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Our Kind of Traitor – Nosso Fiel Traidor

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Um filme de espionagem clássico. Até demais. Our Kind of Traitor resgata alguns dos elementos básicos de filmes de espionagem mas cuida para inserir alguns elementos novos. Para começar, saímos da esfera do jogo de poder entre governos para cair no jogo de poder financeiro que envolve mafiosos, bancos usados para lavagem de dinheiro e políticos. Como em outros filmes do gênero, um “homem comum” acaba ganhando protagonismo no jogo que envolve gente graúda. Um filme bem feito, com um elenco escolhido à dedo, mas que carece de um certo “tempero”.

A HISTÓRIA: Começa com um artista em movimento no ar. Em paralelo, dois amigos, Misha (Radivoje Bukvic) e Dima (Stellan Skarsgard) se encontram e se cumprimentam. No teatro em que o artista se apresenta, a esposa de Misha, Olga (Dolya Gavanski), e a filha mais velha dele, Anna (Mariya Fomina), assistem à apresentação artística. Misha assina documentos para O Príncipe (Grigoriy Dobrygin). A história é ambientada em Moscou. O Príncipe entrega para Misha uma arma que herdou do pai e conta uma história sobre ela.

Misha agradece ao presente e vai embora. Na estrada, Misha e a família param em um local em que um caminhão recolhe toras de madeira. Todos são mortos. Corta para Marraquech. Em um quarto, o casal Perry (Ewan McGregor) e Gail (Naomie Harris) aproveita a viagem romântica, mas há tensão no ar. Depois, antes de terminarem de jantar, Gail sai para trabalhar e deixa Perry sozinho. Observando a cena, Dima chama Perry para beber com ele e os amigos. Dima aproveita esta rara chance de conhecer alguém diferente de seu meio para se aproximar de Perry e depois pedir a ajuda dele.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a assistir quem já viu a Our Kind of Traitor): Esta produção segue à risca o estilo do escritor John le Carré, um dos mestres em tramas de espionagem. Para começar, o filme dirigido por Susanna White é ambientado em diversos países, começando por Moscou, seguindo para Marraquech, depois por Londres, Paris e o interior da França. Além dos personagens, nas tramas de Carré sempre são importantes os países e a geopolítica.

Os diferentes países incluídos neste filme ajudam a torná-lo mais “internacional” e interessante para quem gosta de “viajar” na história. O desenvolvimento de personagens feito pelo roteiro de Hossein Amini baseado na obra de John le Carré tem os seus acertos, mas sem dúvida alguma ele não chega perto de um livro do autor. Normal. No cinema realmente não há muito espaço para desenvolver a história de diversos personagens. E ainda que Our Kind of Traitor tenha um pequeno núcleo de personagens principais – a história gira, essencialmente, ao redor do casal Perry e Gail e da família de Dima, além de Hector, do Serviço Secreto Inglês -, ele tem um grupo respeitável de coadjuvantes.

Estes coadjuvantes, no entanto, não tem as suas histórias e relações bem desenvolvidas, explicadas ou resolvidas. São muitos personagens secundários para tratar em tão pouco tempo. Assim sendo, ficamos sabendo um pouco mais sobre o momento delicado da relação de Perry e Gail e um pouco do estilo de Dima, e isso é praticamente tudo. Os personagens melhor desenvolvidos, sem dúvida, são o de Perry e Dima, e isso ajuda a explicar a relação dos personagens que, de outra forma, pareceria muito forçada.

Aliás, ajuda muito a fazer o espectador “engolir” a trama de Our Kind of Traitor o talento dos atores Ewan McGregor e Stellan Skarsgard. Especialmente o segundo é, geralmente, brilhante. Em algumas cenas-chave o espectador percebe que os dois, apesar de terem origem em realidades muito diferentes, tem alguns elementos em comum – ou pelo menos é isso que o personagem de Dima quer nos fazer acredita. Ambos, por exemplo, tem honra e defendem as mulheres independente do risco que isso pode significar para eles.

Aparentemente Perry é um sujeito que “se deixa levar”. Afinal, ele nunca tinha visto Dima pela frente e logo de cara aceita não apenas tomar um drinque com ele, mas acompanha-lo em uma festa e, depois, em uma partida de tênis. Eles se aproximam muito rapidamente e de forma um tanto “forçada” – se ignorarmos o talento dos atores e olharmos apenas para as situações, certamente parece um bocado exagerada a aproximação tão rápida dos dois. Perry se revela não apenas um sujeito que “se deixa levar” mas, também, uma pessoa crédula e de bom coração.

