Venom

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Eis um personagem de HQ que era um ilustre desconhecido para mim. Tinha visto a alguns trailers de Venom, mas não sabia muito sobre a história do personagem antes de ir conferir ao filme. Gostei do que eu vi. Nem tanto pela história ser surpreendente, mas pela condução do diretor Ruben Fleischer e, principalmente, pelo ótimo trabalho do ator Tom Hardy. O astro, que até hoje não tinha me convencido muito, neste filme conseguiu me fazer tirar o chapéu. Filme divertido e bem realizado.

A HISTÓRIA: Espaço sideral. Uma nave se aproxima da Terra e comunica que dará entrada no planeta. Na comunicação que fazem com Fundação Vida, os astronautas comentam que as espécimes estão bem. Perto de dar entrada na atmosfera terrestre, contudo, surge um pedido de “mayday” (socorro) vindo da nave. A espaçonave queima ao entrar na atmosfera e cai na Malásia Oriental. Logo uma equipe de resgate vai para o local e encontra um sobrevivente.

Esse sobrevivente é levado em uma ambulância. No trajeto, o paciente se revela como um hospedeiro de uma espécime alienígena, que se empodera de uma socorrista. Enquanto isso, equipes da Fundação Vida resgatam outras espécimes acondicionadas em cilindros impermeáveis. O projeto desta fundação envolvendo essas espécimes alienígenas é o que vai desencadear toda a trama deste filme.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Venom): Tenho alguns defeitos no meu currículo de cinéfila. Infelizmente, pelo tanto que eu trabalho na vida fora do blog, eu não consigo tempo de assistir a tudo que eu gostaria. Assim, por exemplo, deixei de assistir a Deadpool, filme já com duas produções e que eu sei que tem a pegada mais “dark” e irreverente dos filmes baseados em HQ.

Ao comentar sobre isso, que eu não assisti ainda a nenhum Deadpool, quero dizer que não ignoro também o estilo de filme que esta produção representa. Diferente de outras produções de super heróis, nas quais eles são sempre valentes, honrados e altruístas, Deadpool e, agora, esse Venom, mostram outro perfil de heróis. Nesses filmes eles são mais complexos e, apesar de buscar fazer o que é certo na maioria das vezes, em algumas situações eles também se mostram falhos e com toques de egoísmo.

Gostei de Venom por algumas razões. Primeiro, que achei inteligente e diferenciada a forma com que lidaram com seres extraterrestres. O cinema, na maioria das vezes, encara os aliens como invasores, que vão colocar a vida na terra em perigo, ou como seres graciosos que vem nos ajudar em algo – ou apenas nos divertir com as suas faltas de entendimento sobre como o ser humano funciona.

Por mais maluca que a ideia de Carlton Drake (Riz Ahmed), CEO da Fundação Vida, pudesse parecer, surge com certo “frescor” a ideia de utilizar vida alienígena para criar um “super humano” capaz de se adaptar mais facilmente à vida em outro planeta. O roteiro de Jeff Pinkner, Scott Rosenberg e Kelly Marcel, baseados na história desenvolvida para o cinema por Pinkner e Rosenberg e inspirados nos personagens de HQ criados por Todd McFarlane e David Michelinie, parecem fazer alusões interessantes a questões presentes atualmente na nossa sociedade.

Para começar, Carlton Drake me pareceu ser livremente inspirado em figuras como a de Elon Musk, CEO  da Tesla Motors e um sujeito fascinado pela vida fora da Terra. Drake se diz visionário e realmente procura saídas diferentes para problemas antigos, mas a partir de que preço? Aí entra em cena quase uma “lenda urbana” sobre algumas empresas que utilizam vidas humanas como mercadorias para fazer os seus testes e experimentos.

O ponto determinante de Venom surge justamente quando o jornalista Eddie Brock (Tom Hardy) é chamado para fazer uma entrevista com Carlton Drake e confronta o empresário com as mortes de pessoas miseráveis por causa de testes da Fundação Vida.

Poderoso, Drake faz com que Brock pague caro por sua “insolência”. Essa é uma parte fraca do filme, porque de forma um tanto displicente os roteiristas mostram como Brock “perde tudo”, do emprego até a noiva Anne Weying (Michelle Williams) por causa daquela entrevista desastrosa.

Se bem que é verdade, e Anne deixa claro isso em determinado ponto da história, que ela não termina com Brock por causa de Drake, e sim por causa da atitude egoísta do ex-noivo. De fato, Brock passa os seus interesses acima do zelo e do bom senso e acaba colocando tudo a perder. Mas aí está o lado interessante deste filme, que não nos apresenta um herói acima de qualquer suspeita, mas um sujeito que apresenta falhas e problemas – algo positivo se queremos aproximar o personagem da audiência.

