The Favourite – A Favorita

the-favourite

Ah, a monarquia e os seus jogos de poder e interesses. The Favourite se joga de cabeça e de uma forma diferenciada nesse universo. Francamente, eu não sabia muito o que esperar desse filme. Sabia, claro, que ele foi um dos mais indicados ao Oscar. Esperava, pelas indicações das atrizes até aqui, grandes interpretações. Ainda assim, o filme me surpreendeu. Especialmente pela linguagem utilizada e por sua crueza. Não há filtros. Também aprendemos muito bem como uma aprendiz pode superar rapidamente a sua professora. Com interpretações realmente incríveis,  direção de fotografia e trilha sonora interessantes, The Favourite se apresenta como um filme inusitado.

A HISTÓRIA: Em um salão ornamentado, duas serviçais tiram o traje da Rainha Anne (Olivia Colman). Ao lado dela, Lady Sarah Malborough (Rachel Weisz). A cena é de imponência. Tudo perfeito, até que a coroa é retirada da Rainha e ela parece se tornar uma pessoa comum. A Rainha pergunta para a amiga como ela se saiu, se ela gaguejou. Sarah a elogia, mas se recusa a cumprimentar os “anjinhos”, um grupo de coelhos que está próximo da cama da Rainha. Sarah diz que ama a Rainha, mas que isso ela não vai fazer porque o amor tem limites. A Rainha diz que não deveria ter. A Rainha leva Sarah vendada até um outro local onde mostra a maquete de um palácio que a monarca quer construir e dar para a amiga. A Inglaterra está em guerra, mas isso não parece preocupar muito a Rainha.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Favourite): Gostei da ousadia desta produção. Ela tira todos os filtros e o costumeiro “respeito” com a monarquia para nos mostrar uma corte cheia de interesses e de disputas por poder. Algo que sempre soubemos que existiu neste ambiente, mas que nunca foi explorado de uma forma tão aberta e cínica como em The Favourite.

Logo no início do filme começa a ser demonstrado o talento das três atrizes indicadas ao Oscar. Pouco a pouco vamos conhecendo a “Rainha louca” magistralmente interpretada por Olivia Colman. Ela nos apresenta uma rainha cheia de problemas de saúde, carente e insegura, perfeitamente suscetível a diferentes tipos de manipulações. Disputam a sua atenção, o seu afeto e, principalmente, os seus favores duas primas que há muito não se encontravam: Lady Sarah, velha conhecida da Rainha, com quem divide inúmeras histórias, e a recém-chegada Abigail (Emma Stone).

Inicialmente, Abigail chega à Côrte para buscar um emprego. Prima de Lady Sarah, ela caiu em desgraça por causa das dívidas e da jogatina do pai. (SPOILER – não leia se você assistiu ao filme). Depois de ser “vendida” para um alemão como dívida de jogo, Abigail sobreviveu a diversas situações até tentar um favor da prima Lady Sarah. Inicialmente, ela vira uma empregada como outra qualquer, até que, após ter a mão queimada com água sanitária, ela descobre ervas que poderão não apenas ajudar-lhe a se curar, mas também aliviar as dores da Rainha.

Um dia, juntando coragem e ousadia, Abigail mente para o serviçal da Rainha e consegue levar para ela um emplastro de ervas. Como elas acabam aliviando as dores da Rainha, Lady Sarah “promove” a prima para ser a sua serviçal. De forma muito inteligente, Abigail se faz notar para a Rainha e, como uma aluna exemplar, ela aproveita a proximidade com Lady Sarah para perceber como ela se relaciona com a Rainha, como ela a manipula, tira vantagens da monarca e como ela, Abigail, pode se aproveitar de todo esse cenário.

Dividido em capítulos, The Favourite nos apresenta essa história de jogo de interesses e de disputa pela atenção e pelos favores da Rainha. No pano de fundo, a Inglaterra vivencia uma guerra com a França, no qual estão em jogo aumento de impostos no campo, insatisfação da população com a guerra e com a sua monarca e a disputa de poder no Parlamento inglês. No centro das nossas atenções, a queda de braço entre Sarah e Abigail e a forma com que ambas disputam o “amor” e o “favoritismo” da Rainha.

