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Nocturnal Animals – Animais Noturnos

A arte, em suas mais variadas formas, é feita de paixão, de entrega, de exposição e de uma mistura intricada entre fantasia e realidade. Nocturnal Animals trata de dois tipos de arte – três, se pararmos para pensar – e sobre como a ligação de dois artistas/amantes pode perdurar apesar do tempo, da distância e de feridas que nunca foram curadas. Um filme interessante, que nos apresenta um roteiro apenas regular, mas que tem uma apresentação e uma “entrega” exemplares. Nocturnal Animals é envolvente, interessante nos detalhes e na narrativa, mas não é nada que você já não tenha visto antes (de alguma forma).

A HISTÓRIA: Uma música marcante, serpentinas e mulheres obesas, de meia idade ou mais, dançando com partes dos trajes típicos das bandas marciais. Essas mulheres fizeram parte do trabalho de Susan Morrow (Amy Adams), que expôs a sua arte na galeria que ajuda a administrar. Enquanto vemos as cenas da exposição, vemos também as imagens das artérias da cidade movimentada. Susan fica até o final do evento e vai para casa. Ela chega tarde e, pouco depois, outro carro chega no local. No dia seguinte, Susan recebe uma encomenda, um manuscrito do novo livro de Edward (Jake Gyllenhaal).

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Nocturnal Animals): O roteirista e diretor Tom Ford começa este seu novo filme trabalhando de forma contundente com a nossa noção de beleza e estética. Ele acerta um direto no padrão de mulher bonita que a sociedade considera e, de quebra, questiona como as aparências enganam. Tudo isso através do trabalho da protagonista em sua mais nova exposição.

A introdução do filme, que apresenta mulheres obesas, a maioria em idade mais avançada, nuas e com alguns adornos, apenas, é um tipo de cartão de visitas sobre a quebra de “paradigmas” que este filme nos apresenta. A ideia de que as aparências enganam e que os padrões estão aí para serem quebrados é uma constante na produção. Afinal, além daquelas cenas iniciais, a própria vida e escolhas da protagonista também foram baseadas em escolhas um tanto equivocadas e que sempre giraram em torno da tentativa dela de negar os padrões familiares.

Mas antes de falarmos disso, vamos retomar um pouco a lógica da produção que tem roteiro de Ford baseado no livro de Austin Wright. Depois daquela introdução desafiadora para os padrões estéticos do que a sociedade considera belo, Nocturnal Animals logo faz uma apresentação interessante da protagonista.

Em pouco minutos percebemos que, apesar de casada e de ser uma “artista de sucesso”, Susan se sente sozinha e insegura com o próprio talento e trabalho. Na manhã seguinte da abertura da última exposição dela, Susan recebe o manuscrito do novo livro do ex-marido. Enquanto ela vê o marido, Hutton Morrow (Armie Hammer), cada vez mais distante, tanto física quanto amorosamente, Susan mergulha na obra de Edward e, consequentemente, nas lembranças sobre o relacionamento que teve com ele. De quebra, revisita os seus próprios sentimentos.

Desta forma, temos duas narrativas que correm paralelas e que vivem se entrelaçando: aquela em que Susan questiona a sua vida atual, revisita o passado e fantasia sobre o futuro; e aquela em que a história contada por Edward se desenvolve. Todo filme com duas narrativas paralelas em desenvolvimento já se torna interessante apenas por isso, pela dinâmica que a produção acaba tendo, naturalmente. Mas Nocturnal Animals apresenta um interesse diferenciado porque vive jogando com dois elementos que mexem tanto com as pessoas e a sociedade: a violência e o desejo sexual.

A melhor parte do filme, sem dúvida alguma, é aquele mergulho inicial que Susan faz no livro de Edward. Vários filmes já exploraram o “terror em uma rodovia” como a história de Edward nos apresenta, mas Tom Ford faz um trabalho de excelência na direção neste momento do filme, despertando no público a tensão e o interesse necessário para que encaremos o restante da produção. A história contada por Edward mistura ficção, fantasia e realidade (ele seleciona alguns elementos familiares para Susan e insere na narrativa) em uma narrativa violenta que, claramente, tem requintes de atração e de vingança relacionados a ex-mulher.