Ele é facilmente convencido por Dima não apenas a embarcar em seus convites, mas também a levar para ele uma mensagem para o Serviço Secreto Britânico. Dá para entender a estratégia dele. Como Dima mesmo diz, ele tem poucas oportunidades de ter contato com alguém que não seja controlado pelo Príncipe e por sua máfia russa. Se ele quer fugir disso, só lhe resta uma figura como Perry, crente, bom coração, ético e suscetível a embarcar em um pedido de ajuda desesperado.

Normalmente um sujeito como Perry compartilharia com a mulher o que está acontecendo. Uma rápida cena no início do filme e depois uma outra em que fica claro que os dois vivem uma situação complicada por causa de uma traição de Perry ajudam a explicar o porquê do professor universitário deixar a esposa “no escuro” durante a fase inicial do filme. Só assim para ele embarcar no pedido de Dima. Mas a partir da chegada deles no Reino Unido isso muda e Gail passa a fazer parte da trama – o que é algo interessante, porque dificilmente a mulher do “mocinho” é envolvida na história e tem um papel tão relevante.

Esta pode ser considerada uma “inovação” deste filme. O fato do mocinho ser um sujeito comum, por outro lado, não é exatamente nova. Afinal, em uma das obras-primas do grande Alfred Hitchcock, North by Northwest, de 1959, um sujeito comum também acaba sendo envolvido em uma intricada história de espionagem. A diferença é que Our Kind of Traitor não tem a direção de Hitchcock, com eletrizantes cenas de ação que marcaram uma época, e nem mesmo um gigante como Cary Grant como protagonista. O nível dos filmes é muito, mas muito diferente – veja o clássico de Hitchcock caso você ainda não tenha feito isso.

Então ter um “sujeito comum” como protagonista de uma intricada trama internacional de espionagem não é novidade. O que Carré e Amini tentam apresentar de novo é que o conflito, desta vez, não está exatamente entre espiões russos e americanos, ou do governo que for, mas entre mafiosos que se juntaram ao governo russo e que tentam controlar políticos de outro país – desta vez do Reino Unido – através de compra de votos para abrir um banco próprio para a lavagem de dinheiro. Ou seja, não é a questão política que domina o jogo desta vez, mas a questão econômica. Todos sabemos que o dinheiro reina no mundo e que a política perdeu força nas discussões, “corações e mentes” das pessoas, por isso não deixa de ser interessante ver esta mudança de direção em um filme do gênero.

No mais, a narrativa de Our Kind of Traitor é um bocado previsível. Ela segue uma linha lógica do início ao fim e com um ritmo até interessante e adequado. Mas o problema da história é justamente a previsibilidade dela. Não existe, como é indicado para um bom filme de ação e/ou espionagem, uma boa reviravolta na trama. Não. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). A única “surpresa” da trama, que é a explosão do helicóptero, era uma bola cantada desde que vemos o sujeito mexendo nas engrenagens da aeronave e que Dima decide embarcar sozinho.

Então, infelizmente, apesar de Susanna White fazer um bom trabalho na direção, este filme não tem o desejado elemento surpresa. A trama é interessante, mas nada inovadora ou surpreendente. Tudo que esperamos acontece, e ninguém que parecia uma coisa é outra. Todos são o que eles se apresentam e fim. Se a história não surpreende, ao menos temos um bom grupo de atores para ver em cena. Neste sentido, além dos protagonistas já citados, vale destacar o bom trabalho de Damian Lewis, sempre lembrado por Homeland, como um agente importante do MI6 chamado Hector. Ele está muito bem no papel, assim como o seu parceiro Luke. Filme bem feito, mas que poderia ser melhor. Há outros exemplares do gênero melhores para serem conferidos. Vale procurar outras opções.

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Esta produção tem muitas qualidades técnicas. Susanna White apostou em uma direção clássica, que busca o equilíbrio entre o foco nas atuações dos atores, valorizando o trabalho dos protagonistas, e a aposta em cenas de ação e que mostram as cidades em que a história se desenvolve. Nada demais, mas um trabalho competente. Da parte técnica, contudo, destaco a ótima trilha sonora de Marcelo Zarvos e a edição de Tariq Anwar e Lucia Zucchetti. Bom o trabalho também do diretor de fotografia Anthony Dod Mantle.