Algo que surpreende neste filme, logo no início, além da interpretação crescente das atrizes, é a trilha sonora vigorosa e bastante presente composta por William Lyons e Johnnie Burn e a direção de fotografia primorosa de Robbie Ryan. Em seguida, chama a atenção o roteiro diferenciado de Deborah Davis e Tony McNamara. A dupla nos apresenta os bastidores de uma Côrte como não estamos acostumados a ver. O filme não tem filtros nem na linguagem dos personagens e nem nos seus atos – muitos deles violentos e cruéis. Ou seja, poucas vezes vimos a uma Côrte de maneira tão crua e objetiva.

Isso é o que mais chama a atenção nesta produção, juntamente com o trabalho excelente das atrizes em cena. O filme funciona muito bem nesse crescente de disputa até perto do final, quando eu acho que a história perde um pouco de força com a “desistência” de Lady Sarah da disputa. Ela simplesmente desiste da queda de braço com a prima que, de fato, acaba “ganhando” a disputa. Mas então, nos minuto finais, com a rápida “lucidez” e castigo da Rainha, nos perguntamos o que realmente significa “ganhar” naquele cenário.

Gostei de The Favourite por ele nos apresentar uma brisa nova em um gênero já bastante explorado e conhecido. A ousadia dos roteiristas Deborah Davis e Tony McNamara e a direção segura e que soube valorizar cada elemento em cena de Yorgos Lanthimos são pontos fortes da produção, assim como o trabalho exemplar de Olivia Colman, Emma Stone e Rachel Weisz. Agora, este é o Melhor Filme do ano? Para o meu gosto, não. Sim, ele tem várias qualidades, mas o que ele nos apresenta no final?

Mais uma história sobre ambição, busca por status e jogos de poder em uma Côrte. Algo que já conhecemos à fundo, se assistimos a vários filmes do gênero. O diferencial de The Favourite é como o filme nos apresenta aquele cenário e aquelas pessoas. Não há “respeito” em relação à Rainha, que se deixa levar por quem lhe dá maior prazer na cama – algo muito comum em diferentes reinados. Também vemos às pessoas que cercam a Rainha sem máscaras, o que é algo raro, mas isso não faz o filme ser inesquecível. Ainda espero ver o filme que me arrebate nesta atual disputa pelo Oscar.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Filmes de época e que envolvem a realeza sempre originam ótimas cenas, cenários e figurinos. Isso não poderia ser diferente com The Favourite. Uma das qualidades do trabalho do diretor Yorgos Lanthimos foi explorar cada um dos elementos belos que ele tinha em cena com primor, assim como valorizar o trabalho do elenco – com destaque para Olivia Colman, Emma Stone e Rachel Weisz.

O roteiro franco e direto de Deborah Davis e Tony McNamara é o que diferencia The Favourite de outros filmes do gênero. Como comentei antes, o zelo com a figura da monarca cai por terra, com o roteiro mostrando uma Rainha cheia de comportamentos infantis, inconstantes e com variação de humor e de saúde impressionantes – mas que demonstram, de forma prática, o que sabemos que aconteceu, de fato, na história.

Ao redor dela, diversos tipos de pessoas que desejam apenas tirar o melhor proveito desta proximidade e deste poder – seja do tipo de Lady Sarah, que tem longa relação com a Rainha, fala de forma sincera e, ainda assim, busca ganhos próprios, seja do tipo de Abigail, que faz de conta que não deseja nada em troca, mas que está ali apenas para conseguir benefícios. O mesmo se aplica aos líderes do Parlamento e outros pessoas da Côrte. No fim das contas, nos perguntamos: alguém realmente se importa com o país? E essa pergunta vale até hoje, e não apenas no ambiente da Monarquia, devo dizer.

As três atrizes citadas e que dominam a narrativa são o destaque do filme, sem dúvida alguma. Além delas, vale citar o trabalho de alguns atores que fazem papéis menos importantes na produção, mas que tem a sua relevância para a narrativa: James Smith como Godolphin, Primeiro Ministro e um dos aliados de Lady Sarah; Mark Gatiss como Lord Marlborough, marido de Lady Sarah e comandante da linha de frente da guerra da Inglaterra contra a França; Nicholas Hoult como Harley, líder da oposição no Parlamento que se aproxima de Abigail para tentar virar o jogo a seu favor; e Joe Alwyn como Masham, um membro da Côrte que acaba sendo seduzido por Abigail.

