais tanto tempo para investir em histórias relevantes e, quando existe este tempo, nem sempre estamos dispostos ou atentos. Isso acontece. Mas também acontece de muitas histórias ganharam a dimensão que elas precisam em determinado momento, como aconteceu com este trabalho de Spotlight. E no fim das contas, é isso que interessa. Que mais momentos como esse aconteçam no jornalismo.

Falando em jornalismo – e me perdoe, caro leitor, por falar tanto deste filme e do tema, mas essa é a minha profissão e sou apaixonada por ela -, acho que muitas matérias especiais e de fôlego poderiam render um filme como esse. Afinal, uma boa investigação jornalística tem diversos elementos que podem ajudar um filme a ser bom. Para começar, tem drama, ação, suspense e uma dose cavalar de análise do comportamento humano. Spotlight tem tudo isso e, por este conjunto de fatores, é um grande filme.

Destaque antes que a principal qualidade de Spotlight é o seu roteiro. Mas além dele, vale comentar o ótimo trabalho de Tom McCarthy na direção. Ele conduz a história muito bem, no ritmo adequado e com a atenção justificada e constante em quem interessa: os personagens. Consequentemente é preciso destacar o ótimo trabalho do conjunto de atores envolvidos na produção. Todos estão muito bem, mas é inevitável destacar o trabalho dos protagonistas.

Neste ponto, aliás, admito que tenho uma dúvida: afinal, quem é o protagonista de Spotlight? Me arrisco a dizer que Michael Keaton ganha uma pequena dianteira por ser o chefe da equipe de Spotlight, mas sem dúvida alguma Mark Ruffalo como o repórter investigativo Mike Rezendes é o que puxa a ação por boa parte da trama. Ele assina a reportagem principal, além de ter diversos momentos de destaque. Não sei exatamente quem será considerado protagonista ou coadjuvante nesta produção, mas é fato que os dois merecem aplausos pelo excelente trabalho. Ambos convencem e emocionam em seus papéis.

Além de Michael Keaton e Mark Ruffalo, vale destacar do elenco o trabalho sólido de Rachel McAdams como a jornalista Sacha Pfeiffer; o de Liev Schreiber como Marty Baron, editor que tem participação fundamental na história – apesar do ator aparecer menos que os demais, ele está ótimo em cada entrada em cena; Brian d’Arcy James como o jornalista que fecha a equipe de Spotlight chamado Matt Carroll.

O trabalho de John Slattery é muito bom, ainda que dê um pouco de agonia aquela resistência dele toda a Baron. Stanley Tucci também está bem como o advogado Mitchell Garabedian. Ele é cheio de valor, mas não tem muita paciência com a imprensa – como tantos outros profissionais que acham que, no fim das contas, os jornalistas não conseguirão levar para a frente uma história complicada. A resistência de Garabedian, como tantas outras fontes no “mundo real”, vai cedendo pouco a pouco conforme Rezendes mostra que eles estão levando o tema a sério.

Finalmente, dos coadjuvantes, destaco o trabalho de Jamey Sheridan como Jim Sullivan, o advogado que defendeu os interesses da Igreja e que, por ser amigo de Robby, ajudou a equipe dele a confirmar extra-oficialmente a lista de nomes de padres abusadores; o de Billy Crudup como Eric Macleish, outro advogado que participou de acordos que deram vantagem para a Igreja; e o de Neal Huff como Phil Saviano, coordenador do grupo de vítimas e que faz um trabalho bem representativo deles neste filme.

Da parte técnica do filme, além do irretocável roteiro de McCarthy e de Singer já comentado mais de uma vez, devo destacar a direção de fotografia Masanobu Takayanagi. As lentes que ele escolheu dão aquela aura de filme um tanto antigo, mas sem exageros. Ajuda a nos situar nos dois tempos do filme a competente escolha de figurino de Wendy Chuck. Importante para a produção também a marcante e inspirada trilha do veterano e premiado Howard Shore. Importante e bem feito o trabalho de edição de Tom McArdle, assim como o design de produção de Stephen H. Carter.

Nos créditos finais do filme aparecem dezenas de cidades nos Estados Unidos aonde foram registrados os principais escândalos envolvendo padres abusadores e diversas cidades de outros países. Do Brasil aparecem as cidades de Arapiraca, Franca, Mariana e Rio de Janeiro.

Spotlight estreou em setembro de 2015 no Festival de Cinema de Veneza. Depois o filme participaria ainda de outros oito festivais. Nesta trajetória ele já acumulou 57 prêmios e foi indicado a outros 83, incluindo a indicação a três Globos de Ouro: Melhor Filme – Drama, Melhor Diretor e Melhor Roteiro. Entre os prêmios que recebeu, destaque para Filme do Ano ao lado de outras nove produções pelo Prêmio AFI; para dois prêmios para Tom McCarthy no Festival de Cinema de Veneza; para o prêmio de Top Films junto com outras oito produções no Prêmio NBR; e para 12 prêmios em associações de críticos como Melhor Filme e 16 como Melhor Roteiro.

Para quem gosta de saber aonde os filmes foram rodados, Spotlight foi filmado em Toronto, no Canadá, e com diversas cenas feitas no Boston Globe, em Boston, nos Estados Unidos.

Agora, algumas curiosidades sobre esta produção. O roteiro de Spotlight fez parte da 2013 Blacklist, uma lista dos roteiros mais apreciados e ainda não rodados daquele ano.

A equipe de Spotlight teve um contato direto e profundo com os jornalistas que inspiraram esta história. Walter Robinson brincou que Michael Keaton roubou a sua personalidade a ponto de, se ele roubasse um banco, os policiais iriam atrás de Robinson para prendê-lo; e Mark Ruffalo sempre pedia para o verdadeiro Michael Rezendes comentar os diálogos do roteiro com ele.