Do elenco, destaque realmente para o ótimo trabalho de Stellan Skarsgard, seguido do trabalho competente de Ewan McGregor e de Damian Lewis. Eles são os destaques principais. Tem um trabalho bom, ainda que um pouco atrás dos citados anteriormente, Naomie Harris e Khalid Abdalla. Além deles, o filme tem um elenco respeitável de coadjuvantes.

Vou citar alguns deles – os que eu não liste até o momento: Carlos Acosta como o bailarino que abre a produção; Velibor Topic como Emilio Del Oro, braço direito do Príncipe; Pawel Szajda como o Matador de Olhos Azuis; Alec Utgoff como Niki e Marek Oravec como Andrei, dois russos da máfia que acompanham Dima; Jana Perez como Maria, que atrai Perry na festa; Emily Beacock como Irina e Rosanna Beacock como Katya, as irmãs gêmeas e órfãs de Misha; Saskia Reeves como Tamara, esposa de Dima; Mark Stanley como Ollie; Mark Gatiss como Billy Matlock, chefe de Hector; Alicia von Rittberg como Natasha, filha de Dima; e Jeremy Northam em um papel estranho e bem secundário como o congressista Aubrey Longrigg.

Our Kind of Traitor estreou em maio no Festival Internacional de Cinema de San Francisco. A produção participou de outros dois festivais nos Estados Unidos: o de Seattle e o de Provincetown. E isso foi tudo. Ela não recebeu nenhum prêmio até o momento.

A explicação sobre o racha na máfia russa e o perigo envolvendo Dima e família foi resumido a apenas uma cena. Achei pouco. Certamente havia uma situação bem mais complexa no original mas que acaba muito diluída e superficial nesta produção.

Esta produção conseguiu, apenas nas bilheterias dos Estados Unidos, pouco mais de US$ 3,15 milhões. Nos outros mercados em que o filme já estreou ele fez outros US$ 6,7 milhões. Um bom resultado – ainda que não sabemos quanto o filme custou para, só assim, descobrir se ele está no azul e no lucro ou não.

Para quem gosta de saber sobre os locais de gravação dos filmes, Our Kind of Traitor foi rodado em diferentes locações de Marrakech, no Marrocos; de Paris, na França; de Moscou, na Rússia; de Londres, no Reino Unido; de Pralognan-la-Vanoise, na França (as cenas na neve); de Bern, na Suíça; da Filândia e nos Alpes Franceses. Pela lista considerável de locais em que a produção passou, certamente este foi um filme caro de ser feito.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,2 para esta produção. Uma avaliação razoável se levarmos em consideração o padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 77 textos positivos e 32 negativos para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 71% e uma nota média 6. Bastante justo.

Este filme é uma coprodução do Reino Unido e da França.

CONCLUSÃO: Para quem gosta de filmes de espionagem e não assistiu a mais do que um punhado deles até agora, este pode ser um bom exemplar. Para quem tem mais “experiência” em filmes do gênero, Our Kind of Traitor é “mais do mesmo”. Apesar de bem feito e de se esforçar em renovar um gênero já conhecido e um tanto desgastado, este filme carece de ao menos uma boa reviravolta na história ou de algum outro elemento surpreendente. Não há inovação nesta produção, seja em estilo, seja em roteiro. Temos apenas um tipo de espionagem requentada e um pouco modificada para os dias atuais, mas sem nenhuma grande surpresa na trama. Filme morno. Se tiveres uma opção melhor para assistir, talvez seja uma boa apostar nesta outra alternativa.

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The Square – Al Midan

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A Primavera Árabe acendeu a chama das lutas populares em busca de mais justiça e igualdade social mundo afora. Abalou, inclusive, a crença dos que sempre defenderam a ideia de que os árabes nunca buscariam pela democracia. The Square aparece para contar a história e os bastidores de uma das revoluções que fez parte da Primavera Árabe: o movimento que tomou a Praça Tahrir e que derrubou o governo do Egito. Como essa revolução ainda não deu certo, três anos depois dos fatos iniciais, este filme serve de fonte para uma importante reflexão sobre esse tipo de mobilização social.