Entre os aspectos técnicos da produção, volto a destacar a excelente direção de fotografia de Robbie Ryan; assim como a edição precisa de Yorgos Mavropsaridis; o design de produção de Fiona Crombie; a direção de arte de Caroline Barclay, Sarah Bick, Lynne Huitson e Dominic Roberts; a decoração de set de Alice Felton; os figurinos de Sandy Powell; o Departamento de Maquiagem com 22 profissionais; assim como o trabalho de dezenas de profissionais do Departamento de Arte.

The Favourite estreou no Festival de Cinema de Veneza em agosto de 2018. Depois, o filme participaria, ainda, de 28 festivais em diversos países. Um número impressionante para um filme com um caráter mais comercial. Em sua trajetória, até o momento, The Favourite ganhou 115 prêmios – um número impressionante também – e foi indicado a outros 251 prêmios, incluindo 10 indicações ao Oscar.

Entre os prêmios que recebeu, destaque para o Globo de Ouro de Melhor Atriz em Filme Musical ou Comédia para Olivia Colman; para os prêmios de Melhor Atriz para Olivia Colman e o Grande Prêmio Especial do Júri para Yorgos Lanthimos no Festival de Cinema de Veneza; e para 12 premiações como Melhor Filme; 24 prêmios de Melhor Atriz para Olivia Colman; 17 prêmios de Melhor Roteiro; 12 prêmios de Melhor Elenco; 4 prêmios de Melhor Atriz Coadjuvante para Emma Stone; 8 prêmios de Melhor Atriz Coadjuvante para Rachel Weisz; e 3 prêmios de Melhor Diretor para Yorgos Lanthimos.

Agora, vale citar algumas curiosidades sobre The Favourite. A atriz Olivia Colman engordou 16 quilos para interpretar a Rainha Anne.

The Favourite foi filmado utilizando, principalmente, luz natural disponível ou as chamadas “iluminações práticas”, ou seja, a luz de velas e lareiras. O diretor de fotografia Robbie Ryan manteve o equipamento de iluminação reserva próximo, mas utilizou pouca luz adicional. Ele quis aproveitar ao máximo o clima quente e favorável durante a época das filmagens. O efeito realmente é maravilhoso, transmitindo ainda mais legitimidade para a produção.

A figurinista Sandy Powell utilizou, intencionalmente, tecidos anacrônicos nesta produção. Rendas e vinil cotados a laser foram usados para muitas roupas dos cortesãos, enquanto os vestidos e braces dos criados foram feitos de tecido denim reciclado vindo de várias partes da Inglaterra. O roupão que a Rainha Anne utiliza é feito de um cobertor de chenile que Powell comprou no eBay.

A maioria dos trajes e perucas foram feitas do zero. Como o orçamento do filme era apertado, ficou inviável alugar esses trajes. Além disso, o século XVIII é pouco retratado em filmes, o que faz com que poucas casas de fantasia tenham estoque disponível destes trajes. Roupas e perucas foram construídas sob encomenda e, depois, descontruídas e reutilizadas em outras cenas.

A figurinista Sandy Powell teve que dividir as suas funções entre The Favourite e Mary Poppins Returns. Para a sorte dela, as duas produções foram realizadas de forma adjacente no Pinewood Studios. O trabalho duplicado se apresentou bem sucedido e positivo, já que os dois filmes foram indicados ao Oscar pelos seus figurinos.

O marido da Rainha Anne, o príncipe George da Dinamarca, nunca é visto ou mencionado em The Favourite. Mas Abigail começou a servir a Rainha em 1704, e George morreu apenas em 1708. A morte de George e dos filhos da Rainha foram alguns dos motivos que fizeram Anne cair em depressão.

Segundo Rachel Weisz, The Favourite é como All About Eve, mas mais divertido e dirigido pelo sexo. Enquanto assisti ao filme, não vou mentir que me lembrei de All About Eve – pelo “aprendizado” de Abigail e pela forma com que ela supera a sua professora na ambição.

Não existe nenhuma menção durante o filme, mas The Favourite é “vagamente” baseado em fatos reais.

Antes de se casar, Lady Sarah tinha o sobrenome Churchill. Apesar de ter pedido a posição de poder e de influência sobre a Rainha Anne, o descendente de Lady Sarah, Winston Churchill, se tornou um dos maiores Primeiros Ministros da história da Inglaterra. O palácio prometido para Lady Sarah, o Palácio de Blenheim, de fato foi erguido e usado pela família Churchill por mais de 300 anos. Winston Churchill nasceu lá, inclusive.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,9 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 314 críticas positivas e 21 negativas para o filme – o que lhe garante uma aprovação de 94% e uma nota média de 8,6. As duas notas estão bem acima da média e chamam a atenção. O site Metacritic apresenta um “metascore” 90 para The Favourite, fruto de 52 críticas positivas e de 1 mediana, além do selo “Metacritic Must-see”.