Indignada com os sacrifícios humanos que a Fundação Vida começa a fazer em nome do “avanço científico”, a Dra. Dora Skirth (Jenny Slate) convida Brock a conferir de perto o perigo da equipe dela estar lidando com seres alienígenas. Em sua incursão desastrada no local, Brock acaba virando hospedeiro de uma destas criaturas – justamente Venom.

Como em qualquer relação de simbiose, os dois organismos vivem uma íntima relação de dependência. Venom precisa de Brock para sobreviver na Terra e Brock acaba tirando proveito de Venom para sobreviver em meio a tantas perseguições e desafios que surgem com o projeto de Drake. Como um filme baseado em HQ pede, em certo momento do filme o poderoso Venom tem que enfrentar um arqui-inimigo de potencial semelhante.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Aquela criatura que primeiro migrou do astronauta para a socorrista e, depois, dela para uma senhora asiática e para uma menina loirinha, acabou, finalmente, no corpo de Carlton Drake. A intenção do malévolo Riot era liderar uma nova incursão fora da Terra para pegar mais de seus “irmãozinhos” e, depois, voltar para tocar terror no nosso planeta.

Como Venom é uma criatura parecida com o seu hospedeiro, ou seja, capaz de gestos altruístas e também egoístas, ele se diz encantado com a Terra e com Brock e, por isso, vai ajudar o nosso mais novo herói a enfrentar Riot e Drake. E aí o filme tem a sua esperada “batalha final” entre dois antagonistas de peso praticamente igual.

Entre aquele início do acidente da nave da Fundação Vida e esse embate final entre Venom e Riot, temos um filme recheado de perseguições a Brock e um pouco sobre a relação dele com Anne. A produção acerta, a meu ver, ao aprofundar no personagem de Brock, mostrando a sua vida antes e após o fim da sua carreira, a sua relação com a vizinhança e outros detalhes que trazem “molho” para a história.

As cenas de perseguição e a descoberta de Brock sobre todo o potencial de Venom foram muito bem feitas. Como podem os filmes de super heróis, também existe um equilíbrio interessante entre cenas de ação, tiroteio e pancadaria com sequências recheadas de humor, suspense e uma pitadinha de drama e romance. Esse caldeirão de gêneros é o que faz das histórias baseadas em HQ o que elas são.

Gostei do humor e dos personagens menos caricaturais e mais realistas de Venom. Acho que o filme tem um bom ritmo e personagens bem desenvolvidos. Também achei interessante como a história valoriza dois “losers”, duas figuras que são vistas como “perdedores” em seus respectivos planetas: Eddie Brock e Venom.

Todos, inclusive os “perdedores”, são capazes de grandes feitos. Você não precisa ser o Superman para fazer isso. Acho que esta talvez tenha sido a grande jogada das HQs a partir de um certo momento da sua evolução como obra artística. Deixar de valorizar os “super humanos” e começar a dar protagonismo para pessoas imperfeitas e comuns capazes de ações incríveis.

Também acho bacana quando um filme não esconde o “lado sombrio” que todos nós temos. Porque o ideal é não ignorarmos esse lado sombrio e sim sabermos lidar com ele. Não alimentá-lo, mas saber que ele existe e que precisa ser controlado. Venom trata disso e trata sobre outras questões relacionadas com o controle do lado sombrio. Uma proposta bacana, pois, e diferenciada em relação aos filmes de HQ. Eu gostei.

NOTA: 8,7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Os personagens mais interessantes do filme são Eddie Brock e Venom. De todos os filmes que eu já assisti com Tom Hardy – não foram tantos assim, devo ponderar -, este foi, sem dúvida, o mais interessante. Para mim, Hardy brilha nessa produção. Ele não exagera na interpretação, o que é um ponto fundamental para um filme que pretende dar protagonismo para um sujeito comum colocado em situações extraordinárias. Um belo trabalho do ator, sem dúvidas.

Além dele, fazem um bom trabalho, mas alguns degraus mais abaixo, a atriz Michelle Williams, que vive a ex-noiva de Brock; Riz Ahmed, como o ambicioso empresário Carlton Drake; Scott Haze como o chefe de segurança da empresa de Drake, Roland Treece; Reid Scott como o Dr. Dan Lewis e Jenny Slate como a Dra. Dora Skirth, dois médicos que trabalham na Fundação Vida; Melora Walters como a moradora de rua Maria; Woody Harrelson como Cletus Kasady (que aparece só na sequência de cenas extras após os créditos finais); Peggy Lu como Mrs. Chen, a comerciante que costuma atender Brock e ser assaltada.

