The Square – The Square: A Arte da Discórdia

Qual é o valor da arte hoje em dia? Em um mundo em que a desigualdade parece não ter fim, gastar com arte parece algo ético? O que a arte nos questiona, conseguimos levar para a nossa vida cotidiana ou a reflexão dura apenas alguns segundos, minutos, dias, mas não consegue sair do plano das ideias? The Square é um filme interessante, que nos desafia a pensar sobre o nosso contexto, sobre as sociedades que construímos e sobre as escolhas que fazemos. Trata de arte, é verdade, mas trata, sobretudo, de gente.

A HISTÓRIA: Som de festa. Um zumbido. Som de um sapato no piso. A secretária de Christian (Claes Bang) pergunta se ele precisa de algo, porque chegou a hora da próxima entrevista. Ele pede dois minutos para se preparar. Pouco depois, ele está pronto para falar com a jornalista Anne (Elisabeth Moss). A entrevista demora um pouco, porque as anotações dela caem, mas logo ela recomeça e pergunta para ele qual é o maior desafio para se gerenciar um museu. Christian diz que odeia dizer isso, mas que provavelmente é o dinheiro.

Ele diz que o museu, por ser de arte moderna e contemporânea, tem uma competição feroz, já que existem muitos compradores cheios de dinheiro no mundo que gastam mais em uma tarde do que eles em um ano. E assim começa essa produção, que mostra não apenas o que acontece dentro de um museu, mas em seu entorno, focando em aspectos que a arte moderna e contemporânea gosta de focar, ainda que nem sempre ela chegue em todos que deveria.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Square): Eu não sabia muito bem o que esperar desse filme. Sim, eu já tinha ouvido falar que ele tratava sobre a arte, mas qual seria exatamente a proposta desta produção, só vendo mesmo. E aí que esse filme me surpreendeu por tratar os bastidores da arte sem firulas e por aproveitar o tema para abrir um pouco mais a discussão sobre a sociedade que cada um de nós ajuda a construir.

Logo no começo do filme dirigido e com roteiro de Ruben Östlund somos apresentados ao protagonista dessa produção. Curador-chefe de um museu de arte moderna e contemporânea, Christian é um sujeito interessante – e que representa vários homens da sua geração. Bem educado, com uma vida boa e com “poder” no meio artístico, ele tem o olhar crítico necessário para estar na posição em que ele está. Mas será que esse olhar crítico se sustenta a longo prazo e/ou em qualquer situação?

Algo interessante nesse filme, e que eu notei logo de cara, é que ele trata de situações bastante plausíveis. Em alguns momentos, inclusive, parece que The Square se desenvolve quase como um documentário. Me refiro às diferentes cenas das ruas de Estocolmo, à garota que pede dinheiro ou comida em um 7-Eleven do Centro, e tantas outras sequências que parecem povoar o cotidiano não apenas daquela cidade, mas de qualquer outra.

O início do filme, que se debruça sobre os bastidores de uma nova exposição que está sendo preparada para estrear no museu, também parece bastante “a vida como ela é”. Christian está em meio a uma série de entrevistas para falar sobre o museu e sobre o seu esforço de seguir existindo em um mundo em que a disputa por recursos é cada vez maior – e quem, hoje em dia, realmente é filantropo e generoso para doar dinheiro para a arte?

Assim, The Square já começa desmistificando um pouco a ideia romântica que muitos tem sobre o mundo da arte. De que ele é formado apenas por pessoas criativas, muito ligadas em tudo que os cerca e críticas do cotidiano. Ainda que tudo isso seja verdade, esse meio também vive em uma busca constante por dinheiro e por recursos. Colocar uma nova exposição de pé não é algo fácil ou simples, como The Square revela muito bem.

Várias pessoas são envolvidas no processo, e há uma “briga” grande por parte de cada museu para que a sua proposta seja ouvida e reverberada na imprensa – porque, assim, eles conseguem não apenas público, mas também possíveis apoiadores/patrocinadores. E aí esse filme entra em uma outra esfera que, particularmente, me pareceu especialmente interessante: em um mundo com excesso de informação e de pautas que chamam a atenção e são de interesse público, como se fazer notar com uma exposição de arte?

Francamente, a arte deveria chamar a atenção naturalmente. Pelo menos é isso que eu penso. Porque a arte, não importa em que época da nossa história, ajudou a nos contar mais sobre o que somos, sobre o que sonhamos, e ampliou as nossas fronteiras da imaginação e da compreensão. Então a arte, por si só, deveria interessar a todos – inclusive aos jornais.

Mas não. Parece que a cada dia mais pessoas estão achando a arte desinteressante – ou essa é apenas uma impressão minha? Nesse sentido, The Square joga algumas perguntas importantes no ventilador. Como, por exemplo, a quem a arte interessa? Quem se importa com a arte? Será que ela pode ser tão importante ou interessante para um mendigo quanto para uma pessoa que tem uma ótima condição de vida?

Pior que, para quem já frequentou alguns museus, sabe que arte parece ser realmente restrita a alguns perfis de pessoas. Quantos museus, por exemplo, estariam dispostos a abrir as portas para quem não pode pagar pela entrada e/ou para moradores de rua? Bem, muitos museus tem os seus dias de gratuidade. Em teoria, nesses dias, qualquer pessoa poderia entrar – inclusive alguém sem dinheiro algum. Mas você, que já foi em alguns museus, já viu em algum deles um mendigo? Eu, nunca.