A HISTÓRIA: Barulhos na cidade, até que as luzes se apagam. Em um grupo de jovens, um deles pergunta o que aconteceu. O outro diz que a luz acabou, e que isso é normal. Um deles, Ahmed Hassan, brinca que a energia elétrica acabou no mundo inteiro – ou, ao menos, no Egito, onde se passa esta história. Outro diz que o menor dos problemas deles é a falta de luz. Hassan diz que todas as pessoas pedem para “o cara”, responsável pela luz, voltar a ligá-la. E esse cara é o “sistema”. Corta.

O primeiro depoimento é de Ahmed. Ele diz que vai contar a história toda, começando pela declaração que o Egito vivia sem dignidade, sob o comando de Mubarak, um ditador que havia subjugado a todos por 30 anos com leis de emergência. Ahmed vê a vídeos no Youtube e publicações no Facebook de gente torturada e de muitos que não aguentam mais injustiças. Em breve vamos acompanhar a ocupação na Praça Tahrir e o que mais seguiu aqueles dias de revolução.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Square): Os primeiros minutos de The Square não me animaram muito a ver o filme. Isso porque eu vinha de um dia de cansaço, era noite, e o desejo de ver algo mais “ligeiro” prevaleceu. No dia seguinte, contudo, me lancei novamente na empreitada, e desta vez pude aproveitar ao máximo esta produção.

O tema do Egito me interessa. Não apenas porque o Brasil viveu aquelas fortes manifestações pedindo mudanças no ano passado, mas porque o meu segundo país, a Espanha, também passou por situações de “ênfase popular” em 2011 – coincidentemente, o mesmo ano em que o Egito convulsionou com as manifestações que são vistas em The Square.

E este tema da insatisfação popular parece longe de acabar. Afinal, sabemos que o sistema predominante do capitalismo não encontrou rival, mas que os seus desdobramentos provocam desigualdades cada vez mais difíceis de “engolir” e de fazer o povo aceitar. Conforme as pessoas vão tendo acesso à informação e a melhores condições de vida, é natural que se espere que outros temas ganhem importância, como a igualdade de oportunidades, a justiça, a abertura para outras culturas, o combate à corrupção, entre tantos outros fatores que mobilizaram as pessoas no Egito e em tantos outros países.

The Square começa mostrando gente comum, em um grupo encabeçado por Ahmed Hassan – que será uma espécie de protagonista da história, ainda que o principal aqui não seja uma pessoa, mas o movimento revolucionário. O assunto movimenta diversas gerações há muito tempo. Afinal, quem nunca pensou no “poder do povo”, em uma democracia plena e eficaz? Sonhos de juventude? Sem dúvida, os jovens são os românticos incuráveis e cheios de sonhos. Mas acredito que este também seja o sonho de cada vez mais “adultos”.

Mas voltando ao filme… nos primeiros minutos, assistimos a uma conversa um tanto “sem sentido” entre Hassan e seus amigos. A verdade, contudo, está nas entrelinhas. Naquela conversa um tanto irônica sobre a falta de energia e sobre as pessoas pedindo para o “cara”, que seria o governo, voltar a ligar o sistema, está parte do problema e da solução que perpassa toda esta história.

Vejamos. Não fica claro se aquele apagão é posterior ou anterior à revolução. Mas tudo nos leva a crer que posterior. Se assim for, o governo está agindo para prejudicar o “povo traidor”, cortando a energia para dificultar as reuniões entre os “traidores” ou mesmo punir quem possa estar se articulando contra o governo.

Ao mesmo tempo, o pedido das pessoas nas ruas, mesmo que seja uma piada na fala de Hassan, demonstra não apenas a expectativa das pessoas para que o governo resolva tudo – o que denota uma administração centralizadora -, mas também a consciência destas mesmas pessoas de que o problema não é a vontade de Alá ou de Deus, mas a responsabilidade dos administradores públicos que não tratam as pessoas como elas deveriam ser tratadas.

E este é um começo muito interessante para esta produção dirigida pela egípcia Jehane Noujaim e que se transveste da difícil tarefa de contar a revolução pela ótica dos manifestantes. A filmagem está sempre ao lado das pessoas comuns, daquela gente que começou a ocupar a Praça Tahrir pedindo mudanças e que conseguiu festejar a queda do ditador Hosni Mubarak no dia 11 de fevereiro de 2011 – ou seja, estamos a prestes a celebrar três anos daquele fato histórico.