O texto de Edward não é apenas evolvente em relação a qualquer público. Ele parece matematicamente planejado para mexer com Susan. E aí está a vingança maior de Nocturnal Animals. Este sentimento não move apenas o personagem principal do livro, Tony Hastings, também vivido pelo ator Jake Gyllenhaal. O senso de vingança parece mover também Edward, que quer tirar Susan da inércia, provocá-la e, depois, deixá-la esperando em vão no restaurante.

Interessante que ao escrever a sua obra-prima, Edward trata bem da vingança e demonstra, no final, que ela concretizada não traz paz alguma. Através do personagem de Tony ele mostra que cobrar uma dívida na mesma “moeda” não traz conforto, esperança ou o amor e a presença de quem perdemos no processo. Tony já estava “morto” quando terminou a sua vingança, como provavelmente o próprio Edward estava quando se “vingou” de Susan.

Por sua parte, Susan demonstra que sempre podemos nos arrepender e rever as nossas próprias vidas mas que, nem sempre, isso é suficiente para mudar o que foi feito. Como o próprio livro de Edward argumenta, há erros/crimes que por mais que tentemos consertar, jamais terão conserto.

No fim das contas, este filme quebra alguns pré-conceitos e nos conta uma história de vingança e de amor frustrado. Eis uma narrativa de bastante desesperança e um tanto amarga no final. Um filme envolvente, bem conduzido, com ótimos atores e que nos apresenta uma história não exatamente nova. É uma produção competente sobre algo que já vimos antes. Vale como experiência, mas não é nada que ficará na memória por muito tempo.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Muito bem, meus bons amigos e amigas do blog. Agora sim, posso dizer que assisti ao que ainda faltava da temporada Oscar 2017. Claro que ainda tenho um documentário da lista de indicados para assistir, assim como os filmes que foram selecionados para representar os seus países no Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira. Mas isso vou fazendo aos poucos e sem pressa. Das categorias centrais do Oscar, contudo, já posso dizer que assisti a tudo que eu considerava mais importante. Tarefa cumprida, pois.

Assisti a Nocturnal Animals há umas duas ou três semanas. Escrevi este texto sobre o filme em diferentes dias. Então me perdoem se alguma parte da crítica estiver um tanto “deslocada” em relação às outras partes, mas os próximos textos serão mais coesos. Nestas últimas semanas passei por uma certa correria e por um tempo longe da internet, por isso esta crítica meio “atabalhoada”.

Tom Ford faz um trabalho competente na direção de Nocturnal Animals. Ele sabe tanto dar ritmo para o filme, especialmente na narrativa da obra de Edward, quanto sabe valorizar os ótimos atores que tem em cena. Mais uma vez Amy Adams e Jake Gyllenhaal mostram porque são dois atores dos mais talentosos de suas gerações. Sem dúvida a direção cuidadosa de Ford e a interpretação dos dois atores são o ponto forte do filme.

O roteiro de Ford, baseado na obra de Austin Wright, flui bem, ainda que tenha uma introdução muito longa, para o meu gosto, e que seja um bocado previsível. Mas a direção de Ford compensa um pouco a falta de originalidade da história. Me chamou a atenção o tom sombrio da produção, com uma direção de fotografia de Seamus McGarvey bastante “noturna” e/ou obscura durante boa parte do tempo.

Da parte técnica do filme, vale ainda comentar a competente edição de Joan Sobel, a trilha sonora de Abel Korzeniowski, os figurinos de Arianne Phillips, o design de produção de Shane Valentino, a direção de arte de Christopher Brown, a decoração de set de Meg Everist e o trabalho dos 10 profissionais envolvidos no departamento de maquiagem.

Nocturnal Animals teria custado US$ 22,5 milhões e faturado, nos Estados Unidos, cerca de US$ 10,6 milhões. Nos outros países em que o filme estreou ele fez outros US$ 18,6 milhões, somando cerca de US$ 29,25 milhões – ou seja, não chegou a obter lucro, até porque além dos custos da produção, sempre devemos calcular os gastos com a distribuição e a divulgação. Ou seja, o filme não foi um sucesso.

Esta produção foi toda rodada na Califórnia, em locais como Malibu, Los Angeles e Mojave Desert.

