Venom

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Eis um personagem de HQ que era um ilustre desconhecido para mim. Tinha visto a alguns trailers de Venom, mas não sabia muito sobre a história do personagem antes de ir conferir ao filme. Gostei do que eu vi. Nem tanto pela história ser surpreendente, mas pela condução do diretor Ruben Fleischer e, principalmente, pelo ótimo trabalho do ator Tom Hardy. O astro, que até hoje não tinha me convencido muito, neste filme conseguiu me fazer tirar o chapéu. Filme divertido e bem realizado.

A HISTÓRIA: Espaço sideral. Uma nave se aproxima da Terra e comunica que dará entrada no planeta. Na comunicação que fazem com Fundação Vida, os astronautas comentam que as espécimes estão bem. Perto de dar entrada na atmosfera terrestre, contudo, surge um pedido de “mayday” (socorro) vindo da nave. A espaçonave queima ao entrar na atmosfera e cai na Malásia Oriental. Logo uma equipe de resgate vai para o local e encontra um sobrevivente.

Esse sobrevivente é levado em uma ambulância. No trajeto, o paciente se revela como um hospedeiro de uma espécime alienígena, que se empodera de uma socorrista. Enquanto isso, equipes da Fundação Vida resgatam outras espécimes acondicionadas em cilindros impermeáveis. O projeto desta fundação envolvendo essas espécimes alienígenas é o que vai desencadear toda a trama deste filme.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Venom): Tenho alguns defeitos no meu currículo de cinéfila. Infelizmente, pelo tanto que eu trabalho na vida fora do blog, eu não consigo tempo de assistir a tudo que eu gostaria. Assim, por exemplo, deixei de assistir a Deadpool, filme já com duas produções e que eu sei que tem a pegada mais “dark” e irreverente dos filmes baseados em HQ.

Ao comentar sobre isso, que eu não assisti ainda a nenhum Deadpool, quero dizer que não ignoro também o estilo de filme que esta produção representa. Diferente de outras produções de super heróis, nas quais eles são sempre valentes, honrados e altruístas, Deadpool e, agora, esse Venom, mostram outro perfil de heróis. Nesses filmes eles são mais complexos e, apesar de buscar fazer o que é certo na maioria das vezes, em algumas situações eles também se mostram falhos e com toques de egoísmo.

Gostei de Venom por algumas razões. Primeiro, que achei inteligente e diferenciada a forma com que lidaram com seres extraterrestres. O cinema, na maioria das vezes, encara os aliens como invasores, que vão colocar a vida na terra em perigo, ou como seres graciosos que vem nos ajudar em algo – ou apenas nos divertir com as suas faltas de entendimento sobre como o ser humano funciona.

Por mais maluca que a ideia de Carlton Drake (Riz Ahmed), CEO da Fundação Vida, pudesse parecer, surge com certo “frescor” a ideia de utilizar vida alienígena para criar um “super humano” capaz de se adaptar mais facilmente à vida em outro planeta. O roteiro de Jeff Pinkner, Scott Rosenberg e Kelly Marcel, baseados na história desenvolvida para o cinema por Pinkner e Rosenberg e inspirados nos personagens de HQ criados por Todd McFarlane e David Michelinie, parecem fazer alusões interessantes a questões presentes atualmente na nossa sociedade.

Para começar, Carlton Drake me pareceu ser livremente inspirado em figuras como a de Elon Musk, CEO  da Tesla Motors e um sujeito fascinado pela vida fora da Terra. Drake se diz visionário e realmente procura saídas diferentes para problemas antigos, mas a partir de que preço? Aí entra em cena quase uma “lenda urbana” sobre algumas empresas que utilizam vidas humanas como mercadorias para fazer os seus testes e experimentos.

O ponto determinante de Venom surge justamente quando o jornalista Eddie Brock (Tom Hardy) é chamado para fazer uma entrevista com Carlton Drake e confronta o empresário com as mortes de pessoas miseráveis por causa de testes da Fundação Vida.

Poderoso, Drake faz com que Brock pague caro por sua “insolência”. Essa é uma parte fraca do filme, porque de forma um tanto displicente os roteiristas mostram como Brock “perde tudo”, do emprego até a noiva Anne Weying (Michelle Williams) por causa daquela entrevista desastrosa.

Se bem que é verdade, e Anne deixa claro isso em determinado ponto da história, que ela não termina com Brock por causa de Drake, e sim por causa da atitude egoísta do ex-noivo. De fato, Brock passa os seus interesses acima do zelo e do bom senso e acaba colocando tudo a perder. Mas aí está o lado interessante deste filme, que não nos apresenta um herói acima de qualquer suspeita, mas um sujeito que apresenta falhas e problemas – algo positivo se queremos aproximar o personagem da audiência.

Indignada com os sacrifícios humanos que a Fundação Vida começa a fazer em nome do “avanço científico”, a Dra. Dora Skirth (Jenny Slate) convida Brock a conferir de perto o perigo da equipe dela estar lidando com seres alienígenas. Em sua incursão desastrada no local, Brock acaba virando hospedeiro de uma destas criaturas – justamente Venom.

Como em qualquer relação de simbiose, os dois organismos vivem uma íntima relação de dependência. Venom precisa de Brock para sobreviver na Terra e Brock acaba tirando proveito de Venom para sobreviver em meio a tantas perseguições e desafios que surgem com o projeto de Drake. Como um filme baseado em HQ pede, em certo momento do filme o poderoso Venom tem que enfrentar um arqui-inimigo de potencial semelhante.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Aquela criatura que primeiro migrou do astronauta para a socorrista e, depois, dela para uma senhora asiática e para uma menina loirinha, acabou, finalmente, no corpo de Carlton Drake. A intenção do malévolo Riot era liderar uma nova incursão fora da Terra para pegar mais de seus “irmãozinhos” e, depois, voltar para tocar terror no nosso planeta.

Como Venom é uma criatura parecida com o seu hospedeiro, ou seja, capaz de gestos altruístas e também egoístas, ele se diz encantado com a Terra e com Brock e, por isso, vai ajudar o nosso mais novo herói a enfrentar Riot e Drake. E aí o filme tem a sua esperada “batalha final” entre dois antagonistas de peso praticamente igual.

Entre aquele início do acidente da nave da Fundação Vida e esse embate final entre Venom e Riot, temos um filme recheado de perseguições a Brock e um pouco sobre a relação dele com Anne. A produção acerta, a meu ver, ao aprofundar no personagem de Brock, mostrando a sua vida antes e após o fim da sua carreira, a sua relação com a vizinhança e outros detalhes que trazem “molho” para a história.

As cenas de perseguição e a descoberta de Brock sobre todo o potencial de Venom foram muito bem feitas. Como podem os filmes de super heróis, também existe um equilíbrio interessante entre cenas de ação, tiroteio e pancadaria com sequências recheadas de humor, suspense e uma pitadinha de drama e romance. Esse caldeirão de gêneros é o que faz das histórias baseadas em HQ o que elas são.

Gostei do humor e dos personagens menos caricaturais e mais realistas de Venom. Acho que o filme tem um bom ritmo e personagens bem desenvolvidos. Também achei interessante como a história valoriza dois “losers”, duas figuras que são vistas como “perdedores” em seus respectivos planetas: Eddie Brock e Venom.

Todos, inclusive os “perdedores”, são capazes de grandes feitos. Você não precisa ser o Superman para fazer isso. Acho que esta talvez tenha sido a grande jogada das HQs a partir de um certo momento da sua evolução como obra artística. Deixar de valorizar os “super humanos” e começar a dar protagonismo para pessoas imperfeitas e comuns capazes de ações incríveis.

Também acho bacana quando um filme não esconde o “lado sombrio” que todos nós temos. Porque o ideal é não ignorarmos esse lado sombrio e sim sabermos lidar com ele. Não alimentá-lo, mas saber que ele existe e que precisa ser controlado. Venom trata disso e trata sobre outras questões relacionadas com o controle do lado sombrio. Uma proposta bacana, pois, e diferenciada em relação aos filmes de HQ. Eu gostei.

NOTA: 8,7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Os personagens mais interessantes do filme são Eddie Brock e Venom. De todos os filmes que eu já assisti com Tom Hardy – não foram tantos assim, devo ponderar -, este foi, sem dúvida, o mais interessante. Para mim, Hardy brilha nessa produção. Ele não exagera na interpretação, o que é um ponto fundamental para um filme que pretende dar protagonismo para um sujeito comum colocado em situações extraordinárias. Um belo trabalho do ator, sem dúvidas.