Depois daqueles minutos iniciais de conversa alegórica sobre a falta de energia – e o papel do Estado no Egito -, The Square mostra a que veio. Primeiro, focando em Hassan, que faz as vezes do primeiro narrador da história. Ele fala sobre o sentimento dos egípcios que foram para as ruas naquele começo de 2011.

E através dele também chegamos a outros nomes importantes da produção e que ajudam a contar esta história: Khalid Abdalla, ator de família egípcia que nasceu na Escócia e que ficou conhecido pelo papel de Amir no filme The Kite Runner, mas que resolveu voltar para o país dos antepassados para viver o momento histórico da revolução popular; Magdy Ashour, integrante da Irmandade Muçulmana, mas um sujeito que não segue ordens sem pensar a respeito; Aida Elkashef, uma das poucas mulheres que emitem opinião no filme, mas que tem pelo menos um momento importante na história – e que atua como atriz e diretora no Egito; e Ramy Essam, que ficou conhecido como “o cantor da revolução”.

Todas estas pessoas se conheceram na ocupação da Praça Tahrir que ganhou espaço nos noticiários pelo mundo e que provocaram o enfraquecimento e a queda de Mubarak do poder. São eles que, volta e meia, vão contribuir com as suas opiniões sobre os fatos que vão se desenrolando na nossa frente.

Ao ler as notícias mais recentes sobre o Egito, para mim sempre foi difícil entender porque o presidente eleito Mohammed Mursi havia sido deposto do governo pelo Exército. Afinal, a escolha dele foi realmente popular? Ele caiu porque foi corrupto e não deu conta do recado ou porque o Egito deve viver em uma ditadura – desta vez militar?

The Square ajuda não apenas a explicar como o movimento no Egito cresceu, como a forma com que ele também se desvirtuou e virou outra coisa – um risco constante em movimentos populares que, depois, acabam sendo utilizados por quem quer assumir o poder para, na sequência, esquecer as demandas populares. Mas no Egito as pessoas não aceitaram.

Depois da queda de Mubarak, o povo ficou sem opções interessantes para votar. A Irmandade Muçulmana soube jogar as cartas com o Exército e mexer os pauzinhos para ter vitória no Parlamento e na Presidência. Mas sem uma nova Constituição, como diversas figuras neste filme gostam de comentar, o sistema egípcio de fato não iria mudar. E é aí que a pressão popular, já descambando para um tipo de guerra civil – entre os muçulmanos que queriam a Irmandade no poder e os não-muçulmanos que desejavam que ela caísse -, consegue provocar outra mudança.

O filme evolui bem entre os fatos históricos mantendo sempre a postura de contar o que aconteceu sob a ótica das pessoas que estiveram envolvidas com a revolução desde o início. Elas, melhor que outros que chegaram depois, poderiam refletir sobre as motivações originais e sobre as mudanças de rota que foram ocorrendo posteriormente.

Algumas questões levantadas por The Square são muito pertinentes, e não apenas para o Egito. Uma das mais importantes é a seguinte: como mudar a realidade de uma país depois que é feita a derrubada de um regime? Isso ocorreu no Brasil, com o impeachment de Fernando Collor, mas para a nossa sorte (tendo o Sarney como vice-presidente podemos chamar de sorte?), vivíamos em um sistema democrático. Caiu o presidente, mas assumiu o vice e não tivemos nenhum golpe ou nova ruptura da “ordem”.

Agora, como um país muda o rumo se ele quer a troca de regime de governo? No caso do Egito, as pessoas não aguentavam mais a ditadura de Mubarak e queriam votar. E daí surge um problema importante no horizonte: quais são as alternativas para a realidade que está posta? No caso do Egito, e de tantos outros países – o nosso incluído? – a alternativa se parece bastante com o que manda no sistema. Ou seja, no fundo, a troca de rota é impossível na prática.

Assistindo a The Square esta informação ficou mais clara, porque o espectador entende o que as pessoas nas ruas queriam. Ou, pelo menos, e devemos ser ponderados aqui, parte das pessoas que foram para até a Praça Tahrir desejavam – afinal, bem sabemos, não existe unanimidade em movimentos tão extensos. Além da falta de alternativa para a mudança, este documentário roça em um tema que eu acho fundamental neste debate: quem está indignado consegue concretizar uma alternativa que seja viável àquilo que não está dando certo?