Ainda que o filme não tenha ido muito bem nas bilheterias, ele se saiu muito bem na negociação para ser distribuído mundialmente. A Focus Features teria pago US$ 20 milhões pelos direitos de distribuição de Nocturnal Animals em uma disputada concorrência após o filme ser exibido em Cannes. Aliás, esse é o valor mais alto pago por um filme em um festival.

A atriz Isla Fisher disse que a sequência noturna no deserto de Mojave durou cerca de 10 dias e que foi uma experiência cansativa e emocionalmente desgastante. Ela ficou aliviada quando o filme foi finalizado. Eu posso imaginar…

Nocturnal Animals ganhou 15 prêmios e foi indicado a outros 127, incluindo a indicação ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante para Michael Shannon. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o Globo de Ouro de Melhor Ator Coadjuvante para Aaron Taylor-Johnson (que interpreta ao vilão Ray Marcus) e para o Grande Prêmio do Júri – Leão de Prata para Tom Ford no Festival de Cinema de Veneza.

Além dos atores principais, que roubam a cena, vale comentar o bom trabalho de Michael Shannon como o delegado Bobby Andes; Aaron Taylor-Johnson como um dos algozes da história de Edward, Ray Marcus; Isla Fisher como a mulher do personagem Tony Hastings, Laura; Ellie Bamber como India Hastings, filha de Tony e de Laura; Armie Hammer em uma “ponta de luxo” como Hutton Morrow, marido de Susan; Laura Linney em outra super ponta como Anne Sutton, mãe de Susan; Karl Gusman como Lou, outro dos bandidos; e Robert Aramayo como Turk, o último do trio de bandidos que vitimiza Laura e India.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,5 para esta produção, enquanto os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 171 críticas positivas e 62 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 73% e uma nota média 7. Especialmente a média de avaliação do IMDb é boa, mas os críticos do Rotten Tomatoes foram mais reticentes. E eles tem razão.

Esta é uma produção 100% dos Estados Unidos. Por isso o filme passa a constar na lista de produções que atendem a uma votação feita há algum tempo por aqui.

CONCLUSÃO: A vingança é um prato que se come frio, como já nos ensinaram há tanto tempo. Nocturnal Animals nos conta, essencialmente, uma história de vingança. Muito tem orquestrada, diga-se. Com um roteiro bem escrito, ainda que ele não seja exatamente surpreendente, Nocturnal Animals mexe com paixões e com os efeitos das escolhas que os personagens fazem. Tom Ford sabe trabalhar e desconstruir a noção do belo, questionando noções básicas como a violência, a vingança e o amor. Interessante na proposta, mas um tanto previsível demais, Nocturnal Animals apresenta belas atuações do elenco e uma narrativa envolvente. Pena que no final tudo pareça tão simples e tão óbvio.

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Sully – Sully: O Herói do Rio Hudson

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Não é fácil assistir a Sully depois do que aconteceu com o voo da Chapecoense. Talvez outras culturas ou nacionalidades não tenham esse problema, mas para nós, que vivemos tudo de perto, tem outro impacto ver as cenas deste filme. Bem produzido e com uma direção impecável do mestre Clint Eastwood, Sully tem um Tom Hanks em grande forma, mais uma vez vivendo um “homem comum” em uma situação extraordinária. Construído com esmero, Sully faz o espectador se emocionar sem apelar para o sentimentalismo. É um filme honesto.

A HISTÓRIA: Começa com o áudio de uma conversa entre o piloto Sully (Tom Hanks) e os operadores do aeroporto La Guardia. Sully diz que eles estão sem os dois motores e que precisam de um pouso de emergência. Com 155 passageiros e tripulantes, o avião se choca contra prédios de Nova York. Este é um pesadelo. Sully acorda ofegante.

No dia seguinte, ele corre às margens do Rio Hudson e, distraído, quase é atropelado. Depois de tomar um bom banho, ele assiste às notícias sobre o pouso que fez no Rio Hudson. Em seguida, ele vai para uma audiência do NTSB (National Transportation Safety Board) que investiga o que aconteceu com o avião e as razões que fizeram Sully decidir fazer um pouso forçado no rio e não voltar para um dos dois aeroportos que estavam disponíveis.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Sully): Como eu comentei lá no início, não é fácil assistir ao pedido de socorro do comandante do voo 1549 da US Airways e não pensar no desespero do que aconteceu com o voo da Chapecoense. E não apenas isso, mas nos faz pensar também que tudo poderia ter acabado de uma forma totalmente diferente.