Além dele, fazem um bom trabalho, mas alguns degraus mais abaixo, a atriz Michelle Williams, que vive a ex-noiva de Brock; Riz Ahmed, como o ambicioso empresário Carlton Drake; Scott Haze como o chefe de segurança da empresa de Drake, Roland Treece; Reid Scott como o Dr. Dan Lewis e Jenny Slate como a Dra. Dora Skirth, dois médicos que trabalham na Fundação Vida; Melora Walters como a moradora de rua Maria; Woody Harrelson como Cletus Kasady (que aparece só na sequência de cenas extras após os créditos finais); Peggy Lu como Mrs. Chen, a comerciante que costuma atender Brock e ser assaltada.

Merecem ser mencionados alguns hospedeiros dos alienígenas que não conseguiram ficar muito tempo em corpos humanos sem matá-los. São pessoas sem fala no filme, praticamente, mas que acabaram aparecendo um bocado em cena. Michelle Lee como a socorrista que hospeda Riot logo após socorrer o astronauta sobrevivente; Vickie Eng como a senhora asiática que faz boa parte do transporte de Riot até os Estados Unidos; e Zeva DuVall como a garotinha que leva Riot até a Fundação Vida; Jared Bankens e Martin Bats Bradford como Isaac e Jacob, dois hospedeiros de Blue.

Entre os aspectos técnicos do filme, destaque para a direção de fotografia de Matthew Libatique; para a trilha sonora de Ludwig Göransson; para a edição de Alan Baumgarten e Maryann Brandon; para o design de produção de Oliver Scholl; para a direção de arte de Christophe Couzon, Doug Fick, Martin Gendron, Gregory S. Hooper, Drew Monahan, Troy Sizemore e James F. Truesdale; para a decoração de set de Alice Felton; para os figurinos de Kelli Jones e para o excelente trabalho feito na Maquiagem, pelas dezenas de profissionais do Departamento de Arte, pelo Departamento de Som, pelos Efeitos Especiais e pelos Efeitos Visuais. Impressionante a lista de profissionais envolvidos com os Efeitos Visuais, aliás. Mas, sem eles, esse filme não seria o que ele é. Incrível o trabalho deles.

Venom estreou no dia 2 de outubro de 2018 na Alemanha e, a partir do dia seguinte, no Reino Unido, na Indonésia, na Irlanda, na Coreia do Sul e em Taiwan. No Brasil, o filme estreou no dia 4 de outubro. Assisti ele logo na sequência da sua estreia e em 3D – que eu sempre acho uma boa pedida, porque dá muito mais profundidade para as cenas e melhora a nossa experiência, especialmente em filmes de ação.

Agora, vale falarmos de algumas curiosidades sobre esta produção. O filho de Tom Hardy, Louis Thomas Hardy, é fã de Venom. Isso estimulou o ator a querer fazer o personagem. Hardy comentou: “Eu queria fazer algo que meu filho pudesse assistir. Então eu fiz algo em que eu mordo a cabeça das pessoas”. Louis orientou o pai sobre como ele deveria retratar Brock/Venom, já que o ator conhecia pouco os personagens.

Achei curiosa essa história de Hardy e do filho porque, na sessão que eu fui assistir Venom, uma avó levou dois netos – ou um neto e seu amigo, não sei ao certo – para ver ao filme. Detalhe: em 3D e legendado. Lá pelas tantas, quando a pancadaria começou para valer, eles saíram do cinema. Sim, para os mais sensíveis, é bom saber que este filme tem uma boa dose de violência e talvez não seja indicado para crianças menores. 😉

Vale citar outro comentário de Tom Hardy sobre Venom, que ele considera como um palhaço trágico: “Há algo de engraçado nas circunstâncias de se ter um presente trágico. É uma superpotência que você não quer, mas ao mesmo tempo que ama você. Isso faz você se sentir especial. Ele é um herói relutante e um anti-herói”. Achei uma bela definição.

Tom Hardy gravou as falas de Venom durante a pré-produção. Quando as filmagens começaram, essas falas foram reproduzidas para o ator através de um fone de ouvido para reproduzir as “conversas” de Brock com Venom.

Desde 2007 se falava em um spin-off de Homem-Aranha – que seria um filme de Venom. Várias tentativas e promessas foram feitas desde então, mas só em 2018 o filme de Venom se materializou.

Venom foi lançado no ano em que os quadrinhos do personagem completaram 30 anos – a HQ dele foi lançada em maio de 1988.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Admito que, ao esperar as cenas extras após os créditos de Venom, não reconheci o personagem de Woody Harrelson. Ele parecia um super-vilão, mas eu não sabia de quem se tratava. Mas o personagem de Harrelson é Cletus Kasady, o nome de batismo do psicopata e super-vilão Carnage (ou Carnificina, segundo este artigo da Wikipédia). Vale dar uma olhada nesse artigo para saber o que nos espera em uma continuação de Venom ou do Homem-Aranha. 😉

Vendo as notas de produção do filme, fiquei sabendo que a origem de Venom, na verdade, foi a relação do alienígena com o Homem-Aranha. Como o personagem não podia ser citado nesse novo filme, arranjaram a Fundação Vida como “desculpa” para introduzir Venom na terra. Interessante. Espero que isso não tenha irritado (muito) os fãs do personagem. Afinal, acho que funcionou bem a nova saída que eles deram – e o paralelo com Musk torna essa parte do filme interessante.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,1 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 171 críticas negativas e 74 textos positivos para o filme – o que lhe garante uma aprovação de apenas 30% e uma nota média de 4,5. Achei os críticos, especialmente, bastante duros com esta produção. Não entendi, francamente, porque tanta rejeição para esta produção. Se vocês também não gostaram, deixem comentários por aqui para eu entender melhor. Quem sabe me faltou conhecer melhor o personagem para saber se o diretor Ruben Fleischer e os seus roteiristas realmente fizeram besteira com Venom? Não sei, não entendi. 😉

O site Metacritic segue a linha do Rotten Tomatoes e apresenta um “metascore” de apenas 35 para Venom. Esse metascore é fruto de 28 críticas medianas, de 14 críticas negativas e de quatro críticas positivas.

Enquanto os críticos desprezam Venom, o filme vem levando multidões aos cinemas. Segundo o site Box Office Mojo, Venom teria custado US$ 100 milhões e faturado, até o dia 11 de outubro, pouco mais de US$ 107,1 milhões nos Estados Unidos e pouco mais de US$ 127,1 milhões nos outros mercados em que o filme estreou. Ou seja, a produção fez cerca de US$ 234,2 milhões em cerca de 10 dias em cartaz. Caminha com passos largos para faturar bem para as distribuidoras Sony e Columbia, apesar das críticas majoritariamente negativas.

Venom é uma produção 100% dos Estados Unidos. Por isso o filme passa a figurar na lista de produções que atendem a uma votação feita há algum tempo aqui no blog – na qual vocês pediam filmes made in USA.

CONCLUSÃO: Um herói que é “gente como a gente”, cheio de defeitos e de boas intenções. E, na verdade, ele em si não tem nenhum grande super poder, mas tem uma parceria igualmente inusitada. Um filme envolvente e bem dirigido, com um bom desenvolvimento de personagens e ótimos efeitos especiais. Bem ao gosto de quem curte o gênero. Um entretenimento competente que segue a linha dos filmes recentes dos heróis de HQ, ou seja, que torna os personagens mais complexos e dinâmicos, sem ignorar o “lado sombrio” que alguns deles possuem. Uma boa pedida.

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Dunkirk

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Diversos filmes já mostraram cenas de algumas das mais importantes batalhas da Segunda Guerra Mundial. Esta seara não é nova e já foi muito explorada, mas o diretor Christopher Nolan resolveu fazer a sua própria contribuição neste filão que parece inesgotável. Com Dunkirk, Nolan nos apresenta um filme tecnicamente bem acabado, cheio de qualidades e com uma narrativa um tanto “ousada”. Apesar de ser competente e de ter alguns grandes momentos, Dunkirk não consegue entrar na lista das melhores produções do gênero. Talvez porque, apesar de estar sempre próximo dos atores, ele realmente não contar nenhuma história em particular. E isso faz falta.