De acordo com o site Box Office Mojo, The Favourite faturou US$ 29,4 milhões nos Estados Unidos e mais US$ 34,1 milhões nas bilheterias de outros mercados em que estreou até o dia 7 de fevereiro. No total, portanto, o filme fez pouco mais de US$ 63,5 milhões.

The Favourite é uma coprodução da Irlanda, do Reino Unido e dos Estados Unidos. Como um dos países que produziu este filme foi votado há tempos aqui no site como um dos preferidos de vocês, essa crítica entra na lista de produções que atendem a essa votação. 😉

CONCLUSÃO: Um filme com um roteiro surpreendente, mas que parece arrefecer no final. The Favourite tem grandes interpretações e um roteiro que acerta em cheio ao mostrar uma corte sem papas na língua ou grande respeito. O pior da ambição humana e da guerra de poder está em cena. Nesse sentido, The Favourite inova em um gênero já bastante trabalhado. Ainda assim, senti que a produção deu uma pequena derrapada, no final, abrindo mão de uma queda de braço que estava mais interessante na fase anterior. Provocador e interessante por causa das interpretações e da reconstrução de época, The Favourite pode ter sido bem indicado ao Oscar, mas não acho que mereça levar estatuetas em muitas categorias.

PALPITES PARA O OSCAR 2019: The Favourite foi indicado 10 vezes ao Oscar, em nove categorias diferentes. Ou seja, em teoria, o filme tem nove chances de ganhar uma estatueta. Quantas, de fato, ele levará para casa? Não consigo responder esta questão com certeza porque ainda tenho filmes importantes para assistir e que estão concorrendo com esta produção.

Mas vou comentar a minha opinião sobre cada uma das categorias em que a produção está na disputa, beleza? Vamos começar com Melhor Atriz Coadjuvante, no qual o filme emplacou as indicações de Emma Stone e Rachel Weisz. Adoro o trabalho e a carreira de Rachel Weisz, mas considero que Emma Stone está perfeita em The Favourite. Entre as duas, acredito que Stone leve vantagem. Mas, analisando as premiações até o momento, Regina King, por seu trabalho em If Beale Street Could Talk, parece ser a favorita nesta categoria. Então, não deve dar para The Favourite.

Em Melhor Figurino, The Favourite tem boas chances, mas para levar o prêmio, ela terá que bater fortes concorrentes, como Black Panther e produções que investiram pesado neste tema, como Mary Poppins Returns e Mary Queen of Scots – considero The Ballad of Buster Scruggs como um concorrente mais fraco. Em Melhor Edição, a disputa também está boa – e sem First Man na disputa. Tenho que assistir a outros concorrentes, mas acho que a edição de BlacKkKlansman pode superar a de The Favourite. Vai depender muito do gosto da Academia neste ano.

Na categoria de Melhor Atriz, a disputa está forte neste ano. Francamente? Acho que o trabalho de Olivia Colman era sim merecedor do Oscar. Ela está incrível no papel de “rainha louca” de The Favourite. Mas e Glenn Close? Difícil escolher entre as duas. Qualquer uma levando o prêmio, será justo. Muito mais do que entregar a estatueta para Lady Gaga. Acho que Colman corre por fora, com Close como favorita, mas não seria surpresa ela levar.

The Favourite concorre ainda em Melhor Direção de Fotografia. Categoria muito disputada neste ano com as excelentes fotografias de Cold War e Roma. A vida de The Favourite não é fácil, mas a direção de fotografia do filme é maravilhosa. Ainda assim, acho que o prêmio ficará entre os filmes em preto e branco – Cold War ou Roma. The Favourite emplacou o diretor Yorgos Lanthimos na categoria de Melhor Diretor. Ele deve perder para o favoritíssimo Alfonso Cuarón, em uma das categorias mais previsíveis deste ano.