Merecem ser mencionados alguns hospedeiros dos alienígenas que não conseguiram ficar muito tempo em corpos humanos sem matá-los. São pessoas sem fala no filme, praticamente, mas que acabaram aparecendo um bocado em cena. Michelle Lee como a socorrista que hospeda Riot logo após socorrer o astronauta sobrevivente; Vickie Eng como a senhora asiática que faz boa parte do transporte de Riot até os Estados Unidos; e Zeva DuVall como a garotinha que leva Riot até a Fundação Vida; Jared Bankens e Martin Bats Bradford como Isaac e Jacob, dois hospedeiros de Blue.

Entre os aspectos técnicos do filme, destaque para a direção de fotografia de Matthew Libatique; para a trilha sonora de Ludwig Göransson; para a edição de Alan Baumgarten e Maryann Brandon; para o design de produção de Oliver Scholl; para a direção de arte de Christophe Couzon, Doug Fick, Martin Gendron, Gregory S. Hooper, Drew Monahan, Troy Sizemore e James F. Truesdale; para a decoração de set de Alice Felton; para os figurinos de Kelli Jones e para o excelente trabalho feito na Maquiagem, pelas dezenas de profissionais do Departamento de Arte, pelo Departamento de Som, pelos Efeitos Especiais e pelos Efeitos Visuais. Impressionante a lista de profissionais envolvidos com os Efeitos Visuais, aliás. Mas, sem eles, esse filme não seria o que ele é. Incrível o trabalho deles.

Venom estreou no dia 2 de outubro de 2018 na Alemanha e, a partir do dia seguinte, no Reino Unido, na Indonésia, na Irlanda, na Coreia do Sul e em Taiwan. No Brasil, o filme estreou no dia 4 de outubro. Assisti ele logo na sequência da sua estreia e em 3D – que eu sempre acho uma boa pedida, porque dá muito mais profundidade para as cenas e melhora a nossa experiência, especialmente em filmes de ação.

Agora, vale falarmos de algumas curiosidades sobre esta produção. O filho de Tom Hardy, Louis Thomas Hardy, é fã de Venom. Isso estimulou o ator a querer fazer o personagem. Hardy comentou: “Eu queria fazer algo que meu filho pudesse assistir. Então eu fiz algo em que eu mordo a cabeça das pessoas”. Louis orientou o pai sobre como ele deveria retratar Brock/Venom, já que o ator conhecia pouco os personagens.

Achei curiosa essa história de Hardy e do filho porque, na sessão que eu fui assistir Venom, uma avó levou dois netos – ou um neto e seu amigo, não sei ao certo – para ver ao filme. Detalhe: em 3D e legendado. Lá pelas tantas, quando a pancadaria começou para valer, eles saíram do cinema. Sim, para os mais sensíveis, é bom saber que este filme tem uma boa dose de violência e talvez não seja indicado para crianças menores. 😉

Vale citar outro comentário de Tom Hardy sobre Venom, que ele considera como um palhaço trágico: “Há algo de engraçado nas circunstâncias de se ter um presente trágico. É uma superpotência que você não quer, mas ao mesmo tempo que ama você. Isso faz você se sentir especial. Ele é um herói relutante e um anti-herói”. Achei uma bela definição.

Tom Hardy gravou as falas de Venom durante a pré-produção. Quando as filmagens começaram, essas falas foram reproduzidas para o ator através de um fone de ouvido para reproduzir as “conversas” de Brock com Venom.

Desde 2007 se falava em um spin-off de Homem-Aranha – que seria um filme de Venom. Várias tentativas e promessas foram feitas desde então, mas só em 2018 o filme de Venom se materializou.