Então será mesmo que os diferentes cenários artísticos – museus, galerias, cinemas, teatros, etc. – são democráticos e abertos para todos? Ou será que eles, com certa “naturalidade”, selecionam quem deve ou não frequentar os seus ambientes e a sua arte? Apesar de não ser vista por todos, a arte trata sobre todos. Todas as manifestações artísticas que vemos nesse filme – todas muito interessantes, aliás -, acabam falando sobre conceitos universais e sobre questões que competem a toda a sociedade (inclusive a marginalizada).

Uma das exposições, que mostra montes de “cinzas” e a frase “você não tem nada”, aborda a insignificância e a finitude do indivíduo – e o fato de que nada do que ele acredita ter de posses realmente seja algo. Outra intervenção artística, feita por Oleg (Terry Notary), em um jantar chique – para mim, o ponto alto da produção -, trata com bastante impacto a questão do “bicho humano” e a sociedade machista em que vivemos – na qual, muitas vezes, parte considerável dos homens parece não ter saído do tempo das cavernas.

Além destas exposições, temos aquela que movimenta a produção – além da vida pessoal do protagonista, é claro. A exposição The Square de Lola Arias, que dá nome a esse filme, trata sobre uma sociedade em que a confiança ou a desconfiança sobre os outros dita as nossas escolhas cotidianas – e, mais que isso, a nossa vida.

Em paralelo a todo o trabalho envolvendo a montagem e a divulgação dessa exposição, temos a vida real acontecendo, com o protagonista Christian tendo a sua própria tolerância e confiança/desconfiança do outro testada. (SPOILER – não leia se você não assistiu ainda ao filme). Primeiro, ao tentar ajudar uma garota desesperada, ele é enganado e roubado. E como ele reage a isso que lhe aconteceu? Esse é o ponto central da história.

Primeiro, Christian “acompanha” a trajetória do celular que foi roubado. Depois, em meio a vinho e um jantar, ele dá ouvidos para Michael (Christopher Laesso), que sugere que ele entregue uma carta ameaçadora para cada morador do prédio onde o celular dele foi parar. Até aí, o gesto dele parece ter sido inocente. Afinal, o criminoso pode ou não dar bola para a carta que ele escreveu. O problema é que nem toda cultura ou toda família funciona da mesma forma.

Então sim, Christian consegue os seus pertences de volta. Mas ele também consegue uma bela dor de cabeça com um garoto (Elijandro Edouard) ficando realmente indignado com a acusação que ele fez. Diferente de Christian, que provavelmente ignoraria uma carta daquela sendo deixada em sua porta, a família do garoto passou a desconfiar dele e a castigar. Claro que tudo isso se resolveria de uma maneira simples – se eles falassem com a vizinhança, por exemplo, facilmente eles saberiam que a acusação tinha sido generalizada.

Esse ponto do filme parece um tanto exagerado, não é mesmo? De fato ele é, um pouco. Porque vejamos a maior parte das pessoas… quem hoje em dia cumprimenta os vizinhos ou tem uma boa relação com eles? Sim, no Brasil ainda temos isso. Agora imagine um país da Europa onde os imigrantes são cada vez mais recebidos com receio e/ou indiferença… muitas pessoas realmente não se enturmam ou acabam se refugiando apenas dentro de casa – para evitar problemas maiores.

Nada fica totalmente claro em The Square, mas me parece que esse era o caso do garoto e de sua família. Parece que eles eram imigrantes – talvez até muçulmanos -, que não eram bem “inseridos” em sua comunidade e que, por isso, acabaram levando a acusação como algo tão grave.

Esse é um ponto não óbvio e importante do filme. Mostrar como hoje existem tantas pessoas marginalizadas nas nossas cidades – seja porque não tem dinheiro, seja porque vieram de outros países, atrás de uma oportunidade melhor de vida, e não falam direito o idioma ou encontram uma oportunidade de trabalho.

O problema é que nem eles se adaptam bem ao novo local, por causa do idioma e da cultura, e nem as pessoas locais conseguem perceber que a forma deles de pensar e de agir é diferente – e que todos nós, por isso mesmo, deveríamos ter mais cuidado e empatia no trato. Em resumo, mais consideração pelo ser humano, suas semelhanças e diferenças. Mas quem disse que isso é o que vemos acontecer?

Voltando para a questão da divulgação da nova exposição do museu. Esse é um ponto que me pareceu especialmente interessante. Christian, muito envolvido com as suas questões pessoais – além do resgate dos pertences roubados, a relação nova e um tanto conturbada com a jornalista Anne (Elisabeth Moss) e o retorno das filhas para casa (Lise Stephenson Engström e Lilianne Mardon) -, acaba sendo um bocado displicente com a divulgação da exposição The Square.

O resultado é que a agência de relações públicas e de marketing contratada para divulgar o evento acaba apostando na ideia maluca de dois “jovens talentos” (Daniel Hallberg e Martin Sööder) que conhecem bem a dinâmica das redes sociais e que vem com uma ideia literalmente “bombástica” para “causar” na internet. Para mim, esse é um dos pontos mais interessantes do filme.