Diferente do exemplo de Sully, que tinha 42 anos de experiência e teve um controle impressionante no pouso forçado no Rio Hudson, o piloto da LaMia acabou fazendo escolhas erradas e não encontrou nenhuma rota para salvar a maior parte dos tripulantes e passageiros de seu voo.

Como catarinense, não consegui me desprender totalmente deste fato “fora do filme” quando assisti a Sully. Consegui me colocar mais no lugar dos envolvidos do que se não tivesse passado pela experiência de acompanhar de perto a cobertura sobre o acidente com o time da Chapecoense. Isso semanas depois de tudo ter acontecido. Por isso mesmo foi acertadíssima a decisão da distribuidora de Sully de adiar um pouco a sua estreia – originalmente o filme estrearia na mesma semana em que o acidente da Chapecoense aconteceu.

Uma característica fundamental deste filme é mergulhar no personagem-título. O roteiro de Todd Komarnicki, baseado no livro escrito por Chesley “Sully” Sullenberger e Jeffrey Zaslow, mostra a história sempre sob a perspectiva do protagonista. A produção magistralmente dirigida pelo mestre Clint Eastwood começa com o pós-grande evento, ou seja, com Sully acordando após um de seus vários pesadelos depois dele ter conseguido um pouso praticamente impossível no Rio Hudson.

A partir deste momento, o filme é praticamente todo linear, mostrando as reações e o dia a dia de Sully e do copiloto Jeff Skiles (Aaron Eckhart) durante as investigações sobre o voo feitas pelos especialistas do NTSB (National Transportation Safety Board), uma organização independente nos Estados Unidos responsável pelas investigações sobre acidentes aéreos.

Desde o início o grupo formado por Charles Porter (Mike O’Malley), Ben Edwards (Jamey Sheridan) e Elizabeth Davis (Anna Gunn) questionam as decisões tomadas na cabine de comando do avião. Diferente do que Sully havia afirmado, eles dizem que um dos motores estava funcionando, ainda que em marcha lenta, e que todos os cálculos dos engenheiros aeronáuticos mostravam que Sully e Skiles poderiam ter voado até um dos dois aeroportos disponíveis e que já tinham sido avisados para um pouso de emergência.

Inicialmente você poderia imaginar que um filme sobre uma investigação de um acidente de avião poderia ser chato, maçante, mas não é isso que vemos em Sully. A tensão entre os investigadores e os pilotos é evidente, mas mais que isso, o filme de Clint Eastwood nos mostra todas as informações conflitantes que circundam a vida dos protagonistas.

Enquanto dentro de uma sala eles são questionados pelo grupo do NTSB e parecem cada vez mais equivocados em suas decisões, nas ruas, bares e na casa das pessoas eles são considerados heróis por terem salvado todas as pessoas que estavam naquele avião. A imprensa ajuda nesta construção do heroísmo, mas como sempre acontece, há algumas vozes dissonantes na imprensa também e que começam a questionar as decisões do comandante.

Todos os atores estão perfeitos em seus papéis. De forma inteligente, o roteirista e o diretor sabem explorar bem o dia a dia de Sully, em especial. Vemos os efeitos de angústia, pesadelos e a solidão que surge após o acidente e durante o isolamento pelo qual ele e Skiles passam durante as investigações sobre o acidente. As conversas de Sully com a mulher Lorraine (Laura Linney) ajudam a tornar o personagem humano, mais completo. Ele tinha uma família, contas para pagar e estava preocupado com a iminência de ser culpado por parte do acidente e, com isso, ter a carreira terminada antes do tempo – e sem direito à aposentadoria.

O filme só abandona a narrativa linear nos momentos em que apresenta em pinceladas um pouco a carreira de Sully, há 42 anos atuando como piloto de diferentes tipos de avião, e quando retorna a história em mais de uma dimensão para mostrar os momentos que antecederam o embarque e o curto voo da aeronave da US Airways pilotada por Sully.

A direção de Eastwood especialmente nestes momentos de retrocesso na narrativa é muito precisa, sem sobras, sem desperdícios. Toda a sequência do acidente e do que acontece após o pouso forçado são de tirar o chapéu. Ajuda muito também na narrativa a escolha do elenco, que tem grandes nomes além de Tom Hanks.