A HISTÓRIA: Um grupo de soldados caminha por uma rua enquanto folhetos esvoaçam pelos ares. A introdução do filme nos diz que o inimigo levou ingleses e franceses para o mar, os encurralando na orla. Os soldados destas duas nações que tentam conter os nazistas aguardam, em Dunkirk, por seu destino, por um resgate ou por algum milagre. Os papéis que estão esvoaçando pelas ruas pedem a rendição dos inimigos. Aquele punhado de soldados procura por restos de água ou de cigarros, até que os tiros começam a voar por todos os lados. Daquele grupo, apenas Tommy (Fionn Whitehead) consegue pular sobre um portão e escapar, chegando até a praia. Ali, milhares de homens estão esperando por um resgate.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso eu recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Dunkirk): Por um bom período de tempo os filmes sobre a Segunda Guerra Mundial contavam a história de alguns dos heróis que garantiram a derrota do nazismo. Eram produções essencialmente de batalhas, com muitas mortes, explosões, e algum drama humano pincelado aqui e ali. Sempre havia um nome de peso envolvido nestes projetos – na frente e por trás das câmeras.

Depois, com o passar do tempo e especialmente nos últimos anos, começaram a pipocar os filmes que mostravam mais o contexto social da época e a postura e o comportamento dos cidadãos comuns. Estas produções deixavam a questão dos campos de batalha para trás e focavam nas pessoas, no que acontecia nos guetos, nas cidades ou nas fazendas, na casa das pessoas.

Neste contexto, entre vários outros títulos, tenho comentado aqui no blog filmes impressionantes como Lore (comentado aqui), e outros menos impactantes, mas também interessantes e mais recentes, como Un Sac de Billes (com crítica neste link). Não tenho comentado aqui no blog, mas virou um marco neste tipo de filme que não tratava dos campos de batalha mas de “heróis anônimos”, o ótimo Schindler’s List – não tenho este filme comentado aqui, aliás, porque assisti ele antes de começar este blog.

Então o filme de Nolan, por mais competente que ele seja, na verdade não apresenta uma grande ideia nova. Por um lado, ele investe naquela fórmula clássica de filmes sobre a Segunda Guerra Mundial que apresenta a dureza e a crueldade de um campo de batalha – outros filmes fizeram isso com maestria, como Saving Private Ryan, outra produção exemplar de Steven Spielberg – a exemplo de Schindler’s List, que também leva a assinatura do diretor. E por outro lado ele investe no filão de valorizar a história de anônimos que fizeram a diferença no conflito e que viraram heróis – mesmo que ninguém lembre de seus nomes.

Fiz esta introdução para argumentar que Dunkirk não reinventa a roda e nem apresenta algo realmente novo nesta seara bem explorada de filmes sobre a Segunda Guerra Mundial. Ainda assim, como eu comentei lá no início e vou falar no final deste post, Dunkirk é um belo filme. Muito bem acabado, com técnica competente e feita com esmero. Sobre isso, não dá para criticar Nolan. Ele realmente mostra que é um diretor que entende muito, mas muito bem mesmo de seu ofício.

Nolan também escreveu o roteiro de Dunkirk. E é exatamente nesta parte do filme, em seu roteiro, que eu acho que esta produção deixa um pouco a desejar. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Verdade que não deixa de ser uma descoberta interessante quando percebemos que os três “capítulos”/partes desta produção não se desenvolvem no mesmo tempo. Ou seja, quando percebemos que Dunkirk não tem uma narrativa linear. Essa “sacada” do diretor/roteirista vamos perceber somente depois de um tempo da narrativa.

Esta cartada narrativa de Nolan é o que ele conseguiu de mais diferenciado nesta produção. Ainda que todas as narrativas apareçam para o espectador uma detrás da outra, dando a ideia inicial de que elas estariam ocorrendo de forma paralela, descobrimos, lá pelas tantas, que existe uma “sobreposição” de narrativas. Entendemos isso através do primeiro soldado resgatado por Mr. Dawson (Mark Rylance) do mar. Este soldado, apavorado com a ideia de voltar para a orla, e que é interpretado pelo ator Cillian Murphy, nos aparece em dois momentos distintos: primeiro, quando ele é resgatado, em uma cena de dia; e, depois, quando ele sofre o ataque que o torna um náufrago, sequência que ocorre à noite. Nesta hora percebemos que a linha temporal do filme está se desenvolvendo em momentos diferentes.

Em outras palavras, as narrativas da praia (em maior grau) e do mar estão um pouco “atrasadas” em relação ao que vemos ocorrendo no ar. Nolan divide a história em três linhas narrativas: o molhe, com uma semana; o mar, com um dia; e o ar, com uma hora. Uma sacada interessante. Mas o que cada identificação de tempo destas significa? (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Significa que tudo o que aconteceu na terra, toda aquela formação de soldados, a busca pela preservação do molhe e os preparativos para a partida dos ingleses rumo a casa exigiu uma semana de trabalho. O que vemos em cena em relação ao molhe levou uma semana de trabalho e preparativos.

Por outro lado, tudo o que o espectador vê acontecendo no mar, que é o grosso da narrativa, na verdade, teria ocorrido no período de um dia – e que, vamos concluir depois, começou na tarde de um determinado dia e terminou no final da tarde do dia seguinte – sabemos isso porque temos dois períodos de dia e um período de noite na narrativa. Finalmente, toda a ação do filme que envolve os caças, os bombardeios e os demais aviões no ar teria durado uma hora. Mas cada parte destas três “linhas narrativas” está interligada e influencia uma na outra.

Esta é uma parte interessante do roteiro de Nolan. A parte não tão interessante assim é que apesar desta boa sacada do roteiro e da narrativa competente de Nolan, o que temos na nossa frente é um ir-e-vir de ataques aéreos contra destróieres ingleses e a tentativa dos soldados em fuga daquela praia de se salvarem. Não saímos daí.

As interpretações são boas e os atores são competentes, e Nolan consegue algumas sequências realmente incríveis, mas o filme parece um tanto repetitivo e previsível. Também lhe falta um pouco mais de emoção e a capacidade de provocar uma empatia maior do público. Isso porque, ainda que acompanhemos a um par de soldados, não sabemos praticamente nada deles e não há espaço no roteiro para estes personagens desenvolverem realmente uma relação no meio daquela loucura toda.

Então temos sim muitas sequências interessantes de guerra e um punhado de atores que acaba ganhando um pouco mais de protagonismo em meio a tantos personagens, mas nada que realmente nos encante ou que nos sensibilize. Falta um pouco mais de contexto na história. Ainda assim, Nolan nos apresenta sequências eletrizantes, como quando Gibson (Aneurin Barnard) vê um torpedo chegando no barco em que ele está com outros rapazes – a maioria presa em um compartimento fechado com uma escotilha. Essa sequência, assim como algumas das cenas – não todas – de perseguições aéreas são o ponto forte de Dunkirk e do trabalho do diretor nesta produção.

Também achei interessante que Nolan equilibrou o seu elenco entre nomes conhecidos do grande público e atores desconhecidos, em uma evidente tentativa de mostrar que na guerra todos são iguais – e que pessoas anônimas acabam, muitas vezes, sendo os heróis que fazem a diferença entre a vida e a morte de alguém. O filme está carregado de boas intenções e tecnicamente funciona muito bem. Eu só esperava um pouco mais de um filme que leva a assinatura de Christopher Nolan. Acho que ele poderia ter caprichado um pouco mais no roteiro.

NOTA: 8,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Achei bacana a escolha de Nolan por atores um tanto desconhecidos como protagonistas desta produção. Ainda que outros personagens tenham relevância na história – e essa relevância vai ficando mais clara com o passar do tempo -, dois atores estão presentes na narrativa praticamente do primeiro até o último minuto de Durnkirk. E, claro, grande parte do filme é contado sob a ótica de um deles.

O protagonista realmente da produção, aquele que Nolan acompanha praticamente durante o tempo inteiro de sua trajetória – e que mais aparece em cena, consequentemente -, é o personagem Tommy, interpretado por Fionn Whitehead. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). O ator, que antes de Dunkirk havia estrelado apenas a minissérie de TV Him, que tem três episódios, dá vida ao soldado inglês que foge de uma saraivada de balas em um ataque inimigo nos primeiros minutos da produção e que segue a sua saga pela sobrevivência em terra e no mar.

Acompanhamos Tommy até a chegada dele “à casa”, quando ele vira um tipo de narrador de um “epílogo” que enaltece o espírito de resistência britânico ao ler uma notícia em um jornal. Ao lado de Tommy, em algumas das sequências no mar e na terra e neste retorno ao lar, está outro ator que ganhou destaque a partir de um certo momento da narrativa: Harry Styles, que interpreta a Alex, um dos soldados ingleses que são ajudados por Tommy e pelo outro ator de destaque desta produção, Aneurin Barnard, depois que o navio em que ele estava é afundado.