Na categoria de Melhor Filme, The Favourite teria que derrotar outros concorrentes mais fortes, pelas premiações entregues até agora, como Green Book, Bohemian Rhapsody e Vice. Para mim, Melhor Filme é uma das categorias mais indefinidas desse ano. Quase tudo pode acontecer. Finalmente, o filme concorre em Melhor Roteiro Original. De fato, o roteiro é um dos pontos fortes e diferenciais da produção. Mas para ganhar o prêmio, ele terá que derrubar Green Book e Roma. Será uma tarefa difícil, mas não impossível.

Assim, os prêmios para The Favourite vão depender mais de quem o Oscar vai querer consagrar nesse ano do que de merecimento, realmente. Com 10 indicações ao prêmio, The Favourite pode sair de mãos vazias ou levar cerca de 3 ou 4 prêmios – com chances maiores em Melhor Figurino, Melhor Edição, Melhor Atriz e Melhor Roteiro Original. Eu não me surpreenderia com nenhum destes resultados – apenas com mais estatuetas indo para o filme.

Anúncios

Our Kind of Traitor – Nosso Fiel Traidor

ourkindoftraitor2

Um filme de espionagem clássico. Até demais. Our Kind of Traitor resgata alguns dos elementos básicos de filmes de espionagem mas cuida para inserir alguns elementos novos. Para começar, saímos da esfera do jogo de poder entre governos para cair no jogo de poder financeiro que envolve mafiosos, bancos usados para lavagem de dinheiro e políticos. Como em outros filmes do gênero, um “homem comum” acaba ganhando protagonismo no jogo que envolve gente graúda. Um filme bem feito, com um elenco escolhido à dedo, mas que carece de um certo “tempero”.

A HISTÓRIA: Começa com um artista em movimento no ar. Em paralelo, dois amigos, Misha (Radivoje Bukvic) e Dima (Stellan Skarsgard) se encontram e se cumprimentam. No teatro em que o artista se apresenta, a esposa de Misha, Olga (Dolya Gavanski), e a filha mais velha dele, Anna (Mariya Fomina), assistem à apresentação artística. Misha assina documentos para O Príncipe (Grigoriy Dobrygin). A história é ambientada em Moscou. O Príncipe entrega para Misha uma arma que herdou do pai e conta uma história sobre ela.

Misha agradece ao presente e vai embora. Na estrada, Misha e a família param em um local em que um caminhão recolhe toras de madeira. Todos são mortos. Corta para Marraquech. Em um quarto, o casal Perry (Ewan McGregor) e Gail (Naomie Harris) aproveita a viagem romântica, mas há tensão no ar. Depois, antes de terminarem de jantar, Gail sai para trabalhar e deixa Perry sozinho. Observando a cena, Dima chama Perry para beber com ele e os amigos. Dima aproveita esta rara chance de conhecer alguém diferente de seu meio para se aproximar de Perry e depois pedir a ajuda dele.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a assistir quem já viu a Our Kind of Traitor): Esta produção segue à risca o estilo do escritor John le Carré, um dos mestres em tramas de espionagem. Para começar, o filme dirigido por Susanna White é ambientado em diversos países, começando por Moscou, seguindo para Marraquech, depois por Londres, Paris e o interior da França. Além dos personagens, nas tramas de Carré sempre são importantes os países e a geopolítica.

Os diferentes países incluídos neste filme ajudam a torná-lo mais “internacional” e interessante para quem gosta de “viajar” na história. O desenvolvimento de personagens feito pelo roteiro de Hossein Amini baseado na obra de John le Carré tem os seus acertos, mas sem dúvida alguma ele não chega perto de um livro do autor. Normal. No cinema realmente não há muito espaço para desenvolver a história de diversos personagens. E ainda que Our Kind of Traitor tenha um pequeno núcleo de personagens principais – a história gira, essencialmente, ao redor do casal Perry e Gail e da família de Dima, além de Hector, do Serviço Secreto Inglês -, ele tem um grupo respeitável de coadjuvantes.

Estes coadjuvantes, no entanto, não tem as suas histórias e relações bem desenvolvidas, explicadas ou resolvidas. São muitos personagens secundários para tratar em tão pouco tempo. Assim sendo, ficamos sabendo um pouco mais sobre o momento delicado da relação de Perry e Gail e um pouco do estilo de Dima, e isso é praticamente tudo. Os personagens melhor desenvolvidos, sem dúvida, são o de Perry e Dima, e isso ajuda a explicar a relação dos personagens que, de outra forma, pareceria muito forçada.