Por todo esse conjunto da obra, e muito pelo talento de Hanks, o espectador não tem dificuldade de se colocar no lugar das pessoas. Especialmente de Sully. Hanks consegue, mais uma vez, uma grande empatia no papel do “sujeito comum” que é colocado em uma situação extraordinária.

Algo interessante que Sully levanta é sobre as diferentes versões sobre o mesmo fato e de como uma mesma situação pode levantar diferentes interpretações. Por pouco Sully não foi responsabilizado por uma decisão que parecia equivocada. Isso teria significado o fim de uma carreira de muita dedicação e de talento puro – do contrário, ele não teria conseguido êxito em um pouso tão difícil e raro.

A postura de Sully é um elemento fundamental e que nos dá muitas lições. Para começar, ele não contou com a sorte. Ele tinha 42 anos de experiência e soube ser muito profissional no momento em que passou por uma situação de emergência. Ele se manteve calmo e gastou o tempo necessário para fazer a adequada leitura do cenário que tinha pela frente e tomar a decisão mais acertada para aquela situação. Também teve grande controle e precisão no momento do pouso na água.

Mas mais que a dedicação constante para tornar-se cada vez melhor naquilo que ele fazia, Sully teve uma postura exemplar de humildade. Tanto é verdade que, apesar de ter certeza de que ele tinha feito o que era preciso naquela situação, ele chegou a começar a duvidar de si mesmo conforme o comitê do NTSB apresentavam as suas argumentações.

Depois, quando Sully percebe um elemento fundamental que eles não estavam levando em conta, ele não bate no peito e se vangloria como o herói que grande parte da sociedade está o classificando. Ele diz que conseguiu o êxito em uma situação que pode ser considerada milagrosa por causa do bom desempenho de toda a tripulação e dos passageiros que estavam no voo. Divide o mérito com todos eles. E a verdade é que ele tem razão ao fazer isso. Cada uma das pessoas que estavam naquela avião teve uma parte de responsabilidade para tudo dar tão certo.

Por outro lado, Sully dá a entender que os interesses econômicos podem estar acima dos valores humanitários e do bom senso em diversas ocasiões. Enquanto assistimos ao filme, parece realmente que os interesses da companhia aérea estão forçando a investigação a penalizar Sully – afinal, ao pousar na água, ele destruiu um avião que poderia, em teoria, ter pousado sem danos em um dos dois aeroportos próximos.

Mas após o filme terminar, o espectador pode refletir um pouco mais e pensar que há razões para uma organização independente questionar qualquer acidente aéreo. Só ao avaliar com exatidão cada decisão, cada falha e cada acerto é que eles podem trabalhar para evitar que outros acidentes aconteçam.

A resposta para o drama de Sully parece meio óbvia, mas da forma com que este filme é narrado, demoramos um pouco para perceber o óbvio. Somos levados pelas mãos por Eastwood para duvidar um pouco sobre o que está sendo argumentado, especialmente porque o próprio protagonista chega a duvidar de si mesmo.

Qualquer um de nós está sujeito a uma tomada de decisão difícil em algum momento da vida. Estarmos preparados o melhor que podemos e procurarmos sempre estar cercados das melhores pessoas podem ajudar no processo e, principalmente, em uma resposta mais satisfatória. Sully nos mostra isso e muito mais. Trata também da força da mídia para erguer ou sepultar heróis – ainda que, no caso de Sully, a maioria estava no processo de valorizar o seu feito.

Mais um belo filme de Clint Eastwood, um dos meus diretores preferidos. Mais uma grande interpretação de Tom Hanks, cada vez mais o ator que dá vida para sujeitos comuns que encantam o público pela empatia que eles despertam. Perfeito tecnicamente, Sully também é um filme que surpreende por fazer de uma história relativamente simples uma grande peça de cinema. Bela produção.

Admito que em mais de um momento me emocionei, especialmente por causa da postura de Sully, o seu caráter e o próximo que ele ficou de perder tudo por uma interpretação equivocada e injusta de tudo que aconteceu. Nos faz pensar. E sentir.