Venom foi lançado no ano em que os quadrinhos do personagem completaram 30 anos – a HQ dele foi lançada em maio de 1988.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Admito que, ao esperar as cenas extras após os créditos de Venom, não reconheci o personagem de Woody Harrelson. Ele parecia um super-vilão, mas eu não sabia de quem se tratava. Mas o personagem de Harrelson é Cletus Kasady, o nome de batismo do psicopata e super-vilão Carnage (ou Carnificina, segundo este artigo da Wikipédia). Vale dar uma olhada nesse artigo para saber o que nos espera em uma continuação de Venom ou do Homem-Aranha. 😉

Vendo as notas de produção do filme, fiquei sabendo que a origem de Venom, na verdade, foi a relação do alienígena com o Homem-Aranha. Como o personagem não podia ser citado nesse novo filme, arranjaram a Fundação Vida como “desculpa” para introduzir Venom na terra. Interessante. Espero que isso não tenha irritado (muito) os fãs do personagem. Afinal, acho que funcionou bem a nova saída que eles deram – e o paralelo com Musk torna essa parte do filme interessante.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,1 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 171 críticas negativas e 74 textos positivos para o filme – o que lhe garante uma aprovação de apenas 30% e uma nota média de 4,5. Achei os críticos, especialmente, bastante duros com esta produção. Não entendi, francamente, porque tanta rejeição para esta produção. Se vocês também não gostaram, deixem comentários por aqui para eu entender melhor. Quem sabe me faltou conhecer melhor o personagem para saber se o diretor Ruben Fleischer e os seus roteiristas realmente fizeram besteira com Venom? Não sei, não entendi. 😉

O site Metacritic segue a linha do Rotten Tomatoes e apresenta um “metascore” de apenas 35 para Venom. Esse metascore é fruto de 28 críticas medianas, de 14 críticas negativas e de quatro críticas positivas.

Enquanto os críticos desprezam Venom, o filme vem levando multidões aos cinemas. Segundo o site Box Office Mojo, Venom teria custado US$ 100 milhões e faturado, até o dia 11 de outubro, pouco mais de US$ 107,1 milhões nos Estados Unidos e pouco mais de US$ 127,1 milhões nos outros mercados em que o filme estreou. Ou seja, a produção fez cerca de US$ 234,2 milhões em cerca de 10 dias em cartaz. Caminha com passos largos para faturar bem para as distribuidoras Sony e Columbia, apesar das críticas majoritariamente negativas.

Venom é uma produção 100% dos Estados Unidos. Por isso o filme passa a figurar na lista de produções que atendem a uma votação feita há algum tempo aqui no blog – na qual vocês pediam filmes made in USA.

CONCLUSÃO: Um herói que é “gente como a gente”, cheio de defeitos e de boas intenções. E, na verdade, ele em si não tem nenhum grande super poder, mas tem uma parceria igualmente inusitada. Um filme envolvente e bem dirigido, com um bom desenvolvimento de personagens e ótimos efeitos especiais. Bem ao gosto de quem curte o gênero. Um entretenimento competente que segue a linha dos filmes recentes dos heróis de HQ, ou seja, que torna os personagens mais complexos e dinâmicos, sem ignorar o “lado sombrio” que alguns deles possuem. Uma boa pedida.

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Zootopia

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Há muito os filmes de animação são feitos mais para adultos do que para crianças. Não que elas não se divirtam. Os principais estúdios cuidam bem de fazer atrações que tem diferentes camadas de interpretação e de leitura e, claro, os filmes de animação também agradam às crianças. Mas são os adultos os que realmente se esbaldam e que, muitas vezes, conseguem tirar a “moral da história” de maneira mais completa. Zootopia não foge desta regra. Mas diferente de outros filmes de animação dos últimos anos, mais que fazer pensar, ele diverte. E faz isso muito, muito bem.

A HISTÓRIA: Começa com uma presa fugindo de um predador. Por milhares de anos, conta a narrativa, o medo, a traição e o desejo por sangue dominaram a relação entre os animais. Crianças em uma apresentação de teatro falam desta realidade que acabava em morte, mas que agora tudo é diferente. Cada animal pode ser o que quiser, independente se é presa ou predador.

A protagonista da peça é Judy Hopps (voz de Ginnifer Goodwin) que diz, para o desespero dos pais e para a piada da cidade, que um dia será uma policial. Mesmos os pais dizendo para ela que uma coelha nunca foi uma policial, ela coloca esta meta na cabeça e consegue se formar na academia, indo trabalhar na Zootopia, “cidade grande” em que os animais são, de fato, o que eles quiserem.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Zootopia): Minha melhor escolha, e ela foi um tanto “incidental”, foi fechar 2016 assistindo a um filme de animação. Poucas produções são tão divertidas quanto estas. E acertei ao escolher Zootopia, que é diversão pura.

Comento que foi um tanto “sem querer” assistir a Zootopia porque a ideia inicial era assistir a Toni Erdmann, um dos filmes mais citados como possível vencedor da categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira do Oscar 2017. Mas surgiram algum problemas e eu tive que mudar de planos. E aí surgiu a oportunidade de assistir a Zootopia em 3D. Melhor, impossível.