Realmente muitas pessoas hoje em dia – vide inclusive políticos no Brasil – perdem a noção do ridículo ou do que pode ser aconselhável e se lançam com ideias malucas e/ou cretinas na internet para conseguirem a tão desejada exposição na mídia. Mas a que preço eles fazem isso? No caso do exemplo dado por The Square, os publicitários conseguiram “viralizar” o vídeo e chamar a atenção para a exposição, mas de uma forma totalmente errada.

Afinal, sim, a exposição queria chamar a atenção para a falta de cuidado e de afeto das pessoas com os outros de forma geral. Mostrar que o que deveria ser considerado básico no trato humano não acontece, muitas vezes. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Mas daí a explodir uma garotinha loira se passando como mendiga é um pouco demais, não? Afinal, estamos falando de uma era em que extremistas realmente se explodem para matar “infiéis” e na qual esses mesmos grupos utilizam crianças como “bala de canhão”… então mostrar uma criança explodindo para falar de uma exposição parece banalizar demais a violência que já acontece na vida real, não?

Mas essa ideia cretina apresentada em The Square nos ajuda a refletir sobre algo que gostaram de falar bastante por aqui também na exposição com um homem nu e uma criança: a liberdade de expressão. Hoje em dia, na era em que as “massas” antes apenas receptoras de informação podem também dar a sua opinião sobre tudo, certas ideias não passam mais pelo crivo do “tribunal da internet”.

O povo pode até consumir em massa um determinado vídeo – e, como The Square bem revela, inclusive dar dinheiro para quem fez isso e para o Google como “participante” dos lucros -, mas nem por isso ele bate palma para o que viu. No caso do vídeo infeliz dos publicitários “brilhantes” que sabem tudo sobre internet, o tiro saiu pela culatra. A mensagem foi distorcida, foi exagerada, tudo para chocar e para viralizar, e a polêmica destruiu uma exposição que tinha um princípio interessante – e, por tabela, fez o protagonista dessa história perder o emprego.

Essas questões, assim como a desigualdade de oportunidades e de tratamentos conforme a classe social ou a origem das pessoas, são temas importantes nesse filme. Só me incomodou um pouco, devo admitir, que alguns personagens foram pouco desenvolvidos – como o de Anne, interpretado por uma Elisabeth Moss quase em participação especial -, e que algumas sequências foram pensadas mais do que para nos chocar do que para fazer sentido (como aquela do protagonista empurrando o garoto pela escada).

Além disso, achei a duração desse filme realmente longa. Para o que ele tinha que nos apresentar, tranquilamente ele poderia ter duas horas de duração ou até um pouco menos – mas The Square tem 2h22min! Também acho que algumas sequências da produção ficaram um tanto deslocadas, como toda aquela sequência de Christian no apartamento de Anne (que poderia ser bem mais curta e direta) ou o encontro do garoto indignado com o “emissário” de Christian, Michael. Um pouco menos de pretensão faria bem para esse filme.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Os artistas são seres fabulosos. Eles pensam a realidade de uma forma que os “reles mortais”, tão ocupados em seus cotidianos de trabalho e demais afazeres, não são capazes de fazer. Além disso, eles tem a capacidade de ver o belo – ou o feio – de uma forma diferenciada, olhando além das aparências e sabendo provocar as audiências como poucos.

Ainda que tudo isso seja verdade, até que ponto um artista tem a liberdade para expressar a sua arte? Ele pode ter a liberdade completa, fazer o que realmente deseja sem ter que pensar em mais nada ou ninguém? Pergunto isso por causa de uma das sequências mais marcantes e fascinantes do filme, aquela em que Oleg faz a sua intervenção.

No início, achei impressionante o trabalho dele. De fato, aquela era uma alegoria sobre a nossa sociedade, na qual os que tem medo ou procuram escapar do “terror” apenas se tornam vítimas dele. Quem fica imóvel apenas para ver outro se tornar vítima, é quem sobrevive. Essa é um alegoria sobre diversos ambientes da nossa sociedade atual – inclusive o empresarial, não? E ainda que o trabalho do artista tenha sido impressionante, a sequência final dele, pegando aquela mulher pelos cabelos… realmente era necessária? Até que ponto o artista não estava extravasando a sua própria loucura? A liberdade de expressão tudo permite? Acho que não.

Acho sim que a liberdade de expressão deve ser defendida, desde que ela não afete os direitos básicos dos outros. Desde que a liberdade de expressão não fira leis e regras que foram estabelecidas pela sociedade. Não basta querer passar uma ideia. É preciso ter a responsabilidade de cuidar para que aquela ideia não provoque danos para pessoas inocentes e que não escolheram ser expostas a determinadas situações.

Entre os aspectos técnicos desse filme, gostei muito da trilha sonora, que geralmente utiliza o clássico para tornar as sequências mais “líricas”, e que tem Rasmus Thord como supervisor musical; assim como gostei da direção de fotografia de Fredrik Wenzel; da direção sempre atenta aos personagens e à cidade de Ruben Östlund; da edição de Jacob Secher Schulsinger e de Ruben Östlund; do design de produção de Josefin Asberg; e dos figurinos de Sofie Krunegard.