NOTA: 9,4.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Um dos grandes destaques deste filme, sem dúvida alguma, é a interpretação precisa, sem exageros e bastante convincente de Tom Hanks. Ele é um ator que sabe interpretar como ninguém um sujeito comum que vive situações que qualquer um de nós pode entender. Hanks convence em cada olhar de angústia, em cada gesto de determinação e de procura de respostas de seu personagem.

O ator que completou 60 anos de idade em 2016 já ganhou dois Oscar’s. Além das estatuetas douradas por seus papéis em Philadelphia e Forrest Gump, Tom Hanks tem nada menos que 78 prêmios no currículo e outras 125 indicações. É um dos grandes atores de sua geração e pode conseguir, com Sully, mais uma indicação ao Oscar. É possível, ainda que não seja uma “bola cantada”. Muitos especialistas colocam o nome dele como um dos possíveis indicados, mas ele ter ficado fora do Globo de Ouro não ajuda nesta expectativa.

O elenco escolhido por Clint Eastwood é um dos pontos fortes de Sully. Além do ótimo Tom Hanks, vale destacar o bom trabalho de Aaron Eckhart e Laura Linney, em especial. Os dois ajudam a dar uma dimensão mais humana para a história. Também estão bem em seus papéis o trio de “investigadores” do acidente, Mike O’Malley, Jamey Sheridan e Anna Gunn. Também se saem muito bem as atrizes que interpretam as comissárias do voo com pouso heróico: Jane Gabbert como Sheila Dail, Ann Cusack como Donna Dent, e Molly Hagan como Doreen Welsh.

Entre os atores com papéis menores, vale citar o trabalho de Blake Jones como Sully quando ele tinha 16 anos de idade e começou a pilotar; Chris Bauer como Larry Rooney, amigo de Sully; o trio de passageiros que chegaram atrasados e quase não entraram no voo e que representa algumas das dezenas de histórias que estavam dentro daquele avião e que foram interpretados por Max Adler (como Jimmy Stefanik), Sam Huntington (como Jeff Kolodjay) e Christopher Curry (o pai de Jeff, Rob Kolodjay); Patch Darragh como o operador de voo do aeroporto Patrick Harten; e o ótimo Michael Rapaport em uma super ponta como o barman Pete que atende a Sully.

Algo impressionante nesta história não foi apenas o pouso feito por Sully no Rio Hudson, mas também toda a operação de resgate dos passageiros e tripulantes que foi impressionantemente rápida e bem orquestrada. Só mesmo em um país que leva a segurança a sério como os Estados Unidos para que uma operação como aquela acontecesse de forma tão impressionante. Sem dúvida alguma no Brasil e em tantos outros países temos muito a avançar ainda neste sentido. Ainda que, é preciso admitir, tudo também correu também porque estamos falando de Nova York e de um rio importante como o Hudson, bem explorado e com uma excelente infraestrutura atrelada a ele.

Da parte técnica do filme, além da direção exemplar de Clint Eastwood, vale citar a excelente edição de Blu Murray; a competente direção de fotografia de Tom Stern; o design de produção de James J. Murakami; a direção de arte de Ryan Heck e Kevin Ishioka; a decoração de set de Gary Fettis; o impressionante trabalho dos 25 profissionais envolvidos com o Departamento de Arte; o fundamental trabalho dos 29 profissionais envolvidos com o Departamento de Som; o competente trabalho dos oito profissionais dos Efeitos Especiais; e o trabalho fundamental dos 140 profissionais envolvidos com os Efeitos Visuais. Sem o trabalho dedicado de toda esta equipe Sully simplesmente não seria possível de ser feito.

Sully estreou no Festival de Cinema de Telluride em setembro. Depois o filme estreou em diversos países antes de passar por outros três festivais: o de Londres, o de Torino e o Festival de Cinema Americano. Até o momento a produção ganhou quatro prêmios e foi indicada a outros nove.

Entre os prêmios que recebeu estão o de Ator do Ano para Tom Hanks no Hollywood Film Awards e o Icon Award para Tom Hanks no Festival Internacional de Cinema de Palm Springs. A produção também aparece como um dos 10 filmes do ano no Prêmio AFI (junto com Arrival, Fences, La La Land, Moonlight, Silence, Zootopia, Hacksaw Ridge, Hell or High Water e Manchester by the Sea) e na lista Top Ten Films do National Board of Review (ao lado de Arrival, Hacksaw Ridge, Hell or High Water, La La Land, Moonlight, Silence, Hidden Figures, Patriots Day e Hail, Caesar!).