A verdade era que eu estava precisando de um filme como Zootopia para fechar 2016 e para abrir 2017 com alegrias e boas energias. Como normalmente acontece com os filmes de animação, Zootopia é diversão pura. Além de ter algumas mensagens muito bacanas.

Quem acompanha o blog sabe que muitas vezes eu deixo os filmes de animação por último na lista para o Oscar. Com isso, acabo perdendo algumas grandes produções no caminho. Mas no final de 2016 eu resolvi fazer um pouco diferente. Afinal, precisamos inovar sempre e é importante começar a renovar conceitos e práticas.

Então resolvi ir atrás de alguns dos maiores sucessos de 2016 que eu não assisti. Zootopia foi a sétima maior bilheteria de 2016 nos Estados Unidos. Apenas por isso e pelo fato do filme ser um dos grandes cotados ao Oscar de Melhor Animação, se justificava logo tentar assisti-lo. Fiz isso no dia 31 de dezembro e foi um grande presente.

A primeira e forte mensagem de Zootopia é que vale a pena ir atrás dos seus sonhos, mesmo que os seus pais e amigos não acreditem em você ou tenham medo por você, vale ir atrás do que você acha certo. Como outras produções de Hollywood recentes, mas filmes normais e não de animação, Zootopia tem uma protagonista feminina (no caso, uma fêmea) que mostra não apenas a força da “mulher”, mas também surfa a onda da valorização do feminino que as nossas sociedades estão vivendo.

Zootopia nasce, assim, acertando tanto pela protagonista feminina/fêmea quanto pela mensagem da quebra de paradigmas e da busca de nossos sonhos. A mensagem seguinte do filme é mostrar que as pessoas não devem ser classificadas e se contentarem com o que o resto do mundo espera delas. Isso fica claro com as reflexões sobre “presas e predadores”. Mensagem que está desde o início e até o final da produção.

Não por acaso o roteiro de Jared Bush e Phil Johnson, baseado na história criada pela dupla e por Byron Howard, Rich Moore, Jim Reardon, Josie Trinidad e Jennifer Lee, coloca em evidência a amizade entre a “presa potencial” Judy Hopps, a primeira mamífero a se tornar uma policial no mundo dos bichos, e o “predador potencial” Nick Wilde (voz de Jason Bateman), uma raposa astuta que vive de dar golpes.

O primeiro contato entre eles é perfeito. Em seu primeiro dia como policial, a protagonista Judy é colocada na função de “guarda de trânsito” e está sedenta por fazer algo diferente. Por ter ação. Alertada pelos pais Bonnie (voz de Bonnie Hunt) e Stu Hopps (voz de Don Lake) para que tenha cuidado, especialmente com raposas, ela tem a curiosidade logo despertada pelo suspeito Nick.

Depois de ajudá-lo a comprar um picolé gigante para o seu “filho”, Judy segue o rastro do vigarista até perceber o golpe que ele dá para faturar muito dinheiro. De forma inteligente, o roteiro mostra como ali nasce uma amizade que será fundamental para Judy e para a história que o espectador vai acompanhar.

Além de belas mensagens, Zootopia se destaca não apenas pela qualidade de sua arte e da animação empregada na produção, mas principalmente pela aposta diferenciada em uma história policial. Como acontece em filmes clássicos do gênero, Zootopia acaba tendo muitos elementos de suspense, investigação e de ação pura e dura. Como é possível apenas em filmes de animação, a história é conduzida por animais, o que garante a diversão, certamente, do público infantil – inclusive dos mais jovens.

Aí está o que eu comentava lá no início. Se o roteiro, as tiradas e os diálogos de Zootopia vão agradar em cheio aos adultos, com algumas “pitadas” de realismo que apenas um adulto vai entender, por outro lado as escolhas da animação caem como uma luva para o público infantil. Os personagens desta produção são encantadores e, o que é uma qualidade importante do filme, muito bem desenvolvidos pelos roteiristas.

Desta forma, acompanhamos a saga de Judy na realização de seu sonho. Como a vida de um adulto pressupõe, esta busca é cheia de dias bons e ruins, de frustração e de alegrias. Neste sentido, muitos adultos se sentirão representados. As crianças devem adorar a fofura dos personagens e ficarem presas com as cenas de aventura e de ação.