O grande nome desse filme é o de Claes Bang. Toda a produção está centrada no Christian que ele interpreta. Como o ator ganha uma evidência monumental nessa produção, outros nomes bem conhecidos, como Elisabeth Moss e Dominic West, aparecem em trabalhos bastante secundários. A verdade é que nenhum outro personagem, exceto o protagonista, tem o seu papel bem desenvolvido nessa produção. Esse é um dos pontos fracos do filme, aliás.

Além dos atores citados, vale destacar o trabalho de alguns outros coadjuvantes: Terry Notary rouba a cena como Oleg – sem dúvida um trabalho marcante e pelo qual esse filme ficará lembrado; Christopher Laesso está muito bem como Michael – ainda que, novamente, a exemplo dos demais, seu personagem seja pouco desenvolvido; Lise Stephenson Ergström e Lilianne Mardon estão ok como as filhas do protagonista; Marina Schiptjenko está bem como Elna, administradora do museu; Elijandro Edouard como o garoto indignado está bem, ainda que me pareceu um pouco exagerado; e Daniel Hallberg e Martin Sööder fazem muito bem os “jovens talentos” do meio de RP e publicitário – eles realmente se parecem com muitas figuras que encontramos hoje em dia em várias empresas.

The Square estreou em première no dia 20 de maio de 2017 no Festival de Cinema de Cannes. Depois, até janeiro de 2018, o filme participou de outros 37 festivais em diversos países pelo mundo. Realmente um filme com uma longa trajetória de festivais. Interessante. Nessa sua trajetória, The Square ganhou 22 prêmios e foi indicado a outros 33 – sendo uma destas indicações ao Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira.

Entre os prêmios que recebeu, destaque para a Palma de Ouro no Festival de Cinema de Cannes e para o Prêmio Vulcain para Artista Técnico dado para Josefin Asberg no mesmo evento; para os prêmios de Melhor Filme Europeu, Melhor Comédia Europeia, Melhor Diretor Europeu, Melhor Ator Europeu para Claes Bang, Melhor Roteirista Europeu e Melhor Designer de Produção Europeu para Josefin Asberg no European Film Awards; para o Goya de Melhor Filme Europeu; e para oito prêmios como Melhor Filme em Língua Estrangeira dados por diferentes associações de críticos dos Estados Unidos e do Canadá.

Agora, algumas curiosidades sobre The Square. O ator Terry Notary interpretou, nesse filme, ao “homem macaco” Oleg. O artista russo Oleg Kulik ficou famoso por, ao ser convidado para participar da exposição coletiva internacional Interpol, em Estocolmo, fazer, na abertura, uma performance como um cão. Ele correu, pulou, rolou no chão e até mordeu alguns convidados VIPs nas pernas. Kulik disse que estava representando o povo russo “intimidado”, que estava sendo atacado e que, agora, estava revidando. Os convidados da exposição ficaram indignados ao ponto de chamar a polícia. No filme, há uma cena semelhante na capacidade de chocar, mas na qual o artista se passa por macaco.

Uma das perguntas da exposição The Square é interessante: você é do tipo de pessoa que confia ou que desconfia das pessoas? O restante da exposição e da tua experiência nela é definida por isso. Na vida real, também definimos a nossa vida a partir do momento que respondemos essa pergunta. E afinal de contas, por que chegamos ao ponto de tanta gente, ao menos na prática, mais desconfiar do que confiar nos outros?

O incidente em que Christian tem o celular roubado foi baseado na própria experiência de um amigo do diretor Ruben Östlund. Ele passou por algo bastante similar.

O diretor de The Square disse que ele nunca mais quer filmar uma cena que esteja em um filme apenas para ajudar a contar a história. Ele quer reunir diversas cenas interessantes que ajudem a explicar o comportamento humano.

Em uma cena, um homem com síndrome de Tourette tira a concentração de uma repórter que estava entrevistado o artista Julian. Östlund se inspirou em uma situação semelhante que aconteceu em um teatro da Suécia. E a verdade é que uma cena assim pode acontecer em qualquer parte. Como as pessoas lidam com essas diferenças extremas? Acho que isso e o descontrole de alguns participantes do jantar em que o homem macaco ataca, ajuda a demonstrar bem qual caminho as nossas sociedades cada vez mais sem paciência estão seguindo.

The Square faturou US$ 1,4 milhão nos Estados Unidos. Não é um sucesso, para os padrões americanos, mas é um resultado melhor que o de Una Mujer Fantástica – que praticamente não foi visto no país do Tio Sam. Olhando por isso e pelos prêmios que conquistou em votações de críticos americanos, The Square parece levar vantagem na disputa pela estatueta dourada.

Esse filme é uma coprodução da Suécia, da Alemanha, da França e da Dinamarca.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,6 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 112 críticas positivas e 25 negativas para o filme, o que lhe garante um aprovação de 82% e uma nota média de 7,3.

O diretor Ruben Östlund é realmente ousado. Prestes a completar 44 anos de idade em abril, esse sueco da cidade Styrsö tem 12 títulos no currículo como diretor, sendo seis deles curtas, um documentário e cinco longas. De sua filmografia, lembro de ter assistido a apenas um filme antes: De Ofrivilliga. Um filme bastante diferenciado e até mais controverso que esse The Square. A crítica sobre De Ofrivilliga vocês encontram por aqui. Realmente Östlund parece ser um sujeito que faz cinema para surpreender.