Na sequência, Alex é ajudado mais uma vez por Gibson, personagem de Barnard. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Se não fosse o desconfiado/previdente Gibson, que decidiu ficar no convés do navio que acaba sendo bombardeado por um torpedo, Alex e Tommy teriam morrido junto com vários outros soldados presos na parte interior da embarcação. Mas nada disso impediu Alex de expor Gibson em um momento decisivo da produção, quando o barco deles à espera da maré começou a ser atingido por soldados alemães.

Aquela sequência, apesar de um tanto longa demais, acertou no tom claustrofóbico e de crueldade – elementos frequentes de qualquer guerra. Nem sempre os melhores, mais honestos ou preparados sobrevivem, seja na guerra, seja na vida “normal”. A Teoria da Evolução parece ter parado de ser válida depois que a Humanidade instrumentalizou os seus processos e práticas. Mas não vou falar muito sobre isso, porque o discurso seria grande. 😉

Voltando para o filme. Fionn Whitehead, Aneurin Barnard e Harry Styles acabam se destacando na produção, tanto pela densidade um pouco maior de seus personagens – pouco maior, devo salientar -, quanto pelo tempo que eles passam em cena. Outro núcleo importante é o formado por Barry Keoghan, que interpreta a George, amigo de Peter (Tom Glynn-Carney) e do pai dele, Mr. Dawson (Mark Rylance, o nome mais conhecido do elenco até então). George acaba sendo fundamental no resgate de diversos soldados e vira herói “local” por causa da homenagem do amigo Peter.

Mark Rylance se destaca no papel de “sujeito comum” que acaba fazendo toda a diferença, junto com tantos colegas pescadores, para a sobrevivência de milhares de soldados que conseguem voltar para casa por causa da interferência deles. Ainda na parte “do mar”, vale destacar o bom trabalho de outro “veterano”, o ator Cillian Murphy.

Além deles, vale destacar dois dos pilotos de caças – os quais vamos identificar realmente quando eles tiram os capacetes: Tom Hardy como Farrier, o sujeito que sabemos o nome apenas por causa do colega Collins, interpretado por Jack Lowden. Collins consegue se salvar de uma queda brusca ao fazer um pouso no mar e ao ser socorrido no último segundo por Mr. Dawson e Peter. Quando ele está no barco, ele fala o nome de Farrier, um dos heróis da produção também – e interpretado por um dos atores mais conhecidos do elenco.

Do núcleo “terrestre”, o destaque, sem dúvida, é o veterano e conhecido Kenneth Branagh e o seu personagem Comandante Bolton. O ator tem algumas sequências de puro deleite “estilístico”, como quando Nolan foca nas reações de Branagh com forma de nos deixar no “suspense” sobre o que ele estaria observando antes da ação propriamente dita nos ser mostrada. Além dele, na dinâmica terrestre vale destacar outro nome conhecido, de James D’Arcy, que interpreta o Coronel Winnant, uma espécie de braço direito de Bolton. Claro que existem muitos outros nomes no elenco, mas de personagens mais relevantes, vale citar estes.

Entre os aspectos técnicos do filme, sem dúvida alguma a direção de Christopher Nolan é o ponto a ser destacado. O diretor mostra todo o seu virtuosismo e a sua técnica em cenas de batalha e de foco no drama humana dos soldados que merece a experiência. Agora, como temos outros grandes diretores que fizeram o mesmo, como o Steven Spielberg que já citei por aqui – sem contar Martin Scorsese e uma grande lista de nomes -, fazer um grande trabalho de direção em um filme de guerra, atualmente, é quase uma obrigação. Então eu não daria um Oscar para Nolan, por exemplo. Ao menos não por Dunkirk – ele não faz algo suficiente bom para renovar o gênero, por exemplo.

Os outros aspectos técnicos que valem ser destacados são a ótima direção de fotografia de Hoyte Van Hoytema e uma trilha sonora espetacular do veterano Hans Zimmer. Em diversos momentos do filme eu fiquei pensando na trilha sonora e em como ela foi fundamental para Dunkirk. Sem ela, meus caros, teríamos um filme bem mais sem graça. Zimmer sim poderia merecer uma indicação ao Oscar. Acho que o filme está muito longe da “época boa” da premiação da Academia, mas nunca se sabe… qualidade o trabalho dele em Dunkirk tem para chegar lá.

Vale citar ainda o ótimo trabalho de edição de Lee Smith; o design de produção milimétrico de Nathan Crowley; os figurinos de Jeffrey Kurland; e toda a lista gigantesca de profissionais envolvidos em aspectos técnicos fundamentais para Dunkirk, como os 58 profissionais responsáveis pelo Departamento de Arte; os 35 profissionais envolvidos com o Departamento de Som; os 34 profissionais responsáveis pelos Efeitos Especiais; e os 132 profissionais envolvidos nos Efeitos Visuais – outro aspecto que poderia render uma indicação ao Oscar para Dunkirk.

Dunkirk teve a sua première em Londres no dia 13 de julho de 2017. Três dias depois o filme participou de seu único festival até agora, o desconhecido Galway Film Fleadh, na Irlanda. Esta é, sem dúvida alguma, uma produção mais comercial do que com o perfil de festivais.

Por tudo que vocês viram de Dunkirk, quanto vocês imaginam que este filme custou para ser produzido? Chutem alto. 😉 Bem, eu digo para vocês… Dunkirk custou a pequena fortuna de US$ 100 milhões. Aproximadamente. Nas bilheterias dos Estados Unidos o filme fez, até o dia 20 de agosto, segundo o site Box Office Mojo, pouco mais de US$ 165,4 milhões. Nos outros mercados em que o filme estreou, para a sorte de Nolan, ele acumulou outros US$ 229,7 milhões. Ou seja, até o momento, Dunkirk fez pouco mais de US$ 395 milhões. Ufa! Está dando lucro – lembrando que uma produção, contabilizando a divulgação e as cópias para o mercado global, normalmente custa o dobro do que o orçamento inicial.

Fico aliviada por Nolan porque ele conseguindo lucro com um filme caro e difícil como este, ficará ainda mais fácil dele fazer projetos “mais pessoais” no futuro. E como eu gosto do diretor, torço mais para que ele tenha liberdade criativa mesmo – seja para apresentar grandes filmes, seja para apresentar obras medianas.

Agora, aquelas tradicionais curiosidades sobre o filme. O diretor Christopher Nolan, juntamente com a mulher dele, Emma Thomas, e um amigo, decidiu fazer a travessia entre a Inglaterra e Dunkirk, que fica no litoral francês, para “sentir na pele” como teria sido a experiência dos soldados e dos civis que foram resgatá-los. As condições do mar adversas fizeram com que eles demorassem 19 horas para fazer aquele trajeto.

Sobre a importância do que vemos no filme, Nolan afirma que se a evacuação de Dunkirk não tivesse sido um êxito, a Grã-Bretanha teria que capitular e abandonar a guerra, o que faria a História ter tido um outro desfecho, certamente. “Militarmente, (Dunkirk) é uma derrota, mas no plano humano, é uma vitória colossal”, comentou o diretor.

O diretor Christopher Nolan recebeu um salário de US$ 20 milhões, o maior salário que um diretor já recebeu – exceto por Peter Jackson, que recebeu a mesma quantidade para filmar King Kong, lançado em 2005.

Seguindo a sua defesa do uso de películas no lugar de formatos digitais, Nolan utilizou uma combinação de 65/70 milímetros de filmes IMAX e 65 milímetros de Super Panavision para conseguir o máximo de qualidade de imagem possível. Este é o terceiro filme da década de 2010 que foi rodado essencialmente em 70 milímetros e exibido nos cinemas. Os dois anteriores foram The Master e The Hateful Eight.

Dunkirk utiliza pouco mais de 50 barcos simultaneamente no mar, um recorde para produções feitas para o cinema.

Esta produção utilizou cerca de 1 mil extras. Os créditos finais do filme afirmam que 12 embarcações que participaram da evacuação de Dunkirk em 1940 foram utilizadas nesta produção.

O retorno de 300 mil homens para casa não foi insignificante para o Exército britânico já que este número representava cerca de 25% do total na época da Segunda Guerra Mundial.

Dunkirk marca duas estreias de Nolan: em filmes baseados em histórias reais e em uma produção de guerra.