O ator Richard Jenkins fez a voz do ex-padre e psiquiatra Richard Sipe para as cenas do filme – como ele só participa da história em conversas por telefone com Rezendes, só a voz do ator “aparece” em cena.

Uma curiosidade histórica: Ben Bradlee Jr. é filho de Benjamin C. Bradlee, o jornalista que, como editor-executivo do The Washington Post, supervisionou as investigações durante o caso Watergate nos anos 1970.

O padre John J. Geoghan, condenado por ter acariciado um menino em uma piscina pública, foi morto pelo companheiro de cela em agosto de 2003. Como ele estava recorrendo da decisão quando foi morto, três juízes decidiram inocentá-lo do crime depois.

Não tenho dúvidas que este filme será indicado em todos os curso de Jornalismo. Inclusive para render debates acalorados. Ou seja, Spotlight já se tornou um filme referência e histórico.

A Igreja tomou algumas atitudes, nos últimos anos e, certamente, por influência das matérias jornalísticas que saíram sobre o tema, a respeito dos padres pedófilos e abusadores. Vale destacar algumas matérias sobre o tema. Para começar esta que comenta sobre a criação de um tribunal para bispos que não evitaram a pedofilia. Depois, vale dar uma olhada nesta outra sobre o mesmo assunto e esta terceira sobre a reação das vítimas de abusos para estas ações do Papa Francisco.

De acordo com Mark Ruffalo, a maioria dos jornalistas envolvidos no trabalho retratado por este filme de Spotlight eram católicos apostólicos romanos. Como eu. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Em certo momento do filme uma fonte de Rezendes comenta que os abusos praticados pelos padres não lhe retirou a sua fé na Igreja. Eu concordo com isso. É revoltante saber destes casos de padres abusadores, mas isso não tira a fé individual em Deus e em Jesus, assim como nos bons exemplos dados por tantas pessoas da Igreja. Uma coisa não deve nunca eliminar a outra. Penso assim, pelo menos.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,4 para esta produção, uma excelente avaliação levando em conta o padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 170 textos positivos e seis negativos para esta produção, o que lhe garante uma aprovação de 97% e uma nota média de 8,9. Excelente avaliação também. Não é fácil público e crítica darem notas acima de 8. Merecido.

Achei interessante também saber mais sobre a história real por trás de Spotlight. Recomendo a leitura deste link que trata sobre o tema e deste outro que mostra a equipe real por trás da história que inspirou o filme.

Este é apenas o quinto filme dirigido por Tom McCarthy. O primeiro longa dirigido por ele foi The Station Agent, de 2003, e o mais recente foi The Cobbler, de 2014. O único da filmografia dele que eu assisti foi The Visitor (comentado aqui no blog), do qual eu gostei muito. Acho que vale acompanhar o trabalho dele.

CONCLUSÃO: Como é bom ver um filme que trata da importância do jornalismo. Em época de internet a toda velocidade, em que diferentes pessoas falam sobre as suas vidas e tudo o mais, muitos questionam essa valorosa profissão. Como jornalista, não tenho dúvidas de que o trabalho da imprensa, quando feito com seriedade e profundidade, como nos mostra Spotlight, tem um valor inestimável e fundamental para a sociedade. Neste sentido é que um jornalista se diferencia de todas as outras pessoas que tem um smartphone ou um teclado nas mãos.

Com um roteiro primoroso e uma direção firme, Spotlight nos conta os bastidores de uma grande reportagem que desencadeou uma grande cobertura. Para quem não é da área, este filme apresenta um belo resumo de como funciona a imprensa – com todas as suas qualidades e falhas. Junto com os bastidores do jornalismo, este filme toca na polêmica e necessária questão do abuso sexual praticado por algusn padres da Igreja Católica. Um verdadeiro filmaço. Sem dúvida um dos melhores dos Estados Unidos dos últimos tempos e também um dos melhores a abordar a profissão do jornalismo.

PALPITES PARA O OSCAR 2016: Não tenho dúvidas que Spotlight será indicado em várias categorias do Oscar. Afirmo isso não apenas pelas indicações do filme no Globo de Ouro 2016, mas porque acho difícil a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood ignorar uma bora tão bem acabada. Mas, como bem sabemos, uma coisa é um filme ter várias indicações, outra coisa bem diferente é ele sair vencedor delas.

Ainda que, admito, com o Oscar 2015 as minhas esperanças para Hollywood se render a premiações menos óbvias aumentou. Não achei que na edição anterior Birdman poderia vencer Boyhood, um filme menos “ousado” – ao menos se entendermos ousadia como autoironia sobre a indústria do cinema. Como todos que acompanham esse blog sabem, eu prefiro a história de Boyhood, mas devo admitir que Birdman é muito mais polêmico, crítico e irônico que o concorrente que perdeu a quebra-de-braços.

Bueno, voltando ao Oscar deste ano. Acredito que Spotlight tem boas chances de ser indicado em cinco categorias: Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Roteiro Original, Melhor Ator (Michael Keaton) e Melhor Ator Coadjuvante (Mark Ruffalo). Talvez em seis, se Howard Shore emplacar em Melhor Trilha Sonora. Quanto a ganhar, ainda falta ver aos outros concorrentes de peso deste ano, mas acho que não seria uma surpresa ele ganhar como Melhor Filme, Diretor e Roteiro. Ainda que eu acho, francamente, que após a ousadia por premiar Birdman no ano passado, a Academia pode dar um voto mais conservador este ano e não premiar tanto a um filme que é crítico à Igreja. Logo mais veremos. Agora, me resta ver a outros fortes concorrentes do ano.