CONCLUSÃO: Um filme que trata dos bastidores de um museu de arte tinha tudo para ser chato, não é mesmo? Ou, talvez, “intelectual” demais para os padrões do grande público. E ainda que seja verdade que The Square é longo demais – facilmente ele poderia ter meia hora ou pouco mais de “corte” -, ele não se mostra enfadonho. Isso porque ainda que ele trate de arte e do valor que ela tem nos dias de hoje, assim como para quem ela é dirigida, esse filme trata de outros assuntos muito atuais, como a desigualdade de oportunidades, a marginalização social e os efeitos daninhos da busca por “causar” na internet – especialmente quando você é uma entidade com responsabilidades.

Para mim, aliás, essa parte sobre a noção do que é público e do que é privado e a questão do “tribunal” da opinião pública propiciado pela internet são alguns dos aspectos mais interessantes desse filme. Assim como a reflexão que uma pessoa ser bem educada, ter ótima posição social e tudo o mais não lhe torna realmente mais consciente sobre o mundo que ela não conhece. Um filme interessante e instigante. Só uma pena que ele seja longo demais e que peque um pouco por deixar alguns personagens um tanto “perdidos” na história e por se esforçar tanto em nos “chocar”/surpreender em algumas sequências. Mas, no geral, The Square é um bom filme.

PALPITES PARA O OSCAR 2018: The Square é um forte candidato à estatueta dourada nesse ano. Especialmente sem o filme In the Fade, de Fatih Akin, na disputa. Segundo as bolsas de apostas do Oscar, ele é o segundo filme mais cotado nesse ano – ele fica atrás apenas de Una Mujer Fantástica (comentado aqui).

Difícil saber o que os votantes da Academia vão decidir. Mas eu, se tivesse que votar, certamente escolheria Una Mujer Fantástica. Primeiro, porque acho o filme mais impactante e comovente. Ambos tem boas sacadas, é verdade, mas acho que o filme chileno tem um desenvolvimento mais satisfatório da história e dos personagens.

A produção também me agradou mais, me pareceu mais “humana” e com uma mensagem mais significativa que The Square. Mas, volto a dizer, esta é uma questão de gosto pessoal. Olhando tecnicamente para as duas produções, ambas tem muitos méritos, bons atores e um roteiros que tocam em temas contemporâneos. Então teremos que ver, mais que nada, qual é o gosto da Academia para premiar um ou outro – ou, quem sabe, o russo Loveless (com crítica neste link). Me parece que esses três são, realmente, os títulos que estão na disputa.

Anúncios

The Square – Al Midan

thesquare1

A Primavera Árabe acendeu a chama das lutas populares em busca de mais justiça e igualdade social mundo afora. Abalou, inclusive, a crença dos que sempre defenderam a ideia de que os árabes nunca buscariam pela democracia. The Square aparece para contar a história e os bastidores de uma das revoluções que fez parte da Primavera Árabe: o movimento que tomou a Praça Tahrir e que derrubou o governo do Egito. Como essa revolução ainda não deu certo, três anos depois dos fatos iniciais, este filme serve de fonte para uma importante reflexão sobre esse tipo de mobilização social.

A HISTÓRIA: Barulhos na cidade, até que as luzes se apagam. Em um grupo de jovens, um deles pergunta o que aconteceu. O outro diz que a luz acabou, e que isso é normal. Um deles, Ahmed Hassan, brinca que a energia elétrica acabou no mundo inteiro – ou, ao menos, no Egito, onde se passa esta história. Outro diz que o menor dos problemas deles é a falta de luz. Hassan diz que todas as pessoas pedem para “o cara”, responsável pela luz, voltar a ligá-la. E esse cara é o “sistema”. Corta.

O primeiro depoimento é de Ahmed. Ele diz que vai contar a história toda, começando pela declaração que o Egito vivia sem dignidade, sob o comando de Mubarak, um ditador que havia subjugado a todos por 30 anos com leis de emergência. Ahmed vê a vídeos no Youtube e publicações no Facebook de gente torturada e de muitos que não aguentam mais injustiças. Em breve vamos acompanhar a ocupação na Praça Tahrir e o que mais seguiu aqueles dias de revolução.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Square): Os primeiros minutos de The Square não me animaram muito a ver o filme. Isso porque eu vinha de um dia de cansaço, era noite, e o desejo de ver algo mais “ligeiro” prevaleceu. No dia seguinte, contudo, me lancei novamente na empreitada, e desta vez pude aproveitar ao máximo esta produção.

O tema do Egito me interessa. Não apenas porque o Brasil viveu aquelas fortes manifestações pedindo mudanças no ano passado, mas porque o meu segundo país, a Espanha, também passou por situações de “ênfase popular” em 2011 – coincidentemente, o mesmo ano em que o Egito convulsionou com as manifestações que são vistas em The Square.