Aliás, ajuda muito a fazer o espectador “engolir” a trama de Our Kind of Traitor o talento dos atores Ewan McGregor e Stellan Skarsgard. Especialmente o segundo é, geralmente, brilhante. Em algumas cenas-chave o espectador percebe que os dois, apesar de terem origem em realidades muito diferentes, tem alguns elementos em comum – ou pelo menos é isso que o personagem de Dima quer nos fazer acredita. Ambos, por exemplo, tem honra e defendem as mulheres independente do risco que isso pode significar para eles.

Aparentemente Perry é um sujeito que “se deixa levar”. Afinal, ele nunca tinha visto Dima pela frente e logo de cara aceita não apenas tomar um drinque com ele, mas acompanha-lo em uma festa e, depois, em uma partida de tênis. Eles se aproximam muito rapidamente e de forma um tanto “forçada” – se ignorarmos o talento dos atores e olharmos apenas para as situações, certamente parece um bocado exagerada a aproximação tão rápida dos dois. Perry se revela não apenas um sujeito que “se deixa levar” mas, também, uma pessoa crédula e de bom coração.

Ele é facilmente convencido por Dima não apenas a embarcar em seus convites, mas também a levar para ele uma mensagem para o Serviço Secreto Britânico. Dá para entender a estratégia dele. Como Dima mesmo diz, ele tem poucas oportunidades de ter contato com alguém que não seja controlado pelo Príncipe e por sua máfia russa. Se ele quer fugir disso, só lhe resta uma figura como Perry, crente, bom coração, ético e suscetível a embarcar em um pedido de ajuda desesperado.

Normalmente um sujeito como Perry compartilharia com a mulher o que está acontecendo. Uma rápida cena no início do filme e depois uma outra em que fica claro que os dois vivem uma situação complicada por causa de uma traição de Perry ajudam a explicar o porquê do professor universitário deixar a esposa “no escuro” durante a fase inicial do filme. Só assim para ele embarcar no pedido de Dima. Mas a partir da chegada deles no Reino Unido isso muda e Gail passa a fazer parte da trama – o que é algo interessante, porque dificilmente a mulher do “mocinho” é envolvida na história e tem um papel tão relevante.

Esta pode ser considerada uma “inovação” deste filme. O fato do mocinho ser um sujeito comum, por outro lado, não é exatamente nova. Afinal, em uma das obras-primas do grande Alfred Hitchcock, North by Northwest, de 1959, um sujeito comum também acaba sendo envolvido em uma intricada história de espionagem. A diferença é que Our Kind of Traitor não tem a direção de Hitchcock, com eletrizantes cenas de ação que marcaram uma época, e nem mesmo um gigante como Cary Grant como protagonista. O nível dos filmes é muito, mas muito diferente – veja o clássico de Hitchcock caso você ainda não tenha feito isso.

Então ter um “sujeito comum” como protagonista de uma intricada trama internacional de espionagem não é novidade. O que Carré e Amini tentam apresentar de novo é que o conflito, desta vez, não está exatamente entre espiões russos e americanos, ou do governo que for, mas entre mafiosos que se juntaram ao governo russo e que tentam controlar políticos de outro país – desta vez do Reino Unido – através de compra de votos para abrir um banco próprio para a lavagem de dinheiro. Ou seja, não é a questão política que domina o jogo desta vez, mas a questão econômica. Todos sabemos que o dinheiro reina no mundo e que a política perdeu força nas discussões, “corações e mentes” das pessoas, por isso não deixa de ser interessante ver esta mudança de direção em um filme do gênero.

No mais, a narrativa de Our Kind of Traitor é um bocado previsível. Ela segue uma linha lógica do início ao fim e com um ritmo até interessante e adequado. Mas o problema da história é justamente a previsibilidade dela. Não existe, como é indicado para um bom filme de ação e/ou espionagem, uma boa reviravolta na trama. Não. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). A única “surpresa” da trama, que é a explosão do helicóptero, era uma bola cantada desde que vemos o sujeito mexendo nas engrenagens da aeronave e que Dima decide embarcar sozinho.

Então, infelizmente, apesar de Susanna White fazer um bom trabalho na direção, este filme não tem o desejado elemento surpresa. A trama é interessante, mas nada inovadora ou surpreendente. Tudo que esperamos acontece, e ninguém que parecia uma coisa é outra. Todos são o que eles se apresentam e fim. Se a história não surpreende, ao menos temos um bom grupo de atores para ver em cena. Neste sentido, além dos protagonistas já citados, vale destacar o bom trabalho de Damian Lewis, sempre lembrado por Homeland, como um agente importante do MI6 chamado Hector. Ele está muito bem no papel, assim como o seu parceiro Luke. Filme bem feito, mas que poderia ser melhor. Há outros exemplares do gênero melhores para serem conferidos. Vale procurar outras opções.