Sully teria custado cerca de US$ 60 milhões. Certamente grande parte deste orçamento foi gasto nos efeitos visuais, especiais e sonoros. Grande trabalho da equipe técnica envolvida. Apenas nos Estados Unidos o filme fez nas bilheterias até o dia 15 de dezembro quase US$ 124,8 milhões. No restante dos países em que o filme estreou ele fez outros Us$ 94 milhões. Ou seja, perto de US$ 218,8 milhões. Ele já é um sucesso de bilheteria.

Esta produção foi rodada em várias cidades dos Estados Unidos. Além de Nova York, que aparece de forma evidente no filme, Sully teve cenas rodadas em Atlanta e no Gwinnett Technical College, ambos na Georgia; e as cenas de simulação de voos na cidade de Charlotte, na Carolina do Norte.

Esta é uma produção 100% dos Estados Unidos, por isso ela passa a atender a uma lista de pedidos que foi feita aqui no blog há algum tempo.

Agora, algumas curiosidades sobre a produção. O capitão do barco Vincent Lombardi, que comandava o primeiro ferry boat a chegar no socorro do avião que pousou no Rio Hudson interpreta a si mesmo no filme.

As cenas de resgate foram filmadas no mesmo local do Rio Hudson em que o resgate verdadeiro aconteceu. Sully também teve cenas rodadas no New York Marriot Downtown, local em que o piloto e o copiloto do voo foram levados após o acidente.

O ator Tom Hanks passou metade de um dia com o verdadeiro Sully para compreender ele melhor e, principalmente, pegar as suas característica para logo interpretá-lo melhor.

Sully utiliza o mesmo recurso de Forrest Gump na cena da entrevista feita por David Letterman. Ou seja, a entrevista original é utilizada no filme, apenas trocando os rostos das pessoas pelos atores da produção – com exceção de Letterman, é claro. A jornalista Katie Couric participou da produção reproduzindo a entrevista que ela fez com o Sully original para o 60 Minutes e que foi ao ar no dia 8 de fevereiro de 2009, apenas 24 dias após o acidente ter acontecido.

A canção “A Real Hero” da artista eletrônica francesa College feita em colaboração com a Electronic Youth foi feita em 2010 em homenagem ao Sully real. O líder da Electronic Youth Austin Garrick foi inspirado nos comentários que o avô dele fez sobre Sully, afirmando que ele era um “ser humano real e um verdadeiro herói”.

É bacana ficar até o final dos créditos por causa das cenas das pessoas reais envolvidas naquele voo milagroso. Depois de várias pessoas falarem, inclusive o verdadeiro Sully, a esposa dele, Lorraine, finaliza com uma declaração emocionada. É bacana ver tantas pessoas vivas contrastando com tantas pessoas que já morreram em desastres aéreos.

Impressionante pensar também que tudo durou 208 segundos… Pouco mais de três minutos e meio entre a decolagem, o choque com as aves e o pouso forçado no rio. Incrível.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,6 para esta produção, enquanto os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 227 críticas positivas e 38 negativas para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 86% e uma nota média de 7,2. Especialmente a avaliação do público no IMDb é boa, ainda que ela e a avaliação do Rotten Tomatoes demonstrem que este filme não tem o mesmo padrão alto de outras produções que estão buscando uma vaga no Oscar 2017.

Para quem ficou curioso para saber mais sobre a história real de Sully e o seu pouso milagroso, este artigo da Wikipédia traz muita informação, inclusive com links interessantes para reportagens e vídeos. Sem dúvida alguma foi um episódio muito documentado.

CONCLUSÃO: Um filme com esmero técnico e narrativa competente, que sabe valorizar o trabalho do protagonista e que ganha pontos pela escolha à dedo do elenco de apoio. Uma história relativamente simples, que para alguns poderia não ter grande interesse no cinema, mas que ganha contornos interessantes graças à sensibilidade do roteirista Todd Komarnicki e do diretor Clint Eastwood. Mais um filme que nos faz refletir sobre os valores da nossa sociedade e sobre escolhas difíceis que alguns tem que fazer em segundos. Bem construído, tecnicamente perfeito e com grandes interpretações, especialmente de Tom Hanks, Sully merece ser visto.