Quando começa a trabalhar como policial, 15 anos depois de comentar em uma peça de escola que este era o seu sonho, Judy faz parte de um programa da prefeitura de Zootopia para a “inclusão de mamíferos” no DPZ (Departamento Policial de Zootopia). O caso mais urgente que o departamento tem que solucionar é o desaparecimento de 14 cidadãos.

Contrariando a vontade do chefe Bogo (voz de Idris Elba), que gostaria de deixar Judy em um papel secundário no DPZ, a nova recruta acaba tendo a sorte de ser escalada para resolver a um dos desaparecimentos, o da doninha Emmitt Otterton.

Ela tem esta sorte depois que a esposa de Emmit, a senhora Otterton (voz de Octavia Spencer) invade a sala do chefe Bogo e, na sequência, a vice-prefeita Bellwether (voz de Jenny Slate) faz o mesmo. Pressionado, o chefe Bogo dá 48 horas para Judy resolver o caso. Aí começa a parte mais envolvente da produção, com Judy mostrando muita sagacidade para resolver o caso e, de quebra, solucionar todos os demais desaparecimentos.

Neste momento, qualquer um poderia presumir que o filme terminaria ali. Mas aí está uma das grandes sacadas da produção. Ela não termina com o “caso policial” sendo resolvido, mas prossegue para mostrar que o preconceito e que a mania da sociedade em “classificar” as pessoas/bichos é algo injusto e irreal. Ninguém “nasce” com uma sina e deve ser o que os outros esperam. Todos tem a capacidade de se recriarem e de buscarem fazer o melhor.

Muito bonito, neste sentido, e também surpreendente, a história por trás do “malandro” Nick. O roteiro nos faz desconfiar dele, assim como Judy, até que ele conta para ela a razão que o fez caminhar na trilha da malandragem. Quando criança, enquanto Judy sonhava em ser uma policial, Nick sonhava em ser um escoteiro. Até que ele é “sacaneado” por uma turma de escoteiros e sofre preconceito feroz.

A reação dele, diferente de Judy, que sofreu na pele a gozação e o preconceito mas não foi vencida por eles, foi fazer exatamente o que a “sociedade” esperava dele. Eis aí uma grande mensagem para todos nós. Não apenas que não devemos ser injustos e classificar as pessoas, colocá-las em uma caixinha e esperar que elas ajam como a maioria deseja, mas que também precisamos conhecer a história das pessoas antes de julgá-las. E isso vale para todos.

A sociedade muitas vezes é injusta, não é inclusiva. E isso faz algumas pessoas desviarem do caminho que elas inicialmente desejavam e ir para uma direção equivocada que outros as impeliram a seguir. Para finalizar a produção, Judy aprende que ela mesma errou, pede desculpas, tenta corrigir o seu erro e, mais que isso, nos dá a mensagem de que vale a pena lutar para fazer deste um mundo melhor.

Francamente, não consigo imaginar mensagens mais poderosas e propícias para os nossos dias do que estas. Especialmente em uma fase em que vários países estão trilhando o caminho da estigmatização e da “classificação” das pessoas entre “nós e eles”, entre pessoas “da terra” e “estrangeiros”, as mensagens de Zootopia se revelam ainda mais importantes.

Com uma história envolvente e muito, muito bem conduzida pelos diretores Byron Howard, Rich Moore e Jared Bush, Zootopia tem alguns momentos hilários e inesquecíveis. Eu ri para valer com aquela sequência no “Detran”. Quem já dependeu de um Detran sabe o quanto a impaciência é um elemento importante naquele cenário. Então colocar “bichos preguiça” como atendentes foi uma sacada genial. Para mim, o momento mais engraçado da produção de longe.

Vale a pena assistir a esta produção na versão 3D. Este foi, aliás, o grande achado do cinema nos últimos anos. Realmente é encantador e um grande diferencial ver os filmes com esta tecnologia que torna as histórias ainda mais interessantes e envolventes. O filme ganha em beleza e em diversão.

Apesar de ter achado Zootopia ótimo, vejo que a produção acaba exagerando um pouco na “releitura” de estereótipos de filmes policiais. Ele poderia ter inovado um pouco mais, neste sentido, do que apenas buscado ironizar velhos ícones – como o “Poderoso Chefão”, entre outros.

Também achei que apesar de ter temáticas muito atuais e debates necessários, ser envolvente e divertido, Zootopia não me emocionou como outras produções recentes que venceram ou concorreram ao Oscar, como Inside Out (comentado aqui) e Mary and Max (com crítica neste link). Estes filmes tinham temáticas mais “densas” e humanas, por assim dizer. Menos divertidos, mas mais “existencialistas”. Para mim, foram mais marcantes que Zootopia, ainda que este último tenha sido mais divertido e, sem dúvida alguma, um entretenimento mais envolvente.