E este tema da insatisfação popular parece longe de acabar. Afinal, sabemos que o sistema predominante do capitalismo não encontrou rival, mas que os seus desdobramentos provocam desigualdades cada vez mais difíceis de “engolir” e de fazer o povo aceitar. Conforme as pessoas vão tendo acesso à informação e a melhores condições de vida, é natural que se espere que outros temas ganhem importância, como a igualdade de oportunidades, a justiça, a abertura para outras culturas, o combate à corrupção, entre tantos outros fatores que mobilizaram as pessoas no Egito e em tantos outros países.

The Square começa mostrando gente comum, em um grupo encabeçado por Ahmed Hassan – que será uma espécie de protagonista da história, ainda que o principal aqui não seja uma pessoa, mas o movimento revolucionário. O assunto movimenta diversas gerações há muito tempo. Afinal, quem nunca pensou no “poder do povo”, em uma democracia plena e eficaz? Sonhos de juventude? Sem dúvida, os jovens são os românticos incuráveis e cheios de sonhos. Mas acredito que este também seja o sonho de cada vez mais “adultos”.

Mas voltando ao filme… nos primeiros minutos, assistimos a uma conversa um tanto “sem sentido” entre Hassan e seus amigos. A verdade, contudo, está nas entrelinhas. Naquela conversa um tanto irônica sobre a falta de energia e sobre as pessoas pedindo para o “cara”, que seria o governo, voltar a ligar o sistema, está parte do problema e da solução que perpassa toda esta história.

Vejamos. Não fica claro se aquele apagão é posterior ou anterior à revolução. Mas tudo nos leva a crer que posterior. Se assim for, o governo está agindo para prejudicar o “povo traidor”, cortando a energia para dificultar as reuniões entre os “traidores” ou mesmo punir quem possa estar se articulando contra o governo.

Ao mesmo tempo, o pedido das pessoas nas ruas, mesmo que seja uma piada na fala de Hassan, demonstra não apenas a expectativa das pessoas para que o governo resolva tudo – o que denota uma administração centralizadora -, mas também a consciência destas mesmas pessoas de que o problema não é a vontade de Alá ou de Deus, mas a responsabilidade dos administradores públicos que não tratam as pessoas como elas deveriam ser tratadas.

E este é um começo muito interessante para esta produção dirigida pela egípcia Jehane Noujaim e que se transveste da difícil tarefa de contar a revolução pela ótica dos manifestantes. A filmagem está sempre ao lado das pessoas comuns, daquela gente que começou a ocupar a Praça Tahrir pedindo mudanças e que conseguiu festejar a queda do ditador Hosni Mubarak no dia 11 de fevereiro de 2011 – ou seja, estamos a prestes a celebrar três anos daquele fato histórico.

Depois daqueles minutos iniciais de conversa alegórica sobre a falta de energia – e o papel do Estado no Egito -, The Square mostra a que veio. Primeiro, focando em Hassan, que faz as vezes do primeiro narrador da história. Ele fala sobre o sentimento dos egípcios que foram para as ruas naquele começo de 2011.

E através dele também chegamos a outros nomes importantes da produção e que ajudam a contar esta história: Khalid Abdalla, ator de família egípcia que nasceu na Escócia e que ficou conhecido pelo papel de Amir no filme The Kite Runner, mas que resolveu voltar para o país dos antepassados para viver o momento histórico da revolução popular; Magdy Ashour, integrante da Irmandade Muçulmana, mas um sujeito que não segue ordens sem pensar a respeito; Aida Elkashef, uma das poucas mulheres que emitem opinião no filme, mas que tem pelo menos um momento importante na história – e que atua como atriz e diretora no Egito; e Ramy Essam, que ficou conhecido como “o cantor da revolução”.

Todas estas pessoas se conheceram na ocupação da Praça Tahrir que ganhou espaço nos noticiários pelo mundo e que provocaram o enfraquecimento e a queda de Mubarak do poder. São eles que, volta e meia, vão contribuir com as suas opiniões sobre os fatos que vão se desenrolando na nossa frente.

Ao ler as notícias mais recentes sobre o Egito, para mim sempre foi difícil entender porque o presidente eleito Mohammed Mursi havia sido deposto do governo pelo Exército. Afinal, a escolha dele foi realmente popular? Ele caiu porque foi corrupto e não deu conta do recado ou porque o Egito deve viver em uma ditadura – desta vez militar?

The Square ajuda não apenas a explicar como o movimento no Egito cresceu, como a forma com que ele também se desvirtuou e virou outra coisa – um risco constante em movimentos populares que, depois, acabam sendo utilizados por quem quer assumir o poder para, na sequência, esquecer as demandas populares. Mas no Egito as pessoas não aceitaram.

Depois da queda de Mubarak, o povo ficou sem opções interessantes para votar. A Irmandade Muçulmana soube jogar as cartas com o Exército e mexer os pauzinhos para ter vitória no Parlamento e na Presidência. Mas sem uma nova Constituição, como diversas figuras neste filme gostam de comentar, o sistema egípcio de fato não iria mudar. E é aí que a pressão popular, já descambando para um tipo de guerra civil – entre os muçulmanos que queriam a Irmandade no poder e os não-muçulmanos que desejavam que ela caísse -, consegue provocar outra mudança.