PALPITES PARA O OSCAR 2017: Achei muito estranho como Sully foi esnobado pelo Globo de Ouro 2017. Claro que todos nós, que acompanhamos as principais premiações do cinema mundial a cada ano, sabemos que Globo de Ouro não significa Oscar e vice-versa. Ainda assim, não deixou de ser estranho o filme não ser lembrado em nenhuma categoria.

Nas bolsas de apostas para o Oscar 2017, contudo, Sully aparece em mais de uma ocasião. Da minha parte, acho sim que o filme tem potencial de chegar a algumas indicações. As mais óbvias seriam a de Melhor Filme, Melhor Ator para Tom Hanks e algumas indicações técnicas. Mas é preciso avaliarmos com um pouco mais de carinho estas chances.

Há muitos filmes ainda para assistir para poder comentar realmente sobre as chances de Sully como Melhor Filme. Desde que a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood abriu esta categoria para até 10 indicações, as chances para filmes “não-óbvios” conseguirem uma vaga aumentou. Aparentemente, Sully não está entre os favoritos este ano. Há produções muito mais “fortes” na disputa e o filme de Eastwood estaria correndo “por fora”.

Ainda assim, como é possível até 10 concorrentes na categoria Melhor Filme, acredito que Sully poderá chegar lá. Mas ganhar… daí é algo muito mais difícil. Há outros filmes que levam vantagem neste sentido. Tom Hanks merece uma indicação ao Oscar, não tenho dúvidas. Mas para saber se ele realmente chegará lá será preciso antes assistir a outros fortes concorrentes. Como esta categoria tem apenas cinco vagas, Hanks terá mais trabalho para chegar lá.

No caso do ator conseguir uma vaga, a vida dele será bem difícil para conseguir conquistar a estatueta. Não há dúvidas de que ele merece por tudo que já fez no cinema, mas acaba sendo um tanto improvável ele vencer este ano.

Sobre as indicações em categorias técnicas, sem dúvida Sully tem argumentos para ser indicado a Melhores Efeitos Visuais, Melhor Edição de Som, Melhor Mixagem de Som e até Melhor Edição. O problema é que este ano estamos “recheados” de filmes inspirados em HQs e que dão um “banho” justamente nestes quesitos.

Então Sully pode até emplacar uma indicação em alguma destas categorias, mas não é algo provável. Quanto a ganhar… bem, aí sim a tarefa será ainda mais complicada, porque os filmes de heróis são favoritos. No geral, acredito que o filme tem chances de ser indicado a duas ou mais categorias, mas tenho dúvidas se vencerá algo. De qualquer forma, estou na torcida para ao menos ele chegar lá, porque acho que os envolvidos e o filme em si merecem.

ATUALIZAÇÃO (19/12): Como comentei na crítica de Hell or High Water (que pode ser acessada aqui), nem sempre eu deixo clara as razões que fazem eu dar uma nota e não outra nas minhas críticas. Acho que não deixei muito claro, por exemplo, porque eu dei a nota acima para Sully e não uma nota maior. Muito bem, vou explicar melhor.

Como destaquei em toda a crítica sobre este filme, ele é perfeito, tecnicamente falando, e muito bem construído. O roteirista e o diretor surpreendem por fazer uma história relativamente “simples” de ser contada ter tanto “suspense” e emoção. Os atores estão bem, especialmente Hanks, mas alguns aspectos da produção me incomodaram um pouco e me impediram de dar uma nota maior para o filme.

Para começar, acho que o mesmo roteirista que torna a história interessante erra a mão um pouco em dois aspectos. Primeiro, em algumas cenas em que ele “exagera” um pouco no texto para emocionar – destaco, neste sentido, em especial, o “drama” do pai que procura o filho e não o encontra logo após o acidente, um tanto forçado para o meu gosto.

Outro ponto que me incomodou um pouco é a forma com que o roteirista carrega nas tintas para aparentar uma certa “perseguição” ou “caça às bruxas” dos representantes da NTSB nas investigações sobre os motivos para o acidente. Parece que eles estão tentando culpabilizar o tempo todo Sully, e me parece que a situação era muito mais técnica e menos “persecutória” do que o filme dá a entender. Estes dois pontos do roteiro me incomodaram um pouco e por isso eu dei a nota acima para Sully.