NOTA: 9,7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Tem um aspecto de Zootopia que eu não comentei antes. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Além da produção não terminar quando os desaparecimentos são esclarecidos, dando espaço para que o público reflita ainda mais sobre como pessoas boas erram e sobre como os estereótipos estão equivocados, achei interessante como a escolha dos roteiristas nos levam a mais uma reflexão sobre “a vida como ela é”.

Seguindo a linha de “os fins justificam os meios”, Bellwether utilizou pessoas inocentes para resolver a própria frustração. Mesmo usando o argumento de querer “empoderar” a maioria dos mamíferos, colocados em segundo plano pela minoria dos predadores, no fundo Bellwether estava buscando poder e o controle da sociedade. Bem ao estilo “a vida como ela é”, em que vemos bandidos e corruptos justificando os seus crimes pelo “bem da maioria” e da busca de “igualdade social” quando, no fundo, eles estão querendo poder e riqueza para si e nada mais.

Poucas vezes eu vi tantos nomes envolvidos na concepção da história de um filme. Imagino que cada um dos sete envolvidos nesta parte da produção tenha contribuído com alguma ideia importante para o filme, ou com algum personagem central, mas o roteiro é assinado mesmo por dois dos nomes da lista: Jared Bush e Phil Johnston. Bush também é um dos três nomes envolvidos na direção do filme. Sem dúvida alguma, um dos principais responsáveis pelo seu sucesso.

Os atores que dão as vozes para Judy e Nick, Ginnifer Goodwin e Jason Bateman, fazem um excelente trabalho. Mas a verdade é que todos os atores envolvidos no projeto estão muito bem. Eu destacaria, além dos dois já citados, Idris Elba, Jenny Slate, o ótimo J.K. Simmons como o prefeito Lionheart, Alan Tudyk em uma super ponta como o bandido Duke Weaselton, Nate Torrence com o divertido policial Clawhauser (recepcionista do DPZ), Shakira como a artista Gazelle, Raymond S. Persi como o divertido bicho preguiça amigo de Nick chamado Flash, e Maurice LaMarche dando um toque muito especial em seu Mr. Big.

Em um filme como este, com muitas cenas de ação, é fundamental a trilha sonora envolvente de Michael Giacchino e a edição da dupla Jeremy Milton e Fabienne Rawley. Muito bem feitos e planejados o design de produção de Dan Cooper e David Goetz e a direção de arte de Matthias Lechner. E, claro, fundamental e de tirar o chapéu o trabalho dos 159 profissionais envolvidos no Departamento de Animação e para os 31 profissionais que atuaram no Departamento de Arte de Zootopia. Muito importante também o trabalho dos 34 profissionais envolvidos no Departamento de Som e dos 105 profissionais envolvidos nos Efeitos Visuais do filme.

Zootopia é, para mim, mais um clássico da Disney. O filme segue dois elementos-chave dos filmes do estúdio. Primeiro, o lado “bonitinho” de uma animação “fofinha” que deve agradar em cheia às crianças. Depois, as mensagens bacanas que o filme apresenta – afinal, para a Disney, um filme de animação nunca foi apenas diversão, mas também um canal para passar mensagens positivas e para fazer pensar nas escolhas que fazemos e na sociedade que vivemos e para a qual também contribuímos. Este é mais um filme que segue esta tradição da Disney.

Esta produção estreou no dia 11 de fevereiro de 2016 na Dinamarca e, no dia seguinte, na Espanha. Depois o filme foi chegando nos outros mercados e participando, inclusive, de três festivais e eventos de cinema. Em sua trajetória até agora, Zootopia colecionou 16 prêmios e foi indicado a outros 39, incluindo a indicação ao Globo de Ouro de Melhor Filme de Animação.

Entre os prêmios que recebeu, destaque por ele ter sido reconhecido 13 vezes como a Melhor Animação do ano segundo associações de críticos como as de Toronto, de St. Louis, de Nova York e de Phoenix, entre outras, além deste prêmio conferido pelo Hollywood Film Awards. Vale destacar também que Zootopia é a única animação na lista dos 10 melhores filmes do ano segundo o AFI Awards. Ou seja, o filme sai bem cotado para o Globo de Ouro e para o Oscar.