Esta produção teve cenas rodadas nos Estados Unidos, na França (em Dunkirk), na Holanda e no Reino Unido.

Até o momento Dunkirk recebeu um prêmio e foi indicado a outros dois. O único que recebeu foi o de Melhor Drama no Golden Trailer Awards.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,4 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 306 críticas positivas e 24 negativas para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 93% e uma nota média de 8,7. Especialmente a nota dos críticos chama a atenção. Ela está bem acima da média do site. Eu não fiquei tão empolgada assim, como vocês perceberam. 😉

Dunkirk é uma coprodução do Reino Unido, da Holanda, da França e dos Estados Unidos – ou seja, de todos os países onde a produção teve alguma cena gravada.

CONCLUSÃO: O diretor Christopher Nolan fez algumas escolhas interessantes nesta produção. Ao abrir mão de grandes astros, ele quis evidenciar mais a narrativa e a ideia dos “anônimos” que são importantes. Apresentando um roteiro fragmentado e que vai se juntando como peças de um quebra-cabeça, sem uma linha temporal contínua, Dunkirk faz o espectador se surpreender com esta “jogada”, assim como apresenta um espetáculo de cenas de ação, mas nada disso impede que o filme seja um tanto arrastado e repetitivo. Sim, Nolan faz um trabalho competente. Os atores também estão bem, mas parece que falta um pouco mais de alma para esta produção. Isso não compromete a experiência no cinema, mas também não permite que Dunkirk figure na lista dos melhores do gênero. É bom, mas não é indispensável.

ATUALIZAÇÃO (11/12): Dunkirk foi indicado a três Globos de Ouro: Melhor Filme – Drama; Melhor Diretor para Christopher Nolan e Melhor Trilha Sonora para Hans Zimmer. Para muitos, será inevitável que Dunkirk receba também algumas indicações para o Oscar 2018. Quando elas saírem, volto aqui para comentar os meus palpites sobre elas.

The Revenant – O Regresso

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Selvageria em um grau elevado. Interessante como os Estados Unidos têm revisitado, ultimamente, alguns períodos importantes da história do país. Recentemente vimos a um filme bastante duro sobre a escravatura. Agora, com The Revenant, assistimos a um filme que vai na veia sobre a época da exploração do território por brancos e todos os confrontos advindos daí com os índios. A parte disso, este é um filme sobre vingança. Mas não dá para ignorar o pano de fundo histórico. Poderia ser um Tarantino, mas é uma produção de Alejandro González Iñarritu.

A HISTÓRIA: Hugh Glass (Leonardo DiCaprio) está deitado ao lado do filho pequeno Hawk (Isaiah Tootoosis criança e Forrest Goodluck adulto) e da mulher (Grace Dove). Em seguida, aparecem cenas deles felizes, até que outras imagens mostram destruição e o menino sendo socorrido pelo pai. Tudo parece um sonho – ou lembranças que Glass carrega consigo sempre. Corta.

Homens caminham lentamente em meio a um lugar aonde a água escorre cristalina. Eles estão calçando alces. Glass chama a atenção de Hawk para um animal que será abatido. Perto dali, o tiro disparado por Glass é ouvido por Fitzgerald (Tom Hardy), que está orientando os seus homens para tirar a carne e embalar as peles dos 30 animais que eles já abateram. Mas os planos deles são mudados quando o grupo é atacada por um grupo de índios.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Revenant): O que 12 Years a Slave (com crítica aqui) foi para a filmografia sobre escravidão este The Revenant representa para os filmes que mostram os Estados Unidos selvagem, quando os confrontos entre brancos e índios eram constantes. Esta foi a primeira conclusão que eu cheguei logo depois que terminei de assistir a esta nova produção comandada pelo diretor Alejandro González Iñarritu.

Mas durante o filme, claro, outras questões se sobressaíram nesta produção. Para começar, o virtuosismo do diretor Iñarritu. Ele não leva a técnica da gravação em um eterno plano sequência sem cortes tão a sério quanto no premiado e anterior Birdman or (The Unexpected Virtue of Ignorance) – comentado neste texto, mas em The Revenant novamente vemos ao diretor destilando o seu talento ao optar por este recurso.

Em mais de uma sequência, especialmente na parte inicial do filme, Iñarritu filma com longos planos sequência. A verdade é que esta técnica, especialmente em um ambiente externo e agreste como o mostrado em The Revenant, dá bastante fluidez para a história e ritmo para a produção. Funciona. E, francamente, achei que de forma mais interessante que no paparicado Birdman.

Além de mais um ótimo trabalho de Iñarritu na forma de conduzir a trama, me chamou muito a atenção como ele e o diretor de fotografia veterano Emmanuel Lubezki exploraram as florestas, os campos de gelo e as demais paisagens como personagens da história. Para entender aqueles personagens era fundamental também compreender o ambiente em que eles viviam. Depois, evidente que logo chama a atenção do espectador o tom cru da narrativa e a violência resultante desta escolha.

Por isso mesmo comentei, lá em cima, que este filme muito bem poderia levar a assinatura de Quentin Tarantino. Pelo menos em termos de crueza e violência. A diferença, provavelmente, estaria nos diálogos, que com Tarantino costumam ter mais “malemolência”, ironia e acidez. Claro que os filmes são bem diferentes, mas ao assistir a The Revenant eu me lembrei de Inglorious Basterds (comentado aqui), do Tarantino, e de No Country for Old Men (com crítica por aqui), dos irmãos Coen. O que une todos eles? Além de uma boa carga de violência e de crueza, também aquela pegada de “filme de vingança”.

Bem, feitos estes comentários, vale comentar o que é apenas próprio de The Revenant. Como comecei a falar ali acima, esta produção com roteiro de Iñarritu e de Mark L. Smith, inspirado em parte da obra de Michael Punke, resolve recontar fatos que teriam ocorrido em uma expedição guiada pelo lendário explorador Hugh Glass nos anos 1820. Ele estava à frente de um grupo que saiu de um forte para conseguir peles em uma região agreste e selvagem dos Estados Unidos. Território que tinha recursos explorados por americanos, franceses e índios de diferentes origens.

Naquele cenário sobrevivia quem conhecia melhor o território e quem tinha sorte. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Honra era algo que poderia ser esquecido facilmente em nome da própria sobrevivência – ou da ganância, ou dos dois, como demonstrou John Fitzgerald. Depois do ataque dos índios, parte do grupo de exploradores consegue sobreviver. Mas Glass é brutalmente atacado por um urso e, depois, apesar da tentativa do capitão Andrew Henry (o interessante Domhnall Gleeson) de dar a ele alguma chance de recuperação e sobrevivência, ele acaba sendo traído por Fitzgerald.

A partir daí o filme embarca na busca por vingança de Glass – busca esta que acaba motivando ele a sobreviver. Afinal, ele precisa fazer o homem que matou covardemente Hawk pagar por isso. De fato ele consegue uma recuperação incrível e até certo ponto plausível. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Agora, cá entre nós, na sequência em que ele cai com o cavalo em um desfiladeiro após ser perseguido pelos índios e, ao invés de ficar na copa da árvore ele cai no chão, é difícil de engolir. Logo pensei nele como o bisavô de Ethan Hunt, de Mission: Impossible. 😉

Mas ok, vamos dar um desconto e esquecer aquela sequência. Naquele ambiente e tempo, todos matavam sem pestanejar em confronto. Algumas vezes uma morte se justificava por um punhado de peles que, depois, seriam roubadas de uns por outros para trocar por outras mercadorias – como cavalos – com outro grupo. Não era difícil de acreditar, naquele cenário, que a vida humana valia tanto – ou menos, dependendo – que um cavalo. Claro que figuras conhecidas e respeitadas como Glass deveriam valer mais. Mas isso também era relativo – a ver o exemplo de Fitzgerald e de outros homens que matavam os índios por puro prazer.

A verdade é que The Revenant se mostra interessante não pela história de vingança e obstinação de Glass – temos muitas outras histórias similares no cinema. Mas esta produção interessa pela forma com que ela mostra as relações entre brancos e índios nos Estados Unidos há quase dois séculos. A exploração dos recursos naturais e a matança advinda desta prática ocorreu também na América do Sul, no Brasil e em tantas outras partes, mas poucas vezes um filme mostrou esta realidade sem embelezar a pílula.