O filme evolui bem entre os fatos históricos mantendo sempre a postura de contar o que aconteceu sob a ótica das pessoas que estiveram envolvidas com a revolução desde o início. Elas, melhor que outros que chegaram depois, poderiam refletir sobre as motivações originais e sobre as mudanças de rota que foram ocorrendo posteriormente.

Algumas questões levantadas por The Square são muito pertinentes, e não apenas para o Egito. Uma das mais importantes é a seguinte: como mudar a realidade de uma país depois que é feita a derrubada de um regime? Isso ocorreu no Brasil, com o impeachment de Fernando Collor, mas para a nossa sorte (tendo o Sarney como vice-presidente podemos chamar de sorte?), vivíamos em um sistema democrático. Caiu o presidente, mas assumiu o vice e não tivemos nenhum golpe ou nova ruptura da “ordem”.

Agora, como um país muda o rumo se ele quer a troca de regime de governo? No caso do Egito, as pessoas não aguentavam mais a ditadura de Mubarak e queriam votar. E daí surge um problema importante no horizonte: quais são as alternativas para a realidade que está posta? No caso do Egito, e de tantos outros países – o nosso incluído? – a alternativa se parece bastante com o que manda no sistema. Ou seja, no fundo, a troca de rota é impossível na prática.

Assistindo a The Square esta informação ficou mais clara, porque o espectador entende o que as pessoas nas ruas queriam. Ou, pelo menos, e devemos ser ponderados aqui, parte das pessoas que foram para até a Praça Tahrir desejavam – afinal, bem sabemos, não existe unanimidade em movimentos tão extensos. Além da falta de alternativa para a mudança, este documentário roça em um tema que eu acho fundamental neste debate: quem está indignado consegue concretizar uma alternativa que seja viável àquilo que não está dando certo?

Em determinado ponto, Hassan defende que o importante não é ter um líder para fazer as mudanças necessárias, e sim criar uma consciência social, um tipo de “unidade de mentes” voltada para o bem comum. A ideia é interessante, poética, roça a utopia. Sem dúvida é preferível um “povo consciente” do que um “salvador da Pátria”. Mas também é fundamental colocar as boas intenções em prática, ou não?

Voltando para o caso do 15M que movimentou a Espanha em 2011. Os indignados foram para as ruas e sacudiram o país mas, ano passado, quando estive por Madrid, percebi o quanto as pessoas estão frustradas por, apesar de todo aquele sonho e ânimo, nada ter mudado na prática. Toda aquela mobilização popular não provocou nenhuma mudança de cenário. E isso é frustrante.

No caso do Brasil, várias autoridades correram para dar “respostas às ruas”. Certo, alguma coisa até mudou – como a queda dos votos secretos na Câmara e no Senado. Mas no fundo, as principais reivindicações das “vozes das ruas” foram atendidas? Acabou a corrupção no país? O desperdício de dinheiro público com obras – ou outras justificativas – deixou de ser praticado? Estamos mais sérios? Não sei se sou apenas eu, mas acho que nada mudou.

Por tudo isso, The Square acaba sendo um filme vital. Não apenas por fazer um importante registro histórico de um fato marcante, mas principalmente por evidenciar o vazio prático que surge após uma efervescência de tomada de ruas com um grande balaio de demandas sociais.

Quase dá para sentir a energia positiva e cheia de esperança dos egípcios que buscaram uma realidade melhor e que são retratados em The Square. Mas é com tristeza que lembramos, em seguida, que nada daquilo resultou em algo bom – pelo menos, até agora. Muitas mortes ocorreram desde então, o que é mais triste, de pessoas do povo vitimadas por outras pessoas do povo – um efeito colateral quando uma tendência extremista, como normalmente são as correntes religiosas, toma o poder.

A solução para o dilema de como tornar uma demanda filosófica coletiva em ações práticas não é respondida por The Square. Como manda a regra de muitos documentários de qualidade, o mais importante neste filme é mostrar o que aconteceu (ou parte disto) e lançar perguntas para o espectador. A partir daí, é nosso trabalho refletir, compreender o passado e fazer diferente quando tivermos oportunidade, conquistando uma efetividade maior. Sem tantas perdas.

NOTA: 9,7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Apenas os primeiros minutos de The Square podem parecer lentos demais. Na sequência, a partir do depoimento de Ahmed Hassan, a história ganha em interesse e velocidade. A diretora Jehane Noujaim dedicou mais de dois anos de sua vida para registrar as imagens que vemos neste filme. Um registro fundamental e digno de um Oscar e outros prêmios sobre um dos movimentos mais importantes da Primavera Árabe.

Por falar neste movimento, vale relembrar a extensão dele neste texto do Estadão. Segundo o artigo, publicado um ano após o início da Primavera Árabe, tudo começou em dezembro de 2010, quando um jovem “tunisiano, desempregado, ateou fogo ao próprio corpo como manifestação contra as condições de vida” na Tunísia. Depois, os protestos se espalharam não apenas pela Tunísia, mas também no Egito, Líbia e Iêmen, entre outros.

Voltando para o presente, vale dar uma olhada nesta e nesta matéria. No caso da primeira, o texto informa que o líder militar egípcio Abdel Fatah al-Sisi deve se candidatar a presidente na próxima eleição do Egito, prevista para acontecer nos próximos seis meses. E na segunda, um apanhado da realidade atual do Egito: a demanda popular pela eleição de um militar para o governo ao mesmo tempo que a Irmandade Muçulmana resiste à queda do poder e provoca confrontos que terminam em mortes no país.