Zootopia teria custado cerca de US$ 150 milhões e faturado, apenas nos Estados Unidos, cerca de US$ 341,3 milhões – a sétima maior bilheteria de 2016. Nos outros países em que o filme estreou ele fez outros US$ 682,5 milhões. No total, portanto, Zootopia teria superado a barreira do US$ 1 bilhão. Nada mal, hein? Mais um grande sucesso da Disney, pois.

Agora, algumas curiosidades sobre a produção. Inicialmente Zootopia tinha a raposa Nick como protagonista. Mas o público-teste da produção disse que não conseguia se conectar com o personagem, por isso a história foi modificada para que Judy fosse a protagonista – sem dúvida alguma um grande acerto dos realizadores.

O roteirista Jared Bush assumiu a função de codiretor do filme quando os produtores resolveram mudar o protagonismo da história de Nick para Judy em novembro de 2014.

Esta produção está cheia de referências a outros filmes da Disney, especialmente à Frozen, e a elementos da tecnologia, como Apple e AT&T. Também há referências à Breaking Bad – quando Doug, no laboratório improvisado em um trem, fala que “Walter e Jesse estão aqui”, por exemplo. Estes eram os nomes dos protagonistas do ótimo seriado de TV.

O esquema de design e de cores das placas de Zootopia são uma clara homenagem às placas da Flórida – Estado em que está um dos parques Walt Disney World.

Esta produção também tem homenagens para Star Wars e Avatar.

Jared Bush pode ser duplamente indicado no Oscar 2017. Ele é também um dos roteiristas de Moana, filme cotado para estar entre os finalistas da premiação. Zootopia é o primeiro filme em que ele trabalha como codiretor.

O trio de diretores de Zootopia nunca ganhou um Oscar – Byron Howard e Rich Moore já foram indicados a uma estatueta dourada, respectivamente por Bolt e Wreck-It Ralph, mas eles perderam o prêmio para Wall-E e Brave.

Esta é uma produção 100% dos Estados Unidos, por isso o filme entra na lista de produções que atendem a uma votação feita aqui no blog há bastante tempo.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,1 para esta produção, enquanto os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 235 críticas positivas e cinco negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 98% e uma nota média de 8,1. A avaliação de público e de crítico são muito boas, acima das médias dos dois sites, sinal que o filme teve sucesso não apenas financeiro, mas de crítica também.

Como hoje é o primeiro dia de 2017, nada melhor que publicar um texto aqui no blog sobre uma realidade “utópica”, não é mesmo? Ainda que o ambiente de Zootopia seja feito de animais, certamente nos identificamos com os personagens. Vale também tentarmos fazer das nossas sociedades ambientes mais “utópicos” se isso significar ambientes melhores. Um Feliz 2017 para todos vocês, meus queridos e queridas leitores. Que este seja um ano de muitas realizações e alegrias para vocês e os seus! E que este seja um ano de muitos e muitos filmes bons pra gente!

CONCLUSÃO: Mais que filosofia, o que você encontra em Zootopia é diversão. Diferente de tantas outras produções de animação que invadiram o cinema nos últimos anos, este filme aposta no estilo policial, levando para a animação o que temos de melhor neste estilo de produção.

Há suspense, mistério e muita ação em Zootopia, assim como algumas mensagens importantes sobre amizade, buscar o nosso sonho e fazer um mundo melhor e, o que é mais bacana, romper estereótipos. Muito bacana. Se você, como eu, demorou para assistir a este filme, está na hora de ir atrás. Vale a experiência, sem dúvidas.

PALPITES PARA O OSCAR 2017: Zootopia faz parte da lista de 27 produções que estão habilitadas a uma das cinco vagas no Oscar 2017 de Melhor Animação. A sétima maior bilheteria do ano dificilmente ficará fora desta lista. Ainda não assisti aos outros filmes bem cotados nesta categoria, mas acho sim que Zootopia tem tudo para chegar lá.

Bem feito, criativo, com personagens bem desenvolvidos e uma história envolvente e que ousa em levar uma produção “policial” para a animação, Zootopia encanta crianças, jovens e adultos por motivos diferentes. Apenas por isso ele tem um diferencial importante. Diferente de outras produções que ganharam um Oscar ou que foram finalistas a uma estatueta em anos recentes, Zootopia foi pensado para todos os públicos.

Para resumir, acho que o filme aparecerá na lista dos cinco finalistas ao Oscar. Ganhar… bem, para falar melhor sobre as chances de Zootopia eu preciso antes assistir aos seus concorrentes. Da minha parte, acho que filmes que venceram em anos anteriores me emocionaram e interessaram mais. Então vou esperar se algum ainda me encanta acima desta produção. Veremos…