The Revenant é uma resposta a todos os filmes de faroeste que mostraram os índios sem motivações ou história – apenas aparecendo para morrer na sequência – ou como “bonzinhos” ajudantes dos brancos. Não que aqui a história dos índios seja muito contada, mas pelo menos o grupo central desta produção tem sim uma motivação – o resgate da filha do chefe de uma tribo que foi sequestrada para ser escrava sexual de um grupo de exploradores.

O índio que ajuda Glass, em certo momento, e que foi fundamental para a sobrevivência dele, também tem parte de sua vida e motivação contada. Ainda assim, existe uma evidente desigualdade entre o espaço que é dado para diferentes grupos de brancos e índios contarem as suas histórias. Se bem que, e é preciso comentar isto, este filme é evidentemente centrado em Glass. Então é mais a história dele mesmo que conhecemos. Dos demais, brancos ou índios, não sabemos tanto quanto dele.

Por esta razão, The Revenant acaba não acertando no alvo como filme de revisão histórica e nem como filme de vingança pessoal. Ele fica no meio do caminho entre estes dois polos. É interessante, bem executado, mas dificilmente entraria em uma lista dos melhores do ano – arriscado dizer isso com 2016 começando agora, mas posso comentar isso levando em conta as produções que eu assisti nos últimos anos. The Revenant é um show de direção e de atuação de Leonardo DiCaprio. Tem uma direção de fotografia irretocável e uma trilha sonora impactante. Mas isso é tudo.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Sempre gostei de Alejandro González Iñarritu. Ainda que o meu fraco seja maior por outros dois diretores da geração dele: Paul Thomas Anderson e Alejandro Amenábar. Ainda assim, é preciso admitir que Iñarritu está destilando, a cada filme, cada vez mais o seu estilo de autor. Como diretor, Iñarritu tem 15 títulos no currículo, incluindo longas, curtas e produções para a TV. Desta produção, sem dúvida alguma eu prefiro (e recomendo) Amores Perros, 21 Grams e Babel, nesta sequência de preferência.

Algo que não dá para criticar de The Revenant é a direção de Iñarritu. O filme tem algumas sequências dignas de aplauso. Uma das minha preferidas é aquele em que Glass está perto do rio e é encontrado pelo grupo de índios. Desde que ele escuta o ruído de alerta, tanta se esconder e até que empreende a fuga, a sequência é incrível. Mais um grande trabalho de Iñarritu como diretor, ainda que o roteiro, para mim, não teve a força ou a qualidade desejada.

Se da parte técnica do filme o nome principal de The Revenant é o de Iñarritu como diretor, entre o elenco não há dúvida que este é mais um grande trabalho de Leonardo DiCaprio. Até agora ele foi “esnobado” pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Mas, com este filme, certamente ele terá mais uma boa chance de ganhar uma estatueta dourada do Oscar.

DiCaprio já tinha mostrado uma grande performance a amadurecimento no ótimo The Wolf of Wall Street (com crítica aqui), mas com The Revenant ele não deixa nenhuma dúvida de que cresceu e amadureceu como intérprete.

Sei que muita gente gosta muito de Tom Hardy, babando por ele especialmente pelo trabalho em Mad Max: Fury Road (comentado aqui). Francamente, para mim, ele está cada vez mais bem ao estilo de Mel Gibson. Ou seja, cada vez que eu o vejo em cena, me parece que ele está com a mesma expressão e tudo o mais de louco. Dito isso, não quero dizer que ele esteja mal em The Revenant. Mas para o meu gosto, ele também não está digno de destaque.

Por outro lado, gostei muito do trabalho de Domhnall Gleeson como o capitão Andrew Henry, apesar dele aparecer menos que Hardy, e gostei muito também de Will Poulter, que interpreta a Jim Bridger, que se voluntaria a cuidar de Glass junto com Fitzgerald e é enganado por ele.  Dos índios, sem dúvida merece destaque pela presença e expressividade o trabalho de Duane Howard como Elk Dog, o chefe da tribo que procura Powaqa (Melaw Nakehk’o); e o de Arthur RedCloud como Hikuc, o índico que ajuda Glass.

Da parte técnica do filme, sem dúvida alguma há alguns destaques. Além da já citada em mais de uma ocasião direção de Iñarritu, é fundamental para esta produção o trabalho do diretor de fotografia Emmanuel Lubezki; a edição de Stephen Mirrione e a trilha sonora de Bryce Dessner, Carsten Nicolai e Ryuichi Sakamoto. Também merecem destaque o design de produção de Jack Fisk (afinal, pelo estilo da direção, este filme precisou ser bem planejado antes); o departamento de maquiagem com 29 profissionais sob o comando de Anthony Gordon; e a equipe de efeitos especiais com 26 profissionais sob a batuta de Douglas D. Ziegler. Esse filme não seria possível sem eles – especialmente as duas últimas equipes.

The Revenant fez première em Hollywood no dia 16 de dezembro de 2015 e estreou em circuito comercial, mas de forma limitada, nove dias depois, no dia 25 de dezembro. Ele estreia para valer em diferentes mercados a partir dos dias 7 e 8 de janeiro.

Esta produção teria custado cerca de US$ 135 milhões. Sobre o resultado nas bilheterias ainda não podemos falar – tem que esperar ele estrear mundo afora para termos uma ideia se ele vai conseguir se pagar ou não.

Para quem gosta, como eu, de saber aonde os filmes foram feitos, The Revenant foi rodado na Terra do Fogo, na Argentina, e em diferentes locais do Canadá e dos Estados Unidos. A parte rodada em estúdio também foi feita no Canadá, no Mammoth Studios em Burnaby.

Agora, algumas curiosidades de The Revenant. Como o filme sugere, DiCaprio teve que fazer diversos sacrifícios para o seu papel. Um deles foi comer um bom pedaço de fígado de bisonte cru – pequeno detalhe: o ator é vegetariano. Além disso, ele aprendeu a atirar com um mosquete, a fazer uma fogueira, aprendeu duas línguas nativas americanas (Pawnee e Arikara) e estudou técnicas antigas de cura. Segundo o ator, este foi o papel mais difícil de sua carreira. Uma história boa como pano-de-fundo para o primeiro Oscar dele, não?

Esta produção foi rodada durante nove meses porque Iñarritu e Lubezki quiseram gravar a maior parte do tempo com luz natural, estratégia para dar ainda mais realismo para a produção. Considerado um tempo longo de filmagem, ele foi necessário pelas condições climáticas das locações externas e pela distância entre os diferentes países em que The Revenant foi filmado.

Como as filmagens acabaram sendo mas longas que o planejado, a neve começou a derreter no Canadá e, por isso, a equipe teve que terminar os trabalhos na Argentina aonde as condições climáticas ainda eram favoráveis para a produção gelada.

Tom Hardy ficou preocupado com a sua segurança em algumas cenas do filme e, por isso, ele se desentendeu com Iñarritu. A discordância chegou às vias de fato, com Hardy “estrangulando” o diretor em certo momento – esta cena acabou sendo imortalizada pelo ator em uma camiseta que ele entregou para a equipe depois que o filme tinha sido concluído.

Sean Penn tinha sido convidado para o papel de John Fitzgerald mas acabou desistindo do projeto porque houve um conflito de agendas. Me desculpem os fãs do Hardy, mas eu teria preferido Penn no papel.

Pelas condições adversas do filme e pelo temperamento de Iñarritu muitas pessoas da equipe teriam deixado o filme antes dele ser concluído.

O trailer de The Revenant contabilizou 7 milhões de visualizações em menos de 36 horas depois que ele foi lançado no dia 17 de julho de 2015. Bem, esse pode ser um indicativo de uma ótima bilheteria para o filme.

DiCaprio fez questão de comentar que apesar das dificuldades do cenário agreste mostrado no filme e dos sacrifícios que ele fez pelo personagem de Glass, ele não se feriu de verdade em nenhum momento da produção.

O projeto inicial deste filme remonta a 2001, quando o produtor Akiva Goldsman adquiriu os direitos do então inédito manuscrito de Michael Punke. Depois, Dave Rabe escreveu a primeira versão do roteiro da produção, até que Iñarritu embarcou no projeto e assinou como diretor em agosto de 2011.

O diretor Iñarritu se defendeu de um relatório que comentou que os custos da produção ficaram fora de controle. Ele disse que deixou claro desde o início que este projeto seria caro e que a maioria dos custos adicionais tiveram que ver com o atraso nas filmagens por causa das questões climáticas.