The Square foi lançado no Festival de Sundance em janeiro de 2013. Depois, o filme participou ainda de outros cinco festivais. Nesta trajetória, o filme ganhou nove prêmios e foi indicado a outros seis, incluindo uma indicação ao Oscar de Melhor Documentário. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o de Melhor Documentário no Festival Internacional de Cinema de Dubai; Melhor Filme entregue pela Associação Internacional de Documentários; Melhor Documentário – World Cinema no Festival de Sundance; e Melhor Documentário no Festival Internacional de Cinema de Toronto.

Da parte técnica do filme, além da ótima direção de Jehane Noujaim, destaco o excelente trabalho de edição feito pelo grupo de oito profissionais envolvidos no projeto – entre eles, o carioca Pedro Kos. O filme também se destaca pela qualidade das imagens, muito bem filmadas e nítidas, mérito dos diretores de fotografia Muhammad Hamdy, Ahmed Hassan, Jehane Noujaim e Cressida Trew.

O filme funciona bem ao mergulhar na história de um par de “personagens”. Ainda assim, senti falta da produção mostrar mais depoimentos das pessoas comuns que participaram das diferentes manifestações egípcias. Por outro lado, foi importante o filme dar espaço para as autoridades do Exército e da Irmandade Muçulmana falarem – diferente de outros documentaristas, que não conseguem este feito, Noujaim e equipe conseguiram alguns depoimentos relativamente curtos mas que dão a informação que o espectador precisava sobre a postura do “sistema”.

O que impediu este filme de receber a nota máxima na minha avaliação foi o argumento anterior, da falta de mais vozes no filme, e também porque achei que The Square perde um pouco a mão quando coloca alguns depoimentos de Hassan, especialmente o primeiro. Desta forma, o filme dá a impressão que ele é um tipo de líder da revolução… no fundo, ele era uma das vozes que discursava na Praça Tahrir, mas como ele, vários outros poderiam ser focados. Acho que ele ganha muita evidência, em detrimento de vermos a outras lideranças ou vozes da revolução. Também senti falta de saber o que as pessoas que aparecem tanto neste filme fazem na vida real – só sabemos que Abdalla é um ator famoso e que Ashour é da Irmandade Muçulmana e foi torturado durante a ditadura de Mubarak. E os demais?

Esta produção coloca o Netflix mais uma vez em evidência. Aliás, este serviço de streaming de vídeo merece os aplausos que tem recebido. Além de lançar The Square, ele foi responsável pela elogiada House of Cards e por outros títulos como Lilyhammer e Hemlock Grove. Bacana ter uma alternativa de investimento em produções que não passe pelos grandes estúdios e canais tradicionais de TV.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,3 para The Square. Uma avaliação muito boa considerando o padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 52 textos positivos para a produção – o que garante uma inédita aprovação de 100% e uma nota média de 8,3 (também um empate com a avaliação de quem vota no IMDb inédito).

CONCLUSÃO: Tenho acompanhado com interesse a situação dos egípcios desde que eles revolucionaram o país. E lamento muito que a situação por lá esteja tão complicada. Apesar de ler o noticiário, até agora eu não tinha entendido muito bem o que tinha dado errado. Por isso mesmo, foi com satisfação que assisti a The Square. O documentário cumpre bem o seu papel de mostrar o movimento pela ótica de alguns dos personagens que participaram da revolução desde o início. Fora os minutos iniciais, o filme tem um bom ritmo e algumas argumentações fundamentais sobre movimentos populares como o retratado na telona. Vale muito ser visto. Para mim, o documentário vital deste ano.

PALPITES PARA O OSCAR 2014: Fiquei surpresa que dois documentários premiados e excelentes ficaram de fora da disputa deste ano. Como comentei por aqui, eu esperava que Stories We Tell (com crítica por aqui) e Blackfish (comentado aqui) chegassem a figurar entre os cinco indicados. Mas como estas produções ficaram de fora, retomei a função de assistir aos filmes que chegaram até a aguardada lista final.

The Square é apenas o segundo filme dos cinco que eu assisti. Ainda falta os outros… mas já posso falar sobre ele e compará-lo com The Act of Killing (comentado aqui). Sei que o filme dirigido por Joshua Oppenheimer e Christine Cynn está bem cotado e, para muitos, é o favorito à estatueta. Mas ainda que ele seja diferenciado e criativo, preferi o “papai-e-mamãe” apresentado por The Square.

Entre outros fatores, porque acho o tema da produção dirigida por Jehane Noujaim muito atual e necessário. Sem contar que não foi fácil produzir este filme, com cenas tão marcantes e históricas. Neste caso, prefiro a importância do registro do que a inovação do argumento. Na comparação entre os dois filmes, fico com The Square.

Acho também que o filme tem chances de levar a estatueta nesta categoria que é sempre um tiro no escuro para acertar em que sairá como vencedor. Logo saberemos… e agora, vamos partir para as outras produções indicadas, porque a seleção feita no Oscar sempre vale o esforço. 🙂