Em determinado ponto, Hassan defende que o importante não é ter um líder para fazer as mudanças necessárias, e sim criar uma consciência social, um tipo de “unidade de mentes” voltada para o bem comum. A ideia é interessante, poética, roça a utopia. Sem dúvida é preferível um “povo consciente” do que um “salvador da Pátria”. Mas também é fundamental colocar as boas intenções em prática, ou não?

Voltando para o caso do 15M que movimentou a Espanha em 2011. Os indignados foram para as ruas e sacudiram o país mas, ano passado, quando estive por Madrid, percebi o quanto as pessoas estão frustradas por, apesar de todo aquele sonho e ânimo, nada ter mudado na prática. Toda aquela mobilização popular não provocou nenhuma mudança de cenário. E isso é frustrante.

No caso do Brasil, várias autoridades correram para dar “respostas às ruas”. Certo, alguma coisa até mudou – como a queda dos votos secretos na Câmara e no Senado. Mas no fundo, as principais reivindicações das “vozes das ruas” foram atendidas? Acabou a corrupção no país? O desperdício de dinheiro público com obras – ou outras justificativas – deixou de ser praticado? Estamos mais sérios? Não sei se sou apenas eu, mas acho que nada mudou.

Por tudo isso, The Square acaba sendo um filme vital. Não apenas por fazer um importante registro histórico de um fato marcante, mas principalmente por evidenciar o vazio prático que surge após uma efervescência de tomada de ruas com um grande balaio de demandas sociais.

Quase dá para sentir a energia positiva e cheia de esperança dos egípcios que buscaram uma realidade melhor e que são retratados em The Square. Mas é com tristeza que lembramos, em seguida, que nada daquilo resultou em algo bom – pelo menos, até agora. Muitas mortes ocorreram desde então, o que é mais triste, de pessoas do povo vitimadas por outras pessoas do povo – um efeito colateral quando uma tendência extremista, como normalmente são as correntes religiosas, toma o poder.

A solução para o dilema de como tornar uma demanda filosófica coletiva em ações práticas não é respondida por The Square. Como manda a regra de muitos documentários de qualidade, o mais importante neste filme é mostrar o que aconteceu (ou parte disto) e lançar perguntas para o espectador. A partir daí, é nosso trabalho refletir, compreender o passado e fazer diferente quando tivermos oportunidade, conquistando uma efetividade maior. Sem tantas perdas.

NOTA: 9,7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Apenas os primeiros minutos de The Square podem parecer lentos demais. Na sequência, a partir do depoimento de Ahmed Hassan, a história ganha em interesse e velocidade. A diretora Jehane Noujaim dedicou mais de dois anos de sua vida para registrar as imagens que vemos neste filme. Um registro fundamental e digno de um Oscar e outros prêmios sobre um dos movimentos mais importantes da Primavera Árabe.

Por falar neste movimento, vale relembrar a extensão dele neste texto do Estadão. Segundo o artigo, publicado um ano após o início da Primavera Árabe, tudo começou em dezembro de 2010, quando um jovem “tunisiano, desempregado, ateou fogo ao próprio corpo como manifestação contra as condições de vida” na Tunísia. Depois, os protestos se espalharam não apenas pela Tunísia, mas também no Egito, Líbia e Iêmen, entre outros.

Voltando para o presente, vale dar uma olhada nesta e nesta matéria. No caso da primeira, o texto informa que o líder militar egípcio Abdel Fatah al-Sisi deve se candidatar a presidente na próxima eleição do Egito, prevista para acontecer nos próximos seis meses. E na segunda, um apanhado da realidade atual do Egito: a demanda popular pela eleição de um militar para o governo ao mesmo tempo que a Irmandade Muçulmana resiste à queda do poder e provoca confrontos que terminam em mortes no país.

The Square foi lançado no Festival de Sundance em janeiro de 2013. Depois, o filme participou ainda de outros cinco festivais. Nesta trajetória, o filme ganhou nove prêmios e foi indicado a outros seis, incluindo uma indicação ao Oscar de Melhor Documentário. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o de Melhor Documentário no Festival Internacional de Cinema de Dubai; Melhor Filme entregue pela Associação Internacional de Documentários; Melhor Documentário – World Cinema no Festival de Sundance; e Melhor Documentário no Festival Internacional de Cinema de Toronto.