Esta produção é baseada na história real de Glass que foi atacado por um urso cinza e deixado para morrer em 1823. Depois, ele se arrastou por 200 milhas (cerca de 321,9 quilômetros) até a civilização e jurou vingança contra aqueles que tinham levado os seus suprimentos e deixado ele para morrer, gastando diversos anos depois para caçá-los. Mas a história conta que ele não conseguiu pegar nenhum dos dois – e que Jim Bridger ficou famoso por suas próprias viagens de exploração.

Até o momento, The Revenant ganhou 19 prêmios e foi indicado a outros 85, incluindo quatro Globos de Ouro. Dos prêmios recebidos por associações de críticos de cinema, a maioria, 10 no total, foram para Leonardo DiCaprio como Melhor Ator. Outros cinco foram para Emmanuel Lubezki como Melhor Fotografia – as outras premiações foram pulverizadas.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,3 para esta produção, uma avaliação muito boa considerando o padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 89 textos positivos e 20 negativos para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 82% e uma nota média de 8.

CONCLUSÃO: Todo país tem capítulos escabrosos em sua formação histórica. Os Estados Unidos não foge da regra. The Revenant é um filme sobre vingança, como comentei no início, mas não apenas isso. Este é um filme cru e direto sobre parte da selvageria que dominou o cenário do país nas incontáveis disputas entre “brancos” e “índios” por recursos e terras. Com muita violência e cenas bem realistas, é mais uma aula de direção de Alejandro Iñarritu, assim como mais um grande trabalho do cada vez mais afiado Leonardo DiCaprio. Filme bem acabado, certamente receberá várias indicações ao Oscar. Mas descontada a questão histórica e a virtuosidade da direção, The Revenant não me encantou e nem acho que será um filme para ser lembrado por muito tempo. É bom, mas não é brilhante.

PALPITES PARA O OSCAR 2016: Para mim é claro que The Revenant será indicado a algumas categorias do Oscar. Me arrisco a dizer que ele vai concorrer a oito estatuetas, pelo menos. Vejamos: Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator (Leonardo DiCaprio), Melhor Trilha Sonora Original, Melhor Edição, Melhor Fotografia, Melhores Efeitos Visuais e Melhor Maquiagem e Penteado. A lista ainda pode crescer acrescentando Melhor Mixagem de Som e Melhor Edição de Som, ou encurtar sem Melhores Efeitos Visuais ou Melhor Edição. Mas não deve ficar muito diferente do comentado.

Entre todas estas categorias e pelo que eu vi dos concorrentes até agora – além de The Revenant vi apenas a Spotlight -, vejo uma chance grande desta produção emplacar como Melhor Diretor, Melhor Ator, Melhor Fotografia e Melhor Maquiagem e Penteado. Claro que é preciso ver aos outros concorrentes ainda para dar o pitaco final, mas as chances são boas nestas categorias. Nas demais, como em Melhor Trilha Sonora Original, vai depender muito da qualidade dos concorrentes. Como Melhor Filme, até o momento, meu voto iria para Spotlight. Tenho que ver os outros. Depois voltarei por aqui para seguir palpitando. 😉

Mad Max: Fury Road 3D – Mad Max: Estrada da Fúria 3D

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A expectativa sobre um filme, um relacionamento ou um emprego é sempre algo ruim. Devemos viver sem ilusões, procurando conhecer como as coisas são sem fantasiar antes, durante ou depois. Dito isso, admito que eu tinha grandes expectativas para Mad Max: Fury Road e, possivelmente por esta razão, me frustrei com o resultado.

Fora os minutos iniciais de muita adrenalina e a construção visual do filme, sobra pouco para passar o tempo. Tanto que acabei cochilando em alguns trechos e, tudo indica, não perdi nada. História e roteiro contam pouco aqui. Adrenalina, infinitas cenas de ação e uma ótima fotografia são as protagonistas. Se você gosta disso, se jogue. Se não, procure um filme melhor e que tenha roteiro.

A HISTÓRIA: Ronco de carro. Uma voz se apresenta como Max (Tom Hardy), e afirma que o seu mundo é feito de fogo e sangue. Em seguida, o áudio de notícias explica como o mundo ficou caótico: primeiro com as guerras pelo petróleo, depois, pela água. O protagonista comenta que, um dia, ele foi um policial, mas que depois o mundo e a humanidade foi desmoronando, até que, agora, ele apenas sobrevive assombrado por vivos e mortos. Max aparece, apenas para, em seguida, ser perseguido por um bando em busca de sangue. Ele é levado para o reino de Immortan Joe (Hugh Keays-Byrne), aonde acompanha a rebelião liderada por Imperator Furiosa (Charlize Theron).

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Mad Max: Fury Road): Antes de mais nada, meus bons leitores, quero pedir desculpas pela ausência. Tive meses de muito trabalho duplo – no jornal em que eu trabalho e também em casa, terminando uma novela particular nos estudos. Agora, finalmente, consigo começar a retomar o blog.

Importante comentar que eu comecei este texto ainda em maio, quando o filme estava em cartaz. Então, serei franca, que não lembro de todos os detalhes da produção, mas vou comentar os pontos principais. Para começar, devo dizer que filmes e personagens que marcaram época não deveriam ser revisitados, exceto se for para apresentar algo melhor. Fui ver este filme com o Mad Max original, de 1979, na cabeça.

Imaginem comigo que nada menos que 36 anos separam aquela produção dirigida por George Miller desta nova versão também dirigida por ele. O que aconteceu com o mundo, com a compreensão da humanidade sobre os recursos naturais e com o próprio cinema neste tempo todo? As mudanças não caberiam neste blog. O cinema, em especial, evoluiu muito tecnicamente, inclusive com direito ao cada vez mais presente 3D. Inclusive fui conferir este filme nesta versão.

Essa mudanças todas fizeram este Mad Max versão 2015 ficar melhor que o original? Em termos de história, com certeza não. O Mad Max de 1979 explorava muito mais a loucura das pessoas e as relações (des)humanas. Já naquele ano o olhar louco que marcaria Gibson começava a se revelar, e o ator mostrava a capacidade de demonstrar diversas nuances de seu personagem. Diferente de Tom Hardy, que apesar de ter aquele perfil durão e implacável, carece de habilidade para mostrar as nuances necessárias do personagem.

Se o protagonista e a história de 1979 eram melhores – ainda que com bem menos ação, é verdade – , outros aspectos técnicos da versão 2015 conseguem ganhar um certo protagonismo. O destaque principal vai, sem dúvida, para a direção de fotografia de John Seale. Esse é o ponto forte da produção, sem sombra de dúvida. Assim como os primeiros minutos do filme, que são de pura adrenalina. Primeiro, Miller aposta em uma clássica perseguição de carros. Depois, em uma tentativa de fuga de Max e uma consequente perseguição humana.

Se Hardy não tem expressividade, a protagonista feminina da história faz diferente. Logo após a segunda captura de Max, aparece em cena Charlize Theron. Ela sim, consegue imprimir emoção em sua destemida e também hardcore personagem. Ela brilha mais que o ator que faz Max, o que não deixa de ser um sinal dos tempos para esta grife de filmes. Nos primeiros minutos da produção também fica claro o tom rock’n roll de Mad Max: Fury Road.

Passado os minutos iniciais, o problema é o que vem na sequência. Não demora muito para percebermos que Imperator Furiosa se rebelou e que, com essa fuga, ela passou a ser o alvo do exército de Immortan Joe. E para onde ela e as outras mulheres que ela está levando junto com ela estão indo? (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Para um lugar que é para ser o Paraíso, aonde elas possam viver bem e em paz, longe da escravidão de Immortan Joe. E aí que o filme inteiro é a tentativa delas de encontrar este lugar e, depois de verem que o Paraíso não existe, retornar para o ponto de partida.

Claro que tudo isso é uma desculpa para inúmeras cenas de perseguição, porrada e violência. Mas inevitável perguntar: ok, tudo isso para mostrar um grupo de mulheres apoiada por poucos homens tentando a libertação e descobrindo que o “lugar prometido” não existe? Durante o filme, me pareceu evidente uma pegada feminista no roteiro de Miller, Brendan McCarthy e Nick Lathouris. Afinal, são as mulheres que se rebelam, que carregam a ação nas costas e que acabam sendo a esperança do povo esfomeado em busca de migalhas de pão e de um pouco de água.

Com um pouco de criatividade, é possível imaginar que os roteiristas quiseram passar uma mensagem de rebeldia da figura materna, por muitos plasmada na Mãe Terra, diante de tanta cobiça e dominação dos homens – simbolizados por Immortan Joe. O próprio nome deste personagem poderia brincar com a ideia equivocada dos homens – enquanto Humanidade – de busca pela imortalidade sem saber que, neste tentativa, eles estão acabando com os recursos naturais e com a própria vida.