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Esta produção tem muitas qualidades técnicas. Susanna White apostou em uma direção clássica, que busca o equilíbrio entre o foco nas atuações dos atores, valorizando o trabalho dos protagonistas, e a aposta em cenas de ação e que mostram as cidades em que a história se desenvolve. Nada demais, mas um trabalho competente. Da parte técnica, contudo, destaco a ótima trilha sonora de Marcelo Zarvos e a edição de Tariq Anwar e Lucia Zucchetti. Bom o trabalho também do diretor de fotografia Anthony Dod Mantle.

Do elenco, destaque realmente para o ótimo trabalho de Stellan Skarsgard, seguido do trabalho competente de Ewan McGregor e de Damian Lewis. Eles são os destaques principais. Tem um trabalho bom, ainda que um pouco atrás dos citados anteriormente, Naomie Harris e Khalid Abdalla. Além deles, o filme tem um elenco respeitável de coadjuvantes.

Vou citar alguns deles – os que eu não liste até o momento: Carlos Acosta como o bailarino que abre a produção; Velibor Topic como Emilio Del Oro, braço direito do Príncipe; Pawel Szajda como o Matador de Olhos Azuis; Alec Utgoff como Niki e Marek Oravec como Andrei, dois russos da máfia que acompanham Dima; Jana Perez como Maria, que atrai Perry na festa; Emily Beacock como Irina e Rosanna Beacock como Katya, as irmãs gêmeas e órfãs de Misha; Saskia Reeves como Tamara, esposa de Dima; Mark Stanley como Ollie; Mark Gatiss como Billy Matlock, chefe de Hector; Alicia von Rittberg como Natasha, filha de Dima; e Jeremy Northam em um papel estranho e bem secundário como o congressista Aubrey Longrigg.

Our Kind of Traitor estreou em maio no Festival Internacional de Cinema de San Francisco. A produção participou de outros dois festivais nos Estados Unidos: o de Seattle e o de Provincetown. E isso foi tudo. Ela não recebeu nenhum prêmio até o momento.

A explicação sobre o racha na máfia russa e o perigo envolvendo Dima e família foi resumido a apenas uma cena. Achei pouco. Certamente havia uma situação bem mais complexa no original mas que acaba muito diluída e superficial nesta produção.

Esta produção conseguiu, apenas nas bilheterias dos Estados Unidos, pouco mais de US$ 3,15 milhões. Nos outros mercados em que o filme já estreou ele fez outros US$ 6,7 milhões. Um bom resultado – ainda que não sabemos quanto o filme custou para, só assim, descobrir se ele está no azul e no lucro ou não.

Para quem gosta de saber sobre os locais de gravação dos filmes, Our Kind of Traitor foi rodado em diferentes locações de Marrakech, no Marrocos; de Paris, na França; de Moscou, na Rússia; de Londres, no Reino Unido; de Pralognan-la-Vanoise, na França (as cenas na neve); de Bern, na Suíça; da Filândia e nos Alpes Franceses. Pela lista considerável de locais em que a produção passou, certamente este foi um filme caro de ser feito.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,2 para esta produção. Uma avaliação razoável se levarmos em consideração o padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 77 textos positivos e 32 negativos para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 71% e uma nota média 6. Bastante justo.

Este filme é uma coprodução do Reino Unido e da França.

CONCLUSÃO: Para quem gosta de filmes de espionagem e não assistiu a mais do que um punhado deles até agora, este pode ser um bom exemplar. Para quem tem mais “experiência” em filmes do gênero, Our Kind of Traitor é “mais do mesmo”. Apesar de bem feito e de se esforçar em renovar um gênero já conhecido e um tanto desgastado, este filme carece de ao menos uma boa reviravolta na história ou de algum outro elemento surpreendente. Não há inovação nesta produção, seja em estilo, seja em roteiro. Temos apenas um tipo de espionagem requentada e um pouco modificada para os dias atuais, mas sem nenhuma grande surpresa na trama. Filme morno. Se tiveres uma opção melhor para assistir, talvez seja uma boa apostar nesta outra alternativa.