Da parte técnica do filme, além da ótima direção de Jehane Noujaim, destaco o excelente trabalho de edição feito pelo grupo de oito profissionais envolvidos no projeto – entre eles, o carioca Pedro Kos. O filme também se destaca pela qualidade das imagens, muito bem filmadas e nítidas, mérito dos diretores de fotografia Muhammad Hamdy, Ahmed Hassan, Jehane Noujaim e Cressida Trew.

O filme funciona bem ao mergulhar na história de um par de “personagens”. Ainda assim, senti falta da produção mostrar mais depoimentos das pessoas comuns que participaram das diferentes manifestações egípcias. Por outro lado, foi importante o filme dar espaço para as autoridades do Exército e da Irmandade Muçulmana falarem – diferente de outros documentaristas, que não conseguem este feito, Noujaim e equipe conseguiram alguns depoimentos relativamente curtos mas que dão a informação que o espectador precisava sobre a postura do “sistema”.

O que impediu este filme de receber a nota máxima na minha avaliação foi o argumento anterior, da falta de mais vozes no filme, e também porque achei que The Square perde um pouco a mão quando coloca alguns depoimentos de Hassan, especialmente o primeiro. Desta forma, o filme dá a impressão que ele é um tipo de líder da revolução… no fundo, ele era uma das vozes que discursava na Praça Tahrir, mas como ele, vários outros poderiam ser focados. Acho que ele ganha muita evidência, em detrimento de vermos a outras lideranças ou vozes da revolução. Também senti falta de saber o que as pessoas que aparecem tanto neste filme fazem na vida real – só sabemos que Abdalla é um ator famoso e que Ashour é da Irmandade Muçulmana e foi torturado durante a ditadura de Mubarak. E os demais?

Esta produção coloca o Netflix mais uma vez em evidência. Aliás, este serviço de streaming de vídeo merece os aplausos que tem recebido. Além de lançar The Square, ele foi responsável pela elogiada House of Cards e por outros títulos como Lilyhammer e Hemlock Grove. Bacana ter uma alternativa de investimento em produções que não passe pelos grandes estúdios e canais tradicionais de TV.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,3 para The Square. Uma avaliação muito boa considerando o padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 52 textos positivos para a produção – o que garante uma inédita aprovação de 100% e uma nota média de 8,3 (também um empate com a avaliação de quem vota no IMDb inédito).

CONCLUSÃO: Tenho acompanhado com interesse a situação dos egípcios desde que eles revolucionaram o país. E lamento muito que a situação por lá esteja tão complicada. Apesar de ler o noticiário, até agora eu não tinha entendido muito bem o que tinha dado errado. Por isso mesmo, foi com satisfação que assisti a The Square. O documentário cumpre bem o seu papel de mostrar o movimento pela ótica de alguns dos personagens que participaram da revolução desde o início. Fora os minutos iniciais, o filme tem um bom ritmo e algumas argumentações fundamentais sobre movimentos populares como o retratado na telona. Vale muito ser visto. Para mim, o documentário vital deste ano.

PALPITES PARA O OSCAR 2014: Fiquei surpresa que dois documentários premiados e excelentes ficaram de fora da disputa deste ano. Como comentei por aqui, eu esperava que Stories We Tell (com crítica por aqui) e Blackfish (comentado aqui) chegassem a figurar entre os cinco indicados. Mas como estas produções ficaram de fora, retomei a função de assistir aos filmes que chegaram até a aguardada lista final.

The Square é apenas o segundo filme dos cinco que eu assisti. Ainda falta os outros… mas já posso falar sobre ele e compará-lo com The Act of Killing (comentado aqui). Sei que o filme dirigido por Joshua Oppenheimer e Christine Cynn está bem cotado e, para muitos, é o favorito à estatueta. Mas ainda que ele seja diferenciado e criativo, preferi o “papai-e-mamãe” apresentado por The Square.

Entre outros fatores, porque acho o tema da produção dirigida por Jehane Noujaim muito atual e necessário. Sem contar que não foi fácil produzir este filme, com cenas tão marcantes e históricas. Neste caso, prefiro a importância do registro do que a inovação do argumento. Na comparação entre os dois filmes, fico com The Square.

Acho também que o filme tem chances de levar a estatueta nesta categoria que é sempre um tiro no escuro para acertar em que sairá como vencedor. Logo saberemos… e agora, vamos partir para as outras produções indicadas, porque a seleção feita no Oscar sempre vale o esforço. 🙂