Claro que é preciso imaginação para pensar em tudo isso. Mas essa criatividade ajuda a deixar a história repetitiva e arrastada, apesar da ação constante – mas sem novidade – um pouco mais interessante. No mais, o filme poderia ser bem mais curto – quem sabe, até um curta. Comparado a outros filmes 3D, achei que esse recurso foi pouco utilizado na produção. A direção de fotografia continuou sendo o mais interessante, assim como inúmeras cenas com efeitos especiais de explosões e perseguições. Pena que apenas isso não torne o filme além de mediano.

NOTA: 7,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Para explicar esse novo Mad Max, é importante observar quem está à frente da produção: George Miller. Esse diretor australiano de 70 anos tem 16 filmes, curtas e séries no currículo. Depois de dirigir dois curtas em 1971, ele estreou nos longas justamente com o Mad Max de 1979.

Depois daquele primeiro filme estrelado por Mel Gibson, Miller fez outros dois filmes da grife até enveredar por outro caminho com filmes bem diferentes como The Witches of Eastwick, que marcou os anos 1980; o sentimental Lorenzo’s Oil; e os bonitinhos Babe: Pig in the City e Happy Feet.

Nenhum deles, contudo, com o impacto de Mad Max. Não por acaso o diretor voltou à sua grife de sucesso agora. Depois do filme de 2015, o diretor já está planejando a sequência, atualmente chamada de Mad Max: The Wasteland. Sem data ainda para estrear, o filme seria novamente estrelado por Tom Hardy e Charlize Theron.

Agora, algumas curiosidades sobre o Mad Max original e esta repaginada com outra configuração e levada de 2015. Os roteiristas da versão original foram outros: James McCausland e Byron Kennedy, junto com Miller. Além do diretor, um outro nome envolvido nos dois projetos foi o ator Hugh Keays-Byrne, que em 1979 interpretou ao vilão Toecutter e, agora, ao vilão Immortan Joe. No filme original ele teve bem mais trabalho na interpretação do que nesta última produção. O ator indiano de 68 anos tem 46 trabalhos no currículo e apenas um prêmio pelo trabalho em Rush, de 1974.

A direção de fotografia deste novo Mad Max é tão expressiva que conseguiu inspirar diversos artistas gráficos que não apenas criaram utilizando o estilo do filme, como inspirou fotógrafos e diversas empresas para fazer produtos com o novo estilo do filme.

Vale saber um pouco mais sobre o diretor de fotografia John Seale. Australiano que vai completar 73 anos de idade no dia 5 de outubro, Seale tem 42 produções no currículo e um Oscar, além de outros 20 prêmios. O Oscar ele recebeu pela direção de fotografia de The English Patient. Para o prêmio máximo da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood ele foi indicado outras três vezes: por Witness, em 1985; Rain Man, em 1988; e Cold Mountain, em 2003. Uma de tantas referências na área e que merece os nossos aplausos.

Além da direção de fotografia e das ótimas cenas de ação, especialmente da sequência inicial do filme, Mad Max: Fury Road tem como uma de suas grandes qualidades a trilha sonora de Junkie XL, nome artístico do holandês Tom Holkenborg; a maquiagem importantíssima com 46 profissionais envolvidos; para a edição de Margaret Sixel; e para o design de produção de Colin Gibson. Há quem tenha gostado dos figurinos do filme, por isso vale citar quem assina esse trabalho: Jenny Beavan.

O elenco deste filme é muito, mas muito fraquinho. Charlize Theron salva a lavoura. Além dela e dos atores já citados, o filme é composto por meia dúzia de belas atrizes, do estilo modelo e com pouca variação interpretativa, e alguns atores que fazem caras de loucos e de maus antes de morrerem. Vale citar, do elenco, por terem mais destaque na trama, Nicholas Hoult como Nux (que vira-a-casaca lá pelas tantas, deixando de seguir o guru imortal para defender a mulherada desprotegida); Josh Helman como Slit; Nathan Jones como Rictus Erectus; Zoë Kravitz como Toast the Knowing; Rosie Huntington-Whiteley como The Splendid Angharad; Riley Keough como Capable; Abbey Lee como The Dag; e Courtney Eaton como Cheedo the Fragile.

Mad Max: Fury Road teve première na Califórnia no dia 7 de maio. No dia 13, a première foi em Sydney – no mesmo dia a produção estreou na Bélgica e na Jamaica. Nos dois dias seguintes o filme estreou massivamente em dezenas de países, inclusive no Brasil.

Esta foi uma produção milionária, de fato. Mad Max versão 2015 teria custado cerca de US$ 150 milhões. Nas bilheterias dos Estados Unidos o filme faturou US$ 151,15 milhões e, nos outros mercados, mais US$ 216 milhões. Ou seja, no total, cerca de US$ 367,15 milhões. Conseguiu se pagar e obter um pouco de lucro – já que não deve ter saído barata a divulgação mundial massiva como ele teve. Para comparar, o Mad Max original conseguiu US$ 8,75 milhões nas bilheterias dos Estados Unidos – em um tempo em que este valor era bem significativo.

Para quem se interessa sobre as locações dos filmes, Mad Max: Fury Roda foi rodado principalmente no Deserto da Namíbia, mas teve cenas rodadas também em estúdios na África do Sul e na Austrália.

Esta é uma produção da Austrália e dos Estados Unidos.

Antes que alguém me interprete mal e venha aqui dizer: “Ah, mas você não gostou do filme porque você não gosta de filmes de ação e/ou pós-apocalípticos”, deixa eu tornar a questão mais clara. Meu problema com este novo filme não é apenas porque tenho uma lembrança melhor do Mad Max original – que, apesar de ser um pouco enrolado no desenvolvimento, valoriza muito mais a relação entre os personagens e a loucura que começa a tomar conta das pessoas -, mas porque eu não gosto de filmes sem história e que são pretensiosos.

Vou dar um exemplo: gostei mais de The Expendables 3 (comentado aqui) do que deste Mad Max: Fury Road. Os dois filmes são, declaradamente, de ação. Existem para isso, para um desfile de cenas de perseguições e afins. A diferença é que The Expendables 3 deixa claro que existe só para isso e o roteiro tira sarro do próprio gênero. Há “penso” e despretensão no filme. Mad Max: Fury Road se leva muito a sério e tenta ser icônico. Nada mais chato, para o meu gosto.

Além disso, assistindo a produtos como The Walking Dead (HQ e série de TV), que se passam em um ambiente pós-apocalíptico mas que vão muito além de uma história de zumbis versus humanos, explorando bem os sentimentos humanos e a desumanização das pessoas conforme a rotina vai se tornando cada vez mais cruel e sem esperança, Mad Max: Fury Road parece um retrocesso por não ter nenhum aprofundamento deste gênero.

Como em outros casos, a minha opinião parece não acompanhar a da maioria. Prova disso é que os usuários do site IMDb deram a nota 8,4 para este filme, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 273 textos positivos e apenas cinco negativos para esta produção – o que lhe garante uma aprovação de 98% e uma nota média 8,8. Nota essa, diga-se, bem acima da média para o site.

Antes que eu me esqueça: algo importante que fez eu não gostar tanto deste Mad Max é porque eu fui para o cinema com grandes expectativas. Amigos meus tinham visto a produção antes e achado ela incrível, fazendo bastante propaganda… fui seca, achando que eu veria algo inesquecível, mas rapidamente vi que não seria nada disso. Daí o cansaço bateu, e eu pesquei durante a exibição – algo que não é nada comum. Por isso, meus caros, tentem não ter expectativas antes de ver um filme. Agora, da minha parte, vou tentar manter esse blog mais atualizado. Mudando de foco da próxima vez. 😉

CONCLUSÃO: Um filme que dá voltas ao redor do próprio rabo e que não se cansa disso. Ou, em outras palavras, uma história que poderia ser contada em meia hora. Mad Max: Fury Road tem um ótimo começo e um final edificante mas o recheio deixa a desejar. Como comentei na introdução desta crítica, apenas a fotografia, algumas cenas de ação e, para quem gosta de rock, a trilha sonora valem o esforço. Mas se tens pouco tempo para ver um filme, recomendo procurar uma produção melhor. Para quem lembra do Mad Max original, que marcou a carreira de Mel Gibson, não há dúvidas: aquela história foi muito melhor.